A terceira Carta Encíclica de Bento XVI empresta o título a este blogue. A Caridade na Verdade. Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade, mas só esta entra na eternidade com Deus. Espaço pastoral de Tabuaço, Távora, Pinheiros e Carrazedo, de portas abertas para a Igreja e para o mundo...
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sábado, 7 de abril de 2018
sábado, 3 de fevereiro de 2018
sábado, 16 de dezembro de 2017
sábado, 17 de dezembro de 2016
Domingo IV do Advento - ano A - 18.dezembro.2016
1 – O sonho comanda a vida. O Sonho é uma constante da vida. Sempre que o homem sonha, o mundo pula e avança (António Gedeão). Deus quer, o homem sonha e a obra nasce (Fernando Pessoa). A vida acaba quando o sonho acaba, quando já não há esperança, nem aquém nem além. Sonhos e projetos, confiança no futuro, promessa de eternidade a iniciar-se na história. A esperança é a última a morrer, faz-nos passar ao outro mar.
Há pessoas que já há muito deixaram de sonhar. Dizem elas, como desabafo, como desilusão, mas com a réstia de esperança que o que desdizem afinal não se confirme. Para os adeptos de futebol, quando a equipa está a perder, até ao último minuto vivem num misto de realidade e esperança... ainda falta um minuto, alguém vai marcar! A vida é mesmo assim. É claro que muitas pessoas vivem voltadas para o passado e esquecem-se de viver o presente e projetar o futuro. Mas mesmo em situações mais extremas, a saudade do passado é a forma de se manterem vivas, sonhando/esperando que voltem esses tempos. Seria ótimo que a presença do passado as levasse a procurar apreciar e viver novas situações.
Outros há, que sonham o tempo todo, sempre com ganas de viver, de sugerir, de projetar. Por vezes, colam-se apenas aos sonhos e esquecem-se que os sonhos precisam de ser concretizados no tempo e na história e não apenas projetados na mente. Há sonhos que nunca realizaremos mas que, ainda assim, nos puxam para a frente, para o futuro. Há o sonho de deixar marcas positivas no mundo. Mesmo aqueles que deixam marcas negativas é com o sonho de não serem esquecidos. Sonhamos a dormir e sonhamos acordados. Quando jovens sonhamos mudar o mundo. Quando entrados na idade, sonhamos que outros sonhem em mudar o mundo.
José teve um sonho. Não foi um sonho qualquer. Foi um sonho para mudar o mundo, a história, a sua e a nossa, a história da humanidade. O sonho de José faz dele uma personagem importante para a história da salvação, Deus entre nós, Deus connosco. Não há que ter medo de sonhar. Os sonhos equilibram a mente, por um lado, e, por outro, ajudam-nos a levantar-nos cada dia com um sorriso.
2 – José teve um sonho. Outro José, noutro contexto, conhecido como José do Egipto, e antepassado de São José, tornou-se importante à custa dos sonhos que interpretou para o Faraó, ganhando relevância, o que lhe permitiu salvar a sua família e o seu povo da miséria. São José tem um sonho que, do mesmo modo, faz com que se assuma guardião da Família sagrada.
São Mateus apresenta-nos o nascimento de Jesus, sublinhando o mistério de Deus que age em nós e através de nós. A Virgem Imaculada concebeu por virtude do Espírito Santo. José, tomando consciência da gravidez de Maria, sem que tivesse convivido com Ela, decide repudiá-la em segredo, evitando difamá-la e açambarcando com a responsabilidade. Ao fugir assumia-se por culpado de "desonrar" Maria e impedia que Ela fosse condenada e quem sabe apedrejada.
Mas os nossos pensamentos nem sempre são os de Deus e as nossas decisões nem sempre são as mais justas, ainda que assim o julguemos. Deus, também aqui, impele a escrever a história de uma maneira nova. Em sonho, Deus envia o Seu Anjo que revela a missão que José há de assumir: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados».
O sonho altera a decisão de José, que recebe Maria por esposa, tornando-se o protetor da Sagrada Família, dando o nome a Jesus, assegurando que Maria e José terão um lar seguro e confortável para viver.
3 – O sonho vem de longe e a promessa também. A primeira leitura recorda-nos essa promessa feita ao povo eleito, através do rei Acaz, a quem Isaías desafia a pedir um sinal. Acaz não se sente confortável o suficiente para pedir um sinal ao Senhor, considerando uma tentação ou mesmo uma blasfémia. Quando pedem um sinal a Jesus, Este repreende-os por testarem a Deus, dizendo que é uma geração perversa, que não está atenta aos verdadeiros sinais nem ao tempo novo que está a emergir com a Sua vida.
Agora, contudo, é o próprio Deus que sanciona o sinal. Isaías, em nome de Deus, diz a Acaz: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel».
São Mateus, ao concluir o relato do sonho de São José, diz claramente que a promessa se cumpre agora. Logo que José desperta do sonho, age em conformidade com as palavras do Anjo do Senhor.
O sonho é verdadeiramente importante se nos faz acordar e nos leva a agir. Por si mesmo, o sonho é pouco relevante se não tiver consequência, se não conduzir à mudança de vida. Os sonhos, com efeito, não são nem positivos nem negativos, mesmo que pareçam pesadelos. Quando muito fazem sobressair a necessidade da nossa mente ordenar o que pensamos, os conhecimentos que vamos armazenando ao longo da vida, as sensações e emoções que vivemos. Mas, havendo algum sonho a que demos mais importância, que seja para nos ajudar a melhorar a nossa vida e a vida dos irmãos.
Do mesmo jeito, os sonhos, os projetos, as promessas, sejam um catalisador para nos envolver-nos na transformação positiva do mundo, empenhando-nos em transparecer e testemunhar a misericórdia de Deus, plenizada e encarnada em Jesus Cristo.
4 – O Apóstolo Paulo, tal como São José, também foi surpreendido por Deus. As suas certezas e convicções são postas em causa com o surgimento de Deus na sua vida. A caminho de Damasco, em busca da verdade, Paulo é "apanhado" por Jesus e de perseguidor passa a seguidor.
Em mais esta belíssima missiva, aos Romanos, o Apóstolo aponta para Jesus, que nasceu, segundo a carne, da descendência de David mas, segundo o Espírito, foi constituído Filho de Deus. A missão do Apóstolo é transparecer, testemunhar, anunciar Jesus Cristo, levá-l'O a todo o mundo, pregando o Evangelho da santidade, o mesmo é dizer, o Evangelho da caridade.
A referência primeira, para o apóstolo, e para nós também, é a ressurreição de Jesus Cristo. Ele torna-Se para sempre o nosso Salvador. O Filho de Deus nasceu como um de nós, da nossa carne e dos nossos ossos, para nos ressuscitar para Deus, elevando-nos com Ele para a eternidade.
A oração de coleta resume bem este mistério da nossa fé: "Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas, para que nós, que pela anunciação do Anjo conhecemos a encarnação de Cristo, vosso Filho, pela sua paixão e morte na cruz alcancemos a glória da ressurreição".
Pela oração predispomo-nos a acolher o sonho de Deus, o Seu projeto de amor, de vida nova, em que todos nos reconheçamos como irmãos e nos tratemos como tal.
Pe. Manuel Gonçalves
sábado, 5 de novembro de 2016
XXXII Domingo do Tempo Comum - ano C - 6/11/2016
1 – Os dias 1 e 2 de novembro, com a solenidade de Todos os Santos e a comemoração dos Fiéis Defuntos, e todo o mês vivido como o mês das almas, evoca a fé católica na ressurreição da carne (pessoa) e a comunhão dos santos. Todos nos encaminhamos para a morte. Todos nos encaminhamos para a vida eterna. A morte não tem a última palavra. A última palavra é da vida. É de Deus. É do Amor que nos faz transcender já na vida histórica, transcendendo-nos para a eternidade de Deus.
