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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Martírio de São João Batista

       A censura que João Batista fez a Herodes Agripa pela sua conduta desonesta e imoral, que o Evangelho nos descreve, valeu-lhe a morte por degolação (Mt. 14, 1-12). É o seu nascimento para o céu que a Igreja hoje celebra.
       A festa do martírio de São João Baptista remonta ao século V, na França; e ao século VI, em Roma. Está ligada à dedicação da igreja construída em Sebaste, na Samaria, no suposto túmulo do Precursor de Jesus. O próprio Jesus apresenta-nos João Baptista:

       Depois deles partirem, Jesus começou a falar a respeito de João às multidões: "Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Mas que fostes ver? Um homem vestido de roupas finas? Mas os que vestem roupas finas vivem nos palácios dos reis. Então, que fostes ver? Um profeta? Eu vos afirmo que sim, e mais do que um profeta. É dele que está escrito: "eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele preparará o teu caminho diante de ti. Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior do que João, o Baptista, e, no entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele ..." (Mt 11, 2-11).

       O martírio de João Batista liga-se à denúncia profética das injustiças cometidas pelos poderosos, inclusive o luxo da corte, cujo desfecho fatal é a morte do inocente e a opressão dos marginalizados.

Oração de coleta:
       Senhor, que na vossa admirável providência,  quisestes que São João Batista fosse o Precursor do nascimento e da morte do vosso Filho, concedei-nos que, assim como ele deu a sua vida pela justiça e pela verdade, também nós saibamos lutar corajosamente pela confissão da fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
São Beda Venerável, presbítero

Precursor de Cristo no nascimento e na morte

O santo precursor do nascimento, da pregação e da morte do Senhor, mostrou no momento da sua luta suprema uma coragem digna de atrair o olhar de Deus. Como diz a Escritura: Se aos olhos dos homens foi atormentado, a sua esperança estava cheia de imortalidade. Com razão celebramos festivamente o dia do seu novo nascimento, dia que ele tornou memorável com a sua própria morte e ilustrou com a gloriosa púrpura do seu sangue. Merecidamente veneramos com alegria espiritual a memória daquele que selou com o martírio o testemunho que dera do Senhor.
São João sofreu a prisão e as cadeias e deu a sua vida em testemunho do nosso Redentor, a quem devia preparar os caminhos. Não lhe foi pedido pelo perseguidor que negasse a Cristo, mas que calasse a verdade. E no entanto, ele morreu por Cristo.
Cristo disse: Eu sou a verdade. Por isso, foi por Cristo que São João derramou o seu sangue, porque foi pela verdade que o derramou. Se com o seu nascimento, a sua pregação e o seu batismo dera testemunho de Cristo que havia de nascer, pregar e batizar, também com o seu martírio precursor deu testemunho da futura paixão do Senhor.
Assim terminou a sua vida este homem tão insigne e valoroso, derramando o seu sangue depois de longo e penoso cativeiro. Ele que anunciara a liberdade duma paz superior, é lançado pelos ímpios na prisão; é encerrado na escuridão do cárcere aquele que veio para dar testemunho da luz e a quem a própria Luz, que é Cristo, denominou como uma lâmpada que arde e alumia; e foi batizado com o próprio sangue aquele a quem foi concedido baptizar o Redentor do mundo, ouvir a voz do Pai que falava do Filho, ver a graça do Espírito Santo que descia sobre Ele. Por isso, longe de lhe parecer penoso, era pelo contrário fácil e desejável para ele suportar pela verdade os tormentos temporais, que lhe faziam antever a recompensa das alegrias eternas.
A morte não era para João Batista apenas uma realidade inevitável da natureza ou uma dura necessidade. Ele desejou a como o melhor modo de confessar o nome de Cristo e receber assim a palma da vida eterna. Bem diz o Apóstolo: A vós foi concedido por Cristo não só acreditar n’Ele, mas também sofrer por Ele. E se ele diz que sofrer por Cristo é um dom concedido aos eleitos, é porque os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória futura que se há de manifestar em nós.
Fonte: Secretariado Nacional da Liturgia

BENTO XVI no martírio de São João Batista

Estimados irmãos e irmãs
Nesta última quarta-feira do mês de Agosto celebra-se a memória do martírio de são João Batista, o precursor de Jesus. No Calendário romano, é o único santo do qual se celebra tanto o nascimento, a 24 de Junho, como a morte ocorrida através do martírio. A memória hodierna remonta à dedicação de uma cripta de Sebaste, em Samaria onde, já em meados do século IV, se venerava a sua cabeça. Depois, o culto alargou-se a Jerusalém, às Igrejas do Oriente e a Roma, com o título de Degolação de são João Batista. No Martirológio romano faz-se referência a uma segunda descoberta da preciosa relíquia, transportada naquela ocasião para a igreja de São Silvestre em Campo Márcio, em Roma.

