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terça-feira, 20 de março de 2018

VL – A bênção de Deus para este novo ano…

Iniciar um novo ano, cada nova etapa da vida, envolve uma mistura de sentimentos. Dúvida e esperança. Possibilidades de fazer novos amigos, concretizar projetos, encerrar assuntos do passado, abrir-se à novidade do futuro. De um ano ao outro são milésimas de segundo, ainda agora estávamos em 31 de dezembro de 2017 e um breve pestanejar e já passou o dia 1 de janeiro de 2018. Um movimento de inspirar-expirar o ar que nos permite viver. Um instante que se multiplicará, se Deus quiser, por milhares. Por dia, 23 mil movimentos de inspirar/expirar. 8 395 000 de um movimento impercetível que nos fará viver mais um ano. Isso lembra-nos que a vida acontece prevalentemente no que é insignificante, pequeno! Um pormenor fará diferença, eu e tu podemos fazer a diferença neste mundo, acolhendo as bênçãos e os dons de Deus e deixando que Ele nos transfigure constantemente e assim possamos, com a Sua graça, transformar o mundo.
O calendário litúrgico coloca no início do ano civil a solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, o amor de uma Mãe, escolhida desde sempre para acolher a semente de um mundo novo, rejuvenescido pelo amor, pela bondade e pelo serviço solidário. Deus nunca Se afastou de nós e quando O rejeitámos Ele continuou a amar-nos. É-nos pedido que procedamos do mesmo modo uns para com os outros, nunca desistindo de amar, de viver e de cuidar.
A vinda de Jesus é o Presente de Deus para nós! Dá-Se a Ele mesmo, no Filho, Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo. Criou-nos por amor e por amor nos recria, chamando-nos a uma vida nova pautada pela bondade, pela ternura e pelo amor, pela compaixão, pela partilha solidária e pelo perdão. Criou-nos por amor e criou-nos livres! Confiou-nos o mundo e confiou-nos os outros. Mas quantas vezes nos devoramos mutuamente? Quantas vidas já silenciámos, subjugámos, destruímos? Quantas vezes obscurecemos a imagem que somos de Deus, tornando-nos opacos ao Seu amor?
Jesus é Luz que nos inunda até as trevas mais densas, irradia vida, amor e bênção! É a promessa de Deus que se enraíza no mundo, na história, no tempo. Deus, em Jesus, faz-Se igual a nós. Abaixa-Se para viver como Um de nós, não para nos nivelar por baixo mas para nos elevar.
Tudo começa e recomeça no amor de Deus que nos renova transformando-nos. Novo ano, a vida nova que recebemos no batismo concretizada em cada instante, acolhendo e testemunhando o desafio de Jesus: Vai e faz tu também do mesmo modo.

sexta-feira, 4 de março de 2016

José A. PAGOLA - JESUS. Uma abordagem histórica.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA (2008). Jesus. Uma abordagem histórica. Coimbra: Gráfica de Coimbra 2. 554 páginas.

- Uma explicação ao meu livro "Jesus, uma abordagem histórica. Suplemento. Coimbra: Gráfica de Coimbra 2. 64 páginas.
       Nos últimos anos foram publicados diferentes livros, romances, histórias, versões alternativas dos evangelhos, com "autênticas" revelações sobre a figura de Jesus, que estiveram escondidas em outros evangelhos (apócrifos), ou em dados secretos. Estas históricas ficcionadas partem de suspeições nunca levantadas, nem pela história, nem pela arqueologia, nem pela antropologia sociológica, e não levam em linha de conta os estudos que se têm realizado ao longo de décadas. Parecem "descobertas" surpreendentes como se de repente lhes caísse em cima material nunca antes visto. Este é um pressuposto para ler esta magnífica obra sobre Jesus, usando de perto o método histórico, analisando o contexto em que viveu Jesus, a cultura, a sociedade, os dados arqueológicos, a comparação com a vida social, cultural e religiosa daquele tempo, naquelas aldeias da Galileia e da Judeia.
       O outro pressuposto, sublinhado pelo Papa Bento XVI, referido pelo autor no suplemento, a importância, não exclusiva do método histórico, mas a ajuda para melhor conhecer Jesus encarnado, Há o perigo de uma fé ficcionada, dispensando os dados históricos que se referem a Jesus. O perigo contrário seria basear a fé apenas nos dados comprovados cientificamente. O encontro com Jesus está para lá de todos os dados científicos, mas pressupõe-nos. De contrário, os evangelhos seriam uma fraude e a encarnação uma histórica de embalar.
       É um livro com muitas páginas, mas que se lê com facilidade. A linguagem do autor é simples e acessível. As notas de rodapé podem ajudar a uma maior compreensão, mas o texto pode ser lido sem as notas e tornar-se mais leve. Como em outras obras, o autor procura envolver-nos dentro da história e da vida de Jesus. Sendo sacerdote católico, procura que a abordagem história se assuma em primeiro lugar. Como o próprio refere, o crente cristão, porque está envolvido, vai entranhar-se e dedicar-se melhor ao estudo de Cristo. Portanto, Pagola parte da ambiência da fé, propondo a figura de Jesus para hoje, a partir de tudo o que ajuda a situar Jesus no seu tempo. Para os não-crentes, o livro pode revestir-se de uma informação séria sobre a figura de Jesus. Para os crentes pode ajudá-los a acolher Jesus (não romantizado mas) encarnado, no tempo e na história, procurando sintonizar-se com o Seu proceder para que as respostas que damos hoje sejam mais cristãs e nos convertam em irmãos, para construir uma sociedade mais justa e fraterna.
       O estilo é vivo, direto, de fácil compreensão. O suplemento explicita alguns pontos que alguns críticos consideraram duvidosos, precisamente por ser um sacerdote a escrever e poder dar azo a leituras contrárias. Clarifica mas não acrescenta nada de substancial que não seja o compromisso com o Evangelho, com a fé católica, na perspetiva de nos aproximar de Jesus e do seu ambiente histórico e cultural e O trazer para o nosso tempo.
      Será uma excelente leitura, para conhecer melhor Jesus e o seu tempo, mas também para meditar sobre a compaixão/misericórdia expressa nas atitudes e comportamentos de Jesus. Alguém que se faz mendigo, vive como mendigo, convive com os mendigos. Compadece-se dos mais frágeis, aproxima-Se, conversa com eles, come com eles, mistura-se com eles, opondo-se claramente àqueles que exploram, que se colocam acima dos outros e excluem os outros. Neste Ano da Misericórdia, esta é uma leitura envolvente, mostrando com clarividência uma proximidade, delicadeza, cuidado, opção pelos mais pobres, pelos desvalidos, doentes, leprosos, pecadores públicos, mulheres e crianças, publicanos e todos os que estão excluídos da vida social, política, religiosa. É visível a compaixão Jesus que Ele remete para o Pai. O Seu agir e os seus dizeres não são seus mais do Pai, que é bom para com todos, bons e maus e que abre a Sua casa e a Sua mesa para todos.

