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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Santa Teresa Benedita da Cruz, Virgem e Mártir

Nota Biográfica:
       Edith Stein, filha de pais judeus, nasceu em Breslau no dia 12 de Outubro de 1891. O pai era comerciante de madeiras e morreu antes de Edith ter completado os 2 anos. A mãe, mulher muito religiosa, solícita e voluntariosa, assumiu todo o cuidado da família, mas não conseguiu manter nos filhos uma fé viva.
      Edith dedica-se então a uma vida de estudos na Universidade de Breslau tendo como meta a Filosofia. Os anos de estudos passam até que, no ano de 1921, Edith visita um casal convertido ao Evangelho. Na biblioteca deste casal ela encontra a autobiografia de Santa Teresa de Ávila. Edith lê o livro durante toda a noite. "Quando fechei o livro, disse para mim própria: é esta a verdade", declarou ela mais tarde.
     Tendo-se dedicado aos estudos filosóficos, empenhou-se perseverantemente na procura da verdade, até que encontrou a fé em Deus e se converteu à Igreja Católica. Foi baptizada no dia 1 de janeiro de 1922. Desde então serviu a Deus na função de professora e escritora. Agregada às irmãs carmelitas em 1933 com o nome Teresa Benedita da Cruz por ela escolhido, dedicou a sua vida ao serviço do povo judaico e do povo alemão. Deixando a Alemanha por causa da perseguição aos Judeus, foi recebida a 31 de dezembro de 1938 no convento das carmelitas de Echt (Holanda). No dia 2 de Agosto de 1942 foi presa pelas autoridades que exerciam o poder aterrador na Alemanha e enviada para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau (Polónia), destinado ao genocídio do povo judaico. Aí foi cruelmente morta no dia 9 de Agosto, com 51 anos de idade.
     Tinha sido discípula e depois assistente de Edmund Husserl, o fundador da fenomenologia.
       Foi beatificada a 1 de Maio de 1987, e canonizada a 11 de Outubro de 1998, pelo Papa João Paulo II. É uma das padroeiras da Europa, juntamente com Santa Brígida e Santa Catarina de Sena.
       “Como cristã e judia, ela aceitou a morte com o seu povo e para o seu povo, que era visto como o lixo da nação alemã”, referiu Bento XVI, aquando da uma visita histórica ao complexo de Auschwitz, em 2006.
Oração:
       Senhor, Deus dos nossos pais, que conduzistes a mártir Teresa Benedita ao conhecimento do vosso Filho crucificado e à sua imitação até à morte, concedei, pela sua intercessão, todos os homens conheçam o Salvador, Jesus Cristo, e por Ele cheguem perpétua visão do vosso rosto. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Cristo tomou sobre Si o jugo da Lei, cumprindo plenamente a Lei e morrendo pela Lei e através da Lei. Assim libertou da Lei aqueles que querem receber d’Ele a vida. Mas eles sabem que só poderão recebê-la se ofereceram a sua própria vida. Porque os que foram baptizados em Cristo foram baptizados na sua morte. Submergiram-se na vida de Cristo, para se tornarem membros do seu Corpo, destinados a sofrer e morrer com Ele, mas também a ressuscitar com Ele para a vida eterna, a vida divina.
Para nós, evidentemente, esta vida atingirá a sua plenitude no Dia do Senhor. Contudo, já desde agora – «na carne» – participamos da sua vida quando acreditamos: acreditamos que Cristo morreu por nós para nos dar a sua vida. É esta fé que nos permite ser uma só realidade com Ele, como os membros com a cabeça, e nos abre a torrente da sua vida. Assim, esta fé no Crucificado – a fé viva, que está associada ao vínculo do amor – constitui para nós a entrada na vida e o princípio da futura glorificação. Por isso a cruz é o nosso único título de glória: Longe de mim gloriar-me, senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Quem decidiu aderir a Cristo morreu para o mundo e o mundo para ele. Leva no seu corpo os estigmas do Senhor. É débil e desprezado perante os homens; mas por isso mesmo é forte, porque na fraqueza se manifesta o poder de Deus.
Tendo consciência disto, o discípulo de Jesus aceita não somente a cruz que lhe é imposta, mas crucifica-se a si mesmo: os que são de Cristo crucificaram a sua carne com as suas paixões e concupiscências. Suportaram um combate implacável contra a sua natureza, a fim de que morra neles a vida do pecado e dê lugar à vida do espírito. Porque é esta que importa.
Contudo a CRUZ não é um fim em si mesma: ela eleva-nos para as alturas e revela-nos as realidades superiores. Por isso ela não é somente um símbolo; ela é a arma poderosa de Cristo; é o cajado de pastor com que o divino David sai ao encontro do David infernal e com o qual bate fortemente à porta do Céu e a abre. Então brotam as torrentes da luz divina que envolvem todos aqueles que seguem o Crucificado.
(Edith Steins Werke, ed. L. Gelber - R. Leuven, T. I, Freiburg 1983, pp. 15-16)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

