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domingo, 16 de junho de 2019

Mamoru Itoh - Quero falar-te dos meus sentimentos

MAMORU ITOH (2013). Quero falar-te dos meus sentimentos. Lisboa: Padrões Culturais Editora. 4.ª Edição. 80 páginas.
Já o publicámos, na tradução magnífica de Helena Gil da Costa - Quero falar contigo sobre os meus sentimentos. Neste livrinho, os textos são acompanhados por ilustrações.
O autor recorre a uma imagem muito sugestiva, a do jogo da bola. “Comunicar é como jogar a bola. Eu atiro a bola e tu apanha-la. E outra vez: eu atiro a bola… Eu quero falar contigo sobre os meus sentimentos”. Foi assim que a comunicação começou. Tal como precisamos de lançar a bola de um lado para o outro para que haja jogo, nós, para comunicar, precisamos de falar de uns para com os outros sobre os nossos sentimentos”.
Mas, tal como no jogo, também na comunicação, alguém tem de tomar a iniciativa. Não posso simplesmente ficar à espera que o outro o faça. E, tomando a iniciativa, tenho de estar preparado para que as coisas não decorram como expectável. A bola pode não chegar ao outro. Eu atiro a bola e o outro pode não a apanhar por ser demasiado pesada, ou ser lançada com demasiada força ou não saber jogar à bola! Ou estar demasiado distante. Pode não a devolver, ou devolvê-la com um tamanho mais reduzido…
Não há comunicação se falamos os dois ao mesmo tempo. Falar de banalidades não é comunicar. Comunicar implica-me e implica-te, envolve sentimentos. Podemos estar preparados para comunicar (sentimentos), darmo-nos, e o outro simplesmente ignorar, por não estar preparado ou por estar noutra onda.
«Se a pessoa a quem atiraste a bola não a apanhou da maneira que tu querias, não culpes essa pessoa. Talvez ela não seja muito boa a jogar a bola. Talvez ela estivesse nervosa, e a sua mão tenha deslizado. Talvez a tua bola fosse demasiado pesada».

domingo, 3 de setembro de 2017

VL - Quero falar contigo sobre os meus sentimentos - 2

       A comunicação é como jogar à bola. Eu lanço a bola. Tu lanças a bola. Alguém tem de lançar a bola em primeiro lugar. Deus é o primeiro a lançar a bola, toma a iniciativa, vem “jogar” o nosso jogo, faz-Se, em Jesus Cristo, um de nós, em tudo igual a nós exceto no pecado.
       Na comunicação contam várias condicionantes, mas o essencial são as pessoas que comunicam. A primeira condição é a aceitação: aceitar e escutar. A predisposição não apenas para falar mas para criar as condições para a outra pessoa falar. Aceitar o que tem para me dizer, sem preconceitos. A aceitação inicia-se ouvindo o que ela tem para me dizer. E então a comunicação acontece. É possível que alguma coisa mude.
       Com efeito, a comunicação visa a mudança. Se nada muda, é porque não houve comunicação, pois esta leva sempre a novos comportamentos.
       Falar do tempo, do futebol, falar das fases da nossa vida, é parecido com comunicação, mas a verdadeira comunicação fala de sentimentos e procura tocar o coração do outro.
       Por outro lado, na comunicação pode haver a tentação de eu procurar mostrar à outra pessoa que sou melhor que ela. "Se ao menos eu fosse melhor do que aquela pessoa! Sem se perceber, muitas vezes usamos a comunicação como uma forma de competição”. Dessa forma nada muda. A mudança começa quando o outro se sente aceite como pessoa. Não se trata de concordar com tudo o que diz, trata-se de a aceitar como pessoa e dar valor ao que nos diz.
       É isto que Deus faz connosco. Por amor nos chama à vida e por amor Se comunica, em palavras mas sobretudo pela Palavra que encarna, que Se assume Pessoa, em Jesus Cristo. A comunicação é “corporal”, encurtando distâncias. Jesus comunica-Se com a Sua própria vida. Na relação com as multidões, com os discípulos, com as pessoas mais frágeis, Jesus olha, escuta, pergunta, responde. A primeira preocupação de Jesus não é julgar, mas acolher, escutar, perceber o coração de quem d’Ele se aproxima ou, muitas das vezes, de quem Ele se aproxima. “Nós vivemos através da comunicação. Quando a tua comunicação muda com outra pessoa, a tua relação muda com todas as outras pessoas também. A tua relação com o teu trabalho e as relações na tua vida mudarão também”.
       É isso que acontece com os discípulos: o encontro com Jesus muda-os e mudam para sempre as suas vidas, indo ao encontro de outros para comunicarem a Vida por excelência: Jesus, morto e ressuscitado.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4424, de 8 de agosto de 2017

domingo, 1 de junho de 2014

Msg do Papa Francisco: Dia das Comunicações Sociais

XLVIII DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS - 2014

«Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro»

[Domingo, 1 de Junho de 2014]

Queridos irmãos e irmãs,
       Hoje vivemos num mundo que está a tornar-se cada vez menor, parecendo, por isso mesmo, que deveria ser mais fácil fazer-se próximo uns dos outros. Os progressos dos transportes e das tecnologias de comunicação deixam-nos mais próximo, interligando-nos sempre mais, e a globalização faz-nos mais interdependentes. Todavia, dentro da humanidade, permanecem divisões, e às vezes muito acentuadas. A nível global, vemos a distância escandalosa que existe entre o luxo dos mais ricos e a miséria dos mais pobres. Frequentemente, basta passar pelas estradas duma cidade para ver o contraste entre os que vivem nos passeios e as luzes brilhantes das lojas. Estamos já tão habituados a tudo isso que nem nos impressiona. O mundo sofre de múltiplas formas de exclusão, marginalização e pobreza, como também de conflitos para os quais convergem causas económicas, políticas, ideológicas e até mesmo, infelizmente, religiosas.
       Neste mundo, os mass-media podem ajudar a sentir-nos mais próximo uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da família humana, que impele à solidariedade e a um compromisso sério para uma vida mais digna. Uma boa comunicação ajuda-nos a estar mais perto e a conhecer-nos melhor entre nós, a ser mais unidos. Os muros que nos dividem só podem ser superados, se estivermos prontos a ouvir e a aprender uns dos outros. Precisamos de harmonizar as diferenças por meio de formas de diálogo, que nos permitam crescer na compreensão e no respeito. A cultura do encontro requer que estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber de outros. Os mass-media podem ajudar-nos nisso, especialmente nos nossos dias em que as redes da comunicação humana atingiram progressos sem precedentes. Particularmente a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus.

