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terça-feira, 10 de abril de 2018

Damos testemunho do que vimos...

       A Ressurreição é um desafio e um compromisso dos seguidores de Jesus Cristo em mostrá-l'O vivo nas palavras e nos gestos, na organização das comunidades crentes. Jesus coloca-se no MEIO deles e eles perdem o medo, pois Ele sempre estará.
       Na primeira leitura, que atravessa este tempo de Páscoa, do livro dos Atos dos Apóstolos, vamos acolhendo a chama com que os discípulos dão a conhecer o Evangelho de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, suscitando entusiasmo mas também ódios e perseguição. O texto de hoje caracteriza a a comunidade, a forma como procurou encarnar o Evangelho:

A multidão dos haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém considerava seu o que lhe lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de muita simpatia. Não havia entre eles qualquer necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o produto das vendas, que depunham aos pés dos Apóstolos, e distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade. José, um levita natural de Chipre, a quem os Apóstolos chamaram Barnabé – que quer dizer «Filho da Consolação» – possuía um campo. Vendeu-o e trouxe o dinheiro, que depositou aos pés dos Apóstolos (Atos 4, 32-37)
No Evangelho, Jesus continua em diálogo com Nicodemos:
Disse Jesus a Nicodemos: «Não te admires por Eu te haver dito que todos devem nascer de novo. O vento sopra onde quer: ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito». Nicodemos perguntou: «Como pode ser isso?» Jesus respondeu-lhe: «Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo: Nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não aceitais o nosso testemunho. Se vos disse coisas da terra e não acreditais, como haveis de acreditar, se vos disser coisas do Céu? Ninguém subiu ao Céu, senão Aquele que desceu do Céu: o Filho do homem. Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna» (Jo 3, 7b-15).
       São João coloca-nos junto de Jesus e de Nicodemos, doutor da Lei. Jesus diz claramente a Nicodemos que tem de nascer de novo, uma nova vida, que não virá apenas da conversão, mas também da redenção operado por Jesus Cristo. Por outro lado, Jesus coloca a transcendência de Deus em destaque, não O podemos encerrar na nossas concepções muito nossas. A força do Espírito manifesta-se onde quer, é como o vento que não sabemos de onde vem ou para onde vai.
       Por outro lado ainda, Jesus anuncia a elevação do Filho do homem, para que todos O vejam e acreditando tenham a vida eterna. A elevação do filho enquadra a crucifixão de Jesus, a Sua morte redentora, mas também o NOME que é colocado acima de todos os todos e ao qual todos os joelhos se deve dobrar, não como penitência, mas para que a contemplação de Deus os leve ao serviço dos irmãos.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

VL – Largar a pele da serpente, revestir-se de Cristo

       Quem tem familiaridade com o campo é possível que, por mais de uma vez, tenha encontrado a pele de uma cobra. Por vezes a pele encontra-se quase inteira, como se de repente a cobra despisse uma camisa e vestisse outra. A pele das cobras é constituída por escamas. Mudam de pele periodicamente. Uma das finalidades desta muda será remoção dos parasitas. Outra explicação plausível é que as cobras crescem constantemente e precisam de largar a pele que as aprisiona e limita por uma nova pele, maior, que as liberta para continuarem a crescerem.
       A Quaresma encaminha-nos e prepara-nos para a Páscoa, vida nova, luz e salvação, a vastidão do Céu chega para toda a humanidade. Neste caminho somos desafiados à renúncia, à penitência. É um tempo de conversão e de esperança. É caminho (pessoal e comunitário) mas já iluminado pela ressurreição de Jesus. A mudança de vida é uma constante na vida do discípulo de Jesus Cristo. Fomos batizados na água e no Espírito Santo, tornamo-nos novas criaturas. A vida toda é esta configuração à nossa origem batismal.
       Um dos ritos do batismo é o da veste branca. “Agora és nova criatura e estás revestido de Cristo. Esta veste branca seja para ti símbolo da dignidade cristã”. Se voltarmos ao exemplo da renovação da pele na cobra, também esta veste nos reveste por inteiro. A cobra cresce e precisa de mudar de pele, libertando-se. Nós crescemos desde o batismo, precisamos de viver numa tensão permanente para fazer com que a nossa vida nos faça crescer na santidade, afeiçoando-nos a Cristo, isto é, adotando as feições de Cristo, ficando parecidos com Ele. Qual é a nossa pele antiga que nos aprisiona? Tudo o que nos impede de transparecer e testemunhar Jesus. Tudo o que nos afasta dos outros, o nosso egoísmo, o orgulho, a sobranceria, a avareza, a prepotência a inveja, o endeusamento do nosso ego.
        Mas alguém poderá perguntar: se é só a pele que muda então nada muda interiormente? Se nos fixarmos no exemplo da cobra talvez tenhamos alguma razão. Contudo, o desprendimento da pele velha expressa o seu crescimento e, portanto, todo o corpo da cobra cresce, além de se libertar dos parasitas. Como cristãos revestimo-nos de Cristo para que toda a nossa vida se transforme, libertando-nos dos parasitas que nos impedem de ser imagem e semelhança de Deus, rosto e presença de Jesus Cristo para as pessoas do nosso tempo.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4404, de 21 de março de 2017

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A Páscoa de Jesus e o nosso compromisso batismal

