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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

VL - O que não se dá perde-se

       Há mais alegria em dar do que em receber. Garante-nos Jesus.
       A vida como o pão, se não se consome, estraga-se. Por melhor que se acondicione, acaba por perder propriedades que nos fazem saboreá-lo mesmo sem nada a acompanhar. Também a vida, se se guarda, desperdiça-se.
       A vida só será plena e abundante no gastar-se a favor dos demais (cf. Lc 9, 18-24). Quem guarda tempo e dons para si, para o futuro, para ocasiões eventualmente mais favoráveis, não é discípulo de Jesus. O discípulo há de imitar Jesus, gastando-se em prol dos outros. Quem acumula para si, perde-se, porque se prende ao efémero e ao finito; quem se dá acumula tesouros para a eternidade. A vida é verdadeiramente minha quando a vivo na relação com os outros e com o mundo. A psicologia moderna lembra-nos que precisamos de gostar de nós para podermos gostar dos outros. Como podemos gostar dos outros se não gostamos de nós mesmos?
       O Papa Francisco sublinha a opção de Cristo que nos leva a centrar-nos nos outros e não em nós. Gostarmos e servimos os outros ajuda-nos a gostar de nós e a sentirmo-nos melhor connosco mesmos, mais úteis e mais felizes.
       Quem se centra demasiado em si mesmo, por mais qualidades que possua, acabará por se perder, se destruir e, fechando-se na sua concha, ficará humanamente raquítico, quando não paranoico, subserviente do aplauso constante dos outros como se fora o centro do Universo. A alegria do Evangelho liberta-nos do mofo para vivermos saudavelmente, caminhando com os outros. Como não lembrar mais uma vez o desejo do Papa Francisco: prefiro uma Igreja acidentada por sair, do que estagnada, doente, por se fechar, centrando-se em si própria.
       Esta semana assistimos, com o Brexit, a um reino unido desligando-se da União Europeia, colocando em causa o propósito das seis nações europeias que sonharam uma unidade entre os diferentes países, fortalecendo laços entre pessoas e povos, garantindo a paz, a prosperidade e o desenvolvimento. A crise económico-financeira, primeiro, e a crise dos refugiados, depois, colocou em causa o sonho de uma Europa solidária. Sobreveio a incapacidade de olhar além das fronteiras, reavivando egoísmos, nacionalismos. Uma Europa aparentemente a desintegrar-se, mas que pode tornar-se numa nova oportunidade, voltando (talvez) aos propósitos que estiveram na sua base. Também aqui vale o desafio de Jesus: quem guarda a sua vida, perde-a, quem a perde a favor dos outros, ganha-a agora e no futuro.