       No entanto, existem aspectos problemáticos: a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento, e não permite uma expressão equilibrada e correcta de si mesmo. A variedade das opiniões expressas pode ser sentida como riqueza, mas é possível também fechar-se numa esfera de informações que correspondem apenas às nossas expectativas e às nossas ideias, ou mesmo a determinados interesses políticos e económicos. O ambiente de comunicação pode ajudar-nos a crescer ou, pelo contrário, desorientar-nos. O desejo de conexão digital pode acabar por nos isolar do nosso próximo, de quem está mais perto de nós. Sem esquecer que a pessoa que, pelas mais diversas razões, não tem acesso aos meios de comunicação social corre o risco de ser excluído.

       Estes limites são reais, mas não justificam uma rejeição dos mass-media; antes, recordam-nos que, em última análise, a comunicação é uma conquista mais humana que tecnológica. Portanto haverá alguma coisa, no ambiente digital, que nos ajuda a crescer em humanidade e na compreensão recíproca? Devemos, por exemplo, recuperar um certo sentido de pausa e calma. Isto requer tempo e capacidade de fazer silêncio para escutar. Temos necessidade também de ser pacientes, se quisermos compreender aqueles que são diferentes de nós: uma pessoa expressa-se plenamente a si mesma, não quando é simplesmente tolerada, mas quando sabe que é verdadeiramente acolhida. Se estamos verdadeiramente desejosos de escutar os outros, então aprenderemos a ver o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como se manifesta nas várias culturas e tradições. Entretanto saberemos apreciar melhor também os grandes valores inspirados pelo Cristianismo, como, por exemplo, a visão do ser humano como pessoa, o matrimónio e a família, a distinção entre esfera religiosa e esfera política, os princípios de solidariedade e subsidiariedade, entre outros.
       Então, como pode a comunicação estar ao serviço de uma autêntica cultura do encontro? E – para nós, discípulos do Senhor – que significa, segundo o Evangelho, encontrar uma pessoa? Como é possível, apesar de todas as nossas limitações e pecados, ser verdadeiramente próximo aos outros? Estas perguntas resumem-se naquela que, um dia, um escriba – isto é, um comunicador – pôs a Jesus: «E quem é o meu próximo?» (Lc 10, 29). Esta pergunta ajuda-nos a compreender a comunicação em termos de proximidade. Poderíamos traduzi-la assim: Como se manifesta a «proximidade» no uso dos meios de comunicação e no novo ambiente criado pelas tecnologias digitais? Encontro resposta na parábola do bom samaritano, que é também uma parábola do comunicador. Na realidade, quem comunica faz-se próximo. E o bom samaritano não só se faz próximo, mas cuida do homem que encontra quase morto ao lado da estrada. Jesus inverte a perspectiva: não se trata de reconhecer o outro como um meu semelhante, mas da minha capacidade para me fazer semelhante ao outro. Por isso, comunicar significa tomar consciência de que somos humanos, filhos de Deus. Apraz-me definir este poder da comunicação como «proximidade».
       Quando a comunicação tem como fim predominante induzir ao consumo ou à manipulação das pessoas, encontramo-nos perante uma agressão violenta como a que sofreu o homem espancado pelos assaltantes e abandonado na estrada, como lemos na parábola. Naquele homem, o levita e o sacerdote não vêem um seu próximo, mas um estranho de quem era melhor manter a distância. Naquele tempo, eram condicionados pelas regras da pureza ritual. Hoje, corremos o risco de que alguns mass-media nos condicionem até ao ponto de fazer-nos ignorar o nosso próximo real.

       Não basta circular pelas «estradas» digitais, isto é, simplesmente estar conectados: é necessário que a conexão seja acompanhada pelo encontro verdadeiro. Não podemos viver sozinhos, fechados em nós mesmos. Precisamos de amar e ser amados. Precisamos de ternura. Não são as estratégias comunicativas que garantem a beleza, a bondade e a verdade da comunicação. O próprio mundo dos mass-media não pode alhear-se da solicitude pela humanidade, chamado como é a exprimir ternura. A rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas. A neutralidade dos mass-media é só aparente: só pode constituir um ponto de referimento quem comunica colocando-se a si mesmo em jogo. O envolvimento pessoal é a própria raiz da fiabilidade dum comunicador. É por isso mesmo que o testemunho cristão pode, graças à rede, alcançar as periferias existenciais.

       Tenho-o repetido já diversas vezes: entre uma Igreja acidentada que sai pela estrada e uma Igreja doente de auto-referencialidade, não hesito em preferir a primeira. E quando falo de estrada penso nas estradas do mundo onde as pessoas vivem: é lá que as podemos, efectiva e afectivamente, alcançar. Entre estas estradas estão também as digitais, congestionadas de humanidade, muitas vezes ferida: homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança. Também graças à rede, pode a mensagem cristã viajar «até aos confins do mundo» (Act 1, 8). Abrir as portas das igrejas significa também abri-las no ambiente digital, seja para que as pessoas entrem, independentemente da condição de vida em que se encontrem, seja para que o Evangelho possa cruzar o limiar do templo e sair ao encontro de todos. Somos chamados a testemunhar uma Igreja que seja casa de todos. Seremos nós capazes de comunicar o rosto duma Igreja assim? A comunicação concorre para dar forma à vocação missionária de toda a Igreja, e as redes sociais são, hoje, um dos lugares onde viver esta vocação de redescobrir a beleza da fé, a beleza do encontro com Cristo. Inclusive no contexto da comunicação, é precisa uma Igreja que consiga levar calor, inflamar o coração.

       O testemunho cristão não se faz com o bombardeio de mensagens religiosas, mas com a vontade de se doar aos outros «através da disponibilidade para se deixar envolver, pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana» (Bento XVI, Mensagem para o XLVII Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013). Pensemos no episódio dos discípulos de Emaús. É preciso saber-se inserir no diálogo com os homens e mulheres de hoje, para compreender os seus anseios, dúvidas, esperanças, e oferecer-lhes o Evangelho, isto é, Jesus Cristo, Deus feito homem, que morreu e ressuscitou para nos libertar do pecado e da morte. O desafio requer profundidade, atenção à vida, sensibilidade espiritual. Dialogar significa estar convencido de que o outro tem algo de bom para dizer, dar espaço ao seu ponto de vista, às suas propostas. Dialogar não significa renunciar às próprias ideias e tradições, mas à pretensão de que sejam únicas e absolutas.

