A terceira Carta Encíclica de Bento XVI empresta o título a este blogue. A Caridade na Verdade. Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade, mas só esta entra na eternidade com Deus. Espaço pastoral de Tabuaço, Távora, Pinheiros e Carrazedo, de portas abertas para a Igreja e para o mundo...
Mostrar mensagens com a etiqueta Comunhão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Comunhão. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 12 de junho de 2025
sábado, 9 de setembro de 2017
Domingo XXIII do Tempo Comum - ano A - 10.09.2017
1 – Deus nunca desiste de nós. Esta é a história de Deus com os homens. A história da criação e da salvação. Deus não desiste de nós. Criou-nos por amor e por amor nos sustenta na vida. Quer-nos bem, tão bem como um Pai, como um Mãe a um/a filho/a.
A Sagrada Escritura coloca em evidência a ligação íntima de Deus com a Humanidade. As alianças renovam-se. Com Adão e Eva. Com Caim. Com Noé. Com Abraão. Com Isaac e Israel (Jacob). Com Moisés e com Josué. Com David e com Salomão. Com os Juízes e com os Profetas. Deus não desiste. Insiste sem forçar. Uma e outra vez. Quebrada uma Aliança, poderia alhear-Se para sempre! Mas como poderia abandonar a obra criada pelas Suas mãos?
Chegada a plenitude dos tempos envia-nos o Seu próprio Filho para n'Ele nos mostrar o Seu amor, a Sua ternura, a Sua complacência. Em Jesus Cristo visualiza-Se Deus, a Sua misericórdia, a Sua bondade. Sem arrogância, sem vícios de poder e prepotência. Pelo serviço, pela humildade, pela compaixão. Sempre. Em todos os momentos. Resistindo a todos os ataques e a todas as armadilhas. Levando a Boa Notícia a todos os recantos, aos pobres, às mulheres, aos estrangeiros, aos publicanos e pecadores. Sem medo de contágios! Pelo contrário, tentando a todos contagiar para o Reino de Deus, que se anuncia e se testemunha pela atração, como desafia Bento XVI, por atração materna, como acrescenta o Papa Francisco.
Jesus é acusado de comer com publicanos e pecadores, de andar em má companhia, com pessoas de índole duvidosa, com gestos que revoltam as autoridades políticas e religiosas. Faz-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, pobreza que nos coloca no coração de Deus, dilatando o nosso coração e estendo o nosso amor para todos, a começar pelos que estão à nossa beira, dentro de portas.
2 – Perdoar? Sempre. 70X7. Em todas as ocasiões. Só o pecado contra o Espírito Santo não tem perdão, ou por outras palavras, a contumácia, o orgulho, a autossuficiência, a sobranceria, o ensimesmamento, o fechar-se conscientemente a qualquer luz, a toda a verdade, a toda a ajuda.
Quando Pedro pergunta a Jesus se se deve perdoar até 7 vezes, ele julga que está a ser muito generoso. Perdoar uma vez é razoável. Perdoar duas vezes é bondade. Perdoar três vezes é a conta que Deus fez, já começa a ser abuso. Ora a resposta de Jesus vai muito além. Sete vezes já era perdoar sempre. Perdoar 70X7? É melhor não fazer as contas! Jesus também não as faz. Por alguma razão dizemos que errar é humano e perdoar é divino. Ainda que humano seja amar e errar seja, muitas vezes, desumano. Perdoar eleva-nos, projeta-nos para outro nível de compromisso, que nos obriga a superar gostos e preferências, a tolerar nos outros o que gostávamos que tolerassem em nós, a compreender as fragilidades alheias e amar além dos defeitos e insuficiências.
As comunidades cristãs dos primeiros tempos, concretamente a comunidade de onde Mateus escreve e nos dá a sua versão do Evangelho, procura ser fiel à mensagem de Jesus: perdoar sempre. Não julgueis. Não condeneis. A quem te bater numa face oferece também a outra. Reza por aqueles que te maldizem. Abençoa os que te perseguem. A quem te pedir a capa dá também a túnica. Não matarás. Não te irrites contra o teu irmão. Se o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta no altar e vai reconciliar-te com ele. A Eucaristia reconcilia-nos, senta-nos à mesa com Jesus, une-nos aos outros. Mas a Eucaristia vale enquanto nos converte, nos irmana e nos faz dar passos concretos para vivermos em harmonia, como família, apesar das dificuldades, das diferenças e das fragilidades que nos caracterizam.
3 – O texto do Evangelho exprime não apenas a Mensagem de Jesus, mas o acolhimento das Suas palavras por parte da comunidade cristã, daqueles e daquelas que decidiram segui-l'O e viver como comunidade, pondo em prática os Seus ensinamentos e imitando o Seu proceder.
A comunidade procura ver, traduzir, atualizar e concretizar tudo o que vem da parte do Senhor Jesus: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano».
O Mestre da Sensibilidade dirige-se aos Seus discípulos. Melhor, aqueles que se apresentam como Seus discípulos têm de considerar (sempre) a opção pelo perdão, pelo serviço, pela reconciliação. Uma e outra vez. E outra vez ainda! Descrição. Bom senso. Equilíbrio. Respeito pela pessoa que está à frente. Já me cansei de repetir que quem enche a boca com a própria frontalidade, entendida como dizer sempre tudo o que lhe dá na real gana, independentemente de quem esteja à frente, não passa de uma criança mimada, que diz tudo, sempre oportuna e inoportunamente, uma criança a quem tiraram o brinquedo. Mas a criança é criança, é ingénua, está a aprender, a crescer. No adulto essa atitude revela infantilidade. Quem está à nossa frente não é um saco de boxe em quem descarregamos a nossa azia, o nosso azedume com a vida. Ser frontal não é isso. Ser frontal é ser verdadeiro, mas respeitar o outro como pessoa, como rosto e presença de Deus. E a azia com que tratamos os outros, não é azia com que tratemos Jesus.
