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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Domingo I da Quaresma - ano A - 26 de fevereiro de 2023


1 – Sabe-nos bem melhor aquilo que nos sai da pele! Esta afirmação vale, sobretudo, depois do esforço e do empenho que colocámos numa tarefa e quando alcançámos o que pretendíamos. A priori, e diante das dificuldades que divisamos, preferiríamos situações mais fáceis, que tudo se resolvesse sem dor, que tudo surgisse como que por magia, sem sujarmos as mãos.

Aos outros, quando entreveem dificuldades no caminho que têm pela frente, e face à nossa experiência, logo dizemos que sem esforço, sem trabalho, não há recompensa e que esta será tanto mais compensadora quanto mais exigiu compromisso, dedicação e trabalho.

Há uma impressão muito popular e arreigada, de que aquilo que se recebe de mão-beijada quase sempre é desbaratado, pouco valorizado e, muitas vezes, não é suficientemente agradecido. Ou, como quem diz, gastamos a rodos quando não somos nós ganhá-lo e quando não sabemos o quanto nos custou. Conseguimos ouvir os pais a reclamar com os filhos pela facilidade em gastarem o que não tiveram esforço em conseguir.

Algo de semelhante sucede no plano da fé. Tudo seria mais fácil se a fé fosse demonstrável nas suas verdades e intuições fundamentais. A fé servida à medida de cada um, com provas irrefutáveis, sem possibilidades de engano, desvio ou dúvida. Nem sempre a fé é fácil. Em momentos de treva, nas tempestades da vida, no sofrimento inocente, nas catástrofes naturais, nas doenças incuráveis, nas mortes repentinas e em tenra idade, questiona-se a bondade de Deus.

 

2 – No primeiro Domingo da Quaresma, o Evangelho traz-nos as tentações de Jesus, este ano na versão mateana. As tentações e fragilidades expressam a humanidade de Jesus, sujeito às limitações e condicionantes humanas. Por outro lado, as tentações de Jesus fazem-nos visualizar as tentações que nos apoquentam e com as quais, nem sempre, conseguimos lidar. São Lucas e são Mateus condensam as tentações a três; são Marcos refere-as sem número. São colocadas no início da vida pública, no retiro que Jesus faz, no deserto, durante quarenta dias. Porém, as tentações estão presentes ao longo de toda a vida, como se pode ver no momento da oração de Jesus no Jardim das Oliveiras e no alto da Cruz. A tentação da desistência ou do questionamento de Deus.

Jesus, diz-nos o evangelho, foi conduzido pelo Espírito ao deserto. É o primeiro aspeto a ter em conta. Pode parecer que o centro sejam as tentações, mas o relevante é a presença constante do Espírito na vida de Jesus. O Espírito de Deus que é visível no Batismo em forma de pomba e audível também a voz do Pai.

O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães»... Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’»... De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».

Jesus responde, decidido: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’... Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’... Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’. Então o Diabo deixou-O e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O».

O caminho de Jesus é do amor, da compaixão, do serviço aos irmãos. Não usa a sua divindade em proveito próprio, para se exibir e impor, para dominar os outros. Ele que Se revela como caminho, verdade e vida, percorre um caminho de entrega, que comporta riscos e que implica sacrifício.

 

3 – A primeira leitura traz-nos a narração da queda dos nossos primeiros pais. Não é, todavia, uma história pessoal, circunscrita a um tempo e exclusiva de duas pessoas. É a nossa história. Pertencemo-nos, somos do mesmo pó e em nós está presente o mesmo espírito com que Deus nos chamou à vida. Fácil é vermos o mal que os outros nos fazem ou ao mundo. Difícil é percebermos que estamos no mesmo barco e também nós somos agentes na construção de um mundo humano e solidário, ou carrascos da história pela nossa inação, indiferença, pelas nossas escolhas egoístas.

As tentações afetam-nos a todos. A uns mais que outros. Umas mais do que outras.

Deus criou o ser humano e predispôs de todas as condições para que fosse feliz, para que não lhe faltasse nada de essencial. «Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal». Tudo foi criado para usufruto e cuidado do ser humano. De tudo quanto Deus criou, só um alerta, uma proibição: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’».

O fruto proibido é o mais apetecido! O provérbio virá daqui. Com efeito, um imenso jardim, com muitas árvores, com muitas frutas, acessível para todos! A tentação é revestida de provocação, de desafio e de promessa. Nada pode estar interdito! Até mesmo a condição divina! O simbolismo daquela única árvore, garante que todos estão sob a soberania de Deus. Quando alguém toca nesse fruto, isto é, quando assume o lugar de Deus, a consequência é colocar os outros como servos, súbditos, objetáveis na medida em que se submetem aos caprichos do "chefe"...

 

4 – Adão e Eva seguiram os impulsos mais básicos, recusando qualquer intromissão na sua liberdade, ainda que fossem criados livres. A liberdade, contudo, é também uma responsabilidade. Não estamos sozinhos no Paraíso. O nosso Bispo, D. António, diz-nos que o pecado não está em comer do fruto daquela árvore, mas em recolhê-lo para que ninguém mais possa ter acesso e usufruir do que Deus criou para todos. Tudo podemos, dirá são Paulo, mas nem tudo nos convém!