       Possa servir-nos de guia o ícone do bom samaritano, que liga as feridas do homem espancado, deitando nelas azeite e vinho. A nossa comunicação seja azeite perfumado pela dor e vinho bom pela alegria. A nossa luminosidade não derive de truques ou efeitos especiais, mas de nos fazermos próximo, com amor, com ternura, de quem encontramos ferido pelo caminho. Não tenhais medo de vos fazerdes cidadãos do ambiente digital. É importante a atenção e a presença da Igreja no mundo da comunicação, para dialogar com o homem de hoje e levá-lo ao encontro com Cristo: uma Igreja companheira de estrada sabe pôr-se a caminho com todos. Neste contexto, a revolução nos meios de comunicação e de informação são um grande e apaixonante desafio que requer energias frescas e uma imaginação nova para transmitir aos outros a beleza de Deus.

Vaticano, 24 de Janeiro – Memória de São Francisco de Sales – do ano 2014.
Franciscus

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Na aldeia global… Vizinhos mas (ainda/já) não irmãos!

       O papa Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate, deixa esta afirmação sucinta mas reveladora: “A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (19), acentuando que “o primeiro capital a valorizar é o homem, a pessoa na sua integridade” (25).
       O atual Papa, Francisco, na Viagem a Lampdusa (8 de julho de 2013), e na Mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2014) retomou estas palavras de Bento XVI, sublinhando que “esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença” (Lampdusa) pois nos “faz habituar ao sofrimento alheio” (Dia Mundial da Paz).
       Contradição absurda: os que estão perto de nós são-nos estranhos de tal forma que nos surpreendem, positiva ou negativamente, sem que esperássemos por tal. Começa a verificar-se aquilo que é ridicularizado no ambiente digital: membros da mesma família, no mesmo espaço físico, usam as redes sociais para poderem falar entre si. Tornamo-nos surdos e cegos aos que estão perto e ávidos das novidades longínquas.
       Tudo o que se passa, em todo o mundo, acessível a uma palavra, um toque, um clique. Por outro lado, como vem a acentuar o Papa Francisco, tanta informação sobre desgraças alheias vão-nos deixando anestesiados contra o que vemos e ouvimos. Gera-se a globalização da indiferença, já nada nos choca, mais desgraça menos desgraça, milhares de pessoas que morrem à fome, famílias destruídas pelos cartéis de droga. E, pelo meio, se globaliza a cultura do descarte. As pessoas são descartáveis se impedem a realização dos meus interesses pessoais ou os objetivos da empresa. Talvez choque mais quando as Bolsas de Valores desvalorizam 1% nas suas ações!
       Rodeados por multidões, nesta aldeia global, e continuamos sozinhos, a remar cada um por si. A informação e o conhecimento são utilizados em benefício próprio, qual Adão e Eva que se apropriam do fruto da árvore, que afinal é dom para todos. O individualismo corre juntamente com a globalização. Por outro lado, alguns esforços de solidariedade protagonizadas pelas redes sociais e que rapidamente se expandem; sendo benéficos e pragmáticos correm também o sério risco da banalização e da indiferença. Tantas causas que “globalizamos”: tanta gente necessitada que todos os esforços são inúteis, pois não conseguimos chegar a todo lado. De que adiantará ajudar uma pessoa que seja senão mudo o mundo? Resta-nos rezar e comover-nos?!
       A oração e a comoção como ponto de partida e referência, mas há que potenciar tudo o que pode aproximar-nos e comprometer-nos…

in VOZ DE LAMEGO, n.º 4259, de 8 de abril de 2014

domingo, 30 de março de 2014

Comunicação globalizada » Globalização da Indiferença

       Nunca como hoje os meios de comunicação social, mas também os meios de transporte, nos tornam tão vizinhos e no entanto continuamos distantes, talvez até mais que no passado.
       As pessoas conheciam os vizinhos pelo nome, tinham as portas abertas para quem chegava, e para saírem ao encontro dos outros. Qualquer necessidade poderia ser satisfeita com a ajuda do vizinho. Hoje temos as portas e janelas fechadas, não apenas as de casa mas também as do coração.
       No mesmo instante estamos em contacto com o fim do mundo, com alguém que não conhecemos de parte nenhuma mas que nos faz felizes por o vermos, por vermos o sucesso que tem ou nos entristecemos com os desaires daquele ator, daquela cantora, daquela pessoa que lançou uma campanha para ajudar um cão, ou daqueloutro que andou à batatada com a sogra.
       E à nossa volta? Tão perto e tão distantes. Passamos e andamos. E o “tudo bem” não é uma pergunta, é uma mera formalidade. Cumprimentamos alguém mas não queremos saber da pessoa. Talvez, como já o referimos por aqui, queiramos saber alguma coisa sobre ela, mas não o que sente, o que precisa, o que se passa na sua vida.
       Facilmente estamos em contacto com meio mundo. Trocamos mensagens, informações, o que gostamos, o que lemos, tantas centenas, milhares, de amigos virtuais, gastamos algum ou bastante tempo a postar belas frases, a sugerir pensamentos bem formulados, por vezes para os outros, não para nós, pois não precisamos. Porém, desconhecemos quem mora ao lado, o que faz, o que precisa. Desconhecemos o seu nome. Podemos até cruzar-nos com ele, ou embater contra ele, mas não nos toca. Podemos estar tão perto e tão longe uns dos outros. A aldeia é global, no conhecimento, na informação, na democratização cultural e religiosa, podemos até ser especialistas em bricolage e fabricar a nossa religião e a nossa ideologia. E diga-se que os meios de comunicação social, as redes que nos aproximam virtualmente, são uma oportunidade, um dom de Deus, ajudam a resolver problemas, a diagnosticá-los e formular soluções, a encontrar instrumentos para melhorar a vida uns dos outros, aproximam pessoas, ajudam a encontrar outras que desapareceram, facilitam campanhas de solidariedade, permitem a sensibilização para problemas atuais, de pessoas a animais e à natureza, e por vezes tribalizam-nos em alguns grupos de reflexão, de debate, de acusações, de críticas.
       Também o ambiente digital precisa de conversão e é necessário que não desfoque o nosso coração e o nosso olhar das pessoas que nos rodeiam e das suas necessidades. Porque é que as pessoas gritam, pergunta um discípulo ao seu Mestre. Não é pela surdez de algum deles, mas por terem o coração fechado, distante, alheado. Não conseguem escutar-se. Mutatis mutandis, a globalização económica, política, cultural e até religiosa, não corresponde à melhoria na vida das pessoas e não resolve as suas inquietações existenciais. Por outro lado, tem-se dado também a globalização da indiferença. São tantas as situações discutidas até à exaustão que já não chocam, já não emocionam. Não mobilizam. Já fazem parte do quotidiano. Este é um risco elevado.
       Temos os meios, há que colocar neles o nosso coração, o nosso compromisso. Não esperemos pelo ideal. Localizemo-nos, predispondo-nos a globalizar a caridade, a proximidade física e afetiva. Também isto é ser cristão, também por aqui a nossa conversão. A nossa visão tem diversas focalizações, pode ver bem ao longe e mal ao perto. Pode ver bem ao perto e esquecer o que vem lá. A árvore não nos impeça de ver a floresta, mas por causa desta não esqueçamos só existe porque há muitas árvores…