       Liturgicamente, tendo celebrado a Ascensão do Senhor, vamos centrar-nos no Pentecostes, a dádiva do Espírito Santo. Com a plenitude da Páscoa, nasce a Igreja e os cristãos que a constituem. Doravante, Jesus tem outros olhos, outra voz, outras mãos, outros pés. Ele está vivo em nós e através de nós.
       As Suas últimas palavras são de despedida, de promessa, de esperança e de envio. Sintetizam o mistério pascal, comprometendo os discípulos. Doravante não poderão calar o que viram e ouviram: «Vós sois testemunhas destas coisas» (Lc 24, 48).
       Ao longo de três anos – a vida pública de Jesus –, os apóstolos foram testemunhas de um sonho, um projeto de vida, um desafio envolvente. O reino de Deus a emergir na pessoa de Jesus Cristo, nas Suas palavras e nos Seus gestos de compaixão e de proximidade, de delicadeza e de acolhimento. Uma mesa posta para todos. Um banquete para incluir, a começar pelos excluídos. Um reino de portas abertas, integrador, em que ninguém está a mais. Acompanham-n'O camponeses, pedintes, doentes, maltrapilhos. Não admira que Ele tenha o cheiro das ovelhas. Mais que um estilo (exterior) é um jeito de ser, um compromisso. A santidade de Jesus mistura-se com o (nosso) pecado, a divindade abaixa-Se para caminhar connosco e nos elevar.
       A Ascensão de Jesus e o dom do Espírito Santo leva-nos a sério. Não somos mais crianças de levar pela mão. O tempo de aprendizagem perdura a vida toda mas há um momento em que as aprendizagens e os instrumentos nos responsabilizam e nos é passada a bola. Cabe-nos prosseguir o caminho aberto por Jesus.
       Depois da Sua paixão, diz-nos São Lucas, Jesus apareceu vivo aos Seus discípulos, durante 40 dias (tempo necessário para iniciar e cimentar uma nova forma de se relacionarem com o Mestre), falando-lhes ainda e sempre do reino de Deus. Agora é tempo de descobrirem Jesus no mundo das pessoas e não ficar simplesmente à espera que do Céu venha a resolução de todas as dificuldades (cf. Atos 1, 1-11).
       Não apenas eles. Também nós. Quantas vezes ficamos à espera? De sinais! De respostas! De soluções! Por vezes deixamos o tempo passar a ver se tudo se resolve! Ou deixamos para ver se outros resolvem! Então do Céu a mesma voz: Por que esperais? Ele está convosco e através de vós continua a agir no mundo.
       Ele não nos faltará com a Sua presença e o Seu amor. Até ao fim!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4362 , de 10 de maio de 2016

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

São João Eudes, presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu na diocese de Séez (França) no ano 1601; recebeu a ordenação sacerdotal e dedicou se durante vários anos à pregação nas paróquias. Fundou duas Congregações: uma destinada à formação sacerdotal dos seminaristas e outra para a educação das mulheres cuja vida cristã corria perigo. Fomentou com particular zelo a devoção aos Corações de Jesus e de Maria. Morreu em 1680.
Oração (de coleta):
       Senhor nosso Deus, que Vos dignastes escolher o presbítero São João Eudes para anunciar as insondáveis riquezas do mistério de Cristo, concedei-nos que, seguindo o seu exemplo e os seus ensinamentos, conheçamos cada vez melhor a vossa verdade e vivamos fielmente à luz do Evangelho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
São João Eudes, sobre o admirável Coração de Jesus

Fonte de salvação e de vida verdadeira

Rogo-te que penses em Nosso Senhor Jesus Cristo como tua verdadeira Cabeça e em ti como um dos seus membros. Ele é para ti como a cabeça para os membros.
Tudo o que é d’Ele é teu: o seu espírito, o seu coração, o seu corpo, a sua alma e todas as suas faculdades. Deves usar de todas elas como se fossem realmente tuas, para servir, louvar, amar e glorificar a Deus. Tu és para Ele como um membro em relação à cabeça; e por isso também Ele deseja ardentemente servir-Se de todas as tuas faculdades como se fossem suas, para servir e glorificar o Pai.
Cristo não somente é para ti, mas quer também estar em ti, viver e dominar em ti, como a cabeça vive e reina nos seus membros. Quer que tudo quanto n’Ele existe viva e domine em ti: o seu espírito no teu espírito, o seu coração no teu coração, todas as faculdades da sua alma nas faculdades da tua alma, de modo que se realizem em ti aquelas palavras: Glorificai e trazei a Deus no vosso corpo, e a vida de Jesus se manifeste em vós.
E tu não somente és para o Filho de Deus, mas deves estar n’Ele tal como os membros estão na cabeça. Tudo quanto há em ti deve ser inserido n’Ele e d’Ele deves receber a vida e por Ele ser governado. Fora d’Ele não encontrarás a vida verdadeira, porque Ele é a única fonte de vida verdadeira; fora d’Ele não encontrarás senão morte e perdição.
Seja Ele o único princípio dos teus movimentos, acções e energias da tua vida; deves viver d’Ele e por amor d’Ele, para que em ti se cumpram estas palavras: Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo; se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. De facto, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos. Tu és, por conseguinte, uma só coisa com Jesus, como os membros são uma só coisa com a cabeça; e por isso deves ter com Ele um só espírito, uma só alma, uma só vida, uma só vontade, um só pensamento, um só coração. E Ele deve ser o teu espírito, o teu coração, o teu amor, a tua vida, enfim, deve ser tudo para ti. Todas estas grandezas do cristão têm a sua origem no Batismo, crescem e robustecem se pela Confirmação e pelo bom exercício das outras graças que Deus lhe comunica e que têm o seu mais perfeito complemento na sagrada Eucaristia.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Domingo III do Advento - ano B - 14 de dezembro

