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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Hans Urs Von Balthasar - Em Maria a Palavra faz-Se Carne

"A Palavra de Deus que quer tomar carne em Maria, necessita de sim 'sim' acolhedor, que seja dito por toda a pessoa, corpo e espírito, sem qualquer restrição (mesmo inconsciente) e que ofereça toda a natureza humana como lugar de incarnação. Receber e permitir não tem que ser uma atitude passiva; perante Deus, receber e permitir, quando realizados na fé, são sempre uma altíssima atividade" (p 103).
"Nenhuma espiritualidade aprovada pela Igreja pode permitir-se pretender chegar a Deus passando ao lado deste modelo de perfeição cristã e não sendo também mariana. De facto não há em toda a realidade eclesial nenhum outro momento em que a resposta de fé esperada da Igreja tenha soado de forma mais pura e tenha sido vivida de forma mais consequente" (p 120).
in RATZINGER e VON BALTASHAR. Maria, primeira Igreja. AQUI.

Ratzinger/Bento XVI - Maria é habitável por Deus

"Tudo o que é dito na Bíblia da ecclesia vale para a Maria, e vice-versa: o que a Igreja é e deve ser, é por ela aprendido na contemplação de Maria. Esta é o seu espelho, a verdadeira medida da sua natureza, porque existe à medida de Cristo e de Deus, 'habitada' por Ele. E para que existiria a Igreja senão para ser habitação de Deus no mundo? Deus não age com coisas abstratas. Ele é Pessoa, e a Igreja é pessoa. Quanto mais nós e cada um de nós nos tornarmos pessoa, pessoa no sentido da inabitação de Deus em nós, Filha de Sião, tanto mais seremos um e tanto mais seremos Igreja, e tanto mais a Igreja será ela própria" (p 64).
"Ela vive de tal maneira que é permeável a Deus, habitável por Ele. Ela vive de tal maneira que se torna um lugar para Deus. Ela vive ao ritmo da dimensão comunitária da história santa de tal forma que não nos aparece bela o estreito e mesquinho 'eu' de um indivíduo isolado, mas sim o todo do verdadeiro Israel" p 65
"Deus não dá menos do que Ele próprio. O dom de Deus é Deus, que, enquanto Espírito Santo, é comunhão connosco. 'És cheia de graça' - isso significa portanto também que Maria é uma pessoa totalmente aberta, que se dilatou totalmente, que se entregou audaciosa e ilimitadamente, sem temor quanto ao seu próprio destino, nas mãos de Deus. Significa que vive inteiramente a partir da relação com Deus e no interior dessa relação. Maria é uma pessoa à escuta e em oração, cujo sentido e cuja alma estão despertos para múltiplos apelos sussurrados pelo Deus vivo. É um ser orante, totalmente tenso para Deus e, por isso, um ser amante com a amplitude e a generosidade do verdadeiro amor, mas também com a sua capacidade infalível de discernimento e com disponibilidade para o sofrimento que existe no amor" (p 67).
"Engrandecer o Senhor - isso significa não se engrandecer a si próprio, ao seu próprio nome, ao seu próprio 'eu', ampliar-se e reivindicar um lugar, mas dar-lhe espaço a Ele para que se torne presente no mundo. Quer dizer: tornarmo-nos mais verdadeiramente o que somos, não uma monada fechada que só se representa a si própria, mas imagem de Deus. Significa libertarmo-nos do pó e da fuligem que torna a imagem opaca e a recobre, e tornarmo-nos verdadeiramente pessoas, inteiramente referidas a Deus" (p 73).
"Só nela a imagem da cruz se cumpre inteiramente, porque é a cruz assumida, a cruz partilhada no amor que nos permite, na sua compaixão maternal, experimentar a compaixão de Deus. Assim, a dor da mãe é dor pascal que já agora opera a abertura da transformação da morte à presença salvífica do amor" (p 77).
"Maria é a Igreja viva. Sobre Ela desce o Espírito Santo e assim se torna no novo Templo. José, o justo, é tornado gerente dos mistérios de Deus, como pai de família e protetor do santuário que constituem a Esposa e o Verbo nela" (p 86).
in RATZINGER e VON BALTASHAR. Maria, primeira Igreja: AQUI.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Ratzinger/Bento XVI - a fé de Maria inicia a Nova Aliança