Publicado (abreviadamente) na VOZ DE LAMEGO, n.º 4257, de 25 de março de 2014

terça-feira, 12 de novembro de 2013

LEITURAS: Antonio Spadaro - Ciberteologia

ANTONIO SPADARO. Ciberteologia. Pensar o cristianismo na era da internet. Paulinas Editora, Prior Velho 2013, 192 páginas.
       Uma sugestão de leitura que antes nos foi sugerida. Quando sugerimos uma leitura, fazemo-la por ser envolvente, pelo conteúdo, pela forma, pela beleza, pela importância deste ou daquele texto. Na última Assembleia do Clero, da Diocese de Lamego, no dia 5 de outubro de 2013, alguém, em plenário, recomendou esta leitura. Seguindo a recomendação, logo procurámos o livro, e depois da nossa leitura, recomendamo-lo nós também.

       António Spadaro, diretor da Revista Cevittá Cattolica, entrevistou há pouco tempo o Papa Francisco, o que o tornou bem mais conhecido. A entrevista, de que já demos nota, é a primeira grande entrevista do Papa Francisco, concedida às revistas da Companhia de Jesus, a que também o papa pertencia. Spadaro é consultor nos Pontifícios da Cultura e das Comunicações Sociais. É docente na Universidade Gregoriana.
       Ao longo dos tempos têm-se dedicado a refletir sobre os meios de comunicação social, nomeadamente no contexto da REDE. O livro Ciberteologia é resultado das reflexões colocadas no blogue com o mesmo nome, com conferências dadas, com investigação e estudo.
       É uma obra de pensamento amadurecido. Apresenta a Internet como um ambiente humano. Não apenas um instrumento, ou um meio, para chegar mais longe, mas uma realidade que facilmente passa do virtual ao encontro.
       São muitos os termos presentes nestes meios que são transferidos da teologia: justificar, apagar, partilhar, grupos, busca, pesquisa, caminho, links, salvar, converter, navegar, home (casa, o ambiente da família). Linguagem da teologia na internet, mas também termos que se tornam mais compreensíveis quando voltam para a teologia.
        Antonio Spadaro traça a evolução técnica da rede, a grande revolução, a necessidade de refletir sobre este ambiente humano. As pessoas estão interligadas, conectadas, de certa maneira, em comunhão. Quando se fala de internet fala-se de vida, e não de fios, cabos, modens, gadgets. É uma experiência de vida. Um EU que se encontra com um TU. A internet é uma ambiente de evangelização.
       Sublinha-se no livro, e na entrevista que se segue, que a Internet não substitui o encontro pessoal, como não substitui a liturgia da Igreja, a inserção na comunidade crente. Ambiente digital que ajuda a conhecer o mundo, aproxima as pessoas,...
       A era da Rede também altera a comunicação, influencia a evangelização, a educação, a relação com a Igreja e com as instituições tradicionais.
       Nos dias 3 e 4 de outubro de 2013, decorreram, em Fátima, as Jornadas de Comunicação Social. Um dos convidados foi precisamente Antonio Spadaro. Segue-se a conferência que ajuda a perceber o que significa ciberteologia, motivando a leitura deste livro, ou a leitura deste livro poderá despertar um maior interesse para escutar esta exposição:



Veja também a pré-publicação de Cibertelogia na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura: AQUI.

domingo, 6 de outubro de 2013

António Spadaro - Ciberteologia

       António Spadaro, estudioso jesuíta que há poucos dias entrevistou o Papa Francisco, em entrevista memorável. Veja-se aqui a sua intervenção em Fátima, nas Jornadas Nacionais da Comunicação Social:


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Ninguém tem muitos amigos

Neste mundo cada vez mais distante e deserto é urgente preservar o amigo, viver o amor, para que não se seja apenas mais um
       A maior parte daqueles que nos estão próximos farão as malas assim que o céu se cobrir de nuvens. Bem a tempo de não lhes cair nenhuma lágrima nossa em cima.
        Mas, infelizmente, também nós somos dos que se afastam quando os que connosco contam de nós precisam...
        Talvez o leitor se julgue bem-aventurado por contar com muitos amigos. Mas a sabedoria antiga adverte que vive feliz aquele que nunca tenha de pôr à prova os seus amigos... Mais, julgamo-nos a nós próprios, quase sempre, como bons amigos de outrem... mas será que somos capazes de o ser de verdade? Qual o limite de adversidade a partir do qual abandonaríamos esse papel? Afinal, a dureza da prova de amizade em nada se compara à troca de sorrisos depois de uma piada. A vida real é a sério, passa por muitos caminhos duros até... encontrar caminhos ainda mais duros. Sermos capazes de pensar em alguém que não em nós mesmos é, neste cenário, algo arrojado. Raríssimo. Quase ilógico. Sem reciprocidade garantida. Solitário.
        É comum (e errado) o preconceito de que todas as pessoas amam. Como se amar fosse uma espécie de prémio distribuído de forma universal e personalizada a todos e cada um dos seres humanos. Não. Muito longe disso. Poucas pessoas são capazes de amar, porque isso não é nenhuma recompensa, mas uma firmeza capaz de seguir adiante pelos trilhos mais impiedosos. Quase um castigo voluntário em nome de algo maior que nós.
        Há ainda que ter em conta que as coisas que não têm fim assustam qualquer espírito menos sólido, porque comprometem a essência de uma forma não egoísta, não lhe permitindo vaguear/errar ao sabor dos prazeres imediatos. É bem mais simples do que parece: um amor que acaba prova que nunca chegou sequer a existir.
        Hoje, com as novas tecnologias, a ilusão da proximidade é de tal forma convincente que cada vez há mais distâncias... pobrezas que se escondem por detrás de horizontes em forma de montras de intimidade... gritos desesperados de quem se vê num deserto de emoções... onde todos parecem felizes mas, na verdade, cada um vive no fundo de um poço. E porque hoje se busca mais ser resgatado do que resgatar, há cada vez mais vítimas e menos heróis...
        Nascemos sós e morreremos sós.
        À tristeza da solidão não faltam nem beleza nem grandeza. Mas o abandono dos que julgávamos chegados revela tanto sobre eles (os que partiram antes mesmo de chover) como a respeito de nós mesmos que, crédulos, julgámos ser uma excepção. Cumpre-nos não lhes seguir o exemplo.
        Se ser amigo é raro, abrigar um amor no coração é-o superlativamente. Nem todos os caminhos são para todos os caminhantes e, perante os mais penosos, apenas aqueles que percebem que há valores mais altos que a própria vida seguem adiante. Caminham mesmo descalços por onde for necessário para não deixar o amigo só.
        Há quem considere que a amizade é uma forma de amor. Concordo. O que ama é um amigo absoluto. Sem porquês nem para quês. Apenas para se ser quem se é. Dão-se as mãos e enfrentam-se as tempestades. Vive-se, e morre-se, sem nunca fazer contas ao que passou. Olhos postos no sonho. O verdadeiro amigo será feliz ainda que numa vida carregada de sofrimento, porque a sua existência tem sentido, ao contrário da esmagadora maioria dos demais.
        Neste mundo cada vez mais distante e deserto é urgente preservar o amigo, viver o amor, para que não se seja apenas mais um.
        É a mais impiedosa das tempestades que naufraga perante a firmeza de um amor autêntico. Afinal, nenhuma tormenta dura para sempre.