Correção fraterna. Se tens que corrigir, corrige a sós, discretamente. Se não houver avanços, pede ajuda a uma ou duas pessoas. Não, não desistas, nem à primeira nem à segunda. Recorre à Igreja, será mais uma ajuda. Falamos habitualmente em segunda oportunidade. A comunidade cristã daqueles dias percebe que terá que dar segundas e terceiras oportunidades e não desistir às primeiras dificuldades e contratempos.
4 – Com efeito, somos responsáveis uns pelos outros. Sempre. Se nos calarmos por preguiça ou por conveniência; ou se as nossas palavras afastarem, maldizendo e excluindo, contribuímos para a perda dos nossos irmãos.
Temos o poder para unir, para ligar a própria terra ao Céu. «Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu». A comunidade continua a escutar a mensagem de Jesus: «Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles». Se num primeiro momento se vislumbra a necessidade da comunidade, formada por pessoas, ter regras, para persistir e sobreviver como comunidade, logo depois sobrevém o ensinamento de Jesus: se nos unirmos para nos ajudarmos mutuamente também Deus nos ajudará, Ele está no Meio, congregando-nos. Poderíamos começar por aqui: colocar Jesus no centro, no meio, e reunirmo-nos à Sua volta.
O Profeta Ezequiel, na primeira leitura, mostra a responsabilidade para todos, especialmente para com o pecador. Não nos cabe dizer mal, mas alertar, cuidar, prevenir. Se não o fizermos, sabendo que está no mau caminho, Deus responsabiliza-nos por tal. «Sempre que Eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, hás de morrer’, e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho, o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade, mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte».
5 – O Salmo e a segunda leitura afinam pelo mesmo diapasão. Com o salmo respondemos à palavra de Deus com a própria Palavra de Deus. Mas fica o desafio: se hoje ouvirmos a voz do Senhor não fechemos os nossos corações. Os ouvidos até podem já não ajudar, mas que o coração não dificulte.
A segunda leitura aviva o mandamento novo, lembrando-nos as palavras de Jesus e dizendo-nos que todos os mandamentos nos ligam aos outros e nos levam a amá-los como a nós mesmos. Vale a pena reter e sublinhar a expressividade do apóstolo: «Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros, pois, quem ama o próximo, cumpre a lei... A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da lei». Tudo dito!
Pe. Manuel Gonçalves
Textos para a Eucaristia (ano A): Ez 33, 7-9; Sl 94 (95); Rom 13, 8-10; Mt 18, 15-20.
sábado, 17 de junho de 2017
VL – A manhã de Páscoa é (também) hoje - 2
O mistério da morte e da ressurreição de Jesus faz-nos entrar na comunhão de Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo, inserindo-nos no Seu Corpo que é a Igreja. Ele a cabeça, nós os membros. Pelo batismo somos imersos na vida de Deus. Somos novas criaturas. Mergulhamos na Sua morte para ressuscitarmos com Ele. Hoje, como ontem, precisamos de viver ressuscitados e ressuscitar a cada instante na nossa identidade original: filhos de Deus, irmãos em Jesus Cristo.
A sociedade do nosso tempo é altamente individualista. A cultura do "eu" está na mó de cima. Verificável também no meu grupo, partido, no clubismo, na ideologia. Imersos num mundo global, mas cujas referências e gostos nos comprometem, não com o diferente, mas com quem tem os mesmos gostos que nós. Nas redes sociais aderimos aos grupos afins e excluímos rapidamente quem pensa diferente. Eu e o meu grupo.
O grupo dos apóstolos faz esta experiência até ao fim. De diferentes origens e com temperamentos diversos. João e André, filhos do trovão; Pedro, impulsivo; Judas Iscariotes tendencialmente revolucionário; Mateus, cobrador de impostos. Filipe letrado. Tão diferentes mas todos lutam por se colocar acima e disputar o lugar cimeiro na futura hierarquia do Reino de Deus. Como grupo fecha-se e impede que outras pessoas entrem. Afastam as crianças (cf. Mt 19, 13-15). Quando encontram um homem a pregar em nome de Jesus e a curar, proíbem-no: "ele não andam connosco" (cf. Mc 9, 38-41). A resposta de Jesus é clarificadora: deixai vir a mim as crianças, é delas o reino de Deus; não o proibais, quem não é contra nós é por nós.
Olhamos a vida a partir da nossa janela. O outro vê-nos partir da sua janela. São olhares que não se anulam, não veem o mesmo, não são fundíveis. Duas linhas retas, paralelas, nunca se tocam. Também a nossa vida. O problema não está em sermos diferentes, o problema está em não nos aceitarmos diferentes, valorizando as diferenças que nos enriquecem, pois nos fazem ver, ouvir, saborear, saber outras realidades.
Não é fácil deixarmos alguém entrar no nosso grupo. Não é fácil sentir-nos em casa num grupo que não é o nosso grupo de origem. Somos invasores, o grupo já existia quando chegamos. Quando chega alguém ao nosso grupo parece dividir a atenção que tínhamos uns com os outros, vem desestabilizar os equilíbrios que construímos ao longo do tempo.
Jesus faz essa experiência com os apóstolos, não desistindo de nenhum, treinando-os para viver em lógica de serviço e de amor.
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4416, de 13 de junho de 2017
sexta-feira, 16 de junho de 2017
VL – A manhã de Páscoa é (também) hoje
O acontecimento fundante do cristianismo é a Páscoa, a ressurreição de Jesus. Não é isolável de toda a Sua vida e do mistério da encarnação. A postura de Jesus ao longo do tempo que vive entre nós também ressuscita: a bondade, a delicadeza, a atenção aos mais frágeis, a convivência com os excluídos ou relegados para as periferias existenciais tais como crianças e mulheres, pecadores e publicanos, doentes e estrangeiros, pobres e escravos. Ressuscita com Jesus uma clara opção pelo amor preenchido de verdade e de doçura.