        1 – «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva: de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações». O Cântico do Magnificat, que hoje nos é proposto como Salmo Responsorial, mostra-nos a medida, a profundidade, a razão da nossa alegria: a certeza de que Deus coloca o Seu olhar em nós, para nos envolver ternamente com o Seu amor.
       Celebrámos na segunda-feira passada, 8 de dezembro, a solenidade da Imaculada Conceição, onde esta belíssima oração de louvor, que brota dos lábios e do coração e da vida de Nossa Senhora, ressoa com mais intensidade. A Imaculada Conceição, a cheia de Graça, alegra-Se com a presença e ação de Deus, antecipando, diante da sua prima Isabel, a alegria de Se saber visitada pelo Espírito Santo que n’Ela opera a maior das maravilhas: a gestação do Filho de Deus. É uma alegria que vem do interior, vem de dentro, mas contagia e transborda exteriormente, de um a outro coração, de um a outro olhar, de pessoa a pessoa. O filho de Isabel, que ficará conhecido como João Batista, exulta de alegria, ainda no ventre de sua mãe, quando Jesus – também no ventre materno – se aproxima. A voz de Maria é melodia para os ouvidos de Isabel, é melodia para os ouvidos daquele feto que nadando nas entranhas de sua mãe faz saber e sentir a alegria pela proximidade de Jesus.

       2 – Este é o Domingo da Alegria (Gaudete), que nos prepara para a festividade do Natal, mas cuja alegria antecipadamente experimentamos, pela certeza de que Deus vai irromper na nossa vida e na história do mundo.
       A alegria do Evangelho deve envolver-nos, contagiar-nos, transformar-nos, comprometer-nos com o anúncio. Recebemos o Evangelho – a Boa Notícia da salvação –, não para ficarmos contentes, mas para O levar a todo o mundo. É o último mandamento de Jesus: ide e anunciai o Evangelho em toda a terra (cf. Mt 28, 19-20), ou, na ressonância do lema pastoral da nossa Diocese de Lamego: IDE E CONSTRUÍ COM MAIS AMOR A FAMÍLIA DE DEUS.
       João Batista dá-nos o exemplo. Vem antes, a preparar o caminho do Senhor, e não cessa de anunciar a proximidade da Sua vinda: "Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz".
       Por ocasião da anunciação logo exulta de alegria no seio da sua Mãe. Trinta anos depois: «Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Endireitai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías». Muitas realidades da nossa vida exigem e merecem tempo e meditação. Por vezes é necessário deixar crescer o trigo e o jogo até à hora da ceifa (cf. Mt 13, 24-30). Tal como Jesus, também João Batista se prepara por um longo período de tempo e só vai a jogo quando se sente adulto, maduro, preparado.
       A palavra de Deus é acolhida em vasos de barro, que somos nós, mas depois temos que cuidar do vaso para que na nossa fraqueza se manifesta a beleza, a riqueza e a grandeza d'Aquele que vem, o Messias de Deus, a Palavra que Se faz carne.
       Como Maria: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Como João Batista: «Eu batizo na água, mas no meio de vós está Alguém que não conheceis: Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias»
       O Precursor reconhece-se como instrumento ao serviço da Palavra de Deus, ao serviço do Eleito de Deus. Pensemos numa equipa de ciclismo e que tem um chefe de fila. Todos trabalham para que o líder chegue à frente e ganhe a volta, mesmo que tenham de sacrificar os seus egos. Mas se o chefe de fila ganha, toda a equipa está de parabéns. Aqui o chefe de fila é Jesus Cristo. Todos trabalhamos para que Ele viva. Melhor, todos, se somos verdadeiros discípulos, deveremos deixar que Ele trabalhe em nós e através de nós nasça em todo o mundo.
       3 – O compromisso com o Evangelho da Alegria é um desafio permanente. São certamente muitas as ocasiões e as razões para que a vida não seja um rio de águas calmas. Quantas vezes a nossa vida se transforma em mar revolto, com ondas tão grandes que nos deitam por terra, embatendo com violência em nós e nas nossas expetativas e seguranças. As tempestades fazem parte da nossa vida, e assim o frio e o nevoeiro e as nuvens densas... o que nos fará apreciar o calor e os dias de sol, e o céu limpo.
       O Apóstolo, tendo feito a experiência de encontro com Jesus e convertendo-se ao Evangelho, faz-se arauto da alegria:
«Vivei sempre alegres, orai sem cessar, dai graças em todas as circunstâncias, pois é esta a vontade de Deus a vosso respeito em Cristo Jesus. Não apagueis o Espírito, não desprezeis os dons proféticos; mas avaliai tudo, conservando o que for bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal. O Deus da paz vos santifique totalmente, para que todo o vosso ser – espírito, alma e corpo – se conserve irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. É fiel Aquele que vos chama e cumprirá as suas promessas».
       Quais os motivos desta alegria? Repitamo-lo: a presença do Deus de Jesus Cristo em nós, através do Seu Espírito Santo. Daí também o convite à oração. A intimidade com Deus abre-nos as portas do coração à eternidade, ao amor, à esperança e, por sua vez, compromete-nos com o bem. A oração, como a esperança, não é passiva. Rezamos e concorremos para que Deus atue em nós. Empenhamo-nos, afastando-nos de todo o mal, para que Deus nos santifique.
       4 – A chegada do Messias e a instauração do Reino de Deus é uma alegre notícia que deverá fazer-se ouvir nas montanhas e nas colinas, nos desertos e nos vales, nas aldeias e nos campos, nos descampados e nas cidades. O profeta Isaías, uns séculos antes de João Batista, faz-se precursor desta vinda de Deus ao meio do seu povo.
«O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os corações atribulados, a proclamar a redenção aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, a promulgar o ano da graça do Senhor. Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu num manto de justiça, como noivo que cinge a fronte com o diadema e a noiva que se adorna com as suas jóias. Como a terra faz brotar os germes e o jardim germinar as sementes, assim o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor diante de todas as nações».
       No início do seu ministério, lendo as palavras de Isaías, Jesus identificar-se-á com a unção do Espírito Santo e com a missão de levar a boa notícia aos pobres e aos povos de toda a terra. Ele virá revestido com as vestes da salvação para que a justiça e a paz brote em toda a parte, e então o júbilo possa comunicar-se a todos os corações. Esta é a razão primeira e última da nossa alegria: Deus, em Jesus, vem habitar em nós, faz a Sua morada no nosso coração, na nossa vida, no nosso mundo. É uma alegria que ninguém nos poderá tirar.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): Is 61, 1-2a. 10-11; Salmo: Lc 1, 46b-48. 49-50. 53-54; 1 Tes 5, 16-24; Jo 1, 6-8. 19-28.

