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quarta-feira, 28 de março de 2018

Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?

       A liturgia da Palavra para esta quarta-feira da SEMANA MAIOR apresenta-nos mais um texto do profeta Isaías, na primeira leitura, e do Evangelho de São Mateus. Um e outro nos falam da entrega do justo. Os cristãos, como o próprio Jesus, veem nesta passagem profética um relato antecipado do que irá acontecer com o Messias, que para nós é Jesus Cristo. No evangelho de São Mateus, a figura em discussão é Judas, que procura forma de entregar Jesus.
Vejamos o texto de Isaías:
O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido. O meu advogado está perto de mim. Pretende alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me? (Is 50, 4-9a).
       Isaías não esconde as dificuldades que tem de atravessar para se manter fiel à verdade, mas na certeza e confiança que Deus permanece com ele. E se Deus está por ele, quem poderá estar contra?
       A confiança que anima Isaías, será a mesma que guia Jesus até às últimas horas de vida.
Um dos Doze, chamado Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes: «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. A partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar. No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» Ele respondeu: «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’». Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado e prepararam a Páscoa. Ao cair da tarde, sentou-Se à mesa com os Doze. Enquanto comiam, declarou: «Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós Me entregará». Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar Lhe: «Serei eu, Senhor?» Jesus respondeu: «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que vai entregar-Me. O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido». Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou: «Serei eu, Mestre?» Respondeu Jesus: «Tu o disseste» (Mt 26, 14-25).
       Mateus mostra, como nos demais evangelhos, a tristeza profunda de Jesus, pela aproximação das horas finais, mas também por saber que não pode contar com os seus. A primeira igreja, dos apóstolos e algumas mulheres, ficarão a dormir enquanto o Mestre reza.

terça-feira, 27 de março de 2018

Em verdade vos digo: um de vós Me entregará

       O Evangelho desta terça-feira da SEMANA MAIOR da nossa fé, fixa-nos nas últimas horas de Jesus. À mesa com os seus discípulos, Jesus deixa transparecer o que Lhe vai na alma. Já não falta muito, a perturbação é evidente. A consciência de que os seus próprios discípulos, os seus amigos, não terão força para O acompanharem, mais o deixa intranquilo, nem Judas, nem Pedro, nem os seus mais íntimos...
Estando Jesus à mesa com os discípulos, sentiu-Se intimamente perturbado e declarou: «Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós Me entregará». Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem de quem falava. Um dos discípulos, o predilecto de Jesus, estava à mesa, mesmo a seu lado. Simão Pedro fez-lhe sinal e disse: «Pergunta-Lhe a quem Se refere». Ele inclinou-Se sobre o peito de Jesus e perguntou Lhe: «Quem é, Senhor?» Jesus respondeu: «É aquele a quem vou dar este bocado de pão molhado». E, molhando o pão, deu-o a Judas Iscariotes, filho de Simão. Naquele momento, depois de engolir o pão, Satanás entrou nele. Disse- lhe Jesus: «O que tens a fazer, fá-lo depressa». Mas nenhum dos que estavam à mesa compreendeu porque lhe disse tal coisa. Como Judas era quem tinha a bolsa comum, alguns pensavam que Jesus lhe tinha dito: «Vai comprar o que precisamos para a festa»; ou então, que desse alguma esmola aos pobres. Judas recebeu o bocado de pão e saiu imediatamente. Era noite. Depois de ele sair, Jesus disse: «Agora foi glorificado o Filho do homem e Deus foi glorificado n’Ele. Se Deus foi glorificado n’Ele, também Deus O glorificará em Si mesmo e glorificá l’O-á sem demora. Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. Haveis de procurar-Me e, assim como disse aos judeus, também agora vos digo: não podeis ir para onde Eu vou». Perguntou-Lhe Simão Pedro: «Para onde vais, Senhor?». Jesus respondeu: «Para onde Eu vou, não podes tu seguir-Me por agora; seguir-Me-ás depois». Disse-Lhe Pedro: «Senhor, por que motivo não posso seguir-Te agora? Eu darei a vida por Ti». Disse-Lhe Jesus: «Darás a vida por Mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo, sem que Me tenhas negado três vezes» (Jo 13, 21-33.36-38).
       Mesmo no evangelho de são João, que centra em Judas todas as reações negativas, vê-se que Judas é um homem respeitável. Diga-se que nos outros evangelhos há intervenções que são atribuídas a todos os discípulos, como por exemplo a contestação acerca do desperdício do perfume de alto preço com que Maria (uma mulher) da Betânia unge os pés de Jesus, atribuída aos discípulos e no quarto evangelho a Judas. Já que foi o traidor, não há como colocar nele todas as intervenções negativas, gestos, palavras e intenções. Mas vê-se que aquilo que parece claro, não o é tanto assim. Nenhum dos discípulos desconfia de Judas, é um homem de confiança. Todos confiam nele. Jesus confia nele. Os discípulos não estranham a proximidade a Jesus, pois ele deveria ser dos mais íntimos. Se os discípulos suspeitassem de algo, não o deixariam sair com aquela facilidade. Nem pensar. Pedro de imediato impediria que isso acontecesse, pese embora a sua titubeância, mas entre os companheiros o seu ânimo é maior.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

IGNACIO LARRAÑAGA - O POBRE DE NAZARÉ

IGNACIO LARRAÑAGA (2013). O Pobre de Nazaré. O que precisamos de saber sobre Jesus. 4.ª edição. Prior Velho: Paulinas Editora. 400 páginas.
       Durante 3 anos, Jesus espalhou magia por aldeias e cidades da Galileia, fez-Se docilidade, agiu compassivamente, desafiou os grandes deste mundo, mas também os excluídos, aqueles para descobrirem a grandeza e a alegria do serviço, este para se sentirem filhos queridos de Deus, com dons que os tornariam importantes. As lideranças judaicas viram-se acossadas não apenas pelas palavras de Jesus mas sobretudo pela Sua postura. Por inveja e ciúme, porque Ele atraía multidões; por medo e cobardia, porque se sentiram ameaçados no seus postos de conforto e privilégio. Foi entregue por um dos discípulos mais próximos, Judas, preso, violentamente agredido, escarnecido, obrigado a carregar a trave da cruz, para nela ser crucificado, andou de Anás para Caifás, ridicularizado, injuriado, acusado de blasfémia e por instigar a revolução, é morto como uma assassino.
       Entretanto algo de extraordinário deverá ter acontecido, três dias depois de morto apresenta-Se vivo aos Seus discípulos, às mulheres que andavam com o grupo. Os discípulos deixam de se guiar pelo medo, para se guiarem por uma vontade indómita de anunciar Jesus, de mostrar que Ele está vivo, que morreu e ressuscitou, que o Pai não O deixou para sempre no túmulo do esquecimento, para o resgatou para uma vida nova, gloriosa, definitiva, para a qual também somos atraídos.
       A pregação "convincente" e coerente dos Apóstolos geram novos discípulos, à dezenas, às centenas, nem sempre fáceis de gerir, pois trazem interesses e motivações diversas, como ao tempo de Jesus os discípulos e as multidões que O seguiam. Formam-se grupos, comunidades, onde se escutam os Apóstolos, recordando palavras de Jesus, feitos, milagres, gestos, encontros, onde se procura manter viva a recordação de tudo quanto diz respeito a Jesus. Os Evangelhos são uma resposta a esta inquietação de preservar tudo quanto diz respeito a Jesus. Os evangelistas recolhem testemunhos, algumas orações, ou pequenos textos e colocam por escrito. Os Evangelhos, podemos dizer com segurança, são escritos pela comunidade, mais do que por um escritor individual, pois resultam da vivência da mensagem de Jesus numa determinada comunidade, num determinado contexto. Os evangelhos escritos contém as preocupações da comunidade, as suas dificuldades, os seus pontos fortes. Também aqui se pode dizer que não há comunidade sem Evangelho, a Boa Nova de Jesus, mas o Evangelho chega até nós pelo filtro e pela vivência de comunidades concretas.
       A formação dos Evangelhos tem então esta sequência, Jesus é morto e é ressuscitado pelo Pai. Os discípulos anunciam'O vivo, atraem outras a seguir Jesus, formam-se comunidades, onde se recorda tudo o que aconteceu sobretudo naqueles três anos de vida pública de Jesus. Surge a necessidade de colocar por escrito, para que não se percam as Suas palavras e não se corram o risco do esquecimento, pois também um dia os Apóstolos hão de morrer e então já não há como confrontar o que corresponde à mensagem de Jesus e o que não corresponde.
       São quatro as versões do Evangelho, mas ainda assim há muitas "lacunas" na biografia de Jesus, até porque os evangelhos não têm a preocupação de fazer biografias, mas de mostrar o essencial da mensagem de Jesus, concentrados sobretudo no mistério da morte e da ressurreição de Jesus.
       Ao longo do tempo, mas sobretudo a partir do século XVIII houve a preocupação de escrever e publicar a Vida de Jesus, onde se limassem todas as lacunas temporais, reconstituindo a vida de Jesus, tentando fazer concordar os 4 evangelhos, entrelaçando-os. Algumas vidas de Jesus desviam-se dos Evangelho e criam biografias alternativas, baseadas nos evangelhos apócrifos ou em algumas insinuações ou lendas criadas com o decorrer do tempo.
       Hoje o que há mais, e vende muito bem, são biografias alternativas à vida de Jesus.
       Ignacio Larrañaga apresenta de forma brilhante, escorreita, uma narrativa possível da vida de Jesus, tendo como base próxima os 4 evangelhos e os outros escritos neotestamentários, procurando lançar pontes com a história, com descobertas arqueológicas, com outras ciências que nos aproximam dos nossos antepassados.
       É uma escrita fácil de ler, quase se escuta a sua leitura, envolve-nos nos evangelhos, no olhar, nas palavras, nos gestos de Jesus, inclui-nos nas Palavra que também nos dirige a nós, podemos rever-nos nas perguntas que Lhe fazem ou nas respostas que lhes (nos) dá e nos desafios que lhes (nos) lança.
São 400 páginas que parecem 10, tão motivadora e empolgante é a leitura. É uma linguagem acessível para todos.
       Uma nota mais pessoal, mas que tem ganhado terreno: Judas não trai Jesus por dinheiro ou por ânsia de poder (num sentido mais pessoal), mas por zelo, querendo que Jesus Se resolva e apresse o Reino de Deus, eliminando rapidamente todos os corruptores, derrubando as autoridades estrangeiras e restabelecendo a realeza judaica. Judas acredita em Jesus e sabem que Ele vem de Deus e pode fazer mais do que aquilo que estará disposto a mostrar. Quando Jesus anuncia aos Seus discípulos que vai ser morto - contrário do que seria expectável por todos - Judas coloca-se em ação para O obrigar a agir. Judas é um dos discípulos mais próximos de Jesus. A cumplicidade de Judas com Jesus não espanta nenhum dos outros apóstolos, é natural, são bons amigos. O facto de Judas se enforcar denota o seu arrependimento, isto é, se ele fosse traidor (por dinheiro ou para usurpar o poder da liderança), então dar-se-ia por satisfeito. Segundo o autor, Judas é maníaco depressivo. Mais que traição uma tática para obrigar Jesus a ser Deus. Porém, Jesus assume o caminho da pobreza, é o Pobre de Nazaré, aprende a obediência, até à morte e morte de Cruz. Serviço, delicadeza, oferecimento da própria vida, despojamento, amor...

