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domingo, 30 de outubro de 2016

VL – A graça do palhaço – 3

       A graciosidade do palhaço é tanto maior quanto mais se entrega, quando mais se dá aos outros. A sua graça depende da resposta do público, das pessoas para quem atua.
       Ele tem a preocupação de pôr a audiência a rir. E nada melhor que expor os seus próprios problemas. Procurar o palhaço que há em si mesmo, descobrir-se com as suas inseguranças e medos, com as suas debilidades e angústias. A verdade entra na equação. Quanto mais autêntico, quanto mais ele mesmo, apanhado em flagrante delito de debilidade, mais gracioso será. A arte de ser palhaço engloba toda a sua vida, fazendo sobressair a inocência que existe no mais fundo de si mesmo. Aceita o fracasso, o seu fracasso, para promover o outro, colocando o espectador em estado de superioridade. “Através desse fracasso, o palhaço revela a sua profunda natureza humana que nos emociona e nos faz rir” (Cristina Moreira).
       Com o palhaço aprendemos a ser para os outros e com os outros. O palhaço tem um contacto direto com o público, está sob o olhar dos outros. Não se faz palhaço diante do público. Atua com o público, interage com todas as pessoas do público e as reações das mesmas influenciam a sua atuação. 
       Com efeito, “o importante não é o palhaço em si mesmo. O essencial é o olhar que recebe dos outros a quem dedica a sua vida”, procurando “converter o pesado em leve, o amargo em doce, o oculto em verdadeiro… Deve buscar para a sua personagem um estado de inocência, de frescura, de ingenuidade, de onde olhar a vida… é um peregrino que segue uma estrela, que crê na sua verdade e se sente solvente em comunicar-se na mensagem…”
       Tal como o palhaço também nós queremos ser reconhecidos, amados, queridos…
       O palhaço conta-se a si mesmo. Por isso a sua vida interior tem tanto que ver com a sua atuação. “O palhaço não existe separado do autor que o interpreta. Todos somos palhaços, todos nos julgamos bonitos, inteligentes e fortes, mas na realidade, cada um de nós tem as suas debilidades, o nosso lado ridículo, que, quando se manifesta, fazem rir”.
       Ele, como nós, busca o amor de alguém, o reconhecimento do público. O que faz é para agradar, para divertir as pessoas. Incorpora, por imitação, tudo o que admira e reprodu-lo com afeto. A ilusão de superar as limitações do tempo e do espaço, com criatividade e imaginação. Faz-nos desejar pertencer a um mundo melhor… 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4383, de 18 de outubro de 2016

sábado, 29 de outubro de 2016

VL – A graça do palhaço – 2

       A D. Evinha (1924-2016), natural da Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros, a viver em Tabuaço, numa vida dedicada aos outros, inserida na vida pastoral da Igreja, comprometida em viver e comunicar o Evangelho, sugeriu-me várias leituras, como por exemplo de José António Pagola. Outra leitura que me aconselhou foi a “A graça do Palhaço” (La gracia en el clown) e “Os palhaços” (Los clowns). Deixamos para a discussão académia as diferenças que podem ser estabelecidas entre “palhaços” e “clowns” (termo inglês, numa evocação mais erudita).
       A autora é docente de teatro, Cristina Moreira, oriunda da Argentina, bailarina e atriz, tendo-se fixado na Europa, integrando companhias de teatro, escrevendo peças… O seminário dedicado aos palhaços é o mais festivo. O objetivo do palhaço é fazer rir o público. Começa aqui o ensinamento para cada um de nós. Ser palhaço para os outros. Agir pelos outros. Fazer rir está intimamente ligado ao amor. Exige muito, exige tudo do palhaço, entrega intensa que se sujeita a ser aceite ou recusado. Com docilidade o palhaço procura construir uma relação com o público. “O amor está implícito no desejo de comunicar a alegria de estar com os outros… a graça emana da entrega espiritual ao outro”.
       Um ator representa, seguindo um guião. O palhaço representa-se. Ele procura reconstruir a partir de si uma nova personagem. Elabora o seu guião interagindo com a sua audiência. Ao longo do processo vai aprimorando a sua habilidade, o seu carácter, a sua fisionomia. Não é a vestimenta, a caracterização física que distingue os palhaços, mas a capacidade de mostrar-se com as próprias fraquezas, oferecendo-se à audiência, sempre num prisma de humildade. Serve os demais, sujeita-se aos seus juízos e, o que preparou com esmero, pode falhar.
       Sublinha a autora que “a graça no intérprete nasce do reconhecimento da própria limitação, de um estado de humildade diante do verdadeiramente eterno. No momento em que o homem se pode rir de si mesmo, não se levando a sério… encontra um estilo solto para olhar a sua vida. Esta liberdade permite-lhe fazer rir os demais”.
       O palhaço avança a partir do nada, que é muito, que é tudo, avança a partir do seu interior, dando o melhor de si, expondo-se, colocando a nu as suas inseguranças, os seus medos, procurando ultrapassar os seus dilemas. O palhaço é um homem real com os seus contratempos. Dessa forma se sintoniza com o seu público, com as suas debilidades, desafiando-os a rir-se de si mesmos, levantando-se para a luta.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4382, de 11 de outubro de 2016