domingo, 17 de agosto de 2014

TIMOTHY RADCLIFFE - Imersos na Vida de Deus

TIMOTHY RADCLIFFE (2013). Imersos na Vida de Deus. Viver o Batismo e a Confirmação. Prior Velho: Paulinas Editora. 334 páginas.
       Segundo D. José Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda, "Timothy Radcliffe, um teólogo brilhante, partilha aqui o dizer indizível da vida de Deus em nós. Na sequência de tantos livros atraentes sobre a questão vital do Cristinianismo, oferece-nos agora um rasgado horizonte da narrativa dos sacramentos do Batismo e da Confirmação. Emerge aqui a fascinante aventura da vida de Deus" (contracapa).
       Dominicano, Radcliffe conduz-nos através dos diversos momentos do Batismo, como celebração, alargando à história, à cultura circundante, à literatura, citando autores bem conhecidos, mas também cheio de histórias do dia a dia, na família e no convento, com pessoas de diferentes origens. A redescoberta do Batismo como sacramento que nos faz imergir na vida de Jesus Cristo e nos compromete com as pessoas que nos rodeia, com a família, com os colegas de trabalho. Ser cristãos não é uma capa que se veste, cedendo a tradições ou ritualismos, mas algo que nos identifica com Jesus, nos faz viver com alegria. Ser cristão, fazer o que Ele faz, assumir uma postura de proximidade e de vida nova, abençoados pela presença de Deus em nós.
       Ser batizado é deixar-se transformar pelo Espírito de Deus. É um acontecimento único, de vida nova, que nos compromete com os outros e com a transformação do mundo, modificando em nós os que nos afasta dos outros. O cristianismo é antes de mais um encontro pessoal com Jesus Cristo, que nos assume como irmãos. É uma história de amor, de Deus por nós, que nos quer bem, que nos quer livres e felizes. Ser cristão não é algo triste ou melancólico. Faz-nos sentir livres, úteis, filhos amados de Deus. E como Jesus, o compromisso do serviço e da proximidade, do diálogo. Não deveremos ter o ensejo do pensamento único, mas com humildade vivermos criativamente em cultura de diálogo, de encontro. Há sempre dons e talentos que podemos descobrir noutros que também são filhos de Deus.
       O Batismo liberta-nos do mal, e filia-nos em Deus. O autor parte de diversas situações quotidianos. Em todas as idades precisamos de nos convertermos, de abrirmos o nosso coração e a nossa mente, deixando que Deus possa ser visto através de nós. Ser filhos de Deus também nos faz encarar o sofrimento e a morte na sua relatividade, como oportunidades para nos aproximarmos mais dos outros ou os deixarmos aproximar.
       A opção comprometida com os mais pobres é uma exigência própria dos batizados. Seguir Jesus Cristo leva-nos ao encontro dos mais desvalidos para ajudarmos, para promovermos a dignidade da pessoa humana, mesmo que a aparência nos repugne. Jesus, diante da mulher apanhada em flagrante adultério, homem para ela como mulher e não tanto para o seu pecado, ainda que o convite a ela, como a nós, seja um caminho novo de libertação, de vida nova. Ele reabilita-nos para saborearmos a vida em abundância.
       Se não nos tornarmos como crianças não entraremos no Reino do Deus. Ao sermos batizados somos assumidos como crianças diante de Deus, que é Pai. Mas, e olhando para o Sacramento da Confirmação, o coração de crianças mas em cristãos corajosos, cuja maturidade da fé um desafio permanente.

»» Vale a pena ler a recensão feita pela Livraria FUNDAMENTOS: AQUI.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Cardeal Medina Estevez - Padrinhos de batismo

