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sábado, 21 de janeiro de 2023

Domingo do Palavra de Deus - ano A - 22.janeiro.2023

        1 – «Começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo».

Por iniciativa do Papa Francisco, o terceiro Domingo do Tempo Comum é o Domingo da Palavra de Deus, que para nós cristãos não é, apenas, um conjunto de carateres ou uma composição de palavras, mas é o próprio Jesus Cristo. Ele é a Palavra de Deus que Se faz vida para nós, encarnando, assume-nos, identificando-Se com a nossa humanidade. A Palavra de Deus tem um rosto e uma presença, é Pessoa, é Jesus Cristo. Com as Suas palavras e com os Seus gestos mostra-nos o caminho que nos salva, que dá sentido à nossa existência. Esse caminho passa pelo amor, pela ternura, pela compaixão, passa por gastar-nos no cuidado uns dos outros, no serviço à humanidade e à própria criação.

 

2 – Depois do batismo e, sobretudo, depois da prisão de João Batista, a missão de Jesus acelera e intensifica-se. O caminho foi preparado, a voz proclamou a Palavra que estava para vir, a Palavra está agora no meio de nós. Jesus cumpre, com a Sua vida, as promessas reveladas em Isaías: «Terra de Zabulão e terra de Neftali, estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou».

É um tempo novo, mas o desafio é idêntico: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus».

O evangelista deixa entrever alguma precaução, uma vez que, depois da prisão de João, Jesus Se retirou para a Galileia e é nessa região que recruta a quase totalidade dos Seus discípulos. Vendo dois irmãos, Simão (Pedro) e seu irmão André, que andavam na pesca, disse-lhes: «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens». Um pouco mais à frente, Jesus viu outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, a consertar as redes e fez-lhes o mesmo desafio. Uns e outros, deixaram o que estavam a fazer e seguiram-n'O.

Com eles, Jesus percorre a Galileia a ensinara o Evangelho do Reino, acompanhando as palavras com gestos, curas e milagres. Hoje, Jesus continua a chamar-nos, a mim e a ti. Como é que Lhe respondemos? Colocamos condições ou seguimo-l'O incondicionalmente? Tratamos das nossas coisas, ou pomo-nos a caminho com Ele?

 

3 – O Profeta Isaías, na primeira leitura, é portador da boa nova, da esperança para o povo do Senhor. Os tempos não são de euforia, a adversidade parece levar a melhor, as trevas tornaram-se densas, a perseguição e o exílio são espinhos cravados no coração. Muitas foram as causas desta humilhação passada, desta desolação, entre as quais está o pecado do egoísmo e da prepotência, da corrupção e da injustiça. Um povo dividido torna-se vulnerável à divisão e à devastação.

Ao longo de gerações, o povo sofreu as consequências de uma má gestão, com os líderes políticos e religiosos a pensar mais nos seus interesses do que no bem de todo o povo. Pode fazer-se uma leitura religiosa – o pecado conduz ao conflito e à morte - mastambém uma leitura política – quando são privilegiados os interesses pessoais e familiares, em vez do povo no seu conjunto, cresce o descontentamento, as discussões e a revolta. De conflito em conflito destrói-se a identidade e a força da comunidade, tornando-se vulnerável a ataques de exércitos de países vizinhos!

Profetisa Isaías: «Assim como no tempo passado foi humilhada a terra de Zabulão e de Neftali, também no futuro será coberto de glória o caminho do mar, o Além do Jordão, a Galileia dos gentios».

A tristeza e o luto darão lugar à alegria e à gratidão. «Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor».

Depois da Cruz, a manhã de Páscoa. Depois da sexta-feira santa, da paixão e do sofrimento, da entrega e da oblação, o Domingo da luz e da vida nova, da paz e da salvação.

 

4 – O salmo responde, em forma de oração, à Palavra de Deus, no louvor e na gratidão pelo aconchego que encontramos nos braços, no olhar, na presença de Deus. Ele é a nossa luz e salvação. «O Senhor é protetor da minha vida: de quem hei de ter medo? / Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar da suavidade do Senhor e visitar o seu santuário. / Espero vir a contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos. Confia no Senhor, sê forte. Tem confiança e confia no Senhor».

A confiança é condição essencial para encontrarmos a paz e vivermos harmoniosamente. Sabemos que não estamos sós. Nos momentos de treva e nas tempestades da vida, Ele está a caminhar connosco, não nos deixa sós, guia-nos, desde que abramos uma brecha para que a Sua luz e o Seu amor desbloqueiem os nossos medos e prisões.

