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quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Domingo IV do Advento - ano A - 18 de dezembro de 2022


1 - O sonho comanda a vida. Refrão bem conhecido da música portuguesa, da autoria de António Gedeão. "Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança". É também conhecida a máxima da Fernando Pessoa: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce".
Deus sonhou para nós um mundo belo e harmonioso, pleno de amor e de ternura, onde prevaleceriam a alegria e a fraternidade. Os desígnios de Deus mantiveram-se inalterados, respeitando sempre a vontade humana, mas fazendo-nos ver caminhos e opções que nos reconciliariam uns com os outros, possibilitando um mundo mais humano, mais acolhedor, mais casa de todos e para todos. Deus continua a sonhar-nos no Seu amor e a pensar para nós todo o bem, a abundância da graça. É neste plano salvador que preparar Maria para ser a Mãe do redentor, Deus connosco, o Emanuel.
O profeta Isaías comunica a Acaz e a todo o povo o sonho de Deus, uma promessa que há de cumprir-se a seu tempo: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel».
Acaz recusa pedir um sinal, entendendo que não se deve pôr Deus à prova. No entanto, é o próprio Deus que, através do Profeta, quer revelar a Sua vontade, os seus sonhos a favor da humanidade. Desta forma se acalenta a esperança, mas simultaneamente é um aviso à navegação, o sinal deve produzir efeito de imediato, alterando o rumo de vida, a corrupção, a falta de respeito e de cuidado pelas pessoas, sobretudo as mais vulneráveis. As promessas de Deus são para cumprir, cabe-nos fazer o que está ao nosso alcance, para que se efetivem os Seus sonhos, permitindo um mundo habitável.

2 - Com o nascimento de Jesus, cumpre-se em plenitude a promessa de Deus, o Emanuel está connosco, vem para habitar no meio de nós e para nos habitar através do Seu Espírito de amor.
O relato do nascimento de Jesu, relatado por Mateus, sublinha o mistério da concepção. Maria engravida pela ação do Espírito Santo. Outro dado importantíssimo é o papel de José, esposo de Maria, que constata a gravidez sem que tivesse contribuído para tal.
O Evangelho mostra um José surpreendido, admirado, desprevenido, mas também ponderado. Homem bom e justo, como sublinham os evangelhos, José reflete sobre o que terá acontecido. Deve ter passado por momentos de grande dúvida, de revolta, sem saber o que pensar ou o que fazer. Não é fácil para ninguém sentir-se abandonado, traído, enganado. Para José, por certo, também o não foi. Todavia, não se deixou levar pelo momento, por um qualquer gesto repentino e impensado. Olha para a sua vida, mas coloca a de Maria em primeiro lugar, apesar da "traição". É a isso que chamamos amor: colocar a pessoa amada, colocar o outro, em primeiro lugar. Agir não em função do que nos é mais fácil, mais cómodo, mais favorável, mas em função das necessidades do outro.
No judaísmo, uma situação desta levaria à condenação, por apedrejamento, da mulher. Seria esse o destino de Maria. Com efeito, provando-se que José, a quem ela estava prometida, havendo um compromisso sólido e duradouro, já eram o que estavam destinados a ser, um casal, Maria ia estar em maus lençóis, não havia salvação possível. José encontra uma solução, iria abandoná-la em silêncio. Dessa forma, ele ficaria com as culpas de a ter desonrado e ela ficava protegida na família dele e dela, pois a ação e responsabilidade seria atribuídas a José.
Deus tem planos para nós que nem adivinhamos. No meio do caos, José foi capaz de parar e refletir e achar uma solução que protegesse Maria e o Menino, mas Deus não o deixou esperar mais e apareceu-lhe num sonho, através de um Anjo: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa.

3 - É tão grande o mistério da Encarnação, inserido no mistério pascal, da ressurreição de Jesus e da nossa redenção, que só uma fé madura poderá fazer-nos aproximar do mistério. Mais do que compreender, cabe-nos acolher Deus na nossa vida, deixar-nos amar por Ele, sentirmo-nos amados, para amarmos os outros, na certeza de que amando e cuidando dos outros estamos a responder ao amor de Deus por nós.
São Paulo assume-se como servo de Jesus Cristo, «apóstolo por chamamento divino, escolhido para o Evangelho que Deus tinha de antemão prometido pelos profetas nas Sagradas Escrituras, acerca de seu Filho, nascido, segundo a carne, da descendência de David, mas, segundo o Espírito que santifica, constituído Filho de Deus em todo o seu poder pela sua ressurreição de entre os mortos: Ele é Jesus Cristo, Nosso Senhor».
Se inicialmente o apóstolo fala da sua vocação e da sua missão, logo sublinha que tudo se inclui e tudo está envolvido no mistério pascal. É em Cristo Jesus que somos redimidos e preenchidos com a vida de Deus. Com efeito, «por Ele recebemos a graça e a missão de apóstolo, a fim de levarmos todos os gentios a obedecerem à fé, para honra do seu nome, dos quais fazeis parte também vós, chamados por Jesus Cristo». O mistério recebido, a graça que nos transforma, faz-nos apóstolos, anunciadores do Evangelho. Se o mistério nos encontrou, melhor, se nos deixamos surpreender pelo mistério, pelos sonhos de Deus, não podemos não transbordar de alegria, respondendo ao amor (de Deus) com amor (ao próximo). É, na verdade, o que acontece com todos os encontros. O encontro de José com Maria encheram-nos de alegria, mas, sucessivamente, o deixaram desiludido, exigindo uma escolha, um caminho. O envolvimento no sonho de Deus apazigua o seu coração e altera para sempre a sua decisão.
Quando Paulo é surpreendido por Deus e envolvido no Seu mistério (e no Seu sonho), não mais deixará de viver e anunciar a Boa Nova.

4 - Deixemo-nos encontrar por Deus. Ele procura-nos. Ele vem ao nosso encontro. Nas origens, Adão e Eva esconderam-se, envergonhados. Aprendamos com eles, ou com os seus erros. Como poderíamos ter vergonha do nosso Pai, que é mais Mãe? É certo que, por vezes, nos distanciamos, brigando com os irmãos, ou sentindo-os adversários, mas Deus, que é Pai, poderia recusar ver-nos, poderia recusar o nosso olhar?
Peçamos-Lhe confiantes: «Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas, para que nós que, pela anunciação do anjo, conhecemos a encarnação de Cristo, vosso Filho, pela sua paixão e morte na cruz alcancemos a glória da ressurreição».
O conhecimento que nos vem da fé, que se cimenta na oração, é relação com Deus, que nos escuta para que escutemos a Sua Palavra e concretizemos a Sua vontade.
O salmista reza a grandeza de Deus e a bênção que experimentamos quando não nos fechamos no nosso orgulho ou no nosso egoísmo. «Do Senhor é a terra e o que nela existe, o mundo e quantos nele habitam. Ele a fundou sobre os mares e a consolidou sobre as águas. / Quem poderá subir à montanha do Senhor? Quem habitará no seu santuário? O que tem as mãos inocentes e o coração puro, que não invocou o seu nome em vão nem jurou falso. / Este será abençoado pelo Senhor e recompensado por Deus, seu Salvador. Esta é a geração dos que O procuram, que procuram a face do Deus de Jacob».
Procuremos a face do Senhor que nos procura com amor.