Hoje também é dia de Páscoa, pois Jesus vive e está no meio de nós. Liturgicamente, o tempo da Páscoa encerrou com a solenidade de Pentecostes. Na Diocese de Lamego algumas paróquias seguiram a proposta do Plano Pastoral Diocesano, com a Caminhada Quaresma-Páscoa, acentuando em cada domingo um aspeto da liturgia da Palavra, sobretudo a partir do Evangelho, um gesto, um símbolo, um desafio, sempre sob lema “Ide e anunciai o Evangelho a toda a criatura”.
A CRUZ foi o elemento constante, como expressão de entrega, de amor levado às últimas consequências. A cruz tem Jesus. Jesus leva-nos com a Sua cruz até ao calvário, mas não nos deixa aí, eleva-nos com Ele para a direita do Pai. No final da caminhada, a Cruz preenchida de vida, de colorido, de desafios – vida, ide, paz, amor, pão – e, no centro, Jesus.
Uma certeza: quem não carrega a sua cruz não pode seguir Jesus. “A cruz de Jesus não é submissão ou resignação, mas um sinal do que supõe fazer frente ao mal… As contrariedades são normais… O sofrimento em si mesmo não é bom nem positivo, é uma parte da existência humana. Só é possível quando é vivido a partir do Amor. É o preço do Amor, do dar-se a si mesmo e isso leva consigo o sofrimento” (Pe. Ricardo, OP).
Se em cada ano celebramos solenemente a Páscoa de Jesus, em cada domingo, a Páscoa semanal. Em cada Eucaristia, a ação do Espírito Santo torna presente a morte e a ressurreição de Jesus e a Sua presença atual e atuante no meio de nós, até ao fim dos tempos. A Eucaristia faz-nos celebrar a vida de Jesus e confiar-Lhe também a nossa, com os seus escolhos e com as suas esperanças. O desafio e o compromisso é que da Eucaristia nós transpareçamos Cristo Jesus vivo. Por conseguinte, é preciso viver hoje a Páscoa de Jesus, anunciando-O com os nossos gestos de bondade e com a mesma paixão de Jesus, gastando a vida a favor dos outros.
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4415, de 6 de junho de 2017
domingo, 30 de março de 2014
Comunicação globalizada » Globalização da Indiferença
Nunca como hoje os meios de comunicação social, mas também os meios de transporte, nos tornam tão vizinhos e no entanto continuamos distantes, talvez até mais que no passado.
As pessoas conheciam os vizinhos pelo nome, tinham as portas abertas para quem chegava, e para saírem ao encontro dos outros. Qualquer necessidade poderia ser satisfeita com a ajuda do vizinho. Hoje temos as portas e janelas fechadas, não apenas as de casa mas também as do coração.
No mesmo instante estamos em contacto com o fim do mundo, com alguém que não conhecemos de parte nenhuma mas que nos faz felizes por o vermos, por vermos o sucesso que tem ou nos entristecemos com os desaires daquele ator, daquela cantora, daquela pessoa que lançou uma campanha para ajudar um cão, ou daqueloutro que andou à batatada com a sogra.
E à nossa volta? Tão perto e tão distantes. Passamos e andamos. E o “tudo bem” não é uma pergunta, é uma mera formalidade. Cumprimentamos alguém mas não queremos saber da pessoa. Talvez, como já o referimos por aqui, queiramos saber alguma coisa sobre ela, mas não o que sente, o que precisa, o que se passa na sua vida.
Facilmente estamos em contacto com meio mundo. Trocamos mensagens, informações, o que gostamos, o que lemos, tantas centenas, milhares, de amigos virtuais, gastamos algum ou bastante tempo a postar belas frases, a sugerir pensamentos bem formulados, por vezes para os outros, não para nós, pois não precisamos. Porém, desconhecemos quem mora ao lado, o que faz, o que precisa. Desconhecemos o seu nome. Podemos até cruzar-nos com ele, ou embater contra ele, mas não nos toca. Podemos estar tão perto e tão longe uns dos outros. A aldeia é global, no conhecimento, na informação, na democratização cultural e religiosa, podemos até ser especialistas em bricolage e fabricar a nossa religião e a nossa ideologia. E diga-se que os meios de comunicação social, as redes que nos aproximam virtualmente, são uma oportunidade, um dom de Deus, ajudam a resolver problemas, a diagnosticá-los e formular soluções, a encontrar instrumentos para melhorar a vida uns dos outros, aproximam pessoas, ajudam a encontrar outras que desapareceram, facilitam campanhas de solidariedade, permitem a sensibilização para problemas atuais, de pessoas a animais e à natureza, e por vezes tribalizam-nos em alguns grupos de reflexão, de debate, de acusações, de críticas.
Também o ambiente digital precisa de conversão e é necessário que não desfoque o nosso coração e o nosso olhar das pessoas que nos rodeiam e das suas necessidades. Porque é que as pessoas gritam, pergunta um discípulo ao seu Mestre. Não é pela surdez de algum deles, mas por terem o coração fechado, distante, alheado. Não conseguem escutar-se. Mutatis mutandis, a globalização económica, política, cultural e até religiosa, não corresponde à melhoria na vida das pessoas e não resolve as suas inquietações existenciais. Por outro lado, tem-se dado também a globalização da indiferença. São tantas as situações discutidas até à exaustão que já não chocam, já não emocionam. Não mobilizam. Já fazem parte do quotidiano. Este é um risco elevado.