Do mesmo autor já aqui sugerimos:

domingo, 10 de novembro de 2013

Entrevista com o Papa Francisco - Deus em todas as coisas

       «O que eu disse no Rio tem um valor temporal. Existe, de facto, a tentação de procurar Deus no passado ou no futuro. Deus está, certamente, no passado porque está nas pegadas que deixou. E está também no futuro como promessa. Mas o Deus “concreto”, digamos assim, é hoje. Por isso, os queixumes nunca, nunca, nos ajudam a encontrar Deus. As queixas de hoje de como o mundo anda “bárbaro” acabam por fazer nascer dentro da Igreja desejos de ordem entendidos como pura conservação, defesa. Não. Deus deve ser encontrado no hoje».
       «Deus manifesta-Se numa revelação histórica, no tempo. O tempo inicia os processos, o espaço cristaliza-os. Deus encontra-Se no tempo, nos processos em curso. Não é preciso privilegiar os espaços de poder relativamente aos tempos, mesmo longos, dos processos. Devemos encaminhar processos, mais que ocupar espaços. Deus manifesta-Se no tempo e está presente nos processos da História. Isto faz privilegiar as acções que geram dinâmicas novas. E exige paciência, espera».
       «Encontrar Deus em todas as coisas não é um eureka empírico. No fundo, quando desejamos encontrar Deus, quereríamos constatá-l’O de imediato com um método empírico. Assim não se encontra Deus. Ele encontra-Se na brisa ligeira sentida por Elias. Os sentidos que constatam Deus são os que Santo Inácio designa por “sentidos espirituais”. Inácio pede para abrir a sensibilidade espiritual para encontrar Deus para além de uma abordagem puramente empírica. É necessária uma atitude contemplativa: é o sentir que se vai pelo bom caminho da compreensão e do afecto no que diz respeito às coisas e às situações. O sinal de que se está neste bom caminho é o sinal da paz profunda, da consolação espiritual, do amor de Deus e de todas as coisas em Deus».
in BROTÉRIA.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A Princesa que morreu por amor

       "Mack e os filhos pararam nas cataratas Multnomah… Missy implorou ao pai para que ele conte a lenda da jovem índia, filha de um chefe da tribo Multanomah…
       A história falava de uma Princesa, única filha de um pai idoso. O chefe adorava a filha e escolheu com cuidado um marido para ela: um jovem guerreiro, da tribo Clatsop, que a amava. As duas tribos juntaram-se para celebrarem as bodas; porém, antes do início da festa, uma doença terrível começou a espalhar-se entre os homens, matando muitos deles.
       Os anciãos e os chefes reuniram-se para discutir o que poderiam fazer contra a doença devastadora que dizimava rapidamente os seus guerreiros. O feiticeiro mais velho contou que o seu pai, já bem idoso e pouco antes de morrer, previra uma doença terrível que mataria os seus homens, uma doença que só poderia ser vencida se a filha de um chefe, pura e inocente, oferecesse de boa vontade a vida pelo seu povo. Para realizar a profecia, ela deveria subir voluntariamente a um penhasco sobre o Grande Rio e saltar para a morte sobre as rochas mais abaixo.
       Uma dúzia de jovens, todas filhas dos vários chefes, foram levadas à presença do Conselho. Depois de demorados debates, os anciãos decidiram que não poderiam pedir um sacrifício tão grande, sobretudo porque não sabiam se a lenda era verdadeira.
       Mas a doença continuou a espalhar-se implacavelmente entre os homens, até que, finalmente, o jovem guerreiro, o futuro esposo, caiu doente. A princesa, que o amava muito, sentiu no fundo, do coração que algo precisava de ser feito e, depois de lhe dar um breve beijo na testa, afastou-se.
       Demorou toda a noite e todo o dia seguinte para chegar ao local indicado na lenda, um penhasco altíssimo acima do Grande Rio e das terras que se estendiam a perder de vista. Depois de rezar e de se entregar ao Grande Espírito, ela cumpriu a profecia sem hesitar, saltando para a morte nas rochas mais abaixo.
       Nas aldeias, na manhã seguinte, os doentes levantaram-se saudáveis e fortes. Houve grande júbilo e comemoração, até que o jovem guerreiro descobriu que a sua noiva tinha desaparecido. À medida que a percepção do q eu acontecera se espalhava rapidamente ente entre o povo, muito empreenderam a viagem até ao lugar onde sabiam que iriam encontrá-la. Enquanto se reuniam em silêncio à volta do corpo destroçado na base do penhasco, o seu pai, tomado pelo sofrimento, gritou ao Grande Espírito, pedindo que o sacrifício dela fosse lembrado para sempre. Nesse momento, do lugar onde ela saltara começou a jorrar água, transformando-se numa névoa fina que caía aos pés deles, formando lentamente um lago maravilhoso…