Leituras para a Eucaristia (ano A): Is 7, 10-14; Sal 23 (24), 1-2. 3-4ab. 5-6 L2: Rom 1, 1-7 Ev: Mt 1, 18-24

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Frei DARLEI ZANON - SIMPLESMENTE JOSÉ

 FR. DARLEI ZANON (2021). Simplesmente José. Romance baseado na vida do Pai adotivo de Jesus. Apelação: Paulus, 392 páginas.


O Papa Francisco estabeleceu que, a partir de 8 de dezembro de 2020, 150.º aniversário da proclamação do Decreto Quemadmodum Deus, com o qual o Beato Pio IX, movido pelas graves e lutuosas circunstâncias em que se encontrava a Igreja, insidiada pela hostilidade dos homens, declarou São José Patrono da Igreja Católica, bem como dia dedicado à Bem-aventurada Virgem Imaculada e Esposa do castíssimo José, até 8 de dezembro de 2021, seja celebrado um especial Ano de São José, em que todos os fiéis, seguindo o seu exemplo, possam reforçar em cada dia a sua vida de fé no pleno cumprimento da vontade de Deus.
A partir do século XVIII começam a aparecer as chamadas "Vidas de Jesus", com o intento de preencher as lacunas existentes na sua biografia, nomeadamente naqueles trinta e poucos anos de vida oculta em Nazaré. Por outro lado, a tentativa de fundir os quatro evangelhos num só, para que houvesse uma maior harmonização, limando e eliminando factos ou palavras que não fosse inteiramente concordes. Este é, com efeito, um critério da autenticidade dos Evangelhos, pois não são cópias uns dos outros ao ponto de coincidirem nos mais ínfimos pormenores. O outro critério complementar é que coincidem nos grandes acontecimentos / ensinamentos. Os evangelhos, porém, não têm uma preocupação biográfica, mas tão somente se fixam no mistério da morte e da ressurreição de Jesus. Esta faz com que os discípulos se voltem a reunir e formem comunidade. A partir daí começam a "pregar", dizer, ensinar o que Jesus disse e fez. Logo, a transmissão leva também o cunho da interpretação de cada um dos apóstolos, ainda que uns possam "aperfeiçoar" o relato dos outros. Mais à frente, a necessidade de fixar por escrito, para não se correr o risco, depois da morte dos apóstolos, não haver fontes fidedignas do que aconteceu na Galileia, na Judeia e na Samaria, com o Mestre dos Mestres.
Neste ano especial de São José, o Frei Darlei Zanon procurou perfazer a (auto)biografia de São José, que relata o que sucedeu para se tornar o pai adotivo de Jesus, recuando à sua genealogia, como à de Maria, e relatando o compromisso, os sonhos, a fuga, o crescimento de Jesus e como Jesus ia surpreendendo a todos.
Já havia um ou outro livro sobre a "biografia" de Nossa Senhora, agora chega-nos a de São José.
É um livro muito interessante para ler neste ano especial, não apenas para perceber melhor a missão de São José, mas de algum modo entendermos mais facilmente a sensibilidade de Jesus. Vejamos a finalizar a autobiografia, em que Deus, em sonhos, comunica com São José, através do Seu anjo: 
José, encontraste graça junto de Deus. Não tenhas medo. A morte dura apenas um instante, não tem poder. O Altíssimo está à tua espera. José, o teu exemplo de humildade e retidão, de dedicação e cuidado, de trabalho e caridade, de justiça e fé serão impressos no tempo e cruzarão todos os séculos. Por pouco tempo, permanecerás afastado de Jesus e Maria, e dos demais familiares aqui deste mundo. Será apenas por alguns instantes, fragmentos de tempo. Em breve a família celeste estará completa. Não tenhas medo, José!
Assim disse o anjo. E eu confiei. Estou pronto. Sinto-me fraco fisicamente, mas muito forte espiritualmente. As minhas energias diminuem, porém a minha confiança no poder do Altíssimo só aumenta. Ele guiará Jesus a partir de agora. O Pai Celeste indicará a hora do seu Filho.

No mesmo sonho, eu respondi ao anjo, comunicando-me com o Senhor:
Obrigado, Adonai, meu Senhor e meu Deus. Cumpriram-se todos os dias da vida que me deste neste mundo, por isso peço-Te que fiques ao meu lado, até que a minha alma saia do corpo sem dor nem aflição. Conforta toda a minha família, para que não sejam tocados pela dor e perturbação. Permite-me em breve contemplar a Tua face, ver a glória de Teu rosto, ser abençoado com a Tua misericórdia e graça, Adonai.
Não temo. Já experimentei o amor no mundo, estou pronto para provar o amor junto do Criador. Superei há pouco meus quarenta anos, vivi tudo o que um homem pode esperar. Sou feliz, estou realizado. Não temo a separação momentânea de todos os que me completam.

O Autor:
Nascido no Brasil fez a sua profissão perpétua em 2007 e está em Portugal desde 2008. É conselheiro geral da Sociedade São Paulo tendo desempenhado a função de diretor editorial da PAULUS Editora, bem como de conselheiro regional e secretário da Sociedade São Paulo em Portugal. É formado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte e recebeu o título de Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo ISCTE-IUL

sábado, 29 de dezembro de 2018

Agora deixareis ir em paz o vosso servo...

       Ao chegarem os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor: «Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor», e para oferecerem em sacrifício um par de rolas ou duas pombinhas, como se diz na Lei do Senhor. Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão, homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava nele. O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria antes de ver o Messias do Senhor; e veio ao templo, movido pelo Espírito. Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino para cumprirem as prescrições da Lei no que lhes dizia respeito, Simeão recebeu-O em seus braços e bendisse a Deus, exclamando: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo». O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados com o que d’Ele se dizia. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; – e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações» (Lc 2, 22-35).
       Na apresentação de Jesus no Templo, cumprindo todas as exigências da Lei, destaca-se hoje no Evangelho a profecia do velho Simeão, homem justo e piedoso, que esperava a salvação de Israel. Depois e acolher o Messias em seus braços, cumpre com a vida, não há mais nada a esperar, chegou a plenitude do tempo e da história, o momento da morte pode agora chegar, o último dos desejos foi cumprido.
       Por outro lado, o velho Simeão diz a Maria que Aquele Menino Lhe trará muita dor, mas ao mesmo tempo a Sua vida será LUZ que revelará os corações, vem para evidenciar a salvação e salvar até o que está perdido...

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Minha família? Aqueles que ouvem a palavra de Deus...

       Vieram ter com Jesus sua Mãe e seus irmãos, mas não podiam chegar junto d’Ele por causa da multidão. Então disseram-Lhe: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-Te». Mas Jesus respondeu-lhes: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 8, 19-21).
       Os laços de sangue certamente são demasiado importantes. No entanto, nem só de laços de sangue nos alimentamos. Por um lado, constatamos amiúde que os laços de sangue nem sempre são suficientes para garantirem a segurança das pessoas, a vivência pacífica e solidária, a proteção dos vários membros. E dessa forma acabamos por concluir que mais importante que as "amarras" da consanguinidade são os sentimentos, o amor, os afetos. O ideal é que os laços de sangue sejam fortalecidos pelos laços da caridade. Sabendo nós que é do amor que nascem (e devem nascer) as famílias.
       Por outro lado, a família de Jesus era um espaço de amor, de diálogo, de apoio mútuo, aberta aos vizinhos, e aos estrangeiros e pobres que passavam ali por Nazaré, e a quem davam alimento e guarida. Por conseguinte, quando lhe falam da família, sem menosprezar antes inspirado na original, Jesus alarga a concepção da família e as condições para lhe pertencermos: escutar a palavra de Deus e pô-la em prática.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?