 

5 – São Paulo é o Apóstolo da Palavra. Ficou assim conhecido por ser o maior missionário de todos os tempos, anunciando o Evangelho em toda a parte, em todas as circunstâncias, oportuna e inoportunamente. O Evangelho que anuncia é Cristo morto e ressuscitado, filho de Deus que dá a vida pela humanidade. Depois da sua conversão, que a Igreja comemora a 25 de janeiro, gastou-se por inteiro para fazer chegar a palavra de Deus a todos os recantos, para ganhar alguns para Cristo. Fez-se tudo para todos para que reine o amor e a verdade de Cristo.

A caminho de Damasco, nas encruzilhadas da vida, na busca incessante pela verdade, na perseguição aqueles que considerava inimigos do judaísmo, Paulo foi surpreendido pela Luz que vem do alto, pela Luz que é Jesus. As trevas que o cegavam deram lugar à claridade da luz. De perseguidor tornou-se seguidor de Jesus, procurando identificar-se totalmente com Ele. O próprio nos dirá: "já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim", "para mim viver é Cristo".

Na pregação como nas missivas que dirige às comunidades, o apóstolo procura que o seu testemunho conduza outros a deixar-se ver por Jesus Cristo, a deixar-se iluminar pelo Evangelho.

À comunidade de Corinto, e às nossas comunidades, e a quantos creem em Cristo, são Paulo interpela: «Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma linguagem e que não haja divisões entre vós, permanecendo bem unidos, no mesmo pensar e no mesmo agir. Eu soube, meus irmãos, pela gente de Cloé, que há divisões entre vós, que há entre vós quem diga: 'Eu sou de Paulo', 'eu de Apolo', 'eu de Pedro', 'eu de Cristo'. Estará Cristo dividido? Porventura Paulo foi crucificado por vós? Foi em nome de Paulo que recebestes o Batismo? Na verdade, Cristo não me enviou para batizar, mas para anunciar o Evangelho; não, porém, com sabedoria de palavras, a fim de não desvirtuar a cruz de Cristo».

A palavra anunciada é igual para todos, é Jesus Cristo, e, por conseguinte, quanto mais sintonizados com a Palavra de Deus, com Jesus, mais predispostos à comunhão, à fraternidade. Se nos reconhecemos irmãos de Jesus, vivamos como irmãos entre nós.

 

6 – O que são Paulo nos deixa como desafio, rezamo-lo logo a iniciar a Eucaristia: "Deus todo-poderoso e eterno, dirigi a nossa vida segundo a vossa vontade, para que mereçamos produzir abundantes frutos de boas obras, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho".

A oração, humilde e sincera, abre-nos ao coração para Deus, que dilata o nosso coração para a amarmos do mesmo jeito que Ele (nos) ama, cuidando especialmente dos mais frágeis. Acolher e traduzir a vontade de Deus: sermos felizes e contribuirmos para que todos se sintam filhos amados do Senhor.

 

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 8, 23b – 9, 3 (9, 1-4); Sl 26 (27); 1Cor 1, 10-13. 17; Mt 4, 12-23.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Sei quem Tu és: o Santo de Deus

       Jesus chegou a Cafarnaum e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga e começou a ensinar, todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade e não como os escribas. Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro, que começou a gritar: «Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». O espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: «Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!». E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia. (Mc 1, 21-28).
       A vida de Jesus não tem interregnos. Depois do Seu batismo, Jesus vai percorrer cidades, aldeias, passando de uma região a outra. Os evangelhos dão-nos conta do movimento constante de Jesus. Quase não se encontra no mesmo sítio. Está como que estado de permanente peregrinação. Sabe que todo o tempo de que dispõe é escasso para anunciar o reino de Deus, curar os enfermos, sensibilizar os corações para se abrirem à graça de Deus. Todo o tempo é pouco para fazer o bem. Refira-se, em todo o caso, que não é um fugitivo. As pessoas sabem onde Ele se encontra. Por vezes permanece um, dois, três dias, para ter oportunidade de chegar a todos, para cimentar a Palavra.
       Em Cafarnaum, Jesus entra na Sinagoga onde encontra um homem possesso. Ao libertá-lo do espírito impuro, Jesus mostra como o poder do bem é maior, o poder de Deus tudo vence. Também aí deverá repousar a nossa confiança. Por mais pessimistas que possamos ser, o AMOR de Deus vencerá.
       Por outro lado, sublinha-se que Jesus ensinava com autoridade e não como os escribas. Muitas vezes o Evangelho fala desta autoridade de Jesus. Vem-Lhe de Deus Pai, vem do conteúdo da Mensagem, mas sobretudo, o que é observável pelos conterrâneos e contemporâneos, a palavra corresponde à vivência. A autoridade significa aqui coerência de vida.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Domingo II do Tempo Comum - ano B - 18 de janeiro

