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segunda-feira, 28 de junho de 2010

José Saramago, o último intelectual marxista

       Morreu José Saramago e com ele morreu o último de muitos que, ao longo do século XX, se comprometeram com o comunismo e encontraram na ideologia marxista o sentido da sua escrita ou da sua arte. O seu nome junta-se ao de Gorki, Aragon, Picasso, Jorge Amado ou Paul Éluard, uma lista enorme de intelectuais que passaram pelas fileiras dos partidos comunistas. Saramago foi, como homem e como escritor, um empenhado militante da ideologia que abraçou e que lhe marcou sempre a vida e a escrita. A ideologia enquanto visão global do homem, da sociedade, da religião que Marx e Engels teorizaram e que Lénine, Mao, Brejnev ou Fidel, entre outros, levaram à prática.
       Olhando para a vida e a escrita de José Saramago, o que mais impressiona é o facto de ele ter vivido e visto o comunismo ruir na URSS e nos países do bloco de Leste, como a RDA, a Hungria, a Checoslováquia, a Roménia, a Albânia, entre muitos outros, e ter silenciado esse facto. Confrontar-se com o sofrimento daqueles povos, já não nos relatos de Sakharov ou de Soljenítsin, mas nas imagens dos directos das televisões e passar ao lado da alegria com que abraçaram a liberdade.
       Nem o confronto directo com o balanço dramático das vítimas dos que se libertaram do comunismo o fez alguma vez ter escrito ou dito qualquer palavra. O silêncio de quem usa a escrita é mais visível. Os seus gestos foram de quem passava ao lado: logo a seguir à queda do muro de Berlim, candidatou-se nas listas do Partido Comunista à autarquia de Lisboa. Que balanço faria dos anos de comunismo e do sofrimento das pessoas que viveram na pele um dos dois grandes horrores do século XX?
       Saramago não passou, que se leia em nenhum dos seus textos, por qualquer crise. Não lhe doeu, não se interrogou, não sofreu com o terrível juízo que a história fez, sem remissão nem perdão, do totalitarismo comunista.
       De Saramago, mesmo quando o comunismo foi julgado pela História, não se conhece nenhum sobressalto, nenhuma angústia. Muitas vezes me interroguei se seria uma total e completa insensibilidade moral?
       É certo que, ao longo do século XX, muitos dos intelectuais marxistas viveram mergulhados na ideologia totalitária e nunca olharam à sua volta. Não foram todos, claro. Uns sobressaltaram-se logo em 1917, outros com o Pacto Germano-Soviético, na invasão da Checoslováquia, ou da Hungria, ou na chacina do Camboja, ou na loucura da Revolução Cultural Chinesa.
       José Saramago não. Viveu e morreu mergulhado num mundo que ruiu à sua volta e cujo dramático balanço foi feito com muita dor. Sem uma palavra, sem uma linha, sem uma lágrima por quantos (milhões) de pessoas, de famílias, de gente, de operários, camponeses ou intelectuais que, ao longo do século XX, morreram e sofreram em nome do comunismo por todo o lado onde o marxismo passou da revolução ao Poder.
       Nem um gesto teve quando lhe pediram apoio os dissidentes cubanos presos por Fidel. Nem mesmo quando Susan Sontag o confrontou com esse facto. Uma única dúvida subsiste, porém, quando se observa que visitou Cuba diversas vezes, mas nunca foi à Rússia libertada, apesar de ter sido convidado a lançar os seus livros e a debatê-los numa universidade de Moscovo - aí o confronto com a história seria certamente impossível de ignorar e de silenciar. Um confronto que, reconheço, é muito difícil de viver.

