Mostrar mensagens com a etiqueta Amós. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amós. Mostrar todas as mensagens

sábado, 24 de setembro de 2016

XXVI Domingo do Tempo Comum - ano C - 25.09.2016

       1 – O que nos distancia de Jesus Cristo e do Seu Evangelho não são os bens materiais, mas a ganância, a avareza, a prepotência, a sobranceria, a autossuficiência, a presunção, a soberba. Tudo o que nos afasta dos outros afasta-nos de Deus.
       O contrário da pobreza de espírito não é a riqueza material mas a avareza. E aqui há cenários variados. Há pobres avarentos, que só não têm tudo porque não podem ou não têm nem inteligência nem ousadia para ultrapassar os outros. Há pobres que são generosos, simples, despojados e até o pouco que têm dá para ajudar os outros, sentindo-se felizes por ajudar, se não com bens, com o tempo, a criatividade e a alegria que preenche as suas vidas. Há ricos avaros, "chupam" tudo quanto lhes é possível, sem olhar a meios, contornando leis, com toda a espécie de maquinações para passarem a perna a todos. Há ricos, cuja riqueza material é fruto do trabalho honesto, esforçado, dedicado, e que lhes permite gerar riqueza, criar emprego, promover maior comodidade para as pessoas e para as empresas; beneficiam dos próprios bens e alargam os benefícios para os outros e para a sociedade.
       A parábola de Jesus responsabiliza-nos com os mais pobres. Refira-se uma vez mais que Jesus não está a falar para o vizinho. É para mim. É para ti. É para nós. Não nos é pedido o impossível. É-nos exigido o máximo, o melhor de nós mesmos. Umas vezes ajudando diretamente, outras envolvendo as pessoas ou as entidades que podem e devem ajudar.
       Jesus contesta o homem rico não pela riqueza que possui mas pela sua cegueira e egoísmo, pela incapacidade de sair do seu castelo e compartir a vida com os outros.
       2 – A descrição do homem rico e do pobre Lázaro, o contraste gritante que existe entre ambos e o muro levantado que protege um e deixa o outro na rua, é visível na atualidade. Também hoje convivem lado a lado a miséria e a opulência, a degradação humana e o luxo escandaloso. Em sociedades democráticas – todos deveriam ter os mesmos direitos, sendo que o exercício dos mesmos precisa de condições prévias –, os governos, por vezes, protegem apenas os poderosos e esquecem-se dos pobres.
         Do homem rico não se conhece o nome. Pode ser qualquer um de nós. Por outro lado, mais que apontar nomes, importa denunciar situações de injustiça e prepotência. Vestia de púrpura e linho fino e banqueteava-se esplendidamente todos os dias, fechado dentro dos portões, alheio ao sofrimento dos outros, alguns bem perto, do lado de fora, impedidos de entrar.
       Um pobre, chamado Lázaro. O nome já diz da sua pobreza. Os pobres não podem ser números. Não servem para usar como arma de arremesso. Não contam apenas por ocasião das eleições. Têm nome e têm rosto. E ainda hoje há tantos Lázaros, excluídos, sem casa, sem pão, sem família. Este jazia junto ao portão do homem rico, e estava coberto de chagas. À pobreza acresce a repugnância das chagas. A pobreza gera pobreza. Não pede muito, apenas as migalhas que caem da mesa do rico. Mas nem a migalhas lhe são permitidas. Se te fixares perto do riacho poderá suceder que a fertilidade das margens de beneficiem e te garantam algum alimento. Mas aqui a proximidade é apenas física e está vedada por um muro e um portão. Bem se pode dizer que por vezes os animais nos ensinam a ser mais humanos, sem absolutizar. Como tem acentuado o Papa Francisco, é um paradoxo escandaloso a defesa intransigente dos animais e o desprezo ou a indiferença diante de um ser humano.
        A descrição feita por Jesus bem pode encaixar nas sociedades modernas. É o mundo em que vivemos. Limitado e finito. Não estamos no Céu, daí as imperfeições. Mas...
        3 – Mas o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. A salvação é uma garantia de Deus, dom gratuito. A morte e a ressurreição de Jesus agrafa-nos à eternidade de Deus. Assumindo por inteiro o nosso pecado e a nossa fragilidade, Jesus colocou a nossa natureza humana na glória do Pai, onde Ele já Se encontra. Mas cabe-nos acolher a Sua salvação fazendo com que chegue a todos e se expanda cada vez mais.
       O que fizermos agora tem consequências amanhã. As escolhas do tempo influenciam a inserção na vida eterna. Qual efeito borboleta: segundo a teoria do caos, o bater das asas de uma borboleta em Portugal poderá provocar um terramoto do outro lado da terra.
       O relato da parábola continua: «O pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado».
       Curiosa esta última afirmação. Finalmente este homem rico viu Lázaro. Antes não o tinha visto. A ganância e a superioridade presunçosa cegaram-no. Só se preocupava consigo, com o seu umbigo. Um pobre ali tão perto, junto ao portão, do lado de fora, a padecer, e não foi capaz de o ver e de o ajudar. Agora tão longe, e como as situações se inverteram exponencialmente, já o vê e até deseja que Lázaro, enviado por Abraão, possa vir, entrar, aliviar o seu sofrimento. Enquanto podia alterar as coisas, modificar positivamente a vida, esqueceu-se dos outros. Agora que tudo está concluído quer alterar as regras do jogo, em seu benefício e dos seus, servindo-se de Lázaro a quem não serviu com os seus bens!
       4 – Na continuação da parábola, a insistência do rico: «Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento».
       Abraão põe-nos de sobreaviso: «Eles têm Moisés e os Profetas: que os oiçam... Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos».
       Mais que nos preocuparmos com o desfecho final, que a Deus confiamos, importa, no tempo presente, aqui e agora – não amanhã ou depois, não em outro lugar ou circunstâncias, mas no concreto dos nossos dias – viver o melhor, gastando a vida em favor de todos os que Deus coloca à nossa beira, testemunhando a beleza e a alegria da Boa Nova que Jesus nos traz com a Sua vida e com a oferenda de Si mesmo. E, como podemos constatar, Jesus ressuscitou dos mortos e, no entanto, ainda são muitos os que O desconhecem, os que não acreditam, os que vivem como se Ele não existisse.

