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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Paróquia de Tabuaço: Reflexão para a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus - Pe- João carlos

       Celebramos hoje a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e desde há 49 anos o Dia Mundial da Paz. Cada ano que começa é um tempo animado pela esperança onde se formulam desejos que são preces que exorcizam o que de menos bom aconteceu no ano que termina e imploram o que almejamos para o ano que começa. A paz é, talvez, o pedido coletivo mais comum.
       O lema escolhido pelo Papa Francisco, para este dia é: “Vence a indiferença, conquista a paz”, todo um programa que diz bem os caminhos a seguir e a evitar para alcançar este bem coletivo. A ausência da paz não resulta só da ação dos beligerantes mas também do silêncio dos pacíficos, que podem atolar-se no “lodaçal da indiferença, que é, talvez, a mais grave doença que afeta a humanidade deste tempo” como recorda D. António Couto, nosso bispo.
       A indiferença envenena, desde logo, as relações interpessoais. Quantas vezes a indiferença é a forma mais frequente de “matar” alguém na nossa vida. Frequentemente, sob a capa de uma “tolerância”, mal entendida, exercemos esta forma subtil de violência: este ou aquele irmão é-nos indiferente. Esquecemos as obras de misericórdia. Para não nos incomodarmos deixamos de fazer a correção fraterna ou suportar com paciência as fraquezas do próximo; paciência pró-ativa de quem dá suporte e respeita o ritmo da conversão do outro.
       A globalização da indiferença, afirma o Santo Padre, conduz a uma malsã autossuficiência do homem que o leva, não só a fechar-se ao irmão, mas também a Deus e à Criação. Colocados sob o lema do Jubileu da Misericórdia: “Misericordiosos como o Pai”, somos convidados a passar da indiferença à misericórdia através da conversão do coração que crie uma cultura da solidariedade e da compaixão. Num discurso a sacerdotes, a 3 de Setembro passado, o Papa Francisco advertia: “Por favor, que nas vossas comunidades nunca haja indiferença. Comportai-vos como homens. Se surgirem discussões ou diversidade de opiniões, não vos preocupeis, é melhor o calor da discussão que a frieza da indiferença, verdadeiro sepulcro da caridade fraterna”. Uma orientação útil para qualquer cristão e para todas as comunidades humanas e eclesiais. 
       Ao celebrarmos hoje a maternidade divina de Maria, voltamo-nos para Aquela que é modelo de abertura a Deus e aos irmãos. Ela é a antítese da indiferença. A sua grandeza vem-lhe toda de Deus e, por isso, ela canta “A minha alma glorifica ao Senhor, porque olhou para a sua humilde serva”. Esta atitude humilde de quem sabe que tudo é dom de Deus, fá-la viver em permanente estado de prontidão diante dos apelos Deus e das necessidades do próximo, leva-a a correr para junto de sua prima Isabel e a lembrar ao seu filho, nas bodas de Caná, que aqueles noivos não tinham vinho.
       Que a Senhora do caminho, da pressa e da visitação, nos cure da doença da indiferença e nos torne atentos às necessidades do irmão.

