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quinta-feira, 19 de março de 2020

SÃO JOSÉ A CAMINHO DO EGITO

Hoje celebramos a solenidade de São José, Esposo de Maria, Pai adotivo de Jesus, "custodiador" da Sagrada Família de Nazaré. É também o Dia do Pai. Este ano a celebração vai ser diferente, muito diferente. O país iniciou o Estado de Emergência, tornando ainda mais real o que está a acontecer em Portugal e no mundo, o alastrar da pandemia do coronovírus, COVID 19.
Com a violência da contaminação e a perigosidade do vírus, também o medo, a ansiedade e embotamento, uma tristeza que a todos afeta por nos colocar na situação de isolamento social, em quarentena, afastados uns dos outros, saudando-nos à distância ou através dos meios digitais. Encontrar-nos com os amigos, em comunidade, festejar, rir ou chorar juntos não será exequível nos próximos tempos, pois a recomendação é séria e a nossa responsabilidade não é transmissível. Cabe respeitar, respeitar, respeitar, mais do que nunca, o espaço do outro, sem no entanto deixarmos ninguém para trás. A nossa atenção tem de ser redobrada.
Hoje as igrejas enchiam-se de cor, de festa, de alegria, de júbilo e, assim também, a casa, as nossas famílias. Que não se deixe de comemorar este dia em honra de São José ou, se não formos tão crentes, em honra dos nossos pais. É, inevitavelmente, uma comemoração diferente, em suspenso, mas ainda assim oportunidade para agradecermos a vida, na identidade dos pais, a vida em família e o esforço que uns e outros, com responsabilidades diferentes, teremos de fazer para chegarmos a bom porto. O barco está em andamento. Temos que remar no mesmo sentido, temos que remar todos, libertando os mais frágeis, mas contando com a sua presença para nos animarem a prosseguir. É por nós e é por eles, uns pelos outros, uns com os outros, que remamos avançando por meio da tempestade que ainda há pouco se abateu sobre nós. Não queremos que ninguém salte do barco, que ninguém fique para trás, ajudemos os mais cansados,  também precisamos deles, precisamos de todos.
São José é o Protetor da Igreja universal, porque primeiro foi o protetor da Sagrada Família de Nazaré. A vida dele não foi fácil. O momento presente vai ser duro, o caminho vai ser longo, vamos encontrar muitas pedras no caminho. Deus queira que façamos o que disse o Poeta: as pedras que encontrar no meu caminho, vou juntá-las todas, e vou construir um castelo (Fernando Pessoa). Vamos continuar a construir comunidade, a deixar marcas de bem, a ajuntar as pedras que encontrarmos para nos fortalecermos em família e como comunidade.
Depois do nascimento de Jesus, José pôs-se em fuga para o Egito, como refugiado ou foragido (cf. Mt 2, 13-23). Não foi um caminho fácil. Deixou o aconchego da sua casa e da sua terra, deixou os amigos e familiares, mas para segurança de Maria e de Jesus, empreendeu a viagem. Tantas vezes se terá perguntado: se tenho à minha guarda o Filho de Deus, porque é que tenho de enfrentar tantos sacrifícios, porque é que tenho de fugir ou porque é que Deus deixa que isto aconteça ao Seu próprio Filho. Talvez José não tenha ouvido a resposta que esperava, a não ser o que o Anjo lhe revelou em sonhos. Tens de fugir, pega no Menino e Sua Mãe e foge para o Egito. José pôs-se em marcha, permanecendo no Egipto muito tempo, até ao tempo em que ouviu dizer que Herodes já tinha morrido e, então, o Anjo, noutro sonho, mandou-o regressar. E novamente o caminho não se afigurou fácil. José percebeu que ainda não era seguro regressar a Belém e foi para Nazaré.
Finalmente regressou. Foram muitos anos, longe dos seus, longe da terra, longe de casa. Foi um longo tempo em terra estrangeira. Mas foi possível regressar. Pelo caminho, muitas pedras, dificuldades e tropeços, mas sem perder a fé em Deus, a esperança no futuro. A certeza que regressaria animou-o a trabalhar, a cuidar, a educar, a celebrar a fé, a vida, a família. Façamos o mesmo.
Que São José nos proteja, nos livre do desânimo e que no cansaço nos faça ver a Páscoa, a Luz que vem de Deus, que está para lá das nuvens e a certeza do regresso a casa, no caso presente, o regresso à normalidade social.
O caminho vai ser longo, mas não estamos sós, Ele vai connosco, como foi com José, como foi com Moisés e com o Povo Eleito, através do deserto até à Terra Prometida. Deus está no meio de nós. Em cada um de nós. Se tu ajudas, Deus é ajudado. Se tu cais, Deus magoa-Se. Se te levantas, Deus sorri. Se tropeças, Deus inquieta-Se. O que fizermos ao mais pequeno dos irmãos é a Ele que o fazemos. Se deixarmos de fazer, é Deus que deixamos para trás.
Que a Virgem Santa Maria, Esposa de São José, Mãe de Jesus e nossa Mãe, nos afague no Seu colo de ternura e paz, não nos desampare nesta hora de tribulação, de caminho e de luta. Que mais uma vez ela nos traga Jesus, nos traga a paz de Belém, nos traga alegria do Menino, da vida nova e nos faça fazer tudo o que Ele nos pede, e Ele não nos pede mais que não seja amar, amar, amar, que se traduz no serviço e no cuidado uns pelos outros, imitando-O e imitando os Seus pais terrenos, Maria e José.
São José, rogai por nós, pelos nossos pais e pelas nossas famílias.