Estas breves referências históricas ajudam-nos a compreender como é antiga e profunda a veneração de são João Batista. Nos Evangelhos realça-se muito bem o seu papel em relação a Jesus. De modo particular, são Lucas narra o seu nascimento, a sua vida no deserto e a sua pregação, e no Evangelho de hoje são Marcos fala-nos da sua morte dramática. João Batista começa a sua pregação sob o imperador Tibério, em 27-28 d.C., e o convite claro que ele dirige ao povo que acorre para o ouvir é que prepare o caminho para receber o Senhor, e endireitem as veredas tortas da própria vida através de uma conversão radical do coração (cf. Lc 3, 4). Contudo, João Batista não se limita a pregar a penitência e a conversão mas, reconhecendo Jesus como «o Cordeiro de Deus» que veio para tirar o pecado do mundo (cf. Jo 1, 29), tem a profunda humildade de mostrar em Jesus o verdadeiro Enviado de Deus, pondo-se de lado a fim de que Jesus possa crescer, ser ouvido e seguido. Como último gesto, João Batista testemunha com o sangue a sua fidelidade aos mandamentos de Deus, sem ceder nem desistir, cumprindo a sua missão até ao fim. São Beda, monge do século IX, nas suas Homilias diz assim: «São João, por [Cristo] deu a sua vida; embora não lhe tenha sido imposto que negasse Jesus Cristo, só lhe foi imposto que não dissesse a verdade» (cf. Hom. 23: ccl 122, 354). E ele dizia a verdade, e assim morreu por Cristo, que é a Verdade. Precisamente pelo amor à Verdade, não cedeu a compromissos nem teve medo de dirigir palavras fortes a quantos tinham perdido o caminho de Deus.

Nós vemos esta grande figura, esta força na paixão, na resistência contra os poderosos. Interroguemo-nos: de onde nasce esta vida, esta interioridade tão forte, tão recta e tão coerente, empregue totalmente por Deus e para preparar o caminho para Jesus? A resposta é simples: da relação com Deus, da oração, que é o fio condutor de toda a sua existência. João é o dom divino longamente invocado pelos seus pais, Zacarias e Isabel (cf. Lc 1, 13); uma dádiva grande, humanamente inesperada, porque ambos eram de idade avançada e Isabel era estéril (cf. Lc 1, 7); mas a Deus nada é impossível (cf. Lc 1, 36). O anúncio deste nascimento verifica-se precisamente no contexto da oração, no templo de Jerusalém; aliás, acontece quando Zacarias recebe o grande privilégio de entrar no lugar mais sagrado do templo para fazer a oferta do incenso ao Senhor (cf. Lc 1, 8-20). Também o nascimento de João Batista é marcado pela oração: o cântico de alegria, de louvor e de acção de graças que Zacarias eleva ao Senhor e que nós recitamos todas as manhãs nas Laudes, o «Benedictus», exalta a obra de Deus na história e indica profeticamente a missão do filho João: preceder o Filho de Deus que se fez carne, para lhe preparar as estradas (cf. Lc 1, 67-79). Toda a existência do precursor de Jesus é alimentada pela relação com Deus, de modo particular o período transcorrido em regiões desertas (cf. Lc 1, 80); as regiões desertas que são lugares de tentação, mas também lugares onde o homem sente a própria pobreza, porque desprovido de apoios e certezas materiais, e compreende que o único ponto de referência sólido permanece o próprio Deus. Mas João Batista não é apenas um homem de oração, do contacto permanente com Deus, mas também um guia para esta relação. Citando a oração que Jesus ensina aos discípulos, o «Pai-Nosso», o evangelista Lucas anota que o pedido é formulado pelos discípulos com estas palavras: «Senhor, ensinai-nos a rezar, como também João ensinou aos seus discípulos» (cf. Lc 11, 1).

Caros irmãos e irmãs, celebrar o martírio de são João Batista recorda-nos, também a nós cristãos deste nosso tempo, que não se pode ceder a compromissos com o amor a Cristo, à sua Palavra e à Verdade. A Verdade é Verdade, não existem compromissos. A vida cristã exige, por assim dizer, o «martírio» da fidelidade quotidiana ao Evangelho, ou seja, a coragem de deixar que Cristo cresça em nós e que seja Cristo quem orienta o nosso pensamento e as nossas acções. Mas isto só se verifica na nossa vida se a nossa relação com Deus for sólida. A oração não é tempo perdido, não é roubar espaço às actividades, inclusive às obras apostólicas, mas é precisamente o contrário: se formos capazes de ter uma vida de oração fiel, constante e confiante, o próprio Deus dar-nos-á a capacidade e a força para viver de modo feliz e tranquilo, para superar as dificuldades e testemunhá-lo com coragem. São João Batista interceda por nós, a fim de sabermos conservar sempre o primado de Deus na nossa vida. Obrigado!
in BENTO XVI, Audiência Geral de 29 de agosto de 2012.

sábado, 16 de junho de 2018

A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’.