José Luís Nunes Martins, i-online 18 Ago 2012, in POVO.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O que aproxima é a aceitação da outra pessoa

       As ideias são iscos, mas não são elas que separam ou aproximam as pessoas. O que aproxima é a aceitação da outra pessoa. Aceitar outra pessoa não significa concordar com ela, mas sim permitir que a pessoa seja ela própria perante.
       ... quem tem medo de se desentender nunca chega a entender-se.

Laurinda Alves e Alberto Brito, sj. Ouvir, Falar, Amar.

terça-feira, 15 de maio de 2012

SILÊNCIO E PALAVRA: caminho de evangelização

Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2012

(para obter a Mensagem em PDF, clique sobre as imagens)

       Amados irmãos e irmãs,
       Ao aproximar-se o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2012, desejo partilhar convosco algumas reflexões sobre um aspeto do processo humano da comunicação que, apesar de ser muito importante, às vezes fica esquecido, sendo hoje particularmente necessário lembrá-lo. Trata-se da relação entre silêncio e palavra: dois momentos da comunicação que se devem equilibrar, alternar e integrar entre si para se obter um diálogo autêntico e uma união profunda entre as pessoas. Quando palavra e silêncio se excluem mutuamente, a comunicação deteriora-se, porque provoca um certo aturdimento ou, no caso contrário, cria um clima de indiferença; quando, porém se integram reciprocamente, a comunicação ganha valor e significado.

       O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo. No silêncio, escutamo-nos e conhecemo-nos melhor a nós mesmos, nasce e aprofunda-se o pensamento, compreendemos com maior clareza o que queremos dizer ou aquilo que ouvimos do outro, discernimos como exprimir-nos. Calando, permite-se à outra pessoa que fale e se exprima a si mesma, e permite-nos a nós não ficarmos presos, por falta da adequada confrontação, às nossas palavras e ideias. Deste modo abre-se um espaço de escuta recíproca e torna-se possível uma relação humana mais plena. É no silêncio, por exemplo, que se identificam os momentos mais autênticos da comunicação entre aqueles que se amam: o gesto, a expressão do rosto, o corpo enquanto sinais que manifestam a pessoa. No silêncio, falam a alegria, as preocupações, o sofrimento, que encontram, precisamente nele, uma forma particularmente intensa de expressão. Por isso, do silêncio, deriva uma comunicação ainda mais exigente, que faz apelo à sensibilidade e àquela capacidade de escuta que frequentemente revela a medida e a natureza dos laços. Quando as mensagens e a informação são abundantes, torna-se essencial o silêncio para discernir o que é importante daquilo que é inútil ou acessório. Uma reflexão profunda ajuda-nos a descobrir a relação existente entre acontecimentos que, à primeira vista, pareciam não ter ligação entre si, a avaliar e analisar as mensagens; e isto faz com que se possam compartilhar opiniões ponderadas e pertinentes, gerando um conhecimento comum autêntico. Por isso é necessário criar um ambiente propício, quase uma espécie de «ecossistema» capaz de equilibrar silêncio, palavra, imagens e sons.

       Grande parte da dinâmica atual da comunicação é feita por perguntas à procura de respostas. Os motores de pesquisa e as redes sociais são o ponto de partida da comunicação para muitas pessoas, que procuram conselhos, sugestões, informações, respostas. Nos nossos dias, a Rede vai-se tornando cada vez mais o lugar das perguntas e das respostas; mais, o homem de hoje vê-se, frequentemente, bombardeado por respostas a questões que nunca se pôs e a necessidades que não sente. O silêncio é precioso para favorecer o necessário discernimento entre os inúmeros estímulos e as muitas respostas que recebemos, justamente para identificar e focalizar as perguntas verdadeiramente importantes. Entretanto, neste mundo complexo e diversificado da comunicação, aflora a preocupação de muitos pelas questões últimas da existência humana: Quem sou eu? Que posso saber? Que devo fazer? Que posso esperar? É importante acolher as pessoas que se põem estas questões, criando a possibilidade de um diálogo profundo, feito não só de palavra e confrontação, mas também de convite à reflexão e ao silêncio, que às vezes pode ser mais eloquente do que uma resposta apressada, permitindo a quem se interroga descer até ao mais fundo de si mesmo e abrir-se para aquele caminho de resposta que Deus inscreveu no coração do homem.