GOMES MACHADO. Edith Stein - Pedagoga e Mística.

António José GOMES MACHADO. Edith Stein: Pedagoga e Mística. Editorial A.O., Braga 2008, 304 páginas.
        António José Gomes Machado dá à estampa este livro correspondente à dissertação de Mestrado em Ciências Religiosas, sobre Edith Stein que viria a converter-se em Teresa Benedita da Cruz. Nasceu em Breslau, na Alemanha, em 12 de outubro de 1981. Este dia coincidia com o Dia do Perdão, para os judeus, uma das festas judaicas mais significativas.
       Como é sabido, o século XX é marcado pelas duas grandes guerras e também Edith Stein, como judia e como alemã, estará no centro destes dois conflitos. Na primeira, voluntariando-se como enfermeira para ajudar os muitos feridos que chegavam aos hospitais. Na segunda, como vítima da perseguição nazi. Pelo meio fica uma história de procura, de descoberta, de encontro, de conversão, de luta, de persistência.
       A sua família é judia. As festas principais são oportunidades para a família estar mais ligada ao povo da primeira Aliança, promovendo ritos, tradições, costumes. Cedo verificará que a vida não é consequente com a fé professada e celebrada, sendo que as festas judaicas se tornam sobretudo encontro com a família mas não tendo uma tradução prática na vida quotidiana. Por volta dos 14/15 anos chega assaltam em definitivo as dúvidas e a busca pela verdade, por um sentido mais pleno para a vida. Deixa a escola e passa por um tempo em que se mistura o agnosticismo, o indiferentismo religioso, e até o ateísmo, mas sem uma clara animosidade em relação à religião judaica ou outra.
       Como nos mostra o autor, a sua busca levá-la-á a Santa Teresa de Ávila (Teresa de Jesus), a mística que renovou o Carmelo. Nunca deixando de procurar um sentido para a vida, a verdade, Edith Stein volta a estudar, entra em contacto com o pai da Fenomenologia, tornando-se sua discípula, mas não se fixando aí. Contacta com outros filósofos como Max Scheler, católico. Lê a autobiografia de Santa Teresa de Jesus e dá-se o clique: é esta a verdade. A partir de então, embora continuando a investigar, a dar aulas, explicações, na área da educação e da pedagogia, procura assumir a conversão, compra o Catecismo da Igreja Católica e um Missal, pede a um sacerdote para ser batizada e torna-se católica. A sua busca continuará sempre. As suas investigações terão um ponto de apoio, Jesus Cristo, o Messias anunciando pela Sagrada Escritura, esperado pelos judeus, e que ela descobre em Jesus. Concorre para uma cátedra na universidade mas, por ser mulher, é impedida. Então resolve seguir em definitivo a sua vocação, torna-se religiosa, procurando imitar Santa Teresa de Jesus.
       Entramos na segunda guerra mundial. As religiosas acham por bem que se mude para a Holanda, para outro Carmelo. Os Bispos holandeses acharam por bem emitir uma Carta Pastoral denunciando as atrocidades cometidas pelos nazis. Esta carta foi lida em 24 de julho de 1942 em todas as Igrejas católicas da Holanda. Como resposta, os representantes do Reich ordenaram a deportação de todos os judeus católicos, arrancando-os dos conventos. Também Edith foi detida a 2 de agosto de 1942, juntamente com a irmã Rosa Stein. Passaram por alguns campos de concentração, até que no dia 7 de agosto foram deportadas para o mais famoso campo de extermínio Auschwitz-Birkenau, onde chegara no dia nove do mesmo mês. Nesse dia, as que chegaram nesta leva, foram conduzidas para uma câmara de gás para serem mortas. Durante a noite os seus corpos foram queimados.
       O livro apresenta os dados biográficos de Santa Teresa Benedita da Cruz, mas também os frutos da sua investigação acerca da educação e da pedagogia, sendo que ela própria procurar colocar em prática o que ensinava.
       É uma leitura que permite conhecer melhor a co-padroeira da Europa (ao lado de Santa Brígida da Suécia e Santa Catarina de Sena), com muitos textos da própria Edith Stein. O livro é um extraordinário testemunho de vida, na procura permanente pela verdade, pelo bem, por um sentido para a vida.