       A narrativa possuía todos os elementos de um verdadeiro conto de redenção, não muito diferente da história de Jesus, que ela conhecia tão bem. Falava de um pai que amava a filha única e de um sacrifício anunciado por um profeta. Por causa do amor, a jovem decidiu dar a sua vida para salvar o noivo as tribos da morte certa.
       … Quando chegou a vez de Missy rezar, ela quis conversar com o pai:
       - Papá, por que teve ela de morrer?
       - Querida, ela não teve de morrer. Ela escolheu morrer para salvar seu povo…

       As questões sucedem-se. O Grande Espírito é Deus? Deus quis que o Seu filho morresse? Se Deus quis que a Princesa morresse, se Deus quis que Jesus Cristo morresse, então Deus é mau?
       Jesus escolheu morrer, por amor à humanidade, assim como a Princesa da lenda... Mas os mistérios do homem e de Deus continuam a ser insondáveis, mas pelo menos conhecemos um rosto que nos mostra Deus: JESUS CRISTO.

In A Cabana, de Paul Young.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A Cigarra e da Formiga - versão Gonçalves da Costa

       A cigarra, graciosa garrida, livre de compromissos sociais ou económicos, resolve viver independente a alegrar a comunidade com as suas melodias rítmicas e monocórdicas, enquanto a formiga, desengonçada e farroupilha, escrava do agregado de classe mourejava dia e noite, sem outro ideal que o de satisfazer as exigências do estômago.
       Despreocupada e romântica, todo o verão a cigarra voava de árvore em árvore, na plena liberdade de espaços, persuadida que o espírito vale mais do que a matéria, nunca disputando o bocado que podia matar a fome do seu semelhante. Ao contrário a formiga, pragmática e egoísta, partidária do materialismo dialético, achava sempre pequeno o seu celeiro, espreitando todas as oportunidades de fazer ocupação selvagem, desde o naco de pão do proletariado, até ao grão de trigo do agricultor e ao boião de geleia do burguês, respondendo à dentada ao faminto que lhe batesse à porta.
       Não assim a cigarra. Fiel à doutrina evangélica, cumpria a primeira obrigação da criatura que é louvar a Deus, na certeza de que tudo o mais lhe viria por acréscimo; confiava na providência do Pai do Céu que nunca deixou perecer à míngua os que menosprezam os próprios interesses para fazer bem aos irmãos. Por isso a formiga, que não levanta os olhos da terra, está condenada a morrer sob os pés dos transeuntes e o seu cadáver a ser devorado pelas companheiras de luta, enquanto a cigarra recebe a morte franciscanamente entoando um hino ao sol.


       Curiosa a interpretação de André Sardet, em sintonia com esta versão alternativa do Pe. Manuel Gonçalves da Costa:
Interessante também a leitura de Pe. Isidro Lamelas, também natural de Penude: AQUI.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Gonçalves da Costa: 20 anos depois, peregrino de mim

       Fazia precisamente vinte anos que eu tinha deixado a minha aldeia, naquele dia de sim de verão em que voltava a percorrer, peregrino de mim, os caminhos de infância. O passado vinha ao meu encontro em cada esquina, mas a criança ingénua, tímida, crédula, e um tanto presunçosa na sua ignorância, essa por lá ficara irremediavelmente perdida aos bocados, não sei como nem onde. Lembro-me, por exemplo, da vizinha, a Maria Rosa, que da porta da sua casa me disse adeus há 20 anos, quando ela tinha outros tantos.
       E afinal lá estava ela, entretida com as agulhas da meia, ao pé da horta, entre os cravos e as couves-galegas, a mesma juventude, o mesmo ar sadio, a mesma garridice provinciana. Parece incrível como os anos a deixaram intacta! Vou fazer-lhe uma surpresa:
       - Olá, Maria Rosa!
       Ela moveu a cabeça a fitar-me numa interrogação.
       - Então já não me conheces?
       - Desculpe. Eu não sou a Maria Rosa. Chamo-me Emília. Maria Rosa é a minha mãe. Olhe-a ali.
       Nesse momento vi emoldurada nas ombreias da porta uma cabeça grisalha, um rosto enrugado, uns olhos mortiços, uma boca meio desdentada que se abriu a perguntar:
       - Que é?
       - Não é nada. Desculpe. Foi uma confusão.
       Vinte anos! Uma eternidade! Só as árvores mantinham a sua perene mocidade verde. Só o sol, agora a fechar os olhos dormentes no repoiso do ocaso, irradiava o mesmo sorriso rechonchudo, menineiro. E afastei-e, peregrino de mim, a caminho de um santuário profanado pela morte.

domingo, 8 de setembro de 2013

Paróquias Beiraltinas - Penude e Magueija

M. GONÇALVES DA COSTA. Paróquias Beiraltinas. Penude e Magueija. 2.º Edição. Seminário Maior de Lamego. Lamego 2013, 268 páginas.

       Este é certamente um livro de maior interesse para os naturais de Penude e de Magueija, para os que lá trabalham, para os que por ali passam, pessoas interessados em história, na evolução das comunidades nas diferentes vertentes, económica, social, cultural, religiosa.
       O Dr. Gonçalves da Costa vai até aos primórdios, ainda antes do início da nacionalidade, e faz-nos percorrer a história destas duas paróquias, até depois do 25 de abril de 1974.
       Focalizado nos dois povos vizinhos, mas na abertura para a Diocese e para o mundo, com muitas referências aos Prelados da Diocese, Cabido, Paróquias de Alamacave e da Sé, festas, tradições, usos e costumes, lendas, e ao Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, à contrução de estradas e caminhos, de cemitérios e capelas, construção e ampliação das igrejas de Penude e Magueija, as suas gentes, a economia, a religiosidade popular, as romarias a Cárquere, à Lapa, à Senhora dos Remédios.
       O livro mostra-nos a generosidade das pessoas de Penude e de Magueija, que em testamento sempre se lembravam dos mais pobres, ainda que por vezes tivessem a preocupação de que estes estivessem presentes no funeral e nos diversos ofícios. Os párocos das duas freguesias e os sacerdotes naturais deste espaço.