       5 – A certeza que Deus Se coloca ao lado dos mais desfavorecidos deve levar-nos a agir do mesmo modo. "O Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos que têm fome e a liberdade aos cativos. O Senhor ilumina os olhos dos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos".
       Já o Profeta Amós revelava a vontade de Deus: «Ai daqueles que vivem comodamente em Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria. Deitados em leitos de marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos do estábulo. Improvisam ao som da lira e cantam como David as suas próprias melodias. Bebem o vinho em grandes taças e perfumam-se com finos unguentos, mas não os aflige a ruína de José. Por isso, agora partirão para o exílio à frente dos deportados e acabará esse bando de voluptuosos».
       Amós faz eco da destruição do tecido social, cultural e religioso do povo judeu e que se iniciou com a displicência daqueles que tinham responsabilidade de guiar, cuidar, integrar, provendo à união e preparando o próprio povo para se defender dos ataques exteriores. Enquanto se banqueteavam, foram dispersados, assaltados, expulsos de casa e da pátria. Não nos cabe fazer juízo de valor definitivo, instrumentalizando o texto, concluindo que a destruição do povo tenha sido consequência do mau proceder dos seus líderes e, neste propósito, castigo de Deus. Mas, ainda assim, é fácil verificar que o egoísmo e o individualismo conduzem ao conflito, à rutura, à destruição dos laços sociais. Por outro lado, a união faz a força e a cooperação, a solidariedade e a partilha, a entreajuda e a justiça social, equilibram e fortalecem as comunidades.

       6 – São Paulo, na segunda leitura, ao dirigir-se a Timóteo, dita recomendações para os discípulos de Jesus. Hoje é para nós que fala, para mim e para ti: «Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé perante numerosas testemunhas. Guarda o mandamento do Senhor, sem mancha e acima de toda a censura, até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo, a qual manifestará a seu tempo... A Ele a honra e o poder eterno».
       Também em São Paulo se pode atestar que a vida eterna se inicia agora na prática da caridade, da justiça, da mansidão, no cumprimento do mandato de Jesus Cristo, imitando-O, sabendo que só Ele nos garante o futuro, porém, conta connosco para transformar o presente do mundo e da história.
       Auxiliemo-nos mutuamente, a começar na oração: "Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e Vos compadeceis, derramai sobre nós a vossa graça, para que, correndo prontamente para os bens prometidos, nos tornemos um dia participantes da felicidade celeste".
       Rezando, tomando consciência dos nossos limites e da grandeza da misericórdia de Deus, dilatando o nosso coração e o nosso compromisso com os outros que connosco formam a família de Deus.


Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (C): Am 6, 1a. 4-7; Sl 145 (146); 1 Tim 6, 11-16; Lc 16, 19-31.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Procurai o bem e não o mal

       Procurai o bem e não o mal, para que vivais. Assim, o Senhor, Deus do Universo, estará convosco, como vós dizeis. Detestai o mal e amai o bem, restabelecei a justiça no tribunal. Talvez o Senhor, Deus do Universo, tenha compaixão dos sobreviventes de José. Eu detesto e desprezo as vossa festas, desgostam-Me as vossas reuniões sagradas. Se Me ofereceis holocaustos e oblações, Eu não quero aceitá-los; e para os vossos sacrifícios de animais gordos, nem sequer Me digno olhar. Afastai de Mim o barulho dos vossos cânticos, que Eu não quero ouvir o som das vossas harpas. Mas fazei que o direito corra como as águas e a justiça como rio inesgotável (Am 5, 14-15.21-24).
       O profeta Amós, de forma clarividente, mostra a relação entre a fé e a vida, entre o amor a Deus, a religião, e o amor ao próximo, a fraternidade. As orações, os cânticos de louvor, as oblações, os ritos do templo, não têm qualquer significado se a justiça e o direito não forem restabelecidos. Como muitas vezes ouviremos no Novo Testamento, o amor a Deus e o amor ao próximo são concumitantes, interligam-se mutuamente, não existem separados.

sábado, 14 de julho de 2012

XV Domingo do Tempo Comum (ano B) - 15 de julho

       1 – De casa para a cidade e para o mundo.
       Jesus regressa à sua terra, em Nazaré, e também entre os seus comunica, com alegria e desprendimento, um DEUS próximo, amigo, que Se pode encontrar nas coisas simples, nos acontecimentos presentes, e nas pessoas concretas que vivem connosco.
       Sem (mais) lamentos nem ameaças coléricas, Jesus segue o Seu caminho, segue para o mundo, para outras cidades e aldeias, para outras casas, deixando um rasto de esperança e de sonho, de bondade e de vida nova. Quer contar, conta connosco. Chama discípulos – pessoas como nós – para uma experiência admirável. Envia-os, para serem pescadores de homens.


       A casa é lugar de encontro, de aprendizagem, de gestação, lugar onde se aprende a ser gente e se retemperam as forças. É de casa que os discípulos são enviados para o mundo – campo de evangelização.
“Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois. Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas. Disse-lhes também: «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles». Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos”.
       Não vão sozinhos, mas dois a dois. Não vão em nome próprio, mas enviados por Jesus. Não se anunciam mas à Palavra de Deus, com o poder de curar, e com a leveza da vida e do serviço. Não precisam de muitas coisas, mas de disponibilidade para levarem Deus.

       2 – Apóstolos e/ou Profetas, de ontem e de hoje, não podem levar muitas coisas, muitos recursos, ou técnicas, mas a leveza e a simplicidade da Palavra de Deus, com sandálias nos pés, sem artifícios, nem manhas. Leveza para transparecer o amor de Deus. A opacidade é contraproducente, e existe quando baseamos/centramos a missão nas nossas capacidades. Leveza para aceitar as dificuldades e os obstáculos.
       Jesus desengana rapidamente os seus discípulos. Podem não vos ouvir. Podem não estar sensibilizados para acolher as vossas palavras. Não façais disso um bicho-de-sete-cabeças. Sacudi o pó das sandálias e parti para outra localidade.
       O profeta Amós - Aquele que ajuda a levar o fardo - envida uma missão épica, de trazer o povo de Israel de novo para a Lei de Deus. De forma simples, às vezes rude, em linguagem profética, não se cala perante os desvios e afastamentos da Aliança. Amasias, sacerdote de Betel, disse a Amós: 
«Vai-te daqui, vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas profecias. Mas não continues a profetizar aqui em Betel, que é o santuário real, o templo do reino». Amós respondeu a Amasias: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor de gado e cultivava sicómoros. Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: ‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’». 
       Originalmente não era profeta, educado no campo, era criador de animais (e não apenas pastor). Chamado por Deus, luta contra as injustiças sociais, contra a opulência dos ricos e a miséria dos pobres, contra o ritualismo religioso, esplêndido mas vazio de vida e de Deus. Usa imagens riquíssimas do campo, denunciando falsas seguranças na riqueza e nos ritos religiosos.

       3 – “Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis e a quantos de coração a Ele se convertem. A sua salvação está perto dos que O temem e a sua glória habitará na nossa terra”.
       O salmista revela, em jeito de oração, uma premissa essencial da Aliança de Deus com o Seu povo, Deus quer o bem, a paz e a felicidade de todos. Por conseguinte, envia constantemente mensageiros, os profetas e os sinais que os acompanham. Mais, vem Ele próprio, como Bom Pastor para o meio do rebanho, em Jesus Cristo, que por sua vez assegura a Sua permanência através da Palavra e dos Sacramentos, através dos Seus apóstolos, de ontem e de hoje.
“Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo... o Espírito Santo prometido é o penhor da nossa herança, para a redenção do povo que Deus adquiriu para louvor da sua glória” (segunda leitura).
       Os Apóstolos, como os profetas, são enviados para fazer regressar a Deus todos aqueles que se perderam pelo pecado e pela fragilidade do egoísmo e da inveja. São incumbidos de curar as doenças do corpo e do espírito. Em Nazaré, Jesus não fez muitos milagres, mas curou os doentes que Lhe apresentaram. Dá a mesma missão aos discípulos: curar, reconciliar, converter. Somos herdeiros da Aliança de Deus com o Seu povo, somos filhos no Filho, recebemos o Espírito da redenção, para sermos transformados pela Sua graça e para testemunharmos em nós a salvação que Ele nos dá.


Textos para a Eucaristia (ano B): Amós 7, 12-15; Sl 84 (85); Ef 1, 3-14; Mc 6, 7-13. 

sábado, 25 de setembro de 2010

XXVI Domingo Tempo Comum - 26/setembro

       1 – "Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas..."(Evangelho).
       Esta parábola de Jesus é ainda mais provocante e significativa nos dias que correm.
       Em todos os tempos, por nós conhecidos, a dicotomia entre os que mandam e os que obedecem, os que têm e os que nada têm, os que vivem abastadamente e os que vivem na indigência.
       Ao tempo de Jesus, existiam os homens livres e os escravos. Uns viviam regaladamente em seus palácios, subjugando súbditos, gozando a vida, dando largas a todos os luxos, vivendo faustosamente, sem se importarem dos que viviam na miséria, não porque não tivessem feito por isso, mas simplesmente porque eram de outra classe e não tinham direito a almejar por melhores condições de vida. Um fosso gigantesco, determinado por nascimento. Quem nascia em família pobre, seria sempre pobre; quem nascesse em berço de ouro, viveria sempre na abundância, a não ser que acontecesse alguma desgraça.
       No nosso tempo, o fosso entre ricos e pobres, entre magnatas e pedintes, alargou-se, muitas vezes não pelo mérito dos primeiros, mas pelo trabalho e inteligência dos segundos. Não está em causa a criação de riqueza, quando resulta do trabalho honesto e recompensa uns e outros, patrões e trabalhadores. O problema é quando a riqueza se faz à custa dos mais pobres, dos que trabalham, dos malabarismos corruptos, da desonestidade. Por isso também se verifica que há cada vez um fosso maior, mas também que há cada vez mais pobres e uma crescente concentração de riqueza num número cada vez mais reduzido de pessoas e de empresas.
        Em tempo de crise vem ao de cima da fragilidade das economias que procuram satisfazer apenas o lucro e em que as pessoas e as famílias são esquecidas. Faltou a aposta na formação, habilitação e (re)qualificação) - daria menos lucro -, no investimento em novos produtos, na modernização de equipamentos e gestão,  na reconversão de empresas, na promoção do melhor que havia e há nas empresas: as pessoas.
       2 - Certamente que Jesus, naquele e neste tempo, não diaboliza a economia ou a riqueza, mas enquadra-a num contexto mais amplo. A pessoa há-de estar em primeiro lugar. A economia não é um fim em si mesmo, deve estar ao serviço da pessoa, da sua dignidade, do seu desenvolvimento.
       E ainda que por vezes a pobreza se tenha tornado endémica - "pobres sempre os tereis" -, a responsabilidade dos cristãos é permanente, procurar viver solidariamente como irmãos, partilhar com os mais desfavorecidos, não apenas os bens materiais, mas os valores, a cultura, os bens intelectuais e espirituais, lembrando aqui o provérbio japonês: não se deve dar o peixe, mas deve dar-se a cana e ensinar a pescar. Obviamente, que num primeiro momento é necessário também prover ao alimento e aos bens materiais essenciais, dar o peixe e a cana, ensinar a pescar...
       Já o profeta alertava: "ai daqueles que vivem comodamente em Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria" (1.ª leitura). O cristão não pode viver indiferente à miséria. Não se prega a estômagos vazios. Na comunidade não se pode dizer a alguém vai em paz, sabendo que a pessoa não tem que comer ou que vestir, ou onde repousar. No Juízo Final, diz-nos Jesus, o que tivermos feito aos irmãos mais pequenos, pobres, desfavorecidos,, excluídos, marginalizados, esquecidos, é a Ele que o fizemos ou deixámos de fazer. Poderemos deixar Jesus na rua, com fome, a morrer de frio, de aconchego?
        É também neste sentido que podemos escutar o que nos diz São Paulo, na Segunda Leitura: "Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé perante numerosas testemunhas".
_________________
Textos para a Eucaristia (ano C): Am 6,1a.4-7; 1 Tim 6,11-16; Lc 16,19-31