       1 – Diante de nós, Jesus, o Cordeiro de Deus que carrega e que tira os pecados do mundo. O Espírito do Senhor repousa n’Ele e consagra-O para anunciar a Boa Nova aos pobres, aos cativos levar a libertação, dar vista aos cegos, a todos libertar da escravidão do pecado e da morte. Vamos no Seu encalço. Foi batizado por João e logo os Céus nos lembraram como Deus está no meio de nós. Em Jesus, Deus faz-Se peregrino connosco e para nossa salvação. Desfez-se a barreira que nos separava do Céu, por Jesus vamos ao Pai e sabemos que estamos no Pai quando nos identificamos com Jesus (cf. Jo 14, 19-24).
       João percebe que Aquele Jesus é o Messias que estava para vir e que já está no MEIO de nós. Àqueles dois discípulos, e a nós também, João mostra Jesus: É o Cordeiro de Deus. Como a dizer-nos: agora o tempo é outro, já não faz sentido serdes meus discípulos, quando todos devemos ser discípulos d'Ele, Aquele sobre Quem desceu o Espírito Santo. Os discípulos ouvem-no, deixam-no e passam a seguir Jesus. Veja-se a sequência de testemunho. João dá testemunho de Jesus. Comunica aos Seus discípulos Quem é o Messias. E os discípulos, escutam e fazem uma escolha.
       Duas atitudes nos são sugeridas: sermos testemunhas, em palavras e obras, de Jesus, e como João apontarmos sempre para Ele que está no MEIO de nós; como discípulos, sermos ouvintes da Palavra de Deus, para nos pormos a caminho, seguindo atrás de Jesus.
       2 – Jesus volta-Se e vê-nos. Vai à frente, mas não indiferente. Ele sabe que O seguimos, que O procuramos, e que podemos perder-nos. Seguindo-O de perto, decalcando as Suas pegadas, podemos escutar a Sua voz: «Que procurais?». E teremos então oportunidade de nos aproximarmos mais: «Rabi – que quer dizer ‘Mestre’ – onde moras?».
       Tratamo-l'O por Mestre, reconhecendo que podemos aprender muitas coisas com Ele. Mas Ele, por sua vez, surpreende-nos, não começa por nos instruir, nos ditar pensamentos, ou balizar os mandamentos para sermos seus discípulos: «Vinde ver». A resposta de Jesus é um convite para entrarmos em Sua casa. Ele quer ser a nossa morada. Quer-nos a morar com Ele. Só assim o conheceremos, só assim O seguiremos, só assim podemos transparecê-l'O.
       O encontro com Jesus tem hora marcada. Eram quatro horas da tarde. O pormenor temporal que o evangelho de São João nos dá é significativo. Aquele encontro não é abstrato, desligado da vida, imaginável. É real, como real são os discípulos que seguem Jesus. Um dos que foram ver onde Jesus morava e ficaram com Ele nesse dia é André, irmão de Simão Pedro.
       O encontro com Jesus muda-nos. Não basta saber alguma coisa sobre Ele. É importante. É o primeiro passo. Depois, segui-l'O pelo caminho, permanecendo junto d'Ele, na Sua casa. E se Ele se torna a nossa morada, o inevitável acontece: não podemos calar o que vimos e ouvimos.
       André vai procurar o seu irmão e diz-lhe: «Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’ –; e levou-o a Jesus. Atente-se no pormenor: André não diz muitas coisas sobre Jesus, nem tenta convencer Pedro, simplesmente o leva a JesusO testemunho sobre Jesus é fundamental, pois não podemos seguir e amar o que desconhecemos. Cada um de nós ouviu falar de Jesus, e alguém nos levou a Ele. O encontro pessoal com Jesus não é dispensável. Lembremo-nos da Samaritana que vai à cidade anunciar que encontrou o Messias. Na volta, os que vieram com ela, dizem claramente: “Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4, 42).
       3 – Dá-se o encontro de Jesus com Pedro. E mais uma vez somos surpreendidos. Ele precede-nos. Sabe quem somos, trata-nos pelo nome. O Seu olhar vai ao fundo de nós, onde Ele nos descobre e nos desconcerta. Jesus fita os olhos em Simão e diz-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’.
       E tudo muda de novo. És Simão mas chamar-te-ás Cefas, serás Pedro, pedra, rocha sobre a Qual edificarei a minha Igreja. Sublinhe-se desde já que a Igreja é de Cristo, não de Pedro. É Ele que a edifica, mas conta com Pedro e conta connosco. A pedra angular é Jesus. Pedro é, ainda, uma pedra a trabalhar, para se tornar Pedra firme sobre a qual Jesus edifica a Sua Igreja. Ou como refere D. António Couto, Bispo de Lamego, partindo do significado de Cefas, Pedro é sobretudo "a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova". Rocha firme mas sobretudo rocha-ventre, que gera e acolhe a vida. Assim há de ser a Igreja: proteger, potenciar novas vidas. É a tarefa de todo o cristão, de todos os que se deixam encontrar por Jesus e Se deixam ver pelo Seu olhar.