"Tal como a fé de Abraão esteve no início da Antiga Aliança, assim a fé de Maria inicia a Nova Aliança na cena da Anunciação... Maria põe o seu corpo, todo o seu ser à disposição de Deus para abrigar a Sua presença..." (p 46).
"No momento da queda começa também a promessa" (p 49)
"Na saudação do anjo torna-se claro que a bênção é mais forte que a maldição. O sinal da mulher tornou-se sinal de esperança, a mulher torna-se a guia da esperança"  (p 50).
"A Igreja não inventou nada de novo quando começou a enaltecer Maria; não desceu do cume da adoração do Deus único para um mero louvor humano. A Igreja faz o que deve fazer e o que lhe foi cometido desde o princípio" (p 59).
"O louvor de Maria, conservado, pelo menos, num dos ramos da tradição do cristianismo mais antigo, é o fundamento do Evangelho de infância de Lucas. O registo destas palavras no Evangelho eleva esta veneração de Maria  de um mero facto a uma tarefa da Igreja de todos os lugares e de todos os tempos.
A Igreja negligencia algo que lhe é comandado se não louva Maria. Quando o louvor de Maria nela emudece, a Igreja afasta-se da palavra bíblica. Quando isso acontece também não louva a Deus de forma suficiente. Pois, por um lado, conhecemos Deus através da sua criação: 'O que é invisível em Deus - o seu eterno poder e divindade - tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras' (Rom 1,20). Por outro lado, conhecemos Deus, de forma mais próxima, através da história que ele fez com os homens...
O verso do Magnificat mostra-nos que Maria foi uma dessas pessoas que se inserem de forma muito especial no nome de Deus, tanto que não O louvamos suficientemente quando A pomos de parte" (pp 60-61)
"O fundamento da nossa tristeza é a caducidade do nosso amor, a supremacia da finitude, da morte, do sofrimento, da maldade, da mentira; é a nossa solidão no mundo contraditório, no qual os misteriosos e luminosos sinais da bondade de Deus irrompendo pelas frinchas do mundo, são postos em causa pelo poder das trevas, o qual ou faz com que se atribua o mal a Deus ou faz com que Deus pareça ausente" (p 63).
in RATZINGER e VON BALTASHAR. Maria, primeira Igreja: AQUI.

Ratzinger/Bento XVI - A Igreja precisa do mistério mariano

"A Igreja não é um produto 'feito' mas sim a semente viva de Deus que quer crescer e amadurecer. Por isso a Igreja precisa do mistério mariano, por isso é ela própria mistério mariano. A fecundidade só pode acontecer nela quando a Igreja se coloca sob este signo, quando se torna terra sagrada para a Palavra" (p 11).
"Igreja é mais que 'povo', mais que a estrutura e ação: nela vive o mistério da maternidade e do amor esponsal que permite a maternidade. A piedade eclesial, o amor pela Igreja só é realmente possível no seio deste mistério. Onde a Igreja é vista só como masculina, estrutural, institucional, aí desvanece-se o que é a especificidade da Igreja..." (p 20)
"A Igreja é o corpo, a carne de Cristo na tensão espiritual do amor, na qual se cumpre o mistério esponsal de Adão e Eva, e, assim, na dinâmica da unidade que não elimina o face a face. Isto quer dizer que precisamente o mistério eucarístico-cristológico da Igreja, anunciado na expressão 'corpo de Cristo', preserva a sua justa medida só ao incluir o mistério mariano: a serva que escuta, que - tornada livre pela graça - diz o seu fiat e nele se torna esposa e, por isso, corpo" (p 21)
in RATZINGER e VON BALTASHAR. Maria, primeira Igreja: AQUI.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

RATZINGER . Von BALTHASAR - Maria, primeira Igreja

Cardeal JOSEPH RATZINGER e HANS URS VON BALTASHAR (2014). Maria, primeira Igreja. Coimbra: Gráfica de Coimbra 2, 190 páginas.