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

VL – A graça do palhaço – 1

       A conversa é como as cerejas. Começa e não sabemos quando acaba. Esta reflexão será um pouco assim. Por estes dias (1 de outubro) foi a sepultar na Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros, a D. Evinha, de onde era natural, a viver na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço há mais de uma década. É daquelas pessoas que marcam um tempo, criam um espaço de afetos e de luz, deixam um rasto de bondade, de alegria e simplicidade.
       A D. Evinha era cidadã do mundo, cristã em todos os momentos. Na Escola Diocesana de Formação Social acentuou um caminho de compromisso em Igreja que passou agora para a eternidade de Deus. Dos tempos da Ação Católica, as ganas de viver, de renovar a vida eclesial, com o Vaticano II, a sede de Deus e as novidades que iam chegando do Concílio. A formação superior na área da ação social, a passagem pelo ministério do trabalho e da solidariedade social, onde poderia fazer carreira, tendo optado por ajudar na promoção de outros, no país do Estado Novo e nos tempos da revolução, as reuniões cuidadosas para evitar a prisão de pais e mães de família, da aldeia à cidade, do norte à capital, ao Alentejo e ao Algarve, a vida consagrada no instituto de vida secular, com forte implantação em Espanha e na Améria Latina, o trabalho missionário/social/humano no Brasil e nos países vizinhos, dormindo em esteiras, comendo frugalmente, o contacto com a Teologia da Libertação e a perceção que a fé tem que estar ao lado dos mais pobres, dando-lhes ferramentas para que possam gerir as suas vidas…
       Regressada do Brasil, fixando-se definitivamente em terras de Tabuaço, nunca desistiu de se empenhar, participando onde era necessário, na Igreja e na vida social e cultural. Sempre disponível, para mais oração, para mais formação, das crianças aos jovens e aos adultos, aos mais idosos, na catequese, nos grupos de jovens, como ministra extraordinária da comunhão, na vivência do Natal, da Páscoa, a cantar as Boas Festas, a visitar doentes, a dar conselhos com a delicadeza de uma mãe, preparando jovens para o crisma, intervindo nos tempos de formação, escrevendo, partilhando a vida, gastando-se… sempre ligada à vida da Igreja, sempre sintonizada com os sinais dos tempos.
       Como Pároco pude usufruir da sua amizade e dos seus conselhos, da sua ajuda e das suas sugestões. Uma das sugestões, no início no meu ministério sacerdotal: as homilias deveriam terminar sempre de forma positiva, para que fosse autêntico o “assim seja”…

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4381, de 4 de outubro de 2016

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Torradas queimadas

Quando eu ainda era um menino, ocasionalmente, minha mãe gostava de fazer torradas.
Naquela noite longínqua, minha mãe pôs um prato de ovos, linguiça e torradas bastante queimadas, defronte ao meu pai.
Eu me lembro de ter esperado um pouco, para ver se alguém notava o fato.
Tudo o que meu pai fez, foi pegar a sua torrada, sorrir para minha mãe e me perguntar como tinha sido o meu dia, na escola.
Eu não me lembro do que respondi, mas me lembro de ter olhado para ele lambuzando a torrada com manteiga e geleia e engolindo cada bocado.
Quando eu deixei a mesa naquela noite, ouvi minha mãe se desculpando por haver queimado a torrada.
E eu nunca esquecerei o que ele disse:
” – Amor, eu adoro torrada queimada…”
Mais tarde, naquela noite, quando fui dar um beijo de boa noite em meu pai, eu lhe perguntei se ele tinha realmente gostado da torrada queimada.
Ele me envolveu em seus braços e me disse:
” – Sua mãe teve um dia de trabalho muito pesado e estava realmente cansada…
Além disso, uma torrada queimada não faz mal a ninguém.
A vida é cheia de imperfeições e as pessoas não são perfeitas.
E eu também não sou o melhor marido, empregado ou cozinheiro!”
O que tenho aprendido através dos anos é que saber aceitar as falhas alheias, escolhendo não relevar as diferenças entre uns e outros, é uma das chaves mais importantes para criar relacionamentos saudáveis e duradouros.
Essa é a minha oração para você, hoje.
De fato, poderíamos estender esta lição para qualquer tipo de relacionamento: entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos, colegas e com amigos.
Não ponha a chave de sua felicidade no bolso de outra pessoa, mas no seu próprio.
Veja pelos olhos de Deus e sinta pelo coração dele;
você apreciará o calor de cada alma, incluindo a sua.
As pessoas sempre se esquecerão do que você lhes fez, ou do que lhes disse, mas nunca esquecerão o modo pelo qual você as fez se sentir.
(autor desconhecido)

terça-feira, 18 de maio de 2010

A hsitória do Ernani

       Uma história que poderá ser ou não verdade, que fala de sentimentos e de algumas brincadeiras que fazemos uns aos outros, descuidando o que os outros possam sentir ou os momentos que atravessam, ou porque se nos afiguram estranhos... Enquanto há vida, há tempo para mudar positivamente...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Silêncio!

A arte de dar amor é semelhante
à arte de receber amor.
Muitas vezes,
nosso julgamento sobre a felicidade alheia
é responsável por nossa infelicidade.
Um casal idoso tomava café no dia de suas
bodas de ouro.
A mulher passou manteiga na casca do pão
e deu ao seu marido, ficando com o miolo.
Pensou ela:
"Sempre quis comer a melhor parte do pão,
mas amo demais meu marido e, por 50 anos,
dei-lhe sempre o miolo.
Hoje quis satisfazer o meu desejo".
Para sua imediata surpresa,
o rosto do marido abriu-se num sorriso
sem fim e disse:
"Muitíssimo obrigado por este presente,
meu amor.
Durante 50 anos, sempre quis comer a casca
do pão,
mas como você sempre gostou tanto dela,
eu jamais ousei pedir".
(Autor desconhecido)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Katie Stevens...voz maravilhosa!

Katie Stevens é uma jovem de ascendência portuguesa que conquistou o difícil júri de «American Idol».

Nascida no seio de uma grande família portuguesa, Katie é muito próxima da avó, com quem foi criada e que lhe ensinou a língua materna, o português.

Na sua participação no concurso de talentos, vemos Katie a cantar para a avó e é com lágrimas nos olhos que a jovem conta que a avó sofre de Alzheimer e espera participar no concurso enquanto esta ainda a reconhece...

Simon Cowell, o conhecido e implacável jurado, reagiu de forma muito positiva à prestação de Katie que levou à audição o tema «At Last».

No final da audição, que lhe valeu entrada para o programa, Katie telefona à avó a quem partilha em português: «Ganhei! Ganhei!»

Desde Abril passado que esta jovem começou a divulgar no Youtube as suas performances em vídeos caseiros.

Surpreenda-se com a emocionante prestação da jovem de 16 anos, que cresceu numa família portuguesa, e dedica a sua participação à avó,que sofre de Alzheimer.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Prenda das Bodas de Prata

Era um casal muito pobre e sem filhos.
Ela fiava à porta da sua cabana pensando no marido. Toda a riqueza que ela possuía era uma bela cabeleira, gabada e invejada pelas mulheres da aldeia. Uma cabeleira negra, comprida, brilhante que brotava da sua cabeça como os fios de linho da sua roca.
Ele ia ao mercado vender algumas frutas. Sentava-se à sombra de uma árvore a esperar, firmando entre os dentes o seu cachimbo vazio. O dinheiro não lhe chegava para uma pequena porção de tabaco.
Aproximavam-se os 25 anos do seu casamento. Em anos anteriores, nessa data, nunca tinham oferecido nada um ao outro porque a pobreza não lhes permitia esse luxo.
Mas agora tinha mesmo de ser. Vinte e cinco anos é uma data marcante que é preciso comemorar. Assim pensavam os dois em segredo sem falarem um ao outro sobre o assunto. Era preciso fazer uma surpresa.
Uma ideia cruzou a mente da esposa. Sentiu um calafrio de alegria e tristeza ao pensar nela mas era a única maneira de conseguir algum dinheiro: venderia a sua cabeleira para comprar tabaco para o seu marido. Seria a melhor prenda que lhe podia dar. Ela imaginava-o já na praça, sentado atrás dos seus frutos, puxando longas cachimbadas e o fumo e evolar-se como aroma de incenso e jasmim a dar-lhe o prestígio e a solenidade de um grande comerciante.
Só obteve pelo seu belo cabelo umas poucas moedas. Mas escolheu com cuidado o mais fino estojo de tabaco. O perfume das folhas enrugadas compensava largamente o sacrifício do seu cabelo.
Ao cair da tarde regressou o marido. Vinha cantando pelo caminho.
Trazia na sua mão um pequeno embrulho: eram alguns pentes para a sua mulher. Para obter dinheiro para os comprar tinha vendido o seu cachimbo...