A oração, os gestos de carinho e cuidado pelos mortos, o arranjo das campas e do cemitério, nestes dias, pelo menos, mostra a gratidão para com familiares, amigos e vizinhos, sublinha a saudade da sua partida, evoca a esperança de um encontro futuro na ressurreição. Eles morreram. Partiram antes de nós. Levaram um pouco de nós, deixaram um pouco deles. Confiamos em Deus e esperamos reencontrar-nos na eternidade. No decorrer da Última Ceia, Jesus diz aos Seus discípulos que vai partir para o Pai, vai preparar-lhes um lugar. A tristeza do momento presente, pela separação, dará lugar à alegria do (re)encontro na Casa do Pai.
É mais fácil acreditar em Deus que na vida eterna. A sensibilidade popular, tanto as pessoas mais piedosas como as mais instruídas acreditam facilmente num Deus bom, generoso, benevolente, que protege e abençoa. Quando se fala na vida além da morte (biológica), na ressurreição ou na eternidade já colocam mais interrogações. Ninguém veio do outro lado dizer-nos como é, só sabemos até ao momento da morte! Cá se fazem, cá se pagam! O bem e o mal serão retribuíveis durante a existência terrena... mesmo que saibamos de tantas injustiças das quais os prejudicados nunca foram ressarcidos nem os fautores foram penalizados! O cemitério como última morada! Todos temos um destino comum: a terra…
Augusto Cury, célebre psiquiatra brasileiro, ao investigar a inteligência humana, chega à conclusão que seria um absurdo que tudo acabasse com a morte física, seria em vão todo o esforço feito por melhorar a vida das pessoas, a sabedoria acumulada, as descobertas, a própria inteligência que exige e luta pela eternidade. Ateu, através das suas investigações, chega à conclusão que a identidade da pessoa há de sobreviver à morte biológica, garantindo que a identidade de cada um não se perde para sempre. Assim se torna crente. A fé em Deus é decorrente da exigência da identidade sobreviver ao tempo e à história.
2 – Escutemos o Evangelho. Logo de entrada o evangelista fala nos saduceus que se aproximam de Jesus, dizendo que eles não acreditam na ressurreição. São religiosos, frequentam o Templo, vivem as exigências da Lei judaica, mas não acreditam que haja vida além da vida temporal.
Provocam Jesus com uma questão, no mínimo, curiosa: «Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?».
Recorrendo aos ensinamentos de Moisés, que têm o peso e a sabedoria da Lei, os saduceus transportam para a eternidade as mesmas vivências e tradições. E no caso concreto até tem a sua lógica, pois também nós defendemos as repercussões da vida atual na eternidade, ainda que não desta forma tão material. Segundo a Lei, um casamento teria que dar fruto, pela parte masculina, assegurando a linhagem familiar. Se o homem morresse sem descendência, os irmãos assumiam o encargo de lhe dar descendência desposando a mulher (ou seja, a cunhada) até que gerasse um filho. Neste exemplo, todos os irmãos a desposaram, mas nenhum lhe deu descendência. Havendo continuidade material-histórica na eternidade, com quem ficava a mulher? Houve um tempo em que as pessoas julgavam que ressuscitavam como tinham morrido, por exemplo, sem um olho, ou com o rosto já encovado! Ou seja, a eternidade seria, destarte, a continuação natural do tempo e da história. Morre novo, ressuscita novo. Morre idoso, ressuscita idoso!
A resposta de Jesus é clarificadora: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».
A ressurreição dos mortos é agrafada à fé em Deus, pois para Ele todos estão vivos.
3 – Jesus recorre ao Antigo Testamento para elucidar a fé em Deus e na ressurreição. Utiliza a mesma fonte dos seus interlocutores. A primeira leitura, por sua vez, traz-nos uma das passagens veterotestamentárias mais explícitas sobre a ressurreição.
As invasões a que esteve sujeito o Reino de Israel, com a divisão, com a subjugação a povos estrangeiros, com o exílio de muitas famílias, levou à necessidade de preservar a fé, as tradições, os usos e costumes, para que não se perdesse o património cultural e religioso, a identidade do Povo de Deus. O segundo Livro de Macabeus terá sido escrito no Egipto, para os judeus aí residentes, retratando personagens heroicas, convidando à conversão e fidelidade à Aliança.
O autor sagrado parte do pressuposto que o exílio é consequência natural e merecida dos pecados do povo, dos transvios à Lei de Moisés, das infidelidades à Aliança. Agora há que manter acesa a chama da fé, não perdendo de vista a herança recebida, até ao dia do regresso à terra prometida.
Sete irmãos e a sua mãe são presos. O rei da Síria quer obrigá-los a trair a sua Lei, comendo carne de porco. A resposta dos irmãos, apoiados pela firmeza maternal, é clarividente: «Estamos prontos para morrer, antes que violar a lei de nossos pais». Com a morte de um, os seguintes poderiam vacilar, por medo, pela violência infligida. Mas também o segundo se mantém decidido: «Tu, malvado, pretendes arrancar-nos a vida presente, mas o Rei do universo ressuscitar-nos-á para a vida eterna, se morrermos fiéis às suas leis». A tortura continua e a resposta do terceiro irmão é igualmente clarificadora: «Do Céu recebi estes membros e é por causa das suas leis que os desprezo, pois do Céu espero recebê-los de novo».
A coragem dos jovens e as suas palavras fazem admirar o próprio rei e quantos o acompanham. Segue o quarto irmão e o mesmo destemor: «Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará; mas tu, ó rei, não ressuscitarás para a vida».
Na continuação do texto, verifica-se que os sete se fortalecem mutuamente. E a Mãe, que chorava por dentro a morte dos filhos, exteriormente animava-os, pois entendia que era muito mais importante sobreviver para Deus.
4 – A continuidade entre o tempo e a eternidade, entre a história e a vida gloriosa, propalada pelos saduceus, não é de todo descabida, ainda que não da forma material-biológica com que questionaram Jesus. Com efeito, a vida eterna inicia-se aqui e agora (hic et nunc) na situação concreta, real, histórica. A salvação é dom gratuito de Deus. Cabe-nos acolhê-la e transparecê-la. O tempo que nos é dado é de graça, mas graça que nos irmana, nos compromete e nos envolve na transformação do mundo. Ressuscitados, pela água e pelo Espírito no Batismo, há que viver como ressuscitados, apostados na cultura da vida, da fraternidade, da compaixão. Seria uma contradição "viver" como mortos, deixando correr, afastando-se das dificuldades, mantendo-se indiferente ao sofrimento dos outros.
O Apóstolo Paulo, na segunda missiva à Igreja de Tessalónica, convoca à fé comprometida com a vida: "Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu, pela sua graça, eterna consolação e feliz esperança, confortem os vossos corações e os tornem firmes em toda a espécie de boas obras e palavras".
À saudação segue-se o pedido de oração: "orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague rapidamente e seja glorificada, como acontece no meio de vós. Orai também, para que sejamos livres dos homens perversos e maus, pois nem todos têm fé. Mas o Senhor é fiel: Ele vos dará firmeza e vos guardará do Maligno". E acrescenta a confiança que deposita nos membros na comunidade: "Quanto a vós, confiamos inteiramente no Senhor que cumpris e cumprireis o que vos mandamos. O Senhor dirija os vossos corações, para que amem a Deus e aguardem a Cristo com perseverança".
5 – A oração conduz-nos à vontade de Deus. Colocamo-nos em atitude de escuta, para que Ele fale em nós. "Deus eterno e misericordioso, afastai de nós toda a adversidade, para que, sem obstáculos do corpo ou do espírito, possamos livremente cumprir a vossa vontade".
Quem ora a Deus com sinceridade está a comprometer-se com a Sua vontade. É como pedirmos a opinião a alguém. Se somos sinceros, só perguntaremos para ultrapassar uma dúvida ou indecisão, e se levamos a sério a pergunta e a resposta, sujeitamo-nos a alterar a trajetória. A oração predispõe-nos, na escuta, à obediência.
Pe. Manuel Gonçalves
sábado, 8 de outubro de 2016
XXVIII Domingo do Tempo Comum - ano C - 9/10/2016
1 – O discípulo de Jesus sabe agradecer tudo quanto de bom lhe é dado da parte do Senhor. A gratidão, com efeito, é o caminho da humildade de quem se reconhece mendigo, pronto para aprender, para acolher o bem que vem dos outros, disponível para mudar o que é necessário para se tornar transparência e testemunha de Jesus Cristo.