        Enquanto Jesus estava a falar à multidão, chegaram sua Mãe e seus irmãos. Ficaram do lado de fora e queriam falar-Lhe. Alguém Lhe disse: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar contigo». Mas Jesus respondeu a quem O avisou: «Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?». E apontando para os discípulos, disse: «Estes são a minha mãe e os meus irmãos: todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Mt 12, 46-50).
       Este é um dos encontros bem conhecidos de Jesus com a Sua Mãe e com parentes próximos. De terra em terra, anunciando o reino dos Céus, curando os enfermos, expulsando espírito impuros, deixando uma mensagem de salvação, Jesus confronta-se com a oposição daqueles que instalados no poder não querem perder qualquer regalias, confronta-se com uma visão tradicional de Deus, contrapondo um Deus próximo, Pai, libertador.
       Esta aparição de Sua mãe e seus familiares dever-se-á a alguns rumores que diziam que Jesus estaria fora de Si, descontrolado, louco. Certamente que Nossa Senhora e os seus familiares estariam habitualmente perto de Jesus, mas ao mesmo tempo tinham as lides caseiras para realizar. Aqui foi em sobressalto que Maria terá ido até Jesus.
       A resposta de Jesus é contundente: minha Mãe e meus irmãos são todos aqueles que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. Faz lembrar outro episódio em que uma mulher diz alto e bom som para Jesus: feliz aquela que Te trouxe no seu ventre e os peitos que Te amamentaram. A resposta é semelhante: felizes antes aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.
       À primeira vista parece que Jesus renega a Sua Mãe. Mas num olhar mais atento vê-se como Maria integra esta outra família primordial, a família daqueles que acolhem a vontade de Deus e a concretizam no dia a dia.
       Por outro lado, acentua-se uma prioridade e uma realidade: todos podemos ser família de Jesus, desde e quando fazemos a vontade de Deus.

terça-feira, 1 de maio de 2018

São José, Operário

Nota biográfica:
       O primeiro de Maio, considerado hoje na Europa o dia da «Festa do trabalho», foi, durante muitos anos, nos fins do século XIX e princípios do século XX, um dia de reivindicações e mesmo de lutas violentas pela promoção da classe operária.
       A Igreja que se mostrou sempre sensível aos problemas do mundo do trabalho, quis dar uma dimensão cristã a este dia. Nesse sentido, Pio XII, em 1955, colocava a «Festa do trabalho» sob a protecção de S. José, na certeza de que ninguém melhor do que este trabalhador poderia ensinar aos outros trabalhadores a dignidade sublime do trabalho.
       Operário durante toda a sua vida, S. José teve como companheiro de trabalho, na oficina de Nazaré, o próprio Filho de Deus, Jesus Cristo.
       E foi, na verdade, Jesus que lhe ensinou que o trabalho nos associa ao Criador, dando-nos a possibilidade de aperfeiçoar a natureza, de acabar a criação divina. O trabalho é um serviço prestado aos irmãos. O trabalho é um meio de nos associarmos à obra redentora de Cristo. (Gaudium et Spes, 67).
Oração (colecta):
       Deus, criador do universo, que estabelecestes a lei do trabalho para todos os homens, concedei-nos que, a exemplo de São José e com a sua protecção, realizemos a obra que nos mandais e recebamos o prémio que nos prometeis. Por Nosso Senhor Jesus Cristo...


CATEQUESE DO PAPA FRANCISCO - 1 de maio de 2013:
       Caros irmãos e irmãs,
       Bom dia!
       Hoje, 1º de maio, celebramos São José Operário e iniciamos o mês tradicionalmente dedicado a Nossa Senhora. No nosso encontro de hoje, quero focar estas duas figuras importantes na vida de Jesus, da Igreja e nas nossas vidas, com duas breves reflexões: primeiro, sobre o trabalho, segundo, sobre a contemplação de Jesus.
       No Evangelho de São Mateus, em um dos momentos em que Jesus retorna à sua região, a Nazaré, e fala na sinagoga, destaca-se o espanto de seus compatriotas por sua sabedoria. Eles se perguntam: "Não é este o filho do carpinteiro?" (13,55). Jesus entra em nossa história, está entre nós, nascido de Maria pelo poder de Deus, mas com a presença de São José, o pai legal, de direito, que cuida d’Ele e também lhe ensina seu trabalho. Jesus nasce e vive em uma família, na Sagrada Família, aprendendo com São José o ofício de carpinteiro, na carpintaria em Nazaré, dividindo com ele seus compromissos, esforços, satisfação e as dificuldades do dia a dia.
       Isso nos lembra a dignidade e a importância do trabalho. O livro de Génesis nos diz que Deus criou o homem e a mulher dando-lhes a missão de encher a terra e sujeitá-la, o que não significa desfrutá-la, mas cultivá-la e protegê-la, cuidar dela com o seu trabalho (cf. Gen 1, 28; 2,15). O trabalho faz parte do plano de amor de Deus, somos chamados a cultivar e cuidar de todos os bens da criação, deste modo participamos da obra da criação! O trabalho é fundamental para a dignidade de uma pessoa. O trabalho, para usar uma imagem concreta, nos “unge” de dignidade, nos plenifica de dignidade, nos torna semelhantes a Deus, que trabalhou e trabalha, age sempre (cf. Jo 5, 17), dá a capacidade de nos manter, manter nossa família, contribuir para o crescimento da nação. E aqui penso nas dificuldades que, em vários países, se encontra hoje o mundo do trabalho e da empresa, eu penso naqueles que, não apenas os jovens, estão desempregados, muitas vezes por uma concepção puramente económica (mecanicista) da sociedade, que busca o lucro egoísta, fora dos parâmetros de justiça social.
       Eu gostaria de estender a todos o convite à solidariedade e, aos chefes do setor público, convidá-los ao encorajamento, a fazer de tudo para dar um novo impulso ao emprego, isso significa se preocupar com a dignidade da pessoa mas, acima de tudo, vos exorto a não perderem a esperança; São José também teve momentos difíceis, mas nunca perdeu a confiança e soube superá-los, na certeza de que Deus não nos abandona. E agora gostaria de falar especialmente a vós, meninos e meninas, a vocês jovens: esforçai-vos nas vossas tarefas diárias, no estudo, no trabalho, nas relações de amizade, contribuindo com os outros, o vosso futuro também depende de como vós ides viver esses preciosos anos de vida. Não tenhais medo do compromisso, do sacrifício e não olhem para o futuro com medo, mantenham viva a esperança: há sempre uma luz no horizonte.
       Acrescento uma palavra sobre uma outra situação de trabalho que me incomoda: refiro-me ao que definimos como “trabalho escravo”, o trabalho que escraviza. Quantas pessoas no mundo são vítimas deste tipo de escravidão, em que é a pessoa que serve o trabalho, enquanto deve ser o trabalho a oferecer um serviço à pessoa, para que tenhamos todos dignidade. Peço aos irmãos e irmãs na fé e todos os homens e mulheres de boa vontade, uma escolha decisiva contra o tráfico de pessoas, contexto no qual se constitui o “trabalho escravo”.
       Faço referência agora ao segundo pensamento: no silêncio das ações quotidianas, São José, juntamente com Maria, tem um centro comum de atenção: Jesus. Eles acompanham e protegem, com empenho e carinho, o crescimento do Filho de Deus feito homem por nós, refletindo sobre tudo o que acontecia. Nos Evangelhos, Lucas enfatiza duas vezes a atitude de Maria, que também é a de São José, “guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (2,19.51).Para ouvir o Senhor, devemos aprender a contemplá-Lo, perceber sua presença constante em nossas vidas; precisamos parar para dialogar com Ele, dar-lhe espaço na oração. Cada um de nós, meninas, meninos e, jovens, em grande número reunidos aqui nesta manhã, deve perguntar-se: qual o espaço dou ao Senhor? Eu paro para falar com Ele? Desde que éramos crianças, nossos pais nos acostumaram a começar e terminar o dia com uma oração, para nos ensinar a perceber que a amizade e o amor de Deus nos acompanhavam. Vamos nos lembrar mais do Senhor em nosso dia!
       E neste mês de maio, eu gostaria de lembrar a importância e a beleza da oração do Santo Terço. Recitando a Ave-Maria, somos levados a contemplar os mistérios de Jesus, refletir sobre os principais momentos de Sua vida, para que, como foi com Maria e São José, Ele seja o centro dos nossos pensamentos, da nossa atenção e de nossas ações. Seria bom que, especialmente neste mês de maio, rezássemos juntos, em família, com os amigos, na paróquia, o Santo Terço ou alguma oração a Jesus e à Virgem Maria! A oração feita em comunidade é um momento precioso para tornar ainda mais forte a vida familiar, a amizade! Aprendamos a rezar mais em família e como família!
       Queridos irmãos e irmãs, rogamos a São José e à Virgem Maria que nos ensinem a sermos fiéis a nossas tarefas diárias, a viver nossa fé nas ações do dia a dia e dar mais espaço ao Senhor em nossas vidas, a parar para contemplar Seu rosto.
       Obrigado.