       No fundo, este fluxo incessante de perguntas manifesta a inquietação do ser humano, sempre à procura de verdades, pequenas ou grandes, que deem sentido e esperança à existência. O homem não se pode contentar com uma simples e tolerante troca de céticas opiniões e experiências de vida: todos somos perscrutadores da verdade e compartilhamos este profundo anseio, sobretudo neste nosso tempo em que, «quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais» (Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2011).
       Devemos olhar com interesse para as várias formas de sítios, aplicações e redes sociais que possam ajudar o homem atual não só a viver momentos de reflexão e de busca verdadeira, mas também a encontrar espaços de silêncio, ocasiões de oração, meditação ou partilha da Palavra de Deus. Na sua essencialidade, breves mensagens – muitas vezes limitadas a um só versículo bíblico – podem exprimir pensamentos profundos, se cada um não descuidar o cultivo da sua própria interioridade. Não há que surpreender-se se, nas diversas tradições religiosas, a solidão e o silêncio constituem espaços privilegiados para ajudar as pessoas a encontrar-se a si mesmas e àquela Verdade que dá sentido a todas as coisas. O Deus da revelação bíblica fala também sem palavras: «Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meio do seu silêncio. O silêncio de Deus, a experiência da distância do Omnipotente e Pai é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra Encarnada. (...) O silêncio de Deus prolonga as suas palavras anteriores. Nestes momentos obscuros, Ele fala no mistério do seu silêncio» (Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, 30 de setembro de 2010, n.º 21). No silêncio da Cruz, fala a eloquência do amor de Deus vivido até ao dom supremo. Depois da morte de Cristo, a terra permanece em silêncio e, no Sábado Santo – quando «o Rei dorme (…), e Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos» (cfr Ofício de Leitura, de Sábado Santo) –, ressoa a voz de Deus cheia de amor pela humanidade.

       Se Deus fala ao homem mesmo no silêncio, também o homem descobre no silêncio a possibilidade de falar com Deus e de Deus. «Temos necessidade daquele silêncio que se torna contemplação, que nos faz entrar no silêncio de Deus e assim chegar ao ponto onde nasce a Palavra, a Palavra redentora» (Homilia durante a concelebração eucarística com os membros da Comissão Teológica Internacional, 6 de outubro de 2006). Quando falamos da grandeza de Deus, a nossa linguagem revela-se sempre inadequada e, deste modo, abre-se o espaço da contemplação silenciosa. Desta contemplação nasce, em toda a sua força interior, a urgência da missão, a necessidade imperiosa de «anunciar o que vimos e ouvimos», a fim de que todos estejam em comunhão com Deus (cf. 1 Jo 1, 3). A contemplação silenciosa faz-nos mergulhar na fonte do Amor, que nos guia ao encontro do nosso próximo, para sentirmos o seu sofrimento e lhe oferecermos a luz de Cristo, a sua Mensagem de vida, o seu dom de amor total que salva.

       Depois, na contemplação silenciosa, surge ainda mais forte aquela Palavra eterna pela qual o mundo foi feito, e identifica-se aquele desígnio de salvação que Deus realiza, por palavras e gestos, em toda a história da humanidade. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Revelação divina realiza-se por meio de «ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal modo que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido» (Constituição dogmática Dei Verbum, 2). E tal desígnio de salvação culmina na pessoa de Jesus de Nazaré, mediador e plenitude da toda a Revelação. Foi Ele que nos deu a conhecer o verdadeiro Rosto de Deus Pai e, com a sua Cruz e Ressurreição, nos fez passar da escravidão do pecado e da morte para a liberdade dos filhos de Deus. A questão fundamental sobre o sentido do homem encontra a resposta capaz de pacificar a inquietação do coração humano no Mistério de Cristo. É deste Mistério que nasce a missão da Igreja, e é este Mistério que impele os cristãos a tornarem-se anunciadores de esperança e salvação, testemunhas daquele amor que promove a dignidade do homem e constrói a justiça e a paz.

       Palavra e silêncio. Educar-se em comunicação quer dizer aprender a escutar, a contemplar, para além de falar; e isto é particularmente importante paras os agentes da evangelização: silêncio e palavra são ambos elementos essenciais e integrantes da ação comunicativa da Igreja para um renovado anúncio de Jesus Cristo no mundo contemporâneo. A Maria, cujo silêncio «escuta e faz florescer a Palavra» (Oração pela Ágora dos Jovens Italianos em Loreto, 1-2 de setembro de 2007), confio toda a obra de evangelização que a Igreja realiza através dos meios de comunicação social.

Vaticano, 24 de janeiro – dia de São Francisco de Sales – de 2012.
BENEDICTUS PP XVI

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Eu sou assim e os outros que se aguentem...

       ... Uma pessoa diz: «Eu sou assim e os outros que se aguentem, porque não há nada a fazer», está a demitir-se de ser pessoa, a desresponsabilizar-se. E o pior é que muitas vezes pode acrescentar a frase terrível: «E cá sou muito sincero, aquilo que tenho a dizer digo! Não me venham cá com coisas, esteja quem estiver, eu digo o que tenho a dizer!»...
       Há quem lhe chame sinceridade. Mas isso nada tem a ver com sinceridade! Será uma descarga emocional. Será tratar as outras pessoas como se fossem um caixote de lixo. Será dizer o que lhe vem à cabeça. E os outros que se aguentem.
       Ora, insto não é ser sincero! É ser descontrolado, para não dizer malcriado!
       Só sou sincero se atendo à pessoa a quem me dirijo!
       ... E já nem falo das pessoas que, depois de «desbobinar» tudo, declaram: «Mas ao menos disse tudo o que tinha a dizer, ao menos aproveitei a ocasião para...» Isso, então, é inqualificável.... Além de ser um comportamento próprio de adolescentes, é ridículo. Faz lembrar aqueles miúdos que dizem uns aos outros: «Eu sou mais forte do que tu e o meu pai é polícia! Ganhei!» Francamente...

Laurinda Alves e Alberto Brito, sj. Ouvir, Falar, Amar.

terça-feira, 27 de março de 2012

Não posso mudar a vida, mas sim a atitude perante a vida

       ... os conflitos que a vida nos traz, sem que tenhamos feito para os provocar - intencionalmente, quero dizer -, esses só nos dão saúde, se os pudermos superar.
       Então, este seria o princípio: os conflitos que nós próprios provocamos fazem-nos mal, os conflitos que a vida nos traz, quando os conseguimos superar, só nos dão saúde. Não podemos ignorar, nem os podemos hiperbolizar, fazendo as chamadas «tempestades num copo de água»
       ...
       Se parto do que tenho na minha cabeça, forçando a vida a obedecer aos meus sonhos, sem dar margem para que a vida aconteça, se não deixo a vida falar, por não querer que ela me incomode, tudo acaba por se revoltar contra mim.
       Nunca podereis mudar a vida. A minha atitude perante a vida, essa sim, posso mudar.
       ...
       A minha atitute perante a vida, essa, sim, posso mudar! E é a única coisa que está ao meu alcance para mudar. E não é pouco.
       ...
       Repito: aceitar a outra pessoa não quer dizer concordar com ela.
       Não tenho as mesmas opções políticas, nem o mesmo credo religioso, nem a mesma maneira de ver as coisas. Aceitar a outra pessoa é dizer: «Podes ser quem és, diante de mim. Não precisas de te defender de mim».