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não faltarás ao que tiveres jurado, mas cumprirás diante do Senhor o que juraste’. Mas Eu digo-vos que não jureis em caso algum: nem pelo Céu, que é o trono de Deus; nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés; nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei. Também não jures pela tua cabeça, porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo. A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’. O que passa disto vem do Maligno» (Mt 5, 33-37).
       A plenitude da Lei há de ser a CARIDADE, o amor sem limites, gratuito, ao exemplo de Jesus, como quem se dispõe a dar a vida pelo outro, pelo marido ou pela esposa, pelo filho, pelo vizinho, pelo pai ou pela mãe, pelo viandante ou pelo mendigo. Neste caminho em que peregrinamos, frágeis e limitados, vamo-nos aproximando ou afastando de Jesus, na justa medida em que nos aproximamos dos outros ou deles nos afastamos.
       Porém, o nosso esforço, o nosso compromisso não pode, não deve ser, pela lógica dos mínimos garantidos. Se fizermos isto, estamos a cumprir a lei, já estamos a fazer a nossa parte. Se não fizermos mal, já estamos no caminho certo. Não. Não assim com o cristão. O cristão tem um ROSTO, um Mestre a quem imitar, Jesus Cristo, que Se dá até à última gota de sangue. Terá que ser assim connosco. Não está tudo feito. Nunca. Ainda não é o Céu. Estamos a caminho. É no caminho que Deus nos encontra. Aliás, a consciência da nossa fragilidade é que nos habilita ao encontro com o outro e com Deus, nos abre para a misericórdia divina, nos permite a possibilidade de O encontrar e acolher, e de corrigir o itinerário da nossa vida. O orgulho, a prepotência, a autossuficiência, só nos afasta de Deus e dos outros.
       Temos vindo a ouvir no evangelho como Jesus contrapõe o cumprimento da Lei, e a Tradição, com o amor, de forma a que a Lei se faça vida, e não seja apenas letra morta.
       Hoje Jesus fala da nossa linguagem, que seja "sim, sim, não, não". Jesus diz-nos que tudo o que se situar fora desta clareza e transparência já separa insidiosamente, é diabólico. Aprendamos com Ele, deixemo-nos guiar pela Sua Palavra, pela Sua vida. Esta linguagem deverá ser expressa em todos os momentos da vida, em palavras e obras, dentro e fora da igreja, em casa e na vizinhança. O cristão não dorme. Melhor, a dormir continua a ser cristão.
        Honrar a palavra dada. Coerência. Não dizer uma coisa e fazer outra. Não dizer agora o que mais convém e depois o seu contrário. Não ter várias caras conforme as pessoas que têm diante ou as situações. Ser pessoa de palavra. Mesmo que isso acarrete dissabores...

quinta-feira, 17 de maio de 2018

João Batista Libânio - a Ética do Quotidiano

LIBÂNIO, João Batista (2015). A Ética do Quotidiano. Obra póstuma. Prior Velho: Paulinas Editora. 200 páginas.
       O autor terminou a revisão final, em vésperas de morrer. A pendrive só foi encontrada algum tempo depois, mas permitiu a publicação desta obra sobre a ética do quotidiano. Crescendo num ambiente em que o contacto com a extrema pobreza vive ao lado da riqueza luxuosa, num país marcado pelos problemas sociais, tráfico de droga, guetos, favelas, conflitos, assaltos, trabalho infantil, exploração sexual, o autor brasileiro é uma das vozes esclarecidas da Teologia da Libertação.
       A sua reflexão, porém, não se enreda na luta de classes, na destruição de uns para outros ocuparem os seus lugares, mas aponta à transcendência, para garantir a perenidade dos valores, da ética, da vida, da dignidade da pessoa. O convite é que a racionalidade se abre ao divino sob pena de tudo relativizar.
       No primeiro capítulo, as questões sobre a vida, sublinhando os avanços científicos e tecnológicos, mas apresentando a ética da pessoa, da sua vida e da sua dignidade, acima de experiências ou instrumentalização em prol da ciência, do lucro, jogando com o controlo da vida, quer no início quer no fim. A a religião, a fé, é a garantia que a vida não pode ser relativizada, pois só Deus é o Senhor da vida e da morte. Quem não admite a existência de Deus cedo cederá ao relativimo.
       O segundo capítulo é um tema que continua na ordem do dia, a ecologia, o cuidar da casa comum. O perigo da destruição da terra, a escassez da água, a crise energética, as catástrofes, os dois extremos, a terra regenera-se por maior que seja a destruição, ou a um ecologismo que sacrificaria a pessoa em prol do ambiente. É possível a coabitação. Também aqui a dimensão da fé, da religião, da Bíblia. Deus criou o ser humano e deu-lhe o cuidado do mundo, não para o destruir, mas para o administrar.
       No terceiro capítulo, a ética e o cuidado, partindo desde logo do cuidado da mãe em relação ao filho, alargando-se à vida, olhando para os outros como semelhantes, não como estorvo ou empecilho, ainda que desde o início, com Caim e Abel, as pessoas vejam os irmãos como inimigos a abater. O cuidado é atitude de quem reconhece o outro como igual, como auxiliar, como imagem e semelhança de Deus.
       No quarto capítulo, a educação da ética, sublinhando a importância da educação, desde o berço, em casa, passando pela infância, pela adolescência, pela juventude. A educação é fundamental para salvar a humanidade, para salvar o mundo.
       No quinto capítulo, a ética e o mundo da informação. Num mundo em que parece valer tudo, o direito à informação e à devassa sobrepõe ao direito à dignidade e à privacidade. Aqui como em outras dimensões da vida, há de encontrar-se o equilíbrio, na certeza de que não vale tudo. O direito de informar terá em conta o bem e a verdade, a dignidade das pessoas.

Vale a pena ler também o dissensão do portal do

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida

Disse Jesus aos seus discípulos:
       «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim. Em casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, Eu vos teria dito que vou preparar-vos um lugar? Quando Eu for preparar-vos um lugar, virei novamente para vos levar comigo, para que, onde Eu estou, estejais vós também. Para onde Eu vou, conheceis o caminho». Disse-Lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho?» Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim» (Jo 14, 1-6).
       As palavras de Jesus desafiam, em todas as circunstâncias, à confiança em Deus. Não temais. Eu venci o mundo. Eu estarei convosco até ao fim dos tempos. Tende coragem. Não se perturbe o vosso coração. Acreditai.
       Jesus antevê momentos de dificuldade, de dúvida, de dispersão, e enquanto é tempo prepara o coração, a mente, as emoções, dos seus discípulos. Eu vou, mas à frente. Vou preparar-vos um lugar. Se agora estais COMIGO, Eu quero que continue a ser desta forma. Onde Eu estiver aí estareis. Estarei sempre convosco. Vou para o Pai. Em CASA de meu Pai há muitas moradas. Sabeis o caminho. Eu Sou o CAMINHO. Vinde por MIM.