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos

     Jesus provoca reações diferentes nos seus conterrâneo e contemporâneos. Para os que se sentem ameaçados no seu poder, sobretudo para esses, Jesus é um obstáculo que têm de derrubar, denegrir, calar. Para muitos outros, à procura de palavras de conforto, de esperança, à procura de viverem melhor, com mais coragem, Jesus é uma resposta vital. Cada vez mais acreditam n'Ele.
       A seis dias da Páscoa, Jesus opera um dos seus mais extraordinários prodígios, a ressurreição de Lázaro, antecipando a Sua ressurreição, ou melhor, mostrando que o poder de Deus é maior que a própria morte, o AMOR vence, por fim.
Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-Lhe lá um jantar: Marta andava a servir e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus. Então Maria tomou uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos; e a casa encheu-se com o perfume do bálsamo. Disse então Judas Iscariotes, um dos discípulos, aquele que havia de entregar Jesus: «Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários, para dar aos pobres?» Disse isto, não porque se importava com os pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa comum, tirava o que nela se lançava. Jesus respondeu-lhe: «Deixa-a em paz: ela tinha guardado o perfume para o dia da minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco; mas a Mim, nem sempre Me tereis». Soube então grande número de judeus que Jesus Se encontrava ali e vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Entretanto, os príncipes dos sacerdotes resolveram matar também Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus (Jo 12, 1-11).
       Salienta-se no texto outro dado que nos deve ajudar a refletir, quando não nos queremos comprometer, ou quando não queremos reconhecer o bem que vem do outro, o caminho mais fácil poderá ser o da zombaria, escarnecemos do outro. O gesto de Maria de Betânia é louvável e revela uma extraordinária atenção para com o Mestre que deveria enternecer os discípulos e os presentes. No entanto, há quem veja nisso um desperdício, desculpando-se com o gasto que poderia ser usado a bem dos pobres. Nos nossos dias isso continua a acontecer. Quando alguém tem um gesto de extraordinária generosidade, a tentação primeira é dizer que podia ter sido utilizado nos pobres. Há o reverso da medalha. Quem ajuda, quase sempre tem para beneficiar outros mais indigentes, quem não ajuda, sempre enche a boca com os pobres, para que os outros ajudem, não para que o próprio faça alguma coisa.
       Curiosidade: seja em Portugal, seja no mundo inteiro, a Igreja Católica é das instituições que mais ajuda as pessoas carenciadas: hospitais, escolas, creches, misericórdias, gaiatos, vicentinos, cáritas (internacional, nacionais e diocesanas), apoio a mães adolescentes e a mãe solteiras, centro de acolhimento de pessoas com deficiência profunda, instituições ligadas à Igreja de apoio a pessoas com SIDA e toxicodependência... no entanto, o que sobrevém é a riqueza patrimonial da Igreja... Diga-se, no entanto, que muita desta riqueza, museus, igrejas, é património também da humanidade... Por outro lado, quem ajuda precisa de meios para ajudar... se vender e dispensar os meios ajuda momentaneamente... e depois?
       Saliente-se também, a animosidade, justificável, do quarto evangelho em relação a Judas. Nos demais evangelhos diz-se claramente que alguns discípulos fizeram o reparo, e não que foi Judas. Como acontecerá também na entrega de Jesus, só no evangelho de João se diz que foi por 30 dinheiros, nos outros apenas que Judas O entregou e que os sumos-sacerdotes prometeram compensá-lo com dinheiro. Fica o reparo. De uma pessoa próxima e com quem nos damos bem, desculpamos todas as falhas ou pelo menos tentamos justificá-las; quando é alguém de quem não gostamos tanto, tudo serve para atacar, e o que acontece vemo-lo como instigação ou provocação de quem não podemos ver...

quarta-feira, 15 de abril de 2015

JUDAS - o verdadeiro discípulo amado?!


       Com os dados dos Evangelhos, mas também com a experiência humana, é uma possibilidade bem real que Judas tenha sido um dos discípulos mais próximos de Jesus. O próprio nome de Jesus e de Judas são muito similares. Judas poderá remeter para Judá, filho de Jacob, e tribo de Israel com o mesmo nome. Na história de José do Egipto, Judá intervém para que o irmão não seja morto. 
       Judas é alguém de confiança dentro do grupo, mas que tropeça na noite e se precipita na entrega do Seu Mestre.
       O drama de Judas não está apenas no trair da confiança, mas na consequente culpabilização. Não supera o sentimento de culpa, ainda que se vislumbre o seu arrependimento – entreguei um homem inocente. A noite é mais forte, as trevas paralisam-no, não deixam penetrar a luz de Jesus Cristo.
       Segundo Augusto Cury, o célebre psiquiatra brasileiro, se houvesse um departamento de recursos humanos na escolha dos discípulos é possível que só Judas fosse escolhido. É um homem culto, dotado, capaz de organizar a atividade missionária de Jesus. Afinal é ele quem administra os dinheiros. Em contrapartida, os demais apóstolos são pessoas do mais normal que se pode encontrar. 
       Tal como Jesus, ou José de Arimateia, Judas é judeu, da Judeia (os outros apóstolos são galileus, da região da Galileia, ainda que a religião seja a mesma). Sublinhe-se, porém, que Jesus é identificado com Nazaré, cidade da Galileia.
       Tem responsabilidade de cuidar do dinheiro e de preparar logisticamente a pregação e o avanço de Jesus. Nenhum dos outros suspeitou de Judas, só depois de trair Jesus é que leva com as culpas todas. O beijo dado por Judas a Jesus, é o Beijo de um amigo próximo... o meter a mão no mesmo prato, ou comer do mesmo bocado de pão revela uma grande cumplicidade e amizade... os judeus só se sentam à mesa com quem se dão bem. Partilhar do mesmo prato, do mesmo pão, revela uma predileção insuspeita... mesmo quando Jesus diz a Judas: faz o que tens a fazer, ou fá-lo depressa, ninguém suspeita, de contrário, os discípulos já não o deixariam sair da sala, julgaram que era mais uma missão que Jesus lhe dava... e no Horto deixam-nos aproximar. Veja-se o episódio em que é cortada orelha a um dos soldados! Muito mais agressivos seriam para com Judas. Nem pensar. Pedro, o apóstolo espontâneo, reativo, se suspeitasse que Judas iria aprontar, levantar-se-ia e faria pior que ao soldado Malco. 
       Já que foi o traidor (que viria a ser o traidor), aproveita-se e, a posteriori, coloca-se nele todas as infelizes, gestos, palavras e intenções. Nenhum dos discípulos desconfia de Judas, é um homem de confiança. Todos confiam nele. Jesus confia nele. Os discípulos não estranham a proximidade a Jesus, pois ele deveria ser dos mais íntimos.
       Mesmo no evangelho de são João – que centra em Judas todas as reações negativas – se vê que Judas é um homem respeitável. Há intervenções que João atribui a Judas mas os outros evangelistas atribuem a todo o grupo. A contestação acerca do desperdício do perfume de alto preço com que Maria/mulher anónima, de Betânia, unge os pés de Jesus, é comum aos discípulos, só no quarto e evangelho se nomeia Judas (cf. Mc 14, 3-8; Mt 26, 6-13; Lc 7, 36-50, e Jo 12, 1-11). 
        As trevas inundam o olhar e o coração de Judas. Nunca saberemos toda a motivação que o levou a entregar o Mestre, que ele admirava e seguia. Apóstolo de confiança, responsável pela bolsa comum, segundo os evangelhos, era também ele que distribuía esmola pelos mais necessitados. Segundo alguns, a entrega de Jesus procurava acelerar a "hora de Cristo", para que na eminência da morte, Jesus reagisse. Neste caso não seria falta de fé no Messias, mas a pressa em ver a salvação de Israel. A pressa dos homens sempre acaba por estragar a paciência amorosa de Deus.
       JUDAS ENTREGA JESUS POR AMOR. Segundo Ariel Valdés, a razão mais plausível para Judas entregar Jesus é por amor. Judas senta-se, provavelmente ao lado de Jesus, lugar de honra, o pão oferecido por Jesus a Judas revela estima, afeto, proximidade, o que se faz com um convidado de honra. "Judas era um homem nacionalista e violento, com sonhos de poder e de grandeza. E não tinha a menor dúvida que o seu amigo Jesus poderia tornar esse sonho realidade" (ARIEL VALDÉS).