       4 – Se o evangelho nos traz a vocação (chamamento) dos primeiros apóstolos, a primeira leitura presenteia-nos com o chamamento (chamamento) de Samuel.
       Samuel dorme no templo, lugar de encontro com Deus. Ali está a arca da Aliança. Para os cristãos a Arca da Aliança é a Igreja, ou o Corpo de Jesus que é a Igreja. Também Maria pode ser reconhecida – Primeira Igreja – como a Arca da Aliança. Na Arca, encontra-se a Lei de Deus dada ao Povo por Moisés. No nosso caso, a Arca traz-nos o próprio Deus, traz-nos Jesus. Samuel (= Deus chama) está bem perto de Deus e, por conseguinte, repousa, dorme tranquilo. Estamos perto de Deus, sentimo-nos tranquilos na Sua presença? Escutamos a Sua voz? Estamos pacificados quando sabemos que Ele está por perto?
       "O Senhor veio, aproximou-Se e chamou como das outras vezes: «Samuel, Samuel!» E Samuel respondeu: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta». Samuel foi crescendo; o Senhor estava com ele e nenhuma das suas palavras deixou de cumprir-se".
       Deus chama-nos mas nem sempre discernimos a Sua voz. Também pode acontecer que outras vozes nos desviem da de Deus e nos confundam. A comunidade é uma ajuda preciosa. Ajuda a comunidade. Heli vai percebendo que é Deus quem chama Samuel. Este ainda não conhecia o Senhor. E como poderia conhecer o Senhor se ainda não lhe tinham falado explicitamente d'Ele?! Mais um incisivo para nós: como Samuel ponhamo-nos à escuta de Deus e da Sua Palavra; como comunidade crente, demos testemunho diante dos outros deste Deus que nos fala ao coração, que está bem próximo de nós, para que os outros possam deixar-Se encontrar por Ele, perceber a Sua voz, e escutar o Seu chamamento.

       5 – O Templo no Qual encontramos a Deus, é Jesus. Ele é o verdadeiro Templo de Deus. E com Ele também nós nos tornamos templos, lugares de encontro com os outros e com Deus. Não esqueçamos que o Templo não é para Deus. O Templo é para nos encontrarmos com Deus. Mas também com os outros. Como lugar físico, sagrado, casa de oração e de comunhão, faz-nos olhar para Deus, colocando-nos em atitude de escuta, de contemplação, de diálogo, mas sintoniza-nos com outros que rezam como nós, que procuram, que escutam, que suplicam, que agradecem. Se rezamos ao mesmo Deus, unimo-nos entre nós.
       O Apóstolo lembra-nos que o nosso encontro com Deus não é abstrato, mas corpóreo. O romantismo de uma vida meramente espiritual não toca a realidade e se não toca a realidade não a salva. Ora, somos pessoas, de carne e osso, pecadores, frágeis como os vasos de barros, mas é AQUI e AGORA, no nosso corpo, na nossa vida inteira, que Deus nos encontra. Como víamos no Evangelho, e na primeira leitura, Deus tem hora marcada connosco, chama-nos pelo nome, num lugar determinado, no caminho, ou em Sua casa. Sigamo-l'O à Sua morada, para aprendermos d'Ele, para nos alimentarmos à Sua mesa, para O comunicarmos.
       Santificamo-nos na nossa corporeidade: "O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo. Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só Espírito. Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós e vos foi dado por Deus? Não pertenceis a vós mesmos, porque fostes resgatados por grande preço: glorificai a Deus no vosso corpo".
       O seguimento de Cristo, a adoração de Deus, não é abstrata, concretiza-se em nós, na nossa vida, na história e no tempo, e não há nem tempo nem história nem templo sem o corpo, o nosso corpo, a nossa vida humana.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): 1 Sam 3, 3b-10. 19; Sl 39 (40); 1 Cor 6, 13c-15a. 17-20; Jo 1, 35-42.