sábado, 17 de setembro de 2016

XXV Domingo do Tempo Comum - ano C - 18.09.2016

       1 – A vocação primeira do cristão é seguir Jesus, como prioridade, como ponto de partida e de chegada, como compromisso. Não há alternativas. Nem tempo para pausas ou reservas. Não é para quando houver mais tempo ou maior disponibilidade, ou para quando as circunstâncias forem mais favoráveis. Seguir Jesus é a tarefa primeira e decorre da condição mesma do cristão. Como o nome indica somos de Cristo. Que não seja apenas de nome, mas de coração e por toda a vida!
       Não há nada antes. Nem depois. De Cristo por inteiro. Como inteiramente Ele Se nos deu, oferecendo-Se para nos redimir e nos elevar para Deus. Não são palavras. É a vida. Ou Deus ou o resto! Por vezes o resto é deixado para Deus! Quem comeu a carne coma também os ossos! Para Deus terá que ser a nossa vida, com os seus sonhos, projetos, concretizações. Não podemos servir a Deus e ao dinheiro. «Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedica a um e despreza o outro».
       As condições de discipulado são clarificadas por Jesus. Ao longo de alguns domingos, Jesus lembra-nos o que é necessário para nos tornarmos verdadeiros discípulos. Colocar-nos no Seu encalço, seguindo-O e imitando-O, não nos colocarmos à Sua frente, impedindo que outros O vejam, ou fazendo com que nos vejam a nós e não a Ele. Assumir uma atitude de ultimidade, ao serviço de todos, vivendo a vida como quem serve e não como quem está sempre à espera de ser servido. Quem não vive para servir, não serve para viver. Não são suficientes os propósitos, mas a mobilização para agir. Podemos falhar, pecar, errar, mas importa não desistir de procurarmos em tudo e com todos a glorificação de Deus que passa, inevitavelmente, por amarmos e cuidarmos uns dos outros.
       Nada nos deve separar de Cristo, pois nada existe que separe de nós o Amor de Deus, manifestado na vida, na morte e na ressurreição de Jesus. «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo... quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo» (Lc 14, 25-33). É uma preferência para incluir. Quem não tem tempo para Deus dificilmente terá tempo para os outros. Amar a Deus antes de todas as coisas, para não endeusar as coisas nem instrumentalizar as pessoas. Quem ama a Deus ama e cuida dos Seus filhos.
       2 – «Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas também é injusto nas grandes. Se não fostes fiéis no que se refere ao vil dinheiro, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não fostes fiéis no bem alheio, quem vos entregará o que é vosso?»
       A nossa vida passa pelos pormenores. E, por conseguinte, a nossa felicidade. Alguns casamentos fracassam não que tenha havido algum acontecimento extraordinário mas pelo desgaste da rotina, da indiferença, da desatenção aos pormenores, a falta de um elogio, a repetição de gestos que desagradam ao outro, o esquecer-se de perguntar pelo dia de trabalho ou como correu aquela conversa, chateando-se porque algo está fora do lugar habitual.
       Os momentos extraordinários existem. Em certos momentos plenizam a vida e celebram escolhas, trajetos, vivências. Noutros momentos, iniciam novas oportunidades, sonhos, propósitos, novas vidas. Contudo, se vivêssemos em festa diariamente deixava de ser festa para ser rotina. A vida escreve-se em cada segundo, minuto, em cada instante. É feita de pequenos nadas que nos enchem a alma e preenchem e dão sentido à vida: um passeio de bicicleta, a confeção de uma refeição, um sorriso de orelha a orelha, uma conversa com o/a melhor amigo/a, apanhar cerejas, plantar uma árvore, as primeiras palavras do/a filho/a, o cheiro a terra da primeira chuva de outono, uma recordação recuperada!
       Jesus continua a preparar os seus discípulos. Conta-lhes mais uma parábola. Um homem rico tinha um administrador que lhe desperdiçava os bens. Chama-o para prestar contas. Consciente que irá ser despedido, prepara-se para o futuro, chamando os devedores do seu senhor, aliviando-lhes as dívidas, através da alteração das notas de débito.
       Jesus elogia os filhos deste mundo pela sua esperteza, mas desafiando os filhos da luz a "usar" as mesmas armas no trato com os seus semelhantes. Tratá-los bem, com delicadeza, docilidade, ajudando-os, servindo-os, preparando a vida futura, a eternidade onde os semelhantes ajudados possam retribuir ao acolher-nos na eternidade.
       3 – Servir a Deus passa pela fidelidade nas pequenas coisas. Onde a vida germina e se resolve. Pelo cuidado com os nossos semelhantes. Deus garante-nos o Céu. Os nossos semelhantes são a eternidade que começa a despontar. Sem eles, o caminho para Deus fica bloqueado. Ainda que quiséssemos aceder diretamente a Deus, o próprio Deus Se fez um de nós, em Cristo Jesus, escondendo-Se no meio de nós. Para O encontrarmos temos a vida facilitada, encontramo-l'O no nosso próximo.
       O que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. O Senhor Deus "levanta do pó o indigente e tira o pobre da miséria, para o fazer sentar com os grandes, com os grandes do seu povo" (Salmo). Ninguém é inútil, ninguém está a mais, todos filhos de Deus. A opção de Deus, revelada em Jesus, Rosto e Presença da Misericórdia divina, é preferencial pelos desvalidos, os excluídos da vida, doentes, pobres, mulheres, crianças, pecadores, publicanos. Ofender e escandalizar um dos pequeninos, queridos e amados por Deus, é pecado que brada aos céus.
       O profeta Amós alerta-nos, em nome de Deus: "Escutai bem, vós que espezinhais o pobre e quereis eliminar os humildes da terra. Vós dizeis: «Quando passará a lua nova, para podermos vender o nosso grão? Quando chegará o fim de sábado, para podermos abrir os celeiros de trigo? Faremos a medida mais pequena, aumentaremos o preço, arranjaremos balanças falsas. Compraremos os necessitados por dinheiro e os indigentes por um par de sandálias. Venderemos até as cascas do nosso trigo». Mas o Senhor jurou pela glória de Jacob: «Nunca esquecerei nenhuma das suas obras».
       Não estamos sós. Ele segue connosco. Daí também a importância da oração, para nos mantermos ligados, ininterruptamente, e n'Ele adquirirmos a sabedoria do coração: "Senhor, que fizestes consistir a plenitude da lei no vosso amor e no amor do próximo, dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento, para alcançarmos a vida eterna" (oração de coleta).
       4 – O Apóstolo São Paulo, dirigindo-se a Timóteo, exorta-nos a fazer "preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todas as autoridades, para que possamos levar uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade". Na verdade, sublinha, "isto é bom e agradável aos olhos de Deus, nosso Salvador; Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou à morte pela redenção de todos... Quero, portanto, que os homens rezem em toda a parte, erguendo para o Céu as mãos santas, sem ira nem contenda".
       A oração dilata o nosso coração. Quanto mais perto de Deus mais disponíveis para os outros. Em Cristo, Deus vem salvar a humanidade inteira. Quanto mais nos inteirarmos da vontade de Deus, pela oração, maior a consciência de que Ele é Pai de todos, Pai de misericórdia e como Pai quer que todos os filhos se salvam. Se queremos ser Seus filhos, teremos de cuidar dos outros como irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Am 8, 4-7; Sl 112 (113); 1 Tim 2, 1-8; Lc 16, 1-13