Na primeira Leitura, as palavra de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia:
«Irmãos, descendentes de Abraão e todos vós que temeis a Deus, a nós foi dirigida esta palavra da salvação. Na verdade, os habitantes de Jerusalém e os seus chefes não quiseram reconhecer Jesus, mas, condenando-O, cumpriram as palavras dos Profetas que se lêem cada sábado. Embora não tivessem encontrado nada que merecesse a morte, pediram a Pilatos que O mandasse matar. Cumprindo tudo o que estava escrito acerca d’Ele, desceram-no da cruz e depuseram-n’O no sepulcro. Mas Deus ressuscitou-O dos mortos e Ele apareceu durante muitos dias àqueles que tinham subido com Ele da Galileia a Jerusalém e são agora suas testemunhas diante do povo. Nós vos anunciamos a boa nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no salmo segundo: ‘Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei’» (Atos 13, 26-33).
       O Livro dos Atos dos Apóstolos, depois de narrar diversos feitos que envolvem todos os apóstolos, mas sobretudo a liderança de São Pedro, centra-se agora na figura ímpar de São Paulo. Os discípulos, com as perseguições à Igreja, espalhavam, com mais fervor no anúncio do Evangelho.
       Em Antioquia, dirigindo-se ainda aos judeus, Paulo mostra como em Jesus se cumprem as promessas de Deus a Israel. Os Profetas lidos em cada Sábado na sinagoga veem confirmados as suas palavras na vinda de Jesus, como Messias e Senhor. Mas, os judeus de Jerusalém, sobretudo os chefes, não O reconheceram, condenaram-n'O à morte... mas Deus ressuscitou-O dos mortos e Ele apareceu aos discípulos.
       Com a Ressurreição e com as aparições do Ressuscitado, a missão dos Apóstolos de anunciarem a boa notícia de que Deus cumpriu as promessas em Jesus Cristo. Também São Paulo é testemunha privilegiada de Jesus Cristo.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Eu não vim de Mim próprio; foi Ele que Me enviou

       Dizia Jesus aos judeus que tinham acreditado n’Ele: «Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará». Eles responderam-Lhe: «Nós somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém. Como é que Tu dizes: ‘Ficareis livres’?» Respondeu Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Todo aquele que comete o pecado é escravo. Ora o escravo não fica para sempre em casa ; o filho é que fica para sempre. Mas se o Filho vos libertar, sereis realmente homens livres. Bem sei que sois descendentes de Abraão; mas procurais matar-Me, porque a minha palavra não entra em vós. Eu digo o que vi junto de meu Pai e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai». Eles disseram: «O nosso pai é Abraão». Respondeu-lhes Jesus: «Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Mas procurais matar-Me, a Mim que vos disse a verdade que ouvi de Deus. Abraão não procedeu assim. Vós fazeis as obras do vosso pai». Disseram-Lhe eles: «Nós não somos filhos ilegítimos; só temos um pai, que é Deus». Respondeu-lhes Jesus: «Se Deus fosse o vosso Pai, amar-Me-íeis, porque saí de Deus e d’Ele venho. Eu não vim de Mim próprio; foi Ele que Me enviou» (Jo 8, 31-42).
       Jesus diz claramente que a exigência para sermos Seus discípulos, naquele e neste tempo: cumprir a Sua palavra, procurando viver de acordo com o essencial, do perdão à caridade. A palavra de Jesus libertar-nos-á porque nos conduzirá à Verdade que vem de Deus, que está presente em Jesus Cristo.
       Quando os judeus contestam dizendo que só têm um Pai, isto é, Abraão, Jesus diz-lhes de novo que Abraão, os Patriarcas, os Profetas prepararam o tempo messiânico e alegram-se agora pela pela do Messias na terra. Quem é descendente de Abraão, pela fé, então escuta a Palavra de Jesus Cristo.
       A missão de Jesus sustenta-se na intimidade com Deus Pai. Ele vem não em Seu próprio nome, mas em NOME de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Jesus não age isoladamente. Também os Seus seguidores deverão agir não em próprio nome e solitariamente, mas em intimidade com Deus, permanecendo na Palavra de Deus. Essa será a garantia da vida nova em Cristo Jesus.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Leitura: ANDREA MONDA - BENDITA HUMILDADE