Pe. João Carlos Morgado
Pró Vigário Geral da Diocese de Lamego

Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus - 01.01.2016

       1 – Iniciamos cada ano sob o olhar materno da Virgem Mãe de Deus e nossa Mãe, para que em todo o ano Ela seja a Estrela da Manhã que nos guia para Jesus e nos conduz para dentro do Presépio, dando-nos Jesus, para O adorarmos, contemplando-O, enchendo-nos da Sua alegria e da Sua paz. Exige-se-nos o mesmo que a Maria: acolhê-l'O, adorá-l'O e dando-O aos outros.
        Um Menino nos foi dado, um Deus no meio de nós. Em Jesus, Deus entranha-Se na história a partir da própria história, encarnando, fazendo-Se Um de nós. Sem anúncios espetaculares ou publicidade enganosa, sem reportagens ou parangonas. Simplesmente nascendo numa família o mais normal possível, de Nazaré, e como qualquer família, com os seus contratempos, desde logo o nascimento em Belém de Judá.
       Há sinais que muitos veem, mas que poucos valorizam e dão crédito. Por regra, só quem tem um coração pobre, grande, disponível para os outros, vazio das coisas e sem orgulhos vãos, é que consegue ler os sinais que surgem na sua vida e à sua volta. Os que estão cheios de si raramente veem o que é verdadeiramente importante, o que conta, o que transforma a vida. Cheios de si, só eles contam, ninguém mais importa, nada têm a aprender ou a descobrir, a importância está neles, os outros são acessórios que embelezam as suas vitórias ou escadas que se permitem pisar para subir mais e mais.
       Como Maria a caminho da Montanha, apressadamente, assim os pastores ao encontro do Menino, apressadamente. Não há tempo a perder. Tudo é importante. Mas há acontecimentos que são decisivos e há pessoas – que nos trazem a salvação – que precisam de toda a nossa atenção. Os pastores deixam os rebanhos, partem por que nada têm de mais importante que a adoração de Jesus, o Menino que vem da parte de Deus. Diante de Jesus, tudo é relativo, secundário, dispensável. Só Jesus não se pode dispensar. Recordamos a liturgia da Festa da Sagrada Família: quando Jesus não está no MEIO, não está connosco, então há que deixar tudo, tudo, absolutamente tudo, para ir ao Seu encontro. Sem Ele de pouco vale o que temos ou o que somos. Com Ele, até as provações têm sentido e poderão ser redentoras.
       2 – Chegados a Belém, encontram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura, conforme o Anjo do Senhor lhes revelara. E de novo não há tempo a perder, não importa a pressa que traziam, nem o que deixaram lá fora, estão em casa pois estão junto de Jesus, encontraram uma RAZÃO maior que iluminará as suas vidas por completo.
       Que importa o mundo inteiro se tenho o mundo ao pé de mim, se estou em casa, se sou iluminado pela maior luz, se diante dos olhos e do coração tenho o essencial para ser feliz?
        Madre Teresa de Calcutá lembrava muitas vezes que o fundamental é dar atenção e cuidar da pessoa que tenho à minha frente. Se tenho uma pessoa a quem valer e não valho por estar preocupado com a doença, o sofrimento e a miséria de milhares de pessoas, de pouco me adianta fazer e ter bons propósitos. Há que começar por algum lado, melhor, por alguém. Quantas vezes estamos a falar com alguém e não escutamos por que estamos centrados noutras coisas, noutros mundos, em outras pessoas! Mas então e esta pessoa que está diante de mim? Não me merecerá toda a atenção do mundo? Há que acudir a Jesus nesta pessoa concreta.
        Os pastores dão-nos uma lição importante: ir ao encontro de Jesus e colocar-nos por inteiro diante d'Ele, com o que somos, com as nossas dúvidas e incertezas, com os nossos sonhos e projetos. Levamos-lhe o nosso dia-a-dia. Quando chegaram, os Pastores contaram tudo o que ouviram do Anjo.
       E como será o regresso? Se Ele nos tocou a alma, regressamos mudados para sempre. "Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes tinha sido anunciado".
       3 – Capacidade de admiração dos ouvintes. De cada um de nós. Mal é quando a vida já não tem nada para nos dar, nada que nos faça sorrir, nada a apreciar. Todos ficam admirados, mas obviamente Maria ocupa um lugar especial. As mães bebem, mastigam, cada palavra que se diz dos filhos. "Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração".
