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sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Véronique Olmi - santa Bakhita

VÉRONIQUE OLMI (2019). Santa Bakhita. Porto: Porto Editora. 336 páginas

Há livros que nos tiram o fôlego e queremos ler de uma assentada. Este é um destes livros, biográficos, sobre a vida de santa Bakhita, feita escrava, originária do Sudão, levada para a Itália, onde se converte e se tornará santa, numa vida simples, dedicada, ao serviço de todos, sobretudo dos mais simples e frágeis, obediente, disponível, alegre.

Contracapa / apresentação:
Quando Bakhita foi raptada da sua aldeia natal, no Sudão, tinha apenas sete anos e estava longe de imaginar a extraordinária odisseia em que ia transformar-se a sua vida.
Feita escrava pelos raptores, vendida, trocada e oferecida várias vezes, conheceu a maldade humana em toda a sua dimensão e sentiu-a na pele ao ser vítima da crueldade dos seus senhores.
Anos mais tarde, um cônsul italiano comprou-a, e foi na Europa, depois de uma batalha judicial, que Bakhita voltou a conhecer a liberdade. Abraçou, então, a vida religiosa junto das Irmãs Canossianas, em Veneza, e atravessou o tumulto das duas guerras mundiais, consagrando a vida às crianças pobres e auxiliando os soldados feridos.
É essa história que Véronique Olmi conta de forma tocante neste seu romance, que em 2017 venceu o Prémio Fnac e foi finalista dos Prémios Femina e Goncourt – a história de uma criança feliz que veio a passar pelos maiores sofrimentos, mas que acabou canonizada por João Paulo II.
A autora:
Véronique Olmi nasceu em Nice, França, em 1962, e vive atualmente em Paris.
Tem escrito peças de teatro, romances e novelas. A sua obra encontra-se atualmente traduzida em vinte idiomas, sendo os seus textos dramáticos representados em França e em vários palcos internacionais.
O primeiro romance que publicou, Bord de Mer (2001), recebeu o Prémio Alain-Fournier. Uma década depois, ganhou o Prémio Maison de la Presse com o livro Cet Èté-Là.
A escrita flui, numa narrativa acessível, escorreita, biografia em forma de romance, que nos faz entrar na história e querer saber mais, ir adiante. É uma vida riquíssima, mas também um belíssimo testemunho de fé e de resiliência, de confiança no grande "Patrão", na identificação daquele "filho", também escravo, prisioneiro, crucificado.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Marta Arrais - GUIA PARA UMA VIDA SIMPLES

MARTA ARRAIS (2022). Guia para uma vida simples. Lisboa: Planeta. 256 páginas.


A sugestão deste livro é mais que natural, como os vários textos-crónicas-reflexões de Marta Arrais que lemos com interesse e recomendamos vivamente. A autora tem o dom de escrever bem, escorreitamente, de forma simples e acessível, percetível. A erudição, as frases poéticas, facilitam a leitura e a sua compreensão. Por outro lado, vê-se bem que escreve com alma e com o coração, lançando pistas, desafios interpelando, fazendo-nos parar, sonhar, voar, mostrando como o ser humano é um mistério, em construção e a caminho e que existem aspetos na nossa vida que podem ser mudados, se não ao nível dos acontecimentos, pelo menos, ao nível da atitude que se assume perante os mesmos, perante a vida e diante dos outros. O convite é o de sempre: caminharmos juntos, não deixarmos ninguém para trás, sabermos dizer sim, mas também dizer não, largarmos as pessoas que trazem toxidade à nossa vida, não termos pressa de viver o dia seguinte, vivamos hoje com toda a intensidade que nos é possível!

Muitos dos textos aqui servidos foram escritos durante este longo tempo de invernia, deste tempo de pandemia, e, por conseguinte, fazem eco das preocupações, acolhem as frases feitas, transparecem as lágrimas, os sorrisos e as perdas, deixando claro que nada será como dantes, ainda que muitos o predissessem, que tudo ficaria bem, ou que o pós-pandemia seria uma oportunidade para um mundo mais justo e solidário, mais fraterno. Porém, ainda dentro deste embotamento, muitos sinais contraditórios de egoísmo, de aproveitamento, de esquecimento dos mais vulneráveis. Os chavões, muitos deles, não passaram de intenções que ficaram pelo caminho ou de expectativas, entretanto, goradas quando se voltou a algum tipo de normalidade.

Pelos títulos que encimam cada capítulo, ficamos com uma noção de algumas provocações e convites: 1) Optar pelo essencial; 2) Desligar; 3) Perdoar; 4) Estar disposto e disponível; 5) Aceitar sem compreender; 6) Ter só o que fizer falta; 7) Viver um momento de cada vez; 8) Ouvir (mais) o que é bom; 9) Deixar ir; 10) Desisti quando for preciso; 11) Ter calma e paciência.

A abrir, diz-nos Marta Arrais: “Este livro é um mapa. Um conjunto de páginas que querem sugerir sentidos, trilhos, caminhos, rotas e possibilidades. Antes de começares esta sugestão de viagem, convém que apagues as luzes de tudo o que te distrai e não te deixa pensar com clareza, com chama e fluidez. Não precisas de deixar o que é teu e o que te é querido. Também não é necessário que apagues nenhuma linha da tua história. A ideia é que encontres, nestas páginas, uma ponte que te ajude a encontrar um equilíbrio diferente, uma paz mais quieta, uma vida tranquila e menos atribulada… Está tudo a acontecer ao mesmo tempo? Deixa estar. Não sabes se vais conseguir lidar com a tempestade que já ouves ao longe? Deixa estar. Querem que faças demasiadas tarefas de uma vez só? Deixa estar. Não reconheces as pessoas que foram sempre tuas? Deixa estar. Não estás a conseguir vislumbrar os sonhos e os planos de sempre? Deixa estar. Sossega. Antes de começares, deixa tudo onde tiver que ficar. Não te preocupes. Ninguém consegue tomar decisões quando há demasiado ruído ou quando há demasiada turbulência. Suspende o mundo lá fora. Prende ao peito um ‘Volto já’ e volta quando puderes. Quando quiseres. Quando estiveres pronto. Vamos a isso?”


Mais alguns pedaços de texto da autora:
Hoje eu não consigo perdoar-te. Amanhã tento outra vez.
Hoje eu não consigo encontrar bondade nas pessoas que estão comigo. Amanhã tento outra vez.
Hoje eu não consigo procurar a paz. Amanhã tento outra vez.
Hoje eu não consigo ser feliz. Amanhã tento outra vez.
Hoje eu não consigo não consigo avançar nem um passo. Amanhã tento avançar dois.
Hoje eu não consigo levantar a cabeça do chão. Amanhã tento outra vez.
Hoje eu não consigo encontrar sentido na minha vida. Amanhã tento outra vez”.
Quando não puderes fazer mais nada, ri-te. De ti. Dos tombos que a vida te fez dar. Das lições que tiveste de viver para aprender”.
Se eu não perdoar aquela pessoa que me retirou tempo, disponibilidade e estabilidade emocional, continuarei, na mesma, a deixá-la ficar na minha vida e a perpetuar a sua influência no meu dia a dia. Não vale a pena não perdoar a pessoas tóxicas”.
Viver cada coisa como quem sabe que não pode compreender tudo, entender tudo, fazer parte de tudo… Escolher mais vezes o silêncio. Argumentar menos e interiorizar mais. Não comprar guerras com quem não tem culpa das nossas. Vale mais a pena dividir a nossa guerra com alguém. Ter paciência quando nos faltar a paz”.
Nem sempre somos paz. Nem sempre somos capazes de não incendiar um rastilho que leve a uma ou outra guerra. Nem sempre conseguimos ser bons. Dizer bem dos outros. Não julgar. Nem sempre somos os que terminam as discussões. Muitas vezes, somos os seus protagonistas e os seus iniciadores. Nem sempre somos os primeiros a dar a mão a quem precisa. Muitas vezes somos os primeiros a deixar o barco à deriva”.
Não oiças vozes venenosas, manipuladoras ou demasiado queixosas. São veneno para a saúde da alma”.
A fé é saber que não estamos sozinhos. Que há alguém que nos acompanha, nos guarda e zela por nós. É saber que não estamos cá por uma razão aleatória ou por descuido do universo. Estamos cá porque precisamos. Porque temos de fazer do mundo um lugar único”.
“Não esperes que se resolva. Resolve.
Não esperes que mude. Muda.
Não guardes para depois. Hoje é o dia.
Não te afaste sem ninguém ver. Diz que vais. Por que vais.
Não te escondas nas entrelinhas. Fala.
Não fales quando estiveres furioso. Acalma-te primeiro.
Não sonhes com o céu. Voa e chega lá.
Não te agarres às coisas do mundo. Não queiras ser daqui.
Não saltes sem ver o chão. Vai devagar.
Não tenhas pressa de viver o que ainda não chegou. Cada passo a seu tempo.
Não culpes. Desliga-te da mágoa e passa à frente.
Não te culpes. Fizeste o que podias. Como sabias.
Não te rias do que não conheces. Observa primeiro, julga depois.
Não faças festas. Sê festa.”

Não te rendas quando o combate ainda vai a meio.
Não te rendas quando a luta for pelo bem.
Não te rendas ao que te contam. Pode não ser verdade.
Não te rendas ao que te assusta. O medo faz os melhores heróis.
Não te rendas, a vida ainda agora começou”.

Não te esqueças de agradecer o passado. Foi ele que te trouxe, pela mão, até aqui. Já cá estás. Agora, podes deixá-lo ir. De vez em quando, podes fazer-lhe uma visita, mas é melhor que resistas à tentação de viver com ele”.
“Não te esqueças: quando viveres algo terrível – espera. Com paciência. Com cuidado. Lá mais para a frente vais ser capaz de entender tudo”.