terça-feira, 29 de março de 2016

São José . Dia do Pai . Festa do Pai-nosso | 2016

       Na solenidade de São José, a 19 de março, a tradicional comemoração do Dia do Pai e, pelo segundo ano consecutivo, na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço, a Festa do Pai-nosso, com os meninos do 2.º Ano de Catequese. Imperou a simplicidade comovente, como todas as festas com crianças e com a família.
       Este é sempre um dia muito significativo, para os Zé's e para os pais, mas também para a Igreja, constituída por pessoas, pais e filhos, irmãos, avós, família. É uma das celebrações mais participadas, daquelas que não precisa de convocação. Ainda bem, pois a figura de São José, muitas vezes relegada para segundo plano, tem vindo a recuperar uma missão importantíssima que teve na vida da família de Nazaré, no cuidado e na proteção de Maria e de Jesus, e, claro está, na formação de Jesus, a quem dá o Nome ligando-O à realeza de David. Valores do silêncio, do trabalho, da justiça, da prática religiosa, da honradez que Lhe reconhecemos, são valores que devemos adoptar como cristãos e como Igreja.
       A Festa do Pai-nosso, do 2.º Ano de Catequese, cabe por inteiro nesta solenidade. Jesus ensina-nos que Deus é Pai, de todos e a Quem podemos dirigir as nossas súplicas, pedidos, intercessões, em Quem podemos confiar, porque o aprende com São José, o Pai que o liga ao mundo das pessoas, à história e ao tempo.
       Algumas fotos deste dia:
Para outras fotos consultar a página da Paróquia de Tabuaço no Facebook

sábado, 26 de dezembro de 2015

Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José | 2015

       1 – A Festa da Sagrada da Família reveste-se, cada ano que passa, de especial importância face aos ataques, à descaracterização, às dificuldades que atravessa. As famílias são o berço da sociedade, a célula primária, básica, essencial. É nas famílias que se nasce, se cresce, se aprendem os valores do respeito, da partilha, da comunhão. Aí se aprende a fragilidade e o perdão. O apoio nos momentos de desânimo, de doença, quando o emprego é precário ou inexistente. É na família que se celebra a vida, se festejam as ocasiões importantes. É aí que o nosso corpo encontra encosto e repouso, e a nossa vida pode ser acolhida em transparência, sem máscaras nem disfarces, onde podemos ser autênticos, sem medo nem vergonha.
       2 – A Igreja viveu ultimamente dois Sínodos dos Bispos dedicados à Família. Realidades distintas conforme a latitude ou longitude. Em algumas zonas do universo discute-se a natalidade residual, noutras partes a falta de recursos para alimentar tantas bocas. Zonas demasiado povoadas, com muitas crianças e muitos jovens, e muita pobreza, e as políticas impositivas de controlo de natalidade e de chantagem económico-ideológica.
       No Ocidente, predomina o envelhecimento da população e a desertificação das regiões periféricas. As medidas pensadas pelos líderes mundiais muitas vezes não levam em conta as necessidades das famílias mas o maior lucro possível, mesmo que à custa das pessoas e das famílias.
       No Ocidente emerge uma mentalidade abortacionista. Paga-se para que as pessoas abortem. Assim era na China, em que se limitava o nascimento a um filho por casal. Este ano abriu-se a possibilidade de um segundo filho. Quando se trata de apoiar as famílias e a natalidade, não há recursos, estamos em crise. Mas financia-se o aborto como método contracetivo. Basta ver que as primeiras medidas do novo Parlamento português não foram melhorar a vida das pessoas carenciadas, mas facilitar o aborto e os casais inférteis. E não venham com a acusação ideológica de defesa da liberdade da mulher, pois logo impossibilitam os direitos da nova vida humana. Não se trata de perseguir ou condenar as mulheres que em situações-limite recorreram ao aborto! O acolhimento e o perdão são também desafio a apostar na vida. Para o Jubileu da Misericórdia, o Papa Francisco alargou a todos os sacerdotes o múnus de absolver aqueles que contribuíram para um aborto, colocando-se em situação de excomunhão. Salienta-se a misericórdia e a compreensão, mas colocando a vida como valor supremo e como ponto de partida para os demais direitos.
       3 – Por outro lado, o desamparo dos mais novos e dos mais velhos.
       As crianças, que são bênção, e cuja natalidade em alta revolveria muitos problemas de emprego, da segurança social, do desenvolvimento económico, são tidas como estorvo à felicidade pessoal e/ou profissional.
       Segundo o Papa Francisco, e quanto aos idosos, expande-se a cultura do descarte. Não serve, deita-se fora. Enquanto eram úteis, agradecidos; quando exigem mais atenção, dispensados. Eles garantiam a comunicação dos valores, da cultura e da história, e foram simplesmente arredados das decisões mais importantes da família e da sociedade. Por vezes são como casacos nos cabides. São colocados em lares e lá permanecem sem a visita dos familiares, precisamente como os casacos nos cabides que podem atravessar uma estação inteira pendurados e esquecidos!
       As sociedades que esquecem os mais novos e os idosos perdem a identidade, ficando sem o passado e sem o futuro. A aposta na natalidade garantirá a sobrevivência dos povos. O envelhecimento da população põe em risco todo o sistema económico-financeiro, quando foi este que estrangulou a capacidade das famílias gerarem mais vida. A carreira profissional, que promove, e bem, a realização das pessoas, impede a geração de filhos, por imposição da empresa, que não se dispõe a ter funcionários com licenças de maternidade e paternidade, ou dos próprios que se dedicam inteiramente às profissões para subirem sempre mais. O equilíbrio será o desejável.
       4 – Os Sínodos dos Bispos permitiu aclarar diversas questões relacionadas com a família. No final, porém, a comunicação social fixou-se na discussão sobre os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, na adoção de crianças por casais homossexuais e na comunhão dos recasados.
       Esta última questão será ainda aprofundada pelo Papa Francisco, com a possibilidade de atender a cada caso, sem desvalorizar o valor do Matrimónio consagrado diante de Deus. Por um lado, todos devem ser acolhidos e sentirem-se filhos da Igreja. Por outro, a importância da indissolubilidade do Matrimónio.
       Fora desta questão, como é óbvio, está a situação das pessoas que vivem em união de facto ou casadas civilmente, tendo a possibilidade de celebrar o Matrimónio cristão. São os próprios que recusam os Sacramentos, pelo que não se compreende que insistam em comungar ou ser padrinhos de batismo e/ou de crisma, quando optaram por uma vivência conjugal à margem da Igreja.
       A Igreja insiste na importância da família para promoção da cultura da vida, espaço favorável a proteger a vida e a dignidade das pessoas em diferentes situações de saúde, de deficiência, de idade, de vulnerabilidade no emprego, na habitação, na alimentação.