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

D. ANTÓNIO COUTO - A Misericórdia. Lugar e Modo

D. ANTÓNIO COUTO (2016). A Misericórdia. Lugar e Modo. Lavra: Autores e Letras e Coisas. 84 páginas.
       Vivemos o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, iniciado a 8 de dezembro de 2015, solenidade da Imaculada Virgem Maria, e a encerrar no dia 20 de novembro de 2016, solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. O propósito do Papa Francisco foi que se vincasse em definitivo e com clarividência a misericórdia de Deus. Num tempo e mundo complexos, a misericórdia de Deus há de resplandecer como proposta de salvação, como desafio, como esperança, como compromisso. Jesus é o Rosto da Misericórdia. Os cristãos devem alimentar-se da misericórdia de Deus e irradia misericórdia para com os outros, para com toda a criação.
       Com a convocação deste Ano Santo da Misericórdia, a reflexão à volta deste atributo de Deus e a sua fundamentação na bíblia, na história do povo judeu, na vida da Igreja.
       D. António Couto anteriormente publicou o Livro dos Salmos, já dentro deste Jubileu e com a referência que os salmos estudados têm com a Misericórdia de Deus. Porém, este novo estudo é especificamente sobre a Misericórdia.
       Em conferências, jornadas bíblicas, formação do clero e de leigos, D. António Couto tem intervindo sobre esta temática, com o enquadramento do jubileu, com as obras de misericórdia, com a contextualização litúrgica. Aqui coloca nas nossas mãos um estudo mais detalhado sobre a misericórdia, a linguagem da bíblia, a origem das palavras utilizadas, a misericórdia no Antigo Testamento, a misericórdia revelada em plenitude da Pessoa e na Mensagem de Jesus Cristo, com o Seu proceder, compassivo, com as parábolas da misericórdia que mostram o modo de ser de Deus.
       Este pequeno livro subdivide-se em três capítulos: 1 - Deus também reza em clave de misericórdia; 2 - A magna charta do amor de Deus (Ex 34, 6-7), e 3 - Jesus misericordioso, transparência da misericórdia do Pai.
"Deus fiel, fiável, Sim irrevogável, matriz fidedigna, maternal amor preveniente, condescendente, permanente, paciente, palavra primeira e confidente, providente, eficiente, a dizer-se sempre e para sempre dita, rochedo firme, abrigo seguro, alcofa para o nascituro, luz no escuro, amor forte sem medo da morte e do futuro. Deus fiel e confidente, fala, que o teu servo escuta atentamente. Nada do que dizes cairá por terra. A tua palavra à minha mesa, minha habitação, minha alegria, minha exultação, energia do meu coração, luz que me guia e que me alumia. A minha luz é reflexa, a minha palavra é lalação, de ti decorre, para ti corre a minha vida, dita, dada, recebida e oferecida. O teu rosto, Senhor, eu procuro, não escondas de mim o teu rosto, o teu gosto, a tua música. Dispõe de mim sempre, Senhor"