       Silêncio que acolhe, guarda e medita. Maria também nos desafia pelo Seu silêncio da oração e da adoração. É a primeira a admirar Jesus, a pegar-lhe ao colo, a olhar para as suas feições, a tatear-lhe o corpo, cada pedaço de pele, a aconchegá-l'O contra o seu peito, embrulhando-O para o manter confortável, procurando-lhe o olhar.
       Quando os Pastores os encontram, Jesus está na manjedoura. É possível que Maria O tivesse em seus braços, mas coloca-O para que os pastores O possam adorar e pegar-lhe sem se sentirem retraídos. Os Pastores aproximam-se, presenciam o que lhes disseram: o Messias nasceu e está diante dos seus olhos. Como os habitantes da Samaria, quando a Samaritana lhes falou de Jesus: acreditamos não pelo que disseste mas pelo que vimos e Lhe ouvimos. Os pastores confiaram nas palavras do Anjo e partiram, mas fazem a experiência de encontro com Jesus.
       E com os pastores, outras pessoas se aproximam do Presépio. Vamos também nós a Belém adorar o Deus Menino. Maria, que lá O tem, estendê-l'O-á para que possamos pegar-lhe, deixando que Ele toque a nossa mão, o nosso coração, e nos envie, como aos pastores, em missão.
       4 – Para o cristão, o Batismo marca o arranque de uma vida que se quer de identificação ao autor do Batismo, Jesus Cristo. Um dos primeiros gestos do ritual do Batismo é a escolha do nome do batizando. A primeira missão de Adão e Eva é a de dar nome às coisas e aos animais, para que dominem sobre eles, num domínio que é serviço e cuidado, responsabilidade por aqueles a quem se dá um nome. Quando queremos bem a alguém tratamo-lo pelo nome, num tom e num timbre que ressoe no coração. É das melhores músicas para os nossos ouvidos: o nosso nome dito e ouvido com alegria e amizade, com ternura e afabilidade.
"Quando se completaram os oito dias para o Menino ser circuncidado, deram-Lhe o nome de Jesus, indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno". Ele é o Filho de Deus, mas está ao cuidado de Maria e de José, que Lhe dão o nome e a casa. "Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar seus filhos adotivos. E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: «Abá! Pai!». Assim, já não és escravo, mas filho. E, se és filho, também és herdeiro, por graça de Deus".
       Somos filhos de Deus, em Jesus Cristo e como tal somos responsáveis por cada irmão, filho, pai, mãe, pois Deus os colocou na nossa vida para deles cuidarmos. Maria e José exemplificam este cuidado. Jesus nasce e imediatamente lhes merece toda a atenção. Sublinhe-se o facto de São José que sendo pai adotivo e não biológico logo assume a missão de acolher, amar, cuidar, proteger, dar nome a Jesus e amparar a Virgem Mãe. Os laços que nos unem radicam no amor e na proximidade, ultrapassando os laços sanguíneos.
       5 – Neste primeiro dia de 2016, colocamo-nos, com Maria, sob o olhar misericordioso de Deus, para que nos ilumine e nos dê a Sua bênção. "Senhor nosso Deus, que, pela virgindade fecunda de Maria Santíssima, destes aos homens a salvação eterna, fazei-nos sentir a intercessão daquela que nos trouxe o Autor da vida, Jesus Cristo, vosso filho".
       A bênção há de ser a oração que nos liga a Deus e aos outros, e nos compromete na construção da paz. Como diz Deus através de Abraão: "O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz". Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel e Eu os abençoarei». E como salmodicamente respondemos à Palavra de Deus: «Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção, resplandeça sobre nós a luz do seu rosto. Na terra se conhecerão os seus caminhos e entre os povos a sua salvação. Alegrem-se e exultem as nações, porque julgais os povos com justiça e governais as nações sobre a terra». 
       São também os votos do Papa Francisco, na tradicional Mensagem para o Dia Mundial da Paz que hoje comemoramos: «Não perdemos a esperança de que o ano de 2016 nos veja a todos firme e confiadamente empenhados, nos diferentes níveis, a realizar a justiça e a trabalhar pela paz. Na verdade, esta é dom de Deus e trabalho dos homens; a paz é dom de Deus, mas confiado a todos os homens e a todas as mulheres, que são chamados a realizá-lo».
       O compromisso será vencer a indiferença, reconhecendo que os outros são nossos irmãos em Jesus Cristo e, desta forma, conquistar a paz que Ele nos traz.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Num 6, 22-27; Sl 66 (67); Gál 4, 4-7; Lc 2, 16-21.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Santa Maria Mãe de Deus - 1 de janeiro de 2015