Não estamos cá para ser pouco. Estamos cá para ser tudo”.

sábado, 20 de novembro de 2021

Isabel Galriça Neto - CUIDADOS PALIATIVOS

ISABEL GALRIÇA NETO (2020). Cuidados Paliativos. Conheça-os melhor. Lisboa: Fundação francisco Manuel dos Santos. 104 páginas.


Em fim de mandato, a Assembleia da República, à pressa, fez aprovar a lei da Eutanásia, não seja a alterar-se a configuração do Parlamento e não poderem dar seguimento a tais propostas de lei. Sabe-se, contudo, que mais tarde ou mais cedo, como as leis da despenalização e, progressivamente, liberalização do aborto, esta lei seria aprovada, no Parlamento, tendo os deputados necessários ou, em alternativa, os proponentes levá-la-iam a referendo, as vezes que fossem necessárias para a aprovar. Desta vez era mais fácil não possibilitar o referendo e agregar os defensores da mesma, com um debate sempre muito apressado e feito quase nas trevas. Sendo que a vida, como direito e valor inalienável, não pode ser referendada, porém, quando foi do aborto facilitou os referendos que se foram fazendo!
Um tema que anda muito ligado à eutanásia (bem entendida, seria boa morte, morte digna), é este dos cuidados paliativos que visam eliminar/controlar/aliviar o sofrimento, sem retirar tempo de vida à pessoa ou beliscar a sua dignidade, ajudando-a nas doenças crónicas, em situação terminal ou não. Os cuidados paliativos visam não apenas ajudar o doente, mas as suas famílias e os cuidadores, acompanhá-los no decorrer da doença, refletir as intervenções, no domicilio, em lares ou centros especializados nestes cuidados. E, quanto às famílias, acompanhá-las também no processo de luto, que pode iniciar-se mesmo antes da morte do familiar.
Isabel Neto explica detalhadamente, mas de forma muito clara e acessível, o que são os cuidados paliativos, os avanços em Portugal e no mundo, como há leis que respondem satisfatoriamente, mas como a operacionalização é lenta, a distinção entre cuidados paliativos especializados e ações paliativas; como estes cuidados não têm como "missão" retirar a consciência aos doentes, nem diminuir-lhes as capacidades, pelo contrário, como podem dar-lhes qualidade de vida, sem lhes diminuírem o tempo...
Um dado curioso e preocupante: 70 % dos doentes que precisam de cuidados paliativos, em Portugal, não têm acesso a eles. Já se fez caminho, mas ainda há muito para fazer e melhorar, e investir.
Fica também claro que os cuidados paliativos não têm como propósito "prolongar" a vida. Ou seja, nem prolongá-la usando a desproporcionalidade de meios, nem encurtá-la para poupar recursos, ainda, como sublinha a autora, é possível poupar recursos investindo-se nos cuidados paliativos, pois muitas vezes a insistência em curar o que não tem cura desgaste médicos e enfermeiros e exige muitos mais recursos.
O prefácio é do Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Percebe-se que faz visitas a doentes nos cuidados paliativos!

Isabel Galriça Neto é médica desde 1985. Dedica-se aos Cuidados Paliativos (CP) há mais de 25 anos. Foi presidente da Associação Portuguesa de CP. É diretora da Unidade de CP do Hospital da Luz-Lisboa, docente da Faculdade de Medicina de Lisboa e da Universidade Católica. Preside à Competência de Medicina Paliativa da Ordem dos Médicos. Assume que tem sido um privilégio trabalhar nesta área e já cuidou de mais de seis mil doentes e respetivas famílias. Foi deputada à Assembleia da República durante dez anos. É comendadora da Ordem do Mérito desde 2004.

sábado, 2 de outubro de 2021

BYUNG-CHUL HAN - A SOCIEDADE PALIATIVA

BYUNG-CHUL HAN (2020). A sociedade Paliativa. A dor nos nossos dias. Lisboa: Relógio D'Água. 80 páginas.


Logo que a dor se aproxima, desconfiamos do seu amor! Bem se pode dizer deste estudo, reflexão, que aborda a dor nos nossos dias. Vivemos numa sociedade paliativa, que esconde e foge a todo e qualquer dor, qualquer sofrimento. Inevitavelmente há situações de fragilidade e dor, de contrariedade, doente, morte, mas que a todo o custo procurámos esconder. Neste tempo da pandemia, acentuou-se a virtualidade das relações, a presença do outro é mais igual, o mesmo. Perdeu-se a alteridade. A dor desperta-nos, diferencia-nos, provoca-nos, é uma dádiva que incentiva à superação, à comunhão e à solidariedade.
Se por um lado, afastamos tudo o que transpareça dor, por outro lado há um excesso de violência nos meios de comunicação social, na televisão, internet e nas redes sociais, ao ponto de, progressivamente, levar à indiferença, habituamo-nos de tal forma que deixa de nos despertar os sentidos.

"Neste seu ensaio, o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han aborda o tema da expansão da algofobia, do medo à dor da sociedade atual. Como mostra a recente crise dos opiáceos nos EUA e o que se passa com a pandemia da Covid-19, a dor, física ou psicológica, tende a ser evitada a todo o custo. Até a dor causada pelo amor está sob suspeita. A tolerância ao sofrimento decai rapidamente, instalando-se uma anestesia permanente. Evitam-se conflitos e controvérsias que possam levar a conflitos dolorosos.
Byung-Chul Han assume que essa é uma mudança de paradigma na nossa sociedade. A psicologia acompanha esta evolução, assistindo-se ao desenvolvimento daquela que trata do sofrimento e da psicologia positiva ocupada com o bem-estar, a felicidade e o otimismo. A algofobia também atinge a política, surgindo a pressão social para se chegar a acordos e mesmo a consensos. A pós-democracia está a espalhar-se, enquanto democracia paliativa" (contracapa).

Byung-Chul Han, nasceu na Coreia, estudou filosofia na Universidade de Freiburg e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Em 1994, fez o doutoramento na primeira destas universidades com uma tese sobre Martin Heidegger. Atualmente é Professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim.

ROLF DOBELLI - A ARTE DE PENSAR COM CLAREZA

ROLF DOBELLI (2013). A arte de pensar com clareza. 52 erros de raciocínio que não devemos cometer. Círculo de Leitores. 256 páginas.


O nosso cérebro pode enganar-nos e com alguma facilidade, conduzindo-nos pela simpatia, pela voz, pela beleza. Quantas vezes compramos, porque o/a vendedor/a foi atencioso/a connosco, usando um tom de voz agradável, sincronizando os seus gestos com os nossos, dizendo-nos o que queremos ouvir. Outro exemplo, pessoas bem sucedidas que escrevem um livro, dando conselhos como atingir o sucesso... ou pessoas que tiveram sucesso (e fama) e foram entrevistados pela televisão ou jornal ou revista, mostrando como o talento e o esforço compensou... na verdade, muitos outros tinham talento e esforçaram-se do mesmo modo, mas não atingiram a fama... Um livro de orientação baseia-se no sucesso do seu autor e não nos fiascos de muitos outros, que não são escutados nem tidos em conta.
"As pessoas enganam-se facilmente. Quem souber isto está mais bem preparado. Rolf Dobelli examina os erros de raciocínio mais traiçoeiros e mais comuns para nos ajudar a perceber:
  • porque sobrevalorizamos sistematicamente os nossos próprios conhecimentos (e tomamos os outros por mais parvos do que são);
  • por que motivo há coisas que não estão certas apesar de milhões de pessoas acharem que sim;
  • porque nos agarramos a teorias que estão comprovadamente erradas".
É mesmo uma leitura muito interessante e de agradável digestão. Uma Universidade obtém melhores resultados, supostamente, o ensino será melhor. Mas como se comprova isso? Pelos professores ou pelos alunos? É que o sucesso pode ter a ver com o facto dos alunos selecionados terem já à partida melhores resultados, pois a exigência das médias era muito maior, levando a que só entrassem os melhores... obviamente que estão reunidas as condições para o sucesso dos alunos e da Universidade!

"Rolf Dobelli nasceu em Lucerna, na Suíça, em 1966. Licenciou-se em Ciências Empresariais pela Universidade de St. Gallen, foi diretor executivo de diversas empresas e fundou com amigos a emprega getAbstract, a maior produtora a nível mundial de obras condensadas de economia. Viveu em Hong Kong, na Austrália, em Inglaterra e durante vários anos nos EUA. É fundador e administrador de WORD.MINDS, uma comunidade de personalidades mundialmente conhecidas do domínio da ciência, da cultura e da economia".

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Pe. Diamantino Alvaíde - A presença de Deus nos caminhos dos Homens

DIAMANTINO ALVAÍDE (2021). A presença de Deus nos caminhos dos Homens. Uma proposta de pastoral integrada. Lisboa: Universidade Católica Editora. 296 páginas.