       5 – Deus criou-os homem e mulher, para crescerem e multiplicar-se, para serem família, ajudando-se mutuamente. Osso dos meus ossos, carne da minha carne. Semelhantes a Deus, semelhantes entre si, capazes de amar e ser amados, e de responder. Só me pode responder alguém que me seja igual, nem abaixo nem acima, mas semelhante.
       Também desde o início que em muitas situações ganhou o egoísmo, levando a ruturas e conflitos. A inveja, o ciúme e a ira de Caim contra o seu irmão Abel, eliminando-o para que não haja alguém que, em seu entender, lhe possa fazer-lhe sombra ou limitar os seus "direitos". Desaparecendo o irmão, a fraternidade, desaparece também a felicidade, tornamo-nos errantes. Não é Deus que nos exclui, somos nós que cavamos a nossa sepultura ao afastar-nos dos outros.
       Ben Sirá lembra a vontade original de Deus: "Deus quis honrar os pais nos filhos… Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe… Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida… sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida e converter-se-á em desconto dos teus pecados".
       O cuidado e o amor devotado pelos pais aos filhos deve ser correspondido pelo cuidado, respeito e amor dos filhos em relação aos pais sobretudo quando estes avançam para uma fragilidade física, pela idade e/ou pela doença.
       São Paulo, por sua vez, alarga o mandamento aos maridos e às mulheres, mantendo-o em relação aos pais e aos filhos, pela submissão no amor, na delicadeza e no serviço mútuo, mas também a todos nós, imitando Jesus: «Revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente… Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também. Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus...».
       6 – A Encarnação de Deus, a vinda de Jesus para junto de nós, a assunção da nossa condição mortal e finita, identificando-Se connosco e connosco vivendo, caminhando, volta a ensinar-nos o caminho da fraternidade, da partilha, da comunhão, pelo perdão e pelo amor, colocando os outros em primeiro lugar, servindo-os. A quadra de Natal recorda-nos esta família de Nazaré, cujo ambiente promove o diálogo, o respeito pelas diferenças e pela missão de cada um, e sobretudo, o acolhimento da vontade de Deus.
       Não é uma família extraordinária e, muito menos, extraterrestre. É uma família simples, pobre ou remediada, de uma pequena cidade-aldeia, de Nazaré. Não vive num palácio. São José trabalha a pedra, a madeira e em tudo o que é necessário às construções daquele tempo. Maria cuida da casa, dos animais, recolhe o leite, fabrica o queijo, fia a lã, trata das roupas, amassa a farinha e coze o pão. E, como em qualquer família judaica, Maria tem o cuidado por Jesus, lhe ensinar a rezar, a ler, a comportar-se. Sendo rapaz, a partir dos 7/8 anos, passa a acompanhar o pai, ajudando-o e aprendendo a mesma profissão. Filho de um carpinteiro, carpinteiro será.
       A religião marca o ritmo das famílias e das aldeias. Como sublinha São Lucas, a Sagrada Família ia todos os anos a Jerusalém pela festa da Páscoa. É nesse contexto que "perdem” Jesus. É a idade em que os rapazes eram/são iniciados na vida adulta: vão ao Templo e, pela primeira vez, leem a Sagrada Escritura em público. O entusiasmo de Jesus fá-l'O permanecer mais tempo junto dos doutores da Lei, tentando compreender melhor a sua missão e identidade, e pondo em evidência as suas intuições.

        7 – Indo em caravana, com os membros da família alargada e com as pessoas da mesma cidade, protegendo-se mais facilmente dos salteadores, era possível que as crianças, nas correrias e brincadeiras, se afastassem dos pais. No regresso de Jerusalém, Maria e José "perdem-se" de Jesus. Terá ficado com as outras crianças? Não saberá das preocupações dos seus pais? Durante o dia da caminhada, as crianças mais crescidas poderiam ir juntas. No final do dia, a família reúne-se para a refeição e para descansar. É então que se apercebem que Jesus não voltou e procuram-n'O entre familiares e conhecidos.
       Onde O haveriam de encontrar? No Templo entre os doutores da Lei, que se admiram com a sua sabedoria. Quando O encontram, Maria pergunta-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?».
       Sobrevém o clima de diálogo. Maria pergunta a Jesus se tinha consciência de que Ela e São José estavam preocupadíssimos. Jesus responde-lhes com outra pergunta e que aponta para a Sua identidade original e para a missão que terá de assumir.
       Visualiza-se a delicadeza de Maria e de José. Maria guarda estes acontecimentos e palavras no coração e certamente também José. Logo o evangelista nos lembra que "Jesus ia crescendo em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens".
       Por aqui se vê como a família de Nazaré também tem a sua dose de dificuldades, por ocasião do nascimento de Jesus, na fuga para o Egipto e agora na "perda" de Jesus. Como é que se terão sentido Maria e José e os outros familiares a procurar em todas as encruzilhadas por Ele?

       8 – O texto do Evangelho diz-nos, entre muitas coisas, algo essencial: se nos perdermos de Jesus, como aconteceu com Maria e José, e por mais caminho que tenhamos percorrido, é imprescindível que regressemos a todos os lugares onde O pudermos encontrar. Não adianta correr se não sabemos para onde vamos.
       Peçamos com fé: "Senhor, Pai santo, que na Sagrada Família nos destes um modelo de vida, concedei que, imitando as suas virtudes familiares e o seu espírito de caridade, possamos um dia reunir-nos na vossa casa para gozarmos as alegrias eternas".
       Maria e José estão atentos à vontade de Deus, fazendo com que Jesus esteja no centro das suas preocupações e das suas vidas, por maiores que sejam as dificuldades e os desafios. Assim ter de ser connosco.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia: Sir 3, 3-7. 14-17a; Sl 127 (128); Col 3, 12-21; Lc 2, 41-52.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Leituras: JOSÉ - O ESPOSO DE MARIA

