
A terceira Carta Encíclica de Bento XVI empresta o título a este blogue. A Caridade na Verdade. Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade, mas só esta entra na eternidade com Deus. Espaço pastoral de Tabuaço, Távora, Pinheiros e Carrazedo, de portas abertas para a Igreja e para o mundo...
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Recomeçar!
O despertar do Inverno
Ainda há pouco o Outono começou e já se sente o frio do Inverno... as noites frias levam-nos a recolher sobre nós mesmos, na procura de um calor interior que por vezes, por débil ser, por falta dum acreditar, torna mais cinzento os horizontes da memória, esquecendo que cada dia é um dia novo e que a vida pode recomeçar... Pior que desistir, é mesmo não tentar recomeçar...
terça-feira, 20 de outubro de 2009
O Cacimbo e a estação das chuvas!
Inácio Rebelo de Andrade Todos os anos era assim: o Cacimbo chegava em Maio e ia até ao fim de Agosto. Eram quatro meses e meio que não deixavam saudades, porque tudo o que tinha vida (as pessoas, os animais e as plantas) parecia ficar suspenso, como que à espera de recomeçar.
A mil e setecentos metros de altitude, Nova Lisboa evidenciava especialmente os efeitos desse período: as madrugadas frias de enregelar os ossos, o céu limpo de nuvens, o ar seco que soprava por todo o lado.
Junho era o mês pior. Do solo nu que abundava ainda por muitos sítios, a poeira subia e tomava conta das ruas, entrava em casa pelas frinchas das portas e das janelas, deixava a sua marca nas superfícies dos móveis.
Quem viera do Minho ou do Algarve, de Trás-os-Montes ou do Alentejo, dizia que o Inverno tinha chegado. Mas à parte as madrugadas frias, a comparação devia-se apenas à saudade trazida da terra natal, porque a limpeza do céu, a secura do ar, a poeira que subia do solo e tomava conta das ruas não aconteciam de facto em Portugal naquela estação.
Depois de Junho, Julho; depois de Julho, Agosto; depois de Agosto, Setembro.
Em Setembro, o tempo mudava: as madrugadas não eram mais frias, o ar não era mais seco, o céu cobria-se de nuvens densas e cinzentas, a poeira assentava. Cada dia mais elevada, a temperatura subia, até que numa manhã (ou numa tarde, ou numa noite), quase de repente, de um minuto para o outro, relâmpagos aos ziguezagues e trovões ribombantes traziam consigo a primeira chuva.
A água caía em bátega, como que despejada lá de cima de um alguidar imenso: alagava tudo (os quintais, os jardins, as ruas, os passeios); a caminho das valetas, avançava em cachão, veloz e rumorosa. Envolta em espuma, arrastava no percurso o lixo depositado.
Outra vez de repente, também de um minuto para o outro, a chuva parava: tão depressa vinha, tão depressa ia.
Mas depois... Ah!, mas depois..., depois deixava no ar um cheiro a terra húmida, que entrava nas narinas e despertava nas pessoas lembranças adormecidas; um cheiro que se sentia uma vez e não se esquecia mais; um cheiro forte, bom, promissor, de reinício; um cheiro de capim verde quase a brotar.
Para além dos limites da cidade, lá para os lados da Sacaála, do Cambiote ou da Quissala, à beira da estrada, esse cheiro mandava as mulheres espalmar os filhos nas costas, pegar nos cabos em V do etemo, dobrar os rins na lavra, horas a fio, armar as bipangas e semear o milho.
Depois de Setembro, Outubro; depois de Outubro, Novembro; depois de Novembro, os meses seguintes até Abril.
Depois de Abril, Maio: o Cacimbo estava aí outra vez.
Depois Junho, Julho, Agosto e Setembro: a chuva de novo, o cheiro a terra húmida (tão forte, tão bom, tão promissor, tão de reinício como no ano anterior), o cheiro de capim verde quase a brotar.
(etemo-enxada;bipangas-covas,buracas;Cacimbo-estação seca e fria)
(Publicada com a grafia original).
Texto extraído do livro "Quando o Huambo era Nova Lisboa".Ed Vega-Lisboa,1998