O que Deus coloca como interdito? Aquilo que nos afasta dos outros, endeusando-os ou instrumentalizando-os! Na verdade, Deus criou-nos livres e deu-nos o encargo de cuidar da criação inteira. Cuidar não é usurpar ou destruir, não é arrebanhar para si, mas criar as condições para que todos tenham acesso.

Os primeiros pais centram-se em si mesmos e nas suas necessidades. Jesus, no Evangelho, mostra como vencer as tentações, colocando Deus no centro, agindo, não em benefício próprio, mas em favor dos outros. Ele gasta-Se, entrega-Se, vive, e morre, para que tenhamos vida e vida em abundância.

Na segunda Leitura, são Paulo relaciona e coloca em confronto a escolha de Adão, e de todos os que se querem tornar deuses pela força, pela imposição, pela idolatria, e de Jesus, e de todos os que se assemelham a Deus, dando-se e promovendo a vida, construindo a fraternidade.

«Se pelo pecado de um só todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens. E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação... De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos».

 

5 – Por mais controlo que queiramos ter sobre a vida, o tempo, os outros, cedo ou tarde nos daremos conta que não é possível um controlo absoluto e permanente. Ao nosso alcance as escolhas que fazemos, certos de que não possuímos os dados todos a cada momento e que nem tudo é linear. A vida é muito mais, imensamente mais do que aquilo que conseguimos visualizar, imaginar ou controlar. Por vezes, como dirá são Paulo, fazemos o que não queremos e não fazemos o que queremos. A vida é um mundo complexo e misterioso.

Pelo caminho, experimentamos a dúvida e a hesitação, os contratempos e os desencontros. Mas não estamos sós, não caminhamos sozinhos. Contamos com os outros, com as indicações no caminho, com os mandamentos, normas e preceitos! Contamos com Deus, que segue connosco, se deixarmos e Lhe abrirmos o nosso coração e a nossa vida. Ele vem em nosso auxílio se a Ele recorrermos.

O salmista ajuda-nos, na nossa súplica, a reconhecer a nossa indigência e a dispor-nos a acolher a santidade de Deus: «Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade, pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados. / Pequei contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos. / Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Não queirais repelir-me da vossa presença e não retireis de mim o vosso espírito de santidade. / Dai-me de novo a alegria da vossa salvação e sustentai-me com espírito generoso. Abri, Senhor, os meus lábios e a minha boca cantará o vosso louvor».

A oração de coleta, no início da Eucaristia, pode bem ser uma oração para toda a Quaresma: «Concedei-nos, Deus todo-poderoso, que, pelas práticas anuais do sacramento quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e demos testemunho dele com uma vida digna».

O acolhimento do mistério de Deus, compromete-nos com os outros, na fidelidade a Jesus, procurando viver ao Seu jeito, amando e cuidando de todos, especialmente dos mais frágeis. A transformação do mundo, a paz e a justiça também dependem de nós, da nossa oração e da nossa conversão, e da tradução real e concreta, tanto quanto nos seja possível, do que somos, cristãos, no que fazemos, a prática do bem, sem tréguas.

 

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Gn 2, 7-9 – 3, 1-7; Sl 50 (51); Rm 5, 12-19; Mt 4, 1-11

sábado, 4 de março de 2017

Domingo I da Quaresma - ano A - 1 de março de 2017

       1 – Desde sempre, Jesus está cheio do Espírito de Deus. Como Maria, Sua Mãe santíssima, a Cheia de Graça, concebida sem pecado, Imaculada Conceição, em Seu seio virginal concebeu, pelo Espírito Santo, o Filho Jesus. Assim o Filho do Altíssimo, cheio de Graça e de Bênção. Para onde quer que vá. De onde quer que venha. Onde quer que esteja. É o Espírito que O ilumina, O guia, O preenche e O sustenta.
       É conduzido ao deserto pelo Espírito de Deus. Não vai sozinho. Leva Deus no coração. A Sua vida está agrafada à de Deus Pai. O propósito do deserto não é a tentação. Não é o demónio que O impele para o exterior. É o próprio Deus. O deserto é deserto, não tem adornos, ruído, não tem que ver, que comer, que cheirar. É areia, horizonte sem fim, é demasiado frio à noite, calor exagerado durante o dia. Chegada a idade da missão, João Batista vai da cidade para o deserto. Chegada a idade da missão, Jesus retira-Se para o deserto, para que a força da oração O acompanhe e a certeza da presença de Deus Lhe dê alento nos momentos difíceis que advirão. Logo reentrará na Terra prometida. João leva-nos ao deserto, aponta para Jesus. Jesus faz-nos caminhar para a Terra Prometida. Ele é a nossa Terra Prometida.
       No deserto Jesus mostra-nos o valor da oração e a necessidade do crente viver próximo, íntimo, em situação dialogante com Deus. Só dessa forma as tentações serão vencidas, não tanto pelos nossos méritos mas pela Graça santificante do Senhor.
       O jejum e a penitência, quarenta dias e quarenta noites, o tempo necessário e preciso para Se preparar para o que lá vem, não valem por si mesmo, valem por sublinharem que Deus é a prioridade essencial, só Ele verdadeiramente conta e nem o alimento, nem o frio, nem o calor, nem a indigência O poderão separar do Amor do Pai. A primeira fome não é de pão. A primeira fome há de ser de Deus, dos afetos e das pessoas, da companhia e do olhar que nos vê, nos descobre e nos reconhece como pessoas. E o primeiro olhar que nos salva é o olhar de Deus. Jesus sabe de antemão quanto vai precisar da presença e do olhar de Deus ao longo da vida pública que vai iniciar. Com o Batismo recebe a confirmação do Céu, do Seu e nosso Pai, que é bem-amado e que nunca será abandonado. Assim, na certeza do Espírito Santo que O preenche, vai ao deserto preparando-Se para mudar o mundo e vida da humanidade.