O Pe. Diamantino Alvaíde, autor deste trabalho, é o Coordenador da Pastoral da Diocese de Lamego, Pároco de Moimenta da Beira, de Cabaços e de Sendim. O livro dado à estampa resulta da tese de doutoramento, realizado na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma, sob o título: “O envelhecimento da população como desafio á renovação pastoral diocesana de Lamego. Um projeto de pastoral integrada”.
Para propor ou sugerir um projeto é necessário conhecer as raízes, o contexto, as dificuldades e potencialidades, os aspetos facilitadores e os possíveis entraves. Com este propósito, o Pe. Diamantino estudou os dados sociológicos, a densidade populacional das 223 paróquias que constituem a Diocese, a evolução demográfica ao longo dos anos, relacionamento com as dioceses vizinhas, com Portugal, inserido na Europa. Desde logo uma constatação imediata: envelhecimento da população e desertificação do interior, que afeta as nossas terras.
À análise sociológica e antropológica, sucede a reflexão e fundamentação bíblica e teológica, na certeza de que o Evangelho se destina a todos e todos, os cristãos, são responsáveis por viver, testemunhar e anunciar a Boa Nova da salvação, independentemente da idade, do contexto, as circunstâncias.
Como o título sugere, propõe-se uma pastoral integrada, isto é, dando prioridade à comunidade no seu conjunto, envolvendo todos em todas as iniciativas. Há acentuações que se fazem, setores que se privilegiam, da juventude ou da catequese, mas perante o quadro estudado da realidade diocesana, há de prevalecer a pastoral de conjunto, promovendo a pastoral familiar, que envolve os mais novos e os mais idosos, os netos, filhos, pais e avós. O Pe. Diamantino sugere, por exemplo, que nas festas da catequese os avós tenham uma intervenção ativa (e visível).


Mas vejamos a apresentação do livro (in Voz de Lamego, ano 91/35, n.º 4617, 14 de julho de 2021) nas palavras do Pe. Diamantino:

A obra que se desdobra nas páginas desta publicação oferece uma proposta pastoral denominada «integrada», que abandona a dinâmica dos setores e a lógica do tria munera, para abrir caminho a uma ação eclesial mais integrada e integradora do que compartimentada e setorial, mais personalizada e personalizadora do que organizativa e institucional.
A pastoral integrada surge como urgente, dadas as múltiplas e aceleradas transformações em todos os quadrantes da vida social e do tecido eclesial. Mais urgente se torna, quando nos encontramos num contexto demográfico como o da diocese de Lamego (e de todo o interior de Portugal), onde o envelhecimento das populações prolifera de forma assustadora e a desertificação do território cavalga desmedidamente.
São essencialmente estes dois fenómenos que alavancam a redação deste trabalho, que reforça a urgência de colocar a antropologia no centro e como centro de toda a ação eclesial e, ao mesmo tempo, o desenvolvimento exaustivo de uma consistente eclesiologia de comunhão. Como bem explica D. António Couto, no prefácio do livro, o autor “optou por deixar de lado os rumos estreitos da chamada pastoral setorial, obviamente sem os excluir, e se aventurou no caminho mais largo da chamada Pastoral Integrada, que privilegia a pessoa humana concreta, e a sua envolvência numa Igreja de comunhão, onde todos se sintam envolvidos numa dinâmica permanente de vivência e transmissão da fé, saber Jesus e evangelizar Jesus, que tem de permanecer sempre no meio do nosso círculo, que nunca se pode fechar, mas deve alargar-se cada vez mais, obedecendo à dinâmica do redemoinho do Pentecostes”.
Sem perder de vista que a Igreja só acontece se for sinodal, a proposta que sobressai deste livro é de uma contínua e constante conversão pastoral, com redobrada atenção a todas as pessoas. Desde o mais velho ao mais novo, desde o mais afastado ao mais incluído. A intergeracionalidade e o trabalho em rede, entre pessoas e estruturas pastorais são, talvez, a urgência mais gritante da nossa realidade eclesial.
Para garantir esta sinodalidade, a pastoral integrada propõe uma verificação permanente e um discernimento ininterrupto para acolher os sinais de Deus no tempo e recolher os sinais do tempo de Deus.

Padre DIAMANTINO ALVAÍDE
Diamantino José Alvaíde Duarte, nascido em 1979, em Sarzedo, concelho de Moimenta da Beira, da diocese de Lamego. Entrou para o Seminário de Lamego em 1998. Licenciou-se em Teologia no Instituto Superior de Teologia – Beiras e Douro, da UCP. Foi ordenado presbítero a 30 julho de 2005. De 2005 a 2010 foi pároco em diversas paróquias dos concelhos de Vila Nova de Foz Côa e Mêda. De 2010 a 2015 fez estudos de especialização em Teologia Pastoral, na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. De 2015 até então, é pároco de Moimenta da Beira, Cabaços e Sendim. De 2016 a 2018 foi presidente da Comissão para a Missão e Nova Evangelização. Desde 2018 é o Coordenador Diocesano da Pastoral.

BENTO XVI e ARIE FOLGER - JUDEUS E CRISTÃOS

BENTO XVI e ARIE FOLGER (2020). Judeus e Cristãos. Cascais: Lucerna. 120 páginas.


Por ocasião dos 50 anos da Declaração Nostra Aetate, documento do concílio Vaticano II sobre o diálogo inter-religioso, com o número quatro a ser dedicado ao diálogo entre a Igreja Católica e os Judaísmo, vieram a lume alguns documentos que ajudam a aprofundar as relações amistosas entre as duas religiões.
No diálogo bilateral, os judeus foram convidados a preparar uma resposta ao n.º 4 da Nostra Aetate. É nesse contexto, que o rabino Arie Folger mantém um debate público e por escrito, como o próprio refere no prefácio a este pequeno livro, primeiro contra e depois com Bento XVI, Papa Emérito, com quem se viria a encontrar.
Bento XVI escreve “Graça e chamamento sem revogação. Observações sobre o tratado De Iudaeis”. A publicação gera contestação, não da parte dos judeus, mas da parte de teólogos católicos. Porém, ajuda à reflexão, num pressuposto imediato: o diálogo não se faz à custa de abdicar das convicções e da identidade de cada um. Há caminho para o diálogo, para a reflexão, para aprofundar o conhecimento mútuo, para trabalhar temáticas que levem a um efetivo compromisso com a paz, com a justiça social, com a ecologia e a erradicação da pobreza, com a tolerância religiosa e com a liberdade de expressão. Arie Folger coloca-se do lado de Bento XVI, defendendo que o Papa Emérito propõe a leitura cristã-católica. Não se compreenderia que um Papa defendesse uma visão judaica da Bíblia e da Aliança. Bento XVI agradece e responde a Folger, por escrito, clarificando alguns pontos, como o facto de não haver revogação da Aliança de Deus com o Povo Eleito, e não haver lugar à substituição de uma Aliança por outra, mas de haver sucessivas Alianças de Deus com o Seu Povo, com Abraão, com Noé, com Moisés. Na fé e visão cristã, a nova e definitiva Aliança acontece com Cristo, na oferenda do Seu Corpo, na sua morte e ressurreição.
Há outros pontos de contacto, aproximações, compreensão mútua, compromisso moral, permitindo encontrar-se e rezar juntos.


Este livro contém a reflexão de Bento XVI; o prefácio de Arie Folger; a correspondência entre o Papa Emérito e o Rabino; o número 4 da Nostra Aetate; duas intervenções do Papa Francisco; o documento “Entre Jerusalém e Roma – Reflexões a 50 anos da Nostra Aetate”.
Papa Francisco: “De inimigos e estranhos tornámo-nos amigos e irmãos. Tenho esperança de que a proximidade, a mútua compreensão e o respeito entre as nossas duas comunidades continuem a crescer”.
Bento XVI: “De acordo com as previsões humanas, este diálogo nunca conduzirá à unidade das duas interpretações durante a história atual. Essa unidade está reservada para Deus no fim da história”.

Frei DARLEI ZANON - SIMPLESMENTE JOSÉ

 FR. DARLEI ZANON (2021). Simplesmente José. Romance baseado na vida do Pai adotivo de Jesus. Apelação: Paulus, 392 páginas.


O Papa Francisco estabeleceu que, a partir de 8 de dezembro de 2020, 150.º aniversário da proclamação do Decreto Quemadmodum Deus, com o qual o Beato Pio IX, movido pelas graves e lutuosas circunstâncias em que se encontrava a Igreja, insidiada pela hostilidade dos homens, declarou São José Patrono da Igreja Católica, bem como dia dedicado à Bem-aventurada Virgem Imaculada e Esposa do castíssimo José, até 8 de dezembro de 2021, seja celebrado um especial Ano de São José, em que todos os fiéis, seguindo o seu exemplo, possam reforçar em cada dia a sua vida de fé no pleno cumprimento da vontade de Deus.
A partir do século XVIII começam a aparecer as chamadas "Vidas de Jesus", com o intento de preencher as lacunas existentes na sua biografia, nomeadamente naqueles trinta e poucos anos de vida oculta em Nazaré. Por outro lado, a tentativa de fundir os quatro evangelhos num só, para que houvesse uma maior harmonização, limando e eliminando factos ou palavras que não fosse inteiramente concordes. Este é, com efeito, um critério da autenticidade dos Evangelhos, pois não são cópias uns dos outros ao ponto de coincidirem nos mais ínfimos pormenores. O outro critério complementar é que coincidem nos grandes acontecimentos / ensinamentos. Os evangelhos, porém, não têm uma preocupação biográfica, mas tão somente se fixam no mistério da morte e da ressurreição de Jesus. Esta faz com que os discípulos se voltem a reunir e formem comunidade. A partir daí começam a "pregar", dizer, ensinar o que Jesus disse e fez. Logo, a transmissão leva também o cunho da interpretação de cada um dos apóstolos, ainda que uns possam "aperfeiçoar" o relato dos outros. Mais à frente, a necessidade de fixar por escrito, para não se correr o risco, depois da morte dos apóstolos, não haver fontes fidedignas do que aconteceu na Galileia, na Judeia e na Samaria, com o Mestre dos Mestres.
Neste ano especial de São José, o Frei Darlei Zanon procurou perfazer a (auto)biografia de São José, que relata o que sucedeu para se tornar o pai adotivo de Jesus, recuando à sua genealogia, como à de Maria, e relatando o compromisso, os sonhos, a fuga, o crescimento de Jesus e como Jesus ia surpreendendo a todos.
Já havia um ou outro livro sobre a "biografia" de Nossa Senhora, agora chega-nos a de São José.
É um livro muito interessante para ler neste ano especial, não apenas para perceber melhor a missão de São José, mas de algum modo entendermos mais facilmente a sensibilidade de Jesus. Vejamos a finalizar a autobiografia, em que Deus, em sonhos, comunica com São José, através do Seu anjo: 
José, encontraste graça junto de Deus. Não tenhas medo. A morte dura apenas um instante, não tem poder. O Altíssimo está à tua espera. José, o teu exemplo de humildade e retidão, de dedicação e cuidado, de trabalho e caridade, de justiça e fé serão impressos no tempo e cruzarão todos os séculos. Por pouco tempo, permanecerás afastado de Jesus e Maria, e dos demais familiares aqui deste mundo. Será apenas por alguns instantes, fragmentos de tempo. Em breve a família celeste estará completa. Não tenhas medo, José!
Assim disse o anjo. E eu confiei. Estou pronto. Sinto-me fraco fisicamente, mas muito forte espiritualmente. As minhas energias diminuem, porém a minha confiança no poder do Altíssimo só aumenta. Ele guiará Jesus a partir de agora. O Pai Celeste indicará a hora do seu Filho.