       "Pode haver apenas um padrinho, ou um padrinho e uma madrinha, mas se não se encontrarem pessoas apropriadas, pode até prescindir-se disso.
       Os padrinhos devem ser pessoas adultas, que já receberam os sacramentos do Batismo, do Crisma e da Eucaristia, que sejam idóneas e, sobretudo, que vivam uma vida cristã séria e respeitável. Em virtude do Batismo, o padrinho e a madrinha adquirem uma parentela espiritual com o afilhado. Isto significa que responsabildiades assumidas não são um simples empenho social, que se poderia descurar, mas uma relação especial inerente à vida cristã e ao seu desenvolvimento. Os padrinhos devem apoiar os seus afilhados sobretudo dando-lhes o exemplo de coerência com o Evangelho de Jesus, aconselhando-os quando for necessário ou conveniente e até corrigindo-os quando vejam que se desviaram do bom caminh. E o afilhado deve receber com respeito e gratidão os conselhos dos seus padrinhos.
       Seria absurdo uma pessoa que vive em contradição aberta com a moral assumisse a responsabildiade de padrinho ou madrinha, que implica, precisamente, ajudar o batizado a viver em conformidade com a lei do Evangelho. Apresentemos alguns exemplos possíveis de tais incoerências. É o caso dos delinquentes, publicamente reconhecidos como tal e que não deram sinais inequívocos de arrependimento e nem sequer se ofereceram para reparar os seus malefício; como o caso de pessoas toxicodependentes ou narcotraficantes; ou de quem pratica a homossexualidade, e até a defende como qualquer coisa legítima. Não é possível que assumam a responsabilidade de padrinhos os que vivem em concubinato ou em adultério, nem os que mostram publicamente ódio para com pessoas que os ofenderam e não mostram sinais de arrependimento nem de reconciliação. O mesmo é válido para as pessoas que se afastaram da participação à Santa Missa dominical. Se uma pessoa ocupa um alto cargo público e não é católica, só pelo facto de ostentar tão alta dignidade não é razão suficiente para ser escolhida como padrinho, porque não será capaz de assumor as suas responsabilidades. Uma pessoa a quem é pedido para assumir o papel de padrinho ou madrinha, e que tem consciência de não possuir os requisitos para o ser, deveria, honestamente, recusar, e isto não deve ser interpretado como um afronta ou uma falta de amizade, mas como expressão de respeito para com o sacramento do Batismo, pela sua natureza essencialmente religiosa e pelas leis da Igreja que zelam pela sua dignidade".

in Cardeal MEDINA ESTEVEZ - Porquê batizar o meu filho?

OUTRO TEXTO para os Padrinhos:
Este é um tempo que está a ser utilizado para baptizar as crianças; e na apresentação, no diálogo, a Igreja diz: “Pedis o Baptismo para esta criança… tendes consciência da responsabilidade que assumis de a educar na fé cristã?”. Pais e padrinhos respondem “SIM”.
Não será muitas vezes um “faz de conta”?
Leitor, se és padrinho ou madrinha, responde a estas perguntas, mas sê sincero/a e honesto/a contigo.
  • Costumas falar aos teus afilhados e dás-lhes bons conselhos ?
  • Na data do seu aniversário do Baptismo dás-lhes os “parabéns”?
  • As prendas que lhes dás contribuem para a sua educação cristã ?
  • Conversas com eles sobre a sua fé em Jesus Cristo ?
  • Quando andam na Catequese costumas acompanhá-los e, de vez em quando, conversas com eles sobre a catequese ?
  • Rezas pelos teus afilhados ?
  • Frequentas a Igreja na Missa dominical… como exemplo que lhes deves dar?
  • Se não fazes nada disto, és apenas um “faz de conta”. Portanto, na verdade, não és padrinho ou madrinha.
O Baptismo é o nascimento para a fé. Não basta fazer nascer. É preciso ajudar a crescer. É o papel dos pais; e os padrinhos são pais cooperantes. É seu papel colaborar, por alguma razão são ‘compadres/comadres’.
Para crescer, um afilhado precisa de ser alimentado e ajudado a aprender a andar e a amar. Quem lhe presta esta ajuda? O Baptismo é o sacramento da nova vida, porque nos faz nascer para a vida divina. Pelo Baptismo tornamo-nos filhos de Deus, irmãos de Jesus, amigos do Espírito Santo, membros da família de Deus, a Igreja, irmãos de todos os homens. É um projecto de família da fé e de uma adesão ao Plano Salvador de Deus, ao seu Reino.
P. Batalha, in FAROL: Aqui.

Cardeal Medina Estevez - Porquê batizar o meu filho?

Cardeal Jorge MEDINA ESTEVEZ - Porquê batizar o meu filho? Paulus Editora. Lisboa 2013, 62 páginas.
       É o Sacramento do Batismo que nos abre as portas da Igreja. Na água e no Espírito Santo tornamo-nos novas criaturas, de Cristo, com Cristo e para Cristo, formando o Seu Corpo que é a Igreja. Os Sacramentos constituem um todo de graça e salvação. Deus veio até nós, em Pessoa, em Jesus Cristo. Com a Sua vida, mensagem, morte e ressurreição, oferenda total a Deus em favor de todos os homens. Com a Sua ressurreição e ascensão aos Céus, Jesus permanece entre nós, de forma especial pela graça sacramental que nos insere na comunidade cristã, seguidores de Jesus.
       Neste livrinho de bolso, o Cardeal Medina Estevez, de uma forma simples e acessível, introduz a importância do Sacramento do Batismo, porta da Igreja, fundamentando com os textos sagrados, a evolução histórica, a passagem do batismo de adultos para o batismo de crianças, o símbolos, os intervenientes, pais, padrinhos, comunidade.
       Na apresentação deste precioso contributo, o Cardeal António Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto, sublinha a satisfação de apresentação deste livro, que "toca uma realidade fundamental e muito alegre, cheia de esperança e de luz para a nossa vida, algo que nos atinge decisivamente". Este "texto não é para 'especialistas' mas para pessoas simples de coração, para todos... tem um carácter e um estilo fácil, belo e profundo, eminentemente correto, pedagógico e educativo...".
       Depois de dedicar um capítulo à missão dos padrinhos, o autor procura responder a algumas questões mais prementes: quando se deve batizar, onde, quem preside à celebração do batismo, se uma criança morrer sem ser batizada para onde vai, batismo em criança ou na idade adulta?
       Voltamos ao prefácio: "Este pequeno e ao mesmo tempo grande livro constitui um chamamento a viver o Batismo, a viver a nossa vida de batizados em Cristo como filhos de Deus: viver como santos e purificados, como corresponde ao nosso ser batismal; viver com autenticidade, verdade e coerência a realidade do batismo".

