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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

DOROTHY DAY - A LONGA SOLIDÃO

DOROTHY DAY (2019). A Longa Solidão. Autobiografia de Dorothy Day. Lucerna. 264 páginas
A autora, Dorothy Day, nasceu no seio de uma família protestante da classe média norte-americana, em 1897. Viria a tornar-se sufragista, escritora social e política e, mais tarde, uma conhecida ativista católica. O exemplo de alguns vizinhos católicos, vendo a forma como rezavam, encontrando uma outra senhora a rezar de joelhos, a recitação do terço, a participação na Santa Missa, a cada domingo, ou mesmo todos os dias, foram despertando nela o interesse pelo catolicismo, ainda que tivesse dificuldade em entender o pouco envolvimento da Igreja Católica no campo social, não se vislumbrando a opção pelos pobres e pelos trabalhadores, deixando a outros essa luta.
Aquando do nascimento da filha, Tamara, decidiu que queria o melhor para a filha, e o melhor era fazê-la católica, batizando-a. Foi encontrando algumas dificuldades, vivia em união de facto e o marido era descrente e contrário a tudo o que tivesse a ver com religião. Já que queria batizar a filha, foi-lhe recomendado que faria mais sentido se também ela estivesse mais comprometida. Viria a ser batizada no mesmo dia que a filha. Apesar de gostar muito do marido, decidiu que o seu caminho seria outro, de total comprometimento com a condição de batizada, acolhendo as orientações da Igreja.
Esteve ligada a diversos movimentos de trabalhadores, de pobres, de anarquistas, de comunistas, trabalhando como jornalista, como repórter ou participando em manifestações contra a guerra, a favor dos direitos das mulheres, pela melhoria de condições dos mais pobres. Esteve presa por duas vezes, em condições sub-humanas e também aí a luta por melhores condições para as prisioneiras.
Marcante nesta autobiografia, e por certo no seu compromisso social, o encontro com Peter Maurin. Juntamente com Peter nasceu a ideia de publicar um jornal, que teria o nome de The Catholic Worker, a fim de divulgar as ideias e mensagens de Peter, mas também outros textos de intervenção, na defesa dos trabalhadores. Sem muitos meios e com a preocupação de ser um jornal muito barato, deitaram mãos à obra e rapidamente se transformou num jornal de grande tiragem, chegado inclusivamente à Europa.
Com as ideias do Jornal, com voluntários que se foram juntando, ajudando a vender o jornal, a distribui-lo. Os voluntários foram também contando com a ajuda do jornal, refazendo as suas vidas ou pelo menos podendo ter acesso a refeições, o pão dos trabalhadores. Daí à criação de casas de acolhimento foi um quase nada. O jornal e o movimento caminharam e cresceram juntos, alugando casas, para albergar famílias, investindo em quintas, para serem auto-suficientes, divulgando a doutrina social da Igreja, defendendo o pacifismo, o regresso aos campos, a objecção de consciência face à guerra.
O movimento seguiu uma linha de inclusão de trabalhadores e intelectuais. O trabalho não é apenas o físico, mas também o intelectual, o espiritual. O propósito do movimento era alimentar os famintos, acolher os pobres, os vulneráveis, os doentes e os necessitados, no espírito da caridade cristã.
O remédio para a grande solidão é a comunidade. "Não só a comunidade básica da família, mas também uma comunidade de famílias, combinando a propriedade privada com a propriedade comunitária... Havia um grande desejo de propriedade privada, mas um desejo ainda maior de comunidade. O Homem não foi feito para viver sozinho... A única resposta nesta vida para a solidão que todos acabamos por sentir é a comunidade. Vivendo juntos, partilhando, amando a Deus e amando o nosso irmão, e vivendo perto dele em comunidade, para podermos demonstrar o nosso amor por Ele"
"Sentia, já aos quinze anos, que Deus queria que o Homem fosse feliz, que Ele pretendia dar-lhe aquilo de que ele precisava para levar um vida com o objetivo de ser feliz, e que não era necessário termos tanta pobreza e tanta miséria quantas as que eu via à minha volta e sobre as quais lia na imprensa diária"
"Tinha 17 anos e sentia-me completamente só no mundo, divorciada da minha família, de toda a segurança, e até de Deus. Sentia a arrogância imprudente e, com essa imprudência, uma sensação de perigo na qual me comprazia.
Havia uma interrogação na minha cabeça: porque se fazia tanta coisa para remediar os males sociais em vez de se começar por evitá-los?"

"Estou a rezar porque estou feliz e não porque estou infeliz. Eu não me voltei para Deus por infelicidade, por tristeza, por desespero -  para obter consolo, para obter algo d'Ele... comecei a ir à missa regularmente ao domingo de manhã... o meu amor ardente pela criação levou-me ao Criador de todas as coisas"
"Sabia que iria batizar o meu bebé, custasse o que custasse. Sabia que não queria que ela se debatesse durante muitos anos como eu, duvidando e hesitando, indisciplinada e amoral. Sentia que era a melhor coisa que poderia fazer pela minha filha. Para mim, rezei pelo dom da fé... Tornar-me católica significava enfrentar a vida sozinha e eu sentia-me presa à vida familiar. Era difícil pensar em desistir de um companheiro para que a minha filha e eu pudéssemos tonar-nos membros da Igreja. O Forster não iria ter nada a ver com a religião, ou comigo se a abraçasse. Por isso esperei..."
"Aprendi a rezar o terço..."
"Eu amava a Igreja por Cristo tornado visível. Não por ela mesma, porque muitas vezes era um escândalo para mim. Romano Guardini disse que a Igreja é a Cruz na qual Cristo foi crucificado; não se pode separar Cristo da sua Cruz e temos de viver num estado permanente de insatisfação com a Igreja".
"Mas a palavra final é o amor. Às vezes foi, usando as palavras do padre Zossima, algo duro e terrível, e a nossa própria fé no amor foi provada pelo fogo.
Não podemos amar a Deus a não ser que nos amemos uns aos outros e, para amar, temos de conhecer-nos uns aos outros. Conhecemo-l'O pelo partir do pão, conhecemo-nos uns aos outros partindo o pão, e deixamos de estar sós. O Céu é um banquete e a vida também é um banquete, ainda que de côdeas duras, em que exige companheirismo.
Todos conhecemos a longa solidão e aprendemos que a única solução é o amor, e que o amor vem com a comunidade".

quarta-feira, 26 de março de 2014

A Caridade na Verdade

"O amor - "caritas" - é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se com coragem e generosidade no campo da justiça e da paz" (1);
"A verdade é luz que dá sentido e valor á caridade" (3);
"A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos" (19);
"O primeiro capital a valorizar é o homem, a pessoa na sua integridade" (25);
"A acção é cega sem o saber, e este é estéril sem o amor" (30);
"Os custos humanos são também sempre económicos, e as disfunções económicas acarretam também sempre custos humanos" (32);
"O ser humano está feito para o dom, que exprime e realiza a sua dimensão de transcendência" (34);
"O desenvolvimento económico, social e político precisa, se quiser ser autenticamente humano, de dar espaço ao princípio da gratuidade como expressão da fraternidade" (34).
BENTO XVI, A Caridade na Verdade. Caritas in Veritate.
Recolha da revista Cidade Nova. Outubro 2009.

terça-feira, 25 de março de 2014

Oração e desenvolvimento

"O desenvolvimento tem necessidade de cristãos
com os braços levantados para Deus
em atitude de oração,
cristãos movidos pela consciência de que o amor
cheio de verdade - caritas in veritate -,
do qual procede o desenvolvimento autêntico,
não o produzimos nós, mas é-nos dado".

Bento XVI, Caritas in Veritate, 79.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Desenvolvimento e confiança em Deus

"O desenvolvimento implica atenção à vida espiritual,
uma séria consideração das experiências de confiança em Deus,
de fraternidade espiritual em Cristo, de entrega à providência
e à misericórdia divina, de amor e de perdão,
de renúncia a si mesmos, de acolhimento do próximo,
de justiça e de paz".

Bento XVI, Caristas in Veritate, 79.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A nossa esperança maior

"Deus dá-nos a força de lutar e sofrer por amor do bem comum, porque Ele é o nosso Tudo, a nossa esperança maior".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 78.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

No amor, há sempre algo que nos surpreende

"Conhecer não é um acto apenas material,
porque o conhecido esconde sempre algo
que está para além do dado empírico.
Todo o nosso conhecimento, mesmo o mais simples,
é sempre um pequeno prodígio, porque nunca se explica completamente com os instrumentos materiais que utilizamos.
Em cada verdade,
há sempre mais do que nós mesmos teríamos esperado;
no amor que recebemos,
há sempre qualquer coisa que nos surpreende".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 77.

sábado, 5 de setembro de 2009

Longe de Deus, o homem vive inquieto

"O ser humano desenvolve-se quando cresce no espírito,
quando a sua alma se conhece a si mesma e apreende as verdades que Deus nela imprimiu em gérmen,
quando dialoga consigo mesma e com o seu Criador.
Longe de Deus, o homem vive inquieto e está mal.
A alienação social e psicológica e as inúmeras neuroses que caracterizam as sociedades opulentas
devem-se também a causas de ordem espiritual.
Uma sociedade do bem-estar, materialmente desenvolvida
mas oprimente para a alma, não está,
por si mesma, orientada para o autêntico desenvolvimento".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 76.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O apelo dos pobres

"Enquanto os pobres do mundo batem às portas da opulência,
o mundo rico corre o risco de deixar de ouvir tais apelos
à sua porta por causa de uma consciência
já incapaz de reconhecer o humano.
Deus revela o homem ao homem;
a razão e a fé colaboram para lhe mostrarem o bem,
desde que o queira ver;
a lei natural, na qual reluz a Razão criadora,
indica a grandeza do homem,
mas também a sua miséria quando ele desconhece
o apelo da verdade moral".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 75.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Desenvolvimento humano

"Quando o único critério da verdade é a eficiência e a utilidade,
o desenvolvimento acaba automaticamente negado.
De facto, o verdadeiro desenvolvimento
não consiste primariamente no fazer;
a chave do desenvolvimento é uma inteligência
capaz de pensar a técnica e individualizar
o sentido plenamente humano do agir do homem,
no horizonte de sentido da pessoa vista na globalidade do seu ser.

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 70.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A religião na esfera pública

"A exclusão da religião do âmbito público e, na vertente oposta, o fundamentalismo religioso, impede o encontro entre pessoas e a sua colaboração para o progresso da humanidade".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 56.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Solidão

"Uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 53.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O Livro da Natureza

"O livro da natureza é uno e indivisível,
tanto sobe a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida,
da sexualidade, do matrimónio, da família, das relações sociais,
numa palavra, do desenvolvimento humano integral.
Os deveres que temos para com o ambiente
estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa
considerada em si mesma e em relação com os outros.

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 51.

sábado, 29 de agosto de 2009

A paz e a natureza

"A paz dos povos e entre os povos
permitiria também uma maior preservação da natureza.
O açambarcamento dos recursos, especialmente da água,
pode provocar graves conflitos entre as populações envolvidas.
Um acordo pacífico sobre o uso dos recursos
pode salvaguardar a natureza e,
simultaneamente, o bem-estar das sociedades interessadas".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 51.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Há espaço para todos na terra

"É lícito ao homem exercer um governo responsável
sobre a natureza para guardar,
fazer frutificar e cultivar,
inclusive com formas novas e tecnologias avançadas,
para que possa acolher
e alimentar condignamente a população que a habita.
Há espaço para todos nesta nossa terra:
aqui a família humana inteira deve encontrar os recursos necessários
para viver dignamente, com a ajuda da própria natureza,
dom de Deus aos seus filhos,
e com o empenho do seu trabalho e engenho".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 50.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Natureza: expressão de amor e de verdade

"Quando a natureza, a começar pelo ser humano,
é considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo,
a noção da referida responsabilidade debilita-se nas consciências.
Na natureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso
da intervenção criadora de Deus,
de que o homem se pode responsavelmente servir
para satisfazer as suas legítimas exigências
- materiais e imateriais -
no respeito dos equilíbrios intrínsecos da própria criação.
Se falta esta perspectiva, o homem acaba
ou por considerar a natureza um tabu intocável,
ou, ao contrário, por abusar dela.
A natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 48.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Abertura reponsável à vida...

"A abertura moralmente responsável à vida é uma riqueza social e económica...

"A diminuição dos nascimentos, situando-se por vezes abaixo do chamado 'índce de substituição', põe em crise também os sistemas de assitência social, aumenta os seus custos, contrai a acumulação de poupanças e, consequentemente, os recursos financeiros necessários para os investimentos, reduz a disponibilização de trabalhadores qualificados, restringe a reserva aonde ir buscar os 'cérebros' para as necessidades da nação".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 44.

Natalidade e desenvolvimento

"Considerar o aumento da população
como a primeira causa do subdesenvolvimento é errado,
inclusive do ponto de vista económico:
basta pensar, por um lado,
na considerável diminuição da mortalidade infantil
e no aumento médio de vida
que se regista nos países economicamente desenvolvidos,
e, por outro lado, nos sinais de crise que se observam nas sociedades onde se regista uma preocupante queda da natalidade".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 44.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Gratuidade na economia

"Na época da globalização, a actividade económica não pode prescindir da gratuidade, que difunde e alimenta a solidariedade e a responsabilidade pela justiça e pelo bem comum nos seus diversos sujeitos e actores".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 38.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O mercado e a consciência moral

"A sociedade não tem que se proteger do mercado,
como se o desenvolvimento deste implicasse ipso facto
a morte das relações autenticamente humana.
É verdade que o mercado pode ser orientado de modo negativo,
não porque isso esteja na sua natureza,
mas porque uma certa ideologia pode dirigi-lo em tal sentido.
Não se deve esquecer que o mercado, em estado puro, não existe;
mas toma forma a partir de configurações culturais que o especificam e orientam.
Por isso não é o instrumento que deve ser questionado,
mas o homem, a sua consciência moral
e a sua responsabilidade pessoal e social".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 36.

domingo, 23 de agosto de 2009

A verdade como dom

"A verdade, que é dom tal como a caridade, é maior que nós...
A verdade não é produzida por nós, mas sempre encontrada ou, melhor, recebida. Tal como o amor, ela 'não nasce da inteligência e da vontade, mas de certa forma impõe-se ao ser humano?".

Bento XVI, A Caridade na Verdade, 34.