Temos os meios, há que colocar neles o nosso coração, o nosso compromisso. Não esperemos pelo ideal. Localizemo-nos, predispondo-nos a globalizar a caridade, a proximidade física e afetiva. Também isto é ser cristão, também por aqui a nossa conversão. A nossa visão tem diversas focalizações, pode ver bem ao longe e mal ao perto. Pode ver bem ao perto e esquecer o que vem lá. A árvore não nos impeça de ver a floresta, mas por causa desta não esqueçamos só existe porque há muitas árvores…
Publicado (abreviadamente) na VOZ DE LAMEGO, n.º 4257, de 25 de março de 2014
Etiquetas:
Ambiente Digital,
Comunhão,
Comunicação,
Comunicação social,
Globalização,
Indiferença,
Internet,
Reflexão,
Solidariedade,
Textos,
Voz de Lamego
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Pe. Tolentino Mendonça - a Alegria dos outros
As pessoas felizes são aquelas capazes de dedicar-se a alegrias que não lhes pertencem. De conspirar discretamente para que elas aconteçam. De favorecê-las de muitas maneiras.
Acho que me encontrei uma única vez com Miguel Esteves Cardoso. Foi, inclusive, um desses encontros de acaso: eu i-a almoçar com um amigo e encontrei-o num restaurante, pronto para fazer o mesmo com um amigo seu, que era meu também. Rapidamente, as mesas para dois transformaram-se numa única mesa maior. E assim ficámos, fazendo aquilo que à mesa de faz: alimentando-nos da comida, mas igualmente (ou sobretudo) da presença, esperada e inesperada, uns dos outros. O Miguel Esteves Cardoso estava nessa altura com um projeto de um livro sobre um mestre de cozinha japonês, que fez questão de tratar, ele próprio, de tudo aquilo que nos foi servido. Recordo-me que, no breve tempo que durou a refeição, aprendi imensas coisas sobre aquele mundo. Aprendi, por exemplo, que o prato mais exigente da cozinha japonesa, aquele que constitui a prova suprema para qualquer chefe, é... o arroz. Não se deve estranhar. Nada nos pede mais trabalho e arte do que a simplicidade. E foi dessa maneira que, conversa vai, conversa vem, o Esteves Cardoso disse uma coisa que não mais deixou de acompanhar-me. Não sei se seriam exatamente estas as suas palavras, mas era este o sentido: não há nada mais miserável em nós do que não sabermos alegrar-nos com a alegria dos outros. Compreender a dor dos outros e sair-lhes ao encontro é uma regra indiscutível. Mesmo quando pouco podemos fazer paca alterar as circunstâncias dolorosas que vivem, a presença é uma confirmação preciosa e necessária daquilo que nenhum sofrimento poderá abalar a certeza de que, aconteça o que acontecer, não estão sós. E todos experimentamos como isso se torna determinante em certas horas. Porem, acompanhar os outros na sua alegria não é tarefa de menor préstimo. Não é certamente por acaso que, em algumas parábolas de Jesus, o pedido a que a alegria seja acompanhada se confunda com as possibilidades de a própria alegria tomar-se o que ela é: júbilo, canto, riso, estremecimento feliz que se expande. “AIegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha perdida" (Lc. 15.6); “Alegrai-vos comigo, porque encontrei a moeda perdida" (Lc. 15.9). E, na mesma linha o pai do filho pródigo explicando ao filho mais velho, perplexo com o perdão concedido àquele seu irmão desencaminhado: "Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e encontrou-se" (Lc 15,32). Uma alegria que não se possa partilhar parece uma alegria que a meio caminho se rompe, que não chega sequer a consumar-se.
E preciso, contudo, que aprendamos a disponibilidade para nos alegrarmos com o bem que acontece aos outros, e a fazê-lo gratuitamente, sem pensar no que possamos receber em troca. Implica vencermos o tique contínuo de nos compararmos (e, quase sempre, em plano de superioridade); contrariarmos pulsões mesquinhas, mesmo se travestidas de grandes sentimentos ou razoes; suspendermos juízos cínicos sobre méritos e deméritos; distanciarmo-nos dessa forma destrutiva de admiração que a inveja é. Bernanos escreveu que "saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade". As pessoas felizes são aquelas capazes de dedicar-se a alegrias que não lhes pertencem. De conspirar discretamente para que elas aconteçam De favorecê-las de muitas maneiras. E, por fim, de apagar-se para dar-lhes todo o lugar.
Talvez, para isso, tenhamos de reinventar a gramática humana que utilizamos e, com ela, reinventar itinerários, atitudes e até formas verbais. Como aquela surpreendente, que aparece ligada à alegria num poema de Fernando Pessoa: "Passou a nuvem: o sol volta/ A alegria girassolou."
segunda-feira, 27 de maio de 2013
segunda-feira, 20 de maio de 2013
sábado, 6 de outubro de 2012
XXVII Domingo do Tempo Comum - ano B - 7 de outubro
1 – A leitura do livro do Génesis, que neste domingo nos é proposta, permite-nos refletir na dimensão social do ser humano, na necessidade que temos uns dos outros para sermos felizes – só nos encontramos e sabemos o que somos se nos confrontarmos com iguais –, e a vontade de Deus, neste como em outros textos, para o ser humano: a felicidade de todos.
Disse o Senhor Deus: «Não é bom que o homem esteja só: vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele»... Da costela do homem o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem. Ao vê-la, o homem exclamou: «Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem».
Deus criou-nos por amor, capacitados para amar e ser amados, partilhar o melhor de nós, viver em comunhão, desfrutando da presença uns dos outros.
Ninguém é feliz sozinho. O primeiro pecado da humanidade é o egoísmo (individualismo), o querer viver sem o outro, achar que se pode colocar para os outros como deus, soberano, independente, autossuficiente, sem precisar de prestar contas a outro que seja da mesma carne.