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Lumen Fidei - fé dos pais gera os filhos para a vida

       Uma criança não é capaz de um ato livre que acolha a fé: ainda não a pode confessar sozinha e, por isso mesmo, é confessada pelos seus pais e pelos padrinhos em nome dela. A fé é vivida no âmbito da comunidade da Igreja, insere- se num «nós» comum. Assim, a criança pode ser sustentada por outros, pelos seus pais e padrinhos, e pode ser acolhida na fé deles que é a fé da Igreja, simbolizada pela luz que o pai toma do círio na liturgia baptismal. Esta estrutura do Batismo põe em evidência a importância da sinergia entre a Igreja e a família na transmissão da fé. Os pais são chamados - como diz Santo Agostinho - não só a gerar os filhos para a vida, mas a levá-los a Deus, para que sejam, através do Baptismo, regenerados como filhos de Deus, recebam o dom da fé. Assim, juntamente com a vida, é-lhes dada a orientação fundamental da existência e a segurança de um bom futuro; orientação esta, que será ulteriormente corroborada no sacramento da Confirmação com o selo indelével do Espírito Santo.
Papa Francisco, Lumen Fidei (n.º 43)

sábado, 12 de janeiro de 2013

Festa do Batismo do Senhor - 13 de janeiro

       1 – A água é um elemento fundamental para a vida vegetal, animal, humana. Sem água não há vida. Como o ar que respiramos, o sol que nos envolve, valorizamos mais a água quando é escassa ou está a faltar. Água para beber, para regar, para lavar, cozinhar, para as deslocações humanas, por rio e por mar, para desportos, para brincar, para curar; água para as piscinas, nas termas, na produção industrial, na agricultura, para a pesca, para a pecuária, para a higiene.
       Os produtos da terra, como as árvores de fruto, dependem da água. O ser humano adulto é constituído por 70% de água. E ao passo que caminha para a velhice tem necessidade de ingerir maior quantidade de água (líquidos) para repor a perda da água no organismo. A água é fundamental ao equilíbrio do corpo, à saúde.
       Numa perspetiva diferente, a água é um elemento destrutivo, nomeadamente nas cheias, ou grandes inundações. Ainda assim, e à semelhança do fogo, pode trazer vida nova. Depois da tempestade a bonança, nova vegetação, paisagem alterada. O ciclo da vida não para.
       Tendo consciência da importância da água na vida quotidiana, nas suas multifacetadas aplicações, facilmente se compreende a seu significado teológico em diversas religiões, como elemento de purificação espiritual, de renascimento, de vida nova, lavando a alma e eliminando o pecado. É comum ao cristianismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo, e a muitas religiões (ou manifestações religiosas) naturalistas.
       2 – A liturgia batismal, na bênção da água, apresenta referências bíblicas nas quais a água está em clara evidência. No relato da criação, melhor, nos dois relatos da criação: Deus faz separar as águas da terra para que haja vida; Deus faz chover para que a vida germine da terra. O episódio sobejamente conhecido do Dilúvio, com Noé e a construção da Barca, sendo a água um elemento destruidor – a humanidade do pecado é submersa – e a mesma água suporta e salva a Arca com Noé e a sua família. A travessia do mar vermelho marca a condenação dos soldados egípcios que a água aniquila, que simbolicamente representam o mal agora levado pela água. A mesma travessia protege o povo eleito, que passa pela água para terra firme, com Moisés. Os filhos de Israel são salvos pela água. Um dos significados possíveis do nome MOISÉS é precisamente “salvo das águas”.
        O episódio que hoje celebrámos – o batismo de Jesus no rio Jordão – é também evocado na bênção da água. João batiza o autor do batismo. É um batismo de penitência, de preparação, pois logo virá Aquele que batizará no fogo e no Espírito Santo.
       A própria palavra – baptizar –, de origem latina, significa mergulhar (na água). O neófito entrava por três vezes na água, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, para que água levasse o homem velho, e da água surgisse o homem novo, nova criatura, de Deus e para Deus.
        Note-se a presença do Espírito de Deus que paira sobre as águas, na criação... a Barca na qual Deus guarda Noé para refazer a Humanidade. A Arca é também símbolo da Igreja, qual Barca em que entramos pelo Batismo, para sermos protegidos pelo Espírito de Deus. A mão e a voz de Moisés que separa as águas. Deste modo, evidencia-se não apenas a água como elemento imprescindível, mas a palavra de Deus, o Seu Espírito, a Sua mão protetora, através da mão e da vara de Moisés; o Espírito que desce sobre Jesus, em forma de pomba, é que garante que Ele é o Messias, o Filho bem-amado.
       3 – João, pouco a pouco, vai dando claras indicações que o Messias está a chegar. Ele é o Precursor, prepara o caminho, é a VOZ que vai dar lugar à PALAVRA encarnada. Quando lhe perguntam por que batiza se não é o Messias, João sublinha que o seu batismo é sobretudo chamada de atenção, apelo à conversão, à penitência, à mudança de vida. Só um coração atento, humilde, desperto para os outros, poderá reconhecer e acolher Aquele que vem de Deus, o mistério, o divino. Prepara a terra para que a semente lançada encontre terra favorável, fértil.