       Uma colaboração curiosa entre dois dos maiores teólogos do século XX. Aquele que viria a ser eleito Papa, adotando o nome de Bento XVI, Cardeal Ratzinger, alemão. Hans Urs Von Balthasar, teólogo e sacerdote suíço, morreu (1988) dois dias antes de ser escolhido para Cardeal pelo Papa João Paulo II.
       O livro foi publicado pela primeira vez na Alemanha em 1980. A versão que temos entre mãos é a tradução portuguesa da quarta edição alemã de 1997, aumentada com novos artigos dos dois amigos que enriqueceram o pensamento da Igreja na segunda metade do século XX.
       É certo que não se devem ler os livros só pelo nome dos seus autores. Mas estes dois, em conjunto, ou individualmente, são uma garantia de fidelidade a Jesus Cristo e ao Seu Evangelho, de fidelidade comprometida com a Igreja e com a sociedade. Hans Urs Von Balthasar foi considerado como o homem "mais culto" do século XX, e um dos maiores teólogos do seu tempo. De Ratzinger não existem dados novos: um dos teólogos mais brilhantes do século XX e nos começos do século XXI. Ligação dos dois ao papa que agora é santo, João Paulo II, que elevaria Balthasar a Cardeal e que escolheu o Cardeal para o ajudar no serviço da Igreja, nomeando-o como Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé e não lhe concedendo a reforma que algumas vezes lhe solicitou. Até ao fim, Ratzinger foi o "braço direito" de João Paulo II, sucedendo-lhe no ministério petrino.
       Mas vamos ao livro que motiva esta sugestão de leitura. Os textos recolhidos foram escritos como intervenções, artigos, homilias, sintonizados na figura ímpar de Maria, a primeira Igreja. São textos acessíveis, de fácil compreensão, como estamos habituados em Ratzinger/Bento XVI e que não difere muito no que se refere a Von Blathasar. Procuram-se dos dados bíblicos sobre a figura e a missão de Maria, procurando apresentar linhas e critérios para uma sã devoção. Um e outro mostram a evolução da devoção a Nossa Senhora, fazendo a ponte para o diálogo com os protestantes e com os ortodoxos. Mostram que Maria não apenas é a primeira discípula de Jesus, mas tem um papel especialíssimo, como primeira Igreja, a Igreja espiritual. Por exemplo, Balthasar, fala na Igreja petrina, ministerial, masculina, e na Igreja mariana, anterior, que nasce com a Encarnação, espiritual e feminina. Maria é Mãe de Jesus, e torna-se Mãe da Igreja. O que se diz da Igreja pode dizer-se de Nossa Senhora, e o que se diz de Maria pode dizer-se da Igreja. O SIM de Maria vem antes, Ela é a Igreja sem mácula, santa, pura. A Igreja é santa também neste fundamento. É pecadora nos seus membros.
       Um dos aspetos abordados e curiosos, e que temos ouvido expressar ao Papa Francisco, é precisamente o papel da Mulher na Igreja e que valeria uma reflexão mais aprofundada como desafio o atual Papa. Maria tem uma missão precedente em relação a Pedro, a Igreja Espiritual, santa, imaculada, feminina. Maria, criatura como nós, assume-se primeira discípulo, envolvida pelo mistério pascal do Seu Filho Jesus. Pelo Espírito Santo, nasce Jesus, nasce a Igreja. É verdadeira intercessora, mesmo onde Jesus a coloca no silêncio como nas Bodas de Caná: Mulher, que temos nós a ver com isso? Ainda não chegou a Minha hora. No entanto, Maria prossegue: Fazei o que Ele vos disser. É um papel que continua a desempenhar.
       A Igreja é, com Maria, sobretudo feminina, custodia a vida biológica e a vida espiritual. Mas a Igreja é também uma realidade sociológica, que se rege com regras e estrutura e daí a necessidade da dimensão masculina, o ministério petrino. Como Cristo encarnou, por Maria, também a Igreja tem que encarnar no tempo e na história.
       Outro aspeto importante, que ambos os autores sublinham, é a necessidade de não descurar as devoções populares que traduzem uma grande sensibilidade. A esse propósito, o então Cardeal Ratzinger sublinhava como os teólogos da libertação deram um contributo decisivo nomeadamente partindo do Magnificat, pelo qual se mostra a exaltação dos humildes e o derrube dos poderosos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ratzinger - Deus apanhou o tempo e puxou-o para Si

       “Nesse ponto da existência humana de Jesus, Deus apanhou o tempo e puxou-o para Si mesmo. O seu poder sobre o tempo materializou-se diante de nós em Cristo, que é realmente a «porta» entre Deus e o homem, como diz o Evangelho de São João (Jo 10, 9), o seu «mediador» (1Tim 2, 5) no qual o eterno tem tempo. Em Jesus, nós, que somos temporais, podemos dirigir-nos Àquele que é temporal e é nosso con-temporâneo; mas n’Ele, que é tempo connosco, tocamos também o eterno, porque Ele é tempo connosco e eternidade com Deus…
       Mas este «estar inserido no tempo» denota mais que um mero contexto histórico-cultural externo por detrás do qual poderíamos encontrar, intocada pelo tempo, a atemporalidade do seu ser verdadeiro; trata-se, isso sim, de uma condição antropológica que influencia profundamente a sua própria forma humana de ser. Jesus tem tempo, Ele não se antecipa numa impaciência pecaminosa à vontade do Pai. «Por isso o Filho, que, no muno, tem tempo para Deus é o lugar original em que Deus tem tempo para o mundo. Deus não tem outro tempo para o mundo que não seja no filho, mas n’Ele tem todo o tempo do mundo» [Hans Urs von Balthasar]. Deus não fica refém da sua eternidade: em Jesus, Ele tem tempo – para nós –, e Jesus é realmente o «trono da graça» do qual podemos «aproximar-nos com toda a segurança» (Heb 4, 16) em qualquer tempo”.