sábado, 30 de agosto de 2014

XXII Domingo do Tempo Comum - ano A - 31 de agosto

       1 – E vós que dizeis que Eu sou? Pergunta essencial que Jesus nos faz sobre o testemunho que estamos dispostos a dar, identificando-nos com Ele e permitindo que Ele transpareça em nós, através de nós, diante de todas as pessoas que encontramos.
       Pedro, como víamos, responde também por nós. Tu és o Messias, o Filho de Deus. Isto é, não és um dos profetas, és o Messias de Deus, és único para mim. Seguir-Te-ei por onde fores.
       Tu és Pedro, pedra, sobre ti edificarei a minha Igreja. Recordava o nosso Bispo, D. António Couto, que aquela pedra, que é Pedro, é frágil, esburacada, alcofa, berço, para nele e através dele, e também em nós e através de nós, Cristo possa agir no mundo.
       A profissão de fé de Pedro é reveladora. Mas a consciência do que acaba de dizer parece não ter ainda a consistência do seguimento, a luz da fé que brotará com toda a força na Ressurreição de Jesus Cristo.
       O Mestre vai prevenindo os seus discípulos para que não se deixam iludir por facilidades. Ele é o Messias, o Enviado de Deus, mas não dispensa ninguém de trabalhar, de fazer o seu próprio caminho. Ele é Guia, mas não nos substitui os pés, a vontade. Teremos que viver a nossa vida, enfrentando os dias bons e os dias nebulosos. Ele estará sempre connosco. Sempre de mão estendida para não nos deixar afundar. Esta confiança que nos vem da fé ajuda-nos a encarar as intempéries que advirão pelo caminho.
       O Filho do Homem, que é também o Filho de Deus, vai sofrer. Vai passar as passas do Algarve, vai ser entregue às autoridades e será morto. No entanto, não há que se deixar afugentar pela morte, pois a ressurreição, três dias depois, trará a vitória do amor, da entrega, a vitória de Deus sobre o mal, a injustiça, o sofrimento.
       2 – Quando nos dão uma má notícia deixamos de ter disponibilidade para boas notícias. Os discípulos já não ouvem Jesus a falar de ressurreição e logo Pedro O contesta, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!».
       Jesus volta-Se para Pedro e diz-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens». E logo para todos os discípulos, que hoje somos nós: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida? O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».
       Aí estão as linhas de orientação para sermos verdadeiramente discípulos, seguidores de Jesus. Seguir atrás do Mestre. Quando queremos ir à frente, ou sem Jesus Cristo e o Seu Evangelho de amor e de perdão, corremos o risco de perder a vida em vão. É preciso sermos aquela pedra frágil cuja força nos vem do alto, de Jesus Cristo, pelo Espírito Santo. Precisamos de não impedir que Deus trabalhe em nós e através de nós. Podemos ter o mundo inteiro nas mãos, mas se nos faltar a caridade, faltar-nos-á a própria vida, como dom partilhável. Precisamos de GASTAR a vida a favor dos outros, a exemplo de Jesus que dá a vida pela humanidade inteira.
       3 – Há tantos caminhos quantas as pessoas. Resposta do então Cardeal Joseph Ratzinger, em Sal da Terra (1996), quando lhe perguntaram quantos caminhos havia para Jesus Cristo, lembrando que a própria Igreja é definida como caminho de Cristo. Ou Jesus, como único caminho que nos conduz ao Pai.
       Dito isto, facilmente se conclui que cada um é chamado a fazer o seu próprio caminho. Mas não estamos sós. A reprimenda dada a Pedro surge neste contexto. Se queremos passar à frente de Jesus ou prosseguir sem Ele, estaremos sob o domínio de Satanás, diabolizando a nossa ligação com os outros. Há que avançar seguindo Jesus, procurando orientar-nos pelas suas pegadas.
       No campo ou na cidade, os pais levam a criança pela mão. Ou, vão à frente (na vida), dando o exemplo pela palavra e pela postura. A criança larga a mão dos pais e pode perder-se se avança demasiado ou se se atrasa e deixa de os ver. Seguimos por um trilho, por entre giestas, arvoredo, e procuramos que os nossos pés pisem onde outros pisaram, ainda que as nossas pegadas sejam nossas. Será mais seguro, pois sabemos que aqueles que nos precederam trilharam caminhos que nos dão segurança, sem nos iludirmos no arvoredo, com o perigo de tropeçarmos numa pedra, ou cairmos em algum buraco, ou irmos diretos a uma ribanceira. Ainda que possamos retomar a caminhada.
       Cai neve que cobre por completo o chão que pisamos. Se alguém já passou, nós vamos prosseguindo sabendo onde podemos pisar com segurança. Deslocámo-nos por um caminho que desconhecemos. Nada melhor que uma bússola ou o GPS. Isto mesmo diz Jesus a Pedro. Afasta-te de Mim. Passa para trás. Eu Sou o alfa e o ómega, o Teu Norte. Vem por Mim e serás salvo. A minha Palavra é bússola para o teu peregrinar, o meu Evangelho é o melhor GPS para saberes para onde vais. Chega mais depressa não quem corre mais mas quem sabe para onde ir. Quem se mete em atalhos pode muito bem meter-se numa carga de trabalhos. Seguir no encalço de Jesus dá-nos a confiança para prosseguirmos com alegria, criatividade, segurança, sabendo que encontraremos dificuldades, mas sabendo também que o nosso olhar não se despegará do de Jesus.
       Por outro lado, o testemunho dos santos, ou de pessoas luminosas que vamos encontrando nas nossas comunidades, cuja vivência de compromisso com os irmãos, nos leva, ainda hoje, a descobri mais facilmente as pegadas de Jesus. Voltando ao exemplo anterior, seguindo um trilho, se outros forem decalcando as pegadas que encontram, tornam-se mais visíveis para nós.