       No prefácio da reedição deste, o Reitor do Seminário Maior refere a ajuda prestada ao autor, dizendo que de muitos ficaram poucos ou apenas o próprio. Do seu curso, porque do meu curso continuamos a ajudar. Nos últimos anos de vida, o autor tinha as faculdade de visão muito diminuidas. Lembro-me perfeitamente desses tempos. Por vezes dizia-me (e aos outros), eu é que estou cego e vós não vedes nada. Tínhamos que ler os textos, rascunhos, emendas, rasurados. Por vezes letra a letra, para que ele pudesse tirar o sentido e tentar entender qual era efetivamente a palavra em causa. Outras vezes usava uma lupa bastante graduada. Nós éramos os "pixotes" que não percebíamos nada de nada.
       Pelo meio muitas histórias. O pagamento eram os seus livros. Ainda me lembro de textos do Peregrino de Mim ou Viagens em Terra alheia. Curiosa por exemplo a interpretação das parábolas de Jesus, do Filho Pródigo, em que defendia com unhas e dentes o filho mais velho em detrimento do filho mais novo; a parábolas do fariseu e do samaritano que subiram ao templo para rezar, colocando no lugar do fariseu uma freira (deveria ter algumas discussões acesas com algumas freias, para uma opinião tão negativa...).
       Por outro lado, a conclusão que ainda éramos da família, ainda que afastados, afinal o pai do Dr. Gonçalves da Costa era originário da Matancinha, minha terra natal.
       Pelo meio outras curiosidades: Matancinha e Bairral civilmente pertenceram ao município de Magueija, religiosamente sempre a Penude. Matancinha, por proposta da Junta de Penude, seria a capital da união de freguesias de Magueija, Bigorne e Penude. Mas não foi aceite pela junta de Magueija, que queria a capital em Magueijinha.
       Um dos conselhos do Pe. Gonçalves da Costa, quando nos pedia colaboração: quando precisares de ajuda pede a quem tem muito que fazer, que ande sempre ocupado, pois arranja tempo e espaço para te ajudar. Se pedires ajuda a alguém que nunca tem nada para fazer, nunca arranjará tempo para te ajudar.
       Um outro momento curioso. Uma tarde, depois de terminarmos o trabalho de "interpretação" dos seus gatafunhos, à saída disse-lhe "obrigado". Coisa que eu lhe dissesse. Obrigou-se a retirar o obrigado, dizendo que ele é que agradecia. Penso que o não tinha feito, mas tinha-me chateado de tal maneira, quase a berrar, dizendo que não tinha vista e que eu não percebia/via nada, que no final me saiu esta expressão: "obrigado". Claro que em outros dias lá voltei para ajudar, e com ele diversas estórias acrescentadas às dos livros.
       Outra curiosdidade pessoal: em minha posse tenho uma espécie de autobiografia do Pe. Manuel Rodrigues Borges, o sacerdote que me batizou, e que em parte confirma as conclusões do Pe. Gonçalves da Costa sobre Penude e as suas gentes, mas também sobre Magueija, as disputas, a construção da residência paroquial, e as consequências/frutos do cisma do Pe. Justino, sendo que a parte de cima, segundo o autor e o Pe. Borges, era mais religiosa e mais assídua às coisas da Igreja, dando mais sacerdotes à Igreja, fruto do rigorismo do Pe. Justino. Ver CISMA de PENUDE: AQUI.
       Refira-se também que vivi muitos anos nas duas freguesias: na Matancinha e depois Matança, Pereiro, Forcas e de novo Matancinha. Sempre de Penude, mas com muitas leigações a Magueija, onde frequentei a escola primária, e onde participávamos nas celebrações, na Missa, em São Tiago, ou mesmo em Magueijinha.

domingo, 25 de agosto de 2013

Haruki Murakami - o tempo como sonho ambíguo

       - Todos nós perdemos coisas a que damos valor. Oportunidades perdidas, possibilidades goradas, sentimentos que nunca mais voltaremos a viver. Faz parte da vida. Mas dentro da nossa cabeça, pelo menos é aí que eu imagino que tudo aconteça, existe um quartinho onde armezanamos todas as recordações. E a fim de compreendermos os mecanismos do nosso próprio coração temos que ir sempre dando entrada a novas fichas, como aqui [na Biblioteca] fazemos. Volta e meia precisamos de limpar o pó às coisas, deixar entrar ar, mudar a águia das plantas. Por outras palavras, cada um vive para sempre fechado dentro da sua própria biblioteca...
       Todas as pessoas precisam de um lugar onde possam pertencer...

       Sentes o peso do tempo como um velho sonho ambíguo. Continuas sempre em movimento, tentando arranjar maneira de te esquivares. Porém, mesmo que vás aos confins do mundo não lograrás escapar-lhe. Mesmo assim, não tens outro remédio senão seguir em frente, até esse fim do mundo. Há algo que não se consegue fazer sem lá chegar.

in HARUKI MURAKAMI. Kafka à Beira-mar. Casa das Letras. Alfragide 2012.

sábado, 18 de maio de 2013

O beato João Paulo II faria 93 anos

       João Paulo II, eleito a 16 de Outubro de 1978, sucedendo a João Paulo I, nasceu em 18 de Maio de 1920, em Wadowice, uma pequena cidade a 50 kms. de Cracóvia. Era o mais novo de três irmãos. Filho de Karol Wojtyła e Emilia Kaczorowska, herda o nome do pai, Karol Wojtyla. A sua mãe faleceu em 1929, e o seu irmão mais velho, Edmundo (médico), em 1932; o seu pai (sub-oficial do exército), morreu 1941, e a sua irmã Olga morreu antes de ele ter nascido.
       Foi baptizado no dia 20 de Junho de 1920, pelo Pe. Franciszek Zak, na Igreja paroquial de Wadowice; aos  9 anos fez a Primeira Comunhão e aos 18 anos o Crisma...
       ... Foi ordenado sacerdote no dia 1 de Novembro de 1946, em Cracóvia, pelas mãos do Arcebispo Sapieha.
       No dia 4 de Julho de 1958, foi nomeado por Pio XII, Bispo Auxiliar de Cracóvia. Foi ordenado Bispo no dia 28 de Setembro de 1958, na Catedral de Wawel (Cracóvia), pelas mãos do Arcebispo Eugeniusz Baziak.
       No dia 13 de Janeiro de 1964, foi nomeado Arcebispo de Cracóvia, por Paulo VI, recebendo também dele o título de Cardeal a 26 de Junho de 1967.
       Eleito Papa a 16 de Outubro de 1978, iniciou o seu profícuo pontificado a 22 do mesmo mês.
       Morreu a 2 de Abril de 2005. Sucedeu-lhe Bento XVI, seu "braço direito" durante largos anos.
       No dia 28 de Junho de 2005, iniciou-se o processo da causa de beatificação e canonização, com dispensa de Bento XVI dos habituais cinco anos após falecimento.

Para consultar a biografia oficial e detalhada de João Paulo II consulte a página da Santa Sé, aqui!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Quando alguém se julga Prémio Nobel da Santidade...

"Quando vem a vaidade, e alguém crê que é um pouco o Prémio Nobel da Santidade, faz-nos bem a memória: «recorda-te de onde te tomei: do fundo do rebanho»... A memória é uma graça enorme, e quando o cristão não tem memória - isto é duro mas é a verdade - não é cristão: é idólatra. Porque está diante de um deus que não caminha, que não sabe caminhar, e o nosso Deus faz caminho connosco, mistura-se connosco, caminha connosco. Salva-nos. Faz história connosco..."


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Bento XVI - Jesus de Nazaré. A Infância de Jesus

       Aguardado há algum tempo, o terceiro volume da obra de Bento XVI, Jesus de Nazaré, desta feita, a Infância de Jesus. Ainda que seja o terceiro volume, este livro corresponde à primeira etapa de vida de Jesus, partindo sobretudo dos evangelhos de São Lucas e de São Mateus, que relatam momentos da infância de Jesus.
       Diga-se desde logo, que este estudo foi iniciado antes de Bento XVI ter sido eleito Papa. Joseph Ratzinger é, sem dúvida, um dos teólogos mais brilhantes que a Igreja conheceu no século XX e início deste novo século e milénio. Nesta sua obra, em três volumes, mostra a Sua vertente mais teológica, não fugindo dos vários questionamentos histórico, científicos, de crítica textual, de vivência da fé, em comunhão com a Igreja, povo de Deus, e com o Magistério, alimentando-se particularmente da Bíblia, da Fé, dos Padres da Igreja, mas também de estudos recentes, de autores católicos, mas também protestantes, ou procurando estudos noutras religiões.
       É um texto de fácil leitura, acessível, como nos tem habituado nas homilias, intervenções, catequese, e igualmente nos estudos publicados. Fácil, acessível, recorrendo a imagens, ao sensus fidei, à vida, com a preocupação de aprofundar a fé. A dimensão mais histórica da vida de Jesus, as dúvidas, as imprecisões, as interpretações textuais, a evolução das traduções, as novas descobertas arqueológicas, os novos estudos teológicos, não engendram dificuldades na vivência da fé, fundamentam-na, mas não a aprisionam, o mistério ultrapassa as lacunas que possam ser encontradas na história e na documentação existente. A fé é maior, ainda que enraizada na história, no tempo, em contextos culturais sociais e religiosos específicos...
       Logo depois de publicado, gerou alguma celeuma sobretudo à volta do boi e do jumento no presépio. Saliente-se que os evangelhos não falam em animais presentes junto à manjedoura ou que animais. Em todo o caso Bento XVI refere o contrário do que Lhe foi atribuído: atualmente nenhum presépio, segundo ele, dispensa o boi e o jumento (ou a vaca e o burro).
       Mais uma vez fica claro que não basta ouvir o que nos dizem de outros, mas ir à fonte, ver, ler, escutar, perceber.

Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré. A Infância de Jesus. Princípia Editora. Cascais 2012.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Editorial Agência Ecclesia - No labirinto da crise

«A Humanidade só pode crescer como um todo» e «esse todo não é apenas material, mas sobretudo espiritual e cultural»
       Procuram-se soluções. Desejam-se certezas sobre o amanhã. É grande a vontade de ter respostas, de saber, sem rodeios nem enganos, o que fazer e com o que contar.
       Poucas vezes, porém, se murmuram interrogações sobre o sentido das coisas e da vida, sobre o ser pessoa neste tempo, as razões para ser mais e melhor todos os dias.
       Os problemas sociais e económicos, individuais e da sociedade, parecem fazer esquecer o essencial da existência, aquilo que não se contabiliza em folhas de cálculo ou em listagens de estatísticas.
       Sem esquecer a necessária luta pela justiça social e pela conquista da dignidade de vida para todas as pessoas, é preciso primeiro clarificar as questões que derivam da procura do sentido da vida, do valor dado a cada momento e das motivações imediatas e últimas. Só posteriormente se podem encontrar soluções para os problemas de âmbito económico e social.
       José Mattoso, na recolha de artigos e conferências em torno do tema da sabedoria, publicados no livro “Levantar o Céu – Os labirintos da Sabedoria”, responde a estes dois grupos de questões. Este volume, fundamentado na investigação da História e na profundidade espiritual do autor, oferece um quadro interpretativo do momento presente, informa sobre as opções civilizacionais que lhe deram origem e aponta para as necessárias mudanças de rumo. Nestas páginas, sim, encontram-se as soluções para os problemas do amanhã, aqueles que todas as pessoas anseiam ver resolvidos. Mas com surpresas.
       “A Humanidade só pode crescer como um todo” e “esse todo não é apenas material, mas sobretudo espiritual e cultural”, sustenta o autor.
       Para “encontrar a saída do labirinto em que a vida nos coloca”, José Mattoso sugere a procura do “desenvolvimento espiritual, cultural e solidário, orientado para o progresso integral do homem e não apenas para o benefício de uma minoria egoísta, irresponsável e predadora”.
       Como o conseguir? – a resposta é do historiador: “Creio que a perspetiva meramente ética, cívica e laica acerca do valor do princípio da cidadania como fator de desenvolvimento humano é ineficaz. Encerra os cidadãos num plano limitado e material, e este torna-se inoperante para neutralizar a tendência egoísta e gananciosa do homem. Se queremos manter a esperança num futuro melhor para a Humanidade temos de recuperar a noção do sagrado”.
       A celebração do Ano da Fé pode oferecer uma ocasião de excelência para essa recuperação da “noção do sagrado” na procura de um futuro melhor para a Humanidade.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Natascha Kampusch - 3096 dias de cativeiro

Natascha Kampusch, 3096 dias, Edições Asa: 2011
       Natascha Kampusch foi "roubada" à vida que tinha, no dia 2 de março de 1998. Passados 3096 dias, no dia 23 de agosto de 2006, consegue finalmente ganhar coragem para fugir ao seu raptor, a única pessoa com quem podia falar, viver, relacionar-se. Só 4 anos depois, no entanto, é que consegue ser e sentir-se livre:
"Com este livro, tentei fechar o capítulo mais longo e mais negro da minha vida. Sinto-me profundamente aliviada por ter encontrado palavras para o improferível e para as constradições. Vê-las impressas diante dos meus olhos ajuda-me a olhar com confiança para o futuro. Porque aquilo por que passei também me tornou forte. Sobrevivi ao encarceramento na masmorra, consegui libertar-me sozinha e mantive a minha integridade. Acredito firmemente que também conseguirei viver a minha vida em liberdade. E essa liberdade começa apenas agora, quatro anos depois do dia 23 de agosto de 2006. Apenas agora, depois destas linhas, consigo colocar um ponto final nesta história e dizer em toda a verdade: SOU LIVRE".
       Nasceu a 17 de fevereiro de 1988. A mãe tinha então 38 anos e duas filhas já crescidas. Os viviam há três anos juntos. Vai ter de conquistar o seu lugar no mundo.
       Naquele dia acordou triste e furiosa. A fúria da mãe, por causa do pai, recaíra nela. A mãe proibiu-a de voltar a ver o pai. Queria ser adulta para se libertar das discussões da mãe. Com 10 anos aproximava o tempo de se tornar independente, faltavam 8 anos, para fazer os 18 da maioridade. Convencera a mãe a deixá-la ir a pé para a escola. Afinal já andava na quarta classe. Naquele dia saía de casa alterada com a mãe de quem memorizara as palavras: "Nunca se deve partir quando estamos furiosos com alguém. Nunca se sabe se voltaremos a ver essa pessoa".
Não se despediu da mãe e não a voltaria a ver por muito, muito, por demasiado tempo. Aproxima-se do homem que a fará prisioneira, com receio, mas quando olha para ele os seus receios desvanecem-se, estava errada, foi empurrada para a carrinha, que lhe despertara a atenção momentos antes.
"Tentei gritar. Mas não saiu nenhum som da minha boca. As minhas cordas vocais simplesmente se recusaram a colaborar. Eu toda era um grito. Um grito mudo, que ninguém conseguia ouvir".
       É encarcerada numa masmorra, sem luz natural, pequena (2,70 m de comprimento, 1,80 m de largura, 2,40 m de altura), uma jaula, na cave. Durante 8 anos será agredida com violência física e emocional (ninguém quer saber de ti, ninguém gosta de ti, só me tens a mim), passa fome, sede, por vezes fica dias inteiros sozinha, com a luz acesa, ou às escuras, com um teporizador a controlar o tempo. É forçada a trabalhar, a limpar tudo num brinco, e por vezes voltar a limpar o já limpo, só por capricho, há-de ajudar o raptor em trabalhos mais pesados, carrega pesos maiores do que as suas forças, o racionamento da comida é outra forma de controlo. O raptor promete-lhe uma vida feliz a dois, se ela não desobedecesse, se colaborasse.
       Há dias apresentamos aqui uma história de resistência e sobrevivência - INVENCIVEL -, diríamos que também esta é uma história de sobrevivência e de uma grande resistência. Não quebra, não se deixa destruir, ainda que por vezes tivesse pensamentos destrutivos, não perde a grandeza que lhe vai na alma:
"Eu sempre resisti às suas tentativas de me apagar e me transformar numa criatura sua. Ele nunca me conseguiu quebrar. Por outro lado, as tentativas dele para me transfomarem noutra pessoa caíram em solo fértil"...
       Até o nome quis trocar-lhe. Quando ela fazia algum erro, ele não perdoava: "És burra que nem um porta"... agarrou num saco de cimento e atirou-lho:
"Não foi a dor o que mais me chocou. O saco era pesado e o embate magoou-me, mas eu teria podido suportá-lo. Foi a dimensão da agressão do criminoso que me tirou a respiração. Ele era a única pessoa que existia na minha vida, e eu estava totalmente dependente dele. Aquele ataque de fúria ameaçava-me de um modo extremo. Senti-me como um cão batido que não pode morder a mão que o agride porque é a mesma que lhe dá de comer. A única saída que me restava era a fuga para dentro de mim. Fechei os olhos e ignorei tudo e não saí do sítio".
       Compensou-a com gomas.
       Mas ele não venceria...
"Mas acabei por vencer. Nunca, nem uma única vez, durante todos os anos em que ele exigiu de um modo tão veemente, lhe chamei «meu senhor».
Nunca me ajoelhei diante dele.
Muitas vezes teria sido mais fácil desistir. Teria sido poupada a alguns murros e pontapés. Mas eu tinha de preservar um certo espaço de manobra naquela situação de total submissão e de total dependência do raptor... Ele dominava-me quando me humilhava e maltratava sempre que lhe apetecia. Dominava-me quando me fechava dentro da masmorra, quando me obrigava a trabalhar como escrava. Mas nesse ponto fiz-lhe frente. Chamava-lhe «criminoso» quando ele queria que eu o chamasse de «meu senhor». Chamava-o de «querido» ou de «meu tesouro» em vez de «meu senhor» para o fazer ver a situação grotesca em que ele nos pusera".
       Vai escrevendo sobre o que lhe sucede. As tantas apenas sobre os maus tratos. É um segundo EU que lhe promete a libertação para os 18 anos. Nessa altura, o outro EU pegar-lhe-á na mão e conduzi-la-á em direcção à liberdade. É um grito que se mantém e certamente a ajudará a manter-se sã e decidida a viver até ao dia em que fugirá do seu raptor.
"Não te deixes abater quando ele diz que tu és demasiao estúpida para tudo.
Não te deixes abater quando ele te bate.
Não te importes quando ele di que és uma incapaz.
Não te importes quando ele diz que não consegues viver sem ele.
Não reajas quando ele te apaga a luz.
Perdoar-lhe tudo e não continuar zangada com ele.
Ser mais forte.
Não desistir. Nunca desistir"
       Mais fácill de dizer que fazer. Eis que se aproxima a hora que prometera a si mesma para fugir, e com ela a dúvida, a incerteza, a hesitação:
       "A minha incerteza acerca do criminoso afinal poder ter razão e eu estar melhor à sua guarda do que lá fora começou a diluir-se lentamente. Agora eu era uma pessoa adulta, o me segundo Eu tinha-me firmemente na mão e eu sabia muito bem que não queria continuar a viver daquela maneira".
"«Colocaste-nos numa situação em que apenas um de nós poderá sobreviver», disse eu de repente. O criminosso olhou para mim surpreendido. Eu não me deixei distrair. «Estou-te sinceramente grata por não me teres matado e por me tratares tão bem. É muito simpático da tua parte. Mas não me podes obrigar a viver contigo. Eu sou senhora de mim mesma, e tenho as minhas necessidades. Esta situação tem de ter um fim»... Eu continuei a falar. «É apenas natural que eu tenha de partir. Tu devias ter contado com isso desde o princípio. Um de nós tem de morrer, não existe outra solução. Ou me matas, ou me libertas»... Nunca desitir. Nunca desistir. Eu não vou desistir de mim... respirei e disse a frase que modifcou tudo: «Tentei tantas vezes suicidar-me - contudo, era eu a vítima. Na realidade, seria muito melhor se tu te suicidasses. Tu não tens qualquer outra opção. Se te matasses, todos os problemas deixariam de existir»... eu fugiria à primeira oportunidade. E um de nós não iria sobreviver a isso".
       Chega a dia da sua fuga. Quando ele tenta vender, por telefone, um apartamento que remodelaram, vê a oportunidade de fugir. Hesita mas foge. O portão do jardim está aberto. Cruza-se com dois homens, a quem pede socorro e um telefone para ligar para a polícia, seguem em frente. Entra no jardim de uma mulher assustada que só quer que ela saia do jardim, mas que decide ligar para a polícia, daí a pouco estão dois incrédulos polícias junto dela. Estava concluída parte da sua fuga.
      É esta a história narrada pela própria, numa linguagem atraente, em que sobressaem os seus sentimentos, quase se vêem as suas lágrimas, o seu sofrimento, a sua confusão, a sua dignidade. Este é mais uma excelente leitura, sobre sobrevivência humana. Em situações tão medonhas é impressionante que Natascha Kampusch não tenha quebrado.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Um acordo com o tempo...

Me detive por horas diante de um relógio!
Meus olhos acompanharam o correr de seus ponteiros.
Rezei para que parassem!
Rezei para que o veloz correr dos ponteiros deixasse de ser imperativo.
Chorei...
Chorei o amargor daquilo que não volta e a esperança do que ainda virá.
Chorei minhas auroras...
Chorei a partida do sol.
Mas os ponteiros não se comoveram...
Giraram, giraram e ainda estão girando!
Será que um dia vão parar? Talvez sim, ou não, quem sabe...
Então resolvi fazer um acordo com o tempo...
No correr dos ponteiros, resolvi elaborar a vida... Minha vida!
Resolvi descobrir a beleza de momentos que não voltarão e vivê-los intensamente!
Resolvi Amar intensamente e Viver AFETADO!
Afetado pelos afetos que valem a pena, pelos amores que me constroem.
Vou deixar que o tempo passe...
E na passagem dos dias, reinterpretarei os momentos e resignificarei a dor.
Acho que a felicidade mora nesse acordo!
É assim que vou bem aventurando a vida!
Abraço o que é meu, assumo o que me faz bem!
Estou indo ser feliz e não pretendo voltar!

Bruno Bressani, Fragmentos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Só nos resta a inteligência

Os cem anos da República portuguesa cruzaram-se com os dois mil anos da Igreja Católica. E, em Portugal, ambas protagonizaram um século.

       De fragmentos se faz a história. Quem a realiza, quem a lê e quem a conta. Nada envolve tudo ou tudo explica. Multiplicam-se as máquinas da memória, a declinação de dados, o cruzamento de factos. A intercepção com as ideologias, a proximidade com os elementos antagónicos, a manipulação segundo os envolvimentos favoráveis ou de desconforto, faz da história um instrumento de busca, na purificação constante das águas da memória. Nem vale a pena misturá-la com histórias. Ou carregá-la de adjectivos, hipérboles, dramas, ou simples colorações de circunstância. Ninguém é quimicamente puro nas análises que ensaia porque ninguém sabe a história toda nem todas as histórias. Como o futuro, o passado límpido apenas a Deus pertence.
       E há o tempo. «O passado não cessa de nos surpreender, mais que o presente, mais que o futuro talvez», diz Jean-Claude Carrière em diálogo com Umberto Eco. Cem anos de implantação da República em Portugal têm muito a ver com este todo. Nas diferentes narrativas dum facto que não é acontecimento dum dia ou explosão duma hora. Remexe muitas páginas da história e traz permanentes surpresas, enquanto insinua que tem tudo dito e feito. Daí, a procura honesta e rigorosa dos enquadramentos, causas próximas e remotas, intervenientes de primeiro plano ou programadamente escondidos. Com a humildade de quem sabe que a história é uma recolha meticulosa de fragmentos que parecem ser um todo, não podemos cansar-nos de procurar as linhas mestras que a sequência vertiginosa dos séculos foi criando como um vulcão paciente que atingiu altíssimas temperaturas e no arrefecimento progressivo e lento foi criando montanhas, planícies, desertos, oásis, terras áridas e rios abundantes. Sem nunca desistir da sua revolução criadora ao espalhar por pátrias infindas as suas lavas mornas. Os cem anos da República portuguesa cruzaram-se com os dois mil anos da Igreja Católica. E, em Portugal, ambas protagonizaram um século, tiveram encontros e desencontros com leituras contrárias, desdobrando os mesmos factos em dividendos que geraram algumas guerras religiosas no meio de muitas guerras civis. A República não é uma data única. É um rasto de tempo num pequeno espaço chamado Portugal.
       Que se retome a memória. Mas que nunca se perca a inteligência. Foi no contexto das novas memórias que Michel Serves o afirmou. Mas que cabe neste tempo de boas e más memórias que estamos a celebrar.

Pe. António Rego, Editorial Agência Ecclesia.

domingo, 18 de julho de 2010

Reflexão

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final…
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.
Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?
Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu….
Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem connosco.
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora…
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração… e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu génio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.
Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do “momento ideal”.
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa – nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.

Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..
E lembra-te:
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão.

Texto de Fernando Pessoa.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Desejos finais de Alexandre Magno

  1. Que seu caixão fosse transportado pelas mãos dos médicos da época;
  2. Que fossem espalhados no caminho até seu túmulo os seus tesouros conquistados como prata, ouro e pedras preciosas;
  3. Que suas duas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, à vista de todos.
       Um dos seus generais, admirado com esses desejos insólitos, perguntou a ALEXANDRE quais as razões desses pedidos e ele explicou:
  1. Quero que os mais iminentes médicos carreguem meu caixão para mostrar que eles NÃO têm poder de cura perante a morte;
  2. Quero que o chão seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem;
  3. Quero que minhas mãos balancem ao vento para que as pessoas possam ver que de mãos vazias viemos e de mãos vazias partimos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Uma transição que fica para a História

       No dia 16 de Abril, Bento XVI completou 83 anos de idade, muitos ao serviço do Evangelho, na Igreja, no diálogo com a cultura e com a ciência, como sacerdote e como bispo, como professor e teólogo. No dia 19 de Abril, completou 5 anos de pontificado. Propomos a leitura do Editorial da Agência Ecclesia:
       A idade do Cardeal Ratzinger aquando da eleição pontifícia ditou, por esse único indicador, sentenças que se foram generalizando: será um pontificado de transição.
       Aos seus 78 anos, assinalados em período de sede vacante, juntava-se o facto de Joseph Ratzinger ser número dois de João Paulo II e a referência doutrinária de todo um pontificado marcado pelo justo protagonismo do Papa polaco.
       Passados cinco anos, impõe-se uma certeza: o pontificado de Bento XVI responde aos desafios que emergem do juízo da história lançado sobre os que decidiram seguir os passos de Cristo, corresponde ao exercício de uma liderança religiosa de acordo com as exigências sociais dos tempos em que vivemos e está em sintonia com as questões e a busca de sentido da vida pela pessoa humana, incontornável em qualquer indivíduo, em qualquer tempo.
       Na mediatização de todas as mensagens, indivíduos e grupos absorvem imagens, as primeiras imagens que se oferecem sobre pessoas ou acontecimentos. Também as do Papa.
       Nos dias que correm, na espera de Bento XVI, são essas as imagens, as que primeiro foram mediatizadas, que percorrem opiniões ditas. Nem sempre as pensadas. Mas as proclamadas, embaladas no facilitismo aparente de querer estar em sintonia com maiorias.
       No virar de muitas páginas, cresce o número dos que analisam o pontificado de Bento XVI e apontam como qualidades o que antes pareciam ser fragilidades. Seriedade intelectual, busca da verdade, operacionalização das decisões, coerência, assunção de culpas, determinação na configuração de tudo e de todos com o exemplo de Jesus Cristo. É nessa esteira que tem de se compreender o pontificado de Bento XVI. Também na capacidade demonstrada em perscrutar valores e projectos que ficam para a história, mesmo quando não motivam popularidade imediata.
       A partilha destas opiniões de imediato esbarram com questões clássicas, que pintam o estandarte de muitos debates, e que não se podem excluir da recriação da experiência cristã em cada tempo. É, no entanto, do actual Papa, pelos contributos que ofereceu à Igreja Católica como professor e como Cardeal, que se colhe uma certeza: não é por questões de moda, a favor ou contra, que todos os debates são assumidos; antes por se imporem a quem procura, sem rodeios e livre de condicionalismos, descobrir a Pessoa de Jesus Cristo e viver de acordo com a Sua Mensagem.
       Os dias em que Bento XVI está entre nós podem ser uma oportunidade para descobrir essa ousadia do actual Papa.

Paulo Rocha, in Agência Ecclesia.

domingo, 4 de abril de 2010

Páscoa!!! A verdadeira História.

Neste vídeo é relatada a história do nascimento de Jesus,Sua morte e Sua Ressurreição.
Contada de uma maneira simples, é também educativo, pois há muitas crianças e adultos que não a conhecem...
Feliz Páscoa...