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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

10 aconselhamentos para não envelhecer

  1. Não te deixes envelhecer. Nunca digas, mesmo a brincar, que estás velho. O estar velho não tem muito a ver com a idade. É uma atitude.
  2. Também nunca digas que estás jovem. Se o ouvires dos outros, não acredites em demasia.
  3. Procura ser do teu tempo, entender o teu tempo. Nem olhes para trás, nem ultrapasses as nuvens.
  4. Que o passado sirva para te situares no presente e perspetivares o futuro com sabedoria.
  5. Não te "armes" em conselheiro, com os pretextos da experiência vivida e acumulada. Que sejam os outros a descobrir-te e a procurar-te.
  6. Não te feches, nem em casa, nem em ti. O mundo é o teu espaço: sai, convive, troca ideias e experiências, ajuíza os acontecimentos, que vão marcando a marcha da comunidade. Se não forem bons, procura corrigi-los.
  7. Encontra tempo para te pores as perguntas que, se calhar, nunca te puseste a sério: Afinal, quem sou eu? Porque sou? Para que sou?
  8. Não és uma "ilha", não fazes parte de um "arquipélago". Antes, és membro de uma grande família, na qual e com a qual - com cuja sorte - estás comprometido até ao pescoço.
  9. Aceita as limitações com naturalidade, sem queixumes que te "coitadinhizam". Em qualquer estádio da vida.
  10. Canta a vida, em cada dia. Cada dia é o nosso dia. Nele, devemos ser e estar por inteiro.
D. Manuel Martins, Pregões de Esperança, pp. 151-152

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Eu, pecador, me confesso...

Eu, pecador, me confesso

de nem sempre saber sorrir;
de nem sempre saber ouvir;
de nem sempre saber compreender e ajudar;
de passar por tantos a precisarem da partilha
       de mim e avançar em frente;
de me calar, ao ver e ouvir tanta hipocrisia;
de falar sem ser preciso, com tantas pessoas
       e situações a reclamarem a minha voz;
de não sentir nada diante de tanta dor
e de tanta injustiça.

Eu, pecador, me confesso

de medos que não sou capaz de vencer;
de comodismos que não sou capaz de superar;
de desânimos que não me deixaram sair de mim;
de egoísmos que puseram os outros fora
       dos meus cuidados;
de gostos que me fizeram esquecer
       o para que sou
de ressentimentos que fizeram reduzir o sentido
       do Pai-Nosso que tantas vezes rezo;
de preconceitos que me levam a dividir o mundo
       e a malsiná-lo sem razão;
de certezas que não me permitem comungar
       vida e ideias.

Eu, pecador, me confesso

de ver tanta lágrima e não a enxaguar;
de contemplar tanta chaga e voltar a cara;
de ouvir tantos gritos e fugir;
de saber de tantos náufragos
       e de não correr a salvá-los;
de encontrar tanta gente sem norte
       e não lhe indicar o caminho;
de ver tantos e tantos caídos ou a caírem
       e não lhes lançar a mão;
de saber e conhecer tanta gente que perdeu
       as razões de viver, e continuar sentado
       à minha mesa feliz e a dormir sem pesadelo.

Eu, pecador, me confesso

porque não tenho cantado, como devia,
a beleza da vida,
a imensidade do amor de Deus,
o valor da fraternidade,
a importância da justiça e da paz.

Eu, pecador, me confesso

porque não tenho sido esperança,
não tenho semeado a esperança,
não tenho gritado a esperança.
D. Manuel Martins, Pregões de Esperança, pp. 147-148

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A Igreja é a minha casa

Sim, é a minha casa. 
Esta igreja, onde eu nasci e onde querro morrer.
       Nela me sinto bem. Nela gosto de estar.
Aqui eu penso,projecto, sonho, alimento-me.
Aqui eu rezo, recordo, choro, zango-me,
       encontro-me.
Aqui sofro, aqui canto.  
A IGREJA É A MINHA CASA.
Gostaria, tantas vezes, de a ver
mais acolhedora,
mais aberta!
Com mais espaço para as outras pessoas
(não é ela comunhão e sacramentos?)
mais gratuita,
mais convidativa. 
A IGREJA É A MINHA CASA,
E tenho pena que
       feche as portas,
       condene sem coração,
      corte com quem procura...
Eu amo muito a Igreja,
porque a Igreja é a minha casa