M. FERNANDO DA SILVA (2015). José, o esposo de Maria. Prior Velho: Paulinas Editora. 256 páginas.


       No últimos anos, a figura de São José adquiriu uma maior relevância na Igreja, traduzida na liturgia, com os Papas a transparecerem a devoção popular e a própria devoção. Neste momento, três festas que se relacionam diretamente com São José: a 19 de março, solenidade; a 1 de maio, São José Operário, e a Festa da Sagrada Família, no domingo entre o Natal e a solenidade de Santa Maria, no primeiro dia no novo ano.
       O Papa Francisco, eleito a 13 de março de 2013, inaugurou o Pontificado precisamente no dia 19 de março, dando um sinal claro que entregava a Igreja e o Pontificado à proteção de São José. Seguidamente alguns gestos, prosseguindo com o desejo do Papa Bento XVI, de incluiu o nome de "São José, esposo de Maria" em todas as anáforas, uma vez que por ocasião da reforma litúrgica o Papa Paulo VI já incluíra no Cânone romano; e consagrar o Vaticano a São José, Padroeiro Universal da Igreja. Consagração planeada por Bento XVI.
       O Pe. Manuel Fernando da Silva, sacerdote da Arquidiocese de Braga, com ligações à Prelatura da Opus Dei, apresenta-nos um texto belíssimo sobre a figura de São José, escolhido por Deus para proteger e cuidar da sagrada Família de Nazaré, com o seu trabalho, bondade, com a sus descrição e santidade de vida. Não se sabe muito sobre São José, a não ser nas referências pontuais nos evangelhos da infância, em São Mateus e São Lucas e numa ou outra referência pontual. O autor procura apresentar-nos uma espécie de biografia de São José, partindo dos dados do Evangelho, dos silêncios, das "insinuações" que o texto vai propondo, do ideal homem justo, trabalhador e honesto que figura entre os crentes do povo eleito.


       O autor recorre com mestria ao contributo dos Papas, mormente de Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e de Francisco, a quem dedica um capítulo. Se Bento XVI tem o mesmo nome de Batismo, pelo que se compreende de sobremaneira a sua especial devoção a São José; o atual Papa não se fica atrás em devoção. Curiosamente o autor clarifica a fé de Francisco, em São José que dorme, numa Homilia do Cardeal Ratzinger / Bento XVI em 19 de março de 1992. O então Cardeal parte de uma imagem em alto-relevo, de um retábulo português da época barroca, que retrata a fuga para o Egipto, em que São José é apresentado dentro de uma tenda a dormir, vestido, com botas altas, pronto para se pôr a caminho. Não apenas dorme, mas vigia, está disponível para escutar a palavra de Deus e pôr-se em marcha.


       É conhecida a devoção do Papa Francisco que mandou vir da Argentina uma imagem de São José a dormir, a que dá uma explicação muito semelhante à do Cardeal Ratzinger / Bento XVI: São José dorme, sonha, escuta Deus, vigia a Igreja. O Papa quando tem alguma dificuldade coloca um papelinho debaixo da imagem, pedindo a solicitude de São José.
       A ligação espiritual à Opus Dei também é visível nestas páginas, não mais do que quando os jesuítas citam prevalentemente Santo Inácio de Antioquia, ou outro ilustre desta ordem, ou os franciscanos exemplificam com São Francisco ou outros ilustres, ou os dominicanos clarificam com São Domingos, ou os beneditinos com São Bento, ou como nós que citamos o nosso Bispo ou os Papas.

       É um livro que se lê bem, com uma linguagem acessível, com um discurso que nos faz acompanhar a vida de São José, referenciado sempre à Família, com Maria e com Jesus. Para quem seguir esta recomendação verá a riqueza das ligações bíblicas aos patriarcas, profetas, aos salmos. Envolver-se na vida de São José é envolver-se e entranhar-se na vida de Maria e de Jesus, no mistério da salvação que é revelado em plenitude no Deus que se faz Menino e vem habitar com pessoas "normais".

       Uma das histórias mais populares acerca de São José, e que o autor inclui neste livro, é a escada milagrosa atribuída a São José, no Estado do Novo México, nos EUA. Em 1898, a Capela de Loretto foi restaurada, levando um piso superior, para aumentar a capacidade, mas ficou sem escada de acesso. As irmãs requisitaram os carpinteiros da região mas nenhum apresentou uma solução que não implicasse a redução do espaço interno da capela.
       Confiaram-se a São José e no último dia de novena em Sua honra, apareceu um desconhecido com um jumento e uma caixa de ferramentas. Resolveria o problema com a condição de trabalhar com à porta fechada. Alguns meses depois a escada estava construída e o homem desapareceu sem deixar rasto. Passados 130 anos ainda não se descobriu tamanho mistério. Sem cola nem pregos, continua a não ameaçar ruína. A madeira, analisada, é da Judeia, mas não se sabe como veio ali parar. Concluiu-se que tinha sido São José a contruí-la. A escada tem 33 degraus, correspondente à idade com que, segundo popularmente se diz, morreu Jesus Cristo (terá morrido com 37 anos, tendo em conta que morreu no ano 30 da nossa era. Jesus nasceu à volta do ano 7 a.C, com o erro com que foi achado o Seu nascimento).
       Para um crente, poderá ser um sinal eloquente da intercessão de São José, fosse inspirando alguém fosse uma intervenção mais milagrosa com o próprio São José. Para um não crente, uma agnóstico, poderá não passar de uma simples coincidência... mas que é uma escada extraordinária envolta em mistério atestam-nos os milhares de visitantes que todos os anos passam por esta capela.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José