       1 – «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado» (Mt 11, 25-26; cf. Lc 10, 21). Felizes os pobres em espírito, os mansos, os humildes de coração, os pacificadores, os misericordiosos, porque terão um coração capaz de ver a Deus, de descobrir nos outros uma bênção, e, abertos à esperança no futuro com Deus, disponíveis para transformar o mundo em que vivem, a começar por eles mesmos (cf. Mt 5, 1-12).
       Quando olhamos para o nosso tempo facilmente concluímos, com pesar na maioria das vezes, que o mundo é dos espertos, dos poderosos, daqueles que estão sempre a congeminar ardilosamente como enganar o próximo, subtraindo-se à justiça dos homens e ao compromisso social de contribuir com impostos para o bem comum, fugindo aqui, contornando a lei acolá, arranjando estratégias cada vez mais subtis. Lamentamos que ande meio mundo a enganar outro meio, e se calhar este meio mundo enganador já ultrapassa o meio mundo enganado. E nós de que lado estamos? Já ouvi pessoas a lamentar o facto de não terem mentido, omitindo e/ou enganando, porque estariam em melhores condições de vida ou teriam obtido uma benesse que dessa forma não obtiveram. Sempre lhes digo que não há como uma consciência tranquila!
       O Natal, com as diversas celebrações litúrgicas, incluindo a festa da Sagrada Família e a solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, aponta-nos numa direção que vai além dos nossos interesses pessoais, melhor, fazem com que os nossos interesses pessoais se vão identificando com o bem do próximo, reconhecendo nos mais frágeis a presença de Deus, assimilando o exemplo de Jesus.
       As figuras do Natal sublinham (não a ostentação e o poder, mas) a pobreza, a humildade, a alegria, a capacidade de acolher o outro. Maria e José, família simples, desconhecida, e que se converte em lugar de revelação e mistério de Deus. Simeão e a profetisa Ana, dois velhos (ou idosos como muitos preferem), de quem já nada se espera, mas que, inspirados por Deus, pelo Seu Espírito, vivem na esperança da Salvação. Os seus corações podem não esperar nada do mundo, mas esperam de Deus, estão atentos, rezam, louvam, reconhecem Deus n'Aquele Menino, e anunciam-n'O a quem quer ouvir. E recuando um pouco mais poderíamos falar de um outro casal, Zacarias e Isabel, desenganados da vida, mas que se deixam surpreender por Deus.
       2 – Não existe uma condição prévia para Deus nos amar, nos visitar e querer habitar em nós. Ele precede-nos nos Seus desígnios de amor. Ama-nos primeiro. E nunca a partir da nossa bondade ou maldade. Simplesmente nos ama como filhos. Se existe algum precedente, da nossa parte, é precisamente o da humildade, da pobreza, que não aquela que reduz as pessoas a números dispensáveis ou que as leva a mendigar por pão e por atenção, mas a pobreza como opção de vida, como abertura ao Transcendente, como disponibilidade para amar, para transformar o mundo, para nos deixarmos cativar por Ele e por tudo o que à nossa volta é fruto do amor de Deus, a natureza, os animais e sobretudo os outros.
       A opção preferencial pelos mais pobres não é um chavão da Teologia da Libertação nem um desiderato da América Latina, é, antes, um compromisso de todos os cristãos que querem seguir Jesus Cristo, numa dinâmica universal de inclusão. A Salvação há de chegar a todos, a começar pelos excluídos, pelos famintos, pelas pessoas e famílias a viver em situações degradantes, desempregados, toxicodependentes, meninos da rua, pessoas abandonadas, mulheres maltratadas, esquecidas, violadas, crianças sem teto e sem proteção familiar ou social, exploradas, destruídas. Quando o não fizermos por nós, porque nos faz bem, ou pelos outros, o bem que lhe fazemos, façamo-lo por Jesus Cristo, deixando que em nós venha ao de cima a nossa vocação primordial de sermos imagem e semelhança de Deus. Tudo o que fizermos ao mais pequeno dos irmãos é ao próprio Cristo que o fazemos (cf. Mt 25, 31-46).
       O Papa Francisco, na Sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz parte desta premissa: "Já não escravos, mas irmãos" (cf. Flm 15-16). Em Jesus Cristo, Deus revela-Se como Pai. Se Ele é Pai, nós somos irmãos.
       Aos Gálatas, que hoje escutámos, São Paulo prossegue: «Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar seus filhos adotivos. E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: 'Abá! Pai!'. Assim, já não és escravo, mas filho. E, se és filho, também és herdeiro, por graça de Deus». A verdadeira paz conquista-se pelo amor, que pressupõe a justiça, a igualdade, a fraternidade, no respeito pelas diferenças como contributo positivo para a única família de Deus.
       3 – No início de um novo ano, a Igreja propõe-nos – como Igreja nos propomos – olhar para Maria e consagrarmo-nos com Ela a Deus, imitando-A no acolher da vontade de Deus, de tal forma humildes e pobres que Deus caiba em nós, que Deus possa nascer em nós e apressadamente, como Ela em direção à montanha, visitando a Sua prima Isabel, possamos levar a todos a Alegria que nos habita: Deus em nós. Sejamos rosto e presença e vida de Cristo para este tempo. E dessa forma a paz estará mais próxima.
       Despojado de tudo, mas com muito calor, Jesus tem por companhia Maria e José, e os animais. Está quentinho numa manjedoura. Aconchegado. Ah, como é belo este quadro do presépio. Ah, como é fácil de ver que não são as muitas comodidades que possuímos que nos fazem vibrar de alegria, que nos fazem sentir úteis e amados. Aquele Menino tem poucas coisas, está despido, envolto em panos, mas acariciado pelo essencial, pelos seus pais. D'Ele emana uma LUZ, um brilho, uma áurea, que nos leva à contemplação, a fazer como os Pastores, reconhecendo n'Ele o próprio Deus e com alegria desbobinarmos tudo o que Deus nos revelou pelos antigos e que nos revela hoje pela palavra, pelos Sacramentos, por cada gesto de amizade e de ternura que nos fazem ou que fazemos aos outros.
       Aqueles pastores engrossam o número dos que não contam. São escravos, ainda não irmãos. Trabalham em situações muito precárias, independentemente do sol ou da chuva. Ainda não são irmãos, mas escravos. Mas é a eles que Deus Se revela, reconhecendo-os já como filhos amados. «Os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. Quando O viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino. E todos os que ouviam admiravam-se do que os pastores diziam... Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes tinha sido anunciado».
       O verdadeiro encontro com Jesus provoca alegria, enche-nos de paz, para logo nos enviar a anunciar esta Boa Notícia a todas as nações. A alegria extravasa, explode, comunica-se. Ninguém faz festa sozinho. Se a solidão, o sofrimento, a desânimo, precisam de partilha e compreensão, a alegria precisa igualmente de ser acolhida, partilhada, celebrada.
       4 – A condição prévia para reconhecer e acolher Deus é, definitivamente, esta pobreza que nos faz olhar com o coração e perscrutar os sinais que vêm de Deus. Os pastores estão despertos e fazem-nos estar despertos para partir de imediato à procura do Messias, à procura do Deus que Se esconde n'Aquela criança e em tantos pequeninos do nosso tempo. E por contágio nos fará espalhar tamanha alegria.
       Pobreza de Maria e de José que acolhem Aquele que vem de Deus – «Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração» –, e no-l'O apresentam para que O possamos encontrar e O possamos adorar, como os Pastores e como os Magos vindos de longe.
       E cruzando o nosso com olhar daquele Menino-Deus, sejamos portadores da Sua bênção para todos. É uma interpelação presente ao longo da História da Salvação, como se pode ver na primeira leitura: «O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz». Assim fala Deus a Moisés garantindo-lhe a ele e a todo o povo: «Invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel e Eu os abençoarei».
       Que outra coisa poderemos desejar neste novo ano senão a Paz e o Bem que nos chegam de Deus e que não se consomem na nossa fragilidade? Encontrando Jesus no nosso coração, meditando nos acontecimentos destes dias, com Maria, façamos com que através de nós se engrandeça no mundo a presença de Deus. Confiemo-nos por inteiro Àquele que nos pode salvar, até da morte. «Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção, resplandeça sobre nós a luz do seu rosto. Na terra se conhecerão os seus caminhos e entre os povos a sua salvação».