Laurinda Alves e Alberto Brito, sj. Ouvir, Falar, Amar.

quinta-feira, 22 de março de 2012

100 mil visitas - Muito obrigado

       Ultrapassamos as 100 mil visitas a este espaço de diálogo, de partilha, de confronto de ideias, de aposta positiva pela vida, pela dignidade da pessoa, pelos valores que aproximam, elevam, inspirados pela fé cristã-católica, no compromisso com as paróquias de Tabuaço, Pinheiros, Távora e Carrazedo, com a Diocese de Lamego e com toda a comunidade tabuacense onde nos inserimos, bem como com esta aldeia global que é a internet.
       Muito obrigado a todos os que nos visitam, cometam, incentivam, voltam, seguem-nos com assiduidade, os que já por cá passaram e não voltaram, aos que hão de voltar, aos que permanecem e aos que virão pela primeira vez. Quando se escreve, quando se partilha, quando se comenta, é com o ensejo da escuta e da leitura que está do outro lado.
       Muito obrigado.

quinta-feira, 15 de março de 2012

4 pés do desenvolvimento humano

  1. O primeiro pé é a família, o lugar da estabilidade. Aqui, falamos da família como o ambiente onde se aprende a viver em confiança.
  2. O segundo pé é a escola, o lugar do trabalho, do estudo, o lugar de criar hábitos de leitura e de investigação, aprendendo a usar essa ferramenta de progresso que nos acompanha desde bem cedo: a pergunta. A escola é também o lugar de treinar a memória e a capacidade de ligar os acontecimentos, o espaço parta conhecer o ser humano, a sociedade, a história, a ciência, a natureza, a arte...
  3. O terceiro pé é o convívio, o lugar da espontaneidade, o espaço dos amigos, dos grupos da festa. É o processo de abertura a pessoas e a ambientes diversos, casa vez mais abrangentes... há gente que de uma cana rachada consegue fazer uma flauta.
  4. O quarto pé é o do espírito, da gratuitidade. Neste pé insere-se o sentido da doação aos outros, do empenho em atividades ou causas que não dão rendimento financeiro, ao fim do mês. Atividades desenvolvidas em associações de estudantes, o voluntariado, entre outras.
Laurinda Alves e Alberto Brito, sj. Ouvir, Falar, Amar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Laurinda Alves com o Pe. Alberto Brito: Ouvir, Falar, Amar

Ouvir, Falar, Amar. A compreensão é a única força de mudança, Oficina do Livro. Alfragide: 2011.


       Laurinda Alves à conversa com o Pe. Alberto Brito. Já o conhecia de um encontro/retiro no distante ano de 1998, em Braga, na Casa dos Jesuítas. Um pensamento clarificador. Não para eliminar as dúvidas, mas para colocar mais questões.
       A Laurinda Alves não precisa de apresentação, mas para quem desconhece pode sempre consultar o seu blogue pessoal: Laurinda Alves - A Substância da Vida. 
       Ouvir/escutar, "porque ouvir os outros é a maior escola da vida". Escutar com o coração, prestar atenção não apenas ao que a pessoa diz e à sua história de vida, mas à pessoa em si mesma. Diz o Pe. Alberto que se nos fixarmos apenas nas histórias das pessoas e não nas pessoas, ficamo-nos pela fofoquice. Ficar-nos-íamos pelo ouvir, como se estivéssemos a ouvir um rádio e não uma pessoa concreta.
        Falar. É assim que a comunicação acontece, é "a comunicar e a dialogar que nos entendemos e que se constroem relações". Temos uma boca e duas orelhas/ouvidos. Escutámos com interesse, a história da pessoa, mas sobretudo escutar com atenção o que a pessoa é, o que a pessoa sente, o que a pessoa vive, ouvindo o seu grito, o seu desabafo, acolhendo a sua partilha. Pode não ser fácil... queremos falar mais que escutar... queremos que alguém nos escute, nos compreenda, que por vezes esgotámos o tempo com as nossas palavras e não escutámos a pessoa que está diante de nós, como apelo e desafio. Quem não ouve, ou não quer ouvir, corre o sério risco de ficar a falar sozinho.
        Amar, "porque é a partir da aceitação de nós próprios e dos outros que tudo é possível". Escutámos a pessoa, comunicamo-nos como irmãos, para acolhermos e aceitarmos os outros, aceitando-nos também a nós como pessoas, cidadãos, filhos de Deus. Como diz o Pe. Alberto, o que nos separa e divide não são as ideias ou as crenças, mas os sentimentos. O maior desejo do ser humano, de todo o ser humano, é amar e ser amado. E o maior medo é ser rejeitado pelo(s) outro(s). A escuta e a comunicação visam aproximar-nos dos outros, com amor, com paixão, celebrando a vida.
        Enquadra-se aqui outra realidade: a compreensão. "As pessoas quando se sentem compreendidas, mudam". É o que pode resultar da escuta que ama, das palavras que se tornam comunicação amistosa, dos sentimentos que se partilham e se acolhem.
        Seja/sê ouvinte (escutador não tanto de estórias, mas das pessoas que estão perto de ti); fala do que te vai na alma; confia, estimulando os outros à confiança, a libertarem-se do medo; ama, com toda a tua alma, faz do(s) outro(s) a tua casa, o teu refúgio, tendo sempre como horizonte originário e final o Senhor Deus.
       Mais uma leitura que recomendámos, e mais um texto que se lê de fio a pavio. Nesta entrevista perpassa uma grande alegria de quem pergunta e de quem responde, numa conversa fluente, também aqui ao correr da pena, ou melhor no fluir da conversa que existe entre pessoas amigas, entre familiares, entre pessoas que se respeitam e admiram.
       Vale a pena entrar neste diálogo entre e Laurinda Alves e o sacerdote jesuíta, Pe. Alberto Brito.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O nó do lençol

Neste dia que celebramos o festa da Sagrada Família (de Nazaré: Jesus, Maria e José, e cada um de nós), deixamos esta pequena estória. Desconhecemos autoria da mesma, mas vale a pena ler e meditar. Quando falta tempo e comunicação...
 (Imagem da Diocese de Lamego, usada na Programação Pastoral 2012)

