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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

São JOÃO PAULO II, Papa

Nota biográfica
      Karol Józef Wojtyła nasceu a 18 de maio de 1920, no lugar de Wadowice, na Polónia. O mais novo de três irmãos. Filho de Karol Wojtyła e Emilia Kaczorowska. A sua mãe morreu em 1929. O seu irmão mais velho, (médico) morreu em 1932 e o seu pai (suboficial do exército) em 1941. A sua irmã, Olga, morreu antes dele nascer.
       Foi batizado por Franciszek Zak, em 20 de junho de 1920 na Igreja paroquial de Wadowice; aos 9 anos fez a Primeira Comunhão. Aos 18, recebeu o Sacramento da Confirmação.
       Em 1938 matriculou-se na Universidade Jagellónica de Cracóvia e numa escola de teatro.
       Com a ocupação nazi, e com o encerramento da Universidade, em 1939, começou a trabalhar numa pedreira e logo numa fábrica de químicos, para ganhar a vida e evitar ser deportado para a Alemanha.
       A partir de 1942, ao sentir a vocação para o sacerdócio, começou a formação do seminário clandestino de Cracóvia, dirigido pelo Arcebispo de Cracóvia, Cardeal Adam Stefan Sapieha. Ao mesmo tempo, foi um dos promotores da "Teatro Rapsódico", também clandestino. 
       Após a Segunda Guerra Mundial, continuou seus estudos no Seminário Maior de Cracóvia, e na Faculdade de Teologia da Universidade Jagiellonian, até à sua ordenação sacerdotal em Cracóvia em 1 de novembro de 1946 pelo Arcebispo Sapieha. Seguiram-se estudos em Roma, onde, sob a direção do dominicano francês Garrigou-Lagrange, se doutorou, em 1948, em teologia, com uma tese sobre o tema da fé nas obras de São João da Cruz. Naquele período, durante as férias, exerceu o seu ministério pastoral entre os imigrantes polacos da França, Bélgica e Holanda. 
       Em 1948, regressou à Polónia e foi vigário de diversas paróquias de Cracóvia, bem como capelão universitário até 1951, retomando os estudos filosóficos e teológicos. Em 1953, apresentou, na Universidade Católica de Lublin, uma tese sobre "Avaliação da possibilidade de fundar uma ética católica sobre o sistema ético de Max Scheler". Tornou-se, então, professor de Teologia Moral e Ética Social no Seminário Maior de Cracóvia e na Faculdade de Teologia de Lublin.
       Em 4 de julho de 1958, foi nomeado, pelo Papa Pio XII, Bispo titular de Olmi e auxiliar de Cracóvia. Recebeu a Ordenação Episcopal em 28 de setembro de 1958, na Catedral de Wawel (Cracóvia) pelo arcebispo Eugeniusz Baziak. 
       Em 13 de janeiro de 1964, foi nomeado Arcebispo de Cracóvia pelo Papa Paulo VI, que o fez cardeal 26 de junho de 1967, com o título de São César em Palatio. 
       Além de participar do Concílio Vaticano II (1962-1965), com uma contribuição importante para a elaboração da Constituição Gaudium et spes, o Cardeal Wojtyla participou em todas as assembleias do Sínodo dos Bispos, antes de seu pontificado.
       Depois da morte prematura do papa João Paulo I, os Cardeais elegeram-no Papa, o 263.º, em 16 de outubro de 1978, escolhendo o nome de João Paulo II, e começou o seu pontificado petrino no dia 22 de outubro, data em que agora se celebra a Sua memória litúrgica.
       Foi um dos pontificados mais longos, durou quase 27 anos.
       Distinguiu-se pela extraordinária solicitude apostólica, em particular para com as famílias, os jovens e os doentes, o que o levou a realizar numerosas visitas pastorais a todo o mundo. Entre os muitos frutos mais significativos deixados em herança à Igreja, destaca-se o seu riquíssimo Magistério e a promulgação do Catecismo da Igreja Católica e do Código de Direito Canónico para a Igreja latina e oriental, a criação das Jornadas Mundiais da Juventude, reflexão sobre a família e sobre o corpo humano, sobre o trabalho e a dignidade da mulher... 
       Outros marcos no seu pontificado: promoção do diálogo ecuménico e inter-religioso, encontro de oração em Assis pela paz, com membros de outras religiões; grande Jubileu do Ano 2000 do nascimento de Jesus Cristo; Ano da Redenção; Ano Mariano; Ano da Eucaristia; proclamou Santa Teresa do Menino Jesus como Doutora da Igreja, além dos muitos santos e beatos elevados aos altares.
       Documentos principais: 14 Encíclicas; 15 Exortações Apostólicas; 11 Constituições Apostólicas e 45 Cartas Apostólicas.
       A título mais pessoal, publicou 5 livros: Atravessando o Limiar da Esperança (outubro de 1994); Dom e Mistério - 50.º aniversário da ordenação sacerdotal (novembro de 1996); Tríptico romano - Meditações, livro de poesias (março de 2003); Levantai-vos, vamos (maio de 2004), e Memória e Identidade (fevereiro de 2005).
       Morreu piedosamente, em Roma, a 2 de Abril de 2005, na Vigília do II Domingo de Páscoa ou da Divina Misericórdia.
       No dia 8 de abril, a celebração da Exéquias, sob a presidência do Cardeal Joseph Ratzinger, conhecido como Seu braço direito e que viria a ser Seu sucessor, como Papa Bento XVI. Mais de três milhões de pessoas que passaram junto do Seu corpo, para prestar uma última homenagem.
       Bento XVI, a 28 de abril, poucos dias de assumir o pontificado petrino, dispensou os 5 anos de espera depois da morte para se abrir o processo de beatificação e canonização, causa aberta em 28 de junho de 2005, pelo Cardeal Camillo Ruini, Vigário-Geral para a Diocese de Roma.
       Foi beatificado em 1 de maio de 2011, pelo Papa Bento XVI, e canonizado conjuntamente com o Papa João XXIII, em 27 de abril de 2014, pelo Papa Francisco. A concelebrar esteve o Papa Emérito Bento XVI.

Oração de coleta:
Deus, rico de misericórdia, que colocastes o papa João Paulo II à frente da vossa Igreja, fazei que, instruídos pelos seus ensinamentos, abramos confiadamente os nossos corações à graça salvadora de Cristo, único salvador do mundo. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
  • Será interessante ler também:

Página Oficial da Santa Sé, Vaticano (seguimos a versão em castelhano)

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

São João XIII, Papa

Nota biográfica:
       Nasceu no dia 25 de Novembro de 1881 em Sotto il Monte, diocese e província de Bérgamo (Itália), e nesse mesmo dia foi baptizado com o nome de Angelo Giuseppe; foi o quarto de treze irmãos, nascidos numa família de camponeses e de tipo patriarcal. Ao seu tio Xavier, ele mesmo atribuirá a sua primeira e fundamental formação religiosa. O clima religioso da família e a fervorosa vida paroquial foram a primeira escola de vida cristã, que marcou a sua fisionomia espiritual.
       Ingressou no Seminário de Bérgamo, onde estudou até ao segundo ano de teologia. Ali começou a redigir os seus escritos espirituais, que depois foram recolhidos no "Diário da alma". No dia 1 de Março de 1896, o seu director espiritual admitiu-o na ordem franciscana secular, cuja regra professou a 23 de Maio de 1897.
       De 1901 a 1905 foi aluno do Pontifício Seminário Romano, graças a uma bolsa de estudos da diocese de Bérgamo. Neste tempo prestou, além disso, um ano de serviço militar. Recebeu a Ordenação sacerdotal a 10 de Agosto de 1904, em Roma, e no ano seguinte foi nomeado secretário do novo Bispo de Bérgamo, D. Giacomo Maria R. Tedeschi, acompanhando-o nas várias visitas pastorais e colaborando em múltiplas iniciativas apostólicas: sínodo, redacção do boletim diocesano, peregrinações, obras sociais. Às vezes era também professor de história eclesiástica, patrologia e apologética. Foi também Assistente da Acção Católica Feminina, colaborador no diário católico de Bérgamo e pregador muito solicitado, pela sua eloquência elegante, profunda e eficaz.
       Naqueles anos aprofundou-se no estudo de três grandes pastores: São Carlos Borromeu (de quem publicou as Actas das visitas realizadas na diocese de Bérgamo em 1575), São Francisco de Sales e o então Beato Gregório Barbarigo. Após a morte de D. Giacomo Tedeschi, em 1914, o Pade Roncalli prosseguiu o seu ministério sacerdotal dedicado ao magistério no Seminário e ao apostolado, sobretudo entre os membros das associações católicas.
       Em 1915, quando a Itália entrou em guerra, foi chamado como sargento sanitário e nomeado capelão militar dos soldados feridos que regressavam da linha de combate. No fim da guerra abriu a "Casa do estudante" e trabalhou na pastoral dos jovens estudantes. Em 1919 foi nomeado director espiritual do Seminário.
       Em 1921 teve início a segunda parte da sua vida, dedicada ao serviço da Santa Igreja. Tendo sido chamado a Roma por Bento XV como presidente nacional do Conselho das Obras Pontifícias para a Propagação da Fé, percorreu muitas dioceses da Itália organizando círculos missionários.
       Em 1925, Pio XI nomeou-o Visitador Apostólico para a Bulgária e elevou-o à dignidade episcopal da Sede titular de Areopolis.
       Tendo recebido a Ordenação episcopal a 19 de Março de 1925, em Roma, iniciou o seu ministério na Bulgária, onde permaneceu até 1935. Visitou as comunidades católicas e cultivou relações respeitosas com as demais comunidades cristãs. Actuou com grande solicitude e caridade, aliviando os sofrimentos causados pelo terremoto de 1928. Suportou em silêncio as incompreensões e dificuldades de um ministério marcado pela táctica pastoral de pequenos passos. Consolidou a sua confiança em Jesus crucificado e a sua entrega a Ele.
       Em 1935 foi nomeado Delegado Apostólico na Turquia e Grécia: era um vasto campo de trabalho. A Igreja tinha uma presença activa em muitos âmbitos da jovem república, que se estava a renovar e a organizar. Mons. Roncalli trabalhou com intensidade ao serviço dos católicos e destacou-se pela sua maneira de dialogar e pelo trato respeitoso com os ortodoxos e os muçulmanos. Quando irrompeu a segunda guerra mundial ele encontrava-se na Grécia, que ficou devastada pelos combates. Procurou dar notícias sobre os prisioneiros de guerra e salvou muitos judeus com a "permissão de trânsito" fornecida pela Delegação Apostólica. Em 1944 Pio XII nomeou-o Núncio Apostólico em Paris.
       Durante os últimos meses do conflito mundial, e uma vez restabelecida a paz, ajudou os prisioneiros de guerra e trabalhou pela normalização da vida eclesial na França. Visitou os grandes santuários franceses e participou nas festas populares e nas manifestações religiosas mais significativas. Foi um observador atento, prudente e repleto de confiança nas novas iniciativas pastorais do episcopado e do clero na França. Distinguiu-se sempre pela busca da simplicidade evangélica, inclusive nos assuntos diplomáticos mais complexos. Procurou agir sempre como sacerdote em todas as situações, animado por uma piedade sincera, que se transformava todos os dias em prolongado tempo a orar e a meditar.
       Em 1953 foi criado Cardeal e enviado a Veneza como Patriarca, realizando ali um pastoreio sábio e empreendedor e dedicando-se totalmente ao cuidado das almas, seguindo o exemplo dos seus santos predecessores: São Lourenço Giustiniani, primeiro Patriarca de Veneza, e São Pio X.
       Depois da morte de Pio XII, foi eleito Sumo Pontífice a 28 de Outubro de 1958 e assumiu o nome de João XXIII. O seu pontificado, que durou menos de cinco anos, apresentou-o ao mundo como uma autêntica imagem de bom Pastor. Manso e atento, empreendedor e corajoso, simples e cordial, praticou cristãmente as obras de misericórdia corporais e espirituais, visitando os encarcerados e os doentes, recebendo homens de todas as nações e crenças e cultivando um extraordinário sentimento de paternidade para com todos. O seu magistério foi muito apreciado, sobretudo com as Encíclicas "Pacem in terris" e "Mater et magistra".
       Convocou o Sínodo romano, instituiu uma Comissão para a revisão do Código de Direito Canónico e convocou o Concílio Ecuménico Vaticano II. Visitou muitas paróquias da Diocese de Roma, sobretudo as dos bairros mais novos. O povo viu nele um reflexo da bondade de Deus e chamou-o "o Papa da bondade". Sustentava-o um profundo espírito de oração, e a sua pessoa, iniciadora duma grande renovação na Igreja, irradiava a paz própria de quem confia sempre no Senhor. Faleceu na tarde do dia 3 de Junho de 1963.
       Foi beatificado em 3 de setembro de 2000, pelo Papa João Paulo II.
       Foi canonizado em 27 de abril de 2014, pelo Papa Francisco. Na mesma ocasião foi canonizado o Papa João Paulo II, beatificado em 1 de maio de 2011, pelo Papa Bento XVI.