domingo, 4 de outubro de 2009

União Missionária Franciscana

A União Missionária Franciscana é uma associação de fiéis que tem como finalidade principal ajudar os cristãos a descobrir e realizar a sua vocação missionária, levando-os a viver em comunhão com os povos mais carenciados, particularmente com os que vivem nos chamados «países de missão».
Sob o impulso do Espírito Santo, São Francisco encontrou no Evangelho a dimensão missionária da sua Ordem, tendo sido o primeiro entre os Fundadores de Ordens, a incorporar na Regra o ministério missionário entre os não-cristãos. Foi também o primeiro arauto, entre os Fundadores, a levar a Fé para além fronteiras da Europa, enviando os seus frades pelo mundo inteiro.
Os Frades Menores, seguindo a doutrina e o exemplo do Seráfico Fundador, dirigiram-se aos mais diversos povos através dos séculos para lhes anunciarem o Evangelho e construírem entre eles a Igreja, frequentemente com a colaboração de benfeitores de qualquer estado e condição, por vezes mesmo não-cristãos.
Desde o sec. XIX, o zelo pelas missões adquiriu novo incremento e várias associações nasceram em diversos lugares, em especial a partir do ano de 1907, sobretudo na Holanda, França e Alemanha, para apoiar, com orações e obras, o trabalho dos Frades Menores. Destas associações sobressai em Portugal a "União Missionária Franciscana" - UMF -nascida na Holanda, em fins do séc. XIX, abençoada e indulgenciada em 1907 por Pio X e em 1922 por Pio XI, ano em que foi introduzida em Portugal, sendo de bom grado acolhida pelo Episcopado Português, com votos para que se expandisse em suas dioceses. Introduzida em Portugal pelo P. José Alves Pereira, tornou-se assim a obra de auxílio às Missões mais antiga em Portugal.

É um movimento de âmbito universal, implantado nas diversas comunidades franciscanas, de maneira a irradiar pelo mundo fora o espírito missionário completamente esgotado em S. Francisco de Assis, o primeiro, entre os fundadores de Ordens Religiosas, a incluir na sua Regra um capítulo com orientações práticas destinadas àqueles que desejassem seguir para terras de missão. Mas também é considerado um movimento eclesial, com o objectivo de ajudar a conhecer e a amar o apostolado dos Missionários Franciscanos e auxiliar a sua acção, sobretudo pela oração, pelo encaminhamento vocacional à vida missionária franciscana e pela partilha de bens materiais. Sendo um meio vital da Ordem Franciscana, apresenta-se como instrumento e auxílio para os que partilham a dedicação e o trabalho da evangelização missionária. Inspirada por S. Francisco, “homem católico e apostólico”, e sob o patrocínio de Santo António de Lisboa, multiplicam-se os homens “da paz e do bem” e difundem-se por toda a Igreja as “perfumadas palavras do Senhor”.
(Retirado de www.uniao-missionaria-franciscana.org...)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sou professora!

Quando dizia "sou professora", em geral, respondiam com um "Ah" tão insípido, que gostaria de dizer:
- Em que profissão poderias pôr laços no cabelo, fazer penteados inovadores e ver um desfile de moda todas as manhãs?
- Onde te diriam todos os dias "És linda"?!!
- Em que outro trabalho te abraçariam para te dizerem o quanto te querem?
- Onde serias tão importante que pudesses chegar à estrela do desfile para lhe limpar o nariz?
- E em que outro lado te esquecerias das tuas tristezas para atender a tanto joelho esfolado e coração aflito?
- Onde receberias flores?
- Onde mais poderias iniciar na escrita um mãozinha que, quem sabe, um dia poderá escrever um livro?
- Em que outro lugar receberias de presente um sorriso?
- Em que outro lugar as tuas palavras causariam tanta admiração?
- Em que trabalho te receberiam de braços abertos, após teres faltado um dia?
- Onde poderias assistir em 1.ª fila, à execução de obras de arte?
- Onde poderias aprofundar teus conhecimentos sobre caracóis, formigas, bichos da seda e borboletas?
- Em que outro sítio derramarias lágrimas por ter que terminar um ano de relações tão felizes?
- Senti-me GRANDE, trabalhando com pequenos.
A todos os professores, que tanto semeiam para que outros recolham...
A todos os que escolheram esta profissão...
OBRIGADA!...
Adaptado de "Soy Maestra"