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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Como um camponês aprendeu o Padre-nosso




Tinha um coração duro, e não era de dar esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-me por penitência rezar sete vezes o Padre-Nosso.
– Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.
– Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitência dar a crédito um alqueire de trigo a todas as pessoas que te forem pedir da minha parte.
No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
«Como te chamas? perguntou-lhe o camponês.»
«Padre – Nosso – Que – Estais – No – Céu, respondeu o pobre.»
«E o teu apelido?»
«Seja – Santificado – O – Vosso – Nome.»
E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
Ao outro dia chega segundo pobre.
«Como te chamas?»
«Venha – A – Nós – O – Vosso – Reino.»
«E o teu apelido?»
«Seja – Feita – A – Vossa – Vontade.»
E partiu com o seu alqueire de trigo.
Veio terceiro pobre.
«Como te chamas?»
«Assim – Na – Terra – Como – No – Céu.»
«E o teu apelido?»
«Dai-nos – Hoje – O – Pão – Nosso – De – Cada – Dia.»
E levou o seu alqueire.
Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao Amém.
Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.
– Então já sabes o Padre-Nosso?
– Não, senhor cura, sei só os nomes e apelidos dos pobres a quem emprestei o meu trigo.
– Quais são? tornou o padre.
E o aldeão enumerou-mos a seguir, e pela ordem em que cada um se tinha apresentado.
– Já vês, disse o confessor, que não era muito difícil aprender o Padre-Nosso, porque já o sabes perfeitamente.

Guerra Junqueiro, Contos para a Infância

Boa Sentença

Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil réis de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:
— Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste adiantados os cem mil réis de alvíssaras: estamos pagos por conseguinte.»
O bom camponês, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:
— Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge apenas com setecentos: Resulta daí claramente que o dinheiro que o último encontrou não pode ser o mesmo a que o primeiro se julga com direito. Por consequência tu, meu bom homem, leva o dinheiro que encontraste, e guarda-o até que apareça o indivíduo que perdeu somente setecentos mil réis. E tu, o único conselho que passo a dar-te, é que tenhas paciência até que apareça alguém que tenha achado os teus oitocentos mil réis.

Guerra Junqueiro, Contos para a Infância

quinta-feira, 25 de março de 2010

O Anjo, a Menina e a Flor...

Uma menina morreu. Veio o Anjo e levou-a nos braços a caminho do céu.
Passou com ela sobre a casa da meninice e depois sobre um jardim balsâmico, estrelado de flores.
Perguntou o Anjo à menina:
- Qual a flor que desejas cultivar no paraíso?
Havia nesse jardim uma roseira muito linda mas que tinha o pé partido. Estava cheia de botõezinhos.
- Infeliz roseira!... Vamos levá-la a ver se ainda pode florir-disse a menina.
O Anjo obedeceu e beijou a criança e ainda colheram muitas outras flores.
Continuaram viagem e passaram por uma cidade com muitas ruas. Uma mais estreita, estava cheia de cacos, vidros partidos, farrapos e muito lixo. Entre as muitas porcarias, o Anjo descobriu um vaso de flores com a terra espalhada no chão. Viam-se muitas raízes de uma flor campestre. Alguém a deitou para ali como coisa inútil.
Disse o Anjo:
- Levamo-la e pelo caminho conto-te a história desta flor.
Lá ao fundo desta rua morava uma criança miserável e doente. Nos dias mais quentes de verão, o sol aquecia-lhe a casa e ele imaginava-se passeando pelos campos. De flores, só conhecia o ramo de faia que um vizinho lhe dera. Com ele por cima da cabeça sonhava estar na floresta ouvindo os passarinhos. Um dia, o vizinho trouxe-lhe muitas flores e entre elas uma tinha raíz. Logo a plantou num vaso e a planta cresceu, cresceu e todos os anos dava flores. O seu jardim era esse que ele ia regando e amava.
O anjo e menina, passaram por mais alguns sítios e chegaram ao céu. Mal lá entraram, o anjo deu um beijo à menina.
Depois virando-se para ela disse:
- Faz hoje um ano que esse menino vive no Paraíso. A flor que encontrámos e que alguém deitou fora, foi a que trouxemos. - Como sabes tu isso?- perguntou a menina. -Sei-o, porque essa criança sou eu.Quando te fui buscar logo conheci a flor que tanta companhia me fez.
Então,entre os coros dos anjos Deus pegou na flor, levou-a ao Coração e, por milagre pôs-se
a cantar louvores ao Criador multiplicando-se até ao infinito.

Autor do conto: Guerra Junqueiro