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

D. António Couto: quando Ele nos abre as Escrituras: C

D. ANTÓNIO COUTO (2015). Quando Ele nos abre as Escrituras. Domingo após Domingo. Uma leitura bíblica do Lecionário. Ano C. Lisboa: Paulus Editora. 464 páginas.
       O Bispo de Lamego, D. António José da Rocha Couto, é reconhecidamente um estudioso da Bíblia, pela formação académica, pela responsabilidade pastoral, pelo compromisso universitário, pelo gosto pessoal e bastimal. A Sagrada Escritura é uma enxurrada de Deus que vem até nós pela Palavra inspirada, anunciada, escrita, experimentada, visível na história e no tempo, nos acontecimentos passados e nos momentos que passam, através de pessoas e de povos, e sobretudo em Jesus Cristo, o Filho Bem-amado do Pai, que nos abre o Céu, trazendo-nos, em Si, o próprio Deus.
       Depois da publicação das Leituras Bíblicas do Lecionário ano A e do Lecionário do ano B, com a Introdução ao Evangelho de Mateus e Introdução ao Evangelho de Marcos, eis agora a Leitura Bíblica do Lecionário do Ano C, enquanto se aguarda a edição da Introdução ao Evangelho de Lucas.
Todas as semanas, centenas de pessoas visitam a página de D. António Couto, na qual coloca as propostas de reflexão para o Dia do Senhor, Mesa de Palavras, sendo depois partilhada em diferentes plataformas digitais, também na página da Diocese de Lamego no Facebook.
       Escreve como se fosse a última coisa que fizesse, como um legado, com a mestria de um bisturi, tal como diz da própria palavra de Deus, colocando cada ponto no seu lugar e fazendo pontes, de Jesus para os discípulos, daquele para o nosso tempo, contextualizando o espaço e o tempo, com as ramificações ao passado, à história de Israel, e aos países e regiões vizinhas.
       Como refere D. António Couto, apresentando este livro: "O estilo é o de sempre. A substância é bíblica e litúrgica, com tempero teológico, literário, simbólico, cultural, histórico, arqueológico. Fui-o escrevendo com gosto, pensando em todos aqueles que gostam de saborear os textos bíblicos que a Liturgia nos oferece. Pensei sobretudo naqueles que, domingo após domingo, têm a responsabilidade de abrir as Escrituras à compreensão dos homens e mulheres, jovens e crianças, que, domingo após domingo, entram nas nossas igrejas".
       O andamento é o Ano Litúrgico, domingo após domingo, com os diversos tempos do Advento e Natal, da Quaresma e da Páscoa, do Tempo Comum, e do Santoral, com as principais Solenidades e Festas do Senhor, da Virgem Maria, dos Apóstolos, de Todos os Santos...
"É a estrada bela, e é andando nela que se encontra o repouso para a vida (Jr 6, 16). Encontramos lume e sentido, para voltar à estrada dos dois de Emaús, a quem já ardia o coração (Lc 24, 32). É a estrada que desce de Jerusalém para Gaza. A estrada é no deserto (Atos 8, 26), como a de Isaías (35, 8; 43, 19), mas pode sempre encontrar-se nela o sentido e a água (Atos 8, 35). É a estrada de Damasco, em que podemos sempe cair de nós abaixo e ouvir chamar o nosso nome de uma forma nova e diferente (Atos 8, 4; 22, 7; 26, 14). É a estrada que se abre à nossa frente sempre que ouvimos Jesus a dizer: «Segue-Me!» ou «Vai»!".
       É um extraordinário contributo para quem prepara as Leituras de cada Eucaristia dominical e/ou solene, com arte e engenho, numa escrita cuidada, uma espécie de prosa poética, e com poemas a encerrar muitas das reflexões. Pode ler-se antes de cada domingo ou de cada celebração festiva, mas também se pode ler de uma assentada ficando-se desde logo com uma perspetiva de todo o ano litúrgico, regressando depois novamente aos textos nos domingos correspondentes.
       Com este volume, D. António Couto completa a reflexão dos três ciclos de leituras dos anos A, B e C, faltando, para acompanhar este último título, o estudo sobre o Evangelista do ano C, São Lucas.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