Oração de coleta:
       Deus eterno e omnipotente, que no papa São João XXIII, fizestes resplandecer em todo o mundo a imagem viva de Cristo, bom pastor, concedei-nos, pela sua intercessão, a graça de difundir com alegria a plenitude da caridade cristã. Por Nosso Senhor.

terça-feira, 20 de março de 2018

VL – A generosidade com o futuro faz-se no presente

Nunca é tarde. Dizemos para nós e para os outros. É uma afirmação fácil. Fácil de dizer! É um incentivo honesto e talvez uma justificação esperançosa em relação a momentos menos bons que já passámos.

Na verdade, um dia destes acordamos e já é tarde, até porque o tempo (dado) não é recuperável. Bem dizemos que é necessário recuperar o tempo perdido. Por vezes, a acentuação é colocada no viver mais freneticamente para compensar o que se desperdiçou. Mas simplesmente não é possível. Possível é valorizar o tempo atual e o que virá pela frente, mas sobretudo este tempo, pois é o que temos! De nada serve adiarmos a vida à espera de recuperarmos o tempo lá mais para a frente. Isso não vai acontecer. Simplesmente não é possível. Pelo menos humanamente falando!

São João Paulo II afirmava que Deus lhe dera uma segunda oportunidade, expandindo-lhe os dias. Há momentos em que experimentamos ou damos segundas oportunidades. É sempre em sentido relativo. Uma doença superada (pelo menos nos seus efeitos mais nefastos), uma amizade reatada, um novo emprego, um reencontro feliz! Quando a vida parecia seguir para o abismo e fruto de um conjunto de circunstâncias, da luta que demos e resiliência com que respondemos às dificuldades, com a ajuda dos outros, e tudo se alterou positivamente falando.

Se vivermos as primeiras oportunidades, já não precisamos das segundas ou terceiras, até porque não sabemos se as viremos a ter. Por outro lado, para sermos mais exatos, não há "segundas" oportunidades, porque estas não são uma duplicação ou repetição das primeiras. E nunca saberemos se tivéssemos aproveitado as “primeiras” oportunidades onde estaríamos agora, aqui, mais atrás, mais à frente? A vida não se repete ainda que possa haver circunstâncias semelhantes ou situações parecidas. Cada oportunidade é única! Não volta! Como o tempo! Não é recuperável. Claro que as lições que aprendemos com os erros e falhanços, com as provações e com as vitórias podem ajudar-nos a enfrentar outras dificuldades e a mais facilmente nos predispormos a ultrapassar os obstáculos com que nos deparamos, mas a vida não se repete e o tempo que está para trás só em Deus descansa!

Como dizia Albert Camus, “a verdadeira generosidade para com o futuro consiste em entregar tudo ao presente”, não numa atitude displicente de quem se destrói, mas na entrega de quem se gasta com os outros e a favor deles. Ao jeito de Jesus. A cada dia a sua preocupação. Viver hoje com intensidade! Com paixão! Com a ternura que nos vem da eternidade!

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Ide vós também para a minha vinha

       Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos» (Mt 20, 1-16a).
        Nesta parábola sobre o Reino de Deus, Jesus diz claramente que Deus nunca desiste de nós, chama-nos a todas as horas, em todos os momentos e circunstâncias da nossa vida. Vem Ele próprio, em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo ao nosso encontro, toma a iniciativa. Cabe-nos, a nós responder e acolher (ou não) a Sua proposta, o Seu chamamento.
       Como recompensa dá-Se em plenitude, não dá uma parte de Si. Daí que esta lógica do Evangelho não nos pareça justa. Mas no fundo, numa leitura atenta, verificámos a sua justeza, os últimos também poderemos ser nós. Nesse caso quereríamos que Deus Se nos desse totalmente. Depois, Deus não Se entrega em parte, mas plenamente, Deus não ama aos bocados, conforme a nossa resposta ou a hora da mesma, Deus ama-nos totalmente, mesmo que tenhamos andado transviados. É o mesmo que acontece na parábola do Filho Pródigo (melhor, Parábola do Pai das Misericórdias), em que no seu regresso recebe do Pai tudo o que tem direito como Filho. Ao sair de casa, levou a parte que lhe cabia em herança e renunciou à filiação; ao regressar, o Pai não apenas o perdoa, como lhe restitui a identidade de filho, quando o que merecia - a nossos olhos -, era ficar sem nada, ainda que fosse acolhido para trabalhar... Assim é Deus, entrega-Se totalmente por amor.
       Por outro lado, e sempre que reflectimos nesta parábola, a reflexão do Papa João Paulo II, que nos lembra que Deus nos chama a todas as horas e idades da nossa vida, quando jovens, quando adultos, quando idosos, quando alegres, quando tristes. Não são pessoas diferentes as que Deus chama de manhã ou à tarde, a cada um de nós, Deus chama constantemente...

segunda-feira, 12 de junho de 2017

VL – Como (não) idolatrar o Papa

       Ano de 1999: Viagem Apostólica de João Paulo II ao México e à cidade de St. Louis, nos EUA. O Papa apresentava-se já muito desgastado mas atraía cada vez mais multidões. Já não se tratava do que dizia, mas da pessoa e do que representava na Igreja e no mundo. 
       O início do pontificado de João Paulo II não foi fácil. Quando precisava de ser duro, mesmo em público, João Paulo II era-o de facto, como em certa ocasião a um sacerdote da América Latina que se tinha envolvido na política partidária e que se ajoelhou, preparando-se para o cumprimentar e lhe beijar o anel, o Papa passou-lhe uma reprimenda e avançou sem lhe estender a mão. Com os anos e sobretudo depois do atentado que sofreu a 13 de maio de 1981 na Praça de São Pedro, do qual sobreviveu por milagre que o próprio atribui a Nossa Senhora de Fátima, João Paulo II passou a ser seguido cada vez por mais pessoas com uma clara aura de santidade. Afinal tinha sobrevivido a um atentado e a nova tentativa no ano seguinte em Fátima.
       Na Viagem aos EUA entrevistaram alguns jovens acerca da “personalidade” de João Paulo II e porque é que estavam nas ruas para o aclamar e as respostas assentavam precisamente no facto de ser uma figura mundial. Quando perguntaram se estavam sintonizados com as posições do e da Igreja acerca da vida, da moral, da família, a resposta foi perentória: isso já não!
       Na Viagem Peregrina de Francisco a Fátima, no regresso ao Vaticano, a bordo do avião, na habitual conferência de impressa com os jornalistas, foram-lhe colocadas perguntas sobre questões fraturantes na sociedade atual. Sem se querer alongar muito, para que não fossem desvalorizados os motivos e o conteúdo da peregrinação a Fátima, respondeu que “a consciência católica não é, às vezes, uma consciência de pertença total à Igreja, por trás disto não há uma catequese variada, uma catequese humana”, no que concerne a temas sobre a vida e sobre a família.
       Acrescentou o Papa que a Igreja tem de promover a formação, o diálogo, a catequese, a consciencialização de valores humanos.
       O Papa Francisco é, hoje, para a Igreja e para o mundo, uma figura incontornável, com sinais e marcas que envolvem, desafiam, provocam, remetendo para Jesus e o Evangelho da Alegria e do Serviço. Logo no início o Papa Francisco dizia que um Bispo ou um Padre não tem que estar a falar do que o Papa disse ou diz, mas a falar do Evangelho e a apontar para Cristo.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4413, de 23 de maio de 2017