No mesmo sonho, eu respondi ao anjo, comunicando-me com o Senhor:
Obrigado, Adonai, meu Senhor e meu Deus. Cumpriram-se todos os dias da vida que me deste neste mundo, por isso peço-Te que fiques ao meu lado, até que a minha alma saia do corpo sem dor nem aflição. Conforta toda a minha família, para que não sejam tocados pela dor e perturbação. Permite-me em breve contemplar a Tua face, ver a glória de Teu rosto, ser abençoado com a Tua misericórdia e graça, Adonai.
Não temo. Já experimentei o amor no mundo, estou pronto para provar o amor junto do Criador. Superei há pouco meus quarenta anos, vivi tudo o que um homem pode esperar. Sou feliz, estou realizado. Não temo a separação momentânea de todos os que me completam.

O Autor:
Nascido no Brasil fez a sua profissão perpétua em 2007 e está em Portugal desde 2008. É conselheiro geral da Sociedade São Paulo tendo desempenhado a função de diretor editorial da PAULUS Editora, bem como de conselheiro regional e secretário da Sociedade São Paulo em Portugal. É formado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte e recebeu o título de Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo ISCTE-IUL

ÂNGELA COELHO - DENTRO DA TUA LUZ

ÂNGELA DE FÁTIMA COELHO (2021, 2.ª edição). Dentro da Luz. Um itinerário para compreender a Mensagem de Fátima. Fátima: Santuário de Fátima. 288 páginas.


A Irmã Ângela Coelho é licenciada em Medicina, pela Faculdade de Medicina do Porto (1995) e em Ciências Religiosas pela Universidade Pontifícia de Comillas - Madrid (2008); natural de Frende-Baião, na Diocese do Porto, é religiosa desde 1995 e pertence à Aliança de Santa Maria, congregação que se dedica a divulgar a Mensagem de Fátima.
Em 2009 foi nomeada Vice-Postuladora das Causas de Canonização de Francisco e Jacinta Marto e, em 2012, foi nomeada Postuladora Romana das referidas causas, até 13 de maio de 2017, data da canonização dos Pastorinhos em Fátima, em Peregrinação presidida pelo Papa Francisco. Desde 2014 é Vice-Postuladora da Causa de Beatificação e Canonização da Serva de Deus Irmã Lúcia de Jesus. É também Diretora da Fundação Francisco e Jacinta Marto e Mestra de Noviças na sua congregação.
Esta pequena apresentação da Irmã Ângela Coelho coloca-nos de sobreaviso: as suas intervenções sobre a Mensagem de Fátima, como este livro, revela alguém que lida com muita informação, questões, correspondência, investigação, encontros e colóquios, em todo o mundo. Quem teve a alegria de a escutar, a falar dos Pastorinhos, de Francisco, Jacinta e de Lúcia de Jesus, do Imaculado Coração de Maria, do Papa, volta a revê-la nesta obra, com aquele brilho no olhar, que transparece convicção, uma grande fé, acolhida, rezada, refletida. Mantém o entusiasmo na assembleia e facilmente nos envolve com a vida dos Pastorinhos, com o que todos sabemos, ouvimos ou lemos, uma catrefada de curiosidades que permitem abeirar-nos um pouco mais de cada um dos pequenos videntes.
Há imensa literatura sobre a Mensagem de Fátima, com destaque especial para as Memórias da Irmã Lúcia (1 e 2), Apelos da Mensagem de Fátima e Como vejo a Mensagem através dos tempos e dos acontecimentos, e ainda “O meu caminho”, diário da Irmã Lúcia. Obviamente que ler a vidente que assumiu a missão de espalhar a devoção ao Imaculado Coração de Maria é como que acolher a Mensagem de Fátima em primeira mão. A Irmã Ângela, estando tão comprometida com a divulgação da Mensagem, até pelo facto de a congregação a que pertence ter esse especial carisma, o facto de ter mantido conversas com a Irmã Lúcia, no processo de postulação das Causas de Canonização de Francisco e Jacinta Marto, e ter acesso a documentos, a cartas, ouvindo muitos testemunhos, estudando/escutando “especialistas”, a participação em seminários e colóquios dedicados à Mensagem de Fátima, fazem com que tenha um manancial de informação, mas que converte em testemunho de fé.
Ao longo do Livro perpassa também o magistério da Igreja, mormente com os Papas Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI (cujo comentário teológico sobre a terceira parte do Segredo de Fátima, quando era Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, então Cardeal Joseph Ratzinger, fazem dele um intérprete privilegiado da mensagem de Fátima, lida em nome da Igreja com fundamentação bíblica e teológica) e Papa Francisco, que veio a Fátima, em 2017, para declaração os Pastorinhos Francisco e Jacinta como Santos.

O relance pelo índice do livro, permite abrir o apetite para a leitura do mesmo:
1. Uma escola de fé;
2. Uma luz para o nosso mundo
3. Conhecer-se à luz da Trindade
4. A Eucaristia acreditada, celebrada e vivida
5. O Segredo que revela o essencial
6. O Imaculado Coração de Maria
7. O Rosário, a oração de todos os dias
8. A reparação, vida oferecida
9. Consagração ao coração de Maria
10. Francisco Marto, o Menino da Sarça Ardente no coração
11. Jacinta Marto, a Menina ferida no coração
12. Lúcia, uma vida plena de luz

O Prefácio esteve a cargo do Cardeal de Fátima, D. António Marto. Diz-nos ele: “Esta publicação é, em grande medida, fruto do empenho pastoral de várias dezenas de anos, mas particularmente dos Cursos sobre a Mensagem de Fátima, iniciativa com que o Santuário de Fátima assinalou o septenário de preparação para o Centenário das Aparições e que se mantém ainda como lugar privilegiado de divulgação da Mensagem.

Que a leitura desta obra permita ao leitor penetrar a Mensagem que em Fátima nos é confiada e, acima de tudo, viver dentro da luz. É essa a experiência fundamental da vida cristã, chegarmos a dizer como São Francisco Marto: «Nós estávamos a arder naquela luz que é Deus e não nos queimávamos». Nada mais desejamos do que habitar nessa luz terna, suave, no meio da noite, que nos leva mais longe, porque é apenas ela a nossa morada permanente”.

domingo, 22 de agosto de 2021

Pe. Justino Lopes - Estrelas no meu caminho

JUSTINO JOSÉ LOPES (2020). Estrelas no meu caminho. Lamego.


“Pe. Justino, tu és jovem, trazes contigo o sonho, o entusiasmo, o espírito de aventura. Nós temos a experiência de muitos anos de trabalho. Se nós aceitarmos o teu entusiasmo jovem e tua aceitares a nossa experiência, podemos fazer um bom trabalho pastoral nesta zona”. Palavras do Padre José Augusto Neto ao Pe. Justino por ocasião da sua entrada em Nespereira como pároco. 
Fazer pontes entre os novos e os anciãos. É uma das insistências do Papa Francisco. Valorizar o sonho e a memória, um futuro com raízes e sabedoria. É uma das perspetivas desde livro, do Padre Justino, colaborador amigo da Voz de Lamego: fazer memória… memória agradecida, mas também desafio às novas gerações de sacerdotes. Os que aqui apresenta estão mais ligados ao Touro, Alhais, Vila Nova de Paiva, Vila Cova à Coelheira, Queiriga, naturais dessas terras ou entranhados nelas como párocos, além de outros padres amigos e, claro, dos Bispos, a começar por D. Alberto Cosme do Amaral, natural do Touro, e continuando com D. Américo Henriques, Bispo Mariano, Bispo Mártir, Bispo Missionário; D. António Castro Xavier Monteiro; D. António José Rafael… O livro termina com as Bodas de Ouro sacerdotais do Padre Justino com uma breve autobiografia, que é também um testamento sacerdotal. 
Muitos dos textos foram publicados na Voz de Lamego. É um trabalho meritório que recolhe apontamentos sobre sacerdotes que brilharam como estrelas sem darem pontapés na lua (cf. Prefácio). Creio que numa próxima Assembleia do Clero ou Jornadas de Formação o livro será devidamente apresentado. Pode ser um incentivo a que se faça o mesmo para outras zonas pastorais da Diocese, recuperando a memória dos pastores que nos precederam e como, em circunstâncias adversas, souberam viver e testemunhar Jesus Cristo e deixar marcas profundas de adesão ao Evangelho. Há outras coletâneas interessantes como “Seminário e Seminaristas”, do Pe. Manuel Gonçalves da Costa, e também dele as Paróquias Beiraltinas (Penude e Magueija), ou recentemente “Religiosos e Sacerdotes de Magueija (Biografias do séc. XX )”, de Paulo Jorge de Almeida Ribeiro ou livros sobre um padre específico, mas há espaço para que outras paróquias possam reavivar a memória dos seus padres e dos seus párocos. 
Para nós sacerdotes, mas também para os leigos, será uma forma de conhecermos melhor aqueles que nos precederam e como as paróquias/freguesias evoluíram com umo contributo inegável dos seus párocos. 
Uma das dimensões que o Pe. Justino ressalta é a dimensão missionária da Igreja, com sacerdotes que dedicaram a sua vida às “missões” ou que, mais tarde, deixaram a vida paroquial para concretizarem o sonho de serem missionários. 
Inicialmente, a sugestão do livro era para se centrar num antigo Diretor da Voz de Lamego, mas quando a pena começa a deslizar nunca se sabe onde vai parar. Já o sugerimos, logo no início do confinamento… com um texto de Louro de Carvalho, apenso ao próprio livro, e posteriormente na resenha do reverendo Pe. Joaquim Correia Duarte… e daí o sublinhado que gostaríamos de fazer, sendo, como dizíamos, que muitos textos foram publicados no nosso Jornal Diocesano.