       2 – A fome de Jesus, num primeiro momento, é uma opção. Se andamos empanturrados da vida, precisamos da calmaria do deserto, do refúgio, da meditação, esvaziando-nos do que nos empanturra para nos enchermos e preenchermos da alegria, da esperança e do amor que Deus nos dá. A fome de Jesus liberta-nos da prepotência, da arrogância e da soberba, do egoísmo, da inveja e da avareza. Há quem não tenha fome e viva miseravelmente. Há pessoas tão pobres, tão pobres, que só têm dinheiro. O jejum relembra-nos as prioridades da nossa vida: Deus. E, se Deus é prioridade, as pessoas estarão em primeiro lugar, as pessoas com as suas ânsias e sofrimentos, já que Deus sempre nos remete para o nosso semelhante.
       No deserto Jesus continua a fazer-Se pobre, despojado, para nos enriquecer com a Sua pobreza, com o Seu amor e docilidade. Ele, sem mais, sem máscaras, sem falsas imagens ou esperanças, de mãos vazias e abertas, com o coração em Deus. Ele, com a Sua fragilidade muito humana e com o Seu amor muito divino. Solidariza-Se com os pobres, tornando-os visíveis. Aqueles que, por vergonha e por medo se escondem, Jesus trá-los para a luz do dia, pobres, pecadores, aleijados, surdos, mudos, doentes, leprosos, publicanos, mulheres, crianças, excluídos social, politica e religiosamente, não podem ser esquecidos e relegados para o esquecimento. A partir do deserto, Jesus denuncia todos os que se fecham e se esquecem das pessoas mais frágeis. Os ricos, na sua penúria humana, espiritual, fecham os olhos, tapam os ouvidos, bloqueiam o coração ao grito dos indigentes. Os "ricos" são todos aqueles que vivem apenas para si mesmos, insolidários; enriquecem à custa dos outros e os outros servem apenas para servir os seus interesses. "Pobres" são aqueles que põem a sua confiança no Senhor e se abrem à Sua misericórdia, cuidando de trabalhar honestamente para transformar positivamente o mundo, procurando "adicionar", sem "subtrair" os outros. Reconhecem-se responsáveis pelos outros, sobretudo pelos mais frágeis, lutando contra toda a espécie de injustiças.
       Esta é a pobreza comprometida que Jesus nos ensina, vivendo-a. Em Jesus reencontrar-nos-emos com rios de água viva, renovando as fontes que nos irmanam. Nas palavras de Bento XVI (24 de abril de 2015, quando assumia o pontificado), multiplicam-se os desertos exteriores (fome, guerra, violência…) e os desertos interiores (solidão, vazio, desencanto, do amor destruído…), aos quais é necessário responder com Deus, com a vida nova que se enxerta em Jesus Cristo, na Sua oferenda de Amor.

       3 – Pobres que confiam na doçura do Senhor. Por conseguinte rezamos pedindo: "compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade, pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados. Lavai-me de toda a iniquidade e purificai-me de todas as faltas. Porque eu reconheço os meus pecados... Pequei contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos. Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme" (salmo).
       Na família de Nazaré, Jesus aprendeu a confiar em Deus, a confiar a Deus toda a Sua vida, nas dificuldades e nas possibilidades. Com Maria e com José e com a comunidade nazarena, reza salmos como este que hoje nos é proposto. No deserto é essa confiança e intimidade que O capacitam para vencer as tentações do poder, da facilidade, do espetáculo, do milagre em benefício próprio pois "nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus".
       É o Filho de Deus, mas também é Filho do Homem, portanto é como Homem que caminhará connosco, trabalhando pelo pão de cada dia, não usando Deus para os seus interesses, como tantas vezes temos visto ao longo da história. Quantas vezes com Deus se justifica a violência, a injustiça, os fratricídios e a imposição de ideologias? Como verdadeiro Deus, Jesus abrir-nos-á, com a Sua morte e sobretudo com a Sua ressurreição, o Coração de Deus Pai, escancarando-nos as portas da eternidade.
       Por um só homem, diz-nos São Paulo, o pecado entrou no mundo. O pecado do egoísmo, da inveja, do ódio, da violência, o pecado da prepotência, do desejo em subjugar os outros e o próprio Deus aos seus interesses. Só Deus é Deus. E quando Deus é Deus, não há mais lugar para que uns sejam escravos e outros sejam filhos, uns vivam injustiçados e outros à custa das injustiças praticadas. Por um só Homem, Jesus, vem a salvação, a certeza que cada um de nós vale muito. Para Deus cada um de nós vale tudo e, por isso, nos dá o Seu Filho. Por isso, o Seu Filho Se entrega por cada um de nós, pela humanidade inteira, para que tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Pela escuta e pela obediência à vontade paterna, Jesus encaminha-nos para o Pai, vencendo as tentações de tudo controlar e decidir!

       4 – No livro do Génesis, que hoje nos é servido como 1.ª leitura, a criação. Deus cria o Homem como Sua obra-prima, coloca-o no Jardim, onde não lhe falta nada: árvores, flores, aves, peixes, animais. Pode viver harmoniosamente com toda a criação, em segurança, sob o olhar bendito de Deus, revendo-se no olhar humano do/a companheiro/a. Homem e mulher, Deus os criou, criou-os à Sua imagem e semelhança, para se auxiliarem mutuamente, sentindo-se o mundo um do outro.
       Tudo corria bem. Deus criou-nos livres, seres dotados de inteligência e de vontade. Deus não força, não obriga, não Se impõe. Cabe-nos prosseguir a criação. Como víamos no Evangelho, quanto maior a proximidade a Deus maior a possibilidade de vencer e ultrapassar as tentações. No momento, por menor que seja, em que nos esquecemos de Deus, dando ouvidos aos nossos impulsos, querendo tudo e rapidamente e ao nosso jeito, sem ouvir, sem dialogar, pensando apenas em nós mesmos, mais perto estamos de nos deixarmos levar pela tentação do egoísmo, do controlo, do poder.
       O pecado, seguindo a visão do nosso Bispo, D. António Couto, não está no comer do fruto da árvore, frutos que Deus nos dá gratuitamente, mas no facto de querermos açambarcar o fruto apenas para nós, impedindo que outros acedam à árvore, onde há frutos para todos. Mutatis mutantis, há riqueza e bens suficientes para que as pessoas do mundo inteiro vivam com dignidade, contudo a riqueza está concentrada nas mãos de mundos, enquanto muitos lázaros, sintonizando com a Mensagem do Papa Francisco para esta Quaresma, estão à margem, fora dos portões, soçobrando por terra, sem acesso aos bens da criação. Ou como lembrava o papa Bento XVI, no início do Seu pontificado, “os tesouros da terra já não estão ao serviço da edificação do jardim de Deus, no qual todos podem viver, mas tornaram-se escravos dos poderes da exploração e da destruição”.
       Por vezes somos tentados a desistir, a percorrer o caminho mais fácil, o que nos facilita a vida, ainda que prejudiquemos os outros. Por vezes quereríamos que o mundo inteiro se ajoelhasse aos nossos pés e seguisse as nossas ideias. Quereríamos ter magia para resolver todos os problemas com que nos deparamos ao longo da vida. Quereríamos ter o controlo sobre todas as variáveis da nossa vida! Quereríamos ser Deus! Então Deus faz-Se homem, um de nós, para caminhar connosco e nos mostrar a dignidade, a grandeza e a beleza de sermos humanos, capazes de refazer o caminho, recomeçar, com esforço, com dedicação, com paixão. Jesus responde com persistência, percorrendo o caminho do serviço e do amor, mesmo que isso Lhe venha a custar a vida. E nós, que caminhos queremos seguir?


Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Gen 2, 7-9 – 3, 1-7; Sl 50 (51); Rom 5, 12-19; Mt 4, 1-11.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Domingo I da Quaresma - ano C - 14 de fevereiro

       1 – A Quarta-feira de Cinzas dá início à Quaresma com o gesto significativo da imposição das cinzas sobre as nossas cabeças, recordando-nos algo de essencial para continuarmos a ser humanos: a nossa ligação aos outros e a Deus. A fragilidade não é um atributo de menoridade, mas a oportunidade de nos abrirmos aos outros e ao Transcendente. A cinza e a areia, a pequenez e o deserto. Tomar consciência dos nossos limites, dispondo-nos a acolher Deus para acolhermos os nossos semelhantes, especialmente os mais frágeis.
       Nesta semana acentuou-se a discussão à volta da eutanásia, ou melhor, da morte assistida. Depois da facilitação do aborto, sem qualquer controlo nem reflexão, é mais um passo em ordem à raça ariana defendida por Hitler e pelo nazismo: eliminação de todos os seres humanos diminuídos – os não-nascidos, idosos, pessoas portadoras de deficiência, doentes... e, depois, de todos os que nos incomodam, sejam judeus ou turcos ou os nossos vizinhos. Corre já a discussão defendendo o "aborto" dos nascituros. Um casal de cientistas veio defender que um bebé quando nasce é igual a um feto de 12 ou de 24 semanas, ainda não decide por si mesmo, logo não é portador de direitos, logo os pais podem decidir se vive ou se morre, independentemente dos motivos. Mais algum tempo e decidir-se-á sobre qualquer pessoa que não tenha pleno uso da razão!
       Salvaguarde-se o respeito e o acolhimento de todos os que viveram situações traumáticas e, que muitas vezes, não encontraram quem ajudasse positivamente. Por conseguinte, no Jubileu da Misericórdia o Papa Francisco concedeu a todos os sacerdotes a faculdade de absolver as pessoas envolvidas no aborto, para que todos beneficiem da Misericórdia de Deus.
       O gesto, muito expressivo, das cinzas, mas de toda a vivência quaresmal, aviva-nos a consciência sobre a nossa indigência e finitude. Somos vasos de barro nos quais Deus coloca a abundância do Seu amor e da Sua misericórdia. Cabe-nos cuidar uns dos outros, reconhecendo-nos promotores da vida e não causadores de morte, de abandono, de indiferença.
       2 – Jesus, guiado pelo Espírito Santo, vai para o deserto e leva-nos com Ele, para fazermos a experiência do despojamento, da humildade, capacitando-nos para as situações mais adversas.
       A opção de Jesus é inequívoca. Deixa-Se conduzir pelo Espírito, para que n'Ele sobrevenha a vontade do Pai, mesmo quando as tentações se querem sobrepor à Sua missão. Quarenta dias alimentando-Se de outro pão, de uma ligação mais forte que a fome ou que a morte.
       O deserto remete-nos para o essencial, pondo em evidência as nossas fraquezas, libertando-nos do que é acessório. Com o avançar dos dias começam as dúvidas e as incertezas, os suores frios e as alucinações! É possível perder-se não havendo ninguém por perto a quem recorrer. Quando estamos mais frágeis, tudo nos passa pela cabeça!
       Vem o Diabo com um caminho alternativo, caminho do poder e da força, caminho da facilidade e da indiferença, sem tocar o humano, o frágil, a indigência, caminho do milagre e do espetáculo impondo-nos a Sua divindade, caminho de egoísmo, utilizando o poder em benefício próprio, excluindo todo o trabalho e sacrifício, todo o esforço:
A) «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão»; B) «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu»; C) «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’».
       As respostas de Jesus são concludentes: 
A) «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’»; B) «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’»; C) «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
       Seguindo o Caminho de Jesus, decalcando a Sua postura e a Sua intimidade com o Pai, ser-nos-á possível vencer as tentações.
       3 – Tantas situações da vida em que gostaríamos de ter o poder de mudar as coisas, de vencer os adversários, de que nos caísse do céu uma vida facilitada sem procura nem esforço! Como gostaríamos de ter os outros aos nossos pés como se fôssemos as pessoas mais importantes do mundo. A vida de mão beijada! Sim, mas isso não seria a nossa vida! A vida é-nos dada por Deus, em abundância, mas para viver, para nos esforçarmos, para convivermos com as adversidades, mas dando luta, sem desistir.
       Deus é Pai de misericórdia e está connosco, nos nossos desertos, como esteve com Jesus naquele deserto. Mais à frente a tentação virá de enxurrada, no Horto das Oliveiras, um deserto (interior) mais intenso: Jesus queria que tudo passasse rapidamente e de forma indolor. Mas foi só um momento, a tentação. Não é o deserto que nos mata. O que nos mata é não termos Alguém a quem recorrer. O que nos mata é o sem-sentido da vida, o não ter nada por que morrer ou por que viver!
       A vida de Jesus será uma oferenda permanente. Oferecer-Se-á por nós, esgotando-Se. Não usará o poder em benefício próprio. Não Se salvará a Si mesmo. A tentação da cruz – salva-te a ti e a nós também – será superada pela entrega – Pai, perdoa-lhes. Fácil seria transformar as pedras em pão. Mas não seria humano. Humano é trabalhar com honestidade pelo pão de cada dia. Quando necessário Jesus há de transformar a água em vinho de qualidade que sacia a nossa sede e nos permite continuar a festa da vida; multiplicará os pães e converter-nos-á em pessoas solidárias, para que não falte o alimente a ninguém. "Tive fome e deste-me de comer". A fé traduz-se nas obras de misericórdia.
       Em muitas situações seria mais fácil ter poder e ter riqueza e mandar nos outros e ter muitas pessoas a servir-nos. O caminho de Jesus é o serviço, o centro são os pobres, a opção primeira é pelos últimos. O filho do Homem veio para servir e dar a vida por nós!
       D. António Couto, na mensagem para esta Quaresma, desafia-nos: "Façamos, amados irmãos e irmãs, do tempo da Quaresma um tempo de diferença, e não de indiferença. Dilatemos as cordas do nosso coração até às periferias do mundo, e que o nosso olhar seja de Misericórdia para os nossos irmãos de perto e de longe". O mundo não gira à nossa volta, mas dos irmãos mais pequeninos.

       4 – Nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (Lc 4, 4; Mt 4, 4). Duas partes da mesma equação. Se nos centrarmos apenas no pão corremos o risco de nos esquecermos de tudo o que nos rodeia. Se nos fixarmos na Palavra de Deus, o "risco" do compromisso e da partilha solidária. A Palavra de Deus alimenta-nos e envia-nos aos outros, ao cuidado de todos, mas sobretudo dos mais pobres. O que fizeste ao mais pequeno dos meus irmãos a Mim o fizeste (Mt 25, 40).
       Deus ouve a voz dos oprimidos, do pobre, da viúva e do órfão. Vem em auxílio dos seus eleitos, vem socorrer e salvar o seu povo. "O Senhor Deus dos nossos pais ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava".
       Ontem como hoje, somos peregrinos, caminheiros. "Meu pai era um arameu errante". Desde Abraão que moramos como que em terra estrangeira, preparando-nos para a pátria definitiva, quando Deus enxugar todas as nossas lágrimas, quando todos formos irmãos em Cristo.
       Moisés prioriza os bens da terra. Serão oferenda para Deus que nos libertou. Se Ele nos libertou também há de prover à abundância do alimento. Partindo de Deus, chegaremos aos irmãos.
       Por sua vez, o apóstolo São Paulo veicula a precedência da fé e da Palavra de Deus, acessível a todos, acentuando a gratuidade da salvação: «A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração… Esta é a palavra da fé que nós pregamos. Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo... Não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que O invocam».

       5 – Primeiro o Reino de Deus e o mais virá por acréscimo. Peçamos com fé ao Senhor, para que nos conceda "que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja dele um digno testemunho" (Coleta).
       Jesus confia no Pai, pelo que não precisa de O pôr à prova. Com efeito, Jesus é que é provado na Sua confiança. No meio do deserto Ele pode rezar connosco o Salmo: “Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra… Porque em Mim confiou, hei de salvá-lo, hei de atendê-lo, estarei com ele na tribulação, / hei de libertá-lo e dar-lhe glória”.
       Súplica e não usurpação. O Diabo quer obrigar Deus. O Salmo abandona-nos confiantes nas mãos de Deus que virá em nosso auxílio, gratuitamente, não porque sou eu, ou sou o melhor do mundo, mas porque sou Filho e porque Ele é Pai de misericórdia. Para todos.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Deut 26, 4-10; Sl 90 (91); Rom 10, 8-13; Lc 4, 1-13.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Domingo I da Quaresma - ano B - 22 . fevereiro . 2015

       1 – "O Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O. Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
       O primeiro Domingo da Quaresma traz-nos o episódio das Tentações de Jesus. As versões lucana (Lc 4, 1-13, ano C) e mateana (Mt 4, 1-11, ano A) desdobram-se em três tentações distintas: usar o milagre para se impor; utilizar o poder em benefício próprio; dobrar-se diante do poder para dominar o mundo. Facilidade, egoísmo, fama. As tentações a que Jesus está sujeito são as mesmas tentações do povo de Deus ao longo do deserto. O povo cedeu. Jesus ajuda a superar as tentações em entrega confiante a Deus.
       São Marcos, o evangelista da primeira hora, mais simples, mais direto, narra apenas as tentações sem especificar quais. Diz-nos, no entanto, o essencial acerca das mesmas, o contexto e o significado. Jesus, verdadeiro homem, é tentado como qualquer um de nós. As nossas tentações são visualizáveis em Jesus, porque em tudo Se identificou connosco. Os desertos da nossa existência podem tornar-se tempo de dúvida, de provação, de amadurecimento, de purificação dos nossos propósitos e compromissos. Quarenta anos: a Quaresma do povo da Primeira Aliança para entrar na Terra da Promessa. Jesus é a Promessa que se cumpre para nós. Quarenta dias em que Se prepara para Se dar totalmente a nós, sem reservas, sem medos e sem hesitação.
       O alimento de Jesus é a realização da vontade do Pai. Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade. Não quisestes sacrifícios, mas fizeste-me um corpo (cf. Heb 10, 1-10). A tentação acompanhá-l'O-á ao longo da vida, como a nós. Mas há em Jesus uma força maior: a presença de Deus. Com efeito, é o Espírito Santo que O conduz ao deserto. É o mesmo Espírito que Se manifesta no Batismo. O tentador é forte, mas Deus assiste Jesus com os Seus santos Anjos.
       2 – Deus assiste-nos do mesmo jeito que a Jesus: próximo, Pai, benevolente, respeitando as nossas opções, desafiando-nos a dar o melhor de nós e a acolher os outros como irmãos. É Deus Quem nos guia, assim o queiramos nós. É possível que as tentações nos acerquem. É possível seguir Jesus, fazer como Ele, deixar-se conduzir pelo Espírito de Deus.
       Se o Seu alimento – a vontade do Pai – o livra do mal e das manifestações diabólicas, também a nós nos dará a força e a caridade para, em cada dia, encontrarmos razões que nos atraiam para o bem e para a verdade, pois Ele é o nosso Caminho e a nossa Vida.
       Vale a pena reler algumas palavras do Papa Francisco na sua Mensagem para esta Quaresma, e das quais faz eco D. António Couto, Bispo de Lamego, ao dirigir-se à Diocese, convocando-nos a marcar a diferença num mundo em que a indiferença pelos outros se globaliza.
       Diz o Papa: "Dado que a indiferença para com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos, temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar. A Deus não Lhe é indiferente o mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o homem. Na encarnação, na vida terrena, na morte e ressurreição do Filho de Deus, abre-se definitivamente a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra".
       E continua Francisco, avivando as condições para superarmos as tentações: "Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação diabólica que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos. Para superar a indiferença e as nossas pretensões de omnipotência, gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração, a que nos convidava Bento XVI (Carta Encíclica Deus caritas est, 31)".
       3 – Outro Papa, o primeiro, São Pedro, recorda-nos o mistério de amor, de entrega, de oblação de Jesus em nosso favor: «Cristo morreu uma só vez pelos pecados – o Justo pelos injustos – para vos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito».
       Com efeito, a vinda de Jesus marca um tempo novo, de graça e de salvação, em que a Aliança de Deus com o Seu povo é finalizada, levada à plenitude. Como nos diz São Pedro, já "nos dias de Noé, Deus esperava com paciência, enquanto se construía a arca, na qual poucas pessoas, oito apenas, se salvaram através da água". Agora, na água do Batismo, Deus nos "salva pela ressurreição de Jesus Cristo, que subiu ao Céu e está à direita de Deus, tendo sob o seu domínio os Anjos, as Dominações e as Potestades".
       Deus faz Aliança com o Seu Povo. É uma Aliança unilateral. Deus compromete-Se com a humanidade e não faz depender a Aliança da resposta que possamos dar-Lhe. Vislumbra-se a Sua paternidade. Ama-nos primeiro. Precede-nos. O Seu amor é gratuito, sem condições. Se acolhermos este amor primeiro tornarmo-nos com-criadores, instrumentos da salvação e de esperança para outros.
       Eis a Palavra de Deus dirigida a Noé: «Estabelecerei a minha aliança convosco, com a vossa descendência e com todos os seres vivos que vos acompanham: as aves, os animais domésticos, os animais selvagens que estão convosco, todos quantos saíram da arca e agora vivem na terra. Estabelecerei convosco a minha aliança: de hoje em diante nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio e nunca mais um dilúvio devastará a terra».
       A água não mais servirá para o extermínio, mas, pelo Batismo, conduzir-nos-á ao Corpo de Cristo, que é a Igreja, a última Arca da Aliança, onde Jesus Se dá até à eternidade, na Palavra, proclamada, na vivência dos Sacramentos, especialmente na Eucaristia, e na prática do bem, construindo a família de Deus, solidários com todos os nossos irmãos, feridos pelo pecado, pelo sofrimento e/ou pela fragilidade. Podemos fazer a diferença, se não nos tornarmos insensíveis e indiferentes uns aos outros.