Publicado na Voz de Lamego, de 28 de junho de 2016

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

XXXIII Domingo do Tempo Comum - ano A - 16 de novembro

       1 – Aí está uma das últimas páginas do Evangelho de São Mateus. A concluir o ano litúrgico – no próximo domingo – a narrativa do Juízo Final (cf. Mt 25, 31-46); porquanto Jesus diz-nos como nos preparamos para que o encontro definitivo com Deus nos seja favorável: fazer render os dons que Ele nos dá. A vida nunca será um mar de rosas, terá os seus espinhos e as suas contrariedades, nem tudo dependerá de nós, surgirão imprevistos, situações difíceis que abalam a nossa confiança e, por vezes, nos levam a querer desistir. Mas ninguém viverá a vida por nós. Nem no bem nem no mal. A vida é nossa. Nossa é a história. E ainda bem, se formos meros espectadores da nossa vida, então passaremos pela história como o ar dentro de um balão que se esvazia tão rapidamente que nem se dá por isso. Não darão por nós. É como se não tivéssemos existido!
       No final, seremos julgados pelo amor. O amor que nos aproximou dos outros e que nos levou a transparecer o amor de Deus. Quem vai para o mar prepara-se em terra. Jesus alerta-nos para nos prepararmos bem, investindo o nosso tempo, as nossas energias, os nossos talentos. Não adianta esconder-nos, adiar, deixar que outros resolvam, outros vivam. Há que apostar. Há que arriscar. Podemos errar. Podemos fracassar, esmurrar a cara, podemos cair. Mas importa arriscar, viver, sair, ir ao encontro dos outros, semear o bem e a justiça, cultivar a esperança e a alegria, plantar a misericórdia e o bem, deixar-se cativar pela generosidade e pelo perdão. Mesmo caindo!
       A parábola é extraordinariamente clarificadora. Um homem vai de viagem e confia os seus bens aos seus servos, conforme a capacidade de cada um. Confia neles e segue viagem.
       Assim Deus connosco. Confia em nós. Dá-nos os Seus dons. Não nos pede mais do que aquilo que seremos capazes de assumir, ou capacita-nos em ordem a cumprirmos a missão a que nos chama. Dá-nos o mundo inteiro para cuidarmos. Não nos controla como marionetas. Deixa que o trigo e o joio cresçam conjuntamente. E embora não cesse de nos envolver, de nos desafiar, de nos provocar, aguarda-nos no Seu banquete eterno.
       2 – O que recebeu cinco talentos duplicou os rendimentos. O que recebeu dois talentos também os duplicou. O que recebeu um talento, não fez mais. Cruzou os braços à espera do patrão. Se pobre era, pobre ficou. Lamentou-se pelo pouco que recebeu e nada fez para melhorar a sua situação. Não investiu. Em vez de valorizar o dom recebido, refugia-se no medo em relação ao seu senhor. Ah, como se assemelha à nossa vida cristã: em vez de vivermos em alegria acolhendo a misericórdia de Deus, por vezes, vivemos atemorizados pelo que Deus nos pode vir a fazer. Ora Deus é Pai. Infinitamente misericordioso, bom e justo. O Juízo de Deus depende de nós. A Sua benevolência agracia-nos para que façamos render a vida e os dons recebidos. Nem todos temos as mesmas qualidades, mas se partilharmos o que temos, o que somos, procurando sempre melhorar, estamos a valorizar a balança a nosso favor.
       Aquele homem recebeu um talento e outra coisa não fez que lamentar a sua sorte. A vida pode trazer-nos escolhos que não escolhemos. Pode acontecer que não mereçamos as partidas que a vida nos prega. Fazemos por merecer o melhor e tantas vezes nos deparamos com o pior! O lamento serve como desabafo, e podemos encontrar consolo em quem nos escuta, compreensão e incentivo, como forma de prosseguirmos, apesar de tudo. Porém, a vida não se altera se ficarmos apenas a lamentar-nos. Quantas vezes o copo meio cheio se nos afigura copo meio vazio?
«Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence». A resposta do seu senhor é inequívoca: «Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei; devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu».
       Devolve-se ou paga-se o que se deve, o que se pediu emprestado, agradecendo. Se entramos no sistema económico-financeiro, a devolução é com juros. Só que no caso presente, o banco somos nós. Deus confia-nos os Seus dons. Dá-nos a Sua própria vida, em Jesus Cristo. A Sua vida por inteiro. E que fazemos com este "depósito"? Pomo-lo a render? Investimos para o devolvermos rentabilizado? Ou deixamos tudo na mesma, escondendo-nos no medo?
       3 – Na segunda leitura, o Apóstolo São Paulo evoca as palavras do Senhor Jesus Cristo, dizendo aos cristãos que "sobre o tempo e a ocasião, não precisais que vos escreva, pois vós próprios sabeis perfeitamente que o dia do Senhor vem como um ladrão nocturno. E quando disserem: «Paz e segurança», é então que subitamente cairá sobre eles a ruína, como as dores da mulher que está para ser mãe, e não poderão escapar. Mas vós, irmãos, não andais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão, porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia: nós não somos da noite nem das trevas. Por isso, não durmamos como os outros, mas permaneçamos vigilantes e sóbrios".
       A preocupação pela hora em que seremos "devolvidos" à precedência, chamados à presença do Senhor, após a nossa morte, pode trazer-nos temor. Assusta-nos sempre, por maior que seja a nossa fé, falar da morte, melhor, falar da minha, da tua, da nossa morte. Quando morre alguém que nos é muito próximo, sentimos, em muitos casos, que a vida é madrasta. O Apóstolo alerta-nos para que não sejamos surpreendidos. Se somos filhos da luz, caminhemos como tal, de dia, pela prática das boas obras, da justiça, da retidão, da generosidade para com todos, especialmente para com os mais pequeninos.
       Certo dia, Jesus conta a história de um homem rico, que tendo tido uma grande colheita, manda construir celeiros maiores, dizendo para consigo: "Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te". E se o Senhor o chamar naquela noite, para quem serão aqueles bens? (cf. Lc 12, 16-21). Jesus termina dizendo para acumularmos tesouros que perdurem para lá do tempo e nos façam entrar em definitivo no Seu reino.
       A sensação de estarmos em segurança, não nos deve demover de lutarmos pelo melhor. Não durmamos. Mantenhamo-nos vigilantes e sóbrios, na certeza de que Deus não nos faltará, nem nesta nem na vida futura.