Zita Seabra (JN2010.06.27 ), in O Povo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago e as respostas finais

(16 de Novembro de 1922 - 18 de Junho de 2010)
       José Saramago morreu hoje, com 87 anos.
       Ainda que se discorde de muitos pontos de vista, o certo é que Saramago é um nome incontornável da literatura e da cultura portuguesa e mundial. Pessoalmente, lemos vários dos seus livros, com agrado. Tinha uma imaginação muito fértil. Nos dois mais relacionados com a religião, achámos sempe que foi sobretudo uma oportunidade de negócio. Um não crente, faz um texto sobre outros textos que tem a ver com os crentes. Quem compra, crentes e não crentes. Tudo o que leve a palavra religião, fé, polémica, vende certamente.
       Mas se muitas dúvidas José Saramago tinha sobre o fim último, sobre o que advinha para lá da morte, hoje sabe mais que nós, muito mais. Tem muitas mais respostas. Deus lhe dê o eterno descanso. E as certezas que agora tem, que nós um dia também possamos ser iluminados pela presença de Deus.
       Um conto ilustrado de José Saramago, "A Maior Flor do Mundo":

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Depois de Saramago, Caim

       Há polémicas que se convertem em oportunidades de reflexão.
       Se o objectivo de José Saramago - ao dizer que a Bíblia era um "manual de maus costumes", ou que Caim era vítima de Deus - era promover o seu mais recente romance conseguiu. Veja-se, contudo, por um lado a visão negativa sobre a Bíblia e os seus conteúdos, e por outro, o facto de partir da Bíblia, basear-se nas Escrituras Sagradas e discutir, dizendo que não tem fé, afirmando convictamente que Caim é vítima da ira de Deus. Até parece um homem de fé, revoltado com Deus, mas ainda assim crente, a falar de Deus.

       A reacção da Igreja, desta feita, foi muito ponderada, acentuando o direito que as pessoas têm a não terem fé, a consideração por aqueles que pensam e vivem de forma diferente. A tolerância da Igreja, ao mais alto nível, foi por demais evidente. Não deixando, naturalmente, de re-afirmar a fé, o valor na Sagrada Escritura, o contexto em que a Palavra de Deus, escrita em palavras humanas, surgiu. Neste sentido, a necessidade de conhecer não apenas a letra, mas também a mensagem, as verdades que o texto procura mostrar.

       A Bíblia, como nos diz o papa Bento XVI tem de ser lida como um todo. A Bíblia, Antigo e Novo Testamento, é a história que se entrelaça entre Deus e a humanidade. com avanços e retrocesso, com procura, descoberta e encontro, mas igualmente com infidelidades.
       O texto sagrado, mesmo não sendo considerado como tal, recolhe a história de um povo, as suas lutas e os seus fracassos, e igualmente da humanidade, procurando em tudo a presença de Deus.

       A história de CAIM e de ABEL é uma história de infortúnio, mas também de esperança e de compromisso.

       1 - Ao estudar-se a história dos dois irmãos verifica-se duas concepções de vida antagónicas: a vida das "cidades", sedentária, e a vida nómada. As duas formas de vida estão presentes no povo de Israel. Alguns defendem que o povo não se deve fixar, mas estar sempre em deslocação, lembrando que Abraão é um "arameu errante", sem terra. Outros, pelo contrário, sustentam a ideia de uma terra, dada por Deus em herança, ao seu povo, cumprindo a Sua promessa. O relato de Caim e Abel faz a opção clara pela "errância" do povo, predominando o pastoreio em vez a agricultura. Esta fixa-se na terra. Aquela avança de terra em terra.

       2 - Olhando para a história da humanidade de todos os tempos, verifica-se que a violência gratuita, os fratricídios (irmãos que matam irmãos) são frequentes: povos que se aniquilam, irmãos que guerreiam pela herança, que se matam por ciúmes e inveja, umas vezes por um pedaço de terra, outras vezes por uma ninharia. Ainda que possa haver sempre o ideal da reconciliação.
       Caim e Abel é a assumpção desta realidade histórica. O ciúme e a inveja levam um a matar o outro irmão.
Colocando-nos na posição do autor, diríamos que naquele tempo ele procurou ver um fundamento para haver tantas dissensões, para tantos conflitos. Encontrou essa justificação no pecado do egoísmo e do ciúme.