       4 – As tentações estarão sempre à espreita. As tentações acompanham Jesus até à Cruz. Mais forte que o tentador, a presença de Deus e a vontade de em tudo viver e transparecer os desígnios de Deus.
       Por conseguinte, peçamos ao Senhor que o Seu Espírito nos alerte constantemente e, com o salmista rezemos: «Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos, / ensinai-me as vossas veredas. / Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me, / porque Vós sois Deus, meu Salvador».

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): Gen 9, 8-15; Sl 24 (25); 1 Pedro 3, 18-22; Mc 1, 12-15.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Bento XVI - O deserto: lugar do silêncio e da pobreza

       "Anima-me e ilumina-me a certeza de que a Igreja é de Cristo, o Qual não lhe deixará jamais faltar a sua orientação e a sua solicitude. Agradeço a todos pelo amor e pela oração com que me tendes acompanhado. Obrigado! Nestes dias, não fáceis para mim, senti quase fisicamente a força da oração que me proporciona o amor da Igreja, a vossa oração. Continuai a rezar por mim, pela Igreja, pelo futuro Papa. O Senhor vos guiará".
       "Antes de tudo o deserto, onde Jesus se retira, é o lugar do silêncio, da pobreza, onde o homem permanece desprovido das ajudas materiais e se encontra diante dos pedidos fundamentais da existência, é impelido a ir ao essencial e, precisamente por isso, é-lhe mais fácil encontrar Deus. Mas o deserto é inclusive o lugar da morte, pois onde não há água também não há vida, e é o lugar da solidão, onde o homem sente mais intensa a tentação. Jesus vai ao deserto, e ali padece a tentação de deixar o caminho indicado pelo Pai para seguir outras veredas, mais fáceis e mundanas (cf. Lc 4, 1-13)".

Que lugar tem Deus na minha vida?
       "Superar as tentações de submeter Deus a nós mesmos e aos nossos interesses, ou de o pôr num canto, e converter-se à justa ordem de prioridades, reservar a Deus o primeiro lugar, é um caminho que cada cristão deve percorrer sempre de novo. «Converter-se», um convite que ouviremos muitas vezes na Quaresma, significa seguir Jesus de modo que o seu Evangelho seja guia concreta da vida; quer dizer deixar que Deus nos transforme, deixar de pensar que nós somos os únicos construtores da nossa existência; significa reconhecer que somos criaturas, que dependemos de Deus, do seu amor, e que só «perdendo» a nossa vida nele podemos ganhá-la. Isto exige que façamos as nossas escolhas à luz da Palavra de Deus. Hoje não podemos continuar a ser cristãos como uma simples consequência do facto de vivermos numa sociedade que tem raízes cristãs: até quem nasce de uma família cristã e é educado religiosamente deve, todos os dias, renovar a escolha de ser cristão, ou seja, reservar a Deus o primeiro lugar, diante das tentações que uma cultura secularizada lhe propõe continuamente, diante do juízo crítico de muitos contemporâneos".