D. ANTÓNIO COUTO - O LIVRO DOS SALMOS

D. ANTÓNIO COUTO (2015). O Livro dos Salmos. Cucujães: Editorial Missões. 120 páginas.
       D. António José da Rocha Couto é um reconhecido estudioso da Bíblia. O Bispo de Lamego não deixa de ler, meditar, estudar, interessar-se por temáticas teológicas e concretamente bíblicas.
       Cada semana é possível acompanhar a reflexão/estudo de D. António às Leituras de cada domingo, especialmente do Evangelho, no seu blogue MESA DE PALAVRAS. Por outro lado, a publicação em livro destas pistas de reflexão aprofundada da palavra de Deus para o ciclo de três anos (até ao momento publicados os Domingos do ano A e do Ano B; aguarda-se a publicação do ano C; em simultâneo e como complemento, a introdução ao Evangelho de São Mateus e ao Evangelho de São Marcos, aguardando-se o estudo/introdução a São Lucas.
        Entretanto, D. António Couto coloca em nossas mãos este estudo sobre o Livro dos 150 Salmos. Sabendo-se que o conjunto dos Salmos já formaria um livro e daria para vários estudos, D. António entendeu fixar-se em alguns Salmos mais significativos.
       Os Salmos são a resposta que o Homem dá a Deus. De Deus nos vem a Palavra e a Sabedoria, a Graça e a Salvação. Respondemos com louvor e com súplica, reconhecendo a grandeza de Deus e a nossa pequenez, a misericórdia de Deus e o nosso pecado. Ainda que as nossas palavras sejam grito e protesto, encontram um olhar, um coração que escuta, que envolve, que ama, que perdoa e nos redime.
       "Os Salmos - diz D. António - são para cantar com toda a intensidade, ao som de instrumentos musicais, para entregarmos a Deus a nossa alegria, mas também o ódio que nos habita. Rezar é entregar tudo a Deus. As coisas belas, claro. Mas também o lixo, o mato e as silvas que nos habitam. A oração dos Salmos, recitada com toda a intensidade, depura e decanta a nossa vida, de Deus recebida e a Deus oferecida, por Deus agraciada e transformada, transfigurada".
       Mais à frente, D. António reforça a ideia: "Dizer «Salmos» ou «Saltério» é dizer intensidade, vida, energia, canto, música, alegria, prazer, festa e ainda que, por vezes, dorida".
       Um pequena história recolhida por D. António Couto, sobre o mistério do homem:
A história do insensato do Rabbi Hanoch: «Era uma vez um homem insensato e, por isso, era chamado golem. Quando se levantava de manhã tinha de se haver com o difícil problema de encontrar as roupas para vestir, de tal modo que à noite, só de pensar nisso, já tinha medo de se deitar. Mas uma noite encheu-se de coragem, pegou num lápis e numa folha de papel, e, enquanto se despia, tomou nota do lugar onde poisava cada peça de roupa. Na manhã seguinte, levantou-se todo contente e pegou na sua lista: o barrete ali, e enfiou.o na cabeça, as calças acolá, e vestiu-as; a assim por diante até ter vestido tudo. "Sim, mas eu, onde estou eu?", perguntou-se a si mesmo, "onde estou eu?". Em vão procurou e voltou a procurar. Não conseguiu encontrar-se. E assim sucede também connosco, concluiu o Rabbi». 
       E, conclui D. António: "Só sabemos onde estamos quando é Deus a formular a pergunta e a fazer-nos encontrar a resposta".
       Nesta obra de D. António Couto, O Livro dos Salmos, é possível perceber um pouco mais sobre os Salmos, a sua origem, significado, e rezá-los com mais intensidade. É um trabalho a utilizar por estudantes e por especialistas, mas também percep´tivel para quem quiser aprofundar os seus conhecimentos dobre a Sagrada Escritura, sempre com o propósito de rezar melhor e comprometer-se com a oração, fazendo que o Bem que recebemos de Deus, se multiplique na partilha com os irmãos.