sábado, 8 de agosto de 2015

XIX Domingo do Tempo Comum - ano B - 9 de agosto

       1 – O murmúrio pode ser corrosivo. Por vezes parece inevitável. Porque nos magoaram! Porque sentimos inveja e não o assumimos! Porque não merecemos o que nos fazem ou o que dizem de nós! Seja como for, o murmúrio não acrescenta nada à nossa vida, nada produz de bom.
       E quando nos voltamos para Deus? Certamente que o fazemos porque O consideramos amigo. E os amigos "têm a obrigação" de nos compreender, de nos escutar e de agir a nosso favor. Quantas vezes a vida atraiçoa a nossa confiança e a nossa fé em Deus?!
       Na condução do Povo Eleito, Moisés é intermediário do murmúrio e dos lamentos do Povo que privilegia o pão, o conforto, a segurança, à liberdade e confiança em Deus. Deus escuta e dá-lhes o Pão do Céu, provisório, pois o verdadeiro Pão descido do Céu é Jesus, do Qual nos alimentamos na Eucaristia até à vida eterna.
       Os hebreus (judeus) murmuraram na míngua de pão; os judeus, ao tempo de Jesus, murmuram por Ele ter dito: «Eu sou o pão que desceu do Céu», argumentando com o facto de conhecerem as origens (terrenas) de Jesus: «Não é Ele Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua mãe? Como é que Ele diz agora: ‘Eu desci do Céu’?».
       2 – Vale a pena escutar por inteiro a resposta de Jesus:
«Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, não o trouxer; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino vem a Mim. Não porque alguém tenha visto o Pai; só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. Quem acredita tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram. Mas este pão é o que desce do Céu, para que não morra quem dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo».
       Está aqui tudo o que diferencia Jesus de todos os Messias e nos diferencia de todos os crentes. É o Corpo de Cristo que comungamos, é o Seu sangue que bebemos. É no Corpo de Cristo, que é a Igreja, que nos encorpamos e nos incorporamos para formarmos um só Corpo.
       As palavras de Jesus vão provocar uma razia entre os discípulos. É compreensível a dúvida e o questionamento dos judeus: como é que Ele pode dar-nos a Sua carne a comer? Alguns discípulos vão seguir por outros caminhos, pois apesar de uma maior proximidade temporal, não estão preparados para o que estão a ouvir. Nos primeiros séculos da Igreja, uma das acusações feitas aos cristãos é de canibalismo. A linguagem usada leva os que estão de fora a perceber mal.
       Obviamente que a Eucaristia não faz de nós carnívoros ou canibalistas, faz-nos irmãos porque nos transforma em Cristo, pois quando comungamos não absorvemos Cristo, como diria Santo Agostinho, mas deixamo-nos absorver por Ele. Vale também para aqueles que não podendo abeirar-se da comunhão sacramental, comungam Cristo na Palavra de Deus, assumindo os mesmos sentimentos e propósitos, para se unirem a Ele e ao Seu Corpo, que é a Igreja, que somos nós.
       3 – Voltamos a encontrar-nos com um Profeta, um dos mais ilustres para o povo da primeira Aliança, o profeta Elias. Jesus comparará João Batista a Elias, o novo Elias. Por sua vez, os discípulos dirão que alguns consideram Jesus como João Batista, ou Elias, ou um dos profetas (cf. Mc 8, 27-33).
       Como o povo, antes de entrar na terra prometida, também Elias entra no deserto, antes da importante missão a que Deus o chama. Também Jesus Cristo, antes da vida pública, passará a prova do deserto.
       O deserto é um lugar inóspito. De dia o calor tórrido e à noite o frio glaciar. Não há seguranças. Se vem uma ventania não há como abrigar-se. Se não há mantimentos suficientes, a morte é a próxima etapa. Chegará o tempo que só Deus nos valerá.
       Como não evocar as palavras do papa Bento XVI no dia em que iniciava solenemente o Seu pontificado, em 24 de abril de 2005: «E existem tantas formas de deserto. Há o deserto da pobreza, o deserto da fome e da sede, o deserto do abandono, da solidão, do amor destruído. Há o deserto da obscuridão de Deus, do esvaziamento das almas que perderam a consciência da dignidade e do caminho do homem. Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores tornaram-se tão amplos. Por isso, os tesouros da terra já não estão ao serviço da edificação do jardim de Deus, no qual todos podem viver, mas tornaram-se escravos dos poderes da exploração e da destruição».
       Um dia inteiro no deserto e Elias cai em desânimo: «Já basta, Senhor. Tirai-me a vida, porque não sou melhor que meus pais». Elias está em desistência, deita-se por terra e adormece. Deus chama-o através do seu santo Anjo: «Levanta-te e come». Elias comeu e bebeu e tornou a deitar-se.
       A vida por vezes é tão dura que só nos apetece desistir.
       O Anjo do Senhor insiste: «Levanta-te e come, porque ainda tens um longo caminho a percorrer». Elias levanta-se, come e bebe. Revigorado, Elias prossegue o seu caminho, "durante quarenta dias e quarenta noites até ao monte de Deus, Horeb".
       Que mais poderemos dizer? Que o verdadeiro alimento nos é dado por Deus, que nos alenta nos desertos a percorrer ao longo da vida, até chegarmos ao Seu monte santo, até que os nossos dias se completam sobre a terra.