Audiência Geral de Bento XVI, 13 de fevereiro de 2013: AQUI

sábado, 12 de março de 2011

Domingo I da Quaresma - 13 de Março

       1 – Iniciámos a Quaresma na Quarta-feira de Cinzas, com a imposição das Cinzas, em sinal de arrependimento, de conversão a Jesus Cristo e de mudança de vida, para que o nosso coração dividido na dúvida, na incerteza, nos amores e desamores, se torne um coração indiviso em Deus, para que em Deus nos descubramos e nos encontremos todos como irmãos.
        "És pó da terra e à terra hás-de voltar".
       Nesta expressão bíblica, a lembrança da nossa origem comum, que para nós cristãos é Deus, e do mesmo fim, a vida eterna, de retorno a Deus. No entretanto da nossa vida, devemos buscar caminhos de encontro para mais facilmente e com maior alegria e certeza chegarmos juntos do Senhor.
       Neste primeiro Domingo de Quaresma, a liturgia da Palavra recorda-nos a nossa condição frágil e, ao mesmo tempo, as dificuldades que podem atravessar-se no nosso peregrinar e, ainda, a ajuda que nos é dada por Deus através da Sua palavra inspirada.
       "Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome". Jesus faz a mesma experiência de fragilidade e de limitação para nos ensinar o caminho da superação. Diante da tentação, Jesus responde: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”... “Não tentarás o Senhor teu Deus”... “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto”.
       Deus é a única resposta para vencermos o mal e o egoísmo, pois só Deus nos faz ultrapassar as mágoas, o individualismo, abrindo o nosso coração à grandeza do perdão e da caridade, recentrando a nossa atenção aqui e agora mas orientada para o infinito, para o eterno de Deus.

       2 – O alimento de Jesus Cristo é fazer a vontade de Deus.
       É o Espírito que está no Seu baptismo, que O conduz também ao deserto, onde será tentado. É a presença permanente de Deus, do Seu Espírito, que O ajuda a superar a tentação. Deus é maior que a tentação. Jesus fixa-se n'Aquele que é definitivo, e não no imediato, no prazer, no poder, ou na fama.
       Na verdade, a vida não se revolve com passes de mágica. Também não se resolve com o poder. Por mais poder que tenhamos, há muitas coisas mais essenciais, a vida, a saúde, os amigos, o sentirmo-nos bem connosco e com a nossa consciência.
       A vida não se revolve com a fama. Destarte, os famosos seriam pessoas felizes; os que não a tivessem, pessoas infelizes. Por outro lado, a fama é diabólica, é efémera, ilude-nos mas logo nos castiga. O que nos faz felizes não é apenas o reconhecimento dos outros, mas o trabalho realizado com esmero, com dedicação, com vocação. O esforço e o sacrifício tornam-se fonte de alegria, de paz e de conforto. Não é o que os outros fazem por nós que nos transforma, que nos faz autenticamente felizes, mas o que conquistamos com persistência, com os talentos que Deus nos dá.
       As tentações de Jesus são também as nossas tentações.
       Como n’Ele, também nós, muitas vezes, queríamos a vida facilitada, resolvida, de mão beijada, em que tudo rolasse sobre carris, sem dificuldades, e em que tudo nos caísse do céu. Mas a vida não é assim. E ainda bem. Que sabor teria a nossa vida se pelo meio não houvesse nenhuma dificuldade que nos despertasse, que exigisse o melhor de nós mesmos, que nos obrigasse a descobrir (pela necessidade) o nosso talento?!
       A superação das tentações por Jesus, como nos lembra o Papa Bento XVI, na Sua Mensagem para esta Quaresma, abre "o nosso coração à esperança e guia-nos na vitória às seduções do mal".

       3 – Errar é humano. Esta expressão insinua precisamente a nossa condição errante. Aspirarmos à perfeição – sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito – diz-nos Jesus Cristo. Deve ser uma busca feita com verdade e com persistência. É o nosso ideal de vida. A nossa vocação à santidade. Mas sabemos o quanto estamos distantes dessa perfeição, nesta identidade divina.
       Na história da humanidade, tantas têm sido as histórias de infidelidade, de egoísmo, de violência, de conflito, de morte. O relato do livro de Génesis é disso exemplo. "Colheu o fruto da árvore e comeu; depois deu-o ao marido, que comeu juntamente com ela. Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas". Para os primeiros pais a tentação foi mais forte. Mas não deve provocar desânimo e desistência. Com Cristo, o nosso caminho é invertido para a generosidade e para o perdão, para a bênção e para a vida.
       Com efeito, diz-nos o Apóstolo, "Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos".
        A salvação é uma certeza em gestação, que devemos viver e testemunhar para este nosso tempo.
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Textos para a Eucaristia (ano A): Gen 2, 7-9; 3, 1-7; Rom 5, 12-19; Mt 4, 1-11.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

I Domingo da Quaresma

Primeira Leitura:
       "Invocámos o Senhor Deus dos nossos pais e o Senhor ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava. O Senhor fez-nos sair do Egipto" (Deut 26,4-10).

Segunda Leitura:
       "Não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que O invocam. Portanto, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Rom 10,8-13).
 
Evangelho:
        - «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’»
       - «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’».
       - «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
       Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo (Lc 4,1-13).
 
Leia a Reflexão Dominical na Página da Paróquia de Tabuaço, aqui!