domingo, 12 de junho de 2016

Leituras: Irmã Faustina. A Santa da Misericórdia

MARCIN KORNAS (2016). Irmã Faustina. A Santa da Misericórdia. Lisboa: Paulus Editora. 168 páginas.
       Com o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, e que decorre de 8 de dezembro de 2015 (Solenidade da Imaculada) a 20 de novembro de 2016 (Solenidade de Cristo Rei), o estudo e reflexão à volta das 14 Obras da Misericórdia, mas também o estudo de Santos que sublinharam nas suas vidas e escritos, a mensagem da misericórdia divina. Santa Faustina está na primeira linha, como discípula e apóstola da misericórdia de Deus.
       Canonizada a 30 de abril de 2000, pelo Papa João Paulo II, que instituiu o Domingo da Divina Misericórdia, no segundo domingo de Páscoa, e que corresponde a uma dos desejos de Jesus, nas revelações da Santa Faustina. A Igreja demoraria 69 anos a concretizar o pedido de Jesus. Com efeito, o papa João Paulo II, também polaco, está ligado à misericórdia e à descoberta de Santa Faustina Kowalska. Uns anos antes, publicou a Carta Encíclica Dives in Misericordia (Rico em misericórdia), de 30 de novembro de 1980, preparando o caminho para a sua canonização.
Nasceu em Glogowiec, na Polónia central, no dia 25 de Agosto de 1905, de uma família camponesa de sólida formação cristã. Desde a infância sentiu a aspiração à vida consagrada, mas teve de esperar diversos anos antes de poder seguir a sua vocação. Em todo o caso, desde aquela época começou a percorrer a via da santidade. Mais tarde, recordava: "Desde a minha mais tenra idade desejei tornar-me uma grande santa".
Com a idade de 16 anos deixou a casa paterna e começou a trabalhar como doméstica. Na oração tomou depois a decisão de ingressar num convento. Assim, em 1925, entrou na Congregação das Irmãs da Bem-aventurada Virgem Maria da Misericórdia, que se dedica à educação das jovens e à assistência das mulheres necessitadas de renovação espiritual. Ao concluir o noviciado, emitiu os votos religiosos que foram observados durante toda a sua vida, com prontidão e lealdade. Em diversas casas do Instituto, desempenhou de modo exemplar as funções de cozinheira, jardineira e porteira. Teve uma vida espiritual extraordinariamente rica de generosidade, de amor e de carismas que escondeu na humildade dos empenhos quotidianos.
O Senhor escolheu esta Religiosa para se tornar apóstola da Sua misericórdia, a fim de aproximar mais de Deus os homens, segundo o expresso mandato de Jesus: "Os homens têm necessidade da minha misericórdia".
Em 1934, Irmã Maria Faustina ofereceu-se a Deus pelos pecadores, sobretudo por aqueles que tinham perdido a esperança na misericórdia divina. Nutriu uma fervorosa devoção à Eucaristia e à Mãe do Redentor, e amou intensamente a Igreja participando, no escondimento, na sua missão de salvação. Enriqueceu a sua vida consagrada e o seu apostolado, com o sofrimento do espírito e do coração. Consumada pela tuberculose, morreu santamente em Cracóvia no dia 5 de Outubro de 1938, com a idade de 33 anos.
João Paulo II proclamou-a Beata no dia 18 de Abril de 1993; sucessivamente, a Congregação para as Causas dos Santos examinou com êxito positivo uma cura milagrosa atribuída à intercessão da Beata Maria Faustina, e no dia 20 de Dezembro de 1999 foi promulgado o Decreto sobre esse milagre.
       Neste livro, que parte do Diário da Irmã Faustina, o autor guia-nos ao longo da sua vida, como se fosse uma espécie de blogue, com diferente entradas, cronológicas mas também temáticas, mostrando as decisões, as aparições, a dificuldades, as respostas de Jesus, a inserção à Igreja, e o forte apelo à conversão dos pecadores, mensagem semelhante à de Fátima e ao pedido feito por Nossa Senhora aos Pastorinhos. A misericórdia é o mais alto atributo de Deus. A justiça é um atributo mas que fica aquém da misericórdia divina. Mais que o pecado, importa confiar em Jesus, predispondo-se à confissão e à mudança de vida. Da imagem que Jesus solicitou se fizesse, dois raios, um branco, sangue e água. Ambos os raios saem das entranhas de misericórdia de Jesus, quando na Cruz, o Seu coração foi trespassado com um lança. O raio pálido refere-se à justificação das almas, o o raio de sangue é a vida das almas.
       Outro aspeto que sobressai deste livro-blogue e da mensagem comunicada à Igreja e ao mundo, através de Santa Faustina é a confiança em Deus. Na Imagem que Jesus pediu, uma inscrição a acompanhar a mesma: Jesus, eu confio em Vós.
       De salientar também o testemunho de Anna Golędzinowska, modelo, que andava pelas conhecidas passarelas de Milão. Após a Conversão, refugia-se em Medjugorje e toma contacto com o Diário da Irmã Faustina, através dela descobre o valor e o sentido do perdão e da misericórdia. "Depois de nove dias do meu jejum em Medjugorge, tinha na mão o Diário e no fundo do coração escutei uma voz que me falou com nitidez: «Deixa tudo e vem Comigo». Deixei então tudo e fui atrás dessa voz. Assim Jesus deu-me uma vida completamente nova".

       Anna Golędzinowska nasceu a 22 de outubro de 1982, em Varsóvia, Polónia. Em 1999 foi para Itália, vindo a descobrir que tinha sido vítima de um grupo de crime organizado internacional de tráfico de pessoas. Ajudou a identificá-los e a levá-los à justiça. Iniciou então a carreira de modelo. Participou com muitos programas de televisão. Uma visita a Medjugorge mudou-lhe a vida. Em 2011, em Medjugorge, ficou a morar numa comunidade mariana, dedicando-se ao silêncio e ao trabalho. Juntamente com um sacerdote, Renzo Gobbi, fundou um movimento, Coração Puro, que promove a castidade pré-matrimonial. Escreveu o livro "Salva do Inferno". Casou em 2014 e continua a participar em encontros com jovens, apontando ao ideal de viver em conformidade consigo próprio e com Deus.

terça-feira, 10 de maio de 2016

A Páscoa e a Misericórdia de Deus

       A plenitude da misericórdia divina é visualizável no mistério da Encarnação, Deus cabe na palma da mão, cabe no meu e no teu coração. Em Jesus Cristo, Deus faz-Se Caminho para nós e entra nos caminhos da nossa vida. A Páscoa condensa e evidencia em definitivo a misericórdia de Deus que Se ajusta à nossa fragilidade. O coração de Deus compadece-se da nossa miséria e envolve-nos no Seu amor.
       Com a Páscoa, uma enxurrada de vida nova. A morte não tem mais a última palavra. Esta é de Deus, é da vida, é do Amor. Jesus regressa trazendo-nos, na expressão feliz de Bento XVI, a vastidão do Céu. Um vislumbre de luz que incendiou o mundo, comunicando-se, alastrando. À minha luz, a luz do outro. O encontro com Jesus ressuscitado, a experiência da misericórdia de Deus na nossa vida, impele-nos a sermos luz uns para os outros.
       A Páscoa é o expoente máximo da compaixão de Deus pela humanidade. Em Jesus, Deus abaixa-Se para nos elevar, como a Mãe que se agacha para pegar o seu filho ao colo! 
       Em tempo oportuno, no ano 2000, o Papa João Paulo II renomeou o segundo domingo de Páscoa como Domingo da Divina Misericórdia. A Misericórdia há de ser um compromisso permanente. É uma característica essencial do Deus que Se deixa ver em Jesus Cristo. Não há outra forma de os cristãos e a Igreja viverem a fé.
       Como tem acentuado o Papa Francisco, a misericórdia dá trabalho, porque nos leva a lutar pela justiça, todos os dias, optando pelos mais frágeis, por aqueles que vão sendo deserdados da vida e dos bens da criação, numa crescente cultura do descarte, globalizando a indiferença. A misericórdia passa por gestos concretos na vida diária, um sorriso, um abraço, a visita a um doente, o abrir a porta a alguém que se apressa para entrar.
       Na véspera do Domingo da Misericórdia, 2 de abril, 11 anos depois da morte de João Paulo II, o Papa Francisco voltou a insistir que “a misericórdia é, antes de mais nada, a proximidade de Deus ao seu povo. Uma proximidade que se manifesta principalmente como ajuda e proteção”, e que nos leva a “olhar cada pessoa nos olhos” porque cada pessoa é única, concluindo que “uma fé que não é capaz de ser misericórdia, como são sinal de misericórdia as chagas do Senhor, não é fé: é ideia, é ideologia”.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4357, de 5 de abril de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

Jesus, o Poeta da Misericórdia – 4

O mistério pascal realiza a plenitude da misericórdia divina no meio de nós. Em Jesus Cristo, Deus vem ao nosso encontro, faz-Se mendigo do nosso amor, faz-Se peregrino com a humanidade. Traz-nos Deus, inicia um Reino novo, integrando-nos. Por um lado, Deus ama-nos absolutamente. Por outro, respeita-nos na nossa liberdade. Mas não desiste de nós, como a Mãe não desiste dos filhos mesmo quando a fazem sofrer.

Com a Encarnação Deus dá um passo gigantesco para nos encontrar. O Antigo Testamento revela um Deus interventivo, que não Se alheia da história e dos sofrimentos do Povo que escolheu para firmar uma Aliança (quase) unilateral. O pecado do Povo, as infidelidades, transgressões vão destruindo as ligações entre as pessoas, mas não quebram a Aliança. Deus mantém-Se fiel. A Sua misericórdia é infinita. O profeta Oseias exemplifica esta fidelidade/ misericórdia de Deus. Tal como Oseias desposa e cuida da esposa que o trai repetidamente, nunca desistindo de a amar, assim Deus não desiste de nos amar.

Os Patriarcas, os Juízes, os Sacerdotes, os Profetas são mensageiros que relembram ao Povo o caminho da felicidade e da vida, que passa pela prática da justiça, da solidariedade, pelo cuidado dos mais frágeis, os pobres, os órfãos e as viúvas, os escravos e os estrangeiros.

Chegado o tempo, Deus envia o Seu próprio Filho. Desde então não há nada que nos separe do amor de Deus, pois Ele caminha connosco, assumindo-nos, faz-Se pecado para nos redimir, no elevar, para nos introduzir na vida divina. Jesus é Rosto e é Corpo da Misericórdia do Pai. Em Jesus a misericórdia divina ganha um Corpo, lingando-nos sensivelmente uns aos outros e a Deus.