sábado, 24 de outubro de 2015

XXX Domingo do Tempo Comum - ano B - 25.10.2015

       1 – O CAMINHO de Jesus não é estático. Constrói-se em movimento. São Marcos mostra como Jesus avança, progredindo na Mensagem, aprofundando as temáticas, exigindo cada vez mais e de forma mais clarividente. Poderíamos dizer que vai ganhando CONFIANÇA, que Lhe vem de Deus, mas que testa no encontro com as multidões e com os discípulos. As diferentes experiências e encontros dão-lhe uma vitalidade desconcertante.
       O Evangelho de Marcos possibilita a reflexão à volta do segredo messiânico. Jesus realiza prodígios, revela pouco a pouco a Sua identidade, mas pede "segredo" – não digais nada a ninguém. É, segundo os estudiosos, uma criação literária do evangelista para nos envolver na revelação (progressiva) de Jesus como Filho de Deus, o que só acontecerá plenamente na Ressurreição, cuja luz eliminará as dúvidas e as trevas, mas que se desvela em diferentes momentos. Jesus deixa-Se ver, deixa-Se tocar, deixa-Se acolher. Podemos segui-l’O.
       O encontro com Bartimeu é por demais sugestivo. Jesus segue o Seu CAMINHO a caminhar. À beira do caminho está um cego a pedir esmola. Um mal nunca vem só. Não basta ser cego ainda é pobre pedinte. À beira continuam muitos cegos, refugiados, doentes, idosos, pobres. Estão à beira, quase fora, alheados, excluídos. Não estão no caminho, porque se afastaram ou foram impedidos de entrar nele. O texto mostra as diferentes possibilidades.
       A voz do cego faz-se ouvir: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Certamente que já tinha ouvido falar de Jesus. O "segredo" da missianidade de Jesus estava a espalhar-se. Pedir segredo a algumas pessoas é a melhor maneira de espalhar o que supostamente seria um segredo bem guardado.
       Veja-se a dualidade da multidão. Por um lado, espalhou o "segredo" sobre Jesus. Por outro, afasta aquele homem, silencia-o. Não todos, mas muitos tentam que aquele homem se cale, como se pudesse incomodar Jesus. “Não nos incomodes com os teus problemas!”
       2 – Adentremo-nos no CAMINHO de Jesus. Onde é que nos situamos? Somos o cego, pobre, pedinte, que reconhece a sua limitação e insuficiência e que suplica a Jesus pela cura? Somos a multidão que divulga os feitos do Messias? Ou, a multidão que afasta os outros de chegarem perto de Jesus? Damos testemunho ou tornamos opaca a presença de Deus na nossa vida?
       Jesus mostra a delicadeza que devemos usar uns com os outros. A multidão, por mais ruído que possa fazer, não abafa a voz de Bartimeu. Jesus está atento a quem se abeira ou a quem está fora ou na margem do caminho. Se é necessário uma paragem ou um desvio, Jesus não hesita. É agora que Ele é necessário. Há quem precise d'Ele neste momento. Tudo o mais se torna relativo.
       Manda chamar Bartimeu. Mais uma parábola para o nosso compromisso cristão. Também a nós Jesus nos diz: «Chamai-o». Ide e anunciai. Espalhai o Evangelho. Fazei discípulos de todas as nações. Ide à procura da ovelha perdida.
       A multidão responde ao desafio de Jesus e anima-o: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». Por vezes é necessário um pequeno impulso e depois tudo se facilita. É preciso que alguém inverta a tendência negativa, a demissão ou a corrente destrutiva. Jesus dá um passo, a multidão dá o seguinte.
       E logo, "o cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus". A cura já começara no momento em que este cego ouviu falar de Jesus. Quando soube que Jesus estava por perto fez tudo para se encontrar com Ele, o que lhe era possível, contando com a ajuda dos outros. Jesus, que já o atraíra a Si, pergunta-lhe: «Que queres que Eu te faça?».
       Para sermos curados precisamos, primeiramente, de ter consciência que estamos doentes e depois querermos ser curados. E o pedido é óbvio: «Mestre, que eu veja».
       3 – «Vai: a tua fé te salvou». O cego – como bem lê o nosso Bispo, D. António Couto – pede para ver e Jesus envia-o: vai. Estaríamos à espera que Jesus lhe dissesse: vê. Mas para ver precisa de andar, de caminhar, de se colocar em movimento, de sair do seu canto e partir ao encontro de Jesus. Como se costuma dizer, também nós somos cegos quando não queremos ver, quando não caminhamos em direção aos outros, quando nos fechamos, ensoberbecendo-nos.
        A Diocese de Lamego, sob pastoreio de D. António Couto, tem insisto ao longo dos últimos anos, como no presente ano pastoral, na dinâmica missionária da Igreja. Foi o pedido primeiro do Papa Francisco, enxertado no ministério episcopal em Buenos Aires: uma Igreja em saída, que não se enrole sobre si mesma. Quando a Igreja é autorreferencial, atrofia, pois a Sua referência é Jesus, o Bom Pastor que sai à procura da ovelha perdida. Palavras do Cardeal Bergoglio, um pouco antes de ser eleito Papa, prefiro uma Igreja acidentada por sair do que doente, a cheirar a mofo, por se centrar em si mesma.
       Esta passagem ilustra a atitude dos discípulos de Jesus. Antes, víamos os apóstolos a quererem um lugar ao lado de Jesus, sentados. Agora um cego, que está sentado, como sublinha D. António Couto, sentado e a pedir esmola, e que se LEVANTA para encontrar Jesus. A posição do discípulo é seguir Jesus, levantar-se, libertar-se de si e do que lhe pesa. Bartimeu deita fora a capa e corre ao encontro de Jesus. O encontro com Jesus transforma-o. Recuperada a vista, segue Jesus pelo caminho. Seguindo Jesus somos curados da nossa cegueira.

       4 – A salvação mobiliza-nos para a transformação do mundo, a começar pelo nosso mundo, a nossa vida. O mundo inteiro dentro de nós. Aí começa a verdadeira mudança. Aquele homem cego levanta-se, salta, lança fora o que lhe pesa e com alegria fica frente a Jesus. Uma vez curado não volta à vida anterior, não volta a sentar-se nem a recuperar a capa, segue Jesus pelo caminho.
        A mesma interpelação nos chega de Jeremias: «Soltai brados de alegria por causa de Jacob... Fazei ouvir os vossos louvores e proclamai: ‘O Senhor salvou o seu povo’… Vou trazê-los das terras do Norte e reuni-los dos confins do mundo. Entre eles vêm o cego e o coxo, a mulher que vai ser mãe e a que já deu à luz. É uma grande multidão que regressa. Eles partiram com lágrimas nos olhos e Eu vou trazê-los no meio de consolações. Levá-los-ei às águas correntes, por caminho plano em que não tropecem. Porque Eu sou um Pai para Israel».
       Página extraordinária do profeta que nos envolve na salvação de Deus. Se a experimentamos, então não podemos calar o que vimos, ouvimos e vivemos. Cabe-nos anunciar ao mundo inteiro. O desencanto, o desânimo e a desesperança afastam-nos e dissolvem-nos. A salvação faz-nos regressar com alegria para bebermos da água viva que Deus nos dá em abundância.

