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sábado, 26 de novembro de 2016

Domingo I do Advento - A - 27 de novembro de 2016

       1 – Iniciamos o Advento, tempo novo de graça e salvação, que nos envolve nos preparativos para celebrarmos o nascimento de Jesus. Parece que ainda ontem celebrámos o Natal anterior e já estamos de volta. O tempo urge, parece escapar-nos como a areia por entre os dedos das mãos, ainda que tentemos retê-lo. No final não adianta calcular as oportunidades desperdiçadas, importa mesmo apanhar o comboio da vida. É inevitável que prossigamos sem apagar o passado, mas também sem ficar prisioneiros, como que num labirinto sem saída.
       Há preocupações, sonhos e projetos que seguem connosco. As árvores precisam de se adentrar pela terra para suster o peso e o crescimento dos ramos. Quanto maior a árvore (por regra) maiores as raízes.
       O Advento não se desfaz de tudo o que está antes, mas dá-lhe o colorido da festa que se aproxima, comprometendo-nos mais, fazendo-nos recordar a razão da nossa esperança e do nosso compromisso com os outros. Preparamo-nos para celebrar o aniversário de Jesus. Não é algo que se repita. Nada se repete na nossa vida. Cada instante conta. Cada segundo. É a minha vida, a tua, é a nossa vida. Todos os momentos são importantes. Todos os minutos valem!
       Um ciclo finda, outro se inicia, entrelaçando-se no anterior e projetando-nos para o futuro. Jesus alerta-nos para estarmos vigilantes, preparados para a vinda do Filho do Homem. Jesus fala da Sua vinda futura. Veio viver connosco, como um de nós. Aos discípulos daqueles dias anuncia-lhes os tempos novos que se aproximam, em que virá o Filho do Homem. Historicamente, aproxima-se a Sua morte. Após a morte advirá a Sua ressurreição, inaugurando, em plenitude, um Reino novo, de paz e esperança, de perdão e compromisso, de justiça, de serviço e de amor. Como nos dias de Noé, a vida pode passar-nos ao lado. A chegada do Filho de Deus poderá passar despercebida. O mistério da Sua morte e da Sua ressurreição passou indiferente para muitos dos seus concidadãos e conterrâneos. Também nos pode passar ao lado. Não podemos deixar o tempo correr. É preciso que saboreemos a vida e nos comprometamos com os que peregrinam connosco na história.
       Ele continua a emergir na nossa vida e a ressuscitar connosco em todo o bem que praticamos. Por ora, preparamos a celebração da Sua primeira vinda, a Encarnação, Deus que Se faz Homem, Jesus, mas em dinâmica futura. Jesus volta. Não tardará. Como nos vai encontrar? Como O vamos receber?
       2 – "Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem".
       O que se avizinha não tem de ser atemorizador! A salvação está ao nosso alcance, foi-nos colocada na palma da mão. Jesus viveu e morreu por nós, por mim e por ti. E, por mim e por ti, por nós, ressuscitou. Introduziu-nos na eternidade de Deus. Deixemos que nasça em nós, na nossa vida, que nasça e nos ressuscite, nos desperte para a vida abundante de graça e de misericórdia.
       Nada há a temer quando estamos preparados. Sabendo que Ele vem. Há 2.000 mil anos veio ao mundo. A Sua vinda conjuga-se agora no presente. Vem. E vem para ficar, para criar raízes. E para que n'Ele enraizemos a nossa vida. Lembremo-nos que os ramos crescem à medida que as raízes se fincam na terra. Ou, na imagem da videira e da seiva que alimenta os ramos e as folhas. Quando a vida de Jesus Cristo circula em nós então a nossa vida está garantida, como promessa e como tarefa. Os sustos que apanhamos têm a ver com o facto de estarmos desprevenidos. Jesus previne-nos para estarmos preparados, para O reconhecermos e O acolhermos.