       4 – São Paulo admoesta, ao jeito de Jesus, para que não nos conformemos com o tempo presente, com este mundo, com os nossos interesses, mas em tudo procuremos "o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito", discernindo segundo a vontade de Deus.
       Se nos preocuparmos apenas connosco e com o nosso umbigo, conformar-nos-emos com o mundo, deixando-nos transformar por ele. Mas, seguindo Jesus, deveremos gastar a nossa vida para transformar o mundo, oferecendo-nos a nós "mesmos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual", sob o domínio da misericórdia de Deus. Vivamos à sombra das Suas asas (Salmo)!
       Esta é a nossa vocação: fazer com que o nosso caminho, seguindo a vontade de Deus, nos aproxime do caminho que é Jesus Cristo. Se nos faltarem as forças, não temamos pois a nossa vida está unida a Deus, cuja mão nos serve de amparo (Salmo).
       Jeremias sente, como Pedro, como Paulo, e como nós, o chamamento de Deus ao qual não pode virar costas, ou fazer de conta. O profeta reconhece as dificuldades do caminhos, mas sabe que não lhe cabe desistir: "Em todo o tempo sou objeto de escárnio, toda a gente se ri de mim; porque sempre que falo é para gritar e proclamar: «Violência e ruína!». E a palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião permanente de insultos e zombarias. Então eu disse: «Não voltarei a falar n’Ele, não falarei mais em seu nome». Mas havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia".
       Por vezes pode ser mais fácil deixar andar, ao sabor do vento. Mas se Ele verdadeiramente nos seduziu, a Sua voz há de ressoar dentro de nós até ao Infinito. Mas também a Sua Mão nos guiará.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Jer 20, 7-9; Sal 62 (63); 2 Rom 12, 1-2; Mt 16, 21-27.

sábado, 9 de junho de 2012

X Domingo do Tempo Comum (ano B) - 10 de junho

       1 – Respondeu-lhes Jesus «Quem é minha Mãe e meus irmãos?» E, olhando para aqueles que estavam à sua vota, disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».
       É de todos conhecida esta reação de Jesus àqueles que O interpelaram sobre a presença de Maria e dos seus familiares mais próximos. Estranha-se esta passagem, até porque Maria e os seus familiares muitas vezes O acompanhavam sem que isso tenha suscitado admiração. Por outro lado, compreende-se numa situação que sugere que Jesus estava a passar das marcas e que alguém tivesse advertido a Sua Mãe e os familiares que poderiam ter alguma influência para levar Jesus para casa, para não provocar mais problemas.
       Aliás o contexto é esse mesmo. Jesus chama as pessoas e fala-lhes em parábolas como resposta a acusações de que estaria possuído por algum espírito demoníaco:
«Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode aguentar-se. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado eterno».
       Numa e noutra indicação, Jesus deixa um apelo à unidade, desafiando-nos a alargar o conceito de família, para lá das paredes da nossa casa física.
       Tal como um reino, também a família só sobrevive se os seus membros não estiverem permanentemente uns contra os outros. Por outro lado, a família biológica, fundamental ao crescimento da pessoa, há de dar lugar à família dos filhos de Deus. Jesus aponta para uma identidade que quebre fronteiras e nos projete no Coração de Deus.