       Numa reunião de pais numa escola da periferia, a professora ressaltava o apoio que os pais devem dar aos filhos e pedia-lhes que se fizessem presentes o máximo de tempo possível... Considerava que, embora a maioria dos pais e mães trabalhasse fora, deveria arranjar tempo para se dedicar às crianças. 
       Mas a professora ficou muito surpreendida quando um pai se levantou e explicou humildemente, que não tinha tempo de falar com o filho, nem de vê-lo, durante a semana, porque quando ele saía para trabalhar era muito cedo e o filho ainda estava a dormir. Quando voltava do trabalho já era muito tarde e o filho já não estava acordado.
       Explicou, ainda, que tinha de trabalhar assim para prover o sustento da família, mas também contou que isso o deixava angustiado por não ter tempo para o filho e que tentava compensá-lo indo beijá-lo todas as noites quando chegava em casa. E para que o filho soubesse da sua presença, ele dava um nó na ponta do lençol que o cobria. Isso acontecia religiosamente todas as noites quando ia beijá-lo.
       Quando o filho acordava e via o nó, sabia, através dele, que o pai tinha estado ali e o havia beijado. O nó era o meio de comunicação entre eles.
       A professora emocionou-se com aquela história e ficou surpreendida quando constatou que o filho desse pai era um dos melhores alunos da escola. O fato faz-nos refletir sobre as muitas maneiras de as pessoas se fazerem presentes, de comunicarem com os outros.
       Aquele pai encontrou a sua, que era simples mas eficiente. E o mais importante é que o filho percebia, através do nó, o que o pai estava a dizer. Simples gestos como um beijo e um nó na ponta do lençol, valiam, para aquele filho, muito mais do que presentes ou a presença indiferente de outros pais.
       É por essa razão que um beijo cura a dor de cabeça, o arranhão no joelho, o medo do escuro...
       É importante que nos preocupemos com os outros, mas é também importante que os outros o saibam e que o sintam. As pessoas podem não entender o significado de muitas palavras, mas sabem reconhecer um gesto de amor. Mesmo que esse gesto seja apenas um nó num lençol...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

LIKE / GOSTO, em Tabuaço, em Távora, em Pinheiros

       Para acompanhar a vida nas comunidades paroquiais de Pinheiros, Távora e Tabuaço, entre nas respectivas páginas clique em GOSTO ou LIKE e acompanhe-nos por aqui, em Caritas in Veritate e através do Facebook

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Deus, o nosso "carregador"...

       Num dos blogues que acompanhamos, Boa Nova, num post intitulado "Cansados da batalha", encontra-se esta imagem acerca de Deus na nossa vida. Há muitos momentos da nossa vida vida em que sentimos o cansaço. Poderá ser por milhentas coisas, pela rotina, pela incompreensão, por ter de recomeçar sempre. Mas no meio dos afazeres é importante parar, reflectir, ponderar, renovar as forças, caminhar, relaxar. A vida é um dom tão precioso que vale a pena apreciá-la com alegria, com generosidade, tentando descobrir a presença de Deus em cada acontecimento da vida, em cada botão do universo, em cada pessoa.
       Como seria diferente a nossa vida se cada um de nós, cada dia, parasse um pouco, acolhendo os dons que Deus nos deu e os dons dos outros. Como seria belo que deixássemos que Deus falasse em nosso coração!
       Contemplar as maravilhas do Universo, onde Deus que Se revela constantemente. Como seria magnífico carregarmos energias com Deus, na Sua palavra, na oração, nos Sacramentos.
       Deus é o nosso "carregador". É uma imagem muito expressiva, quando sabemos quão importante é o telemóvel para comunicar! Mas se a bateria falha! O telemóvel torna-se inútil. Quantas vezes nos acontece estarmos a meio de um conversa telefónica e lá foi a chamado porque o nosso telemóvel, ou o da outra pessoa, ficou sem bateria ou sem rede! Por isso trazemos o "carregador" sempre connosco. Por isso procurámos os locais onde há rede! Também assim há-de ser com Deus. Comunicamo-nos e comunicamos Deus, mas ficamos esgotados, sem bateria, se não "carregarmos" a nossa alma com a LUZ de Deus.
        O mesmo se diga da "rede". Se deixamos de ter rede, ficamos incontactáveis. Se nos esquecemos de Deus, acabamos por nos esquecermos de nós, e tão grave como isso, acabamos por desvalorizar os outros.
       Deus repõe as nossas energias. Deus aponta-nos um caminho. Deus dá um sentido de plenitude à nossa vida. Com Ele sabemos que as nossas lutas não são em vão.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs - o homem que revolucionou que a tecnologia

       Morreu Steve Jobs, fundador e cérebro da Apple, a empresa da maça, que produziu o Macintosh, o iPad, o iPhone, bem como muitas outras invenções no mundo da ciência e da tecnologia...
       Fica aqui um discurso na universidade, em 2005, um ano depois de lhe ser diagnosticado cancro do pâncreas e com a informação que era um cancro raramente curável, com três histórias da sua vida.
...foi dado para adoptar para ter formação académica... foi demitido da companhia que tinha fundado, a Apple, foi uma das lições mais importante da sua vida que o deixou devastado... mas não desistiu... foi o melhor que lhe aconteceu...  que lhe permitiu criar... e casar com a mulher actual... por vezes a vida atira-lhe pedras à cara... "não perca a fé...", desistiu do curso universitário e das aulas obrigatórias, mas não deixou de estudar, de se preparar... a única maneira de ficar satisfeito é amar... continue a procurar... não se acomode...
       ...a terceira história é sobre a morte. 
       Aos 17 anos leu uma frase: "Se viveres cada dia como se fosse o último, algum dia acertará"... todos os dias, ao longo de 33 anos, quando me levanto e olho para o espelho, pergunto-me: se hoje for o último dia de vida, vou querer fazer o que estou prestes a fazer?"... Pensar que logo morrerei é ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a tomar as maiores decisões na vida... porque quase tudo, as expectativas externas, o orgulho, o medo de vergonha ou fracasso, todas desaparecem frente à morte, restando apenas o que é realmente importante... tu não tens nada (e nada a perder), "não existe razão para não seguires o teu coração"...
       Quando foi informado sobre a possibilidade de morrer entre 3 a 6 meses, depois de lhe se diagnosticado o cancro, o médio disse-lhe para colocar os negócios em dia, facilitar a vida à família, o ter que se despedir... mas depois com a cirurgia foi curando... "ninguém quer morrer... nem mesmo os que querem ir para o céu querem morrer para chegar lá. A morte é o destino que todos partilhamos. Nunca ninguém escapou e é assim que deve ser. A morte é muito provavelmente a melhor invenção da vida. É algo que muda a vida. Elimina o velho para dar lugar ao novo"... hoje sois vós o novo, mas um dia não muito distante sereis o velho... "O seu tempo é limitado, portanto não o desperdice vivendo a vida de outro... não deixe a voz dos outros abafar a sua própria voz... tenham coragem de seguir o vosso coração e intuição... sejam famintos, sejam tolos!"