Lembra Ermes Ronchi, “Adão, senhor de todas as coisas, busca no Éden uma ajuda semelhante a ele. Busca a coisa mais importante da sua vida: o assombro da infinita abertura. Ao outro mundo, a si mesmo. Adão está triste: o paraíso não vale a ausência de Eva... Só quando te sentes amado, podes desabrochar em todos os teus aspetos; só quando te sentes escutado, dás o melhor de ti próprio... O amor, em todas as suas formas, desvenda o sonho de Deus de que está repassada toda a criação...”.
Ninguém é feliz sozinho. O primeiro pecado da humanidade é o egoísmo (individualismo), o querer viver sem o outro, achar que se pode colocar para os outros como deus, soberano, independente, autossuficiente, sem precisar de prestar contas a outro que seja da mesma carne.
Lembra Ermes Ronchi, “Adão, senhor de todas as coisas, busca no Éden uma ajuda semelhante a ele. Busca a coisa mais importante da sua vida: o assombro da infinita abertura. Ao outro mundo, a si mesmo. Adão está triste: o paraíso não vale a ausência de Eva... Só quando te sentes amado, podes desabrochar em todos os teus aspetos; só quando te sentes escutado, dás o melhor de ti próprio... O amor, em todas as suas formas, desvenda o sonho de Deus de que está repassada toda a criação...”.
Segundo este autor, a primeira expressão do mal é a solidão. É o próprio Deus a concluir: não é bom que o homem esteja só. E essa solidão original só pode ser colmada por outro semelhante. Precisamos de outro coração para amar, precisamos de outro coração a quem amar. Só no encontro de corações acontece a redenção. E por conseguinte, na belíssima imagem deste texto, a mulher é “criada” a partir da costela do homem, ou seja, formada do coração do homem, para amar e ser amada, para se situarem lado a lado.
2 – Deus criou-nos por amor e criou-nos livres. Não somos marionetas. Criou-nos inteligentes, relacionáveis, criativos, com criadores, diferentes e com qualidades que podem interagir e complementar-se, o homem com a mulher, e as pessoas entre si.
Contudo, a liberdade tem um preço. Somos livres, nós e os outros, e por vezes, na nossa fragilidade muito humano, colidimos com a liberdade dos outros. Usando uma linguagem quotidiana, diríamos que no geral a liberdade é um dom de inestimável riqueza, que deve ser defendido, protegido, salvaguardado por todos e para todos. Mas ao descermos ao concreto da vida, nem sempre é fácil respeitar e promover a liberdade de todos. Na diferença enriquecemo-nos mutuamente, mas a conciliação de vontades próprias nem sempre é exequível. O encontro de liberdades engrandece-nos, obrigando, porém, ao diálogo. Ou melhor, ao amor, purificado pelo perdão.
Diante de situações reais, de casas destruídas, de corações traídos, de famílias expostas ao egoísmo e ao pecado, perguntam a Jesus: «Pode um homem repudiar a sua mulher?». Ao que Jesus replica: «Que vos ordenou Moisés?». Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se repudiar a mulher». Jesus responde com a nossa limitação e fragilidade: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu».
O encontro de dois corações, duas vidas, duas casas, do homem e da mulher, que são imagem e semelhança de Deus na comunhão de amor, é o que existe de mais belo e extraordinário e criativo, é o que existe de mais sagrado. Dois corações que se prendem e se libertam mutuamente (do egoísmo, da solidão, da tristeza), é a força maior, a maior revolução. É nesse diálogo de vidas, interação de casas – a minha casa entra na casa alheia e aquela torna-se a minha casa e eu a sua casa – dá-se a salvação, descubro o melhor de mim no encontro com outro semelhante a mim, da mesma carne, há uma parte de mim que habita nela e que me atrai como um íman e me completa: o amor (e não a costela). E o que se refere para o gérmen da família, o encontro de homem e da mulher, é exemplo para que a humanidade se torne uma grande família, dos pais com os filhos, dos patrões com os trabalhadores. Em Cristo não há judeus nem gregos, homens ou mulheres, livres ou escravos, todos são filhos amados de Deus, irmãos.
3 – Como nas semanas anteriores, o exemplo para uma convivência sadia e fraterna, em casa, na família, e nas comunidades, vem das crianças, da sua delicadeza e simplicidade, da espontaneidade com que se dão em sorriso transparente aos outros, até aos estranhos.
Relembramos que as crianças, como as mulheres, como os escravos, como os pecadores públicos, como as pessoas com alguma deficiência, não contavam, não faziam número. Jesus conta com uns e com outros. Não são números, ontem como hoje, são pessoas, e o mais insignificante também vale, vale tudo, é rosto, é presença de Deus. Jesus trá-los para a luz, para o meio, para junto dos seus discípulos. É assim com as mulheres, que seguem anonimamente atrás de Jesus, discretamente, em serviço, prestáveis, e que não chamam a atenção e aparecem quando expostas por homens. Jesus altera a postura. Faz incidir sobre elas a luz, reconhecendo-as como iguais. Do mesmo modo em relação às pessoas excluídas, leprosos, enfermos, surdos e mudos, coxos, publicanos e pecadores. Jesus convive com eles. Come à mesma meda e do mesmo pão. Vai ao seu encontro, não se desvia, e repreende os discípulos sempre que afastam crianças, ou querem silenciar alguém que grita por Ele.
4 – Neste nosso peregrinar, mais esclarecidos ou titubeantes, no confronto com uma realidade quotidiana inundada de mil cores, de muitas situações felizes e de muitas outras controversas e destrutivas, de momentos luminosos e de momentos obscurecidos pela tristeza, pela solidão, não estamos sós, Jesus é o nosso garante, o nosso fim, a nossa salvação.
Na epístola aos Hebreus, Jesus é reconhecido e apresentado como o sumo-sacerdote. Vem de Deus, para nos elevar para Ele. Faz-Se história, encarna, entranha-se no sofrimento humano, “ensina-nos” a viver humanamente. Morre e introduz-nos na eternidade de Céu, onde Se encontra a interceder por nós, de onde nos atrai e desafia.