ANDREA MONDA (2012). Bendita Humildade. O estilo simples de Joseph Ratzinger. Prior Velho: Paulinas Editora. 176 páginas.
       No dia 10 de novembro (2017), desloquei-me com três amigos sacerdotes, o Giroto, o Diamantino e o Diogo à VIII Jornada de Teologia Prática na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, e um dos conferencistas era precisamente o italiano Andrea Monda, testemunhando o anúncio do Evangelho às gerações atuais. O professor Andrea Monda leciona o equivalente a EMRC, tem um programa na TV2000, num formato semelhante a uma aula de 25 minutos, interagindo com a turma.
       Bastava o livro ser referido a Bento XVI / Joseph Ratzinger para me despertar o interesse, mas a conferência de Andrea Monda despertou-me mais o interesse. Mas como digo, bastava ser uma obra sobre Joseph Ratzinger, que já o lia e estudava, para uma ou outra disciplina de Teologia, longe do tempo em que viria a ser eleito Papa. O testemunho da D. Fernanda, que dedicou uma parte importante da sua vida ao Seminário de Lamego, aquando uma missão em Roma, era que àquele Cardeal era muito afável, muito simpático e atencioso, muito simples e muito humano. São características que Andrea Monda também descobrir, sem precisar de muito esforço, bastando o encontro com Bento XVI e os milhentos testemunhos dados por quem conviveu ou convive com o agora Papa Emérito.
       O autor mostra que este Homem de Deus, simples, afável, de fácil trato, que olha as pessoas olhos nos olhos, com um olhar profundo e interpelante, atento aos interlocutores, não foi uma novidade, sempre foi assim, como seminarista, como padre, como Bispo, como professor, como Prefeito da Congregação para a Doutrina na Fé (ex-Santo Ofício). A comunicação social, desde a primeira hora, não lhe concedeu qualquer interregno de simpatia, pois sendo já conhecido, agora era tempo de levantar suspeitas, insinuações, colocando com rótulos, com preconceitos, pelo facto de ser alemão e pelo facto de ter sido durante tantos anos o fiel guardador da fé, da doutrina católica, como se isso fosse um crime.
       Segundo o autor, a HUMILDADE é uma palavra que marca a vida de Joseph Ratzinger / Bento XVI, nas diferentes etapas da vida, como sacerdote, como professor, como Bispo, Cardeal e Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, como Papa. Numa biografia do atual Papa Francisco é sublinha a atenção e o cuidado com que o então Cardeal Ratizinger tratava as pessoas que encontrava, com atenção, colocando-se ao mesmo nível da pessoa. Era um dos poucos cardeais, consta, que não tratava o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio com sobranceria, como um Cardeal das periferias, como fazia outras eminências, mas de igual para igual, com respeito, deferência, respeito e simpatia.
       É uma humildade assente na verdade, sobretudo a Verdade do Evangelho. A fé é antes de mais um encontro com Jesus. Humildade que assenta na transparência, na comunhão com a Igreja, em comunhão com a "maioria" formada pelos santos. Uma humildade caracterizada pela simplicidade. Basta recordar a primeira vez que apareceu na varanda pontifícia como Papa, o simples servidor da vinha do Senhor, com uma camisola preta, normal, debaixo da batina branca. Mais tarde confessará q dificuldade em usar botões de punho.
       Como Prefeito era conhecida a rotina que mantinha, manhã cedo e no final do dia, atravessava a praça de São Pedro, com uma boina na cabeça, sempre disponível para quem se aproximava. Por vezes fazia-se acompanhar por gatos. Sempre cordial e simples. Já como professora passava como segundo ou terceiro coadjutor de uma paróquia de cidade, tal a simplicidade com que interagia com os alunos, nesse caso. Permaneceu sempre assim, simples, cordato e acessível, um sacerdote a caminho, que se move em direção aos outros, colocando-se sempre ao nível dos seus interlecutores.
"Se João Paulo II foi definido como «o pároco do mundo», nesta aceção de simplicidade e humildade, pode-se tranquilamente definir Bento XVI como «coadjutor paroquial do mundo»... Em Bona, Ratzinger podia andar a pé, em Munique, como jovem sacerdote, andava de bicicleta de um lado para o outro, em Tubinga, voltou a recorrer às duas rodas".
       A sua vida é marcada pela renúncia. O autor apresenta essa característica fundamental antes de se sonhar que o Papa bávaro iria renunciar ao pontificado, assumindo-se como simples Padre Bento (terá sido essa a designação que propôs usar depois da renúncia). Humildade obediente. Outros foram conduzindo o seu percurso. Vai numa direção e de repente alguém o desafia para outra missão, sempre com o sentido de obediência aos seus superiores.
       Como teólogo marcante, o próprio confessou que nunca se propôs apresentar/criar uma linha teológica, mas aprofundar a teologia dentro da comunidade, da Igreja, em comunhão com o testemunho dos santos, uma teologia de joelhos.
       A verdadeira grandeza de homem reside na sua humildade". É uma caracterização que lhe assenta bem. Numa das catequeses, ao apresentar a figura do Papa Gregório Magno, quase poderia falar de si mesmo, lembrando como o monge que se tornou Papa "procurou de todos os modos evitar aquela nomeação; mas, no fim, teve de render-se e, tendo deixado pesarosamente o claustro, dedicou-se à comunidade, consciente de cumprir um dever e de ser simples 'servo dos servos de Deus'".
       "Todas as pessoas que de algum modo se encontraram com Joseph-Bento, «ao vivo», puderam constatar a doçura deste homem simples e dialogante, sem traços de altivez nem de afetação... ele é o primeiro a movimentar-se e ir ao encontro dos outros, pondo-se ao seu nível, delicadamente".
       Um dos aspetos relevantes do autor - tendo em conta os 24 anos de Joseph na Congregação responsável por ajudar o Papa e a Igreja a manter-se fiel a Jesus Cristo e ao Evangelho, ao nível dos princípios e das palavras em cada tempo -, o dogma! O dogma é o que nos liberta e nos ajuda a viver em dinâmica de amor. «Se na Igreja existem os dogmas, é para que ninguém se engane sobre o amor. Eles expõem-se à acusação de ideologia: na realidade, têm por efeito impedir que o amor seja transformado em ideologia».

BENTO XVI: «Deus não nos deixa tatear na escuridão. Mostrou-se como homem. Ele é tão grande que pode permitir-se tornar-se pequeníssimo».

sábado, 5 de agosto de 2017

João Baptista que ressuscitou dos mortos!