Só a humildade nos faz santos. A santidade constrói-se no serviço humilde e dedicado ao seu semelhante, sob a bênção e a proteção de Deus.
O Evangelho faz-nos ver o caminho de Jesus. Está a caminhar para Jerusalém, onde dará a vida por amor, onde o amor O levará a gastar-Se por inteiro, até à última gota de sangue. A Cruz é expressão do máximo amor e da máxima entrega. Nada nos separa do amor de Deus, nem a espada, nem qualquer poder, nem a morte. Em Jesus Cristo, Deus desceu ao mais humano, ao mais frágil, ao mais vil, para nos elevar com o Seu filho, ressuscitando-nos.
O caminho de Jesus não é linear, como não é linear a nossa vida. Altos e baixos. Alegrias e tristezas. Festa e luto. Júbilo e lágrimas. A linearidade da vida de Jesus é a entrega, a doação, o cumprimento da vontade do Pai, não Se desviando nem um milímetro deste propósito, mesmo quando a dor é mais profunda e mais aguda. Ao longo do Seu caminho terreno, em que Ele próprio Se faz Caminho para nós, Jesus não segue alheado de quem O rodeia, de quem Se aproxima, de quem pede ajuda, de quem nem sequer pede ajuda porque não tem forças ou porque tem vergonha. Pára. Volta atrás. Desvia-se no trajeto, do caminho para a periferia, para das margens para os recuperar para a vida, para o centro.
2 – No Evangelho de hoje, 10 leprosos aproximam-se o suficiente para se fazerem ver e ouvir por Jesus. Daqui se infere que a fama de Jesus se espalhara. Os leprosos não se aproximam de um ídolo, de uma estrela, mas de Alguém cuja docilidade, delicadeza, proximidade atrai.
A lepra é um estigma social. Os leprosos são mantidos à distância, isolados, deixados de fora, até que, por qualquer razão, fiquem bem. Aparte para sublinhar que naquele tempo todas as doentes de pele estão incluídas na lepra e qualquer mancha assusta e, por conseguinte, pelo sim pelo não, há que afastar as pessoas "contagiadas" para não contagiarem os outros.
Jesus não só não Se afasta como Se aproxima. Veja-se a nuance dos ditos. Os leprosos disseram em alta voz – «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós». Jesus simplesmente lhes diz: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes». Jesus não precisa de levantar voz, está perto. Levantamos a voz quando estamos distantes, fisicamente, ou quando os nossos corações estão afastados.
A ordem de Jesus implica os próprios. O milagre acontece quando se colocam a caminhar. O movimento faz-nos bem. Ensimesmados adoecemos, ficamos raquíticos. Já bem basta quem tem mobilidade reduzida. Mexamo-nos pela nossa saúde. Vamos ao encontro dos outros. Prefiro uma Igreja acidentada por sair, que uma Igreja doente, com mofo, estagnada por não sair. São palavras bem conhecidas do Papa Francisco.
3 – Quando se põem a caminho, os 10 leprosos ficam curados. Como reagem? "Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto em terra aos pés de Jesus, para Lhe agradecer. Era um samaritano".
Samaritanos e judeus/galileus não se davam (três regiões distintas, a mesma origem religiosa). É, contudo, um samaritano que regressa, louva a Deus e agradece a Jesus. Talvez não considere que Jesus seja Deus, mas reconhece que Deus Se manifestou através de Jesus. O dom que recebeu leva-o à precedência, à origem da dádiva.
A reação de Jesus é instintiva, imediata, espontânea: «Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?». E disse ao homem: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou».
Quando Jesus intervém com a Sua palavra e ordenando que se ponham a caminho, sabendo o que vai acontecer não foi com o objetivo de ser reconhecido ou aclamado, mas até Deus espera uma resposta. O Seu amor é gratuito, sem reservas nem condições prévias. Mas como lembrava Bento XVI, Deus ao criar-nos por amor, voltando-Se para nós com o Seu olhar misericordioso, enviando mensageiros para nos falarem da fidelidade de Deus e do Seu amor por nós, ao dar-nos Jesus Cristo, espera uma resposta da nossa parte. Dá-nos a liberdade inteira de Lhe virarmos as costas, de O negarmos, de nos mantermos longe d'Ele, mas ao amar-nos, envolve-nos e desafia-nos a uma resposta (positiva).
Por outro lado, uma das maiores injustiças é a ingratidão. Significa que a pessoa se apossou do dom recebido, é uma usurpação do benefício, um fechamento ao outro e a tudo o que o outro pode dar-nos, enriquecendo-nos. No caso, a ingratidão é para com Deus. É o pecado de Adão e Eva. O que foi dado a todos, como graça, como dom, é escondido, é remetido para o privado. A conversão passa pela gratidão. E também a salvação. Reconhecer-se a caminho. Acolher e agradecer as graças de Deus. Fazer com que o dom possa ser testemunhado, comunicado, partilhado com os outros, em comunidade.
4 – Na primeira leitura encontramos uma situação similar, lembrando a habitual afinidade entre a primeira leitura e o Evangelho. O general sírio Naamã, obedecendo à ordem de Eliseu, mergulha por sete vezes no rio Jordão e fica curado. Ao ficar curado, volta junto de Eliseu para lhe agradecer. «Agora reconheço que em toda a terra não há outro Deus senão o de Israel. Peço-te que aceites um presente deste teu servo».
Também Naamã é um homem estrangeiro. Não importa a origem ou o ponto de partida, importante mesmo é a postura que assumimos diante de Deus e dos outros. O Papa Francisco lembra-nos como as três palavrinhas podem modificar o nosso relacionamento em família e em sociedade: "desculpa", "com licença", "obrigado". A gratidão dispõe-nos para os outros.
Da parte de Eliseu, a humildade, reconhecendo que é para Deus que deve ir o louvor e a gratidão: «Pela vida do Senhor que eu sirvo, nada aceitarei».
Na continuação do texto vê-se que, apesar da recusa de Eliseu, o sírio Naamã tem um gesto de simpatia, doando uma porção de terra para a construção de um altar em honra do Deus de Israel, partilhando também alguns alimentos com Eliseu.
5 – A oração de coleta, que nos dispõe à escuta da Palavra de Deus e à partilha do Pão da Eucaristia, interpela-nos a acolhermos a graça de Deus com o compromisso de a colocarmos em marcha, concretizando-a na nossa vida e na relação com os outros. "Nós Vos pedimos, Senhor, que a vossa graça preceda e acompanhe sempre as nossas ações e nos torne cada vez mais atentos à prática das boas obras".
6 – Na segunda leitura continuamos a escutar as palavras de São Paulo a Timóteo, com as recomendações para que também ele seja imitador de Jesus Cristo.
O Apóstolo relembra a salvação com que Cristo nos salvou, pela Sua entrega, Paixão e morte, pela Ressurreição com que nos uniu conSigo à eternidade de Deus. Paulo está preso mas isso não é motivo de desespero ou de desistência. Pelo contrário, é oportunidade de glorificar a Deus e testemunhar a sua fidelidade a Cristo, transparecendo-O também nessas circunstâncias.
Como responder ao amor de Deus por nós, visualizável de forma sublime na morte e ressurreição de Jesus? Paulo aponta o caminho: "Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos; se sofremos com Cristo, também com Ele reinaremos; se O negarmos, também Ele nos negará; se Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo".
Fidelidade. Testemunho. Transparência. D. António Couto, a abrir a Carta Pastoral para o novo ano pastoral 2016-2017, na Diocese de Lamego, insiste: "Todo o discípulo missionário, enquanto testemunha e anunciador do Evangelho, não pode ser um simples animador ou monitor, mas transparência ou testemunha fiel da presença viva e operante do próprio Senhor no meio da comunidade".