Contudo, a liberdade tem um preço. Somos livres, nós e os outros, e por vezes, na nossa fragilidade muito humano, colidimos com a liberdade dos outros. Usando uma linguagem quotidiana, diríamos que no geral a liberdade é um dom de inestimável riqueza, que deve ser defendido, protegido, salvaguardado por todos e para todos. Mas ao descermos ao concreto da vida, nem sempre é fácil respeitar e promover a liberdade de todos. Na diferença enriquecemo-nos mutuamente, mas a conciliação de vontades próprias nem sempre é exequível. O encontro de liberdades engrandece-nos, obrigando, porém, ao diálogo. Ou melhor, ao amor, purificado pelo perdão.
Diante de situações reais, de casas destruídas, de corações traídos, de famílias expostas ao egoísmo e ao pecado, perguntam a Jesus: «Pode um homem repudiar a sua mulher?». Ao que Jesus replica: «Que vos ordenou Moisés?». Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se repudiar a mulher». Jesus responde com a nossa limitação e fragilidade: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu».
O encontro de dois corações, duas vidas, duas casas, do homem e da mulher, que são imagem e semelhança de Deus na comunhão de amor, é o que existe de mais belo e extraordinário e criativo, é o que existe de mais sagrado. Dois corações que se prendem e se libertam mutuamente (do egoísmo, da solidão, da tristeza), é a força maior, a maior revolução. É nesse diálogo de vidas, interação de casas – a minha casa entra na casa alheia e aquela torna-se a minha casa e eu a sua casa – dá-se a salvação, descubro o melhor de mim no encontro com outro semelhante a mim, da mesma carne, há uma parte de mim que habita nela e que me atrai como um íman e me completa: o amor (e não a costela). E o que se refere para o gérmen da família, o encontro de homem e da mulher, é exemplo para que a humanidade se torne uma grande família, dos pais com os filhos, dos patrões com os trabalhadores. Em Cristo não há judeus nem gregos, homens ou mulheres, livres ou escravos, todos são filhos amados de Deus, irmãos.
3 – Como nas semanas anteriores, o exemplo para uma convivência sadia e fraterna, em casa, na família, e nas comunidades, vem das crianças, da sua delicadeza e simplicidade, da espontaneidade com que se dão em sorriso transparente aos outros, até aos estranhos.
Relembramos que as crianças, como as mulheres, como os escravos, como os pecadores públicos, como as pessoas com alguma deficiência, não contavam, não faziam número. Jesus conta com uns e com outros. Não são números, ontem como hoje, são pessoas, e o mais insignificante também vale, vale tudo, é rosto, é presença de Deus. Jesus trá-los para a luz, para o meio, para junto dos seus discípulos. É assim com as mulheres, que seguem anonimamente atrás de Jesus, discretamente, em serviço, prestáveis, e que não chamam a atenção e aparecem quando expostas por homens. Jesus altera a postura. Faz incidir sobre elas a luz, reconhecendo-as como iguais. Do mesmo modo em relação às pessoas excluídas, leprosos, enfermos, surdos e mudos, coxos, publicanos e pecadores. Jesus convive com eles. Come à mesma meda e do mesmo pão. Vai ao seu encontro, não se desvia, e repreende os discípulos sempre que afastam crianças, ou querem silenciar alguém que grita por Ele.
“Apresentaram a Jesus umas crianças para que Ele lhes tocasse, mas os discípulos afastavam-nas. Jesus, ao ver isto, indignou-Se e disse-lhes: «Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis: dos que são como elas é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não acolher o reino de Deus como uma criança, não entrará nele». E, abraçando-as, começou a abençoá-las, impondo as mãos sobre ela”.A receita de Jesus, para a família, e para a humanidade, é o amor, o perdão, a fraternidade, ir buscar os últimos, os que servem, os que não contam, trazê-los para a vida, para o centro, para a luz do dia. O maior no reino de Deus é o que serve, o que ama, o que acolhe, o que protege e dá as mãos. O pecado e a destruição da família e da sociedade resulta do egoísmo e da solidão, que exclui e marginaliza.
4 – Neste nosso peregrinar, mais esclarecidos ou titubeantes, no confronto com uma realidade quotidiana inundada de mil cores, de muitas situações felizes e de muitas outras controversas e destrutivas, de momentos luminosos e de momentos obscurecidos pela tristeza, pela solidão, não estamos sós, Jesus é o nosso garante, o nosso fim, a nossa salvação.
Na epístola aos Hebreus, Jesus é reconhecido e apresentado como o sumo-sacerdote. Vem de Deus, para nos elevar para Ele. Faz-Se história, encarna, entranha-se no sofrimento humano, “ensina-nos” a viver humanamente. Morre e introduz-nos na eternidade de Céu, onde Se encontra a interceder por nós, de onde nos atrai e desafia.
“Jesus, que, por um pouco, foi inferior aos Anjos, vemo-l’O agora coroado de glória e de honra por causa da morte que sofreu, pois era necessário que, pela graça de Deus, experimentasse a morte em proveito de todos. Convinha, na verdade, que Deus, origem e fim de todas as coisas, querendo conduzir muitos filhos para a sua glória, levasse à glória perfeita, pelo sofrimento, o Autor da salvação. Pois Aquele que santifica e os que são santificados procedem todos de um só. Por isso não Se envergonha de lhes chamar irmãos”.N'Ele tornamo-nos irmãos, e na abertura recíproca aos outros e a Deus, encontraremos a salvação. Não é bom estarmos sós. Só com semelhantes poderemos progredir e caminhar. Só tornando-nos como crianças, na disponibilidade de servir, de amar, de perdoar, de dar o que temos e o que nos dão, seremos verdadeiramente humanos.
Pe. Manuel
Gonçalves
Reflexão Dominical na pagina da Paróquia de Tabuaço
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Transmitir alegria é agir segundo o estilo de Deus
No serviço à alegria descobrimos um dos modos mais delicados de Deus cuidar de cada homem. Transmitir alegria é agir segundo o estilo de Deus. Cada um tem um dom próprio, único, irrepetível e é o espaço da sua alegria.
ERMES RONCHI, As casas de Maria
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Criar comunhão é o objetivo primário da história sagrada
Jesus escolheu doze para «fazer casa» com eles, para que fizessem a experiência de vida com Ele. A cura da vida é libertá-la da doença e da solidão, da tirania do fazer, do fascínio da quantidade, e repropor o fascínio da comunhão.
Criar comunhão é o objetivo primário da história sagrada. E a divisão, a lâmina que separa as duas vertentes da história.
De um lado, os construtores de comunhão, que fazem o que Deus faz, criam proximidade e aliança, e são chamado amigos do género humano, guardas da história; do outro lado, os construtores de separações, de inimizades e de desconfianças, de medos e de muros. E são aqueles que fazem o que o diabo faz...
No Evangelho, Maria é criadora de relações. Também na casa dos sonhos, com José, o centro da vida não é o eu nem o tu. O centro está na relação, no procurarem-se e no encontrarem-se, através da distância, para fazer um nós. O nó que aperta conjuntamente as vidas.
ERMES RONCHI, As casas de Maria
sexta-feira, 13 de julho de 2012
O Espírito é a sarça da liberdade, arde mas não se consome
O Espírito é a sarça da liberdade, arde mas não se consome. Deus já não é aquele que dá ordens para que se executem, mas um aliado. Farás como quiseres; tu, homem adulto, autónomo, perfumado com a nova dignidade. E Deus estará contigo. O homem não é um executor de ordens, mas um inventor de caminhos que levam à liberdade, que conduzem à comunhão, que nos conduzem uns para os outros e, juntos, para Deus. Descobridores de novas sendas no Sol.
ERMES RONCHI, As casas de Maria
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Amo para os outros o que amo para mim
Cada aliança entre Deus e o homem, entre o homem e a mulher, cada comunidade autêntica, religiosa ou civil, rege-se pela reciprocidade, pela autoridade. A sua regra de ouro é: faz ao outros o que queres que os outros te façam. O que desejas para ti, fá-lo aos outros...
Desce ao lugar mais secreto de ti mesmo, onde nasce o desejo, e lá descobrirás o segredo da existência. Toda a religião numa extraordinária simplificação, num dom do meu desejo: dou aos outros o que desejo para mim, amo para os outros o que amo para mim. E para mim, eu desejo ser amado, desejo que me levem a sério e que se considerem nada os meus defeitos e, pelo contrário, importantes os meus dotes, que os meus segredos sejam respeitados e as minhas faltas perdoadas de coração, já e sempre. Procuro quem me acompanhe quando tenho medo e me ofereça um coração em que possa abrigar-se. E procurarei dar isto aos outros.
ERMES RONCHI, As casas de Maria
sexta-feira, 6 de julho de 2012
O que aproxima é a aceitação da outra pessoa
... quem tem medo de se desentender nunca chega a entender-se.
Laurinda Alves e Alberto Brito, sj. Ouvir, Falar, Amar.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
O Deus da Bíblia que encurta o passo à medida do nosso
Não queiramos fazer escalada até ao Céu. A fé assegura-nos que é Deus quem desce. A escalada ao Céu é uma ilusão perigosa. Conduz à desagregação de Babel, à tragédia de Prometeu, à catástrofe de todos os fundamentalismos, à teoria desastrosa da perfeição possível aqui na terra.
É o Deus da Bíblia que encurta o passo à medida do nosso, no pó dos nossos carreiros.
...
Os dias da dor deixam cicatrizes no íntimo. A cruz queima o coração. Até o Ressuscitado regressará com as chagas abertas, como que exibidas pelo dedo e pela mão de Tomé.
A ressurreição não paga as feridas do Crucificado. delas, porém, já não brota sangue, mas luz.
ERMES RONCHI, As casas de Maria
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Editorial Voz Jovem - maio 2012
A comunidade de Jerusalém é modelar, ainda hoje, ou sobretudo hoje, para as comunidades cristãs. “Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fração do pão e às orações… Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum… Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração” (Atos 2, 42-47).
A descrição dá-nos uma ideia da vivacidade dos crentes e das relações solidárias e fraternas entre todos. Funcionam a um só coração, voltados para Jesus Cristo e para a Sua postura de amor, de entrega, de inclusão.
A partir desta descrição, nestes meses de maio e de junho, mas solidificando o que deve ser sempre a comunidade dos cristãos, sublinhamos três realidades essenciais na vivência da nossa fé e no compromisso com os outros.
A oração é o ponto de partida e de chegada da nossa fé. Há de ser o nosso alimento. O paradigma é Jesus Cristo. Sempre que se aproximam ocasiões decisivas, Ele afasta-Se para rezar, para escutar a Deus, Seu e nosso Pai. Este afastamento é físico mas não espiritual, pois pela oração tornamo-nos mais próximos uns dos outros. Se todos estamos unidos a Deus nem a realidade espácio-temporal inibe a nossa cumplicidade, a nossa comunhão.
Por outro lado, há de ser na oração que descobrimos a alegria de sermos cristãos, filhos amados de Deus, abrindo a nossa mente e o nosso coração para acolhermos o Espírito Santo na força da Sua luz e da Sua graça santificante.
Como fácil se conclui, a oração não nos isola, não nos desliga do mundo das pessoas. Ao invés, a oração une-nos mais radicalmente aos outros e ao mundo. A oração reenvia-nos na missão de testemunharmos a todos e em toda a parte o amor de Deus que experimentamos em nossas vidas, ainda que em momentos de sofrimento, de solidão e de doença, tenhamos mais dificuldade em expressar a alegria e a confiança no Deus da Vida e do Amor, do Encontro e da Festa.