       4 – A referência a Deus, a abertura para o Transcendente, a certeza de uma Vida que não se desfaz com a morte, a esperança na ressurreição – ainda que em gestação sintamos as dores e agruras da gravidez e do parto –, permite-nos olhar para o futuro e acreditar que podemos amar, podemos ser amados, podemos transformar o mundo que habitamos (ou que nos habita.
       A primeira leitura e o salmo falam da felicidade daqueles que temem ao Senhor. É uma felicidade própria, mas também partilhável e assumida em comum:
       "...mulher que teme o Senhor é que será louvada. Dai-lhe o fruto das suas mãos e suas obras a louvem às portas da cidade" (1.ª Leitura). Feliz o marido que encontrou uma esposa que teme ao Senhor. Mas o mesmo se refere a cada um de nós: "Feliz de ti que temes o Senhor e andas nos seus caminhos. Comerás do trabalho das tuas mãos, serás feliz e tudo te correrá bem" (Salmo).
       Temer ao Senhor, não é fugir d'Ele com medo, mas aproximar-se d'Ele com esperança, na certeza do Seu amor por nós, tal como fazemos em relação àqueles de quem gostamos: tememos magoar, tememos desiludir, e, por conseguinte, podendo errar, tentamos dar o melhor de nós.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia: Prov 31, 10-13. 19-20. 30-31; Sl 127 (128); 1 Tes 5, 1-6; Mt 25, 14-30.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A imperfeição humaniza-nos

       "Levamos tanto tempo até perder mania das coisas perfeitas, das pessoas perfeitas, e curarmo-nos do impulso que nos exila no aparente conforto das idealizações, ou finalmente vencermos o vício de sobrepor à realidade um cortejo de confortáveis (mas falsas) imagens! «É preciso ir além da perfeição»...
       "Abraçar a imperfeição é aceitar a amizade como uma história em aberto, que conta ativamente connosco. Na imperfeição é sempre possível começar e recomeçar. A imperfeição permite-nos compreender a singularidade, a diversidade, o real impacto da passagem do tempo em cada um... a imperfeição humaniza-nos. Acolhê-la é uma condição necessária na amizade, e na maturação pessoal que nos cabe fazer..."

       "Todos somos feridos, opacos, inacabados. Cada um de nós traz dentro de si uma quantidade irrazoável de sonhos sufocados, de pontas desacertadas, de palavras que nunca chegaram a ser ditas, de uma violência interior, mais difusa ou concentrada. Mesmo a nossa felicidade vem misturada com a memória de infelicidades que ainda nos ardem, mesmo que as calemos. Somos verdadeiros, porém, quando tomamos consciência disso e quando o partilhamos na confiança de uma amizade. Os mecanismos de autodefesa e de culpabilização só nos isolam mais. E a santidade, há de explicar Jesus a Pedro, não é a impecabilidade, mas este movimento profundo em nós de nos voltarmos para um outro, para o Todo-Outro, e deixarmo-nos atravessar por uma experiência de reconhecimento e misericórdia como na penumbra da catedral o vitral se deixa atravessar pelo luz. O nosso pedido deve, por isso. ser: «Aproxima-te de mim, porque sou um homem pecador» atrevendo-nos a essa forma necessária e rara de audácia que é a humildade"

in TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Oração para pedir os Dons