Pe. Manuel Gonçalves
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quinta-feira, 11 de agosto de 2016
VL - A misericórdia de Deus reabilita-nos
O Jubileu da Misericórdia alimenta-se da liturgia, permitindo acolher a Palavra de Deus ao longo do ano, refletindo-A e renovando propósitos que nos levam a ser misericordiosos como o Pai.
Nos últimos três domingos (IX, X, XI, do Tempo Comum, ano C) fomos surpreendidos pela ternura, compaixão e proximidade de Jesus, que nos reabilita do pecado e da morte, “contaminando-Se” com a nossa fragilidade, deixando-nos contaminar com a Sua santidade.
No primeiro episódio (Lc 7, 1-10), um centurião intercede por um dos seus servos, revelando uma grande humildade e uma grande fé, que o próprio Jesus testemunha. A compaixão do centurião leva-O a Jesus, cuja compaixão devolve a saúde ao servo. Atente-se à disponibilidade para partir. Nós temos que ver a agenda. Jesus parte e vai ao encontro de quem precisa da Sua ajuda! Sem hesitar.
Num segundo momento (Lc 7, 11-17), Jesus, ao entrar na cidade de Naim, depara com um funeral. Uma pobre Mãe, viúva, leva o seu filho único a sepultar. Uma desgraça. A perda de um filho, arrasa qualquer pai. Acrescente-se o facto de ser filho único e a mãe ser viúva! O Evangelho mostra a comoção de Jesus. “Ao vê-la, o Senhor, compadeceu-Se dela”. Jesus não se fica pela contemplação da dor. Diz àquela mãe: “Não chores”. Aproxima-Se. Toca no caixão. E ordena: «Jovem, Eu te ordeno, levanta-te». Jesus levanta-nos, ressuscita-nos dos caixões que nos aprisionam, dos medos, do sofrimento e da perda e diz-nos que a última palavra não é da morte mas da vida.
Neste último domingo (Lc 7, 36-50), uma mulher, pecadora, aproxima-se de Jesus, banha-lhe os pés com as lágrimas, derrama um vaso de alabastro, perfume de alto preço, enxuga-lhe os pés com os cabelos. Gestos que ressalvam a sua humildade e a predisposição para mudar de vida. Sente-se impelida por Jesus. Não tem muito a perder. Comprada às escondidas, rejeitada às claras. Vive e alimenta-se da escuridão. Não tem vida pessoal. Os afetos comprados não são afetos, são comércio que não tocam a alma, a não ser para a destruir. Quem a vê (de dia) desvia-se, com medo de ser contaminado e/ou que os outros levantem alguma suspeição. Se é pecadora pública, reconhecida como tal, outros contribuem para o seu pecado, comprando-a, expondo-a, promovendo a maledicência.
Jesus deixa-Se tocar por esta mulher. Não Se desvia. Atrai-a para a Sua Luz. O amor tudo alcança. «A tua fé te salvou. Vai em paz». Os seus muitos pecados são-lhe perdoados porque muito amou.
Publicado na Voz de Lamego, de 14 de junho de 2016
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Viver a Quaresma ao ritmo da Liturgia e do Jubileu
A Quaresma há de ser vivida à luz da Páscoa, de onde nos vem a salvação. Jesus vive, apareceu aos discípulos e faz-Se presente pelos Sacramentos, pela oração e pela caridade, congregando-nos como comunidade crente. Se voltássemos do sepulcro sem a presença luminosa de Jesus, tudo seria uma desilusão que daria lugar à dispersão.
O Papa Francisco lança-nos o desafio: “A Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus. Quantas páginas da Sagrada Escritura se podem meditar, nas semanas da Quaresma, para redescobrir o rosto misericordioso do Pai!” (Misericordiae Vultus).
Algumas referências breves ao Evangelho da Quarta-feira de Cinzas e dos domingos da Quaresma:
QUARTA-FEIRA DE CINZAS: três práticas para melhor preparar a Páscoa: o jejum, a oração, a esmola, com a discrição e a humildade próprias de quem coloca o Outro no centro e não a si mesmo (cf Mt 6, 1-6.16-18)
PRIMEIRO DOMINGO: As tentações superadas pela proximidade com Deus e com a Sua Palavra. “Nem só de pão vive o homem… Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto” (Lc 4, 1-13).
SEGUNDO DOMINGO: A transfiguração de Jesus inicia a nossa transfiguração, para transparecermos Jesus Ressuscitado. «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O» (Lc 9, 28b-36).
TERCEIRO DOMINGO: O arrependimento é o início do caminho para acolhermos a graça de Deus. «Se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo». Maior que o nosso pecado, a misericórdia de Deus. Ele espera por nós, até ao limite: «Senhor, deixa-a ficar ainda este ano… talvez venha a dar frutos» (Lc 13, 1-9).
QUARTO DOMINGO: Misericordiosos como o Pai da Parábola, que não só perdoa como faz festa pelo regresso do filho: «Este teu irmão estava morto e voltou à vida» (Lc 15, 1-3.11-32).
QUINTO DOMINGO: O pecado envergonha-nos, mas não é um problema para Deus. «Vai e não tornes a pecar» (Jo 8, 1-11).
DOMINGO DE RAMOS:
«Bendito o Rei que vem em nome do Senhor» (Lc 19, 28-40).
«Isto é o meu Corpo entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim…
«Este cálice é a nova aliança no meu Sangue, derramado por vós…
«O maior entre vós seja como o menor e aquele que manda seja como quem serve…
«Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice. Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua…
«Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso…
«Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 22, 14 – 23, 56).
Texto publicado na Voz de Lamego, edição de 9 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
D. MANUEL CLEMENTE - O Evangelho e a Vida - ano C
D. MANUEL CLEMENTE (2015). O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano C. Cascais: Lucerna. 304 páginas.
D. Manuel Clemente teve nos microfones da Rádio Renascença um instrumento privilegiado de evangelização, salientando-se os 12 anos, no programa "O Dia do Senhor", nas manhãs de domingo, a comentar a Liturgia da Palavra de cada domingo, centrando-se especialmente no Evangelho proclamado nesse dia.
Depois dos dois volumes - ano A e ano B -, a publicação do volume do ano C. A linguagem é radiofónica, portanto, direta, acessível, simples, situando o texto, pondo em evidência uma frase ou uma expressão, a postura de Jesus e a reação das pessoas, a vivência dos discípulos e das comunidades cristãos, a reação dos ouvintes e a forma como as comunidades foram acolhendo e traduzindo a palavra de Deus para melhor viver e seguir Jesus Cristo.
A Palavra de Deus é viva, para todos os tempos. Jesus ressuscitou, vive entre nós, continua a ser a força e a luz de muitas pessoas e de muitas comunidades. O mundo pode sempre melhorar, os cristãos têm uma importância crucial, com os valores da vida, da dignidade humana, da partilha solidária, do amor caritativo, da doação da própria vida pelo vida dos outros, ao jeito de Jesus, seguindo a Sua Palavra e a Sua maneira específica de privilegiar os mais frágeis, as pessoas excluídas, pela doença, pelo estrato social, pela profissão, pela vida moral. Para Jesus todos são - todos somos - filhos que merecem todo o cuidado, toda atenção.
Como em outros comentários à Liturgia de Domingo, a sua leitura poderá fazer-se na semana que antecede cada domingo, ficando mais próxima a preparação do mesmo, ou de uma assentada, ficando-se com uma visão global e antecipada de todo o ano litúrgico, que começou com o primeiro domingo do Advento e terminará em 20 de novembro de 2016. Coincidente com este ano litúrgico, a celebração do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, sabendo-se que neste ano C é proclamada preferencial do Evangelho de São Lucas, Evangelho da Misericórdia.
Havendo diversos subsídios confiáveis e seguros que ajudam a preparar e a refletir a Liturgia da Palavra de cada domingo, também este, seguramente, é um comentário seguro, interpelativo, centrado no texto mais importante para os cristãos - o Evangelho - e num discurso muito direto e muito vivo, inculturado na atualidade, desafiador da criatividade e do compromisso dos cristãos para hoje.