       Pressente-se um tempo novo que ora chega com Jesus:
«Eu batizo-vos com água, mas vai chegar quem é mais forte do que eu, do qual não sou digno de desatar as correias das sandálias. Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo». Quando todo o povo recebeu o batismo, Jesus também foi batizado; e, enquanto orava, o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba. E do céu fez-se ouvir uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência».
       Com o batismo de Jesus cumpre-se, simbolicamente, toda a justiça. Sendo filho de Deus, não precisava de ser batizado. Jesus, em tudo igual a nós, exceto no pecado, não precisa de remissão de pecados, de penitência para expiar as suas culpas. Ele que era de condição divina, assume a nossa condição humana, finita, limitada, faz-Se pecado por nós, por amor. No batismo, Jesus garante que em tudo cumpre com a ENCARNAÇÃO, seguindo também os usos e tradições do povo que O vê nascer. Está entranhado na história e no tempo, e não por cima ou à margem.
       4 – A vida pública de Jesus arranca a partir do batismo. Como cristãos a nossa vida inicia-se com o batismo, Sacramento de pertença a Jesus Cristo, identificação com a Sua morte e ressurreição, inserção no Corpo de Cristo que é a Igreja. Morremos para o pecado, ressurgimos para a vida nova. Somos, pela água, melhor, pelo Espírito Santo, novas criaturas.
       O batismo de João é preparatório, antecipando o batismo em Jesus, sublinhando-se o simbolismo da água. Com Jesus acentua-se o Espírito Santo e a filiação divina: Este é o meu filho muito amado. João testemunha, com os Céus, que Aquele é o Messias prometido, confirmando-se n'Ele as palavras do profeta Isaías:
«Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam. Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas».
       No quadro do batismo de Jesus, acolhemos a Sua luz e a Sua missão, Ele vem para estabelecer a paz, a justiça, para nos reconduzir a Deus, para nos tornar família, para nos libertar de tudo o que nos oprime, para vivermos em pleno a nossa humanidade, já não como escravos do pecado, da treva e do medo, mas como pessoas livres, disponíveis para amar e construir, para viver e espalhar a boa notícia que em Deus encontramos vida em abundância. Como Deus verdadeiro, Jesus vem viver como verdadeiro Homem, para connosco viver humanamente.
       5 – O batismo celebra-se todos os dias da nossa vida. O primeiro dia não é a vida toda. Existe muito a ideia feita que o batismo livra de todo o mal, que enquanto a criança não for batizada pode ficar doente, não pode entrar em alguns lugares, e ficará mais sossegada se for batizada. Nesta linguagem sublinha-se o batismo mais como um exorcismo, uma superstição, uma tradição que se deve cumprir, para que a criança não esteja sujeita às forças do mal, nem nada lhe aconteça. Quando a criança adoece alguns apressam o batismo, na perspetiva que com o batismo já não estará tão exposta a doenças.
       Nem tudo o que é vivido nesta perspetiva é de descurar, pois expressa a certeza que o batismo retira o ser humano do poder das trevas para o poder da luz, de Deus. Mas o batismo é muito mais. Não é um dia de festa, é uma vida toda. Como o SIM que os noivos dizem um ao outro, como o SIM dos Pais aos filhos, no momento da geração, do nascimento, como o SIM dos crentes a Deus. Marca a vida, e para sempre, com a necessidade de se renovar em cada gesto, palavra, todos os dias. Dizer SIM com os lábios, de uma vez para sempre, e depois agir como NÃO ao longo da vida quase sempre dá mau resultado. Quando os noivos dizem SIM de uma vez para sempre e se sentam à sombra da bananeira, como se tudo estivesse garantido a partir desse primeiro momento, vão sair magoados, infelizes e lesados. O SIM não é passivo nem passado, é proactivo, presente, significa cuidar, ouvir, amar, sofrer com o outro, usar de palavras atenciosas, e ter gestos de gratidão e de alegria pela presença do outro, renovando o desejo e o sentimento.
        Do mesmo modo, os pais para com os filhos. Não basta fazê-los, é preciso cuidar, educar, acompanhar, repreender, elogiar, apontar limites e possibilidades, marcar fronteiras, para que o filho saiba que os pais estão atentos ao que faz, ou deixa de fazer, por que o amam e lhe querem bem, mesmo que tenham os seus defeitos e pecados e por vezes sejam injustos... mas estão presentes, renovando o SIM primeiro todos os dias.
       Assim o nosso proceder para com Deus. O SIM que Deus nos dá há de levar-nos a um SIM permanente. Todos os dias somos batizados, renovados, todos os dias ressuscitamos com Jesus Cristo. A nossa vida deverá ser uma imitação da postura de Jesus.
       Diz-nos o Apóstolo Pedro:
«Na verdade, eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável. Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».
       Ele passou fazendo o bem, Deus estava com Ele. Em Jesus, somos novas criaturas, somos filhos bem-amados. Como é que podemos tornar efetiva a nossa condição de batizados no dia-a-dia, na relação com os outros e com o mundo atual?