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia: Num 6, 22-27; Sl 66; Gal 4, 4-7; Lc 2, 16-21.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Papa Fransciso - a luz que brilhou nas trevas

       "... o nascimento do Salvador: como luz que envolve e penetra toda a obscuridade. É presença do Senhor no meio do Seu povo, presença que destrói o peso da derrota e da tristeza da escravidão, e semeia alegria.
       ...  E aquele Deus que tinha semeado os Seus sonhos na carne do homem, feito à Sua imagem e semelhança, continuava a esperar. Os sonhos de Deus! Tinham motivos para desaparecer. Porém, Ele podia: estava 'escravizado', por assim dizer, à Sua fidelidade, não podia negar-Se a Si mesmo o Deus fiel... A paciência de Deus frente à corrupção de povos e homens!
       ... Deus tem coração de Pai e não renega os Seus sonhos para com os Seus filhos. O nosso Deus não Se dececiona, nem Se permite isso. Não conhece a desilusão e a impaciência; simplesmente espera, espera sempre como o pai da parábola (Lc 15,20) porque cada momento sobe o terraço da história para vislumbrar de longe o regresso dos filhos.
       ... O reino da aparência, da autossuficiência e da fugacidade, o reino do pecado e da corrupção; as guerras e o ódio dos séculos e de hoje estilhaçam-se na mansidão da noite silenciosa, na ternura de um Menino que concentra em Si todo o amor, toda a paciência de deus e não Se outorga a Si mesmo o direito de Se dececionar. E, juntamente com o Menino, cobiçando os sonhos de Deus, está a Mãe; a Sua Mãe e nossa Mãe que, entre carícias e sorrisos, nos continua a dizer ao longo da história: «Fazei tudo o que Ele vos disser» (Jo 2,5).
       ... O nosso Deus, o mesmo que semeou os sonhos em nós, o mesmo que não se concede deceções pela Sua obra, é a nossa esperança. Como os anjos aos pastores, gostaria hoje de te dizer: «Não tenhas». Não tenhas mendo de nada. Deixem que venham as chuvas, os terramotos, os ventos, a corrupção, as perseguições a este 'resto' de justos... (cf. Mt 7,24-25). Não tenhas medo, porque a nossa casa está alicerçada sobre a rocha desta convicação: o Pai aguarda, tem paciência, ama-nos enviou-nos o Seu Filho para caminhar connosco; não tenhas medo, desde que estejamos alicerçados sobre a convicção de que o nosso Deus não Se dececiona e nos espera.
       Esta é a luz que brilha nesta noite. Com estes sentimentos, quero desejar-vos um feliz Natal.
in Papa Francisco, Espírito de Natal. 24 de dezembro de 2005.