       No "Principezinho", a Raposa sublinha a alegria a crescer com o aproximar do encontro com o Principezinho quando sabe a hora do mesmo. "Teria sido preferível teres voltado à mesma hora. Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, eu, a partir das três, já começo a ser feliz. Quanto mais se aproximar a hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já estarei agitada e inquieta; descobrirei o preço da felicidade! Mas se vieres a qualquer hora, ficarei sem saber a que horas hei de vestir o meu coração..."
       Ora, Jesus diz-nos que está a chegar. Revistamo-nos de alegria e de esperança. Preparemo-nos para que não nos surpreenda distraídos. Abramos os ouvidos, os olhos, o coração, a vida por inteiro. Ele está a chegar. Não aqui ou ali. Mas em nós. Em cada pessoa que se aproxima de nós, em cada pessoa de quem nos aproximamos. Em todo o tempo! A qualquer hora!
       3 – Para o Apóstolo São Paulo não há tempo a perder. "Chegou a hora de nos levantarmos do sono, porque a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçámos a fé. A noite vai adiantada e o dia está próximo".
       Ao acordarmos vamos retardando a hora de levantar, até ao limite. É mais fácil erguermo-nos de uma vez. Espreguiçando corremos o risco de voltar a adormecer e acordar fora de horas. Para mais, agora no inverno, quando a cama está quentinha e lá fora faz um temporal. A imagem usada pelo Apóstolo é feliz. Quando o dia desponta e temos um dia de trabalho pela frente, há que levantar-nos com as energias que acumulamos durante o descanso.
       Se é dia, então não precisamos de outras luzes que não a Luz que nos vem do alto, que nos vem de Jesus. "Abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos dignamente, como em pleno dia, evitando comezainas e excessos de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e ciúmes... revesti-vos do Senhor Jesus Cristo".
       A fé, recordemo-lo, não nos afasta dos outros, nem do mundo nem da história. Pelo contrário, é neste mundo atual, aqui e agora, com os outros, que nos preparamos para alcançar a vida eterna. A salvação é dádiva de Deus. Acolher a salvação impele-nos a agregar os outros, amando-os, servindo-os. Não podemos chegar diante do Pai se deixarmos os irmãos pelo caminho, como aconteceu com os irmãos de José (do Egipto) que o venderam a mercadores, deixando o pai, Jacob, inconsolável!
       4 – No Evangelho, Jesus aponta a Sua vinda futura, para a qual devemos estar preparados, pelas obras de misericórdia. São Paulo fala-nos da salvação que se iniciou com a adesão a Jesus Cristo, quando abraçámos a fé, mas também da redenção que se aproxima, comprometendo-nos. Se Jesus está a chegar, há que revestir o nosso coração de alegria e de amor para O receber.
       O profeta Isaías, por sua vez, acalenta a esperança de um tempo de graça e de justiça, em que as trevas darão lugar à luz e em que as armas servirão para cuidar do mundo, transformando-o, e não para destruir os outros. Não mais as nações se levantarão umas contra as outras, viverão em paz.
       O DIA que está a chegar traz-nos a salvação de Deus. Ele próprio virá como Juiz. E lá diz o senso comum que, assim como assim, mais vale que seja Deus o juiz e não um de nós.