       O tetrarca Herodes ouviu falar da fama de Jesus e disse aos seus familiares: «Esse homem é João Baptista que ressuscitou dos mortos. Por isso é que nele se exercem tais poderes miraculosos». De facto, Herodes tinha mandado prender João e algemá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe. Porque João dizia constantemente a Herodes: «Não te é permitido tê-la por mulher». E embora quisesse dar-Lhe a morte, tinha receio da multidão, que o considerava como profeta. Ocorreu entretanto o aniversário de Herodes e a filha de Herodíades dançou diante dos convidados. Agradou de tal maneira a Herodes, que este lhe prometeu com juramento dar-lhe o que ela pedisse. Instigada pela mãe, ela respondeu: «Dá-me agora mesmo num prato a cabeça de João Baptista». O rei ficou consternado, mas por causa do juramento e dos convidados, ordenou que lha dessem e mandou decapitar João no cárcere. A cabeça foi trazida num prato e entregue à jovem, que a levou a sua mãe. Os discípulos de João vieram buscar o seu cadáver e deram-lhe sepultura. Depois foram dar a notícia a Jesus (Mt 14, 1-12).
        A fama de Jesus vai-se espalhando. As autoridades não ficam indiferentes como ninguém pode ficar indiferente à Sua palavra de amor, pela adesão firme ou pela negação decidida. Herodes, com remorsos pelo morte de João Baptista julga que se está na presença de João Baptista ressuscitado.
       No Evangelho de hoje, o testemunho acerca de João Baptista como alguém que não teme nem a morte, procurando somente a verdade. E por outro lado, como Herodes se deixa enredar pelas circunstâncias, pela opinião alheia, pela conveniência momentânea.
       Podemos ser João Baptista, procurando que a nossa vida se aproxime da verdade. Podemos ser Herodes sempre e quando nos deixamos levar pelas conveniências do momento ou pela moda defendida pela maioria.

quarta-feira, 26 de março de 2014

A Caridade na Verdade

"O amor - "caritas" - é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se com coragem e generosidade no campo da justiça e da paz" (1);
"A verdade é luz que dá sentido e valor á caridade" (3);
"A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos" (19);
"O primeiro capital a valorizar é o homem, a pessoa na sua integridade" (25);
"A acção é cega sem o saber, e este é estéril sem o amor" (30);
"Os custos humanos são também sempre económicos, e as disfunções económicas acarretam também sempre custos humanos" (32);
"O ser humano está feito para o dom, que exprime e realiza a sua dimensão de transcendência" (34);
"O desenvolvimento económico, social e político precisa, se quiser ser autenticamente humano, de dar espaço ao princípio da gratuidade como expressão da fraternidade" (34).
BENTO XVI, A Caridade na Verdade. Caritas in Veritate.
Recolha da revista Cidade Nova. Outubro 2009.

terça-feira, 25 de março de 2014

Oração e desenvolvimento

"O desenvolvimento tem necessidade de cristãos
com os braços levantados para Deus
em atitude de oração,
cristãos movidos pela consciência de que o amor
cheio de verdade - caritas in veritate -,
do qual procede o desenvolvimento autêntico,
não o produzimos nós, mas é-nos dado".

Bento XVI, Caritas in Veritate, 79.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Lumen Fidei - a fé, a verdade e o amor

       A fé transforma a pessoa inteira, precisamente na medida em que ela se abre ao amor; é neste entrelaçamento da fé com o amor que se compreende a forma de conhecimento própria da fé, a sua força de convicção, a sua capacidade de iluminar os nossos passos. A fé conhece na medida em que está ligada ao amor, já que o próprio amor traz uma luz. A compreensão da fé é aquela que nasce quando recebemos o grande amor de Deus, que nos transforma interiormente e nos dá olhos novos para ver a realidade...
       De facto, aos olhos do homem moderno, parece que a questão do amor não teria nada a ver com a verdade; o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos...
       Na realidade, o amor não se pode reduzir a um sentimento que vai e vem. É verdade que o amor tem a ver com a nossa afectividade, mas para a abrir à pessoa amada, e assim iniciar um caminho que faz sair da reclusão no próprio eu e dirigir-se para a outra pessoa, a fim de construir uma relação duradoura; o amor visa a união com a pessoa amada. E aqui se manifesta em que sentido o amor tem necessidade da verdade: apenas na medida em que o amor estiver fundado na verdade é que pode perdurar no tempo, superar o instante efémero e permanecer firme para sustentar um caminho comum. Se o amor não tivesse relação com a verdade, estaria sujeito à alteração dos sentimentos e não superaria a prova do tempo. Diversamente, o amor verdadeiro unifica todos os elementos da nossa personalidade e torna-se uma luz nova que aponta para uma vida grande e plena. Sem a verdade, o amor não pode oferecer um vínculo sólido, não consegue arrancar o «eu» para fora do seu isolamento, nem libertá-lo do instante fugidio para edificar a vida e produzir fruto.
       Se o amor tem necessidade da verdade, também a verdade precisa do amor; amor e verdade não se podem separar.
       Sem o amor, a verdade torna-se fria, impessoal, gravosa para a vida concreta da pessoa. A verdade que buscamos, a verdade que dá significado aos nossos passos, ilumina-nos quando somos tocados pelo amor. Quem ama, compreende que o amor é experiência da verdade, compreende que é precisamente ele que abre os nossos olhos para verem a realidade inteira, de maneira nova, em união com a pessoa amada. Neste sentido, escreveu São Gregório Magno que o próprio amor é um conhecimento, traz consigo uma lógica nova. Trata-se de um modo relacional de olhar o mundo, que se torna conhecimento partilhado, visão na visão do outro e visão comum sobre todas as coisas. Na Idade Média, Guilherme de Saint Thierry adopta esta tradição, ao comentar um versículo do Cântico dos Cânticos no qual o amado diz à amada: «Como são lindos os teus olhos de pomba!» (Ct 1, 15). Estes dois olhos — explica Saint Thierry — são a razão crente e o amor, que se tornam um único olhar para chegar à contemplação de Deus, quando a inteligência se faz «entendimento de um amor iluminado».
Papa Francisco, Lumen Fidei (n.º 26-27)