Ao longo da Sua vida, Jesus passou fazendo, gastando-Se a favor dos mais desvalidos. A delicadeza e a bondade de Jesus preenchem as suas palavras e os seus gestos.

A misericórdia fica mais transparente na última semana de vida de Jesus. O amor é levado até ao fim, a compaixão de Jesus pela humanidade levam-n’O à Cruz, para uma identificação completa com o sofrimento mais atroz e com a própria morte.

Uma das passagens luminosas da misericórdia vivida por Jesus é o gesto do Lava-pés, durante a Última Ceia. São João Paulo II diz-nos que é uma cátedra da caridade divina, e mais, é uma lição, uma epifania, uma revelação: a justiça de Deus relaciona-se com Sua misericórdia infinita, ajusta-Se à condição do pecador. Ali, em Jesus, Deus abaixa-Se, ajoelha-Se e lava-nos os pés, abrindo o Caminho da Misericórdia…

publicado na Voz de Lamego, n.º 4355, de 22 de março de 2016

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Homilia de João Paulo II sobre Santa Teresa d'Ávila


MISSA NO IV CENTENÁRIO DA MORTE DE SANTA TERESA DE JESUS
HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Solenidade de Todos os Santos 
Ávila, 1 de Novembro de 1982

Veneráveis Irmãos no Episcopado
Queridos irmãos e irmãs!

1. "Assim implorei, e a inteligência foi-lhe dada; eu supliquei e o espírito de sabedoria veio a mim... Amei-a mais do que a saúde e a beleza... Com ela vieram a mim todos os bens, e nas suas mãos inumeráveis riquezas. Regozijei-lhe, porque a Sabedoria é o seu guia" (Sab 7, 7.10-12).
       Vim hoje a Ávila para adorar a Sabedoria de Deus, ao término deste IV Centenário da morte de Santa Teresa de Jesus, que foi filha singularmente amada da Sabedoria divina. Quero adorar a Sabedoria de Deus, juntamente com o Pastor desta diocese, com todos os Bispos da Espanha, com as Autoridades de Ávila e de Alba de Tormes presididas por Suas Majestades e Membros do Governo, com tantos filhos e filhas da Santa e com todo o Povo de Deus aqui reunido, nesta festividade de Todos os Santos.

Teresa de Jesus é riacho que leva à fonte, é resplendor que conduz à luz. E a sua luz é Cristo, o "Mestre da Sabedoria" (cf. Caminho de Perfeição, 21. 4), o "Livro vivo" em que ela aprendeu as verdades (cf. Vida, 26, 5); é essa "luz do céu", o Espírito da Sabedoria, que ela invocava para que falasse no seu nome e guiasse a sua pena (cf. Castelo Interior, IV, 1, 1; V, 1, 1 e 4, 11). Vamos unir a nossa voz ao seu canto eterno das misericórdias divinas (cf. Sl 88, 2; cf. Vida 14, 10-12); para dar graças a esse Deus que é "a mesma Sabedoria" (Caminho de Perfeição, 22, 6).

2. E alegra-me poder fazê-lo nesta Ávila de Santa Teresa que a viu nascer e conserva as recordações mais íntimas desta virgem de Castela. Uma cidade célebre pelas suas muralhas e torres, pelas suas igrejas e mosteiros que, com o seu conjunto arquitectónico, evoca na sua conformação esse castelo interior e luminoso que é a alma do justo, em cujo centro Deus tem a sua morada (cf. Castelo Interior, I, 1, 1.3). Uma imagem da cidade de Deus com as suas portas e muralhas, iluminada pela luz do Cordeiro (cf. Apoc 21, 11-14.23).
       Tudo nesta cidade conserva a recordação da sua filha predileta. "A Santa", lugar do seu nascimento e casa de nobre linhagem; a paróquia onde foi baptizada; a Catedral, com a imagem da Virgem da Caridade que recebeu a sua precoce consagração (cf. Vida, 1.7); a Encarnação, que acolheu a sua vocação religiosa e onde atingiu o ápice da sua experiência mística; São José, primeiro pombal teresiano, de onde saiu Teresa, como "andarilha de Deus", a fundar por toda a Espanha.
       Aqui também eu desejo estreitar ainda mais os meus vínculos de devoção para com os Santos do Carmelo nascidos nestas terras, Teresa de Jesus e João da Cruz. Neles não só admiro e venero os mestres espirituais da minha vida interior, mas também dois luminosos faróis da Igreja na Espanha, que iluminaram com a sua doutrina espiritual os caminhos da minha pátria, a Polónia, desde que no princípio do século XVII chegaram a Cracóvia os primeiros filhos do Carmelo Teresiano.
       A circunstância providencial do encerramento do IV Centenário da morte de Santa Teresa permitiu-me realizar esta viagem, há muito por mim desejada.

3. Quero repetir nesta ocasião as palavras que escrevi no principio deste Ano Centenário: ''Santa Teresa de Jesus está viva, a sua voz ressoa ainda hoje na Igreja" (Carta "Virtutis exemplum et magistra": AAS 73, 1981, p. 699). As celebrações do ano jubilar, aqui na Espanha e no mundo inteiro, confirmaram as minhas previsões.
       Teresa de Jesus, primeira Doutora da Igreja Universal, fez-se palavra viva a respeito de Deus, convidou à amizade com Cristo, abriu novas sendas de fidelidade e serviço à Santa Mãe Igreja. Sei que ela chegou ao coração dos bispos e sacerdotes, para neles renovar desejos de sabedoria e de santidade, para ser "luz da sua Igreja" (cf. Castelo Interior, V, 1.7). Exortou os religiosos e as religiosas a "seguirem os conselhos evangélicos com toda a perfeição" (cf. Caminho, 1, 2) para serem "servos do amor" (Vida, 11, 1). Iluminou a experiência dos leigos cristãos com a sua doutrina acerca da oração e da caridade, caminho universal de santidade, porque a oração, como a vida cristã, não consiste "em pensar muito mas em amar muito" e "todos são naturalmente capazes de amar" (cf. Castelo Interior, IV, 1, 7 e Fundações, 5, 2).
       A sua voz ressoou para além da Igreja católica; suscitando simpatia a nível ecuménico, e traçando pontes de diálogo com os tesouros de espiritualidade de outras culturas religiosas. Alegra-me sobretudo saber que a palavra de Santa Teresa foi acolhida com entusiasmo pelos jovens. Eles apoderam-se dessa sugestiva palavra de ordem teresiana, que eu quero oferecer como mensagem à juventude da Espanha: "Neste tempo são necessários destemidos amigos de Deus" (Vida, 15, 5).
        Por tudo isto quero expressar a minha gratidão ao Episcopado Espanhol que promoveu este acontecimento eclesial de renovação. Agradeço também o esforço da Comissão Nacional do Centenário e o das delegações diocesanas. A todos os que colaboraram na realização dos objectivos do Centenário, a gratidão do Papa que é o agradecimento em nome da Igreja.

4. As palavras do salmo responsorial recordam a grande empresa de Santa Teresa ao realizar as fundações: "Felizes os que habitam na vossa casa. Senhor, aí eles vos louvam para sempre.:. Um dia nos vossos átrios vale mais que milhares fora dele... O Senhor dá-nos a graça e a glória. Ele não recusa os seus bens... Feliz o homem que em Vós confia" (Sl 83. 5.11-13).
       Aqui em Ávila realizou-se, com a fundação do mosteiro de São José, e que foi seguido por outras fundações suas, um desígnio de Deus para a vida da Igreja. Teresa de Jesus foi o instrumento providencial, a depositária de um novo carisma de vida contemplativa que tantos frutos havia de dar.
       Cada mosteiro de Carmelitas Descalças tem de ser "pequeno recanto de Deus", "morada" da sua glória e "paraíso do seu deleite" (cf. Vida, 32, 11; 35, 12). Há-de ser um oásis de vida contemplativa, "um pequeno pombal da Virgem Nossa Senhora" (cf. Fundações, 4, 5). Onde se viva em plenitude o mistério da Igreja que é Esposa de Cristo; com esse tom de austeridade e de alegria característico da herança teresiana. E onde o serviço apostólico em favor do Corpo Místico, segundo os desejos e a recomendação da Mãe Fundadora, pode sempre expressar-se numa experiência de imolação e de unidade: "Todas juntas se oferecem em sacrifício por Deus" (Vida, 39, 19). Em fidelidade às exigências da vida contemplativa que recordei recentemente na Carta às Carmelitas Descalças (cf. Carta de 31 de Maio de 1982), serão sempre a honra da Esposa de Cristo, na Igreja Universal e nas igrejas particulares, onde estão presentes como santuários de oração.
        E o mesmo vale para os filhos de Santa Teresa, os Carmelitas Descalços, herdeiros do seu espírito contemplativo e apostólico, depositários dos anseios missionários da Mãe Fundadora. Oxalá as celebrações do Centenário os infundam também nos vossos propósitos de fidelidade no caminho da oração e de fecundo apostolado na Igreja! Para se manter sempre viva a mensagem de Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz.

5. As palavras de São Paulo, que escutámos na segunda leitura desta Eucaristia, levam-nos até a essa profunda nascente da oração cristã, de onde promana a experiência de Deus e a mensagem eclesial de Santa Teresa. Recebemos "o espírito de adopção pelo qual clamamos: Aba, Pai!... E, se filhos, também herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo, isto, porém, se padecermos com Ele, para que também com Ele sejamos glorificados" (Rom 8, 15.17).
       A doutrina de Teresa de Jesus está em perfeita sintonia com essa teologia da oração apresentada por São Paulo, o apóstolo com o qual ela se identificava tão profundamente. Seguindo o Mestre da oração, em plena consonância com os Padres da Igreja, quis ela ensinar os segredos da Oração comentando a prece do Pai Nosso.
      Na primeira palavra, Pai, a Santa descobre a plenitude que nos confia Jesus Cristo, mestre e modelo da oração (cf. Caminho, 26, 10; 27, 1, 2). Na oração filial do cristão encontra-se a possibilidade de estabelecer um diálogo com a Trindade que habita na alma de quem vive em graça, como tantas vezes experimentou a Santa (cf. Jo 14, 23; e Castelo Interior, VII, 1, 6): "Entre tal Filho e tal Pai — escreve — necessariamente há-de estar o Espírito Santo que enamore a vossa vontade, e juntos nutrem-na de grandíssimo amor..." (Caminho 27, 7). Esta é a dignidade filial dos cristãos: poderem invocar a Deus como Pai, deixarem-se guiar pelo Espírito, para serem em plenitude filhos de Deus.