Vinde, Espírito Santo,
E dai-nos o dom da sabedoria,
Para que possamos avaliar todas
As coisas à luz do Evangelho
E ler nos acontecimento da vida
Os projetos de amor do Pai.
Dai-nos o dom do entendimento,
Uma compreensão mais
Profunda da verdade,
A fim de anunciar a salvação
Com maior firmeza e convicção.
Dai-nos o dom do conselho,
Que ilumina a nossa vida
E orienta a nossa ação segundo
Vossa Divina Providência.
Dai-nos o dom da fortaleza.
Sustentai-nos, no meio de tantas
Dificuldades, com vossa coragem,
Para que possamos
Anunciar o Evangelho.
Dai-nos o dom da Ciência,
Para distinguir o único necessário
Das coisas meramente importantes.
Dai-nos o dom da piedade,
Para reanimar sempre mais
Nossa íntima comunhão convosco.
E, finalmente, dai-nos o dom do
Vosso santo temor,
Para que, conscientes de
Nossas fragilidade,
Reconheçamos a força de vossa graça.
Vinde, Espírito Santo,
E dai-nos um novo coração. Amém

(autor desconhecido)

domingo, 15 de agosto de 2010

Dons de Deus


Um dia, um homem entrou numa loja e, estupefacto, viu um anjo atrás do balcão.
Maravilhado com aquela visão, perguntou: "- Anjo, o que vendes?"
O anjo respondeu: "- Todos os dons de Deus."
O homem voltou a perguntar: "- E custam caro?"
E a resposta do anjo foi: "- Não. É de graça .. é só escolher."
O homem, todo feliz, olhou para toda a loja e viu jarras de vidro de fé, pacotes de sabedoria, caixas de felicidade ... Não estava acreditando que poderia adquirir tudo aquilo.
"- Por favor, embrulhe para mim, muito amor de Deus, bastante felicidade, abundante perdão d'Ele, amor ao próximo, paciência, tolerância..."
O anjo anotou o pedido e foi separar os produtos. Ao retornar, entregou-lhe vários pacotinhos, que cabiam na palma da mão do homem. Espantado, ele indagou: "- Como pode você me dar apenas esses pacotinhos?! Eu quero levar uma grande quantidade dos dons de Deus."
O anjo respondeu: "- Querido amigo, na loja de Deus nós não vendemos frutos. Apenas sementes."

Autor Desconhecido

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Filho Predilecto

"Certa vez , perguntado a uma mãe qual era o seu filho predilecto, ela respondeu com um sorriso:

O filho preferido a quem eu me dedico de corpo e alma,
É o meu filho doente, até que sare.
O que partiu, até que volte
O que está cansado, até que descanse.
O que está com fome, até que se alimente.
O que está com sede, até que beba.
O que estuda, até que aprenda.
O que está nú, até que se vista.
O que está desempregado, até que se empregue.
O que namora, até que se case.
O que se casa, até que conviva.
O que é pai, até que crie.
O que prometeu, até que cumpra.
O que deve, até que pague.
O que chora, até que se cale.

E já com o semblante bem distante daquele sorriso, completou:

O que já me deixou, até que o reencontre..."

Sergio Zambiasi

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Agradeço a Deus...

"Pelas minhas filhas que muitas vezes não limpam o quarto e estão a ver televisão, porque significa que estão em casa.

Pelas roupas que me estão apertadas, porque significa que tenho mais do que o suficiente para comer.
Pelo trabalho que tenho a limpar a casa, porque significa que a tenho.
Pelas queixas que escuto acerca do governo, porque significa que tenho liberdade de expressão.
Porque não encontro estacionamento, porque significa que tenho carro.
Pelos gritos das crianças, porque significa que posso ouvir.
Pelo cansaço no final do dia, porque significa que posso trabalhar.
Pelo despertador que me acorda todas as manhãs, o que significa que estou vivo."