       Com defeitos?
       Com a ruga dos anos?
       Às vezes azeda? 
Mas a Igreja é a minha casa,
Então, porque lhe quero muito,
       vou pintá-la de fresco,
       vou rasgar-lhe mais portas
       vou torná-la mais simpática,
       mais disponível,
       mais atenta.
Vou fazer com que cante mais a beleza da vida,
       perca o medo e salte para o mundo.
       grite os valores e os direitos
       das pessoas e dos povos.
A IGREJA É A MINHA CASA.
Se eu quiser,
       se tu quiseres,
       se todos quisermos,
       todos virão a ela
       e todos nela se sentirão bem...
Porque ela é a casa de Deus.
Porque Deus habita nela.
D. Manuel Martins, Pregões de Esperança, pp. 149-150

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Leituras: D. MANUEL MARTINS - Pregões de esperança

D. MANUEL MARTINS (2014). Pregões de esperança. Prior Velho: Paulinas editora. 160 páginas.
"... que os nossos políticos façam, sim, uma cimeira, não para combinarem entre si a distribuição de cadeiras ou a alternância do poder; mas para descobrirem finalmente as necessidades do Povo, que são cada vez mais, e procurarem, inquietos, os melhores caminhos de as satisfazerem" (p. 29).
"Sem trabalho não há pão, nem dignidade, nem liberdade, nem progresso. Sem trabalho, devidamente compensado, perdem-se as razões de viver. E hoje, e Portugal, há imensa gente que quer trabalhar e não encontra onde nem como; há imensa gente que trabalha e não recebe salários. Mas também há imensa gente - e isto não se esqueça nem deixe de dizer-se bem alto - que não quer trabalhar e, o que é pior, não deixa trabalhar quem deseja trabalhar" (pp 39-40)
"O sepulcro é morte. A Páscoa é vida. Todo aquele que quer ser filho da Páscoa aposta na vida" (p 42).
O grito da Páscoa "... é um grito de esperança. Não fomos criados para o escuro, mas para a luz; não fomos criados para o sofrimento que nasce da fome, das guerras e das injustiças, mas para a fraternidade e para a paz; não fomos criados para a morte, mas para a vida. A Páscoa de tudo isto é sinal e apelo" (p 52).
"O grande mal que nos pode bater à porta é o da distração ou o da habituação. É fácil estarmos no mundo, passarmos pela vida, sem vermos o mundo, sem sermos tocados pela vida. E assim vivemos sós, chegamos ao fim sós" (p 101).
"Lembra-te que não és dono de nada. Tudo o que tens está hipotecado a favor dos que mais precisam, que são muitos, que são cada vez mais" (p 106)
       D. Manuel Martins, o primeiro Bispo da Diocese de Setúbal, nascido em 1927, em Leça do Balio, em Matosinhos. Em 1975 foi nomeado Bispo da recém criada Diocese de Setúbal. Resignou em 1998. Ficou conhecido como o Bispo Vermelho pelas numerosas intervenções na defesa dos mais desfavorecidos, numa Setúbal cheia de problemas sociais, famílias desestruturadas, problemas de toxicodependência, desemprego, trabalho precário, muitas greves.
       No dia da Ordenação Episcopal, contestação na rua pelo Bispo e o que significava. Na saída, o reconhecimento da maioria. Nunca foi um bispo de consensos. Nem de falas mansas. Como relembra o atual Presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio da Fonseca, que discordava com D. Manuel em muitas coisas, mas que foi amadurecendo e percebendo que a fé teria que ser interventiva a favor dos mais pobres, estes textos foram inicialmente recolhidos pela Cáritas Diocesana de Setúbal, em livro, e a maioria escritos para o jornal "A Seara". Esta reedição assume os textos anteriores e outros que D. Manuel Martins confiou à editora.

Os textos são agrupados por temas:
NATAL E PÁSCOA
AOS JOVENS
SER SOLIDÁRIOS
MARIA, MÃE
EM IGREJA
       Os textos de intervenção, digamos assim, brotam do compromisso batismal, cristão. A fé está ligada à vida, e ao compromisso. Seguir Jesus implica agir como Ele, fazendo-Se próximo dos mais necessitados de ajuda, material e espiritualmente falando. Em prosa, ou poesia, em contextos diversos, D. Manuel Martins utiliza uma linguagem simples, acessível, direta.