terça-feira, 26 de março de 2013

Busco Tus huellas Señor Jesus


A nossa tradução/adaptação:
De Ti, nasce a luz; de Ti, toda a verdade
em Ti, posso encontrar a liberdade!

Busco Teus passos Senhor Jesus
Busco palavras de eternidade
Quero encontrar essa luz sem fim
Quero encontrar a verdade.

O meu desejo é viver em Ti
Quero fazer a Tua vontade
Que mais, Senhor, posso eu querer
Se és Tu, minha liberdade.

Diz-me, Senhor, que hei-de eu fazer
P’ra iluminar toda a escuridão
Diz-me, Senhor, como conseguir
Ser uma luz de verdade.

Estou convencido que sem Teu amor
Tudo se encerra na solidão
Somos escravos de uma ilusão,
Se connosco não estás.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Verdade, liberdade, caridade

       A luz que Jesus irradia é esplendor da verdade.
       Qualquer outra verdade é apenas um fragmento da Verdade que Ele é que volta para Ele.
       Jesus é a Estrela Polar da liberdade humana: sem Ele perde a orientação, porque sem o conhecimento da verdade a liberdade perverte-se isola-se e reduz-se a estéril arbítrio. Com Ele, a liberdade reencontra-se, reconhece a sua vocação para o bem e exprime-se em ações e comportamentos caridosos.

Bento XVI (in Família Paroquial de Rio Tinto: 25/12/2011)

domingo, 5 de agosto de 2012

Jesus parte abençoando. Abençoando, parte!

       "... Peçamos-Le que acompanhe as pessoas que amamos ou com quem estamos preocupados. Peçamos-Lhe que Se torne eficazmente presente na sua Igreja.
       E porque não pedir-Lhe que nos conceda também hoje testemunhas novas da sua presença, nas quais Ele mesmo Se aproxime de nós?...
       Jesus parte abençoando. Abençoando, parte; e, na bênção, permanece. As suas mãos continuam estendidas sobre este mundo. As mãos de Cristo que abençoam são como um tecto que nos protege; mas, ao mesmo tempo, são um gesto de abertura que fende o mundo para que o Céu penetre nele e nele possa afirmar a sua presença.
       No gesto das mãos que abençoam, exprime-se a relação duradoura de Jesus com os seus discípulos, com o mundo. Ao partir, Ele eleva-nos acima de nós mesmos e abre o mundo a Deus. Por isso os discípulos puderam transbordar de alegria quando voltaram de Betânia para casa.
       Na fé, sabemos que Jesus, abençoando, tem as suas mãos estendidas sobre nós. Tal é a razão permanente da alegria cristã".

Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré,  pp 236.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O centro da cruz é a VERDADE

(JNRJ = INRI = Jesus Nazareno Rei da Judeia) 

       "O centro da mensagem até à cruz - até à inscrição na cruz - é o Reino de Deus, a nova realeza que Jesus representa. Mas o centro dessa realeza é a Verdade. A realeza anunciada por Jesus nas parábolas e, por fim, de modo totalmente aberto diante do juiz terreno é, precisamente, a realeza da Verdade. A instauração desta realeza como verdadeira libertação do homem é o que interessa".

Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré,  p 160.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Redenção: a verdade que se torna reconhecível

       A «Redenção», no sentido pleno da palavra, só pode consistir no facto de a verdade se tornar reconhecível. E ela torna-se reconhecível se Deus Se tornar reconhecível. Ele torna-Se reconhecível em Jesus Cristo. N'Ele, Deus entrou no mundo, e assim plantou a medida da verdade no meio da história. Externamente, a verdade é impotente no mundo; tal como Cristo, que, segundo os critérios do mundo, não tem poder: Ele não possui nenhuma legião; acaba crucificado. Mas é precisamente assim, na carência total de poder, que Ele é poderoso, e só assim a verdade se torna incessantemente força.

Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré,  pp. 160.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Deus é a realidade que dá o ser e o sentido

       No mundo, verdade e opinião errada, verdade e mentira estão continuamente indissociáveis. A Verdade, em toda a sua grandeza e pureza, não aparece. O mundo é «verdadeiro» na medida em que reflecte Deus, o sentido da criação, a Razão eterna donde brotou. E torna-se tanto mais verdadeiro quanto mais se aproximar de Deus. O homem torna-se verdadeiro, torna-se ele mesmo quando se conforma co Deus. Então alcança a sua verdadeira natureza. Deus é a realidade que dá o ser e o sentido.
        «Dar testemunho da verdade» significa pôr em realce Deus e a sua vontade face aos interesses do mundo e às suas potências. Deus é a medida do ser. Neste sentido, a verdade é o verdadeiro «Rei» que dá a todas as coisas a sua luz e a sua grandeza. Podemos também dizer que dar testemunho da verdade significa, partindo de Deus, da Razão criativa, tornar a criação decifrável e a sua verdade tão acessível que possa constituir a medida e o critério orientador no mundo do homem, que venham ao encontro dos grandes e poderosos o poder da verdade, o direito comum, o direito da verdade.

Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré,  pp. 158-159.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Bem-aventuranças: falar e calar

Falar oportunamente, é sensatez.
Falar perante o inimigo, é civismo.
Falar perante uma injustiça, é valentia.
Falar para rectificar, é um dever.
Falar para defender, é compaixão.
Falar para ajudar os outros, é consolar.
Falar com sinceridade, é rectidão.
Falar de Deus, manifesta muito amor.
Calar quando acusam, é heroísmo.
Calar as próprias dores, é sacrifício.
Calar e não falar de si, é humildade.
Calar as misérias humanas, é caridade.
Calar a tempo, é prudência.
Calar palavras inúteis, é sabedoria.
Calar quando nos ofendem, é fortaleza.
Calar para melhor amar, é santidade.
PEDROSA FERREIRA, As Bem-aventuranças hoje.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Abrir-se ao DOM

Recuperar a verdade do Natal é abrir-se ao dom, deixar que Cristo se forme em nós
        Acende-se, neste tempo, a nostalgia nos nossos corações. E quando escrevo "nossos", estou a pensar em quantos ainda viveram um Natal religioso, familiar e feliz; afinal os que conheceram outra realidade diferente desta pressa anónima, irrefletida e comercial que hoje nos afoga.
       Nostálgicos, exclamamos que "já não é como dantes". Estranhamente, porém, resignamo-nos, qual pedaço de esferovite perdido na corrente: apesar de flutuar, está decididamente rendido a uma força estranha!
       Foi já há mais de uma dezena e meia de anos que me confrontei com um grito de alarme numa revista espanhola: "Roubaram-nos o Natal". Mas aonde nos levou esta constatação? Que reação provocou, para além do estranho sentimento de perda? Às indefinições que vivemos…
       Sempre tive grande dificuldade em lidar com a resignação, mesmo quando ma apresentavam vestida de suposta virtude. Realmente, tenho medo de cobardias dóceis ou cómodas abdicações.
       É por isso mesmo que defendo uma urgência: recuperar a verdade do Natal - lavando-a de todas contaminações e "distrações", para usar a ideia expressa pelo Papa Bento XVI no Angelus do passado domingo.
       Se o fizermos, torna-se natural o anúncio e a partilha da impensável notícia: "Deus amou tanto o mundo, que lhe deu o seu Filho unigénito".
       Reconheça-se que muitos cristãos assim procedem, trabalhando para que os sinais do Amor não desapareçam das casas, das ruas e, sobretudo, dos gestos. Deparamo-nos, por isso, com exposições, presépios, estandartes às janelas e campanhas que levam ao encontro do outro - que é sempre o lugar de encontro com Deus. Mas são demasiados os embrulhados numa mera generosidade de coisas; ou em atitudes simplesmente protocolares, vividas com o desencanto de quem eterniza indiferenças, ainda que escritas sob o manto de "cordiais saudações"!..
       Recuperar a verdade do Natal é abrir-se ao dom, deixar que Cristo se forme em nós. Sem medo, pois que quanto mais fugirmos de Deus, mais nos desumanizamos.

João Aguiar Campos, Editorial da Agência Ecclesia.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Ser feliz ou ter razão?

       Acompanhamos entre outros blogues o do Reverendo Pároco de Tarouca, Pe. Carlos Lopes. Naturalmente com muitas perguntas pertinentes e com muitos textos que nos fazem pensar. Um desses textos é o que se segue: "Ser feliz ou ter razão?" (e que repomos hoje no neste espaço de partilha). Por vezes não é fácil abdicar de opiniões para garantir a paz e alegria. Outras vezes nem se pode nem se deve, quando estão em causa questões de verdade e identidade. Mas pelo meio existem tantas situações em que ter razão nada adianta a uma relação, por vezes é preferível escolher a felicidade. Mas vejamos o texto:

       «Oito da noite, numa avenida movimentada.O casal já está atrasado para jantar na casa de uns amigos. O endereço é novo, bem como o caminho que ela consultou no mapa antes de sair. Ele conduz o carro. Ela orienta e pede para que vire, na próxima rua, à esquerda. Ele tem a certeza de que é à direita... Discutem.
Percebendo que além de atrasados, poderão ficar mal-humorados, ela deixa que ele decida. Ele vira à direita e percebe, então, que estava errado. Embora com dificuldade, admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz retorno. Ela sorri e diz que não há nenhum problema, se chegarem alguns minutos atrasados.
       Ele questiona:
       - Se tinhas tanta certeza de que eu estava indo pelo caminho errado, por que não insististe um pouco mais?
       Ela diz:
       - Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz!!! Estávamos à beira de uma discussão. Se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite!»

MORAL DA HISTÓRIA:
       Esta pequena história foi contada por uma empresária, durante uma palestra sobre simplicidade no mundo do trabalho. Ela usou a cena para ilustrar quanta energia nós gastamos apenas para demonstrar que temos razão, independentemente, de tê-la ou não.
       Desde que ouvi esta história, tenho-me perguntado com mais frequência: 'Quero ser feliz ou ter razão?'

       Outro pensamento parecido, diz o seguinte:
       'Nunca se justifique. Os amigos não precisam e os inimigos não acreditam'.»