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sábado, 11 de julho de 2015
XV Domingo do Tempo Comum - ano B - 12 de julho
1 – Deus chama-nos para nos enviar. A primeira e mais original vocação do cristão é a santidade, isto é, a disponibilidade para acolher Deus, deixando-se transformar pela Sua graça, identificando-se progressivamente com Jesus Cristo e com o seu jeito de viver, de amar, de perdoar, de Se assumir irmão, sobretudo dos mais frágeis.
Jesus chama os apóstolos e envia-os. Se, por momentos, eles entendem que o seguimento é um privilégio, uma prerrogativa com benefícios materiais, sociais ou políticos, cedo vão perceber que seguir Jesus é uma missão da qual poderá advir a perseguição e a própria morte.
Partem de mãos vazias. Como nos tem lembrado o nosso Bispo, D. António Couto, de mãos vazias como as de Deus, que tudo nos dá; a bênção faz-se com as mãos abertas e estendidas e hão de corresponder às nossas mãos abertas para receber os dons de Deus, mantendo-as abertas para repartir pelos irmãos. "Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas". O importante mesmo é a mensagem que levam. Quanto mais leves mais disponíveis e mais próximos das pessoas. O que levamos pesa-nos, atrasa-nos o andar, afasta-nos dos outros, cria medo de perder o que temos, faz-nos desconfiar dos outros e das suas intenções…
Os apóstolos – hoje somos nós – não estão sós. Jesus envia-os dois a dois. Jesus vai com eles, vai connosco através do outro e da comunidade. Quando dois ou três vos reunirdes em Meu nome, Eu estarei no MEIO de vós (cf. Mt 18, 20). Sozinhos perder-nos-emos. Desanimaremos rapidamente, perderemos a direção, duvidaremos facilmente sobre o caminho que seguimos. O nosso GPS é Jesus, que segue connosco através da comunidade, a Igreja, que é o Seu Corpo.
2 – O discípulo será sempre discípulo. Para os cristãos o Mestre é Jesus. Quem se assumir como mestre deixa de ser cristão para ser outra coisa qualquer. Fixando-nos nos dois termos "discípulo" e "apóstolo", diríamos que o cristão terá que ser sempre discípulo mesmo quando é apóstolo. Por sua vez, o apóstolo, para se manter fiel a Jesus Cristo, será sempre discípulo, aluno, aprendiz, servo. Por outras palavras, e assumindo a linguagem que se foi aprofundando nas Conferências Gerais do Episcopado da América Latina (CELAM), a junção da condição de discípulo com a de missionário. Daí que o cristão, todo o cristão, seja discípulo missionário. Não podemos ser seguidores de Jesus se não para O vivermos e O anunciarmos ao mundo inteiro.
Jesus dá-lhes o poder sobre os espíritos impuros, com o seguinte mandato: «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles».
É Jesus quem os envia. O mandato é de Cristo. A mensagem que hão de anunciar – a proximidade do reino, o arrependimento e a fé no Evangelho (cf. Mc 1, 14-15) – é de Cristo. O risco dos discípulos é tornarem-se mestres desligando-se do verdadeiro Mestre, de Jesus Cristo, e em vez de anunciarem o Evangelho, anunciarem-se a si mesmos. E assim também o perigo da Igreja – constituída por todos os discípulos de Jesus –, de se debruçar sobre si mesma, protegendo-se, protegendo os privilégios que adquiriu. Desde o início do seu pontificado, Francisco tem-se referido à doença de uma Igreja ensimesmada, autorreferencial, voltada para o interior onde já só se encontra uma ovelha. Ao invés, a Igreja deve sair, à procura das 99 ovelhas que se tresmalharam, e anunciar Jesus. Como a Lua reflete a luz do Sol, assim a Igreja tem que refletir a Luz de Cristo.
"Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos" e regressam para junto de Jesus, como veremos no próximo Domingo. O ponto de partida é Jesus. O ponto de encontro dos cristãos, dos discípulos missionários, é Jesus. Ele é o ponto de convergência e de irradiação da salvação.
3 – O Deus de Jesus Cristo é um Deus próximo, Pai, amigo. Se em Cristo Se revela em plenitude, nos Profetas e através deles, Deus dá-Se a conhecer como Alguém que se entranha na História, intervindo positivamente, pelos sinais e pelos mensageiros. Víamos, na semana passada, o envio de Ezequiel para o meio do povo. Podem não o escutar e à Palavra que traz de Deus, mas saberão que Deus não os abandona, que está no meio deles pelo Profeta.
Amós está em missão. Não se anuncia. Vem em nome de Deus para comunicar a mensagem de Deus. E como bem sabemos a Palavra de Deus é como espada de dois gumes, corta o mal para introduzir o bem, denuncia as injustiças, a pobreza, a exclusão, para propor a Aliança, colocando Deus no centro para que as pessoas não sejam usadas caprichosa e arbitrariamente.
Poderá a honestidade ofender? Poderá a verdade ferir? (Não se trata aqui da sensibilidade e do cuidado que deveremos ter quando lidamos com pessoas. Há sempre o perigo de utilizarmos a verdade, a honestidade ou a frontalidade como desculpa e justificação para destilarmos ódio e os nossos azeites sobre alguém de quem não gostamos muito).
A honestidade, pela sua transparência, poderá ofender o desonesto, pois este sente-se exposto. Amasias, sacerdote de Betel, ressentido, ordena a Amós: «Vai-te daqui, vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas profecias. Mas não continues a profetizar aqui em Betel, que é o santuário real, o templo do reino». O sacerdote do templo está conivente com o poder instituído e não quer perder nem o posto nem o prestígio nem os proventos, pelo que tenta condicionar Amós.
A resposta de Amós é corajosa: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor de gado e cultivava sicómoros. Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: ‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’». O que está em causa não é Amós, mas Deus e o Seu mandato. Recusar servir a Deus para servir o poder e a realeza terrena não são opção para Amós.
4 – A segunda leitura, como na maioria dos domingos, traz-nos o Apóstolo Paulo, Profeta cristão, que em nome de Jesus Cristo anuncia o Evangelho a todo o mundo onde humanamente é possível chegar. As missivas, enviadas às diversas comunidades por ele instituídas ou solidificadas, revelam esta preocupação de vincular os cristãos ao Evangelho recordando-lhes a Palavra de Deus, e apontando caminhos para viverem de acordo com Jesus Cristo.
A Carta aos Efésios inicia com uma saudação que revela a misericórdia de Deus que nos abençoa com todas as espécies de bênçãos espirituais em Cristo para que vivamos como herdeiros, como filhos, conduzindo a nossa vida de forma a darmos glória a Deus, respondendo à Sua bênção: “N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adotivos, por Jesus Cristo, para louvor da sua glória e da graça… N’Ele, pelo seu sangue, temos a redenção e a remissão dos pecados. Em Cristo fomos constituídos herdeiros, para sermos um hino de louvor da sua glória...”
A chuva que cai na terra não volta para o céu sem ter produzido fruto, assim a Palavra de Deus, assim a Sua bênção, é um chamamento constante, um desafio, para que em nós produza em abundância e transpareça para todas as pessoas que Deus estão à nossa volta.
5 – A oração de coleta deste domingo recolhe e sublinha a palavra proclamada: "Senhor nosso Deus, que mostrais aos errantes a luz da vossa verdade para poderem voltar ao bom caminho, concedei a quantos se declaram cristãos que, rejeitando tudo o que é indigno deste nome, sigam fielmente as exigências da sua fé".
A oração torna-nos mais íntimos de Deus, que nos envia aos nossos semelhantes. A fé salva-nos, mas aferimos da sua autenticidade quando nos tornamos irmãos e cuidamos uns dos outros.
Pe. Manuel Gonçalves
sábado, 13 de junho de 2015
XI Domingo do tempo Comum - ano B - 14 de junho
1 – A vida sempre nos escapa no seu admirável mistério, na compreensão e na vivência. Por mais que reflitamos, por mais experiências que tenhamos, por mais evoluída que esteja a ciência, há sempre um emaranhado de condicionalismos que nos surpreendem. A vida é simultaneamente simples e complexa. Como surge, como evolui no ventre materno, como cresce e se desenvolve o corpo, o cérebro, os sentimentos, a vontade? Como é que somos tão diferentes e tão iguais?