       2 – A família é a célula primária e fundamental de uma sociedade adulta, democrática, saudável, é essencial na comunicação da vida e dos valores, no cultivo da liberdade e da solidariedade (entre pessoas e entre as diversas gerações), na inserção positiva e estruturação da social.
       Quando a família é descaracterizada, todo o tecido social se ressente. A casa, a família, é o tempo, o lugar e o alfobre da vida em qualidade. Nela cada pessoa aprende a falar, a ler o seu semelhante, a reconhecer a sua identidade, na abertura aos outros e ao Totalmente Outro (expressão de E. Levinas), ou melhor, ao Totalmente Próximo (expressão de Gongalez Faus).
       A urgência e a grandeza da família é para Jesus uma certeza inabalável. Na casa de Nazaré, Jesus descobre-se filho, relaciona-se no seio da vida familiar reconhecendo-se irmão com familiares e vizinhos, aprende a ser pessoa em relação, com os mais próximos mas também com as pessoas que vêm de outros lugares, das pessoas que passam para pedir abrigo, esmola, proteção. A sensibilidade de Jesus resulta da vivência em família, na atenção ao próximo, na riqueza da caridade e na importância do trabalho honesto e dedicado.
       É também da sua casa paterna/materna que Jesus é introduzido na casa de Deus, na religião judaica, com os seus ritmos e com as suas tradições. É por ter da família uma visão por demais positiva que Jesus concebe uma família mais alargada.
       A sua mãe, os seus irmãos, a sua família, são todos aqueles e aquelas que procuram viver em sintonia com Deus, com a Sua vontade. Como em outra passagem, Jesus deixa claro: mais felizes são aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática. E não bastam as palavras, não basta dizer "Senhor, Senhor", é preciso traduzir em obras o que se professa com os lábios, para assim integrar o reino de Deus.

       3 – A pessoa é um ser em relação. Das muitas definições que se encontram sobre a pessoa, esta é das mais expressivas para nos dizer da solidariedade específica e inolvidável do ser humano. Obviamente, que não se pode reduzir a vida e a pessoa à sua capacidade de relação, com o grave perigo de suprimir a vida do ser humano a quem não se reconheça capacidade relacional, ainda que a relação exista para lá das aparências biológicas. A pessoa é um ser único e irrepetível, é filho/a de Deus, desde a concepção à morte (natural).
       Desde o início que estamos "condenados" a relacionar-nos com os outros, em família, com o mundo, a natureza, com o mundo espiritual, na nossa vida interior e o apelo em nós inscrito à transcendência. Mais uma vez a valoração da família humana, na qual aprendemos a ser pessoas e a nos relacionarmos saudavelmente com outros, e da família que integramos pela fé. A nossa vida limitada ao tempo e ao mundo terrenos reduziria a nossa esperança a pó, a nada, ao vazio, ao ocaso, fazendo-nos cair em depressão definitiva, ou num cinismo selvagem.
       São Paulo, num texto bem conhecido, ilustra a nossa vocação à transcendência, à vida espiritual, ao sobrenatural:
"Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele... Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, em peso eterno de glória. Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens".
       Em relação com os outros, na nossa fragilidade e limitação humanas, por vezes desviámo-nos da vontade de Deus, contornámos o caminho que nos levará à morada eterna, obra de Deus. Desde o início, o ser humano se confrontou com a sua liberdade. A falta de solidariedade em família, ou na comunidade, leva à ruína, é o pecado que nos condena à solidão e ao conflito (infernal), e promove a desculpa e a acusação:
Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?» Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi».
       O projeto original é salvo pelo amor, pelo regresso à família de Deus, pela adesão à vontade divina, para que prevaleça em nós a obra de Deus, até à eternidade.

Textos para a Eucaristia (ano B): Gen 3, 9-15; 2 Cor 4, 13 – 5, 1; Mc 3, 20-35.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Editorial Voz Jovem - janeiro 2012