       5 – Eu sou o Caminho, a Verdade e Vida. O próprio Jesus Se apresenta como o CAMINHO que nos leva a Deus. Só por Ele chegamos ao Pai (cf. Jo 14, 6-7, e também 1, 18). No Evangelho vemos como Jesus Se faz caminho para quem quer ver e quem quer caminhar, para quem quer transformar positivamente a sua vida.
       Ele é o Sumo-sacerdote que ousou entregar a Sua vida por inteiro a favor da humanidade.
       A Epístola aos Hebreus lembra-nos que o Sumo-sacerdote é escolhido de entre iguais, está revestido da mesma fraqueza pelo que pode interceder pelos outros. Oferece sacrifícios pelos próprios pecados e do povo. Assim Jesus. Igual a nós, revestido da nossa fragilidade, ainda que sem pecado, para oferecer já não sacrifícios, mas ser o SACRIFÍCIO a favor de todos. Ele é o Escolhido do Pai: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei... Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec».
       Jesus é constituído Sumo-sacerdote para, em definitivo e em plenitude, nos colocar à direita do Pai, de onde nos vêm todas as bênçãos. Porquanto, vamos caminhando com Ele, abrindo o Seu caminho para que outros O possam encontrar, acolher e segui-l’O.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Jer 31, 7-9; Sl 125 (126); Hebr 5, 1-6; Mc 10, 46-52.

domingo, 15 de março de 2015

D. António Couto: Introdução ao Evangelho de Marcos

D. ANTÓNIO COUTO (2015). Introdução ao Evangelho segundo Marcos. Lisboa: Paulus Editora. 136 páginas.
       Mais um excelente subsídio para preparar a Eucaristia de Domingo, para melhor compreender o Evangelho de São Marcos, colocando-se em atitude de seguimento, como discípulo em relação a Jesus Cristo, para melhor se entranhar na lógica de serviço, de doação, configurando a própria vida à vida de Jesus.
        O Evangelho seguido prevalentemente neste ciclo litúrgico do ANO B é São Marcos.
        Tal como havia feito para o Ano A, para o qual D. António Couto nos colocou nas mãos dois títulos: Quando Ele nos abre as Escrituras. Ano A, e Introdução ao Evangelho segundo Mateus, o Bispo da mui nobre Diocese de Lamego colocoa à nossa disposição mais dois títulos: Quando Ele nos abre as Escrituras: Ano B, com o comentário à liturgia de cada Domingo, e agora este sobre São Marcos.
        Como já nos habituou, D. António Couto coloca neste trabalho a sua fé, a experiência de vida, a dedicação ao Evangelho, valendo-se de conhecimentos diversos, ao nível da Sagrada Escritura, da história, da psicologia, da teologia, socorrendo-se dos Padres da Igreja e de outros estudiosos, mas sobretudo fazendo-nos mergulhar no texto de Marcos.
       São Marcos voltou à ribalta. Se antes era um texto considerado secundário, ficando quase no esquecimento, pois era entendido como uma espécie de resumo do Evangelho de São Mateus, ou de São Mateus e de São Lucas, a partir do século XIX começa a ser redescoberto, pois é reconhecido como o primeiro Evangelho a ser escrito e, por conseguinte, mais simples, direto, mais próximo cronologicamente de Jesus. Por outro lado, ainda que a linguagem seja diferente, com diferentes destinatários, segundo D. António Couto, os outros Evangelhos, Mateus, Lucas e mesmo São João, mantêm um esquema similar ao de Marcos.
       Sublinham-se no texto temas como chamamento, semente, pão e paixão de Jesus, discipulado. Com efeito o Evangelho de São Marcos faz-nos seguir como que no filme que passa diante de nós, em que a personagem principal é e deve ser o próprio Jesus, que Se aproxima, que chama, que diz, que faz, que nos envia. O discípulo é o que vai atrás.
       Este estudo divide-se em três capítulos:
  1. À porta do Evangelho de Marcos (quem é Marcos, onde e quando escreveu, para quem, estrutura do evangelho).
  2. Quem é Jesus? À procura da identidade de Jesus (Dizer Jesus, dizer do povo, de Pedro, do centurião; jornada de Carfarnaum: Parábola da semente / pão / paixão / ensinados e não compreendidos; na Barca sem Jesus, na Barca com Jesus.
  3. Quem é o discípulo de Jesus e como tornar-se discípulo de Jesus? À procura da identidade do discípulo de Jesus.
       D. António Couto, com mestria, faz-nos sentir discípulos de Jesus, ou melhor, coloca-nos na posição daqueles que se aproximam de Jesus ou de quem Jesus Se aproxima, mostrando que os Seus ditos são para nós, quando nos envolve, nos desafia, nos recrimina, quando nos lembra da nossa condição, quando nos faz passar para trás, como a Pedro e aos demais discípulos, quando nos relembra nossa nudez diante do mistério de Deus. Outro aspeto muito interessante, é a linguagem corrida e muitas vezes (quase) poética de D. António, bem como o estudo dedicado de alguns termos, a partir do grego, do hebraico ou do aramaico e até aqueles que não percebam estas línguas, ficam a perceber melhor o texto e o contexto do filme do Evangelho de Marcos.