Há quem queira controlar todos os pormenores da vida, para em nada ser surpreendido e há quem constantemente se deixe surpreender mesmo diante de situações que se repetem. Não é possível controlar todos os movimentos da vida. Podemos levar uma vida certinha, alimentar-nos de forma saudável, praticarmos desporto, tentarmos que os sentimentos não nos traiam nem nos levem por caminhos que previamente não escolhemos e, de repente, uma situação inesperada altera a nossa vida, uma doença, a morte de um familiar, a alteração no trabalho, uma palavra ou um gesto que nos magoou! No lado oposto, deixarmo-nos levar como as folhas de outono pelo vento, nas diferentes direções e modas e tendências e qualquer brisa nos despedaçará.
O equilíbrio é um caminho possível para absorver a beleza e a alegria da vida.
Cada um de nós reage de maneira própria a situações semelhantes, mas também, em dois momentos distintos, podemos reagir diversamente perante um quadro similar. A vida, em definitivo, não se escreve a preto e branco. Saber para onde caminhamos, saber o chão que pisamos e o que nos faz viver, poderá ser importante para acolhermos as surpresas da vida! Pode não ser o meio-termo, mas importa que sejamos suficientemente maleáveis para lidar com situações adversas, convictos que nunca estamos preparados para tudo o que possa acontecer.
Não nos deixemos paralisar com o medo do futuro, com aquilo que virá, de bom ou de mau. Vivamos hoje com toda a garra que nos é possível. Se esperamos pelas possibilidades de amanhã poderemos nunca viver as realidades de hoje e apreciar tudo o que de bom e maravilhoso acontece na nossa vida.
Para os cristãos há uma segurança definitiva: Deus.
A confiança pressupõe uma dose de abandono, exigindo, por vezes, fazer como a criança quando se lança para os braços do pai ou da mãe, confiando que vai ficar seguro…
2 – As parábolas que Jesus utiliza no Evangelho para nos explicar e envolver no Reino de Deus mostram uma profunda certeza: Deus cria e recria o mundo constantemente, mesmo quando tudo parece silencioso, inócuo, sem movimento.
«O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. E quando o trigo o permite, logo se mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita... É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra».
Nuances diferentes, a mesma constatação: o reino de Deus não é fruto do ocaso como o não é o mundo em que vivemos. Se observarmos com atenção, na primeira parábola, a semente lançada à terra, noite e dia vai produzindo o seu efeito sem nenhuma intervenção humana, desponta, desabrocha da terra, cresce, produz a espiga e depois o trigo maduro. Assim o mundo se mantém apesar de tudo, da noite e do dia, das violências e das guerras. Deus tudo sustenta. Ele dá-nos a semente (a Palavra de Deus), o campo (o mundo, as pessoas) e o fruto (todo o bem que se possa realizar)! Mas conta connosco. Para preparar a terra, lançar a semente, vigiar para que os pássaros ou outros animais não destruam a sementeira, arrancar algumas ervas daninhas quando ainda é possível sem arrancar também o trigo (cf. Mt 13, 24-30) sobretudo o trabalho da ceifa e da colheita. Deus conta comigo e contigo, conta connosco, para construir com mais amor a família de Deus.
A segunda parábola explicita a esperança. O que é pequeno ao nosso olhar, em Deus tornar-se-á abundante, imenso, maior. Também aqui poderíamos falar de bem-aventuranças, falar da humildade que nos permite abrir o coração e a vontade para juntos, como irmãos, construirmos um mundo justo e fraterno, criando as melhores condições para que transpareça o reino de Deus.
3 – A vida sem Deus é nada, o nada com Deus é muito, é tudo. Em alternativa, o vazio, o acaso, as coincidências e os destinos, o mundo que nos controla, nos sujeita e nos absorve, aniquilando a nossa memória, a nossa vida por inteiro. Caímos à terra e nada mais. Tornamo-nos pó. Pó somente. E por mais romântico que possa parecer, apelando para a nossa humildade ou indigência, ninguém quer ser apenas pó, desaparecendo para sempre, até da memória dos entes queridos, pois também os que perdurarem hão perecer e com eles desaparecerá qualquer vestígio da nossa existência... fiquem árvores ou filhos ou livros, mas nós não ficaremos. Nada de nós sobrevirá à nossa vida ou à nossa morte!
Só Deus garante que não seremos apenas pó, ainda que do pó nos tenha chamado à vida, com o Seu Espírito. Voltaremos à terra, mas em Deus não ficaremos enterrados, esquecidos, abandonados aos bichinhos. Como a Jesus, Deus ressuscitar-nos-á, fará surgir um rebento novo, nova vida.
Belíssimas palavras do profeta Ezequiel: «...Eu próprio arrancarei um ramo novo e vou plantá-lo num monte muito alto. Na excelsa montanha de Israel o plantarei e ele lançará ramos e dará frutos e tornar-se-á um cedro majestoso... E todas as árvores do campo hão de saber que Eu sou o Senhor; humilho a árvore elevada e elevo a árvore modesta, faço secar a árvore verde e reverdeço a árvore seca. Eu, o Senhor, digo e faço».
E se é assim com a árvore, muito mais será connosco. "O justo florescerá como a palmeira, / crescerá como o cedro do Líbano; / plantado na casa do Senhor, / florescerá nos átrios do nosso Deus". Ou melhor, a árvore é a imagem do reino de Deus e de cada um de nós que se deixa plasmar pelo Espírito do Senhor. É este o pedido da oração de coleta: "Deus misericordioso, fortaleza dos que esperam em Vós, atendei propício as nossas súplicas; e, como sem Vós nada pode a fraqueza humana, concedei-nos sempre o auxílio da vossa graça, para que as nossas vontades e ações Vos sejam agradáveis no cumprimento fiel dos vossos mandamentos".
4 – São Paulo, na sua segunda missiva aos Coríntios, faz melodia com as demais leituras e orações, fazendo-nos ver que a vida presente é atraída pela vida futura e há de ser já vivida com os olhos postos na eternidade, para que tudo o que façamos não seja em vão, a prazo, ou como passatempo, mas seja para louvor e glória de Deus. Não somos perfeitos. Longe disso. Mas estamos a caminho. Deus segue connosco. Dá-nos Jesus. Dá-nos o Seu Espírito de Amor, que torna presente, sempre, Jesus Cristo, na palavra, nos Sacramentos e na caridade.
“Nós estamos sempre cheios de confiança, sabendo que, enquanto habitarmos neste corpo, vivemos como exilados, longe do Senhor, pois caminhamos à luz da fé e não da visão clara. E com esta confiança, preferíamos exilar-nos do corpo, para irmos habitar junto do Senhor. Por isso nos empenhamos em ser-Lhe agradáveis, quer continuemos a habitar no corpo, quer tenhamos de sair dele”. A fé ilumina o nosso compromisso presente com a transformação do mundo.
Pe. Manuel Gonçalves
sábado, 23 de maio de 2015
Solenidade de Pentecostes - 24 de maio de 2015
1 – «Enquanto a sociedade se torna mais globalizada, faz-nos vizinhos mas não nos faz irmãos» (Bento XVI, Caritas in Veritate). Nesta expressão do Papa Emérito constata-se que a globalização dos meios de comunicação social, o desenvolvimento das vias de comunicação, a evolução técnica e tecnológica, nos aproximou, vencendo barreiras geográficas, culturais, sociais, mas o excesso de comunicação e a fácil mobilidade não enriqueceu a relação entre as pessoas, não eliminou conflitos, intolerâncias ou a indiferença. Não basta ter os meios, é necessário ter vontade. Não basta estarmos lado a lado, é necessário que nos vejamos e nos reconheçamos como irmãos.