Notas: D. António Rafael, administrador da Voz de Lamego… articulistas na Voz de Lamego, como o Pe. Ilídio Fernandes ou o já citado Pe. Neto… Diretor: Pe. Manuel Alves da Fonseca Pinto da Gama, natural dos Alhais, com intervenções em diversos jornais… em 1921, “foi-lhe entregue o ‘Boletim da Diocese’ e, depois, a Voz de Lamego, onde assinava com o pseudónimo de Mininimus”, enfim, um jornalista brilhante!

Alberto Camus - A Peste

 ALBERTO CAMUS (2019). A Peste. Porto: Livros do Brasil. 264 páginas.


A Peste, do filósofo Alberto Camus, é um romance que bem poderia ter sido escrito para a pandemia, ou resultante da pandemia do novo coronavírus, que se transforma em doença, Covid-19. A Peste descreve, com grande exatidão, o que sucedeu e o que está a acontecer com este surto pandémico atual.
Na cidade de Orão, na Argélia, em 1940, surge a peste. Aparece um rato ensanguentado, do nada, e morre, como que rebentando. Multiplicam-se os ratos mortos. Um bairro, rapidamente se espalha por outros bairros e por toda a cidade. Ativa-se uma plano para desinfestar a cidade, para recolher os ratos mortos e tentar que não invadam nem as ruas nem as casas. Tenta desvalorizar-se o fenómeno que não se percebe, procurando que os jornais não dramatizem.
Entretanto, surge um homem, doente, com febre, com falta de ar, com pequenos caroços na pele, que rebentam e expelem sangue. Surgem outros casos. A preocupação das autoridades é controlar a peste, agir com cautela, procurando não gerar pânico, controlando, de algum modo, a informação. Os primeiros dias são de reserva, de dúvidas, não falando em peste e não assumindo claramente tal doença. Adia-se ao máximo falar de peste para evitar situações de alarme, até ao ponto de ser inevitável. "A opinião pública é sagrada: nada de pânico. Sobretudo, nada de pânico". A partir de então traçam-se as medidas a adotar, isolar as pessoas que têm peste, retirando-as do ambiente familiar, criando espaços de quarentena, recolher obrigatório, evitar aglomerações e festas, fechar as fronteiras - ninguém pode sair e só podem entrar os que são residentes em Orão, aos funerais só podem assistir familiares próximos, e com o avançar da peste, abrem-se valas comuns e são sepultados sem a presença de familiares, o culto é suspenso, a economia para e favorece a economia paralela."A peste é a ruína do turismo". O número de mortos vai aumentando, organizam-se equipas para recolher as pessoas com peste, para assistência nos hospitais, para os funerais; prepara-se e testa-se um soro de forma a salvar os contaminados, com momentos de elevada expetativa e com desilusões sucessivas.
A falta de meios mas também a falta de pessoas para lutar contra a peste.
À peste junta-se o medo, o anseio de contactar familiares e amores, vai-se perdendo a esperança, vive-se um dia de cada vez, com um certo embotamento que se vai gerando, vive-se em suspenso, quase anestesiado. O risco de loucura aumenta progressivamente. A separação é uma das consequências mais nefasta da peste e do fechar das fronteiras. Até a correspondência é suspensa, com medo que as cartas possam provocar contágio.
Como na pandemia atual, também em Orão se percebe que estão todos no mesmo barco. "uma vez fechadas as portas, aperceberam-se de que estavam todos, até o próprio narrador, metidos no mesmo saco e que era necessário arranjarem-se". E mais à frente: "É claro que as coisas não estão melhor. Mas, ao menos, toda a gente está metida nos mesmos lençóis".
Produzem-se crenças erradas, como acontece também com a pandemia, como por exemplo, o álcool preservar das doenças infeciosas, pelo que aumenta o número de bêbados todas as noites. É interessante o diálogo do médico, Rieux, ateu, com o Padre, Tarrou: "O que eu odeio é a morte e o mal, bem sabe. E, quer queira quer não, estamos juntos para os sofrer e combater. Bem vê, nem mesmo Deus pode agora separar-nos". E por falar em crenças, a religião é substituída pela superstição, com uso de amuletos e medalhas protetoras, bem como profecias, como de Nostradamus, ajustando-as aos tempos presentes.
Coisa curiosa também, em paralelo com a pandemia pelo novo coronavírus, também em relação à peste, as autoridades contam com a sazonalidade. No caso da pandemia, contavam com o tempo quente; no caso da peste, contavam com o tempo frio para deter o avanço da mesma. "À força de esperar, não se espera já, e a nossa cidade vivia sem futuro".
Quando se aproxima o Natal... para eles "o Natal, nesse ano, foi mais a festa do Inferno do que do Evangelho. As lojas desertas, privadas de luz... as igrejas estavam cheias de lamentos, mais do de ações de graças...."
Coloca-se também a questão da normalidade e do futuro após a peste. "Cottar não sorria. Queria saber se se podia pensar que a peste nada mudaria na cidade e que tudo recomeçasse como dantes, ou seja, como se nada se tivesse passado. Tarrou pensava que a peste mudaria e não mudaria a cidade, que, bem entendido, o mais forte desejo dos nossos concidadãos era e seria fazer como se nada tivesse mudado e que, portanto, em certo sentido, seria mudado, mas que, noutro sentido, não se pode esquecer tudo, mesmo com a vontade necessária, e a peste deixaria vestígios, pelo menos nos corações".
"Em Orão, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, é-se obrigado a amar sem o saber...

domingo, 11 de julho de 2021

SAROO BRIERLEY - A LONGA ESTRADA PARA CASA

SAROO BRIERLEY (2015). A Longa Estrada para casa. Lisboa: Editorial Presença. 208 páginas.


Esta é uma história real colocada em livro. Um menino perde-se, numa estação de comboios, na Índia, e só passado 25 anos volta a encontrar a sua mãe, e também a irmã e o irmão, já casados e com filhos. O mais velho, que o tinha levado para trabalhar e o deixou na estação, com a intenção de voltar, morreu nesse dia debaixo de um comboio.
Como o irmão mais velho não regressasse, Saroo entrou num comboio que o levou durante várias horas até Calcutá, ficando a quilómetros de distância de casa e sem saber como se identificar ou à localidade de onde era originário.
Entregue às autoridades, acabaria por ser adotado por um casal australiano, que decidiu que já havia demasiadas pessoas no mundo, e assim, em vez de terem filhos biológicos, adotariam. Foi numa altura que a adoção estava mais agilizada, e que muitos australianos adotaram crianças oriundas da Índia. Saroo foi de avião para a Tasmânia, na Austrália. Os pais adotivos acabariam por adotar outra criança também indiana.
Nunca se esqueceu de alguns dos pormenores, desde que se perdeu, até embarcar num comboio, a caminhar quilómetros, com a noção de que pelo menos durante 12 horas, e parar às ruas de Calcutá. Junto á estação, procurando comida no lixo ou junto de outras crianças na rua, enfrentando diversos perigos... até um jovem o levar á polícia, entrando assim num sistema público até á adoção. Pelo caminho, entrou em vários comboios com a esperança de regressar a casa.
Procurou memorizar lugares, pessoas, percursos, a mãe, os irmãos, para um dia regressar. No quarto  tinha o mapa da Índia que a mãe (adotiva) lhe tinha colocado lá, para sempre se lembrar das raízes. Já no tempo da universidade, regressou às pesquisas, através do Google Earth, incentivado e ajudado por outros indianos, procurando rotas dos comboios, velocidades que fariam os comboios nos anos oitenta, fazendo zoom sobre imagens reais, á procura de estações que se assemelhassem à estação de comboios da sua terra. A pronúncia da terra, como também do nome, sempre dificultaram a pesquisa. Depois de muitas horas e quando se preparava para continuar a procurar, moveu o mapa aleatoriamente e aumentou o perímetro de procura e encontrou a sua terra. Recorreu depois a um grupo no Facebook para confirmar com os dados que tinha. E isso também foi de grande ajuda.
Passados 25 anos regressa à Índia para encontrar a família, visitar novamente Calcutá e as pessoas que o ajudaram e para tentar reconstruir a viagem de comboio, da sua terra até Calcutá.
Foi entrevistado para televisão. Publicou este livro que, entretanto, inspirou um filme: Lion - A Longa Estrada Para Casa. Quem tiver a oportunidade de ler o livro e ver o filme, vai verificar que existem algumas diferenças na história, ainda assim permitem perceber a história vivida e narrada, e visualizar a imensa pobreza que ainda existe na Índia. Por outro lado, o livro tem o propósito de ajudar outras crianças ou jovens, perdidos, a não desistirem de encontrar as famílias de origem. Perdem-se cerca de 80 mil crianças, por ano, na Índia.


Vejamos agora o livro apresentado pela Editorial Presença:

Quando Saroo Brierley se serviu do Google Earth para descobrir a aldeia onde nasceu, a milhares de quilómetros de onde vive e da qual quase não se lembra, rapidamente se tornou notícia em todo o mundo.

Saroo, de cinco anos, está numa estação de caminho de ferro, sozinho. Perdeu-se de Guddu, o irmão mais velho, que o acompanhava. Sem saber como regressar a casa, enfia-se num comboio acreditando que Guddu há de encontrá-lo. Ali adormece e no dia seguinte vê-se nas perigosas ruas de Calcutá, por onde deambuIa durante semanas, só e sem qualquer documento, perante a indiferença da multidão. Acaba por ser acolhido num orfanato e, mais tarde, é adotado por um casal australiano. Embora feliz na Austrália, com a sua nova família, que em vão tenta conhecer as suas origens, Saroo nunca deixa de pensar na mãe e nos irmãos que ficaram a quase meio mundo de distância. Anos depois, passa horas a perscrutar imagens do Google Earth na esperança de localizar e identificar referências da sua aldeia que lhe permitam reencontrar a mãe biológica.

Um testemunho verídico na primeira pessoa, comovente e intenso, que já inspirou milhões de pessoas em todo o mundo. um hino à esperança, ao poder dos sonhos e à coragem de nunca desistir, que agora vê nova luz numa adaptação ao cinema pelo realizador Garth Davis com Nicole Kidman, Rooney Mara e Dev Patel

sábado, 10 de julho de 2021

TERESA POWER - TODOS OS DIAS DA NOSSA VIDA

TERESA POWER (2021). Todos os dias da nossa vida. Prior Velho: Paulinas Editora. 128 páginas.


Este é um livro que procura de testemunhar 25 anos de matrimónio. A autora, Teresa Power, percorre os 25 anos de compromisso a partir das leituras, das orações e do compromisso no dia do matrimónio. E como que distribui ou textos pelo tempo de encontro e namoro, o momento do consentimento e os vinte cinco anos de vida de casados, com o nascimento dos filhos e da vida familiar.
O compromisso inicial, concretiza-se nas dificuldades e nas bênçãos, na gravidez e o nascimento de um e outro filho, o crescimento, a educação, as opções. A alegria cresce à medida que a família aumenta. Os momentos de oração em família, a participação na missa do domingo e escuta da palavra. Todos os dias, a oração de bênção à refeição, com música e cânticos, a oração do terço, as leituras diárias da Missa, fazem parte do compromisso da educação na fé dos filhos. Os pais rezam e os filhos aprendem naturalmente a rezar e a apreciar o ambiente orante. 
A história da salvação, narrada da Bíblia, é também a nossa história, a história da família. Sete filhos vivos, que são uma bênção, mas também o filho que morreu. A doença e o definhar desse filho envolveu lágrimas e lamentos, mas muita oração e a presença permanente, ora do pai ora da mãe.
É um livro que se lê com muita facilidade. Em cada página escrita transparece vida, fé, a gratidão.


Vejamos o livro sugerido na plataforma iMissio, por Bento de Oliveira:
"Esta é a história de uma vivência partilhada, uma história real, contada na primeira pessoa. Usa uma linguagem límpida e corrente por onde escorre uma comunicação ardente e entusiasmante!… A autora adianta, na Introdução, algumas das motivações que a forçaram a fazer esta partilha – «Quando, há um quarto de século atrás, o Niall e eu celebrámos o nosso matrimónio, não sabíamos que estávamos a iniciar uma história bíblica» – e acrescenta, então a razão maior: «Escrevi este livro para nunca me esquecer deste milagre… como oração de louvor, de súplica e de ação de graças.»
Extravasa do coração da autora o impulso de uma palavra que a força como um dever «para que outras famílias se deem conta de que a história de cada um é uma história bíblica» … ainda que para alguns, no decurso de tempos envoltos em névoa, sintam obliterado o céu.
Teresa Power é mãe de uma família de 8 filhos. Fundadora, junto com o marido, Niall, de um novo movimento laical, as Famílias de Caná, que pretende revitalizar a espiritualidade familiar. Teresa traz agora a público algumas das experiências espirituais que vive em família.
Para esses, especialmente, foi escrito este livro que os ajudará, sem dúvida, a (re)descobrir «o amor deste Deus imenso que nos dá não duas, mas infinitas oportunidades de regresso a Ele» … e às muralhas da família que Ele habita e que sempre cobre de bênção sempre que comungada".



Algumas expressões da autora:
Nenhum de nós pode escolher os membros da sua família: não escolhemos os pais, não escolhemos os filhos, não escolhemos os tios ou sobrinhos, os avós ou os netos, os sogros ou as noras. Há uma única pessoa da nossa família, uma única, que podemos escolher: o nosso cônjuge. Não é irónico ver que cada vez mais pessoas parecem errar na única escolha livre lhes é dado fazer?

O amor, por definição, não tem fim. Ninguém ama a prazo. Ninguém ama sem ser loucamente, absurdamente, para sempre. Dizia Pier Giorgio Frassati: «O amor nunca diz: já chega». Porque o amor não é um sentimento, que hoje se experimenta e amanhã já mudou. O amor, diz Jesus, é o mandamento: Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei  (Jo 15, 12).

Um dia a nossa vida era perfeita, no dia seguinte acordamos no hospital pediátrico. Apesar de ambos estarmos já familiarizados com morte, o Niall de um irmão, eu do meu pai, a doença Tomás apanhou-nos totalmente desprevenidos. Agora, 14 anos depois destes dois meses no hospital pediátrico, falamos da morte com frequência. Porque não lhe temos mais medo. Porque sabemos que ela já não nos pode matar, antes nos projeta na vida.

Filho não é um direito, o filho é um dom. Nunca faremos nada que mereça tamanha graça de Deus. O filho ultrapassa-nos sempre, vem de nós, mas não nos pertence, nasce do nosso corpo, mas traz em si uma semente de eternidade.

A mãe dá luz, o pai precisa de cortar o cordão umbilical, uma e outra vez; a mãe dá colo, o pai lança o filho ao ar, em contínuos movimentos de vaivém - a brincar e na vida real; a mãe dá o leite, o pai dá o alimento sólido; a mãe abriga, o pai desafia; a mãe transporta o filho um abraço, para que viva ao ritmo de seu coração; o pai transporta-o às cavalitas - para que veja mundo, bem apoiado no seus ombros.

Estamos decididos a batizá-los [os filhos] poucos dias depois de nascer, para que não percam um só dia da graça que Deus lhes quer oferecer. E a levá-los à missa todos os domingos da sua vida no meio de nós. Porque não há forma mais excelente de os fazer a experimentar o Céu na Terra que a Eucaristia... Mas não podemos falhar no nosso dever primeiro de os levar a Casa do Pai, domingo após domingo, e de os ensinar a conversar com Ele, dia após dia. É que antes de serem nossos filhos, são filhos de Deus...

sábado, 29 de maio de 2021

Samuel Lauras: FILHOS DA LUZ EM TEMPOS DE PROVA

DOM SAMUEL LAURAS (2020). Filhos da luz em tempos de prova. Reflexões de um monge para nos mantermos unidos na adversidade. Braga: Frente e Verso. 250 páginas.


Pelo título, sem mais, diríamos que foi escrito em tempo de pandemia e para ajudar a manter a esperança neste tempo de especial provação. Com efeito, foi escrito antes da pandemia, mas é claramente um livro para este tempo, de luzes e sombras. Todos temos as nossas. Mas importa caminharmos, juntos, apesar das nossas diferenças. É possível conciliar São Bento com São Francisco de Assis, como é possível acolher com o mesmo deferimento Bento de XVI e Francisco.
Dom Samuel Lauras é natural da França eem 1954. Na juventude andou afastado da fé e da Igreja. Em 1983, entrou na Abadia de Notre Dame de Sept-Fons, fundada em 1132, da Ordem Cisterciense da Estrita Observância, conhecida como "Trapista". Hoje é abade de Nový Dvur, uma filha de Sept-Fons fundada na República Checa em 2002.
Dom Samuel parte da constatação de que todos somos diferentes, mas todos igualmente, filhos de Deus. Sendo diferentes, podemos aqui e além, deixar vir ao de cima as nossas sombras e criar muros intransponíveis. O desafio, não é anular as diferenças, sejam culturais e religiosas, mas procurar pontos de contacto, e quando não é possível aproximação nas ideias, que haja aproximação na oração, ao mesmo Deus, mantendo-se aberta a porta do diálogo, numa atitude de respeito e acolhimento do outro. O outro tem as suas sombras... mas eu e tu também as temos.
Na contracapa: "Foi nesta escuridão iluminada pela Palavra de Deus, afetado pela ansiedade com o futuro, preocupado com a evolução da sociedade contemporânea, assustado com os dramas que debilitam a Igreja e desolado pelos conflitos que estão a alterar as nossas relações internas, e que estão presentes em mim, que decidi escrever este livro, para dar testemunho.
Dar testemunho de quê? De que é possível viver em Igreja, estar na sociedade, discordar e discutir sem destruir os vínculos que mantêm de pé a comunidade cristã, seja a comunidade dos amigos, dos religiosos, da paróquia, do movimento apostólico, da diocese, da Igreja universal...
É possível discutir sem deixar de ser filho da Luz. Dom Samuel Lauras, abade trapista, não poupa nas palavras, não deserta dos problemas, não esquece o bom humor e, a certa altura, deixa-nos um conselho: "Se não tivéssemos razões para discutir, como ocuparíamos os nossos dias? Talvez pudéssemos construir o futuro..."
É um livro que se lê com agrado, de fácil leitura, acessível, com provocações que nos fazem refletir, sem teias de aranha, partindo sempre da verdadeira Luz com a qual devemos inundar as nossas vidas, opções, caminhos, discussões, as nossas comunidades.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Pe. Aniceto Morgado - MEMÓRIAS DO CORAÇÃO

 P. ANICETO MORGADO (2021). Memórias do Coração. Lamego: edição pessoal. 154 páginas.


Como o título indica, este livro, agora sugestão, do Pe. Aniceto da Costa Morgado, apresenta memórias que ficaram gravadas no coração, e na vida, e agora estão fixadas em livro para que outros possam rever tempos passados, momentos e lugares ou situações similares. Os familiares, amigos, colegas e paroquianos veem retratadas várias situações da vida do Pe. Aniceto, desde o contexto familiar e social onde nasceu, a vivência da fé, a vocação, a vida no Seminário, o serviço sacerdotal em diferentes dioceses, a vida em Seminário, ora como prefeito ora como Diretor Espiritual, a vida nas paróquias e algumas peripécias.

No prólogo, o Pe. Aniceto apresenta as memórias e a razão de as colocar por escrito:

"O momento que a humanidade está a viver é de grande provação. Esta pandemia atingiu todos os países, credos e classes, mostrando-nos quão frágeis somos e dependentes uns dos outros. Só unidos poderemos vencer este inimigo comum. Mas, como em qualquer crise, podemos encontrar pontos positivos e oportunidades de crescimento e mudança. Pessoalmente, vivi belos momentos de intimidade com Deus, estive mais perto da família, respirei o ar puro da serra e experimentei a presença e o afeto dos amigos. Confinado na minha aldeia, recordei cenas e emoções dos tempos de criança e jovem, como quem faz “o filme da sua vida”. Resolvi então pôr por escrito todas essas vivências, pois só quem conhece e respeita o passado, pode avançar e projetar o futuro. É uma espécie de avaliação do caminho percorrido, marcado pela presença amorosa de Deus, que me leva a partilhar estes apontamentos com familiares e amigos. Chamo-lhe memórias do coração porque só guardamos aquilo que deixa marcas no coração".

A venda do livro reverte para a Cáritas Diocesana de Lamego.
É um livro que se lê com muito agrado. Feiras e romarias, festas populares, a situação da vida no campo, o ambiente familiar, o trabalho e as dificuldades, a vocação, a vida no Seminário Menor e depois no Maior, os desafios da vida paroquial/pastoral, a relação com os colegas e com os paroquianos, as alegrias e alguns contratempos, tudo faz parte da vida que se preenche de encontros e alguns desencontros, de muitas alegrias e alguns contratempos.
Além dos texto uma pequena fotobiografia que nos permite visualizar alguns momentos relatos no decorrer da escrita.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

P João Luís Silva - Todos os caminhos vão dar a tua Casa

JOÃO LÚIS SILVA (2021). Todos os caminhos vão dar a tua Casa. Lisboa: Paulus Editora. 152 páginas.


O Pe. João Luís Silva recolheu o testemunho de 55 personalidades, conhecidas dos portugueses, e que dão o seu testemunho sobre a fé e espiritualidade ligada a Nossa Senhora de Fátima. Para prefaciar, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, que revela que gostaria de estar como um dos testemunhos, mas ainda assim, como Presidente da República revela a sensibilidade do povo português e a relação dos portuguesas com Nossa Senhora, particularmente invocado como Nossa Senhora de Fátima. «E, hoje, como muitas outras exteriorizações do fenómeno religioso, reveste-se de feições globais, ecuménicas, diversificadas, umas mais ortodoxas, outras mais heterodoxas, múltiplas do foro individual, ou sem enquadramento institucional rígido. Como um todo, nunca deixou de ser uma realidade também nacional. Também partilhada, à sua maneira, por milhões de Portugueses, cá dentro e lá fora, nas Comunidades espalhadas pelo Mundo», afirma o Presidente da República.

Eis as personagens que dão o seu testemunho:
Ana Sofia de Maria e da Trindade; André Sardet; Ângela de Fátima Coelho; António Silva Ribeiro; António Zambujo; Aura Miguel; Branca Paúl; Carlos Azevedo; Cláudio Ramos; Cuca Roseta; Eunice Muñoz; Fátima Lopes; Fernanda Serrano; Fernando Santos; Filomena Teixeira; † Francisco José Senra Coelho; Francisco de Noronha e Andrade; Hélder Reis; Helena Sacadura Cabral; Isabel de Herédia; Isabel Silvestre; Joana Vasconcelos; João Aguiar Campos; João de Carvalho; João César das Neves; João Rôlo; João Sousa Araújo; José Luís Nunes Martins; Katia Guerreiro; Laurinda Alves; Leonor Leitão-Cadete; Manuel Arouca; Marco Daniel Duarte; Marco Paulo; Maria Amélia da Costa; Maria de Fátima Murta; Maria José Paschoal; Mário Tavares de Oliveira; Nuno Miguel Prazeres; Paulo Aido; Paulo Rocha; Pedro Conceição; Rão Kyao; Ricardo Carriço; Ricardo Pinheiro; Rui Nabeiro; Ruy de Carvalho; Sofia Alves; Tânia Ribas de Oliveira; Thereza Ameal; Tony Neves; Vera Roquette; Vítor Espadilha.

O autor:
Pe. João Luís Gonçalves da Silva nasceu em Chaves, e é atualmente presbítero da Arquidiocese de Évora. Licenciou-se em Educação de Adultos e Desenvolvimento Comunitário pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa. É assistente do Secretariado do Movimento da Mensagem de Fátima da Arquidiocese de Évora e da Fundação Apostolado do Imaculado Coração de Maria.

Pe. João Luís: «Este livro […] é um tributo à Senhora mais brilhante que o Sol, à Rainha de Portugal, que nesta pandemia acalentou no seu Coração Imaculado cada um de nós com o perfume do seu manto. Desse jardim intemporal germinou este “beijo escrito” pela mão de várias figuras públicas da nossa sociedade como um testamento que nos leva a contemplar na oração o seu sorriso materno: enquanto houver portugueses tu serás o seu amor, no segredo de cada nome sussurrado».

A venda deste livro reverte a favor do Projeto MENTALizar da Fundação São João de Deus, que intervém junto de pessoas e organizações na promoção da Saúde Mental.

JOSEPH FADELLE - O PREÇO A PAGAR

JOSEPH FADELLE (2016). O Preço a pagar por me tornar cristão. Prior Velho: Paulinas Editora. 6.º Edição. 232 páginas


O título já diz muito do que poderá conter este livro. É um testemunho de vida e de fé. Um muçulmano, escolhido pelo pai para lhe suceder á frente do clã, protegido e temido.
Nasceu em 1964, Mohammad al-Sayyid al Moussaoui, em uma família xiita iraquiana. Uma família cuja tradição quer descendência direta do Profeta através do 7.º Imam.
Vai para o exército, numa altura em que o Iraque de Saddam Hussein guerreia o Irão. O pai fará tudo para o livrar só três anos de tropa a que está sujeito, mas a determinada altura tem que se apresentar ao serviço militar e é enviado para o sul. Fica situado um pouco atrás da zona de combate, mas na sua caserna está um cristão, a quem tentará converter ao Islamismo. No primeiro impulso, quer que lhe arranjem outra caserna: "É um homem bom, um agricultor. Tem 44 anos e é cristão...". Soam os alarmes. Surpresa, medo e pânico que o fazem gritar como um louco... mas o soldado convence-o a esperar. Diz Joseph (Mohamed): "Na minha terra, os cristãos são considerados párias impuros, seres que não valem nada, com quem devemos misturar-nos, custe o que custar. No Alcorão, que recito todos os dias desde a minha mais tenra idade, são hereges que adoram três deuses". Vendo a razoabilidade das palavras do soldado que o guiou à caserna, começa a maturar na possibilidade de ter sido Alá a enviar aquele cristão para ele o converter. Curioso, que mais tarde trata de comprar um cavalo, como presente para Massoud, certo de que o vai converter ao Islamismo.
Os dias vão passando e verifica que afinal não está surpreendido com o odor deste cristão, pois segundo a família, um cristão conhece-se pelo mau cheiro. Vai ficando curioso. Trocam palavras, por exemplo, sobre agricultura. Deixa-se "seduzir" pelo seu charme, pela sua fluência a falar e começa a estudá-lo para saber como o converter ao islão. Entretanto, Massoud ausenta-se durante um dia para tratar de uma missão. Curioso, vê um livrinho, "Os milagres de Jesus", tendo na capa um homem a sorrir, cercado por um halo luminoso. Nunca tinha ouvido falar deste Jesus, mais tarde verificará que o Alcorão lhe dá outro nome. Deixa-se fascinar pelos milagres de Jesus e sente alegria que lhe faz bem. Depois confessa a Massoud, a leitura e pergunta-lhe quem é Jesus: Isa ibn Maryam, o Filho de Maria. A partir daqui fica também a saber que os cristãos também têm um livro Sagrado, a Bíblia, com o Antigo e Novo Testamento. Querendo conhecer a Bíblia, Massoud pergunta-lhe sobre o Alcorão e convida-o a ler (reler) com atenção o Alcorão e não automaticamente. Ao ler o Alcorão vai-se dececionando, como por exemplo a superioridade dos homens e a subjugação das mulheres, que terão só metade do cérebro... o casamento de Maomé com uma menina de 7 anos; ou com uma nora... uma mulher perde o seu marido e deve esperar três meses e dez dias para voltar a casar-se e Maomé casa com uma mulher no dia em que perde o marido, morto a mando do Profeta... Tudo isto deixa Joseph muito abalado na sua fé.
A primeira vez que se recorda de um sonho ao acordar - tinha ciúmes dos irmãos que sonhavam e relatavam os seus sonhos - é sobre um rio, está na margem, na outra margem um homem com cerca de 40 anos, com uma túnica bege, sem gola. Quando começa a atravessar o regato, fica suspenso no ar... o homem da outra margem estende-lhe a mão e ajuda-o a atravessar a água e a aterrar ao seu lado. Fica impressionado com a beleza deste homem, olhos azuis acinzentados, uma barba rala e cabelos longos... Diz-lhe este homem: "para atravessares o ribeiro, precisas de comer o pão da vida".
Quando abre os olhos, Massoud está de regresso e traz-lhe o Evangelho. Fala-lhe das quatro versões do Evangelho e convida-o a começar pelo de São Mateus. Para não seguir todas as indicações, começa pelo quarto Evangelho, o de São João. Quando chega ao capítulo seis, encontra as palavras "o pão da vida". "Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não mais terá fome..."
Começa a sentir-se chamado... "Se Alá fala comigo como um pai que ama os seus filhos, se Ele perdoa aos pecadores, então a minha relação com Ele nunca mais poderá ser a mesma. Já não estou no domínio do medo, mas no do amor, como numa família".


(Reencontro, em França, com o irmão, entretanto também batizado)

A partir de então, começa uma verdadeira façanha, procurando Igrejas para ser batizado, querendo testemunhar Jesus Cristo também junto da família, achando que a família o compreenderá. Vai sendo avisado para ter precaução, pois a conversão ao cristianismo é sentença de morte para o próprio e para quem está envolvido nessa conversão. É preso e torturado, na esperança que esqueça o cristianismo. É lançado sobre ele fatwa pelo aiatola Mohammed Sadr (a grande autoridade xiita no país na época), detenção e tortura, condenação à morte, executada pelo tio Karim e pelos irmãos. Quando vão para atirar sente um impulso, intuição, voz interior, para fugir. Os tiros vão falhando. Cai como morto, desmaiado, na lama. Acorda no hospital, sem saber como foi lá parar. Tinha sido baleado na barriga da perna. Um das balas furou a roupa debaixo do braço. A religiosa responsável pelo Hospital exige que deixe o hospital quanto antes, para não colocar em risco as religiosas e quantos trabalham no hospital. O recursos a cirurgiões amigos da irmã/religiosa que o ajuda, chegam à conclusão que tem que ser extraída a bala quanto antes (não há buraco de saída), mas não encontram clínicas que se disponham a abrir as portas. Enquanto discutem numa sala contígua o que fazer, Joseph chama-os porque está a deitar sangue do outro lado da barriga da perna. A bala desapareceu. Procuram no quarto, mas não encontram. O médico fica incrédulo e propõe que se faça uma ecografia. Conclusão, não há sinais de bala, nem de ferimento no interior da perna, pelo que fica aberta a possibilidade para algo extraordinário.
De aldeia em aldeia, já batizado, ele e a esposa, e os filhos, vão-se escondendo até que rumam a França, onde vivem.
Este é um testemunho, na primeira pessoa, de fé e coragem, no meio de muitas "provações", contratempos, riscos, mas o foco é o batismo e a comunhão e testemunhar a fé em Cristo. E pelo meio muitos sinais e "coincidências"...

segunda-feira, 10 de maio de 2021

João Manuel Duque - NO CORPO DO TEMPO

JOÃO MANUEL DUQUE (2021). No Corpo do Tempo. Teologia Breve I. Braga: Frente e Verso. 188 páginas.


O autor: João Manuel Duque Doutor em Teologia Fundamental pela Phil.-Theologische Hochschule Sankt Georgen, Frankfurt, com uma tese sobre Gadamer. Professor Catedrático da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e Pró-Reitor da mesma Universidade, para o Centro Regional de Braga. Diretor da revista Ephata. Publicou, entre outras obras, Homo credens. Para um Teologia da Fé (UCE), Cultura contemporânea e cristianismo (UCE). É casado e pai de três filhos.

Conjunto de reflexões de fácil leitura, acessíveis, escritas ao longo do tempo na revista "Mensageiro do Coração de Jesus" e agora colocadas em livro, com diversas temáticas, percorrendo o tempo litúrgico: Natal... Quaresma... Páscoa... sobre o Espírito Santo... a vida eclesial.

"De facto, tendo sido elaborados ao longo de cada ano, os artigos iam correspondendo à época do ano em que se publicavam, sobretudo na sua relação com o ano litúrgico e com as principais celebrações do ano cristão — com grande insistência no Natal, na Quaresma e na Páscoa. Por isso, este volume organiza as suas partes segundo esse ritmo, permitindo uma leitura de acordo com o tempo anual correspondente.
É claro que a referência ao tempo evoca, também, a temporalidade da nossa existência. Essa dimensão tem impacto sobretudo no conteúdo dos textos, mais do que na forma. De facto, a perspetiva fundamental da abordagem corresponde a uma compreensão da experiência de Deus no presente da história quotidiana dos humanos, ou seja, no tempo que marca as suas vidas. Daí a escolha do outro termo do título: o corpo. Porque a experiência de Deus e a correspondente experiência de salvação acontece já na história humana, no dia a dia das suas realizações, nos corpos pessoais e comunitários que lhe dão corpo. Ainda que haja uma referência especial ao corpo eclesial, de modo nenhum se pretende que esse corpo possa isolar-se dos corpos pessoais e comunitários que constituem o tecido do mundo, de que a Igreja faz parte e ao qual se orienta. Os corpos são todos permeáveis, porque estão todos expostos uns aos outros. Pretensas imunizações são perversas, ou mesmo ilusórias".

O primeiro texto começa assim:
"'Deus é amor (O Theos agapê estín – Deus caritas est) (1 João) – esta é, talvez, a mais condensada e mais completa «definição» de Deus. Corresponde, de modo pleno, à compreensão cristã de Deus, que resulta de um processo longo e complexo de revelação e de descoberta. Concluir que Deus é amor não é algo evidente, nem isento de consequências. Contudo, a palavra «amor» – e até a palavra «caridade» – sofreu uma forte erosão, sendo necessário algum esclarecimento sobre o seu significado no contexto da tradição bíblico-cristã.

Antes de tudo, amor é um modo de relação entre pessoas – ou entre seres pessoais. O que implica o esclarecimento de alguns elementos do conceito de pessoa. Em primeiro lugar, implica a afirmação da unidade e unicidade de cada pessoa. Isto é, implica que aquele ou aquela que está envolvido ou envolvida numa relação de amor seja único e irrepetível, e não apenas uma energia, um elemento num sistema englobante, um princípio lógico, uma aparência ou outra realidade qualquer. Como tal, não poderíamos considerar o amor como algo do género de uma energia contínua que flui entre os seres, como pontos ou nós numa rede eletrónica, sem que fosse considerada a unicidade pessoal de cada ser nele envolvido.

No mesmo sentido, cada ser único e irrepetível envolvido na relação amorosa é diferente de outro ser. Por isso, o amor é o contrário de uma fusão das identidades e das diferenças dos sujeitos envolvidos numa realidade que os englobasse e lhes anulasse as suas características pessoais. Só é possível amor entre pessoas diferentes – e, ao mesmo tempo, a realidade pessoal resultante da relação amorosa é sempre uma realidade inconfundível com outra.
Em Jesus Cristo, Deus revela plenamente quem é – mesmo que nós, humanos, ainda não o compreendamos completamente. E revela-se amando – dando a vida pelo outro; e revela-se sendo amado – acolhendo a vida como dádiva do Pai. Por isso, o amor de Deus, que se realiza no encontro com o humano, sendo plenamente humano em Jesus Cristo, é que revela o próprio Deus. É claro que, nas condições da nossa existência humana e das suas limitadas capacidades de compreensão, nós só podemos compreender o que seja esse amor de Deus pelos humanos de modo analógico – só a partir da limitada experiência que fazemos do nosso amor humano. Por isso, Deus revela-se, em Jesus Cristo, amando com amor humano – só assim conseguimos compreender e acolher esse amor. Mas, ao mesmo tempo, percebendo nós as limitações do amor humano, também percebemos a sua grandeza e, em certa medida, o facto de albergar, nessas limitações, algo que é maior do que ele mesmo. Por essa via, podemos acolher um amor que seja fonte do nosso amor humano – e, nesse sentido, infinitamente mais perfeito do que ele. Mais do que isso: podemos compreender que a nossa verdade – e a nossa salvação – reside na correspondência prática a esse amor primeiro e originário, pois ele é a fonte do nosso...

... Mas como se nos revela o amor de Deus – e Deus como amor? Precisamente na atuação de Jesus, enquanto ama, como humano. Assim, o amor de Deus que vem ao encontro do ser humano é o próprio Deus que, feito humano, ama humanamente, mostrando aos humanos que o amor humano é o caminho para corresponder ao amor de Deus, acolhendo a salvação. E o amor, que é caminho de salvação, é a capacidade de dar a vida pelo outro, fazendo-se servo do outro, o mais pequeno entre os pequenos, assumindo a debilidade humana – incluindo a condição mortal – como modo de amar, partilhando um modo de ser. É isso precisamente o que acontece no Natal".