       5 – A oração de coleta faz a ponte entre o tempo presente e a vida eterna. "Despertai, Senhor, nos vossos fiéis a vontade firme de se prepararem, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo, de modo que, chamados um dia à sua direita, mereçam alcançar o reino dos Céus".
       Com efeito, a oração dulcifica o nosso coração, tornando-o audaz, atento e decidido no cuidado aos outros, com os quais chegaremos ao Céu, experimentando-o já na nossa vida!

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (A): Is 2, 1-5; Sl 121 (122); Rom 13, 11-14; Mt 24, 37-44.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Domingo II do Advento - ano B - 7 de dezembro

       1 – "Consolai, consolai o meu povo... Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas".
       Preparar. Consolar. Converter-se. Anunciar. Caminhar. Antecipar.
       São algumas atitudes próprias do tempo de Advento e, particularmente, deste segundo domingo. É notório, sobretudo na primeira leitura e no Evangelho, o desafio da preparação que se acentua com a chegada do Precursor, Aquele que vem antes com a missão específica de preparar o caminho do Senhor.
       O profeta Isaías é perentório quanto às promessas de Deus, de nos visitar. Já se vislumbra a chegada de Deus, já irrompe a voz do mensageiro: «Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada para o nosso Deus. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas. Então se manifestará a glória do Senhor... Eis o vosso Deus. O Senhor Deus vem com poder, o seu braço dominará... Como um pastor apascentará o seu rebanho e reunirá os animais dispersos; tomará os cordeiros em seus braços, conduzirá as ovelhas ao seu descanso».
       Novos tempos de justiça e de paz, de concórdia e unidade. Deus vem para resgatar o Seu povo, para ajuntar os seus membros como o pastor reúne o seu rebanho. O convite de Deus é envolvente: «Falai ao coração de Jerusalém e dizei-lhe em alta voz que terminaram os seus trabalhos e está perdoada a sua culpa... Grita com voz forte, arauto de Jerusalém! Levanta sem temor a tua voz!» A voz que clama deve ser audível, falar ao coração, mas com firmeza e em alta voz, subindo ao monte para que a mensagem ressoe em toda a terra.
       2 – No Evangelho, o arauto que clama com voz forte é João Batista. Se do alto monte a voz se pode ouvir à distância sobre as cidades e as aldeias, a partir do deserto alarga-se sem fronteiras para entrar na cidade fortificada a partir de baixo, a partir do interior.
       Recorde-se, porém, que o deserto, onde se encontra habitualmente João Batista, nas proximidades do rio Jordão, no qual batizará Jesus, situa-se nas cercanias de Israel. Tal como o povo caminhou pelo deserto, purificando-se para entrar na Terra Prometida, também agora os crentes terão que fazer um caminho de deserto, de penitência e de conversão, para reentrarem na Promessa de Deus, plenizada com a chegada do Messias.
       A missão de João Batista é precisamente "proclamar um batismo de penitência para remissão dos pecados". É dele que estava escrito, como refere São Marcos no Evangelho, «Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho. Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». A missão é predispor-nos a acolher o Messias, a caminhar, purificando o nosso coração a fim de percebermos a chegada de Deus às nossas vidas.
       Na sua pregação, intui-se a brevidade, a novidade e a grandeza do Eleito de Deus que vem: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu batizo-vos na água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo».
       Registe-se, por agora, que cada um de nós, e as comunidades cristãs no seu conjunto, deve assumir esta missão e esta pregação, preparando-nos e clamando para que os outros se predisponham a receber o reino de Deus. Transformamos a nossa vida, deixamo-nos batizar no arrependimento, na conversão e na penitência, aplanando tudo o que na nossa vida nos impede de abraçar os outros e de acolher o Senhor. Ponhamo-nos a caminho. O caminho faz-se caminhando e não apenas olhando para o caminho que temos pela frente. Há que dar o primeiro passo, para que a um, outros passos nos aproximem de Jesus Cristo, arrastando os outros connosco.
       3 – O tempo do Advento é o tempo de sermos precursores do Filho de Deus, dilatando o nosso coração para que um CORAÇÃO maior possa caber dentro de nós. Este é um tempo favorável, de graça e de salvação. Deus é paciente e dá-nos todo o tempo que precisamos para nos pormos a caminho e para modificarmos a nossa vida em todos os aspetos que nos afastam ou nos mantêm à distância dos nossos semelhantes. O caminho do Céu faz-se nos caminhos da história, da nossa história pessoal, familiar, comunitária. Aqui e agora. Se a plenitude finaliza na eternidade, é ativada, vivida e antecipada na atualidade. Vamos saboreando o que havemos de ser. O reino de Deus, instaurado na morte e ressurreição de Cristo, está em ebulição no mundo histórico-temporal.
       São Pedro escreve-nos dizendo:
«O Senhor não tardará em cumprir a sua promessa... Mas usa de paciência para convosco e não quer que ninguém pereça, mas que todos possam arrepender-se... Entretanto, o dia do Senhor virá como um ladrão... Nós esperamos, segundo a promessa do Senhor, os novos céus e a nova terra, onde habitará a justiça. Portanto, caríssimos, enquanto esperais tudo isto, empenhai-vos, sem pecado nem motivo algum de censura, para que o Senhor vos encontre na paz».
       Lembra-nos que o Senhor virá, não tarda muito. Reassume as palavras de Jesus: o Senhor virá sem contarmos, como um ladrão. Então, há que estar preparados, vigilantes. E que significa ESPERAR e estar vigilantes? Concretiza o Apóstolo: EMPENHAI-VOS...

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Is 40,1-5.9-11; Sl 84 (85); 2 Ped 3,8-14; Mc 1,1-8.