LER a apresentação/sugestão do livro:

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

D. António Couto: quando Ele nos abre as Escrituras: A

D. ANTÓNIO COUTO (2013). Quando Ele nos abre as Escrituras. Domingo após Domingo. Uma leitura bíblica do Lecionário. Ano A. Lisboa: Paulus Editora. 352 páginas.
        Sai a lume o primeiro volume de uma triologia, na qual nos guiará pela liturgia dos domingos que compõem o Ano A, o Ano B e o Ano C. Em cada ano se privilegia um Evangelho sinóptico, São Mateus no ano A; São Marcos no ano B, e São Lucas no ano C. O Evangelho de São João aparecerá em cada ano em domingos específicos, sobretudo ao tempo do Natal e ao tempo de Páscoa, mas também pelo verão com a temática do pão vivo que é Cristo Jesus.
       D. António promete fazer acompanhar um comentário-introdução, a publicar em data oportuna, sobre cada um dos evangelistas, para desta forma ajudar a perceber o estilo, o conteúdo e o objetivo de cada evangelista, o contexto em que escreveu, os destinatários e as linhas mestras de cada Evangelho.
       O Bispo de Lamego, estudioso da Bíblia, tem colocado à disposição de todos os comentários às leituras de Domingo, especialmente ao Evangelho, partir do seu blogue: Mesa de Palavras: AQUI. Antes de assumir, como Bispo, a Diocese de Lamego era um dos residentes no programa da Igreja Católica na RTP, Ecclesia, precisamente para ajudar a preparar a liturgia da palavra de cada Domingo. O livro que ora sugerimos recolhe a reflexão de D. António Couto para cada domingo, com profundidade, sabedoria, envolvendo-nos na Palavra de Deus, fazendo-no sentir parte essencial da história da salvação.
       Como refere o autor, o estilo é o de sempre, recorrendo à Bíblia, à história, à cultura, à arqueologia, à literatura, à liturgia e à teologia. Com efeito, o texto de reflexão é envolvente, com muitas informações, fáceis de perceber e que ajudam a sublinhar a riqueza da palavra de Deus e como Deus intervém e Se entranha na nossa história, respeitando as nossas escolhas, mas não cessando de nos procurar.
       O Evangelho em análise é o de São Mateus, o Evangelho da Igreja e que durante muito tempo foi acolhido como o primeiro a ser escrito, sabendo-se hoje que essa primazia temporal é de São Marcos. É escrito numa comunidade já muito estruturada. Depois da morte e da ressurreição de Jesus, os Apóstolos anunciaram o Evangelho, juntando-se a eles muitas pessoas, formam-se as comunidades, as primeiras comunidades, cristãs, que procuram viver nos ideais do Evangelho. Chega uma altura que é necessário colocar por escrito o que foi sendo transmitido oralmente e "absorvido" pelas comunidades, ressalvando-se os avisos que Jesus faz para as comunidades viverem sem que os crentes se atropelem, mas que cada um concorra para o bem de todos. Para ser o primeiro é preciso ser o servo de todos.
"Neste ano A é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho segundo Mateus, conhecido como «o Evangelho da Igreja», dada a grande importância que este Evangelho granjeou na Igreja primitiva, sobretudo devido à riqueza e à clareza temáticas dos longos, solenes e pausados discursos de Jesus que nele encontramos, e que constituem um imenso tesouro para a vida da Igreja. Na verdade, o leitor ou ouvinte encontra no Evangelho segundo Mateus uma longa e bela sinfonia dos ensinamentos fundamentais de Jesus, organizados em cinco andamentos á volta de cinco imensos discursos de Jesus: 1) o Discurso programático da MONTANHA (Mt 5-7); 2) o Discurso MISSIONÁRIO (Mt 10); 3) o Discurso das PARÁBOLAS do REINO (Mt 13); 4) o Discurso ESCATOLÓGICO (Mt 24-25)".
       As pistas de reflexão para cada domingo visam precisamente ajudar a prepara a Liturgia dos Domingos e dias santos e, por conseguinte, podem ser lidos e relidos na semana que precede cada domingo ou solenidade. Contudo, o volume de leituras do Ano A pode ser lido de uma assentada ficando-se com uma ideia abrangente do decorrer da liturgia ao longo de todo o ano. Ajuda ter o livro à mão, como ajuda seguir o blogue de D. António Couto que vai limando, aperfeiçoando, lapidando cada reflexão, atualizando com um ou outro dado que vai surgindo, acontecimentos da sociedade e da Igreja (salientando-se as intervenções e/ou convocações do Papa Francisco).
       Ao leitor "bom apetite. Já se sabe que nem só de pão vive o homem".