       1 – Quando uma criança nasce é, ou deveria ser, um DOM, uma bênção para toda a família e para a comunidade. Quando as crianças escasseiam em muitas das nossas aldeias, quando o país e a Europa estão a envelhecer muito rapidamente, com uma taxa de natalidade cada vez mais baixa, a atenção, o cuidado e as medidas de apoio que favoreçam a natalidade e facilitem o papel das famílias, são já não uma exigência mas uma obrigação e um compromisso de todos, a começar pelos que lideram os destinos das nações.
       Os tempos não são fáceis. É verdade. Antigamente havia muitas mais dificuldades, dizem os mais idosos, sublinhando que não é tanto por falta de condições como por um excesso de comodismo e por se tentar eliminar todas as dificuldades que possam advir na generosidade para com novas vidas. Hoje há outras exigências. Há mais exigências e há menos paciência, menos predisposição para encarar sacrifícios.
       Casamentos feitos à medida do interesse imediato, desistência às primeiras dificuldades, famílias mais reduzidas, os mais velhos vão sendo dispensados de contribuir para o amadurecimento dos membros mais jovens. Mobilidade social e cultural: os filhos radicam-se em outras paragens e em outros valores.
       Lógica atualíssima de viver bem a juventude, gastar a vida enquanto é tempo. Experimentar tudo, antes dos compromissos duradouros. O nascimento do primeiro filho é retardado ao máximo, para quando já não houver energias para andar em farras, ou quando a urgência da idade o impõe, ou quando as condições económico-financeiras são ideais. O medo de assumir compromissos mais estáveis, no matrimónio e na procriação. O ambiente sugere relações frágeis e breves que não permitem assentar.
       E tantas outras situações que merecem preocupação: famílias monoparentais, que se multiplicam, reconstituição de novas famílias, com crianças de matrimónios ou compromissos anteriores.
       2 – Há, contudo, muitos outros testemunhos de fidelidade, de perseverança, de generosidade, de famílias que incluem e valorizam os mais novos e os mais velhos, com ambientes favoráveis à comunicação de valores, da cultura e da vida.
       Sublinhe-se que a vida das famílias (como das pessoas) não linear, branco e preto, é multicolor. Aqui, como em outras situações, não poderemos separar em absoluto famílias boas de famílias más; famílias felizes de famílias infelizes. Obviamente, que o desafio é que as famílias, estruturadas de diversas maneiras, sejam (em crescendo) espaço de afetos em que seus membros se amam, se respeitam e se apoiam mutuamente. As famílias felizes são iguais, as famílias tristes são originais, seguindo o pensamento de Tolstoi, pois cada família vive as dificuldades à sua maneira, ajuda contar com os outros e com a família.
       Ao celebrarmos hoje a Festa da Sagrada Família de Nazaré deparamo-nos com uma referência de família que não está isenta de perigos e de dificuldades. A gravidez de Maria está envolta em mistério que poderia ter provocado uma desgraça, não fosse a ponderação de José. Quando sobem ao Templo para apresentarem Jesus ao Sumo-Sacerdote, logo o Velho Simeão os abençoa e alerta para o que lá vem: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; – e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações».
       Algum tempo depois, José terá que pegar em Nossa Senhora e no Menino e afastar-se da Sua terra para outra onde possam viver em segurança. Algum paralelismo com os nossos dias: tantas pessoas e famílias que têm de se afastar da sua terra para procurar melhores condições de vida, ou fugindo à perseguição. O futuro nunca é totalmente certo, mas há que confiar. A bênção de Deus não nos livra dos perigos, mas garante que Deus nos levará além de todas as dificuldades. Como já referido muitas vezes, a criança que cai e se magoa sabe que fica com a ferida e com as pernas marcadas, mas a presença, o consolo e a segurança que encontra nos pais permite-lhe levantar-se e fazer finca-pé contra a dor.
       3 – Oito dias depois do nascimento de Jesus, Maria e José cumprem a tradição de circuncidar o Menino, levando-O ao Templo. Por aqui também se conclui que Aquele Menino não é um privilegiado que esteja acima ou fora da Lei. N'Ele se cumpre toda a justiça. Em tudo igual a nós, exceto no pecado. Vem para viver humanamente.
       Fácil imaginar as famílias cristãs a preparar tudo para batizar um novo membro, passados alguns dias, ou semanas, ou meses do nascimento. Para quê adiar o que achamos uma bênção, uma graça de Deus. Logo nos primeiros meses também “obrigamos” os filhos a ir à escolinha!
       No Templo surgem duas figuras importantes: Simeão e Ana. Simeão é impelido pelo Espírito Santo para ir ao Templo receber a família de Jesus. Como testemunha, cumpre-se uma promessa que Deus Lhe havia feito de que não morreria sem ter visto a Salvação: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo».
       Ana, filha de Fanuel, uma viúva que encontrou no Templo e na fidelidade a Deus o sentido para a sua vida. "Não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações". E também ela é instrumento de Deus: "começou também a louvar a Deus e a falar acerca do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém".
       Nestas duas figuras o reconhecimento dos mais idosos e da sua missão importantíssima de nos guiarem para o futuro. Uma família ou um povo sem história desaparecerá muito rapidamente. Uma árvore que não tem raízes acabará por morrer às primeiras dificuldades.
       4 – As diversas leituras dão-nos a receita para que em família possamos construir um tempo novo, construindo um mundo saudável, fraterno, solidário, humano.
       A primeira leitura fala-nos do Mandamento divino. Deus "ordena" o que nos faz bem, o que nos ajuda a crescer e a descobrir o outro como bênção, como auxiliar, carne da minha carne, osso dos meus ossos. "Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe. Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração... Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida e converter-se-á em desconto dos teus pecados".
       E o que se diz dos filhos em relação aos pais, pode dizer-se do nosso compromisso com os outros. Tudo o que fizermos ao mais frágil dos irmãos é ao próprio Deus que o fazemos. É, aliás, esse o critério do Juízo Final, seremos julgados e acolhidos pelo bem que fizemos e pelo amor com que vivemos.
       O Apóstolo São Paulo, na segunda Leitura, di-lo de forma muito sugestiva e clarividente: "Como eleitos de Deus, santos e prediletos, revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também. Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo. E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai".
       A referência e o centro é Jesus Cristo, no Seu jeito de ser e de amar e de viver. Como Ele nos amou, amemo-nos uns aos outros, como Ele nos perdoou, perdoemo-nos mutuamente. Tudo quando fizermos seja para louvor do Senhor. Os maridos em relação às esposas, estas em relação aos maridos; os pais para com os filhos e estes para com os pais. Usar de tolerância, de ternura, apostar no outro, mesmo quando temos razões para duvidar, não apenas porque é nosso igual e também nós somos frágeis como o barro, mas por Deus. "Feliz de ti, que temes o Senhor e andas nos seus caminhos". Os caminhos do Senhor aproximam-nos, irmanam-nos em Cristo Jesus.
       5 – Se a referência é Jesus Cristo, então teremos que imitá-l’O. Quando cumpriram as prescrições do Templo, Maria e José regressaram a sua casa, e "o Menino crescia, tornava-Se robusto e enchia-Se de sabedoria. E a graça de Deus estava com Ele".
       Confiemos as nossas intenções, a nossa vida, as nossas famílias a Deus. E quando as coisas não estiverem a correr tão bem, não desesperemos, entreguemo-nos ainda mais nas mãos de Deus para crescermos em sabedoria e graça aos olhos do Senhor, tornando-nos mais robustos para enfrentar os escolhos, na certeza alegre que Deus segue connosco pela estrada fora.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): Sir 3, 3-7. 14-17a; Sl 127 (128); Col 3, 12-21; Lc 2, 22-40.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Ninguém é profeta na sua terra...

       Jesus foi à sua terra e começou a ensinar os que estavam na sinagoga, de tal modo que ficavam admirados e diziam: «De onde Lhe vem esta sabedoria e este poder de fazer milagres? Não é Ele o filho do carpinteiro? A sua Mãe não se chama Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs não vivem entre nós? De onde Lhe vem tudo isto?». E estavam escandalizados com Ele. Mas Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra e em sua casa». E por causa da falta de fé daquela gente, Jesus não fez ali muitos milagres (Mt 13, 54-58).
       A realidade mostra-nos, positiva e negativamente, que muitas vezes não conhecemos as pessoas que nos são próximas. Quantas vezes já nos surpreendemos com pessoas que julgávamos conhecer? Desta e daquela pessoa não esperávamos esta atitude, desta e daquela pessoa não esperávamos que fosse capaz de tal feito, ou de tais palavras!
       Jesus vai à terra onde foi criado, onde cresceu, e onde as pessoas o tratam pelo nome, conhecem a sua família, a sua origem humilde e quando vêem as Suas palavras e os prodígios que realiza surpreendem-se, alguns seguem-n'O, outras ficam na incredulidade, na dúvida, na inveja, na negação em vez de se abrirem ao futuro e este só nos é garantido por Deus.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Sagrada Família de Jesus, Maria e José - 30 de dezembro