Textos para a Eucaristia (ano C): Is 42, 1-4.6-7; Atos 10, 34-38; Lc 3, 15-16.21-22.

domingo, 26 de agosto de 2012

Na Eucaristia: o pão é para mim e também para o outro

       A Eucaristia é o alimento destinado àqueles que no Baptismo foram libertados da escravidão e se tornaram filhos; é o alimento que ampara no longo caminho do êxodo através do deserto da existência humana. Como o maná para o povo de Israel, assim para cada geração cristã a Eucaristia é alimento indispensável que ampara enquanto atravessa o deserto deste mundo, ressequido por sistemas ideológicos e económicos que não promovem a vida, mas ao contrário a mortificam; um mundo no qual domina a lógica do poder e do ter em vez da do serviço e do amor; um mundo no qual com frequência triunfa a cultura da violência e da morte. Mas Jesus vem ao nosso encontro e infunde-nos segurança: Ele mesmo é "o pão da vida" (Jo 6, 35.48).

Bento XVI (Celebração do Corpo de Deus, 7 de junho de 2007)
       Ninguém pode tornar-se cristão por si próprio. Tornar-se cristão é um processo passivo. Somente podemos tornar-nos cristãos por meio de outro. E este "outro" que nos faz cristãos, que nos oferece o dom da fé, é em primeiro lugar a comunidade dos fiéis, a Igreja. Da Igreja recebemos a fé, o Baptismo. Sem nos deixarmos formar por esta comunidade, não nos tornamos cristãos. Um cristianismo autónomo, autoproduzido, é uma contradição em si. Em primeiro lugar, este outro é a comunidade dos fiéis, a Igreja, mas em segundo lugar também esta comunidade não age sozinha, segundo as próprias ideias e aspirações. Também a comunidade vive no mesmo processo passivo: somente Cristo pode constituir a Igreja. Cristo é o verdadeiro doador dos Sacramentos. Este é o primeiro ponto: ninguém se baptiza a si mesmo, e ninguém se torna cristão por si próprio. Nós tornamo-nos cristãos...
       Cristo une-se pessoalmente a cada um de nós, mas é o próprio Cristo que se une também ao homem e à mulher que estão ao meu lado. E o pão é para mim e também para o outro. Assim Cristo une todos nós a si mesmo e une-nos todos uns aos outros. Na comunhão recebemos Cristo. Mas Cristo une-se de igual modo ao meu próximo: Cristo e o próximo são inseparáveis na Eucaristia. E assim todos nós somos um só pão, um só corpo. Uma Eucaristia sem solidariedade com os outros é uma Eucaristia abusada...
       Na Eucaristia, Cristo entrega-nos o seu corpo, doa-se a si mesmo no seu corpo e assim faz-nos seu corpo, une-nos ao seu corpo ressuscitado. Se o homem come o pão normal, este pão no processo da digestão torna-se parte do seu corpo, transformado em substância de vida humana. Mas na sagrada Comunhão realiza-se o processo oposto. Cristo, o Senhor, assimila-nos a si, introduz-nos no seu Corpo glorioso e assim todos juntos nos tornamos seu Corpo...

BENTO XVI, Audiência Geral, 10 de dezembro de 2010

segunda-feira, 16 de julho de 2012

2 Padrinhos masculinos? 2 Madrinhas? Nãoooooooooo

       Havia alguma confusão na interpretação do Código de Direito Canónico sobre padrinhos de Baptismo.
 
... A Santa Sé veio esclarecer totalmente a questão:

Uma criança NÃO pode ter dois homens padrinhos ou duas mulheres madrinhas. "Radicalmente não", diz a Santa Sé.

Um menino (a) para ser baptizado (a) precisa:
- de um padrinho e de uma madrinha
ou
- só de um padrinho
ou
- só de uma madrinha.
Claro, que para ser padrinho/madrinha mantêm-se as condições que já sabemos:
        Para alguém poder assumir o munus de padrinho de baptismo requer-se que seja católico, confirmado e já tenha recebido a Santíssima Eucaristia, e leve uma vida consentânea com a fé e as funções que vai desempenhar. (Código de Direito Canónico, can. 874, 3º).
 
Retirado da página da Paróquia de Tarouca.
Veja-se também o esclarecimento do pároco da Paróquia das Monteiras

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Encerramento da Catequese Paroquial (2)

       Sábado, 16 de junho de 2012: encerramento da catequese da paróquia de Nossa Senhora da Conceição, de Tabuaço, e que engloba os meninos da paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros e paróquia de São Salvador de Carrazedo, com um momento de convívio, no Centro Paroquial, e com a celebração da Eucaristia, que incluiu o batismo da Mariana e um ofertório solene englobando cada ano de catequese, com alusão a festa de catequese proposta nos diversos anos. A música de fundo é uma proposta para o 8.º ano de catequese: Deus precisa de ti, interpretada por João Pedro Neves.

»» Para as fotos do ENCERRAMENTO DA CATEQUESE 2012,

domingo, 17 de junho de 2012

Encerramento da catequese paroquial - 2011/2012

       15 de junho de 2012, encerramento da Catequese Paroquial de Tabuaço, com um momento descontraído de convívio e lanche, e celebração da Eucaristia, com a apresentação do simbolismo de cada ano de catequese, no ofertório, e a inclusão de um batizado, o da Mariana (Pais: Pedro Nuno e Maria do Carmo)...


 
 
»» Para ver mais fotos do ENCERRAMENTO DA CATEQUESE 2012,

domingo, 10 de junho de 2012

Festa das Bem-aventuranças 2012

       Sábado, 9 de junho, Eucaristia vespertina, mais uma festa da catequese, desta feita das Bem-aventuranças, dos adolescentes do 7.º ano. Tivemos a ventura de celebrarmos também o Sacramento do Batismo da Constança, filha do Sérgio e da Marlene, paroquianos de Tabuaço. Ficam algumas das imagens desta belíssima festa...
 
 
 
Para mais fotografias visitar: