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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Deus e o tufão das Filipinas: O dilema de Epicuro

       1. Como reagir na fé, a cenários de tragédia e de horror, como aqueles que vimos, esta semana, com imagens, que nos chegaram das Filipinas e do Vietnam, e de toda a região atingida pelo furacão Hayan?!
       Perante a devastação da catástrofe ecológica, do incontável número de mortos, do inaceitável sofrimento das crianças, da insuportável tortura da fome, diríamos, que, de algum modo, a realidade do mal, volta a pôr Deus no banco dos réus!
       Voltamos, quase sem querer, ao velho dilema de Epicuro: “Ou Deus quer tirar o mal do mundo, mas não pode” e então não é um Deus todo-poderoso! Ou “Deus pode tirar o mal do mundo, mas não quer” e então não nos ama verdadeiramente! Ou, se “Deus não quer tirar o mal do mundo e não pode” então não é nem bom, nem omnipotente”. Como compaginar afinal a fé num Deus, que é Amor, com uma “natureza que “se vinga sobre os seus filhos”? Como aceitar o silêncio de Deus, face ao grito dos inocentes?

2. Neste lugar não é possível um debate sério, sobre o assunto. Mas ainda assim, vou tentar dizer algumas coisas simples (?), que nos ajudem a ir ao fundo da questão.
       1º O mundo e a humanidade são, na verdade, obra do amor criador de Deus. Ao decidir, livremente, criar este mundo, Deus não podia criar algo igual a Si mesmo, algo que fosse infinitamente perfeito, porque então confundir-se--iam o Criador e a própria criatura! Ao criar as coisas, essas coisas só podiam ser o que são: coisas finitas, inacabadas, imperfeitas, em processo, em evolução, em transformação, em aperfeiçoamento, no tempo presente. Se as coisas deste mundo fossem infinitas e perfeitas, deixariam de ser “coisas” e seriam “de outro mundo”. Portanto, ao ser criado este mundo, ele não poderia ser outra coisa senão uma realidade finita!
       É, portanto, próprio deste mundo, e desta humanidade que somos, a finitude, a nossa imperfeição, que se vai superando, apesar dos nossos limites! Querer um mundo sem esta imperfeição, é praticamente como conceber um círculo quadrado!

       2º Essa finitude, de que afinal não nos livraremos, no tempo presente desta vida, traz consigo a imperfeição moral do pecado, e arrasta consigo a imperfeição física do corpo, com a doença e a morte! Esta imperfeição, que resulta de um mundo que é finito, de um mundo sempre em gestação, explica, por exemplo, as indisposições da Natureza, as suas convulsões, os seus desmandos, os seus vulcões e furacões! A criação está em evolução, em crescimento. E, neste processo de crescimento, há dor, convulsão, agitação. Não há por que se admirar disso. “Ainda não é o fim”.
       Mas caberia perguntar aqui: não são muitas destas catástrofes naturais consequência da nossa desordem espiritual, do nosso abuso desordenado dos recursos da Terra? Não foram feitas construções, em lugares desadequados?! Temos escutado o grito da Terra?

       3º Mas – diremos nós então - se ao criar este mundo, Deus contava com estes “limites” todos, não seria melhor não o ter feito? Se é assim, o mundo e a vida do homem, valem mesmo a pena? Basta olhar para a tragédia destes dias. Nasce aqui e ali uma criança, a quem os pais dão o nome do tufão Hayan. Não é uma mensagem de esperança, de confiança, de certeza, que apesar de tudo, vale a pena?! Não é esta “força da natureza” um ato de fé, na vida do homem, que é um ser finito, mas com uma abertura infinita? Não é este nascimento um sinal de que o mal não pode destruir, em definitivo, a nossa vida?!
       3. Em que ficamos, então, relativamente ao dilema, com que nos defrontámos ao início? Eu diria, olhando agora, para o nosso Cristo Crucificado e ressuscitado:
       Sim, Deus quer tirar o mal deste mundo! E pôde fazê-lo, entrando neste mundo e lutando contra toda a espécie de mal. E pôde vencê-lo, tornando-se Ele próprio a mais injusta vítima do mal no mundo! Neste Deus de Jesus Cristo, Crucificado por nós, o mal tornou-se o lugar onde o amor venceu, onde o amor se revelou em toda a sua plenitude, onde o amor foi mais forte do que a morte! Sim. Deus quer e pode tirar o mal deste mundo! Agora, Deus está, neste mundo, do nosso lado, do lado de cada pessoa, para vencer o mal. Deus luta por mim, Deus luta connosco, contra toda a espécie de mal. E chama-nos a essa luta, para que o escândalo do mal dê lugar ao milagre do bem.

       4. Disse o Cardeal Tagle, das Filipinas: “vemos destruição e ruínas em todos os lugares, mas também vemos a fé e o amor surgir daquelas ruínas e isso torna-nos pessoas mais fortes”. E, mais uma vez, recordo as sábias palavras do Papa Francisco: “Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença, que o acompanha, de uma história de bem que se une a cada história de sofrimento, para nela abrir uma brecha de luz” (LF 57).

       5. Para terminar, com algo concreto e menos especulativo, vem-me à mente aquela pergunta que um dia fizeram a Madre Teresa: “O que pensa de Deus, quando vê este mundo cheio de injustiças, de solidão, de tragédias”. Ela respondeu, de imediato: “só penso numa coisa: ir ao encontro de alguém, fazer algo de concreto, para que este mundo se torne melhor”.
       Seja este o nosso compromisso, no meio de um mundo, de um país e de uma fé em crise: rezar e trabalhar, sempre e sem desanimar, por um mundo melhor!

Amaro Gonçalo
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Sugestão de leitura para filósofos:

A. TORRES QUEIRUGA, Creo emn Dios Padre, Ed. Sal Terrae, Col. Presencia teológica, Santander 1986, 109-149.

terça-feira, 9 de março de 2010

Será o fim do mundo?

       Depois do Haiti, da Madeira, do Chile, dos temporais na Europa, agora o sismo na Turquia, em que morreram mais de 60 pessoas. É nesta perspectiva que achamos relevante este texto do Pe. António Rego, ajudando-nos também ele a enquadrar as tragédias do tempo presente:

 Nada sabemos fechados no casulo estreito do nosso tempo, do nosso espaço e até dos factos que nos parecem o fim do mundo e que não passam duma gota de água no oceano incomensurável de Deus

       Acontece no dia-a-dia. Ou melhor, num dia entre muitos dias. Parece que se acorda com tudo a correr ao contrário. O trabalho urgente a concluir e chega um telefonema a decretar outro mais urgente, uma dor de cabeça que não vem a propósito, um assunto que chegou ao fim mal concluído, um problema novo que se interpôs a todos, alguma sensação de nervosismo com a ideia de que tudo corre mal.
       Para não falar no que está por fazer, na culpa de alguns insucessos, choques, tensões, com o ego de rastos, a triste sensação de incapacidade para iniciar um novo projecto, o cansaço que desaba e parece bloquear qualquer saída para qualquer problema. E tudo se enrola numa visão mais alargada na profissão, na família, no país de aspecto insolúvel, na economia que parece de terra queimada, na corrupção e esperteza como segredo de triunfo, no poder arrogante dos vencedores de sempre.
       E depois o fio da história, o bem e o mal, a incerteza do fim, a dúvida sobre o amanhã, os tons carregados de cinzento que se abatem sobre o humor, a resistência, a alegria, a relação com os outros, a estima por si próprio. E uma sequência de tragédias naturais exaustivamente exibidas cujas origens reais não sabemos deslindar. Tudo embrulhado na ementa informativa servida a cada refeição, numa selecção quase sádica e macabra de acontecimentos como se não houvesse outra forma de pintar a história a não ser em cores de sangue e dor, com tiros, lágrimas e gemidos lancinantes à mistura.
       Será esta uma representação real da vida ou estaremos marcados pela náusea de Sartre, o niilismo de Nietzsche, o desespero de Hamlet, a fúria de Herodes e a loucura de Hitler, ou a depressão e ansiedade dum pós modernismo insano?
       Bem diferente é a teoria de Jesus. E a sua prática: o desprendimento dos “lírios do campo”, a providência sobre “os cabelos da vossa cabeça”,a certeza de que “nada do que pedimos é em vão”, a confiança “no pão que nos concede” em vez do escorpião, a certeza de que Ele venceu o mundo – tudo isso que nos sustenta – e nos projecta para além do desencanto que pode ser um dia mal passado ou uma visão azeda da história.
       Nada sabemos fechados no casulo estreito do nosso tempo, do nosso espaço e até dos factos que nos parecem o fim do mundo e que não passam duma gota de água no oceano incomensurável de Deus. Há negrumes na alma que apenas a sabedoria de Deus pode romper.

António Rego, in Agência Ecclesia.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Tragédias humanas NÃO são castigo de Deus

       Bento XVI visitou este Domingo a paróquia romana de São João da Cruz, num dia em que repetiu apelos para não se considerar as tragédias humanas como um castigo divino.
       Tanto na homilia da Missa a que presidiu de manhã como na alocução do meio-dia, da janela dos seus aposentos, antes do Angelus, Bento XVI comentou uma passagem do Evangelho, em que Jesus se vê interpelado sobre a morte de várias pessoas em circunstâncias trágicas.
       “Perante a apressada conclusão de considerar o mal como efeito da punição divina, Jesus restitui a verdadeira imagem de Deus que é bom e não pode querer o mal, advertindo sobre a tendência a pensar que as desgraças são o efeito imediato de culpas pessoas daqueles a quem acontecem”, disse Bento XVI
       O Papa frisou que Jesus convida a fazer uma diferente “leitura” desses factos, colocando-os na perspectiva da conversão: “as desventuras, os acontecimentos funestos, não devem suscitar em nós curiosidade ou a busca de alegados culpados, mas devem antes constituir ocasiões para reflectir, para vencer a ilusão de poder viver sem Deus, e para reforçar, com a ajuda do Senhor, o empenho de mudar de vida”.
       “Perante o pecado, Deus revela-se cheio de misericórdia e não cessa de chamar de novo os pecadores a evitarem o mal, a crescerem no seu amor e a ajudarem concretamente o pobre desamparado, para viverem a alegria da graça. Mas a possibilidade de conversão exige que aprendamos a ler os factos da vida na perspectiva da fé, isto é, animados pelo santo temor de Deus”, prosseguiu.
       Bento XVI assinalou que “perante sofrimentos e lutos, é autêntica sabedoria deixar-se interpelar pela precariedade da existência e ler a história humana com os olhos de Deus, o qual, querendo sempre e só o bem dos seus filhos, por um desígnio imperscrutável do seu amor, por vezes permite que sejam provados pelo sofrimento para os conduzir a um bem maior”.
       ... “É precisamente o fechar-se ao Senhor, o não percorrer o caminho da conversão de si próprio, o que leva à morte, à morte da alma. Na Quaresma, cada um de nós é convidado por Deus a imprimir uma viragem à sua existência, pensando e vivendo segundo o Evangelho, corrigindo alguma coisa no próprio modo de rezar, de agir, de trabalhar e nas relações com os outros”, apontou.
       ... Numa das últimas intervenções do seu dia, Bento XVI falou aos peregrinos portugueses presentes desta vez na Praça de São Pedro: “Saúdo cordialmente a todos os peregrinos de língua portuguesa, de modo particular aos fiéis paroquianos de Santo António de Nova Oeiras, no Patriarcado de Lisboa, desejando que esta vinda a Roma vos confirme na fé e na necessidade de a transmitir aos outros, porque é dando a fé que ela se fortalece. A Santíssima Virgem guie maternalmente os vossos passos. Acompanho estes votos, com a minha Bênção Apostólica”.

Leia a Notícia completa na Agência Ecclesia.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O grande dilúvio

       Nestas semanas, desde o dia 12 de Janeiro, quando o Haiti sofreu um forte sismo, com centenas de mortos, desalojados, chegaram até nós notícias de cheias, tempestades, mau tempo: Madeira, ali bem perto com mais de 40 mortes e vários feridos e desalojados; a sismo do Chile que matou mais à volta de 800 pessoas, deixando feridas muitas mais; os temporais que varreram a Europa, com um rasto de violência e morte.
       Inevitavelmente muitas questões se levantam e muitas leituras se fazem: castigo de Deus, abuso do homem, coincidências infelizes. Sobre a leitura que fizemos aquando do sismo do Haiti pode ler-se de novo: Tragédia do Haiti - reflexões avulsas, e sobre o temporal da Madeira: Temporal da Madeira e Caridade, e Haiti, Madeira e Chile: notas avulsas. 
       Este texto, publicado no Voz Jovem, que fala do grande Dilúvio, ao tempo de Noé, em que numa leitura imediata se diz que foi o castigo de Deus pelo pecado do Homem, e que recolhe a oralidade sobre acontecimentos dramáticos passados. No entanto, o texto tem a preocupação de nos mostrar o quanto Deus nos ama, sempre disposto a levar-nos à Verdade e ao Bem, para nos encontrarmos com Ele em terra firme.
Noé e o grande Dilúvio:
       Noé abanou a sua cabeça em descrédito. Deus continuou a indicar os pormenores.
       “Lembra-te, Noé, que este dilúvio vai durar muito tempo. Irás necessitar de todos os tipos de alimentos para vós e para os animais. Agora – ao trabalho!”
       Noé fez exatamente o que Deus lhe havia pedido. Ele e a sua família cortaram as árvores e construíram o barco. Cobriram-no com alcatrão por dentro e por fora para que nem uma gota de humidade pudesse infiltrar-se.
       Depois, ceifaram campos de cereais. Encheram cesto após cesto com fruta e secaram-na ao sol. Arrecadaram estes mantimentos nas despensas da arca.
       Então deram início à tarefa mais espantosa de todas: chamaram os animais a si e guiaram-nos para dentro do barco. Por fim, todas as pessoas e animais se encontravam seguros a bordo. Deus fechou a porta depois de entrarem. Passaram-se sete dias.
       Então Deus ordenou que a chuva começasse: primeiro, algumas gotas grossas salpicaram a terra seca; depois, Noé escutou um som rápido da chuva a bater no topo do barco. Olhou para fora: uma torrente de água caía do céu.
       Assim que a chuva começou, não havia forma de suster a inundação. Os níveis dos rios subiram e as suas margens transbordaram. A água encheu vales e começou a subira acima dos montes. A pesada embarcação de Noé começou a flutuar.
       Todos os seres vivos a bordo estavam secos e seguros; todo o resto do mundo foi levado pelas águas. Choveu durante quarenta dias e quarenta noites e, por essa altura, o mundo estava completamente submerso. Havia apenas água e céu cinzentos… e a arca de Noé e Deus.

Mónica Aleixo, in Voz Jovem, Fevereiro 2010.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Esperança apesar do Mal

       É impossível não ver a Cáritas como uma referência de compromisso, de esperança, de fé e de amor pelo próximo. Um sinal concreto de que é sempre possível acreditar.

   
       "Ilusão das ilusões”, disse Qohélet, “ilusão das ilusões: tudo é ilusão. Uma geração passa, outra vem; e a terra permanece sempre”. O que vale, afinal, o ser humano?
       Após termos sido confrontados, há pouco mais de um mês, com as imagens tremendas da devastação no Haiti, chegam da Madeira outras igualmente devastadoras, que deixaram atrás de si um inimaginável rasto de morte e destruição.
       Impossível não ficar perturbado perante a desfiguração quase completa de uma cidade, a perda de tantas vidas, o sofrimento de quem nada fez para o “merecer” nem o poderia prever.
       É essa aliás a questão mais dolorosa para quem vive esta situação de longe e não tem de estar mergulhado na lama ou a tentar arrancar do seu caminho as pedras que impedem uma vida normal, construída tantas vezes à custa de muito trabalho e suor: Porquê? Porque sofre o inocente? Porque morrem uma jovem mãe, uma criança, um idoso que dormia descansado?
       A violência do que vemos é assim intensificada por estas perguntas que nos acompanham perante tais imagens. Custa acreditar que o sofrimento tenha um qualquer objectivo purificador, que a vida tenha um sentido para lá deste “sem-sentido” em que a natureza nos reduz a uma terrível insignificância.
       Em boa verdade, é nestas situações que nos confrontamos com uma verdade incontornável sobre a nossa humanidade: não temos respostas. Pensamos que sim, gostamos de acreditar que o questionamento constante terá um resultado óbvio, feliz, mas às vezes nem mesmo o fim do caminho parece lançar alguma luz sobre o percurso que se acabou de fazer. Resta-nos questionar. E acreditar mesmo quando, aparentemente, não há esperança.
       Job, símbolo bíblico do sofrimento do inocente, dizia a certa altura: “Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro e que os meus olhos nunca mais verão a felicidade”. Mergulhado num sofrimento terrível, tinha respostas definitivas. Enganava-se.
       Sem respostas, pelo menos as que desejaríamos ou as suficientemente óbvias para que as possamos perceber, parece impossível que haja lugar para a esperança. Felizmente, há alguns dos melhores entre nós que não param perante estas calamidades e lançam imediatamente mãos à obra para que o terrível presente destrua apenas o passado (se assim tiver sido) e não hipoteque por completo o futuro.
       No nosso país, quando chegam estes momentos, é impossível não ver a Cáritas como uma referência de compromisso, de esperança, de fé e de amor pelo próximo. Um sinal concreto de que é sempre possível acreditar. Em todas as lutas.
Octávio Carmo, Editorial, in Agência Ecclesia.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Haiti, Madeira e Chile: notas avulsas!

       As notícias que nos chegam pelos meios de comunicação social raramente são positivas. Nos últimos tempos, esta realidade é ainda mais evidente. Para lá das tricas políticas, o sismo no Haiti, que fez milhares de mortos e de desalojados; o temporal que se abateu na Madeira, que provocou 42 mortos, em números oficiais, uma centena de feridos, e várias pessoas desalojadas, e o terramoto/tsunami no Chile, que já conta mais de 700 mortos, provocam-nos apreensão, comovem-nos.
       Nestes casos, pelo menos directamente, não tem a mão humana, como em muitas guerras visíveis e invisíveis provocadas por pessoas e povos mais ou menos poderosos, mais ou menos merdosos. Isso não nos deixa, de todo, tranquilos, se bem que as tragédias provocadas pela mão do homem são muito mais sangrentas, algumas delas avassaladoras: guerra, fome, violência, toxicodepenência, conflitos transfronteiriços, gangs destabelizadores, corrupção com tantas máfias a desfazeram outras tantas famílias; acidentes rodoviáros; as duas Guerras Mundiais; o holocauto em que foram mortos 6 milhões de judeus; o comunismo na China, onde milhares de ciranças são mortas à nascença, e tantos outros horrores; os projecos nucleares que não apenas matam mas deixam gerações destruídas genéticamente; guerras civis sem fim; projec o conflito israel-árabe, a pena de morte ao desbarado,...
       Estes fenómenos da natureza, no entanto, movem muito mais a nossa emoção. No caso anterior sempre se arranja uma desculpa ou uma justificação. Neste caso, é a Natureza! Mas como culpar alguém? Deus? O homem? A Natureza cansada, revoltada? Nem tudo tem uma explicação, embora sobre os sismos e temporais possa haver dados científicos que explicam como se formam e em que condições, mas não o alcance de destruição material e sobretudo humano.
    
       Algumas notas avulsas:
       É abusivo culpar Deus, mesmo que se diga que é para castigar o mal. O homem castiga-se a ele mesmo quando se desvia do bem. Deus, o nosso bom Deus, é Pai, pronto a acolher-nos em todas as circunstâncias...
       É abusivo culpar o homem, ainda que, muitas situações, uma ou outra cheia, uma ou outra tempestade derivem da poluição atmosférica ou da interveção gananciosa do ser humano. Mas nesses caso há que atender aos dados científicos, antes de procurar culpados ou justificações!
      Em todo o caso há tantas lições a tirar destas situações: o ser humano é capaz de dar o seu melhor - quanta ajuda ao Haiti; quanta disponibilidade para ajudar a Madeira! Há sempre alguém que aproveita para se servir, olhe-se para as pilhagens, os gestos de violência, o tráfico de bens e de pessoas... mas não superam a partilha solidária.
      Por outro lado, são ocasiões como estas que nos devem ajudar a reflectir na vida e nas quezílias que por vezes nos desgastam e nos levam a situações depressivas. É oportunidade para nos lembrarmos da efemeridade da vida e da relatividade das seguranças mundanas, comprometendo-nos mais com os outros, dando em cada tempo o melhor de nós mesmos, enquanto há tempo, enquanto é hora.
       Para uns e outros poderá ser oportunidade para abrirmos o nosso coração a Deus, só Ele garante a nossa vida em plenitude, da vida passageira para a eternidade: se tudo acaba com a morte, valerá o nosso empenho por transformarmos o mundo? Se tudo acaba, que sentido terá o sofrimento, sobretudo o sofrimento inocente? E se a justiça for apenas a humana, onde ficará espaço para a redenção? Para a justificação?
       Quando não nos restar mais nada, façamos silêncio, rezemos, deixemos que a voz de Deus nos provoque, rezemos pelos que partiram, rezemos pelos que ficaram, rezemos por nós, abramo-nos ao mistério divino para melhor acolhermos o mistério humano... É tempo de apreciar ainda mais a vida e gastá-la no bem, no que pode perdurar para a vida eterna!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Temporal da Madeira e a Caridade

Desta vez formos surpreendidos pelas notícias que nos chegaram pelos meios de comunicação social, da calamidade da Madeira, fruto de chuvas intensas e de ventos fortes, provocando o transvase das três principais ribeiras do Funchal, inundando ruas, casas, levando pela frente carros, pessoas, destruindo árvores, habitações, estradas, pontes, com aldeias, lugares, pessoas, a ficarem isoladas.
A morte de várias pessoas, os números oficiais apontam para já para 42, uma vez que ainda não há condições de recolher dados mais concretos, bem como dezenas de feridos. Em todo o caso o menos importante são mesmo os números, nestas horas são importantes as pessoas, cada pessoa, e ainda que fosse apenas uma vítima já deveria (e deve) merecer a nossa atenção, a nossa solidariedade e a nossa oração.
As imagens do sismo no Haiti comoveram-nos.
Outra catástrofe, agora, mais perto de nós, pode ter um efeito mais distante.
Quando nos habituamos às mesmas imagens, por vezes, familirizamo-nos tanto que já não lhes devotamos a mesma preocupação. É o efeito das imegens muitas vezes repetidas.
Mas, em todo o caso, são momentos dolorosos, os do Haiti, como os da Madeira.
Uma família que perde todos os seus bens, que não tem alimento, não tem vestuário, não tem casa, merece-nos toda a consideração.
Uma família que perde um dos seus membros, ou dois, ou mais, deve sensibilizarmos em qualquer circunstância, é um momento extremamente doloroso.
Tal como aquando do sismo do Haiti, a solidariedade para com as pessoas da Madeira não se fez esperar, a solidariedade das palavras, dos meios, da oração. Vários organismos mobilizaram-se para resgatar o que é possível, procurando ajudar as pessoas que se encontram isoladas, que estão feridas, ajudando a reconstruir.
Destacamos também o papel da Igreja. A Cáritas Portuguesa disponibilizou de imediato € 25.000,00, através da Cáritas do Funchal.
Associemo-nos também pela oração. Que Deus acolha os que partiram, dê coragem aos que perderam familiares. Que as nossas preces possam confortar todos os que desesperam, e que através das pessoas mais próximas encontram um mão amiga, acolhedora, confortante.
Deus abençoe o povo da Madeira, nesta hora de tristeza e luto.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010