6. Por meio da oração, Teresa buscou e encontrou Cristo. Buscou-O nas palavras do Evangelho que já desde a sua juventude "atuavam fortemente no seu coração" (Vida, 3, 5); encontrou-O "trazendo-O presente dentro de si" (cf. Vida, 4, 7); aprendeu a admirá-1'O com amor nas imagens do Senhor, das quais era tão devota (cf. Vida, 7, 2; 22, 4); com esta Bíblia dos pobresas imagense esta Bíblia do coraçãoa meditação da palavra pôde reviver interiormente as cenas do Evangelho e aproximar-se do Senhor com imensa confiança.
       Quantas vezes meditou Santa Teresa aquelas cenas do Evangelho que narram as palavras de Jesus às mulheres! Que alegre liberdade interior lhe proporcionou, em tempos de acentuado antifeminismo, esta atitude condescendente do mestre com a Madalena, com Marta e Maria de Betânia, com a Cananeia e a Samaritana, figuras essas femininas tantas vezes recordadas pela Santa nos seus escritos! Não há dúvida que Teresa pôde defender a dignidade da mulher e as suas possibilidades de um apropriado serviço na Igreja, a partir desta perspectiva evangélica: "Não Vos aborrecíeis. Senhor da minha alma, com as mulheres, quando andáveis pelo mundo, antes procuráveis favorecê-las sempre com muita piedade..." (Caminho, Autógrafo de El Escorial, 3, 7).
       A cena de Jesus com a Samaritana junto do poço de Sicar, que recordámos no Evangelho, é significativa. O Senhor promete à Samaritana a água viva: "Quem bebe desta água voltará a ter sede; mas quem beber da água que Eu lhe der jamais terá sede, porque a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente de água a jorrar para a vida eterna" (Jo 4, 13-14).
       Entre as mulheres santas da história da Igreja, Teresa de Jesus é sem dúvida a que respondeu a Cristo com o maior fervor do coração: Dá-me desta água! Ela mesma no-lo confirma quando recorda os seus primeiros encontros com o Cristo do Evangelho: "Oh, quantas vezes me recordo da água viva de que falou o Senhor à Samaritana! E assim sou muito afeiçoada àquele Evangelho" (Vida, 30, 19). Teresa de Jesus, como uma nova Samaritana, convida agora todos a aproximarem-se de Cristo, que é manancial de águas vivas.
       Cristo Jesus, o Redentor do homem, foi o modelo de Teresa. N'Ele encontrou a Santa a majestade da sua divindade e a condescendência da sua humanidade: "Grande coisa é tê-1'O humano, enquanto vivemos e somos humanos" (Vida, 22, 9); via que, embora fosse Deus, embora fosse Homem, não se admirava das fraquezas dos homens. Que horizontes de familiaridade com Deus nos descobre Teresa na Humanidade de Cristo! Com que precisão afirma a fé da Igreja em Cristo, que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem! Como o experimenta tão perto, "companheiro nosso no Santíssimo Sacramento!" (cf. ib. 22, 6).
       Partindo do mistério da Humanidade Sacratíssima que é porta, caminho e luz, chegou ao mistério da Santíssima Trindade (cf. ib. VII, 1, 6) fonte e meta da vida do homem, "espelho em que a nossa imagem está gravada" (ib. 2, 8). E a partir da altura do mistério de Deus compreendeu o valor do homem, a sua dignidade, a sua vocação de infinito.

7. Aproximar-se do mistério de Deus, de Jesus, "ter Jesus Cristo presente" (Vida, 4, 8) constitui toda a sua oração. Esta consiste num encontro pessoal com Aquele que é o único caminho para nos conduzir ao Pai (cf. Castelo Interior, VI, 7, 6). Teresa reagiu contra os livros que propunham a contemplação como um vago engolfar-se na divindade (cf. Vida, 22, 1) ou como um "não pensar em nada" (cf. Castelo Interior, IV, 3, -6) vendo nisso um perigo de se fechar sobre si mesmo, de se afastar de Jesus de quem nos "vêm todos os bens" (cf. Vida, 22. 4). Daqui o seu brado: "afastar-se de Cristo... tal não posso sofrer" (Vida, 22, 1). Este brado vale também nos nossos dias contra algumas técnicas de oração que não se inspiram no Evangelho e que tacticamente tendem a prescindir de Cristo em favor de um vazio mental, que dentro do cristianismo não tem sentido. Toda a técnica de oração é válida enquanto se inspira em Cristo e conduz a Cristo, o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14,6).
       Bem é verdade que o Cristo da oração teresiana vai mais além de toda a Imaginação corpórea e de toda a representação figurativa (cf. Vida, 9, 6); é Cristo ressuscitado, vivo e presente, que ultrapassa os limites de espaço e lugar, sendo ao mesmo tempo Deus e homem (cf. Vida, 27, 7-8). Mas contemporaneamente é Jesus Cristo, Filho da Virgem que nos acompanha e nos ajuda (cf. Vida, 27, 4).
       Cristo cruza o caminho da oração teresiana de extremo a extremo, desde os primeiros passos até ao ápice da comunhão perfeita com Deus. Cristo é a porta pela qual a alma tem acesso ao estado místico (cf. Vida, 10, 1). Cristo introdu-la no mistério trinitário (cf. Vida, 27, 2-9). A sua presença no desenvolvimento deste "trato amistoso", que é a oração, é obrigatória e necessária: Ele é que o actua e gera. E Ela é também objecto do mesmo. É o "livro vivo". Palavra do Pai (cf. Vida, 26, 5). O homem aprende a permanecer em profundo silêncio, quando Cristo o ensina interiormente "sem ruído de palavras" (cf. Caminho, 25, 2); esvazia-se dentro de si "contemplando o Crucificado" (cf. Castelo Interior, VII, 4, 9). A contemplação teresiana não é busca de escondidas virtualidades subjectivas por meio de depuradas técnicas de purificação interior. mas abrir-se em humildade a Cristo e ao seu Corpo místico que é a Igreja.

8. No meu ministério pastoral afirmei com insistência os valores religiosos do homem, com quem Cristo mesmo se identificou (cf. Gaudium et spes, 22); esse homem que é o caminho da Igreja, e pelo qual tanto determina a sua solicitude e o seu amor, para que todo o homem alcance a plenitude da sua vocação (cf. Redemptor hominis, 13, 14, 18).
       Santa Teresa de Jesus tem um ensinamento muito explícito sobre o imenso valor do homem: ó, meu Jesus — exclama numa formosa oração — quão grande é o amor que tendes pelos filhos dos homens, pois o melhor serviço que se lhes pode fazer é deixá-los a Vós por amor e proveito deles, e então sois possuído mais inteiramente... Quem não amar o próximo, não Vos ama. Senhor meu; pois com tanto sangue vemos demonstrado o amor tão grande que tendes pelos filhos de Adão!" (Exclamação, 2, 2). Amor de Deus e amor do próximo, unidos indissoluvelmente, são a raiz sobrenatural da caridade que é o amor de Deus e com a manifestação concreta do amor do próximo, como "o mais certo sinal" de que amamos a Deus (cf. Castelo Interior, V, 3, 8).

9. A ideia fundamental da vida de Teresa, como projecção do seu amor por Cristo e do seu desejo da salvação dos homens, foi a Igreja. Teresa de Jesus "sentiu a Igreja", viveu "a paixão pela Igreja" como membro do Corpo Místico.
       Os tristes acontecimentos da Igreja do seu tempo, foram como feridas progressivas que suscitaram ondas de fidelidade e de serviço. Sentiu profundamente a divisão dos cristãos como um dilaceramento do seu próprio coração. Respondeu eficazmente com um movimento de renovação para manter resplandecente o rosto da Igreja santa. Foram-se alargando os horizontes do seu amor e da sua oração à medida que tomava consciência da expansão missionária da Igreja Católica, com o olhar e o coração fixos em Roma, o centro da Catolicidade, com um afecto filial para com "o Padre Santo", como ela chama o Papa, que a levou inclusivamente a manter uma correspondência epistolar com o meu predecessor o Papa Pio V. Emociona-nos ler esta confissão de fé com a qual rubrica o livro das Moradas:"Em tudo submeto-me ao que a Santa Igreja Católica Romana determina, pois nisto vivo, confesso e prometo viver e morrer" (Castelo Interior, Epílogo, 4).
       Em Ávila estimulou-se aquela incandescência de amor eclesial que iluminava e afervorava teólogos e missionários. Aqui teve início aquele serviço original de Teresa na Igreja do seu tempo; num momento tenso de reformas e contra-reformas optou pelo caminho radical do seguimento de Cristo, pela edificação da Igreja com pedras vivas de santidade; levantou a bandeira dos ideais cristãos para animar os chefes da Igreja. E era Alba de Tormes, ao término de uma intensa jornada de caminhos de fundações, Teresa de Jesus, a cristã verdadeira e a esposa que desejava logo encontrar-se com o Esposo, exclama: "Obrigado... meu Deus..., porque me fizeste filha da tua santa Igreja Católica" (Declaração de Maria de São Francisco: Biblioteca Mística Carmelitana, 19, pp. 62-63). Sou filha da Igreja! Eis aqui o título de honra e de compromisso que a Santa nos legou para amarmos a Igreja, para a servirmos com generosidade!

10. Queridos irmãos e irmãs, recordámos a figura luminosa e sempre actual de Teresa de Jesus, a filha singularmente amada da divina Sabedoria, a andarilha de Deus, a Reformadora do Carmelo, glória da Espanha e luz da Santa Igreja, honra das mulheres cristãs, presença ilustre na cultura universal.
       Ela quer continuar caminhando com a Igreja até ao fim dos tempos. Ela, que no leito de morte dizia: "É hora de caminhar". A sua corajosa figura de mulher em caminho, sugere-nos a imagem da Igreja, Esposa de Cristo, que caminha no tempo já nos alvores do terceiro milénio da sua história.
       Teresa de Jesus que conheceu as dificuldades dos caminhos, convida-nos a caminhar levando Deus no coração. Para orientar o nosso roteiro e fortalecer a nossa esperança lança-nos ela esta palavra de ordem, que foi o segredo da sua vida e da sua missão: "Coloquemos os olhos em Cristo nosso bem!" (cf. Castelo Interior, I, 2, 11), para Lhe abrir de par em par as portas do coração de todos os homens. E assim, o Cristo luminoso de Teresa de Jesus será na sua Igreja, "Redentor do homem, centro do cosmos e da história".
       Os olhos em Cristo! (cf. Caminho, 2, 1; Castelo Interior, VII, 4, 8; Heb 12, 2). Para que no caminho da Igreja, como nos caminhos de Teresa que partiram desta cidade de Ávila, Cristo seja "Caminho, Verdade e Vida" (cf. Jo 14, 5 e Castelo Interior, VI, 7, 6).

Assim seja.

domingo, 11 de outubro de 2015

São JOÃO XXIII - Diário da Alma

JOÃO XXIII. Diário da Alma. Paulus Editora. Lisboa 2013. 2.ª edição. 408 páginas.
       Ângelo José Roncalli, nasceu em Sotto il Monte, perto de Bérgamo, Itália, a 25 de novembro de 1881, terceiro de 10 filhos. Morreu a 3 de junho de 1963, em grande e penosa agonia. Em 1965, o Papa Paulo VI deu início à causa de beatificação, concluída por João Paulo II no dia 3 de setembro de 2000.
       No próximo dia 27 de abril de 2014, conjuntamente com João Paulo II, o Papa Francisco canonizou o bom Papa João XXIII, num processo amplamente incentivado por Bento XVI. Que bela paisagem, com o envolvimento de vários Papas, cuja a vivência da fé é um testemunho luminoso.

       João Paulo II ainda está vivo memória, mas para muitos João XXIII é um ilustre desconhecido. Obviamente que a canonização, reconhecimento das suas virtudes, e do trabalho frutuoso que realizou na Igreja e na Sociedade, vai permitir falar-se dele, do seu pensamento, da sua intervenção como sacerdote, Bispo, Núncio Apostólico na Turquia, na Grécia, em França, Arcebispo de Veneza e Cardeal da Santa Igreja, Papa. Por outro lado, é possível que a associação do atual Papa, Francisco, a João XXIII terá já suscitado redobrado interesse em conhecer a história da Sua vida.
       Se as biografias e estudos sobre determinada pessoa são importantes, permitindo enquadrar vários ângulos, da vida, das intervenções, da influência, das consequência de determinadas palavras e/ou atos, para se conhecer bem o bom Papa João é indispensável a leitura do DIÁRIO DA ALMA que o próprio foi escrevendo ao longo de quase setenta anos, desde a entrada no Seminário, 14-15 anos, até às vésperas da sua morte. Anotações, reflexões, informações. Paciência. Oração. Deus. Amor. Caridade. Paciência. Humildade. Tudo para louvor e glória de Deus. Paciência. Humildade. Obediência. Pureza. Prudência. Poucas palavras e apenas para dizer bem. Sofrer com paciência.
       A leitura do diário permite visualizar um Papa simples, humilde, preocupada em tudo fazer para agradar a Deus. Autocensura-se por ser "lendo", o que permite não se precipitar. O próprio vai dizendo que o seu temperamento é o da pessoa calma, paciente, humilde, que não faz questão em ficar com razão. Perseverante. Afável. Bom.
       Aceita de bom grado tudo o que lhe é pedido. Neste diário, ocupa uma espaço muito grande o tempo dos retiros mensais, anuais, ou os retiros de preparação para a ordenação, sacerdotal, episcopal,... Grande devoção a São José, a Nossa Senhora, ao Sagrado Coração de Jesus, ao Nome de Jesus, ao Precioso Sangue de Cristo, a São Francisco de Sales, São Luís Gonzaga, São João Dechamps. Leituras: Bíblia, Breviário, Rosário, Imitação de Cristo. Eucaristia. Santíssimo Sacramento. Jaculatórias.
       É eleito Papa a 28 de outubro de 1958, no quarto dia de conclave, sucedendo a Pio XII. Pensava-se que seria um Papa de transição. No entanto, a sua inspiração contribuiu para uma grande transformação da Igreja, com a convocação e o início do Concílio Ecuménico Vaticano II, que virá a ser encerrado já com o Sucessor, Paulo VI. É uma marca indelével da Igreja, na abertura ao mundo, à sociedade, à cultura, entendo-se a ela mesma como Povo de Deus.
       Sublinhe-se também que João XXIII esteve em Portugal, em Peregrinação ao Santuário de Fátima, ainda como Patriarca de Veneza, em 1956, no 25.º Aniversário da Consagração de Portugal ao Coração Imaculado de Maria, representando o Papa Pio X. Em 13 de maio de 1961 há de promulgar a primeira Encíclica, Mater et Magistra (Mãe e Mestra), um dos documentos mais importantes sobre a Doutrina Social da Igreja (DSI).
       A obra inicia com uma breve resenha biográfica, mas o corpo fundamental são as páginas que se segue, permitindo entrar no pensamento e no coração do Bom Papa João.
       "Obediência e Paz" é o lema de vida de João XXIII que procura levar por diante. Nas mais diversas circunstâncias Ângelo Roncalli prefere o silêncio, a obediência, seguindo o princípio da indiferença, para não esperar nem honras nem títulos.
Algumas expressões sintomáticas:
"A Jesus por Maria" 
"A simplicidade é amor; a prudência, o pensamento. O amor ora, a inteligência vigia. Velai e orai, conciliação perfeita, O amor é como a pomba que geme; a inteligência ativa é como a serpente que nunca cai na terra, nem tropeça, porque vai apalpando com a sua cabeça todos os estorvos do caminho"
"Desapego de tudo e perfeita indiferença tanto às censuras como aos louvores... Diante do Senhor sou pecador e pó; vivo pela misericórdia do Senhor, à qual tudo devo e da qual tudo espero".
"Não falar dos outros senão para dizer bem deles"
"Nunca dizer aos outros algo que não me esforce imediatamente por pôr em prática"
Propósitos de retiro de 1952:
1. Dar graças...
2. Simplicidade de coração e de palavras...
3. Amabilidade, calma e paciência imperturbável...
4. Grande compreensão e respeito para com os franceses... (era Núncio Apostólico em França).
5. Maior rapidez nas práticas mais importantes...
6. Em todas as coisas tem presente o fim... A vontade de Deus é a nossa paz. Sempre na vida, mais ainda na morte.
7. Não me aborrece nem me preocupa o que me possa acontecer: honras, humilhações, negações ou o que quer que seja...
8. Só desejo que a minha vida acabe santamente...
9. Estarei atento a uma piedade religiosa mais intensa...
10. Parece-me que tenho a consciência em paz e confio em Jesus, na Sua e minha Mãe, gloriosa e amantíssima, em São José, o santo predileto do meu coração; em São João Batista, à volta de quem gosto de ver reunida a minha família... A cruz de Cristo, o coração de Jesus, a graça de Jesus; isso é tudo na Terra; é o começo da glória futura... 
"As palavras movem; os exemplos arrastam"

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

BENTO XVI - Santo Agostinho de Hipona (3)

Queridos amigos
       Depois da Semana de oração pela unidade dos cristãos voltamos hoje à grande figura de Santo Agostinho. O meu querido Predecessor João Paulo II dedicou em 1986, isto é, no décimo sexto centenário da sua conversão, um longo e denso documento, a Carta apostólica Augustinum Hipponensem. O próprio Papa quis definir este texto "um agradecimento a Deus pelo dom feito à Igreja, e através dela à humanidade inteira, com aquela admirável conversão". Sobre o tema da conversão gostaria de voltar a reflectir numa próxima Audiência. É um tema fundamental não só para a sua vida pessoal, mas também para a nossa. No Evangelho de domingo passado o próprio Senhor resumiu a sua pregação com a palavra: "Convertei-vos". Seguindo o caminho de Santo Agostinho, poderíamos meditar sobre o que foi esta conversão: uma coisa definitiva, decisiva, mas a decisão fundamental deve desenvolver-se, deve realizar-se em toda a nossa vida.

       Hoje a catequese é dedicada, ao contrário, ao tema fé e razão, que é determinante, ou melhor, o tema determinante para a biografia de Santo Agostinho. Quando era criança tinha aprendido da sua mãe Mónica a fé católica. Mas quando era adolescente abandonou esta fé porque não via a sua racionalidade e não queria uma religião, que não fosse também para ele expressão da razão, isto é, da verdade. A sua sede de verdade era radical e levou-o portanto a afastar-se da fé católica. Mas a sua radicalidade era tal que ele não podia contentar-se com filosofias que não alcançassem a própria verdade, que não chegassem a Deus. E a um Deus que não fosse só uma última hipótese cosmológica, mas o verdadeiro Deus, o Deus que dá a vida e que entra na nossa própria vida. Assim todo o percurso intelectual e espiritual de Santo Agostinho constitui um modelo válido também hoje na relação entre fé e razão, tema não só para homens crentes mas para cada homem que procura a verdade, tema central para o equilíbrio e o destino de cada ser humano. Estas duas dimensões, fé e razão, não podem ser separadas nem contrapostas, mas devem antes estar sempre juntas. Como escreveu o próprio Agostinho, depois da sua conversão, fé e razão são "as duas forças que nos levam a conhecer" (Contra Academicos, III, 20, 43). A este propósito permanecem justamente célebres as duas fórmulas agostinianas (Sermones, 43, 9) que expressam esta síntese coerente entre fé e razão: crede ut intelligas ("crê para compreender") o crer abre o caminho para passar pela porta da verdade mas também, e inseparavelmente, intellige ut credas ("compreende para crer"), perscruta a verdade para poder encontrar Deus e crer.

       As duas afirmações de Agostinho exprimem com eficaz prontidão e com igual profundidade a síntese deste problema, na qual a Igreja católica vê expresso o próprio caminho. Historicamente esta síntese vai-se formando, ainda antes da vinda de Cristo, no encontro entre fé judaica e pensamento grego no judaísmo helénico. Sucessivamente na história esta síntese foi retomada e desenvolvida por muitos pensadores cristãos. A harmonia entre fé e razão significa sobretudo que Deus não está longe: não está longe da nossa razão e da nossa vida; está próximo de cada ser humano, perto do nosso coração e da nossa razão, se realmente nos pusermos a caminho.
        Precisamente esta proximidade de Deus ao homem foi sentida com extraordinária intensidade por Agostinho. A presença de Deus no homem é profunda e ao mesmo tempo misteriosa, mas pode ser reconhecida e descoberta no próprio íntimo: não saias afirma o convertido mas "volta para ti"; no homem interior habita a verdade; e se achares que a tua natureza é alterável, transcende-te a ti mesmo. Mas recorda-te, quando te transcendes a ti mesmo, transcendes uma alma que raciocina" (De vera religione, 39, 72). Precisamente como ele mesmo ressalta, com uma afirmação muito famosa, no início das Confessiones, autobiografia espiritual escrita para louvor de Deus: "Criastes-nos para Vós, e o nosso coração está inquieto, enquanto não descansa em Vós" (I, 1, 1).

       A distância de Deus equivale à distância de si mesmo: "De facto, tu reconhece Agostinho (Confessiones, III, 6, 11) dirigindo-se directamente a Deus estavas dentro de mim mais que o meu íntimo e acima da minha parte mais alta", interior intimo meo et superior summo meo; a ponto que acrescenta noutro trecho recordando o tempo que precedeu a conversão "tu estavas diante de mim; e eu, ao contrário, tinha-me afastado de mim mesmo, e não me reencontrava; e muito menos te encontrava a ti" (Confessiones, V, 2, 2). Precisamente porque Agostinho viveu em primeira pessoa este percurso intelectual e espiritual, soube transmiti-lo nas suas obras com tanta prontidão, profundidade e sabedoria, reconhecendo em dois outros célebres trechos das Confessiones (IV, 4, 9 e 14, 22) que o homem é "um grande enigma" (magna quaestio) e "um grande abismo" (grande profundum), enigma e abismo que só Cristo ilumina e salva. Isto é importante: um homem que está distante de Deus está também afastado de si mesmo, alienado de si próprio, e só pode reencontrar-se encontrando-se com Deus. Assim chega também a si, ao seu verdadeiro eu, à sua verdadeira identidade.
       O ser humano ressalta depois Agostinho no De civitate Dei (XII, 27) é social por natureza mas anti-social por vício, e é salvo por Cristo, único mediador entre Deus e a humanidade e "caminho universal da liberdade e da salvação", como repetiu o meu predecessor João Paulo II (Augustinum Hipponensem, 21): fora deste caminho, que nunca faltou ao género humano afirma ainda Santo Agostinho na mesma obra "ninguém jamais foi libertado, ninguém é libertado e ninguém será libertado" (De civitate Dei, X, 32, 2). Enquanto único mediador da salvação, Cristo é a cabeça da Igreja e a ela está misticamente unido a ponto que Agostinho pode afirmar: "Tornamo-nos Cristo. De facto, se ele é a cabeça, nós somos os seus membros, o homem total é Ele e nós" (In Iohannis evangelium tractatus, 21, 8).

       Povo de Deus e casa de Deus, a Igreja na visão agostiniana está portanto estreitamente relacionada com o conceito de Corpo de Cristo, fundada na releitura cristológica do Antigo Testamento e na vida sacramental centrada na Eucaristia, na qual o Senhor nos dá o seu Corpo e nos transforma em seu Corpo. Então, é fundamental que a Igreja, povo de Deus em sentido cristológico e não em sentido sociológico, esteja verdadeiramente inserida em Cristo, o qual afirma Agostinho numa lindíssima página "reza por nós, reza em nós, é rezado por nós; reza por nós como nosso sacerdote, reza em nós como nossa cabeça, é rezado por nós como nosso Deus: reconhecemos portanto nele a nossa voz e em nós a sua" (Enarrationes in Psalmos, 85, 1).

       Na conclusão da Carta apostólica Augustinum Hipponensem João Paulo II quis perguntar ao próprio Santo o que tem para dizer aos homens de hoje e responde antes de tudo com as palavras que Agostinho escreveu numa carta ditada pouco antes da sua conversão: "Parece-me que se deve reconduzir os homens à esperança de encontrar a verdade" (Epistulae, 1, 1); aquela verdade que é o próprio Cristo, Deus verdadeiro, ao qual é dirigida uma das orações mais bonitas e mais famosas das Confessiones (X, 27, 38): "Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Estáveis dentro de mim e eu estava fora, e aí Vos procurava; e disforme como era, lançava-me sobre estas coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Mas Vós me chamastes, clamastes e rompestes a minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e curastes a minha cegueira. Exalastes o vosso perfume: respirei-o e agora suspiro por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me, e comecei a desejar ardentemente a vossa paz".

       Eis que Agostinho encontrou Deus e durante toda a sua vida fez experiência dele a ponto que esta realidade que é antes de tudo encontro com uma Pessoa, Jesus mudou a sua vida, assim como muda a de quantos, mulheres e homens, em todos os tempos têm a graça de o encontrar. Rezemos para que o Senhor nos conceda esta graça e nos faça encontrar assim a sua paz.

sábado, 25 de julho de 2015

XVII Domingo do Tempo Comum - ano B - 26 de julho

       1 – O alimento e a pobreza são realidades de todas as épocas. Pobres sempre os tereis. Garantia de Jesus quando os discípulos contestam a generosidade e a devoção de uma mulher que d’Ele se aproxima e sobre Ele derrama um frasco de perfume de alto preço (cf. Mt 26, 6-12; Jo 12, 1-8). Faz-nos lembrar aquelas pessoas que desafiam a Igreja a vender tudo o que tem para acudir aos pobres mas não mexem uma palha para fazer alguma coisa, sabendo-se que muitos crentes dão o melhor que têm, por vezes com muito sacrifício, para terem uma Igreja bem adornada, com tudo o que há de melhor, procurando que a casa que é de todos seja a mais cuidada, e se é para receber o convidado mais importante, Jesus Cristo, não se poupam a esforços. E não tem a ver com quantidades, mas com o coração e com a vida, como exemplifica Jesus apresentando uma viúva pobre que deitou duas pequenas moedas no cofre do templo, mais do que todos os outros, pois estes deitaram do que lhes sobejava e aquela mulher deitou tudo quanto tinha para sobreviver (cf. Lc 21, 1-4), confiando-se totalmente a Deus.
       Porém, o cuidado com as coisas de Deus há de sensibilizar-nos a cuidar bem dos preferidos de Deus, os pobres, os pequeninos, os humildes e mansos de coração, os que têm pouco e vivem na míngua. O Juízo Final sintetiza a mensagem de Jesus: "Sempre que fizeste isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizeste... Sempre que deixaste de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixaste de fazer" (Mt 25, 31-46). Também aqui não se pode simplesmente espiritualizar o amor ao próximo, há que o materializar: tive fome e deste de comer, tive sede e deste-me de beber, era peregrino e me recolheste, estava nu e me vestiste, adoeci e visitaste- me, estava preso e foste ver-me. E veja-se como passados alguns séculos, ainda que com muitos pecados, muitos atrasos e lentidões, muitos distanciamentos, a Igreja tem um compromisso social incomparável. A Igreja, com todos os seus membros, poderá sempre fazer melhor, até esgotar todas as possibilidades! O mandato de Cristo é o ponto de partida e o fundamento, que conta connosco e com os meios que estão ao nosso alcance para fazer a vida acontecer.
       Adentremo-nos no Evangelho da multiplicação e da partilha solidária.
       2 – Como víamos no domingo passado, ainda que com outro evangelista, há uma numerosa multidão que segue Jesus. São João refere que isso se deve aos milagres que Ele fazia com os doentes. Também aqui se vê que Jesus vai para o outro lado do mar da Galileia. Não fica deste lado, do seu lado, no seu canto, mas leva-nos com Ele para outras paragens. Sobe ao monte, vista privilegiada para ver a multidão que O segue, e diz a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?»
       Diante do número crescente de pobres, de famílias com dificuldades, empresas a fechar, incumprimento nos pagamentos, também podemos cair em desânimo, concluindo que os problemas são maiores do que as nossas possibilidades: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um». É uma pergunta legítima. E se nos pomos a pensar que alguns se puseram a jeito?! Por vezes é necessário acudir às necessidades imediatas, mas a preocupação é revolver as situações a longo prazo, envolvendo aqueles que estão necessitados. É também uma questão de dignidade.
       Fixemo-nos em Jesus. Não faz nenhum reparo em relação à multidão. Não Se interroga pelo facto de alguns estarem desprevenidos. O comentário partilhado com Filipe, e com os outros discípulos, e connosco, é sobre o que cada um nós pode fazer para resolver o problema que temos pela frente e saciar aquela multidão.
       André, irmão de Simão Pedro, denota a insuficiência dos meios: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?».
       Para nós é muito pouco, mas faz toda a diferença. «Mandai-os sentar». 5 mil homens. Jesus toma os pães e os peixes, dá graças e distribuiu-os. Todos comem o que querem. Até ficarem saciados. Nova ordem de Jesus que conta connosco: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca». 12 cestos. De 5 pães e dois peixes, depois da refeição para 5 mil homens, sobram 12 cestos! Abundância que vem de Deus. Abundância que vem da partilha.
       3 – A primeira leitura, que novamente nos traz um profeta, prepara-nos para ler o Evangelho. Um homem leva a Eliseu pão feito com os primeiros frutos da colheita. 20 pães de cevada, e algum trigo no saco. Eliseu ordena-lhe: «Dá-os a comer a essa gente». Mas como poderia ele pensar em distribuir 20 pães por cem pessoas? Eliseu insiste: «Dá-os a comer a essa gente, porque assim fala o Senhor: ‘Comerão e ainda há de sobrar’». Mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga!
       O verdadeiro milagre é a confiança em Deus e na Sua Palavra. Deus conta connosco. Cabe-nos parte importante na resolução dos problemas que afligem o nosso tempo. Deus age através de nós, dos nossos dons e dos nossos bens. O que fazemos pode não passar de uma gota de orvalho no oceano, mas este só estará completo com a nossa gota de orvalho, como nos lembra a Beata Madre Teresa de Calcutá.
       O milagre da multiplicação que Eliseu obtém de Deus, e o milagre da abundância operado por Jesus, podemos vivê-los através da partilha. "A terra está dotada dos recursos necessários para saciar a humanidade inteira. É preciso saber usá-los com inteligência, respeitando o ambiente e os ritmos da natureza, garantindo a equidade e a justiça nas trocas comerciais, e uma distribuição das riquezas que tenha em conta o dever da solidariedade" (São João Paulo II, Mensagem para a Quaresma, 1996). 
       O milagre só Deus o pode realizar, ainda que através de nós. A partilha faz-nos multiplicar por muitos o pouco que cada um possa ter. Sejam cinco pães e dois peixes! Deus acrescenta-nos no que fica o que damos aos outros. Na partilha as contas são de multiplicar. “A felicidade está mais no dar do que no receber” (Atos 20, 35).
       A oração de coleta ajuda-nos a consciencializar a iniciativa e omnipotência de Deus, envolvendo-nos na transformação do mundo presente com o olhar colocado na eternidade: "Deus, protetor dos que em Vós esperam, sem Vós nada tem valor, nada é santo. Multiplicai sobre nós a vossa misericórdia, para que, conduzidos por Vós, usemos de tal modo os bens temporais que possamos aderir desde já aos bens eternos". 

       4 – A Carta aos Efésios, por sua vez, continua a impelir-nos para os outros, fundamentando a nossa vida e as nossas escolhas em Deus, que é "Pai de todos, que está acima de todos, atua em todos e em todos Se encontra". Se professamos a mesma fé, há que agir para nos vincularmos no mesmo batismo: "Procedei com toda a humildade, mansidão e paciência; suportai-vos uns aos outros com caridade; empenhai-vos em manter a unidade de espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo".
       A missão de Paulo é levar o Evangelho a toda a parte. Porém, não esquece de verificar o Evangelho e os seus frutos nas comunidades por Ele fundadas, incentivando os cristãos a tornarem-se verdadeiros irmãos em Cristo Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): 2 Reis 4, 42-44; Sl 144 (145); Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

GISELDA ADORNATO: PAULO VI - BIOGRAFIA

GISELDA ADORNATO (2014). Paulo VI. Biografia. A história, a herança, a santidade. Lisboa: Paulus Editora. 296 páginas.
       Surpreendente. Um retrato muito completo de um Papa que trouxe a Igreja para a atualidade, no meio de grandes provações, na procura de a manter fiel ao Evangelho da Verdade e da Caridade, tornando-a próxima do nosso tempo, da cultura e da ciência, apostando na evangelização, no compromisso missionário, aberta ao mundo, promovendo o ecumenismo e o diálogo com outras religiões e outras sensibilidades.
       A recente beatificação de Paulo VI, no passado dia 19 de outubro, no encerramento da III Assembelia Extraordinária do Sínodo dos Bispos (instituído por Paulo VI no prosseguimento do Vaticano II) e dedicada à família, tema amplamente refletido por ele que lhe trouxe muitos dissabores nomeadamente com a publicação da Exortação Apostólica Humanae Vitae, que suscitou as mais variadas reações, algumas de violento ataque ao papado e à Igreja, e que mesmo dentro da Igreja suscitou oposição e rutura.
       O pontificado de Paulo VI transformou a Igreja, ainda que tenha ficado marcado por vários episódios de tormento e provação. Depois da morte do bom Papa João XXIII, o Cardeal Montini, depois de um tempo de fervor pastoral na maior Diocese do mundo, Milão, regressa a uma casa que conhece bem, no serviço aos seus antecessores, nomeadamente Pio XII. Regressa como Papa, escolhendo o nome de Paulo, sublinhando desde logo a missionaridade da Igreja. 1963, o concílio está a meio e com a morte do Papa saltam as dúvidas se continuará e terá um desfecho. Logo Paulo VI retomará as sessões do Concílio, com uma intervenção muito interventiva, procurando pontes, não cedendo a pressões, com visões muitas vezes antagónicas entre os chamados conservadores e os progressistas. Paulo VI procura que uns e outros dialoguem, e se aproximem da verdade que é Jesus Cristo.
       Com Paulo VI iniciam-se as Viagens Apostólicas do Papa a diversos países do mundo: Israel, EUA, Portugal, Índia, Colómbia, Uganda... e um intenso trabalho apostólico de diálogo com os Ortodoxos, com as diversas confissões cristãs, mas também o diálogo interreligioso, com judeus e muçulmanos, mas também com outras culturas religiosas, encontro com o Dalai Lama.
(Paulo VI com João Paulo II, Dom Hélder da Câmara, com Madre Teresa de Calcutá, com João XXIII)

       Para quem viveu e cresceu com a figura de João Paulo II, de depois Bento XVI, e agora Francisco, os Papas anteriores são uma memória longínqua que nos é recordada de tempos a tempos. No entanto, com o reconhecimento da heroicidade das virtudes de Paulo VI, em 20 de dezembro de 2012, pela mão de Bento XVI e agora a beatificação, pelas mãos de Francisco, tornou-se urgente redescobrir esta figura iminente da Igreja.
       Tantas foram as vicissitudes que atravessaram a Igreja no século XX. Num tempo de grande transformação, a Igreja contou, no Papado, com figuras extraordinárias, pela inteligência, pela cultura, pela bondade, pela fé. Alguns dos Papas foram entretanto canonizados: Pio X, João XXIII, João Paulo II, e beatificado Paulo VI, mas decorre também o processo de beatificação de Pio XII aberto ainda por Paulo VI.
(Paulo VI com a Irmã Lúcia, com João Paulo I, com Bento XVI, com João Paulo II)

       Curiosa, nesta biografia, a grande proximidade de Paulo VI com os Predecessores mas também com os Sucessores. Trabalhou diretamente, na Cúria Romana, com Pio XI, Bento XV, Pio XII.

       João XXIII criou-o Cardeal, em 15 de dezembro de 1958. Por sua vez, Paulo VI cria Cardeal dois dos seus Sucessores, o futuro João Paulo II e Bento XVI.
       As intervenções de Paulo VI encontram eco alargado, pela clareza, pela insistência, pela frontalidade, pela humildade. Alguns temas são problemáticos e geram tensões. Ficará conhecido sobretudo pela Humanae Vitae, mas o seu magistério é muito mais abrangente, com a reforma litúrgica, a implantação do Concílio, a intervenção e compromisso social, o diálogo com a cultura e com a ciência, a aproximação aos jovens, a colegialidade dos Bispos em comunhão com o Papa, o ecumenismo, o diálogo interreligioso, as conferências episcopais, o dia Mundial da Paz, as viagens apostólicas, a intervenção na ONU, peregrino de Fátima, a internacionalização da Cúria Romana, e a reforma da mesma, o Ano da Fé (1968) e o Ano Santo (1975), acentuando precisamente a fé, a reconciliação, a centralidade de Jesus Cristo. As dissensões com os Bispos Holandeses, com Lefebrve, o beijar da terra em Milão, o beijar o pés a Melitone, metripolita de Calcedónia, estreitando os laços com a Igreja Luterana. A abertura da Igreja às mulheres e aos leigos. A Ação Católica.

       Nasceu a 26 de setembro de 1987, em Bréscia, e faleceu a 6  de agosto de 1978, em Castel Gandolfo. Formado em Filosofia, Direito Canónico e em Direito Civil. Durante a Segunda Guerra Mundial é o chefe do Serviço de Informações do Vaticano e repsonsável por procurar soldados e civis presioneiros ou dispersos. A 1 de novembro de 1954, é eleito por Pio XII para Arcebispo de Milão, é ordenado a 12 de dezembro do mesmo ano, no Vaticano. A 15 de dezembro de 1958, é feito Cardeal. É eleito Papa a 21 de junho de 1963. A 8 de dezembro de 1965 encerra o Concílio Ecuménico Vaticano II.
       Em 21 de novembro de 1964, Consagra Nossa Senhora com o Título de Mãe da Igreja, isto é, Mãe de todo o Povo de Deus.
       Em 24 de dezembro de 1964, proclama São Bento como Padroeiro principal da Europa.
       Em 1971, atribui o prémio da Paz João XXIII a Madre Teresa de Calcutá.
       Morre "velho e cansado", mas com esperança na Igreja, conduzida por Cristo, o verdadeiro timoneiro. Alguns meses passa por mais uma grande provação: o rapto (16 de março de 1978) e morte do estadista democrata cristão Aldo Moro, cujo funeral se realiza na Basílica de São João de Latrão, a 13 de maio. Depois a aprovação da Lei do Divórcio, em Itália, no seu último ano de vida assiste ainda à entrada em vigor da Lei do Aborto. Morre às 21h40 de 6 de agosto de 1978.

       O futuro Papa João XXIII sobre Montini quando este vai para Arcebispo de Milão: "E agora, onde poderemos encontrar alguém que saiba redigir uma carta, um documento como ele sabia?"

       João XXIII, em Carta ao Arcebispo de Milão: "Deveria escrever a todos: bispos, arcebispos e cardeais do mundo [...]. Mas para pensar em todos contento-me de escrever ao arcebispo de Milão, porque nele levo-os a todos no coração, tal como diante de mim ele a todos representa".

       Montini-Paulo VI sobre João XXIII: "Que Ele fosse bom, sim, que fosse indiferente, não. Como ele se atinha à doutrina, como temia os perigos, etc. [...] Não foi um transigente, não foi um atraído por opiniões erradas. [...] O seu diálogo não foi bondade renunciatória e pacífica..."

       Em 27 de junho de 1977, nomeia Cardeal Joseph Ratzinger, arcebispo de Mónaco e Frisinga. Sobre o futuro Bento XVI:
"Damos atestado desta fidelidade também a V. Eminência, cardeal Ratzinger, cujo alto magistério teológico em prestigiosas cátedras universitárias da Sua Alemanha e em numerosas e válidas publicações fez ver como a investigação teológica - na via maestra da fides quarens intellectum - não possa e não deva nunca andar separada da profunda, livre a criadora adesão ao Magistério que autenticamente interpreta e proclama a Palavra de Deus...".
       Sobre JOÃO PAULO II... Paulo VI nomeia-o Arcebispo de Cracóvia em 1964 e Cardeal em 1967. Recebeu-o pessoalmente 20 vezes e outras quatro com o Cardeal Wyszynski ou outros bispos polacos. Pedir-lhe-á para orientar os exercícios Quaresmais de 1976. 
       João Paulo II sobre Paulo VI: "Paulo VI trazia no seu coração a luz do Tabor, e com essa luz caminhou até ao fim, levando com alegria evangélica a sua cruz".

       Os os Bispos da América Latina que tomaram a iniciativa de promover o processo de Paulo VI para ser elevado aos altares. Por aqui se pode tirar um fio de ligação ao Papa Francisco...