Há excelentes meios técnicos, mas para se comunicar bem é preciso comunicar com o espírito, com alma, comunicando-nos, pondo nas palavras, nos gestos e nas obras o que somos, dando o melhor. Os melhores smartphones, tablets, a internet mais rápida, os meios sofisticados de imagem e de vídeo, não tornam as pessoas melhores ou mais comunicativas. Há pessoas que não despegam do telemóvel o dia inteiro e nem por isso têm uma vida social mais intensa e interessante e a interação com os outros deixa muito a desejar. Pessoas que facilmente acedem ao outro lado do mundo e entram em conversação com pessoas que não conhecem de lado nenhum e, em contrapartida, não têm amigos reais, têm grande dificuldade em se relacionar com os pais, com os irmãos, com as pessoas de carne e osso. Correr, saltar, brincar, ouvir música, ir a uma festa de amigos, fazer desporto, envolver-se em atividades culturais, desportivas, religiosas, conviver com os amigos dos pais, almoçar/jantar com os avós… pode tornar-se um pesadelo, pois há urgência em estar on-line, conectado a todos os amigos digitais…
Hoje, solenidade do Pentecostes, Cristo dá-nos o Espírito Santo para que as nossas palavras não sejam vazias, para que as nossas palavras nos aproximem, nos levem aos outros e nos tragam os outros. Para que não fiquemos na eficácia da técnica, que é útil e necessária, mas cheguemos ao coração dos outros, com palavras que animem, deem esperança e vida.
2 – Há uma linguagem para lá de todas as palavras e de todos os gestos, a linguagem do amor, da amizade, da compaixão, a linguagem dos afetos, da proximidade, do olhar penetrante, do sorriso que comunga e partilha a vida, do rosto que se identifica com o sofrimento alheio. Há uma linguagem de ternura que atrai e que é facilmente percetível por todos. É possível que nos entendamos, quando utilizamos a linguagem da verdade e do bem, uma linguagem com espírito, com vida, uma linguagem que serve para dar as mãos e unir esforços. Como família.
Jesus confirma os Seus discípulos. Naquela tarde, primeiro dia da semana, Domingo de ressurreição e vida nova, Jesus ultrapassa as fronteiras das portas e das janelas do medo e da desconfiança, e coloca-Se no MEIO dos Seus discípulos. Não há barreiras para esta nova forma de estar. Não há muros intransponíveis para Jesus Ressuscitado. Só é preciso que os nossos corações estejam abertos, dóceis, prontos a acolher o Espírito que d'Ele nos vem, a paz que Ele nos traz, a paz que experimentamos se Ele está connosco no Meio de nós. «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».
A alegria que os discípulos experimentam naquela ocasião repetir-se-á em cada um de nós, em cada momento que deixarmos que Ele nos habite, irrompa na nossa vida e nos transforme. Alegria e paz quando e sempre que formos instrumento de perdão e de misericórdia, contribuindo para a paz e a alegria dos outros.
3 – Não há portas nem janelas que blindem o amor e a compaixão. Um coração ferido só se cura com a força da ternura, da doçura, da proximidade. Não há medicamentos que curem a solidão, não há anestésicos que resolvam a vida e nos tornem irmãos. Não há antibióticos que anulem a indiferença, a intolerância, a ganância ou a prepotência. Só o amor. Deus é amor!
Há momentos da vida em que os medicamentos ajudam, anestesiando, mas só a amizade, o calor humano, a proximidade física e espiritual curam verdadeiramente. Os motivos do sofrimento podem não desaparecer, mas são integrados na partilha e na comunhão, na amizade solidária e compassiva, confiando-os a Deus, colocando-nos no Seu coração, através daqueles e daquelas que Ele colocou ao nosso lado.
Há muitas vozes que ouvimos. Muito ruído que nos desafia, nos inquieta, nos desassossega. Há vozes que não nos deixam dormir nem descansar. Há ruído que não passa disso mesmo, ruído que transparece ódio, inimizade, agressão. Há vozes que não chegam ao céu. É um ruído de fundo, maledicente, doentio, que acusa, que aponta, que se acobarda desviando para os outros os próprios defeitos e imperfeições. Há vozes que não reproduzem nem som nem palavras, nem linguagem humana, apenas destilam veneno. A comunicação implica escuta, respeito pelo outro, compreensão pelas diferenças, exige tratar o outro como igual, como irmão. Precisamos sempre de rever a nossa comunicação, purificá-la. Os sons só permanecerão, como linguagem humana, se tocarem o coração, o nosso e o dos outros.
4 – Os Apóstolos estão reunidos, como comunidade. Sublinhe-se. É em comunidade que Jesus Se manifesta, aparecendo aos discípulos. É em comunidade que Jesus envia o Espírito Santo. Aquele que é dado multiplica-Se pelos discípulos. Dá-Se inteiramente. Inteiramente a cada um. E cada um se reconhece diante dos outros, com o mesmo Espírito Santo. O Espírito é dado para nos aproximar, para nos converter e fazer com que sejamos família de Deus.
Diversos os dons, mas o Espírito é o mesmo, pois é o Senhor que opera tudo em todos. “Todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos batizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi dado a beber um único Espírito”.
É um rumor, uma rajada de vento, que não deixa ninguém indiferente. Ninguém poderá ficar indiferente Àquele que vem do Céu. A religião como a fé não é algo que nos feche em casa e nos isole. A fé provoca alegria e vontade de comunicar aos outros o Espírito que recebemos. É o que fazem os Apóstolos, começam logo a falar diversas línguas conforme o Espírito lhes permite. Não são tanto as línguas que falam, mas sobretudo a voz de Deus que Se faz ouvir através da nossa língua, numa linguagem que nos irmana. E se a linguagem for ternura, se for a língua do Espírito, então cada um percebe na sua própria língua, no seu coração: Deus que fala através do irmão.
5 – Aprendemos a balbuciar os primeiros sons com os nossos pais ou com aqueles que estão mais perto de nós ou passam mais tempo connosco na infância. No plano da fé somos sempre "crianças", aprendizes, discípulos. É o Espírito Santo que nos faz balbuciar a nossa profissão de fé. Como nos recorda o apóstolo: “Ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» a não ser pela ação do Espírito Santo”.
Deixemos que o Espírito Santo, que nos é dado por Jesus Cristo, nos coloque diante dos outros como irmãos, filhos do mesmo Pai do Céu, para sermos uma só família, cuidando uns dos outros, fazendo com que a diversidade de dons nos enriqueça mutuamente.
“Vinde, ó santo Espírito, / vinde, Amor ardente, / acendei na terra / vossa luz fulgente. / Descanso na luta / e na paz encanto, / no calor sois brisa, / conforto no pranto. / Luz de santidade, / que no Céu ardeis, / abrasai as almas / dos vossos fiéis” (Sequência ao Espírito Santo).
Pe. Manuel Gonçalves
Textos
para a Eucaristia: Atos 2, 1-11; Sl 103; 1 Cor 12,
3b-7. 12-13; Jo 20, 19-23.
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sábado, 16 de maio de 2015
Ascensão de Jesus ao Céu - ano B - 17 de maio de 2015
1 – Se dúvidas houvesse sobre a dimensão missionária da Igreja, elas ficariam desfeitas pelos textos hoje propostos e pela solenidade da Ascensão do Senhor ao Céu. Jesus ascende para Deus, para a eternidade do Pai, não como quem nos abandona, mas por forma a estar presente à humanidade inteira e não apenas, na limitação do tempo, do espaço e da história, a um grupo restrito. É necessário que Eu vá para junto do Pai para vos enviar o Espírito Santo que vos recordará toda a verdade. Então o Espírito Santo dará testemunho de Mim e vós também dareis testemunho (cf. Jo 15, 26 – 16, 4).
Vós sereis testemunhas destas coisas. Vou partir mas não vos deixarei órfãos. Enviar-vos-ei o Espírito. A Ascensão de Jesus lembra-nos que Ele nos chama para nos enviar e não para ficarmos à sombra da bananeira à espera que a vida se resolva a nosso favor. Audazes para fazermos o que está ao nosso alcance, dando o melhor de nós, construindo um mundo mais justo e fraterno, tornando-nos verdadeiramente família de Deus, dando as mãos para juntos chegarmos mais longe.