       Por outro lado, São Mateus refere que o preço da entrega são umas míseras 30 moedas de prata (cf. Mt 26, 14-15. Tenha-se em atenção o propósito mateano de conciliar as profecias com a pessoa de Jesus, como Messias esperado). É o preço de um escravo. É o preço a pagar por escravo morto acidentalmente (cf. Ex 21,32). Sendo Judas um exímio gestor (e na possibilidade de ser ladrão, como afirma são João), não perderia a oportunidade para rentabilizar os créditos.
       Judas precipita-se, quer fazer as coisas à sua maneira, o seu pecado é este. Jesus faz as coisas ao jeito do Pai, mesmo que Lhe custe a vida. Judas, acreditando em Jesus, quer que Ele siga por outro caminho, mais rápido, mais espetacular, forçando, se necessário, os seus ouvintes a aderir e a segui-l'O. Já que Jesus não se decide, Judas dá uma ajuda: perante a prisão e na eminência da morte, Jesus recorreria ao seu poder divino e revolveria de uma vez para sempre as indecisões e indefinições. 
       Episódio sintomático: Jesus envia discípulos à frente para preparem hospedagem. Os samaritanos não os acolhem porque iam para Jerusalém. Reação pronta de João e de Tiago: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» (Lc 9, 54-55). Por aqui se vislumbra a ilusão dos apóstolos e como levaram tempo a compreender a missão de Jesus e o Seu Evangelho de amor, paciência, conciliação.
       Por outro lado, a disputa até ao fim dos melhores lugares no reino que está para chegar (cf. Mc 9, 33-37), mostra a imaturidade dos seguidores de Jesus, na expetativa que Jesus protagonizasse um messianismo político, militar, juntando pessoas, organizando-as e destituindo do poder as autoridades romanas mas também as judaicas, colocando em lugares estratégicos os que O acompanham de perto.
        João e Tiago pedem a Jesus para se sentarem um à direita e outro à esquerda. É uma questão tão mesquinha e, simultaneamente, tão humana, que os outros discípulos também querem o lugar. São Mateus, para salvaguardar estes dois discípulos, coloca o pedido na boca da mãe, ainda que a reposta de Jesus seja para eles, deixando antever precisamente a origem do pedido (cf. Mt 20, 20-28; Mc 10, 35-45).
       Ora, a preocupação de Judas não difere muito, ainda que haja uma clara alusão não tanto ao poder político ou militar, mas sobretudo ao poder religioso e divino.

       Além disso, numa perspetiva complementar, a figura do discípulo amado só aparece em São João. Os Sinópticos (Marcos, Mateus, Lucas) não falam em discípulo amado, mas nos três discípulos mais íntimos de Jesus. Na Transfiguração seguem com Jesus, Pedro, Tiago e João; no Horto das Oliveiras, todos os discípulos seguem Jesus, mas ao afastar-se leva conSigo Pedro, Tiago e João e, só então, Se afasta um pouco mais para rezar. 
       Tradicionalmente o discípulo amado é identificado com o próprio São João e, por essa razão, não é nomeado, pois não ia falar de si próprio. Sendo um discípulo (ou discípulos) a escrever(em) o Evangelho, atribuindo ao seu mestre, usa(m) da mesma preocupação, não diz(em) o nome porque se intui. Há, contudo, alguma dificuldade em identificar o apóstolo João com o autor ou autores do evangelho. João apóstolo é galileu, o autor é (os autores são)  claramente naturais de Jerusalém. Escrito pelos discípulos, quereriam sublinhar a importância do seu mestre. Se eu narro um acontecimento colocarei em destaque, pela positiva, quem me diz mais. Isso não retira crédito ou verdade à minha narração, sabendo-se sempre que cada texto, notícia, relato, leva a interpretação de quem escreve.
       Olhando para os Sinópticos, há dentro dos 12, alguns mais próximos. Seriam quatro e não três, contando com Judas, ou, como fizeram depois da morte e ressurreição de Jesus que escolheram Matias para ocupar o lugar vago de Judas, também aqui poderiam ter aproximado um dos três para preencher a vaga de Judas! São suposições, mas podem ajudar-nos a entender melhor a dinâmica dos evangelhos e do seguimento.
       No final, Jesus fica só com as mulheres. Todos fugiram (cf. Mc 14, 50). O quarto evangelho refere o discípulo amado junto a Maria, Mãe de Jesus. É testemunho presencial ou um desafio a não fugirmos da Cruz? E a acolhermos Maria por Mãe?
       O enforcamento – sobre o qual ninguém terá uma juízo definitivo, só Deus (refira-se que o Concílio de Trento declara que quem afirmar que Judas foi para o Inferno seja declarado anátema) – poderá ser expressão do desespero – Judas reconhece o mal feito, mas não há nele luz/humildade/discernimento suficiente para corrigir, como fez Pedro, que se arrepende e refaz o caminho do seguimento – ou pressa em chegar junto de Jesus. Jesus morreu, ao matar-se, Judas juntar-se-á rapidamente ao Seu Mestre e Senhor. A biografia de alguns santos – São Paulo, Santo Inácio de Antioquia, Santa Teresa do Menino Jesus, Santa Eufémia – evidenciam a valentia diante da morte, pois esta permitirá rapidamente o encontro definitivo com Jesus.
       Segundo Orígenes, baseando-se no final do Evangelho de Mateus, defende que "quando Judas se deu conta do que tinha feito, apressou-se a suicidar-se, esperando encontrar-se com Jesus no mundo dos mortos, e ali, com a alma a nu, pedir-lhe perdão" (ARIEL VALDÉS).

       Pela experiência humana: quando o nosso melhor amigo se converte em inimigo – risco frequente – arranjamos justificações para dizermos que nos enganámos, ou que nos enganou durante algum tempo, mas que havia sinais à nossa frente, que não quisemos ver. Conseguimos demonstrar, avivando palavras, gestos, acontecimentos do passado, a sua falsidade, desonestidade, o seu egoísmo, a sua ganância. É sempre difícil que, após uma rutura – numa amizade ou num casal, numa empresa ou numa associação – sublinhar que foram diferenças que provocaram o afastamento e que a responsabilidade foi das duas partes. (Também aqui importa não generalizar, por vezes uma das partes fez tudo sem a ajuda de ninguém).
       Para nós cristãos, mas também na convivência humana e social, a certeza da nossa fragilidade, a importância de não deixarmos que as trevas, ou a pressa de fazermos tudo à nossa maneira, ocupe o nosso coração. A Luz e o Amor de Jesus ajudou os discípulos a ultrapassarem o medo, a angústia, as trevas, a negação, a fuga. Em Judas, as trevas foram avassaladoras, ainda que tivesse um lampejo de arrependimento: entreguei um homem inocente... Há horas em que o demónio é mais forte... e quantos demónios podemos alimentar dentro de nós?

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FONTE e INSPIRAÇÃO:
ARIEL ÁLVAREZ VALDÉS. Porque atraiçoou Judas a Jesus?, in Bíblica, n.º 291, março-abril 2004.
Vale a pena ler o comentário de TOLENTINO MENDONÇA: Nenhum Caminho será Longo, AQUI: Judas, o discípulo predileto de Jesus.

       Sobre o discípulo amado veja-se o artigo publicado na Bíblica, n.º 303, março-abril 2016, ARIEL VALDÉS, Quem era o "Discípulo Amado" de Jesus?.
       Depois de seguir a tradição, que aponta João Apóstolo como autor do 4.º Evangelho e portanto o discípulo amado, o autor defende que as características do Apóstolo, com forte carácter, impetuoso, pronto a mandar fogo do céu contrasta abertamente com a delicadeza do Discípulo Amado, próximo, afável. Ainda que a conversão, e o encontro com o Ressuscitado tenha moldado os apóstolos de Jesus. Solução: «"Se o evangelista não nos dá o seu nome, não devemos tentar perguntar quem é", afirmava santo Agostinho» (VALDÉS). Assim sendo, cada um de nós pode ser o discípulo amado se na sua conduta imitar o seu jeito de seguir Jesus e estar perto d'Ele sobretudo nos momentos mais dolorosos. Valeria também ler ou reler Bento XVI/Ratzinger, na obra Jesus de Nazaré. Ratzinger não entra em discussões tão específicas, mas aponta o discípulo amado como modelo a seguir.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Somos argila amassado do tempo

       "Nós somos feitos de tempo; somos amassados da argila do tempo; somos feitos de idades, de estações, de horas, de dias, somos feitos de cronometrias, isto é, de medições de tempo, visíveis e invisíveis. De facto, tudo o que é humano é feito de tempo; somos um reservatório de tempo; lençóis de tempo que se vão acumulando. Para dizer uma palavra - somos duração...
        «Viver sem amigos é morrer sem testemunhas». Os amigos trazem à nossa vida uma espécie de atestação. Os amigos sabem o que é para nós o tempo. Eles testemunham que somos, que fizemos, que amamos, que perseguimos determinados sonhos e que fomos perseguidos por este ou aquele sofrimento. E fazem-no não com a superficialidade que, na maior parte das vezes, é a das convenções, mas com a forma comprometida de quem acompanha. O olhar do amigo é uma âncora. A ela nos seguramos em estações diferentes da vida para receber esse bem inestimável de que temos absoluta necessidade e que, verdadeiramente, só a amizade nos pode dar: a certeza de que somos acompanhados e reconhecidos. Sem isso a vida é uma baça surdina destinada ao esquecimento.
        A história de cada um de nós consuma-se através de uma necessidade de reconhecimento. Para haver um «eu» tem de existir um «tu». Com cada homem vem ao mundo algo de novo que nunca antes existiu, algo de inaugural e de único, mas é na construção de uma reciprocidade que de forma consistente o podemos descobrir. O «eu» tem imperiosa carência de ser olhado amigavelmente por outro, e por outros, para organizar-se e ousar o risco de ser"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Amizade - lugar de encontro entre Deus e o Homem

"Amar e ser amado são faculdades tanto divinas como humana, mas o único verdadeiro amor é o de Deus, porque tudo nele tem a sua origem. A causa pela qual devemos amar a Deus e amarmo-nos uns aos outros é o próprio Deus ..."
"A amizade com Deus torna-se, então, a medida (sem medida) da nossa amizade. «Bem-aventurado quem te ama, e ao seu amigo em Ti, e ao seu inimigo por causa de Ti» [Santo Agostinho, Confissões, IV 9,4]"

"A amizade é antes o próprio lugar do encontro entre o humano e o divino, o lugar onde os amigos podem participar de Deus, podem mergulhar no seu mistério..."

