Mostrar mensagens com a etiqueta Conversão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Conversão. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 17 de maio de 2021

JOSEPH FADELLE - O PREÇO A PAGAR

JOSEPH FADELLE (2016). O Preço a pagar por me tornar cristão. Prior Velho: Paulinas Editora. 6.º Edição. 232 páginas


O título já diz muito do que poderá conter este livro. É um testemunho de vida e de fé. Um muçulmano, escolhido pelo pai para lhe suceder á frente do clã, protegido e temido.
Nasceu em 1964, Mohammad al-Sayyid al Moussaoui, em uma família xiita iraquiana. Uma família cuja tradição quer descendência direta do Profeta através do 7.º Imam.
Vai para o exército, numa altura em que o Iraque de Saddam Hussein guerreia o Irão. O pai fará tudo para o livrar só três anos de tropa a que está sujeito, mas a determinada altura tem que se apresentar ao serviço militar e é enviado para o sul. Fica situado um pouco atrás da zona de combate, mas na sua caserna está um cristão, a quem tentará converter ao Islamismo. No primeiro impulso, quer que lhe arranjem outra caserna: "É um homem bom, um agricultor. Tem 44 anos e é cristão...". Soam os alarmes. Surpresa, medo e pânico que o fazem gritar como um louco... mas o soldado convence-o a esperar. Diz Joseph (Mohamed): "Na minha terra, os cristãos são considerados párias impuros, seres que não valem nada, com quem devemos misturar-nos, custe o que custar. No Alcorão, que recito todos os dias desde a minha mais tenra idade, são hereges que adoram três deuses". Vendo a razoabilidade das palavras do soldado que o guiou à caserna, começa a maturar na possibilidade de ter sido Alá a enviar aquele cristão para ele o converter. Curioso, que mais tarde trata de comprar um cavalo, como presente para Massoud, certo de que o vai converter ao Islamismo.
Os dias vão passando e verifica que afinal não está surpreendido com o odor deste cristão, pois segundo a família, um cristão conhece-se pelo mau cheiro. Vai ficando curioso. Trocam palavras, por exemplo, sobre agricultura. Deixa-se "seduzir" pelo seu charme, pela sua fluência a falar e começa a estudá-lo para saber como o converter ao islão. Entretanto, Massoud ausenta-se durante um dia para tratar de uma missão. Curioso, vê um livrinho, "Os milagres de Jesus", tendo na capa um homem a sorrir, cercado por um halo luminoso. Nunca tinha ouvido falar deste Jesus, mais tarde verificará que o Alcorão lhe dá outro nome. Deixa-se fascinar pelos milagres de Jesus e sente alegria que lhe faz bem. Depois confessa a Massoud, a leitura e pergunta-lhe quem é Jesus: Isa ibn Maryam, o Filho de Maria. A partir daqui fica também a saber que os cristãos também têm um livro Sagrado, a Bíblia, com o Antigo e Novo Testamento. Querendo conhecer a Bíblia, Massoud pergunta-lhe sobre o Alcorão e convida-o a ler (reler) com atenção o Alcorão e não automaticamente. Ao ler o Alcorão vai-se dececionando, como por exemplo a superioridade dos homens e a subjugação das mulheres, que terão só metade do cérebro... o casamento de Maomé com uma menina de 7 anos; ou com uma nora... uma mulher perde o seu marido e deve esperar três meses e dez dias para voltar a casar-se e Maomé casa com uma mulher no dia em que perde o marido, morto a mando do Profeta... Tudo isto deixa Joseph muito abalado na sua fé.
A primeira vez que se recorda de um sonho ao acordar - tinha ciúmes dos irmãos que sonhavam e relatavam os seus sonhos - é sobre um rio, está na margem, na outra margem um homem com cerca de 40 anos, com uma túnica bege, sem gola. Quando começa a atravessar o regato, fica suspenso no ar... o homem da outra margem estende-lhe a mão e ajuda-o a atravessar a água e a aterrar ao seu lado. Fica impressionado com a beleza deste homem, olhos azuis acinzentados, uma barba rala e cabelos longos... Diz-lhe este homem: "para atravessares o ribeiro, precisas de comer o pão da vida".
Quando abre os olhos, Massoud está de regresso e traz-lhe o Evangelho. Fala-lhe das quatro versões do Evangelho e convida-o a começar pelo de São Mateus. Para não seguir todas as indicações, começa pelo quarto Evangelho, o de São João. Quando chega ao capítulo seis, encontra as palavras "o pão da vida". "Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não mais terá fome..."
Começa a sentir-se chamado... "Se Alá fala comigo como um pai que ama os seus filhos, se Ele perdoa aos pecadores, então a minha relação com Ele nunca mais poderá ser a mesma. Já não estou no domínio do medo, mas no do amor, como numa família".


(Reencontro, em França, com o irmão, entretanto também batizado)

A partir de então, começa uma verdadeira façanha, procurando Igrejas para ser batizado, querendo testemunhar Jesus Cristo também junto da família, achando que a família o compreenderá. Vai sendo avisado para ter precaução, pois a conversão ao cristianismo é sentença de morte para o próprio e para quem está envolvido nessa conversão. É preso e torturado, na esperança que esqueça o cristianismo. É lançado sobre ele fatwa pelo aiatola Mohammed Sadr (a grande autoridade xiita no país na época), detenção e tortura, condenação à morte, executada pelo tio Karim e pelos irmãos. Quando vão para atirar sente um impulso, intuição, voz interior, para fugir. Os tiros vão falhando. Cai como morto, desmaiado, na lama. Acorda no hospital, sem saber como foi lá parar. Tinha sido baleado na barriga da perna. Um das balas furou a roupa debaixo do braço. A religiosa responsável pelo Hospital exige que deixe o hospital quanto antes, para não colocar em risco as religiosas e quantos trabalham no hospital. O recursos a cirurgiões amigos da irmã/religiosa que o ajuda, chegam à conclusão que tem que ser extraída a bala quanto antes (não há buraco de saída), mas não encontram clínicas que se disponham a abrir as portas. Enquanto discutem numa sala contígua o que fazer, Joseph chama-os porque está a deitar sangue do outro lado da barriga da perna. A bala desapareceu. Procuram no quarto, mas não encontram. O médico fica incrédulo e propõe que se faça uma ecografia. Conclusão, não há sinais de bala, nem de ferimento no interior da perna, pelo que fica aberta a possibilidade para algo extraordinário.
De aldeia em aldeia, já batizado, ele e a esposa, e os filhos, vão-se escondendo até que rumam a França, onde vivem.
Este é um testemunho, na primeira pessoa, de fé e coragem, no meio de muitas "provações", contratempos, riscos, mas o foco é o batismo e a comunhão e testemunhar a fé em Cristo. E pelo meio muitos sinais e "coincidências"...

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

DOROTHY DAY - A LONGA SOLIDÃO

DOROTHY DAY (2019). A Longa Solidão. Autobiografia de Dorothy Day. Lucerna. 264 páginas
A autora, Dorothy Day, nasceu no seio de uma família protestante da classe média norte-americana, em 1897. Viria a tornar-se sufragista, escritora social e política e, mais tarde, uma conhecida ativista católica. O exemplo de alguns vizinhos católicos, vendo a forma como rezavam, encontrando uma outra senhora a rezar de joelhos, a recitação do terço, a participação na Santa Missa, a cada domingo, ou mesmo todos os dias, foram despertando nela o interesse pelo catolicismo, ainda que tivesse dificuldade em entender o pouco envolvimento da Igreja Católica no campo social, não se vislumbrando a opção pelos pobres e pelos trabalhadores, deixando a outros essa luta.
Aquando do nascimento da filha, Tamara, decidiu que queria o melhor para a filha, e o melhor era fazê-la católica, batizando-a. Foi encontrando algumas dificuldades, vivia em união de facto e o marido era descrente e contrário a tudo o que tivesse a ver com religião. Já que queria batizar a filha, foi-lhe recomendado que faria mais sentido se também ela estivesse mais comprometida. Viria a ser batizada no mesmo dia que a filha. Apesar de gostar muito do marido, decidiu que o seu caminho seria outro, de total comprometimento com a condição de batizada, acolhendo as orientações da Igreja.
Esteve ligada a diversos movimentos de trabalhadores, de pobres, de anarquistas, de comunistas, trabalhando como jornalista, como repórter ou participando em manifestações contra a guerra, a favor dos direitos das mulheres, pela melhoria de condições dos mais pobres. Esteve presa por duas vezes, em condições sub-humanas e também aí a luta por melhores condições para as prisioneiras.
Marcante nesta autobiografia, e por certo no seu compromisso social, o encontro com Peter Maurin. Juntamente com Peter nasceu a ideia de publicar um jornal, que teria o nome de The Catholic Worker, a fim de divulgar as ideias e mensagens de Peter, mas também outros textos de intervenção, na defesa dos trabalhadores. Sem muitos meios e com a preocupação de ser um jornal muito barato, deitaram mãos à obra e rapidamente se transformou num jornal de grande tiragem, chegado inclusivamente à Europa.
Com as ideias do Jornal, com voluntários que se foram juntando, ajudando a vender o jornal, a distribui-lo. Os voluntários foram também contando com a ajuda do jornal, refazendo as suas vidas ou pelo menos podendo ter acesso a refeições, o pão dos trabalhadores. Daí à criação de casas de acolhimento foi um quase nada. O jornal e o movimento caminharam e cresceram juntos, alugando casas, para albergar famílias, investindo em quintas, para serem auto-suficientes, divulgando a doutrina social da Igreja, defendendo o pacifismo, o regresso aos campos, a objecção de consciência face à guerra.
O movimento seguiu uma linha de inclusão de trabalhadores e intelectuais. O trabalho não é apenas o físico, mas também o intelectual, o espiritual. O propósito do movimento era alimentar os famintos, acolher os pobres, os vulneráveis, os doentes e os necessitados, no espírito da caridade cristã.
O remédio para a grande solidão é a comunidade. "Não só a comunidade básica da família, mas também uma comunidade de famílias, combinando a propriedade privada com a propriedade comunitária... Havia um grande desejo de propriedade privada, mas um desejo ainda maior de comunidade. O Homem não foi feito para viver sozinho... A única resposta nesta vida para a solidão que todos acabamos por sentir é a comunidade. Vivendo juntos, partilhando, amando a Deus e amando o nosso irmão, e vivendo perto dele em comunidade, para podermos demonstrar o nosso amor por Ele"
"Sentia, já aos quinze anos, que Deus queria que o Homem fosse feliz, que Ele pretendia dar-lhe aquilo de que ele precisava para levar um vida com o objetivo de ser feliz, e que não era necessário termos tanta pobreza e tanta miséria quantas as que eu via à minha volta e sobre as quais lia na imprensa diária"
"Tinha 17 anos e sentia-me completamente só no mundo, divorciada da minha família, de toda a segurança, e até de Deus. Sentia a arrogância imprudente e, com essa imprudência, uma sensação de perigo na qual me comprazia.
Havia uma interrogação na minha cabeça: porque se fazia tanta coisa para remediar os males sociais em vez de se começar por evitá-los?"

"Estou a rezar porque estou feliz e não porque estou infeliz. Eu não me voltei para Deus por infelicidade, por tristeza, por desespero -  para obter consolo, para obter algo d'Ele... comecei a ir à missa regularmente ao domingo de manhã... o meu amor ardente pela criação levou-me ao Criador de todas as coisas"
"Sabia que iria batizar o meu bebé, custasse o que custasse. Sabia que não queria que ela se debatesse durante muitos anos como eu, duvidando e hesitando, indisciplinada e amoral. Sentia que era a melhor coisa que poderia fazer pela minha filha. Para mim, rezei pelo dom da fé... Tornar-me católica significava enfrentar a vida sozinha e eu sentia-me presa à vida familiar. Era difícil pensar em desistir de um companheiro para que a minha filha e eu pudéssemos tonar-nos membros da Igreja. O Forster não iria ter nada a ver com a religião, ou comigo se a abraçasse. Por isso esperei..."
"Aprendi a rezar o terço..."
"Eu amava a Igreja por Cristo tornado visível. Não por ela mesma, porque muitas vezes era um escândalo para mim. Romano Guardini disse que a Igreja é a Cruz na qual Cristo foi crucificado; não se pode separar Cristo da sua Cruz e temos de viver num estado permanente de insatisfação com a Igreja".
"Mas a palavra final é o amor. Às vezes foi, usando as palavras do padre Zossima, algo duro e terrível, e a nossa própria fé no amor foi provada pelo fogo.
Não podemos amar a Deus a não ser que nos amemos uns aos outros e, para amar, temos de conhecer-nos uns aos outros. Conhecemo-l'O pelo partir do pão, conhecemo-nos uns aos outros partindo o pão, e deixamos de estar sós. O Céu é um banquete e a vida também é um banquete, ainda que de côdeas duras, em que exige companheirismo.
Todos conhecemos a longa solidão e aprendemos que a única solução é o amor, e que o amor vem com a comunidade".

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A Palavra de Deus e as tradições...

       Reuniu-se à volta de Jesus um grupo de fariseus e alguns escribas que tinham vindo de Jerusalém. Viram que alguns dos discípulos de Jesus comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar. – Na verdade, os fariseus e os judeus em geral só comem depois de lavar cuidadosamente as mãos, conforme a tradição dos antigos. Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado. E seguem muitos outros costumes a que se prenderam por tradição, como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre –. Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus: «Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?». Jesus respondeu-lhes: «Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens». Jesus acrescentou:  «Sabeis muito bem desprezar o mandamento de Deus, para observar a vossa tradição. Porque Moisés disse: ‘Honra teu pai e tua mãe’; e ainda: ‘Quem amaldiçoar o seu pai ou a sua mãe deve morrer’. Mas vós dizeis que se alguém tiver bens para ajudar os seus pais necessitados, mas declarar esses bens como oferta sagrada, nesse caso fica dispensado de ajudar o pai ou a mãe. Deste modo anulais a palavra de Deus com a tradição que transmitis. E fazeis muitas coisas deste género» (Mc 7, 1-13).
       No diálogo/confronto com os fariseus, Jesus coloca a prioridade na conversão interior, na prática da caridade, na justiça, na generosidade para com o semelhante. Os fariseus interrogam Jesus pelo facto dos seus discípulos não lavarem as mãos antes da refeição. Tratava-se não apenas de higiene, mas de uma tradição religiosa. Jesus não perde a oportunidade para nos recentrar no essencial. As tradições podem ser e são importantes na medida em que nos aproximam dos outros e não podem servir de desculpa ou de justificação para não ajudarmos os outros. Pelo contrário, as tradições só são defensáveis se contribuem para a prática do bem.
       Dests modo, Jesus dá prioridade ao tratamento afável com o semelhante, ainda que algum costume não seja rigorosamente cumprido...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Conversão de SÃO PAULO, Apóstolo

Nota biográfica:
       Aguerrido perseguidor dos discípulos de Jesus, Paulo dirigia-se para Damasco, quando, inesperadamente, o Senhor Ressuscitado lhe aparece e Se lhe revela. Vencido pela graça, entrega-se, incondicionalmente a Cristo, que o escolhe para Seu apóstolo e o encarrega de anunciar o Evangelho, em pé de igualdade com os Doze.
       Este encontro marcou profundamente a vida, o pensamento e a acção deste Apóstolo. Paulo descobriu, nesse momento, o poder extraordinário da graça, poder capaz de transformar um perseguidor em Apóstolo. Descobriu, igualmente, que Jesus Ressuscitado Se identifica com os cristãos («Porque Me persegues?»).
       Mas este acontecimento foi também de importância decisiva para o desenvolvimento da Igreja. O convertido de Damasco, na verdade, será o Apóstolo que mais virá a contribuir para a expansão missionária da Igreja entre os povos pagãos.