Papa Francisco - a ternura de Deus

       O Sinal é que, esta noite, Deus Se enamorou da nossa pequenez e Se fez ternura; ternura para toda a fragilidade, para todo o sofrimento, para toda a angústia, para toda a busca, para todo o limite; o sinal é a ternura de Deus e a mensagem que buscavam todos os que pediam sinais a Jesus, a mensagem que buscavam todos os desorientados, os que eram inimigos de Jesus e O buscavam no profundo da alma era este: buscavam a ternura de Deus, Deus feito ternura, Deus a acariciar a nossa miséria, Deus enamorado da nossa pequenez...
       O mais importante é que te deixes procurar por Ele, pela Sua carícia na ternura.

in Papa Francisco, Espírito de Natal. 24 de dezembro de 2004.

Papa FRANCISCO - Espírito de Natal

Papa FRANCISCO. Espírito de Natal. Paulus Editora. Apelação 2013. 88 páginas.
       A Paulus Editora brinda-nos com este pequeno livro, com mensagens do Papa Francisco para o Natal, homilias na noite de Natal, mensagens à Diocese de Buenos Aires, reflexões sobre esta quadra.
       Diríamos desde logo que os textos apresentados são do papa Francisco e não são do Papa Francisco, pois referem-se a um período anterior, como Arcebispo de Buenos Aires, o então D. Jorge Maria Bergoglio. São do Papa Francisco pois a linguagem acessível, simples, familiar, transparecendo proximidade de fé é a mesma que atualmente utiliza como Bispo de Roma, como Papa. Assim também os temas estão na base do discurso, das mensagens e das homilias de Francisco. A este propósito se vê claramente uma continuidade. A pessoa é a mesma, como Arcebispo e Cardeal e como Papa, as coordenadas são semelhantes: fé em Cristo, alegria, proximidade sobretudo com os mais próximos, diálogo, cultura do encontro e da proximidade.
       Obviamente que a esta altura do campeonato há muito livros escritos sobre o Papa Francisco, muitos livros com as suas intervenções na Argentina, e agora como Papa. A Paulus faz-nos o favor de agregar textos para esta quadra, desafiando-nos a colocar Jesus Cristo no centro do Natal, com Maria e José, com as pessoas simples, como os pastores, em contágio com o mundo inteiro, como os magos do Oriente.