       1 – Quando nos damos conta que Jesus não segue connosco, como é que reagimos?
       Podemos até nem perceber que Jesus já não vai connosco e já não há chama, nem vida nova, nem mobilização interior, nem compromisso solidário. O que pode suceder na vida pessoal, na vivência da fé, quando esta não é mais que o escrupuloso cumprimento do dito dever de cristão, na esmola que se dá, ou na tradição inalterável que seguimos sem interrogar o seu sentido ou a sua finalidade.
       Uma pequena estória:
       Num jardim público estavam dois soldados a guardar um banco, não deixando que ninguém se sentasse. Passaram milhares de pessoas, durante anos a fio. Os soldados faziam o seu turno e eram rendidos por outros. Um dia um homem, a transpirar de esforço, procurou um banco que estivesse disponível e só encontrou vago aquele que era guardado pelos militares. Insistiu para que o deixassem descansar um pouco. Não adiantou. Tinham ordem para não deixar sentar ninguém. Mas não fazia sentido. Era um banco de jardim igual a todos os outros. Os sentinelas, depois do respetivo turno, intrigados, decidiram tirar tudo a limpo. Ninguém sabia, nem os mais graduados. Era uma rotina que tinha anos. Todos os dias na ordem de serviço estava a guarda ao banco de jardim. Pesquisaram nos arquivos e verificaram que tinha sido um pedido da junta de freguesia, que tinha mandado pintar os bancos e tinha pedido ao quartel para fazerem barreira àquele banco para que ninguém se sentasse com a tinta fresca e estragasse a roupa. Era por algumas horas. Ninguém mais se interrogou, nem as classes dirigentes, nem os soldados, nem os transeuntes. E afinal a razão de ser da sentinela ao banco de jardim já não tinha sentido há muito, muito tempo.
       Bento XVI propõe-nos o ANO da FÉ, na procura do fundamento, do sentido, da matriz da fé. O que nos move. O que nos diz Jesus. O que é roupagem e o que é essencial. Em que Deus acreditamos? Quem segue connosco no caminho? Como testemunho Jesus se nem sei se Ele ainda está nas minhas escolhas?
       2 – Na festa da Sagrada Família, é-nos proposta mais uma pérola do Evangelho de São Lucas. Por volta dos 12 anos, José e Maria levam Jesus a Jerusalém, ao Templo, como faziam cada ano pela Páscoa. Mas esta era uma Páscoa diferente. Entrado nos 12 anos, Jesus passava a ler a Sagrada Escritura em público. Esta seria a sua primeira vez. Doravante, podia discutir os vários temas da Bíblia, já não era a criança excluída. Chegara a idade de também ele se interrogar sobre os fundamentos da fé e de se preparar (a partir dos 13 anos) para cumprir com a Lei, de se apresentar no Templo nas 3 festas principais: Páscoa, das Semanas (Pentecostes) e das Cabanas.
       Vale a pena ler com atenção o relato de São Lucas e descobrir como a Sua família teve um papel preponderante na sua educação, na inserção na comunidade, e numa atitude de diálogo, de confiança e de compreensão:
“Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados; e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso. Sua Mãe guardava todos estes acontecimentos em seu coração. E Jesus ia crescendo em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens”.
       3 – Só Deus é Deus. Só Deus deverá ser considerado Deus. E Deus tem sempre o primeiro lugar. Assim no-lo mostra Jesus, sem que isso implique desobediência aos pais, ou fuga às responsabilidades mundanas, familiares e/ou profissionais.
       Este episódio é conhecido, e reproduzido nos mistérios do rosário, por “perda e encontro de Jesus no Templo entre os doutores da Lei”. Fica desde logo claro que Maria e José O perderam pelo caminho. São pessoas, não são Deus. Podia acontecer a qualquer família. Acontece-lhes. A caravana em que seguia a família, seria constituída por muitas pessoas, pelos vários familiares, e pelos conterrâneos, viajam juntos, protegendo-se melhor dos salteadores.
       Pelos 12 anos, as crianças ganhavam a liberdade de se juntar aos da sua idade, e viajarem juntos. À noite regressavam para os pais. Nessa ocasião, Maria e José deram-se conta que Jesus não se encontrava na caravana. Tinham feito um dia de viagem para norte. Viajam outro dia de regresso a Jerusalém e encontram Jesus ao terceiro dia (pode ser já uma imagem da ressurreição, Jesus aparece/ressuscita ao terceiro dia).
       A perda de Jesus, lido o texto com atenção, não exprime primeiramente a Sua desobediência, mas a prioridade da missão: primeiro as coisas de Deus. Mostra como a família de Jesus é profundamente religiosa. Todos os anos vai ao Templo. José é um homem justo, face à Lei, cumpridor dos requisitos da Torah. A família segue a tradição dos antigos. Veja-se a conjugação entre liberdade e obediência. Maria e José não podiam prever a opção de Jesus, não são Deus. Jesus esclarece a prioridade.
       4 – Mas há outros elementos que importa sublinhar. Maria e José dão-se conta que Jesus não está com eles no caminho e imediatamente voltam à sua procura. E nós, quando nos apercebemos que Deus não está nas nossas escolhas, regressamos para O encontrar e trazer de volta à nossa vida?
       A família protege os seus membros. Por isso é família. Maria e José deixam o caminho para procurar Jesus. Um dia será Jesus a sair do caminho, para encontrar os descaminhados, os que estão à margem, fora do caminho, fazendo-os regressar…
       Chegam perto de Jesus, e não discutem com Ele, mostram a preocupação e perguntam-lhe pela razão de ter procedido daquele modo. Mais uma lição importante para pais, para educadores, para a forma como lidar uns com os outros. Perguntar. Escutar as razões dos outros. Tentar compreender o porquê de determinada atitude.
       No mesmo registo, a epístola de São Paulo aos Colossenses com as seguintes recomendações:
"Revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra outro... Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo... E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai. Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo".
       Ainda que a linguagem possa ser instrumentalizada, fica claro, que o importante é proceder como Jesus, amar, perdoar, tratar os outros com delicadeza, com bondade, colocando os outros em primeiro lugar.
       5 – Voltemos uma vez mais à narrativa evangélica.
       Maria, José e Jesus voltam juntos para casa. São família na festa e na dificuldade. Maria e José não deixam o filho para trás. Perderam-no e vão procurá-lo. Não exasperam. Interrogam e deixam que Ele explique. Não percebem muito bem. O que Jesus lhes diz ultrapassa a sua compreensão humana. Mas agora é tempo de recuperar caminho, de regressar a casa. Maria (e José com ela) guarda todas aquelas coisas no coração, medita-as. Jesus não contesta a “repreensão” de Maria. Regressa com os pais, em atitude filial, obediente, crescendo com eles em graça e sabedoria.
       Ao carinho, amor e cuidado dos pais pelos filhos há de corresponder o respeito, a escuta, a obediência, o amor e o cuidado dos filhos pelos pais. Bem Sirá, inspirado pelo Espírito de Deus, deixa-nos uma preciosidade:
“Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe. Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe. Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração. Quem honra seu pai terá longa vida, e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe. Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida e converter-se-á em desconto dos teus pecados”.
       Amar. Eis o mandamento divino. Colocar Deus em primeiro lugar, e n'Ele a ligação essencial aos outros, aos pais, aos filhos, aos irmãos, aos vizinhos. Amar Deus, amando os que estão perto de nós. Como sublinhou Bento XVI, na noite de Natal, “Se a luz de Deus se apaga, apaga-se também a dignidade divina do homem. Então deixamos de ser, todos, irmãos e irmãs, filhos do único Pai que, a partir do Pai, se encontram interligados uns aos outros”.

Textos para a Eucaristia (ano C): Sir 3, 3-7.14-17a; Col 3, 12-21; Lc 2, 41-52.