       Os dias que medeiam entre a Epifania e a Quaresma – Tempo Comum (1.ª parte) – são também sinal e expressão do amor de Deus por nós.
       O ano litúrgico recentra-nos em dois vértices: o NATAL e a PÁSCOA, e que incluem os tempos de preparação (Advento e Quaresma) e os tempos que se lhe seguem (tempo de Natal e tempo Pascal), tornando mais acessível o mistério da salvação.
       Com efeito, a Encarnação do Verbo tem como fim a Sua Manifestação plena no dar a vida pela humanidade. É no dar a vida que Jesus nos mostra o caminho de retorno a Deus. Com a Ressurreição percebemos o DOM da vida nova. É à luz da Páscoa que havemos de encarar toda a nossa vida de fé. Jesus assume a nossa fragilidade e finitude para nos (re)introduzir na eternidade.
       Depois do batismo de Jesus, por João Batista, iniciamos o chamado Tempo Comum ou Ordinário. O tempo comum celebra a Páscoa, em cada domingo, em cada Eucaristia. Com efeito, a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição de Jesus, que Ele antecipou na Última Ceia, de forma a permanecer no meio de nós, faz-nos participantes da vida divina e alimenta-nos até à eternidade. Por esta razão, a Eucaristia é a oração mais completa da Igreja. Encaminhamo-nos para Deus, alimentamo-nos da presença de Deus entre nós. Na palavra proclamada, refletida e acolhida e pela condivisão do Corpo de Cristo, tornamo-nos com Ele um só Corpo.
       Na verdade, o tempo comum desafia-nos a deixar-nos surpreender por Deus em todos os momentos da nossa vida, também no silêncio e na aridez dos nossos dias, também na rotina e na azáfama, também nos vazios e nas dúvidas, nas contrariedades e nas nossas realizações humanas.
       É no dia a dia que nos afirmamos como pessoas, nos descobrimos sociedade, formamos Igreja, como crentes peregrinos, em busca de um sentido novo para a vida. Deus age em todo o tempo, em toda a parte, em todas as ocasiões.
       Será oportuno envolver-nos nas diversas manifestações de Deus, nos encontros e gestos de Jesus, cuja riqueza do Evangelho não se esgota num ciclo litúrgico. Daqui também, a necessidade da Igreja encontrar espaço para abranger melhor o mistério de Cristo, promovendo três ciclos de leituras. Encontrámo-nos no ciclo B, em que o Evangelho de São Marcos será a referência fundamental para os domingos.

       1 – “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1, 35-42). O 2.º domingo do tempo comum, faz-nos viver a passagem de testemunho, de João Batista para Jesus, no sinal que dá aos seus discípulos para seguirem Jesus.

       2 – “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 14-20). A mensagem de Jesus desafia à fé e à conversão. No 3.º domingo, Jesus chama alguns Apóstolos, para que vivam com Ele e O acompanhem, para depois os enviar ao mundo.

       3 – “Uma nova doutrina, com tal autoridade que até manda nos espíritos impuros” (Mc 1, 21-28). No 4.º domingo, a certeza de que em Jesus está a força e a graça de Deus. Ele vem salvar-nos dos demónios que nos afastam de Deus e uns dos outros.

       4 – “Todos Te procuram… Vamos a outros lugares (…) a fim de também aí pregar” (Mc 1, 29-39). No 5.º domingo, o Evangelho mostra como o ministério de Jesus se revela em gestos concretos, cura a sogra de Pedro e muitos outros que acorrem à Sua presença. É urgente ir, partir, anunciar, pregar…

       5 – “Se quiseres, podes curar-me” (Mc 1, 40-45). No 6.º domingo, um leproso aproxima-se de Jesus com a certeza de n’Ele encontrar a cura. E nós? Com que confiança rezamos a Jesus?

       6 – “…para saberdes que o Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados…” (Mc 2, 1-12). A salvação envolve toda a nossa vida, como podemos refletir neste 7.º domingo. Jesus vem para nos curar de todo o mal. Só o perdão dá lugar a uma vida nova.

       O reino de Deus está próximo, convertamo-nos de todo o coração e acreditemos no Evangelho… é tempo de salvação, Deus vem salvar-nos!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Chamamento dos Apóstolos...

Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo: "Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho". Caminhando junto ao mar da Galileia, viu Simão e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores. Disse-lhes Jesus: "Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens". Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O. Um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco a consertar as redes; e chamou-os. Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados e seguiram Jesus (Mc 1, 14-20).

       Com o Baptismo do Senhor, iniciámos o Tempo Comum.
       O ano litúrgico divide-se em vários tempos, que acentuam outras tantas dimensões da vida de Jesus e da vida do cristão e da Igreja. O tempo do Advento, como preparação para o Natal; o tempo do Natal; o tempo da Quaresma: quarenta dias de prepação para a Páscoa; a Páscoa e o Tempo Pascal, onde se acentua o msitério da morte e da ressurreição de Jesus, com a referência especial para o Tríduo Pascal: Quinta-feira santa, Sexta-feira santa e Sábado Aleluia, e o tempo Comum que se inicia com o Baptismo do Senhor e terminará na Solenidade de Cristo Rei, na 34.ª Semana.
       Hoje o Evangelho dá-nos conta do chamamento dos Apóstolos. João Baptista é preso. Jesus, abertamente, desloca-se de aldeia em aldeia, de população em população, para anunciar o Evangelho do Reino de Deus, no desafio constante à conversão. É neste contexto inicial que chama os primeiros discípulos para fazer deles pescadores de homens...