       4 – Novamente o salmo que, ajudando-nos a rezar, nos desafia a confiar em Deus: "Procurei o Senhor e Ele atendeu-me, libertou-me de toda a ansiedade. Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes, o vosso rosto não se cobrirá de vergonha. / Este pobre clamou e o Senhor o ouviu, salvou-o de todas as angústias. Saboreai e vede como o Senhor é bom: feliz o homem que n’Ele se refugia".

       5 – E para não fugirmos ao figurino dos últimos domingos, aí está imensa e intensa página da Carta aos Efésios: "Não contristeis o Espírito Santo de Deus... Seja eliminado do meio de vós tudo o que é azedume, irritação, cólera, insulto, maledicência e toda a espécie de maldade. Sede bondosos e compassivos uns para com os outros e perdoai-vos mutuamente, como Deus também vos perdoou em Cristo. Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados. Caminhai na caridade, a exemplo de Cristo, que nos amou e Se entregou por nós, oferecendo-Se como vítima agradável a Deus".

       6 – Hoje a Igreja evoca a memória de Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) que, “como cristã e judia, aceitou a morte com o seu povo e para o seu povo, que era visto como lixo da nação alemã” (Bento XVI, em Auschwitz, 2006).
       Teresa Benedita da Cruz foi morta em Auschwitz-Birkenau, campo de extermínio nazi, em 9 de agosto de 1942, poucos meses depois de ser aprisionada. Tinha 51 anos de idade. As suas origens judaicas não a impediram de procurar mais além da sua religião e, inspirando-se em Santa Teresa de Ávila, tornou-se cristã, consagrando-se como irmã carmelita. Dedicou a sua vida aos judeus e aos alemães. Fez de Cristo o Seu único alimento até entrar na glória eterna.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia: 1 Reis 19, 4-8; Sl 33 (34); Ef 4, 30 – 5, 2; Jo 6, 41-51.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Abençoa, Senhor, o espírito quebrado!

Abençoa o espírito quebrado
de quem sofre a pesada solidão dos homens;
o ser que não conhece repouso,
o sofrimento que nunca confiamos
a ninguém.

Abençoa o cortejo
destes noctívagos
que não amedronta o espectro
dos caminhos desconhecidos.

Abençoa a miséria dos homens
que morrem nesta hora.
Dá-lhes, meu Deus,
um bom fim.

Abençoa, Senhor, os corações,
os corações amargos,
antes de tudo.
Dá aos doentes
o alívio,
ensina o esquecimento
àqueles que privaste
do seu bem mais querido.
Não deixes ninguém na terra inteira
na angústia.

Abençoa os que estão na alegria,
protege-os, Senhor.
A mim, até hoje,
nunca livraste da tristeza,
por vezes, ela pesa muito.
Entretanto, dá-me a tua força
e assim posso aguentá-la.
EDITH STEIN, in O Povo de Rio Tinto, n.º 284, Abril 2011