       "Saulo, respirando ainda ameaças de morte contra os discípulos do Senhor, foi ter com o sumo sacerdote e pediu-lhe cartas de recomendação para as sinagogas de Damasco, a fim de trazer algemados para Jerusalém quantos seguissem a nova doutrina, tanto homens como mulheres. Na viagem, quando estava já próximo de Damasco, viu-se de repente envolvido numa luz intensa vinda do Céu. Caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: "Saulo, Saulo, porque Me persegues?". Ele perguntou: "Quem és Tu, Senhor?". O Senhor respondeu: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te, entra na cidade e aí te dirão o que deves fazer". Os companheiros de viagem de Saulo tinham parado emudecidos; ouviam a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão, mas, embora tivesse os olhos abertos, nada via" (Atos 9, 1-22).

Oração de coleta:
       Senhor Deus, que instruístes o mundo inteiro com a palavra do apóstolo São Paulo, concedei a quantos celebramos hoje a sua conversão a graça de caminharmos para Vós, como ele, dando testemunho da vossa verdade no mundo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Post's relacionados com São Paulo, aqui e aqui.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Tende os rins cingidos...

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada felizes serão se assim os encontrar» (Lc 12, 35-38).
       Os judeus, naquele tempo, hoje apenas alguns, e naturalmente as pessoas de outros povos, trajavam roupas compridas, em formato de vestido/túnica. Depois colocavam um manto que os identificava socialmente, mediante a qualidade do mesmo e os padrões exibidos.
       Quando era necessário servir, as roupas tinham de ser acomodadas, para que não tropeçassem. Assim subiam ligeiramente as roupas, prendendo-as à cintura (rins).
       Jesus utiliza como imagem esta realidade concreta. Ter os rins cingidos significa estar pronto, preparado para todas as eventualidades, preparado mesmo para a morte.
       O cristão, discípulo/seguidor de Jesus Cristo deverá estar sempre comprometido com o bem, com a justiça, com a caridade. Já temos ouvido pessoas a dizer que quando forem mais velhas então passarão a ir à Missa, a fazer tudo certinho; ou quando a situação melhorar poderão nessa altura ajudar: na Igreja ou na Sociedade.
       Porém, o cristão não é ou não deve ser pessoa de adiar, mas viver agora, comprometer-se agora, (re)organizar o seu tempo e as suas energias para hoje. Amanhã pode ser tarde de mais. As condições nunca serão as ideais. Porque não ajudar onde se detecta esta ou aquela necessidade?
       A santidade não se conquista no fim, mas na caminhada...

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Santa Teresa Benedita da Cruz, Virgem e Mártir

Nota Biográfica:
       Edith Stein, filha de pais judeus, nasceu em Breslau no dia 12 de Outubro de 1891. O pai era comerciante de madeiras e morreu antes de Edith ter completado os 2 anos. A mãe, mulher muito religiosa, solícita e voluntariosa, assumiu todo o cuidado da família, mas não conseguiu manter nos filhos uma fé viva.
      Edith dedica-se então a uma vida de estudos na Universidade de Breslau tendo como meta a Filosofia. Os anos de estudos passam até que, no ano de 1921, Edith visita um casal convertido ao Evangelho. Na biblioteca deste casal ela encontra a autobiografia de Santa Teresa de Ávila. Edith lê o livro durante toda a noite. "Quando fechei o livro, disse para mim própria: é esta a verdade", declarou ela mais tarde.
     Tendo-se dedicado aos estudos filosóficos, empenhou-se perseverantemente na procura da verdade, até que encontrou a fé em Deus e se converteu à Igreja Católica. Foi baptizada no dia 1 de janeiro de 1922. Desde então serviu a Deus na função de professora e escritora. Agregada às irmãs carmelitas em 1933 com o nome Teresa Benedita da Cruz por ela escolhido, dedicou a sua vida ao serviço do povo judaico e do povo alemão. Deixando a Alemanha por causa da perseguição aos Judeus, foi recebida a 31 de dezembro de 1938 no convento das carmelitas de Echt (Holanda). No dia 2 de Agosto de 1942 foi presa pelas autoridades que exerciam o poder aterrador na Alemanha e enviada para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau (Polónia), destinado ao genocídio do povo judaico. Aí foi cruelmente morta no dia 9 de Agosto, com 51 anos de idade.
     Tinha sido discípula e depois assistente de Edmund Husserl, o fundador da fenomenologia.
       Foi beatificada a 1 de Maio de 1987, e canonizada a 11 de Outubro de 1998, pelo Papa João Paulo II. É uma das padroeiras da Europa, juntamente com Santa Brígida e Santa Catarina de Sena.
       “Como cristã e judia, ela aceitou a morte com o seu povo e para o seu povo, que era visto como o lixo da nação alemã”, referiu Bento XVI, aquando da uma visita histórica ao complexo de Auschwitz, em 2006.
Oração:
       Senhor, Deus dos nossos pais, que conduzistes a mártir Teresa Benedita ao conhecimento do vosso Filho crucificado e à sua imitação até à morte, concedei, pela sua intercessão, todos os homens conheçam o Salvador, Jesus Cristo, e por Ele cheguem perpétua visão do vosso rosto. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Cristo tomou sobre Si o jugo da Lei, cumprindo plenamente a Lei e morrendo pela Lei e através da Lei. Assim libertou da Lei aqueles que querem receber d’Ele a vida. Mas eles sabem que só poderão recebê-la se ofereceram a sua própria vida. Porque os que foram baptizados em Cristo foram baptizados na sua morte. Submergiram-se na vida de Cristo, para se tornarem membros do seu Corpo, destinados a sofrer e morrer com Ele, mas também a ressuscitar com Ele para a vida eterna, a vida divina.
Para nós, evidentemente, esta vida atingirá a sua plenitude no Dia do Senhor. Contudo, já desde agora – «na carne» – participamos da sua vida quando acreditamos: acreditamos que Cristo morreu por nós para nos dar a sua vida. É esta fé que nos permite ser uma só realidade com Ele, como os membros com a cabeça, e nos abre a torrente da sua vida. Assim, esta fé no Crucificado – a fé viva, que está associada ao vínculo do amor – constitui para nós a entrada na vida e o princípio da futura glorificação. Por isso a cruz é o nosso único título de glória: Longe de mim gloriar-me, senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Quem decidiu aderir a Cristo morreu para o mundo e o mundo para ele. Leva no seu corpo os estigmas do Senhor. É débil e desprezado perante os homens; mas por isso mesmo é forte, porque na fraqueza se manifesta o poder de Deus.
Tendo consciência disto, o discípulo de Jesus aceita não somente a cruz que lhe é imposta, mas crucifica-se a si mesmo: os que são de Cristo crucificaram a sua carne com as suas paixões e concupiscências. Suportaram um combate implacável contra a sua natureza, a fim de que morra neles a vida do pecado e dê lugar à vida do espírito. Porque é esta que importa.
Contudo a CRUZ não é um fim em si mesma: ela eleva-nos para as alturas e revela-nos as realidades superiores. Por isso ela não é somente um símbolo; ela é a arma poderosa de Cristo; é o cajado de pastor com que o divino David sai ao encontro do David infernal e com o qual bate fortemente à porta do Céu e a abre. Então brotam as torrentes da luz divina que envolvem todos aqueles que seguem o Crucificado.
(Edith Steins Werke, ed. L. Gelber - R. Leuven, T. I, Freiburg 1983, pp. 15-16)

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Eu sou a porta das ovelhas...

       Disse-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 1-10).
       O tema do pastoreio volta nesta semana. Um dia depois do Domingo do Bom Pastor ressoa em nós a voz de Jesus Cristo: "Eu sou o bom Pastor... Eu sou a porta das ovelhas... quem entrar por mim será salvo... Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância".
       A temática mostra-nos, uma vez mais, quanto Deus Se coloca do nosso lado, à nossa beira, junto a nós. Em Jesus Cristo vem para nos salvar, para nos constituir verdadeiro povo, para nos formar como família de Deus.

Por sua vez, na primeira Leitura, em São Pedro visualiza-se o mandato de Jesus Cristo. Pedro anuncia a todos oa Boa Notícia, alargando o pastoreio:
Disse-lhes Pedro: Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, como sobre nós ao princípio. Lembrei-me então das palavras que o Senhor dizia: ‘João baptizou com água, mas vós sereis baptizados no Espírito Santo’. Se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós, por terem acreditado no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para poder opor-me a Deus?» Quando ouviram estas palavras, tranquilizaram-se e deram glória a Deus, dizendo: «Portanto, Deus concedeu também aos gentios o arrependimento que conduz à vida» (Atos 11, 1-18).

       São Pedro regressa à comunidade judaica depois de ter estado entre pagãos. A reacção da comunidade é, de início, apreensiva, desconfiada, cautelosa. A salvação em Cristo é manifestada aos judeus, como é que Pedro vai até junto dos incircuncisos, os pagãos?
       Pedro, inspirado pelo Espírito Santo fala-lhes do sonho que teve e como Deus lhe manifestou a necessidade de alargar a mensagem para os pagãos e, ao mesmo tempo, a recepção positiva dos pagãos à mensagem pregada por Pedro, em nome de Jesus Cristo.
       Finalmente, a comunidade compreende que a salvação não é exclusiva de um povo, de uma nação, de um grupo de pessoas, mas destina-se à humanidade inteira... ainda que episódios destes se repitam pela história da Igreja...

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Eu sou Jesus, a quem tu persegues...

       O livro dos Atos dos Apóstolos narra a vida e a missão dos apóstolos, depois da morte e ressurreição de Jesus Cristo, bem assim como a vida das primeiras comunidades cristãs. A evangelização prossegue a bom ritmo, com uma grande ajuda do mais recente Apóstolo: São Paulo. A sua conversão provoca uma grande viragem na evangelização.
       Vale a pena ler o relato apresentado sobre a conversão de São Paulo:
Na viagem, quando estava já próximo de Damasco, viu-se de repente envolvido numa luz intensa vinda do Céu. Caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: «Saulo, Saulo, porque Me persegues?». Ele perguntou: «Quem és Tu, Senhor?». O Senhor respondeu: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te, entra na cidade e aí te dirão o que deves fazer». Os companheiros de viagem de Saulo tinham parado emudecidos; ouviam a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão, mas, embora tivesse os olhos abertos, nada via. Levaram-no pela mão e introduziram-no em Damasco. Ficou três dias sem vista e sem comer nem beber. Vivia em Damasco um discípulo chamado Ananias e o Senhor chamou-o numa visão: «Ananias». Ele respondeu: «Eis-me aqui, Senhor». O Senhor continuou: «Levanta-te e vai à rua chamada Direita procurar, em casa de Judas, um homem de Tarso, chamado Saulo, que está a orar». – Entretanto, Saulo teve uma visão, em que um homem chamado Ananias entrava e impunha-lhe as mãos, para que recuperasse a vista. Ananias respondeu: «Senhor, tenho ouvido contar a muitas pessoas todo o mal que esse homem fez aos teus fiéis em Jerusalém; e agora está aqui com plenos poderes dos príncipes dos sacerdotes para prender todos os que invocam o teu nome». O Senhor disse-lhe: «Vai, porque esse homem é o instrumento escolhido por Mim, para levar o meu nome ao conhecimento dos gentios, dos reis e dos filhos de Israel. Eu mesmo lhe mostrarei quanto ele tem de sofrer pelo meu nome». Então Ananias partiu, entrou na casa, impôs as mãos a Saulo e disse-lhe: «Saulo, meu irmão, quem me envia é o Senhor, – esse Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas – a fim de recuperares a vista e ficares cheio do Espírito Santo». Imediatamente lhe caíram dos olhos uma espécie de escamas e recuperou a vista. Depois levantou-se, recebeu o baptismo e, tendo tomado alimento, readquiriu as forças. Saulo passou alguns dias com os discípulos de Damasco e começou logo a proclamar nas sinagogas que Jesus era o Filho de Deus (Atos 9, 1-20).
        De perseguidor dos cristãos, Paulo cai em si e descobre que Aquele que persegue é o mesmo quem procura: o Caminho, a Verdade e a Vida, Jesus Cristo.
       No Evangelho deste dia, seguindo a temática do Pão da Vida, em que Jesus Se identifica com o verdadeiro alimento que perdurará até à vida eterna, o Pão que desce do Céu, vislumbra-se o desfecho que ora celebramos, a Paixão de Jesus, que aponta para o AMOR que supera a própria morte.
Os judeus discutiam entre si: «Como pode Jesus dar-nos a sua carne a comer?». Então Jesus disse-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia. A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come viverá por Mim. Este é o pão que desceu do Céu; não é como o dos vossos pais, que o comeram e morreram: quem comer deste pão viverá eternamente». Assim falou Jesus, ao ensinar numa sinagoga, em Cafarnaum (Jo 6, 52-59).

terça-feira, 20 de março de 2018

VL – Unção dos pés de Jesus

Na Caminhada da Quaresma, o desafio é descalçar-nos dos sapatos velhos e apertados pelo pecado e pela morte e calçarmos as sandálias do Pescador, o calçado leve do perdão, da atenção e do serviço ao próximo.

Como são belos os pés do mensageiro da paz! Corre veloz pelas montanhas para levar longe a Mensagem de Deus. Na Sagrada Escritura podemos encontrar diferentes momentos em que se acentua o caminhar, os pés que nos impulsionam para os outros. 

No Evangelho de João, num contexto mais próximo da Sua morte, Maria de Betânia unge-lhes os pés. Com efeito, Betânia é um lugar familiar. Perto de Jerusalém, Jesus têm ali amigos com quem pode contar, tais como Maria, Marta e Lázaro. Em outra ocasião, Jesus chama a atenção para Marta pois não apenas anda atarefada como resmungona em relação a Maria que escuta, que está aos Seus pés, a escutá-l’O e a fazer com que Ele se sinta em casa, se sinta acolhido e tranquilamente resguardado (cf. Lc 10, 38-42). É nesta família que se visualiza, por antecipação, o que está para acontecer. Por um lado, a ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-43), sinal da ressurreição futura de Jesus, ainda que a de Lázaro não seja definitiva. Por outro, os adversários de Jesus veem aqui a perigosidade da fama de Jesus, colocando-os a eles em maus lençóis! Se O seguem e O escutam, deixam de nos seguir, de ir ao Templo, vão questionar cada vez mais as nossas opções e exigências, temos que dar-Lhe a morte! 

Entretanto, seis dias antes da Páscoa, Jesus repousa em casa de Maria, Marta e de Lázaro (Jo 12, 1-11). Maria unge-Lhe os pés com um perfume de alto preço! Ninguém está excluído da vida de Jesus e da Sua amizade! Dá preferência aos pobres e excluídos, mas frequenta famílias com posses! A abundância do perfume revela que não há preço quando se trata de cuidar de alguém. Amar não tem preço e nada é desperdício quando se trata de cuidar. 

Por outro lado, a interpretação de Jesus: Maria prepara-me para a sepultura, unge-me antecipadamente. Então o gesto, que revela cuidado e delicadeza de Maria em relação a Jesus, é também simbolicamente significativo, pois é anúncio da morte, da paixão de Jesus. 

Havemos de ver que o processo que conduz à morte de Jesus é precipitado e tão em ciam do sábado, o dia sagrado para os judeus, que não dá para fazer as unções pós-morte e, por conseguinte, no dia seguinte, pela manhazinha irão ao túmulo com perfumes e unguentos...

VL – Descalça-te, vou lavar-te os pés

O Lava-pés (Jo 13, 1-17), por ocasião da Última Ceia, em quinta-feira santa, é um dos episódios mais expressivos na vida de Jesus. O evangelista São João situa-nos no decorrer da Ceia: Jesus levanta-Se, coloca o manto à cintura e lava os pés aos discípulos.

É um gesto de grande humildade e de grande intimidade. Dois aspetos interligados. Quem nos lava os pés? As nossas mães! Enfermeiras, cuidadores de doentes e de idosos. Os pés e o corpo inteiro! A nudez diante de alguém pressupõe intimidade, delicadeza, para que se preserve a dignidade da pessoa. Em bebés, a intimidade expressa a espontaneidade do amor! Na idade adulta, pode ser por “obrigação”, por amor, por gratidão ou por compromisso profissional!

Nas peregrinações a Fátima, um dos serviços mais úteis é precisamente o cuidado dos pés que caminham, suam, se esfolam, ficando mesmo em carne viva, com unhas a saltar dos dedos. Os voluntários têm consciência do bálsamo que são para os peregrinos!

Se olharmos mais longe, vemos que quem lava os pés e prepara o banho dos seus senhores, são precisamente os escravos. Estão para servir! Não têm outra opção. Lavar os pés, tratar das feridas, cuidar da casa, pôr a mesa, arrumar as trapalhadas é uma obrigação imposta. Jesus lava os pés por opção. Como escolha. Como exemplo! Podia ter dito muitas coisas. Poderia fazer um tratado de teologia para explicar como era importante e fundamental que nos puséssemos ao serviço uns dos outros, pois era essa a vontade de Deus. Uma parábola também assentava bem, como por exemplo a exemplar parábola do Bom Samaritano. Com efeito, agora vê-se como o Bom Samaritano nos lava os pés, cuida de nós, trata-nos das feridas corporais mas sobretudo espirituais.

Tu vais lavar-me os pés? Longe te ti! Era o que mais faltava que o Senhor lavasse os pés aos servos! Não, a mim não me vais lavar os pés! Pedro está resoluto, acha-se mais que os outros, também pela afirmação da sua hipotética humildade. A resposta de Jesus é contundente: se Eu não te lavar os pés, não terás parte comigo! A comunhão só é possível a partir do serviço recíproco! Fazei isto em memória de Mim. A Eucaristia faz-se vida no dia-a-dia, no cuidado aos outros! Como Eu fiz, fazei-o vós também uns aos outros! Vai e faz tu do mesmo modo! Dai-lhes vós de comer! Está tudo aqui. Sem serviço não há comunhão, não há Igreja, não há Eucaristia, não há comunidade, não há discípulos de Cristo! O serviço humaniza-nos, irmana-nos e cristianiza-nos.

VL – Lavou-me os pés e não cessou de os beijar

Jesus foi convidado para comer em casa de um fariseu. Uma mulher conhecida na cidade como pecadora aproxima-se de Jesus e começa a lavar-Lhe os pés com as suas lágrimas, a enxugá-los com os cabelos e a ungi-los com perfume. É uma descrição completa (Lc 7, 36-50). O fariseu, Simão de seu nome, interroga-se sobre Jesus: se fosse profeta saberia que esta mulher é pecadora e portanto não a deixaria tocar-lhe!

Humildade e intimidade! Jesus está novamente descalço, com os pés no chão, nesta terra que há de absorver o sangue da Sua entrega a favor da humanidade inteira, a escorrer da Sua carne chicoteada, ferida, crucificada! Porquanto há alguém que se aproxima, a meio de uma refeição e, sem cerimónias, banha-Lhe os pés com as lágrimas. A humilhação! Esta mulher não tem nada a perder. É uma desgraçada, é inferior a um escravo ou a um animal de estimação. Serve para o que serve, vende o corpo mas há muito que perdeu a alma. Ninguém a reconhece como ser humano, apenas como um objeto! Sente-se atraída por Aquele Jesus de Nazaré! Por certo ouviu falar d’Ele, das Suas palavras, do Seu jeito de acolher, de amar, de perdoar! Vai expor-se? Mas exposta já há muito que anda. Em todo o caso sujeita-se a ser escorraçada, uma vez mais, escarnecida, mas atreve-se, o seu coração sussurra-lhe de que poderá estar diante de Alguém que a reconhecerá como pessoa. 

O gesto desta mulher é visto como atrevimento, e parece pôr Jesus em maus lençóis. Ele come com publicanos e pecadores, rodeia-se de maltrapilhos, de mulheres, de crianças, de doentes! Como é que pode ser Profeta? Uma pessoa de bem não se mistura com escumalha! É uma prostituta que Lhe lava os pés! Os gestos traduzem intimidade. É possível que alguns dos convidados de Simão tivessem recorrido aos serviços desta mulher! É possível que tenha sido algum destes a dar-lhe o perfume com que unge os pés de Jesus. Para eles, não passa de uma mulher de má vida, pecadora. Para Jesus, é uma Pessoa a necessitar de atenção e de salvação, pois também ela é filha amada de Deus. 

Também aqui os pés de Jesus servem para aproximar e curar! 

O cuidado ao próximo gera intimidade, comunhão, gera perdão, salva. Claro que Jesus veio para servir e não para ser servido, mas deixa que esta Mulher Lhe lave os pés, não precisando de nenhum discurso para mostrar que o arrependimento, a oração, a súplica não caem em saco roto!

VL – Oito lições dos Magos ao encontro de Jesus

A adoração dos Magos (Mt 2, 1-12), faz-nos reconhecer que Jesus é Rei (ouro), Deus (incenso), e Homem (mirra). Os Magos ajudam-nos a encontrar Jesus. Refere o Papa Francisco que Magos nos levam a abandonar a indiferença dos sacerdotes e escribas e o medo de Herodes e a pôr-nos a caminho.

1.ª Lição: Não viver mergulhado sobre si mesmo, fixar o olhar, o coração e a vida no Céu, onde Se encontra Deus. É como andar de bicicleta, quem olha demasiado para as rodas acabará por cair ou embater em algum obstáculo.
2.ª Lição: Não basta saber coisas acerca de Jesus, é necessário pôr-se a caminho. «Para encontrar Jesus, é preciso entrar em ação, pôr-se a caminho, sempre e sem cessar. Para encontrar o Menino, é preciso arriscar: descobrindo a sua ternura e o seu amor nós nos encontramos» (Papa Francisco).
3.ª Lição: Não desistir diante dos obstáculos. Nunca desistir, pois Deus não desiste de nós. Ama-nos como Pai e ainda mais Mãe (João Paulo I). Chegados à cidade de Jerusalém há outras luzes que ofuscam a Luz que vem do Céu. Porém, os Magos não desistem, perguntam, informam-se, partem para encontrar e adorar Jesus. Resistir, insistir e persistir diante das trevas, das dificuldades, das dúvidas.
4.ª Lição: A alegria do encontro com Jesus. Com efeito, quando a estrela «parou sobre o lugar onde estava o Menino, sentiram grande alegria». A alegria é um termómetro para o encontro com Jesus. Como não lembrar a alegria no encontro de Maria e Isabel e o júbilo de João Batista no seio materno?!
5.ª Lição: Adoração e reconhecimento que só Deus é Deus. Reconhecer que Aquele Menino é Deus e n’Ele Se revela em plenitude o amor de Deus para connosco, ao fazer-Se igual a nós, comprometer-nos-á como iguais, como irmãos que caminham na mesma direção, sob o mesmo olhar e a mesma bênção.
6.ª Lição: Os Magos ofereceram o melhor que possuem: ouro, incenso e mirra. Ofereçamo-nos a nós mesmos a favor dos irmãos.
7.ª Lição: A conversão e mudança de vida são uma constante na vida do cristão. A alegria do encontro dos Magos com Jesus prostra-os em adoração, mas regressam às suas terras por outro caminho. Há que rasgar novos horizontes, novas vias, estradas e avenidas!
8.ª Lição: A vinda de Jesus ao mundo é para todos. Para os que estão perto e para os que estão longe! O desafio papal em colocar a Igreja em saída, indo às periferias (não apenas geográficas, mas sobretudo) existenciais recorda-nos que Jesus veio para todos e a todos deve ser anunciado.

sábado, 10 de março de 2018

Dois homens subiram ao templo para orar

       Oseias presenteia-nos com mais esta belíssimo confissão de fé, de confiança em Deus. Se Ele nos feriu, Ele nos há de curar. Faz lembrar um Pai/Mãe que coloca o filho de castigo mas com a preocupação de o orientar para o bem. E numa imagem que hoje não se usa, a mãe ou o pai que dão uma bofetada no filho, mas que logo abraçam, afaçam, fazem sentir bem, acarinham, curam o filho que se magoou.
Vinde, voltemos para o Senhor. Se Ele nos feriu, Ele nos curará. Se nos atingiu com os seus golpes, Ele tratará as nossas feridas. Ao fim de dois dias, Ele nos fará viver de novo; ao terceiro dia nos levantará e viveremos na sua presença. Procuremos conhecer o Senhor: a sua vinda é certa como a aurora. Virá a nós como o aguaceiro de Outono, como a chuva da Primavera sobre a face da terra. «Que farei por ti, Efraim? Que farei por ti, Judá?» – diz o Senhor – «O vosso amor é como o nevoeiro da manhã, como o orvalho da madrugada que logo se evapora. Por isso os castiguei por meio dos Profetas e os matei com palavras da minha boca; e o meu direito resplandece como a luz. Porque Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos» (Os 6, 1-6).
       O profeta sublinha a conversão, as boas obras, a justiça, o amor, como forma de viver em Deus, remetendo para a misericórdia de Deus mais que todas as tradições ou sacrifícios. Também assim no Evangelho de hoje, não vale tanto o ritualismo, o cumprimento de uma tradição, de uma obrigação (ainda que religiosa), mas sobretudo uma atitude permanente de conversão e de despojamento diante de Deus.
       O publicano sai justificado, diante de Deus posta-se como "nada", precisado da graça de Deus. O fariseu aparece diante de Deus como "tudo", não precisa nem de Deus. Mas escutemos e meditemos o texto:
Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros: «Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo’. O publicano ficou a distância e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: ‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’. Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» ( Lc 18, 9-14)