sábado, 18 de setembro de 2010

XXV domingo Tempo Comum - 19/Setembro

       1 - "Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Evangelho).
       Não se podem iludir ou contornar as palavras de Jesus. Por vezes, a linguagem bíblica remete para um outro significado e para outra realidade. Mas nesta questão, por mais de uma vez, Jesus aposta na radicalidade: os bens materiais não são e não podem ser um fim em si mesmo, são um meio ao serviço da realização de pessoas e de comunidades. Quando se endeusam as riquezas deste mundo, Deus é facilmente materializando, serve enquanto nos é útil, e assim também as pessoas, enquanto me/nos permitem subir na vida.
       Olhemos para a crise económico-financeira, em que sobra pouco espaço para as pessoas, para as famílias, para os seus problemas, para as suas conquistas, para os seus sonhos.
       O dinheiro comandou (comanda) a nossa vida. É uma ditadura que nos governa. Uma empresa, uma fábrica, um negócio, um banco, mantêm-se de pé enquanto dão lucro às chefias, aos sócios e aos patrões. E cada vez mais lucro, sempre mais lucro. Reduzem-se os benefícios dos trabalhadores, exige-se uma maior produtividade. Os sacrifícios na maioria das vezes não são para salvar os empregos, mas para assegurar mais lucros. Claro que no universo dos trabalhadores também se encontram os mesmos vícios, podendo trabalhar-se exigindo sempre mais, mas sem maiores compromissos nem maior produtividade...
       À crise económico-financeira, a crise de valores: o lucro acima das pessoas. Estas não contam, mas somente os números.

       2 - As palavras de Jesus, no Evangelho, apontam para a primazia de Deus, para que n'Ele se salvem as pessoas. Quando Deus ocupa o fim da nossa vida, quando é para Ele que nos encaminhamos, quando é o nosso porto seguro, então cada pessoa, como imagem e semelhança de Deus, como rosto de Jesus Cristo, será tratada como tal, como filho/a de Deus.
       Na primeira leitura, o profeta Amós denuncia a trafulhice, a corrupção, a ganância e o egoísmo, o lucro à custa dos mais pobres e dos inocentes: "Faremos a medida mais pequena, aumentaremos o preço, arranjaremos balanças falsas. Compraremos os necessitados por dinheiro e os indigentes por um par de sandálias. Venderemos até as cascas do nosso trigo".
       Para de seguida lembrar que a justiça será assegurada por Deus. Ele lembrar-se-á de todas as nossas obras, boas e más. Não é uma aviso nem uma ameaça, é uma promessa que nos desafia ao bem, à generosidade e a colocá-l'O em primeiro lugar.

       3 - Toda a criação é fruto do amor de Deus. Na abundância deste AMOR, Deus faz surgir a luz, a noite e o dia, os peixes, as aves, os animais, a natureza, cria o HOMEM, à Sua imagem e semelhança, capaz de amar e ser amado, para ser feliz. Na treva do nosso pecado, na escuridão da nossa vida, Deus nunca se esqueceu de nós, nunca nos abandonou, nunca abandonará a obra das Suas mãos.
       Enviou-nos profetas, e nestes tempos que são os últimos, deu-nos o Seu próprio Filho. Diz-nos São Paulo a propósito, na Segunda Leitura, "recomendo, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e acções de graças por todos os homens, pelos reis e por todas as autoridades, para que possamos levar uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável aos olhos de Deus, nosso Salvador; Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou à morte pela redenção de todos".
       Também os bens materiais hão-de estar ao serviço da Salvação que Deus nos dá.
________________________
Textos para a Eucaristia (ano C): Am 8,4-7; 1 Tim 2,1-8; Lc 16,1-13