"O amigo espiritual é uma imagem de Cristo; o repouso no seu abraço é o abandono no Espírito Santo, que é vida que circula em Deus. Um amigo torna-se para nós um mestre do desapego e da liberdade interior: «os corações que se amam testemunha,-no por expressões do rosto, por palavras, olhares e mil pequenas nadas, que são gravetos para alimentar o fogo onde as almas se fundem entre si e tornam-se apenas uma. Mas se o que nós acreditamos dever amar nos nossos amigos não nos conduzir a uma amar por amar, a nossa consciência reprovar-nos-á» [Aelredo]"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Eucaristia - comensalidade que congrega crentes

"É verdade que a Eucaristia (cf Lc 22,19-20), centro da vida do Reino, é uma refeição, e que ela condensa, em torno de uma mesa, o inteiro destino do Senhor, como se todos os seus gestos e palavras confluíssem, afinal, para a unidade de um único gesto e de uma única palavra. Mas a Eucaristia nasceu já como uma refeição atípica, impregnada de uma semântica irredutível a esse enquadramento. Desde o princípio foi relatada e acolhida, na fé da comunidade cristã, como Dom radical de si que Jesus protagonizou e como comensalidade que congrega os crentes à volta desse acontecimento. Contudo, aquilo que se verifica é que, além da Eucaristia, os Evangelhos estão costurados pela memória de outras refeições. E estas, colocando Jesus numa situação simbólica cheia de implicações, iluminam para nós o sentido profundo da amizade de Jesus".

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Evangelho - o Testamento de um amigo

 "O discípulo amado é aquele que tem uma proximidade particular a Jesus; é aquele que se reclina sobre o seu peito, não apenas numa demonstração de afeto, mas também de comunhão de vida e de sentimentos. Este gesto do reclinar é uma imagem que comparece em outros textos judaicos e que tem a ver com a transmissão do testamento. O Evangelho representa, digamos, o testamento de um amigo; o olhar de um amigo sobre Jesus que nos implica profundamente, colocando-nos no seu lugar. A intervenção do discípulo amado liga-se, assim, a um eixo profundo da teologia de João que considera ser através da amizade que nós compreendemos Jesus e nos avizinhamos dele..."

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O meu amigo é este próximo... distante

"Eu não espero nada de um amigo, ou melhor, espero tudo, na medida em que a sua existência, pela sua radical diferença, me permite existir. A amizade é o acolhimento de um intervalo puro que, de mim a esse outro que é um amigo, mensura tudo o que há entre nós. A doçura da amizade, porém, é equivalente ao seu rigor mais infrangível: o meu amigo é este próximo que não deixa nunca de ser o mais distante"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

terça-feira, 30 de abril de 2013

A amizade é guardada pelo silêncio

       "Na amizade estamos uns com os outros e somos uns para os outros, mantendo porém a exterioridade: os amigos não se diluem, não se justapõem, nem se substituem. A amizade é uma forma de expsição ao outro, mas uma exposição que não quebra a reserva, que não invade a solidão. A amizade não só guarda silêncio, mas ela é guardada pelo silêncio...
       "Não há amizade senão onde a distância se conserva. Simone Weil explica-o assim: «A amizade é o milagre pelo qual o ser humano aceita olhar a distância, e sem se aproximar, o próprio ser que lhe é necessário como alimento. É a força de espírito que Eva não teve; e, contudo, ela não tinha necessidade do fruto. Se ela tivesse tido fome no momento que olhava o fruto, e se, apesar disso, tivesse permanecido indefinidamente a olhá-lo sem dar um passo na sua direção, teria realizado um milagre análogo ao da perfeita amizade"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Amizade - O silêncio é um vínculo que une

"Os amigos podem estar juntos em silêncio. Entre os conhecidos é um embaraço, sentimos imediatamente a necessidade de fazer conversa, de ocupar o espaço em branco da comunicação: ficar em silêncio traz-nos incómodo. Com os amigos o silêncio nada tem de embaraçoso. O silêncio é um vínculo que une"
"... Se assumirmos que a amizade é estar em companhia, mesmo sem falar, então o exercício da oração aprofunda-se, toca outros níveis, abre-nos a outras dimensões do ser. Não é preciso falar. Basta a consolação de estar um ao lado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria, independentemente do que faça ou diga".

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Amizade - a aceitação positiva do limite

       "A amizade é a aceitação positiva do limite. Chega um momento em que vais para tua casa e eu para a minha e isso não representa nenhum drama. Pelo contrário, sabemos que nos havemos de reencontrar; não nos vendo, não nos perdemos de vista; que o essencial permanece intacto na distância. Pensar assim a nossa relação com Deus enche-nos de serenidade e de alegria; há um sopro interior que nos assiste; a nossa oração ganha uma respiração que parte realmente de nós em vez de desenvolver-se num plano de pura abstração. Pois infelizmente grande parte da nossa oração não tem alma nem corpo, não tem sangue e verdade, não tem barro e espírito. No fundo, persistimos numa imagem de Deus que exige de nós sacrifícios, quando o Deus de Jesus Cristo quer a vida justa, plena, levada à sua alegria...

       "Na amizade, aceitamos do outro o que ele nos dá ou pode dar, e fazemos disso um ponto de partida alegre. A ansiedade de querer saber tudo, de esventrar, de escrutinar é projeção de uma vontade de domínio, desejo de poder. A amizade é um passar. Deus passa a sua beleza diante de Moisés e Moisés vê uma parte, que é aquilo que pode ver. Se vivêssemos assim a nossa experiência espiritual, ela seria mais pacificada, mais adulta e certamente mais fecunda. temos de abrir as mãos, deixar que Deus passe..."

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Os santos ensinam-nos o mistério da amizade divina

"Os santos ensinam-nos o mistério da amizade divina: aceitar o que Deus me quer dar, aceitar a noite e o nada, o silêncio e a demora, aceitar a graça e a riqueza. Aceitar, aceitar. De tudo fazer caminho. Quando nos dispomos a isso, estamos finalmente a mergulhar numa experiência de amizade. Não apreciamos os nossos amigos apenas pelo que eles nos dão: podem vir de mãos vazias que os amamos à mesma. Para dizer a verdade, por vezes, as coisas, na amizade, só atrapalham. A nossa relação com Deus também passa pelas mãos vazias, onde o fundamental é o encontro, aquilo que, misteriosa e gratuitamente, se comunica de coração a coração.

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A amizade e o amor

"Na amizade há segurança sem que exista pressão. O que não podemos conhecer do outro deixamos serenamente que permaneça incognoscível. O facto de não conhecermos tudo não afeta a relação que mantemos, coisa que o amor dificilmente suporta. No amor a revelação tem de ser total, tem de ser una: una na franqueza, na abertura, no conhecimento sem dobras, nem reservas. Na amizade aceitamos de forma mais natural a diferença, uma certa distância que não vem considerada como obstáculo à confiança, mas, pelo contrário, é condição da revelação de si. Essa distância dá liberdade à pessoa para ser autêntica; purifica os amigos de toda a tentação de domínio".

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Tolentino Mendonça - Nenhum Caminho será Longo

José TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo. Para uma teologia da amizade. Paulinas Editora, 2.ª edição, Prior Velho 2012.
       Para lá dos muitos textos que colocámos por AQUI, recomendámos duas obras do Pe. Tolentino Mendonça: Pai-nosso que estais na terra e O tesouro escondido. Duas excelentes leituras, para cristãos, para crentes, ou para pessoas que procuram sentidos ou SENTIDO para as suas vidas. A linguagem é por demais acessível e gera vontade de ler mais, de sublinhar e reler passagens. 
       Este livro que ora sugerimos é mais uma excelente reflexão sobre a amizade, com um fundo cristão, inspirado em Jesus Cristo e no Evangelho, mas com um diálogo atento a filósofos, artistas, poetas, personalidades, pequenas histórias, parábolas, poemas.
       Está escrito num registo simples, de fácil compreensão, e com a densidade a que o Pe. Tolentino Mendonça nos habituou. É um texto sem teias nem falsas presunções, que desafia a encontrar pérolas nas pessoas que vêm até nós, elevando a amizade no reino do amor. Jesus é também uma referência fundamental, como AMIGOS que considera, acolhe, promove, desafia, envia. Com Pedro que nega. Com Judas que trai. Com outros discípulos que se afastam. Mas há outras figuras bíblicas que revelam a pureza, a beleza e a profundidade da amizade, como David e Jónatas, como Abraão ou Moisés, amigos de Deus, os amigos de Job e muitos outros amigos.
       Quem encontrou um amigo encontrou um tesouro.
       A amizade coloca-nos em comunhão com os outros, mas também com a eternidade. Só o amigo diz bem o meu nome. Bons amigos comunicam por palavras, mas entendem-se bem sem palavras, os silêncio, entre amigos verdadeiros, não incomodativo, mas apaziguador. A amizade não se alimenta de tensões, mas de comunhão, olha para o outro, para o que ele é, não para o que ele tem.

sábado, 31 de março de 2012

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor - 1 de abril

       1 – "Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz" (2.ª leitura).
       Este belíssimo hino, recolhido por São Paulo na sua missiva aos Filipenses, faz uma apresentação detalhada, sintética, clarividente, expressiva, da vida e missão de Jesus. A Sua condição inicial, que dá origem e alimenta o hoje do Seu compromisso, o trajeto de oblação, de entrega, de kénose (abaixamento), de amor pela humanidade. O amor por nós leva-O a assumir a nossa identidade e a nossa finitude.
       O mistério da Sua paixão, da Sua morte como oferenda, pleniza o Seu projeto de caridade a favor de todo o povo. Não apenas a favor dos amigos, ou dos bons, mas em benefício de todos, bons e maus, amigos e estranhos, judeus, gregos ou troianos.
       Vem de Deus, para habitar connosco, na história e no tempo. A divindade humaniza-se, o Universal particulariza-se num determinado período da história e num espaço civilizacional concreto. Faz-Se homem, para que descubramos por Ele e com Ele o caminho de regresso a Deus Pai, descobrindo a nossa origem, o nosso alimento e o nosso fim: Deus.
       Toda a Sua vida é serviço e doação. Assume-nos por inteiro. Identifica-Se homem. Em tudo igual a nós, exceto no pecado. Não Se alheia da obra criada por Seu amor. Por amor vem. Por amor permanece. Por amor dá a Sua vida. Por amor elevar-nos-á às alturas da glória, até Deus, Seu e nosso Pai.
        2 – Nas concepções tradicionais da religião, Deus mantém-se distante, alheado como Juiz impenetrável, impassível, pronto a irritar-se e a castigar, à espera das oferendas, sacrifícios e súplicas da humanidade, vergada à Sua omnipotência.
       Com Cristo Jesus, é Deus Quem procura a humanidade, imiscuindo-Se na nossa história. Deus está onde está a humanidade. As alegrias e as tristezas, as lutas e as esperanças, o sofrimento e a festa, a morte e a vida, que nos envolvem na nossa existência terrena e mortal, integram a história de Jesus, em todo o seu esplendor.
       A liturgia deste domingo é particularmente feliz. A SEMANA SANTA conduz-nos do sucesso e da fama à morte infame, numa cruz, para logo nos encher com a LUZ da Páscoa, em que nada ficará igual, e até o túmulo se encherá de luz e de vida nova.
       Visualizamos a entrada triunfal de Jesus na cidade santa de Jerusalém. É acompanhado por uma multidão imensa, que O aclama como Rei, filho de David, deixando entrever o reconhecimento do Messias prometido e esperado. É sol de pouca dura.
       Ainda ressoam os cânticos, os clamores, e já Jesus Se senta à volta da mesa, mais discretamente, quase silenciosamente. Estão lá apenas os mais íntimos. Como não nos revermos também nesta passagem. Quando as coisas correm bem, todos nos rodeiam e aplaudem, mas quando é necessário trabalhar, esforço e dedicação, com quantos dos nossos amigos poderemos contar?!
       A Ceia pascal é um interregno. Uma pausa para o café. Para descansar. Para ganhar coragem. Para sentir mais próxima a presença dos amigos e sentir o conforto dos mais chegados, preparando-os para a despedida, deixando-lhes as recomendações finais, como um testamento, um compromisso para a vida. Vou partir, mas a minha presença será ainda mais íntima, mais profunda, mais firme. Ainda a Ceia não terminou e já cheira a morte, a traição. O medo e a ansiedade começam a tomar conta dos discípulos. Sente-se aquele tremor no estômago e as pernas não querem obedecer. O vinho parece ter produzido efeito. Nem todos ficam para enfrentar as dificuldades maiores.
        3 – Em poucas horas, Jesus experimenta a euforia de uma multidão em festa e de uma multidão furiosa pedindo a Sua cabeça. No triunfo está lá toda a gente. Olhamos para o lado e vemos que não falta ninguém. Também lá nos queremos. Sentimo-nos confortáveis, pertencemos ali, aquele é o nosso povo, a nossa gente, e apesar dos encontrões, não desarmamos, deixamo-nos levar pelo entusiasmo.
       A vida tem altos e baixos e nos momentos do sofrimento, do suor e das lágrimas, nem todos estamos disponíveis. A casa é um espaço mais pequeno. Onde pulsa a vida, o espaço é mais íntimo, facilita o encontro, coração a coração, é mais afetivo, permite o abraço, o choro e o riso desbragado, a casa é o outro em quem coloco a minha vida, é o outro que me acolhe como irmão. Se pudéssemos ficaríamos em casa para sempre. Esta começa a desfazer-se quando alguém abandona o círculo familiar. Judas é o primeiro a sair. Saem os outros, para o Jardim das Oliveiras. A casa não pode ser profanada, há de ser o lugar do reencontro, da vida nova, da vida ressuscitada, quando de novo todos se reconhecerem como irmãos.
       Aqueles que contam acompanham Jesus. Mas ainda não estão amadurecidos o suficiente na sua fé. Maior é o medo. Quando nos sentimos ameaçados na nossa vida biológica, as reações passam pela paralisia, como em sonhos, não conseguimos mexer-nos, ou fugimos rapidamente para nos libertarmos do perigo iminente. Assim acontece com os discípulos. Adormecem, tal é a ansiedade, enquanto o seu Mestre reza, roga a Deus, transpira gotas de sangue, é a Sua hora. Levar o amor até ao fim, mesmo que isso custe a própria vida (biológica), é o alimento, a vontade de Jesus. Numa hora desta, só Deus Lhe pode valer, só Deus Lhe pode dar ânimo (alma) para prosseguir.
       É a vida. Agora que era tão útil a presença dos seus amigos mais íntimos, todos correm rapidamente para não serem "agarrados" por aquela onda de ódio e violência. Mantêm-se à distância. Com medo, com "pena" do Mestre, mas afastados o suficiente para preservarem as suas vidas.
       4 – Como não nos revermos nesta SEMANA SANTA de Jesus?! Transpira suor, sangue e lágrimas. Prossegue no limite do desfalecimento. Clama em altos brados. Leva as forças ao limite, por amor. É paixão. Redentora. Homem e Deus envolvidos na mesma história.
       Quantos pais não "morrem" todos os dias pelos filhos? E por causa deles. Canseiras, preocupações, trabalho, lágrimas. A vida até ao esgotamento! Onde parece que não há mais ânimo, lá se encontram argumentos para prosseguir. O amor supera as limitações físicas. Quantos não são testados, todos os dias, até ao limite da sua coragem – uma doença repentina, a falta de trabalho e de pão para a mesa, o sofrimento e a doença crónica de um familiar, o conflito que se agudiza dentro de portas, ou o ambiente desastroso com os colegas de trabalho –, uma via crucis sem solução à vista, um calvário que perdura no tempo, sem sinais esperançosos, sem abertura no céu enublado de lágrimas, de cansaço, de derrota.
       Jesus não passa ao largo das nossas lutas. Não desvia o olhar. Enfrenta connosco as angústias da sobrevivência. "O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido" (1.ª Leitura).
       Está (quase) sozinho. Os apóstolos tornaram-se apóstatas. À distância. Sua Mãe e algumas mulheres, que sabem o que é sofrer, o que é sofrer por amor, o que é dar a vida pelos filhos e verem os filhos morrer (repentinamente ou aos poucos), elas não desviam o olhar. É doloroso. É a vida. Faz parte da vida. Dali ninguém as tira. Nem a força bruta dos soldados em fúria, nem a multidão cega pela gritaria. Elas que estavam na primeira hora permanecerão até à última hora, até ao suspiro final. 
       "O véu do templo rasgou-se em duas partes de alto a baixo. O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou: «Na verdade, este homem era Filho de Deus». Estavam também ali umas mulheres a observar de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e Salomé, que acompanhavam e serviam Jesus, quando estava na Galileia, e muitas outras que tinham subido com ele a Jerusalém" (Evangelho).

       5 – Regressemos a nossas casas. O espetáculo terminou. Jesus morreu. Morreu por amor. Morreu por nós. Morreu para nos salvar. Morreu para nos mostrar que o amor há de ser mais forte, mais firme, mais "violento" e revolucionário que todas as forças do mal e da morte.
       Aguardemos. Com Maria, a Quem Ele nos confia, e com as outras mulheres, voltemos ao lugar onde pulsa a vida, nas suas lutas e nas suas festas, a casa, a nossas casas. Façamos luto. Não deixemos, porém, que o medo e a angústia tomem conta da nossa alma (do nosso ânimo), rezemos com Ela, vigilantes, firmes na esperança, confiantes na promessa de Deus. Não temamos a noite. O SOL esconde-se por entre as lágrimas, os nossos olhos ficam nublosos, mas a LUZ há de ser tão intensa que prevalecerá para além das nossas dores e da nossa treva. A caminho da Páscoa!

Textos para a Eucaristia (ano B): Is 50,4-7; Salmo 21 (22); Filip 2,6-11; Mc 14,1 - 15,47.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Garantiram-lhe 30 moedas de prata

       Um dos Doze, chamado Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes: «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. A partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar... Ao cair da tarde, sentou-Se à mesa com os Doze. Enquanto comiam, declarou: «Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós Me entregará»...  Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou: «Serei eu, Mestre?» Respondeu Jesus: «Tu o disseste» (Mt 26, 14-25).
        As trevas inundam o olhar e o coração de Judas. Nunca saberemos toda a motivação que o levou a entregar o Mestre, que ele admirava e seguia. Apóstolo de confiança, era ele o responsável pela bolsa comum e de preparar "as coisas" para a festa da Páscoa bem como para outros momentos. Segundo o relato dos evangelhos era também ele que distribuía esmola pelos mais necessitados. Segundo alguns, a entrega de Jesus procurava acelerar a "hora de Cristo", para que na eminência da morte, Jesus reagisse. Neste caso não seria falta de fé no Messias, mas pressa em ver a salvação de Israel. A pressa dos homens sempre acaba por estragar a paciência amorosa de Deus.
       Por outro lado, São Mateus refere que o preço da entrega são umas míseras 30 moedas de prata. É o preço de um escravo. É o preço a pagar por um assassinato à família lesada, para evitar outro assassinato.