Vamos errar? Sim, muitas vezes. Só não erraremos se não fizermos nada.
Vamos errar? Sim, muitas vezes. Só não erraremos se não fizermos nada.
Vamos desanimar? Sim. Mas também assim descobriremos o sabor e o sentido do compromisso, da insistência, do esforço. Precisamos de águas calmas, mas a ondulação ajuda-nos a prosseguir, a estar vigilantes e despertos, a ser mais cuidadosos.
Jesus apareceu aos Onze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados».
2 – São Marcos, que volta ao nosso convívio, de forma sucinta, clara e perentória, diz-nos que o mandato de Jesus é rapidamente executado pelos Seus discípulos. “O Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam”.
Como tinha prometido, Jesus acompanha os discípulos no seu ministério missionário. Coopera com eles, confirmando com os milagres as palavras anunciadas. Um texto tão simples por certo só nos diz o que precisamos de saber para prosseguirmos: Ele está e coopera connosco, e através de nós continuará a operar maravilhas.
As dificuldades multiplicar-se-ão à medida que a evangelização der frutos. Quanto mais atual e atuante, visível e concretizada, em pessoas e comunidades, estiver a Palavra de Deus, mais obstáculos surgirão, mais vozes e gestos se levantarão. O anúncio do Evangelho provocará escolhas. Nada ficará como dantes. A luz não provoca caos, mas põe a descoberto as imperfeições. As ondas hão de ora incomodar ora envolver, expondo o cinismo e a hipocrisia. Não fazer nada, não levantar ondas, não chamar a atenção, não exige uma escolha e não invetiva os que estão acomodados. Como se costuma dizer, e às vezes com razão, só não falam mal de quem não faz nada.
São Marcos, o primeiro a escrever o Evangelho, assiste a um extraordinário impulso missionário. Mesmo sendo um acrescento final ao Evangelho, esta narração resume o essencial dos tempos posteriores à ressurreição de Jesus e como os discípulos vivem entusiasmados com os frutos da evangelização. Os primeiros anos, com alguns reveses, são quase idílicos.
3 – São Lucas, ao escrever o Evangelho e o livro dos Atos dos Apóstolos, faz transparecer as provações dos discípulos e das primeiras comunidades. À medida que a pregação gera frutos e comunidades, também gera, como víamos, ódios, inimizades, perseguição.
Numa leitura alargada dos evangelhos, atos, cartas dos apóstolos, verifica-se que há atitudes diversas diante das dificuldades. Para uns, Jesus vai já manifestar-Se, no tempo da geração atual. Algumas cartas de São Paulo são explícitas a este propósito: alguns não morrerão sem terem visto a vinda do Reino de Deus em poder, colocando o universo inteiro sob o Seu domínio (cf. 1 Tes 4, 13-18). «Esta geração não passará sem que tudo aconteça» (Mt 24, 34; cf. Lc 21, 32).
Na primeira leitura, a pergunta a Jesus recoloca a questão: «Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?». O entusiasmo inicial está alquebrado. Que aconteceu? Já morreram alguns, e Jesus não veio ainda restaurar o mundo? São Lucas procura a resposta nas palavras de Jesus: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade; mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra».
É quanto basta. Está tudo dito. Deixemos a hora e o lugar, o tempo e a ocasião, não queiramos antecipar o futuro cronológico. Quando muito vivamos com os olhos postos no futuro de Deus, que nos atrai e sustém.
À vista deles, elevou-Se e uma nuvem escondeu-O. Os discípulos ficam de olhar fito no Céu, como nós ficamos a olhar aqueles que vemos partir. É preciso regressar aos nossos afazeres, mas enquanto vemos o carro ou o comboio a afastar-se ficamos. Assim sucede com os discípulos. Então, dois homens vestidos de branco, interpelam-nos: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».
Há que encontrar Jesus no meio de vós. Dessa forma Ele manifestar-se-á. Não adianta ficar a olhar perdidamente para o Céu. Quantas vezes também nos fixamos no Céu à espera de uma resposta, um sinal, uma prova! Por um lado, o Céu é o nosso horizonte. Mas para já temos de trabalhar o mundo, cuidando uns dos outros, entre sucessos e contratempos.
4 – A oração final da Eucaristia enlaça-nos neste desiderato de vivermos aqui na terra, saboreando o verdadeiro Alimento, o Pão vivo que nos alimenta até à vida eterna: “Deus eterno e omnipotente, que durante a nossa vida sobre a terra nos fazeis saborear os mistérios divinos, despertai em nós os desejos da pátria celeste, onde já se encontra convosco, em Cristo, a nossa natureza humana”.
Não são duas realidades estanques ou separadas, entrelaçam-se por vontade de Deus que, em Jesus, desceu à terra, assumiu a nossa natureza humana, caminhou connosco, e com a Sua morte e ressurreição, abriu-nos as portas da eternidade. Agora vive entre nós de uma maneira nova, pelos Sacramentos, pela Palavra proclamada, mastigada e vivida, por todo bem que em Seu nome fizermos aos outros, preferencialmente aos mais pobres.
A oração de São Paulo agrafa-nos a este compromisso: “O Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria... ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados”.
Também aqui fica claro que a esperança que nos guia para Deus e para o futuro se vai realizando, concretizando, expressando, no tempo presente, na nossa oração e no nosso labor, na procura de comunicarmos, vivendo, a misericórdia que Jesus nos dá em abundância.
Pe. Manuel Gonçalves
domingo, 22 de março de 2015
Paróquia de Pinheiros: CAMINHADA QUARESMAL
5.º DOMINGO DA QUARESMA
Caminhada Quaresmal nas paróquias de Pinheiros e de Tabuaço, assinalada por um gesto/símbolo, sublinhando um aspeto do Evangelho do respetivo domingo. Neste domingo, o desejo manifestado pelos gregos em ver Jesus (cf. Jo 12, 20-33), com a colocação de GLOBO com o rosto de Jesus. Em Pinheiros a opção por texto/reflexão:
Queríamos ver Jesus.
É um pedido que preenche por inteiro o Evangelho que nos é dito neste Domingo.
Jesus e os apóstolos sobem a Jerusalém, onde se concentra grande número de judeus.
É por ocasião da Páscoa judaica, que faz a memória da libertação do Povo.
Vêm de muitos lugares, das terras próximas, mas também de terras mais distantes.
Alguns vivem no estrangeiro e já nem falam a língua dos pais e, por isso, recorrem a um apóstolo que fala grego, a Filipe.
A fama de Jesus, para o bem e para o mal, já se tinha espalhado.
Como acontece na nossa comunidade, há notícias que correm depressa.
Aqueles gregos já tinham ouvido falar de Jesus, ou na Grécia, por algum familiar que os visitou, algum comerciante ou no regresso à Judeia.
São muitos os motivos que conduzem a Jesus: curiosidade, ir na onda dos outros, conhecer a proposta de Jesus, ir à procura de um sentido novo para a sua vida.
Ainda que não saibamos as motivações, o pedido é claro e decidido: Queríamos ver Jesus.
COLOCAÇÃO DO GLOBO.
Para prevenir equívocos e evitar falsas esperanças, Jesus fala do que está para vir:
“Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo”.
Mais perto, aqueles gregos, mas também os seus discípulos, começam a ver claramente que o projeto de Jesus exige coragem e serviço. Aproximam-se horas difíceis em que Ele será posto à prova. Mas também nós somos postos à prova.
Os gregos queriam ver Jesus. E nós, queremos ver Jesus?
E se estamos com Ele, facilitamos que outros cheguem perto de Jesus, como fez Filipe e André? Ou, pelo contrário, formamos uma barreira com a multidão, impedindo que outros se aproximem de Jesus?
Senhor Jesus, que também eu deseje ver-Te,
na palavra de cada domingo, no pão da Eucaristia, no irmão que puseste ao meu lado.
Que queira seguir-Te, tomando a cruz dos meus dias, e na Tua companhia, descobrir a alegria de ser teu discípulo, testemunhando o Amor que Tu nos trazes, para que outros queiram ver-Te e seguir-Te.
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