Em Jesus, Deus faz-nos para sempre partícipes da Sua vida. Somos filhos no Filho. Somos herdeiros da vida eterna. Somos raça de Deus, portamos em nós as marcas do amor divino. No código de barras, que é cada um de nós, pode ler-se a pertença a Deus, a nossa origem, o nosso chão seguro, a casa do nosso conforto, da nossa confiança. É o amor maior. Somos habitação de Deus. Jesus, o rosto do Pai, e nós, o rosto de Cristo, que nos mostra os sinais da Sua paixão, as marcas do amor que nos devota. O amor que O leva a estender os braços na Cruz, é o mesmo Amor que se desprende da Cruz e nos abraça, terna e longamente. Da Sua à nossa Ressurreição. Até à eternidade.
Se cada um é filho de Deus, somos todos irmãos. Comunidade. Família. Não são já os laços de sangue que nos identificam com os outros, mas os laços do amor de Deus em nós. A oração provoca-nos para a missão, com o fito de estreitarmos a comunhão entre todos, coração a coração, como repetidamente nos diz o nosso Bispo.
Não bastam espaços físicos de encontro, é imperioso que nos encontremos nos sentimentos, nas emoções, nas alegrias e nas tristezas, fazendo da Igreja casa de todos e fazendo com que em cada casa brilhe a luz do Evangelho e da fé em Cristo Jesus. Como no princípio, na comunidade de Jerusalém, bata em nós o coração de Jesus.
Etiquetas:
Alegria,
Atos dos Apóstolos,
Caridade,
Comunhão,
Deus,
Editorial,
Jesus Cristo,
Junho,
Maio,
Missão,
Oração,
Partilha,
Plano Pastoral,
Voz Jovem
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Maria é a presença que abre, que envolve outras pessoas
Envolver. Maria vai ter com os criados, procura-os, reúne-os e fala com eles. Maria é a presença que abre, que envolve outras pessoas: Jesus, os criados, os comensais, o mestre-sala e, por fim, os discípulos. É a mulher das relações abertas e criativas, que não isola, pronta a estabelecer a ponte de um ao outro.
No Evangelho, Maria nunca aparece só, é mulher de encontros e pede-nos que sejamos assim, como ela, na família, na comunidade eclesial, na sociedade civil, nunca isolados, nunca sem os outros, criadores de relações, envolvidos e envolventes. Este é o percurso, para que corra bom vinho, vinho de fraternidade, nas mesas do mundo, por uma cultura de solidariedade.
A salvação vem porque Ele me ama, não porque eu O amo. Deus está atento ao vinho que acabou, à lucerna com luz mortiça, ao bastão rachado. Não há mérito algum no pavio fumegante, mas tão-somente um desejo de fogo e luz.
Maria ajuda-nos a mudar a nossa imagem de Deus e, insistindo neste milagre, quase forçando-o, mostra-nos que a Deus interessa a felicidade dos homens, que se preocupa mais com ela do que com a sua própria fidelidade.
ERMES RONCHI, As casas de Maria
terça-feira, 1 de maio de 2012
A dor não pede razões, mas companhia e participação
Feridas sem milagres, as nossas; quotidiano sem prodígios, o que vivemos. Mas não sem fé. Resta a beleza ferial de uma navegação serena no rio dos dias, atrás de uma estrela, partilhando com Maria não milagres mas mansa força da luz, da esperança que não se rende.
As feridas da vida não procura explicações que, frequentemente, não existem, mas partilha, o silêncio que participa, a proximidade que compartilha, olhos acesos para ti, fixos no teu rosto.
A dor não pede razões, mas companhia e participação.
ERMES RONCHI, As casas de Maria
sexta-feira, 27 de abril de 2012
A Igreja surge da casa...
Não existe Igreja sem oração comum. O que acontece na casa será decisivo para o futuro da Igreja, determinante para a compreensão do mundo e para a construção de uma história. A Igreja surge da casa. A nova visão do mundo e das relações humanas recebe agora, na casa de Jerusalém, a sua fisionomia essencial...
Aqui e agora, explica-se o que Jesus pretendia: estender a todos os seus discípulos as relações de família, de confiança, de ternura e de reciprocidade, não geradas pelo sangue ou pela carne, mas por Deus. Início de Igreja, primeira célula, no dom da hospitalidade recíproca.
ERMES RONCHI, As casas de Maria
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Eu sou assim e os outros que se aguentem...
... Uma pessoa diz: «Eu sou assim e os outros que se aguentem, porque não há nada a fazer», está a demitir-se de ser pessoa, a desresponsabilizar-se. E o pior é que muitas vezes pode acrescentar a frase terrível: «E cá sou muito sincero, aquilo que tenho a dizer digo! Não me venham cá com coisas, esteja quem estiver, eu digo o que tenho a dizer!»...
Há quem lhe chame sinceridade. Mas isso nada tem a ver com sinceridade! Será uma descarga emocional. Será tratar as outras pessoas como se fossem um caixote de lixo. Será dizer o que lhe vem à cabeça. E os outros que se aguentem.
Ora, insto não é ser sincero! É ser descontrolado, para não dizer malcriado!
Só sou sincero se atendo à pessoa a quem me dirijo!
... E já nem falo das pessoas que, depois de «desbobinar» tudo, declaram: «Mas ao menos disse tudo o que tinha a dizer, ao menos aproveitei a ocasião para...» Isso, então, é inqualificável.... Além de ser um comportamento próprio de adolescentes, é ridículo. Faz lembrar aqueles miúdos que dizem uns aos outros: «Eu sou mais forte do que tu e o meu pai é polícia! Ganhei!» Francamente...
Laurinda Alves e Alberto Brito, sj. Ouvir, Falar, Amar.
Subscrever:
Mensagens (Atom)