       3 - O elemento ESPERANÇA está presente em todo o relato, como em toda a Bíblia. Apesar da infidelidade humana, Deus acredita, Deus aposta no homem. Caim matou o irmão. Deus reafirma, e a fé também, o mandamento: "Não matarás". Quando alguém é morto, o "normal" é a vingança, a morte do agressor. Neste caso, o agressor é protegido, é filho de Deus, levará um sinal que impede que outros possam agir de forma violenta sobre ele. É uma história de amor e de salvação. Deus quer o nosso bem, em todas as circunstâncias, mesmo quando e apesar de nos desviarmos do bem.

       4 - Caim permanecerá como uma figura do lado mais obscuro que há em nós, mas em simultâneo na certeza que a descoberta de Deus nos conduz à salvação. O levantar a polémica sobre esta figura bíblica pode-nos levar, a nós crentes cristãos, a ler mais a Bíblia, a tentar conhecer melhor os personagens que atravessam a história da Salvação, do povo hebreu à Igreja. O texto de Saramago pode significar um desafio a que a personagem seja lida não apenas no romance mas sobretudo no texto original, o da Bíblia.

       Há leituras muitos diferentes da Bíblia. Certo. Respeitamos. Mas também temos o direito de fazer uma leitura diferente daquela que outros nos querem impor.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A Bíblia deve ser lida num todo

O Papa Bento XVI sublinhou, hoje, a importância de se entender a Bíblia como um todo, referindo que o pressuposto fundamental para a compreensão teológica dos livros sagrados é a unidade das Escrituras. 

O Sumo Pontífice, que se dirigia a professores, alunos e funcionários do Pontifício Instituto Bíblico, por ocasião do centésimo aniversário da sua fundação, referiu que nestes últimos cem anos aumentou o interesse pela Bíblia.
Graças ao Concílio Vaticano II e à Constituição Dogmática Dei Verbum, em cuja elaboração participou, a importância da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja tem sido mais compreendida, disse.
A Dei Verbum, acrescentou, veio sublinhar a legitimidade e a necessidade do método histórico-crítico na análise da Bíblia, reconhecendo três eixos essenciais: "a atenção aos géneros literários, o estudo do contexto histórico e o exame do que habitualmente se designa por Sitz im Leben (contexto vital)".

As declarações de Bento XVI surgem uma semana depois da controvérsia em Portugal em torno de declarações do escritor José Saramago, a propósito do lançamento do seu mais recente livro "Caim", nas quais o Nobel da Literatura português classificou a Bíblia como um "manual de maus costumes".  
Nas várias reacções a estas declarações foi sublinhado que Saramago fez uma leitura literal de parte do Antigo Testamento, esquecendo que a Bíblia é formada por dezenas de livros.

Lusa. Notícia recolhida na Sic online.
Veja a notícia mais desenvolvida na Agência Ecclesia.

domingo, 25 de outubro de 2009

Lobo Antunes, Deus, sofrimento, Saramago

"A ideia de Deus é cada vez mais lógica para mim"
Deus é uma pessoa, uma entidade com Quem me zango muitas vezes... o sofrimento, é uma coisa que continuo sem entender... Porque há-de haver pessoas que sofrem tanto, sem o merecerem, crianças que não fizeram mal a ninguém, mulheres, homens,... eu não me importava de sofrer porque sabia que ia ficar bom, mas há pessoas que estão a sofrer e vão morrer...
Sou um escritor naturalmente religioso...
Na cova do lobo não há ateus...

Saramago... é um assunto que pouco me interessa... uma pessoa que teve a infelicidade de dizer certas coisas... dos poucos ecos que me chegaram dele, tive medo, medo por mim, ... medo de chegar à idade dele com tão pouco sentido crítico... A Bíblia é um texto tão complexo! Tem de ser lido de um ponto de vista simbólico,... as pessoas já sofrem tanto sozinhas, não precisam que eu as ajude...
espero que tenha mantido a virgindade do olhar...

Respostas de António Lobo Antunes à jornalista Judite de Sousa, na Grande Entrevista, na RTP 1, sobretudo nos cinco minutos finais.
Já agora dê uma espreitadela no Blogue de Laurinda Alves.

Saramago como nós...

Depois de toda a polémica, verificámos que Saramago é como todos nós. Não é um super-herói. Não está acima de ninguém.
Quando ouvimos alguns ilustres fica-nos a sensação que se tornaram, com o tempo, intoleráveis. Por um lado, condenam todos os dogmatismos. Depois tornam-se eles próprios dogmáticos.
Veja-se, como exemplo, os comunistas são os que falam mais de liberdade. O comunismo, como ideologia levada à prática/imposta em alguns países, levou às maiores escravidões: China, Rússia, Cuba, Alemanha Democrática,...

Já todos fizemos a experiência: quando falámos de alguém dizemos tudo e mais alguma coisa.
Quando temos o próprio à nossa frente, surge a dificuldade em dizer o que dissemos da mesma maneira. Justificamo-nos. Até podemos dizer o mesmo, mas amaciamos as palavras e o tom.
Assim fez José Saramago. Como todos nós, quando Saramago se colocou frente a frente, na Sic, com o Pe. Carreira das Neves, e com o Pe. Tolentino Mendonça, no Expresso, a intolerância manifesta deu lugar à preocupação para justificar as afirmações.
Veja a conversa entre Saramago e Tolentino Mendonça, no Expresso.

Caim, o outro...

Do Boletim Paroquial Voz Jovem, extraímos este texto/reflexão sobre Caim, e os seus pais, Adão e Eva, e a mensagem salvadora de Deus, presente mesmo quando o o infortúnio bate á porta. O sinal colocado na fronte de Caim é o reduto de salvação. Ninguém lhe poderá tocar para lhe fazer mal. Deus protege mesmo que ele tenha errado. Continuamos filhos, mesmo na infidelidade a Deus e/ou ao próximo. Deus quer a nossa salvação. 

       Adão e Eva tiveram um menino. Deram-lhe o nome de Caim. Ele era o seu maior orgulho e alegria. Pouco tempo depois, tiveram outro menino. O seu entusiasmo com o segundo filho não foi tão grande. Deram-lhe o nome de Abel. 
       Quando os meninos cresceram, Caim tornou-se agricultor, lavrava a terra e plantava colheitas. Abel tornou-se pastor, levava os seus rebanhos às pastagens e cuidava das ovelhas quando pariam. Cada um, de seu modo, estava a domar o mundo selvagem. 
       Na altura das colheitas, Caim levou alguns dos seus frutos para oferecer a Deus. Ele estava habituado a ser o maior orgulho e alegria dos pais e ficou desiludido quando Deus pareceu não querer o presente que tinha trazido. 

       Abel trouxe um cordeirinho, a primeira cria de uma das suas ovelhas. Deus pareceu maravilhado Abel sentiu que, finalmente, ele era o orgulho e a alegria de alguém. 
       Caim ficou furioso com esta reviravolta inesperada, e o seu rosto ficou com um aspecto carregado. 
       “Porque estais tão zangado?” – perguntou Deus, “e porque deixais essa ira inflamar e crescer? Agora, o pecado está à tua porta. Ele quer dominar-te, mas tereis de ultrapassá-lo.” 
       Caim não prestou atenção ao aviso. Em vez disso, pedia a Abel para dar um passeio com ele. Quando passeavam pelos campos, virou-se contra o seu irmão e matou-o. 
       Deus não tardou em vir questionar Caim: “Onde está o teu irmão?” “Não sei” – retorquiu o jovem. “Não sou seu guardião”. 
       Mas Deus sabia o que tinha acontecido. “Há sangue derramado no chão e este clama por vingança. Agora, a própria matéria da terra será tua inimiga. Mais nenhuma colheita crescerá para ti. Tens de partir – para longe e para sempre”. 
       “Mas isso é demasiado terrível!” – gritou Caim. “Serei um vagabundo e qualquer pessoa que me encontrar irá matar-me.” 
       “Colocar-te-ei uma marca” – disse Deus, “para avisar as pessoas para que não te façam mal. Não quero mais mortes”

Mónica Aleixo, Voz Jovem. Ano XIII, n.º 113, Outubro 2009.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Caim ou igorância de Saramago?!

Sobre a polémica que Saramago quer impor aos crentes para vender um livro e sustentar a ilha espanhola em que vive, sugerimos a leitura dos comentários nos seguintes endereços: