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quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Frei DARLEI ZANON - SIMPLESMENTE JOSÉ

 FR. DARLEI ZANON (2021). Simplesmente José. Romance baseado na vida do Pai adotivo de Jesus. Apelação: Paulus, 392 páginas.


O Papa Francisco estabeleceu que, a partir de 8 de dezembro de 2020, 150.º aniversário da proclamação do Decreto Quemadmodum Deus, com o qual o Beato Pio IX, movido pelas graves e lutuosas circunstâncias em que se encontrava a Igreja, insidiada pela hostilidade dos homens, declarou São José Patrono da Igreja Católica, bem como dia dedicado à Bem-aventurada Virgem Imaculada e Esposa do castíssimo José, até 8 de dezembro de 2021, seja celebrado um especial Ano de São José, em que todos os fiéis, seguindo o seu exemplo, possam reforçar em cada dia a sua vida de fé no pleno cumprimento da vontade de Deus.
A partir do século XVIII começam a aparecer as chamadas "Vidas de Jesus", com o intento de preencher as lacunas existentes na sua biografia, nomeadamente naqueles trinta e poucos anos de vida oculta em Nazaré. Por outro lado, a tentativa de fundir os quatro evangelhos num só, para que houvesse uma maior harmonização, limando e eliminando factos ou palavras que não fosse inteiramente concordes. Este é, com efeito, um critério da autenticidade dos Evangelhos, pois não são cópias uns dos outros ao ponto de coincidirem nos mais ínfimos pormenores. O outro critério complementar é que coincidem nos grandes acontecimentos / ensinamentos. Os evangelhos, porém, não têm uma preocupação biográfica, mas tão somente se fixam no mistério da morte e da ressurreição de Jesus. Esta faz com que os discípulos se voltem a reunir e formem comunidade. A partir daí começam a "pregar", dizer, ensinar o que Jesus disse e fez. Logo, a transmissão leva também o cunho da interpretação de cada um dos apóstolos, ainda que uns possam "aperfeiçoar" o relato dos outros. Mais à frente, a necessidade de fixar por escrito, para não se correr o risco, depois da morte dos apóstolos, não haver fontes fidedignas do que aconteceu na Galileia, na Judeia e na Samaria, com o Mestre dos Mestres.
Neste ano especial de São José, o Frei Darlei Zanon procurou perfazer a (auto)biografia de São José, que relata o que sucedeu para se tornar o pai adotivo de Jesus, recuando à sua genealogia, como à de Maria, e relatando o compromisso, os sonhos, a fuga, o crescimento de Jesus e como Jesus ia surpreendendo a todos.
Já havia um ou outro livro sobre a "biografia" de Nossa Senhora, agora chega-nos a de São José.
É um livro muito interessante para ler neste ano especial, não apenas para perceber melhor a missão de São José, mas de algum modo entendermos mais facilmente a sensibilidade de Jesus. Vejamos a finalizar a autobiografia, em que Deus, em sonhos, comunica com São José, através do Seu anjo: 
José, encontraste graça junto de Deus. Não tenhas medo. A morte dura apenas um instante, não tem poder. O Altíssimo está à tua espera. José, o teu exemplo de humildade e retidão, de dedicação e cuidado, de trabalho e caridade, de justiça e fé serão impressos no tempo e cruzarão todos os séculos. Por pouco tempo, permanecerás afastado de Jesus e Maria, e dos demais familiares aqui deste mundo. Será apenas por alguns instantes, fragmentos de tempo. Em breve a família celeste estará completa. Não tenhas medo, José!
Assim disse o anjo. E eu confiei. Estou pronto. Sinto-me fraco fisicamente, mas muito forte espiritualmente. As minhas energias diminuem, porém a minha confiança no poder do Altíssimo só aumenta. Ele guiará Jesus a partir de agora. O Pai Celeste indicará a hora do seu Filho.

No mesmo sonho, eu respondi ao anjo, comunicando-me com o Senhor:
Obrigado, Adonai, meu Senhor e meu Deus. Cumpriram-se todos os dias da vida que me deste neste mundo, por isso peço-Te que fiques ao meu lado, até que a minha alma saia do corpo sem dor nem aflição. Conforta toda a minha família, para que não sejam tocados pela dor e perturbação. Permite-me em breve contemplar a Tua face, ver a glória de Teu rosto, ser abençoado com a Tua misericórdia e graça, Adonai.
Não temo. Já experimentei o amor no mundo, estou pronto para provar o amor junto do Criador. Superei há pouco meus quarenta anos, vivi tudo o que um homem pode esperar. Sou feliz, estou realizado. Não temo a separação momentânea de todos os que me completam.

O Autor:
Nascido no Brasil fez a sua profissão perpétua em 2007 e está em Portugal desde 2008. É conselheiro geral da Sociedade São Paulo tendo desempenhado a função de diretor editorial da PAULUS Editora, bem como de conselheiro regional e secretário da Sociedade São Paulo em Portugal. É formado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte e recebeu o título de Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo ISCTE-IUL

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Ricardo Figueiredo - NÃO EU, MAS DEUS - Carlo Acutis

RICARDO FIGUEIREDO (2021). Não eu, mas Deus. Biografia espiritual de Carlo Acutis. Apelação: Paulus Editora. 132 páginas.


Carlo Acutis morreu há 15 anos, tinha então 15 anos de idade, em 2006. Pouco antes, foi-lhe diagnosticada leucemia, um tipo de leucemia de tal forma agressiva que teria algumas semanas de vida. Foi beatificado, em Assis, no dia 10 de outubro de 2020, graças a um milagre registado no Brasil. Foi dado como exemplo pelo Papa Francisco na sua exortação pós-sinodal “Christus Vivit”: «Carlo Acutis não caiu na armadilha. Via que muitos jovens, embora parecendo diferentes, na verdade acabam por ser iguais aos outros, correndo atrás do que os poderosos lhes impõem através dos mecanismos de consumo e aturdimento. Assim, não deixam brotar os dons que o Senhor lhes deu, não colocam à disposição deste mundo as capacidades tão pessoais e únicas que Deus semeou em cada um. Na verdade, "todos nascem - dizia Carlo - como originais, mas muitos morrem como fotocópias". Não deixes que isto te aconteça!» (Papa Francisco, Christus Vivit, 106).
Nasceu em Londres, mas pouco depois os pais regressaram para Milão, onde cresceu. Depois de ter feito a sua primeira comunhão, aos 7 anos de idade, passou a ir à missa sempre que podia e a dedicar algum tempo à adoração eucarística.
"Antes de mais, Carlo teve uma consciência muito clara e profunda da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. Tinha uma rara perceção deste mistério, que hoje em dia, tantas vezes, é ignorado ou desprezado pelos católicos. Carlo sublinhava este aspeto de uma forma muito concreta. De tal forma que construiu com a ajuda dos pais uma exposição sobre os milagres eucarísticos no mundo. Viveu verdadeiramente como Apóstolo da Santa Missa e procurava que muitos participassem na celebração. Finalmente, podemos ver na sua vida um binómio fundamental: a comunhão e a adoração eucarísticas. Indissociáveis uma da outra, encontram em Carlo uma profundidade sem igual".
Carlo Acutis procurou ir a todos os locais onde Nossa Senhora apareceu, a Lurdes ou a Fátima, e aos locais onde se tinham dado os milagres eucarísticos. 
Era um génio da informática, e colocou esse talento ao serviço da evangelização.
Estes e outros dados podem e reflexões podem ser encontrados neste livro, que já vai na segunda edição.

O autor do livro: Ricardo Figueiredo nasceu em 1990, em Sintra. Presbítero desde 2015, exerceu os seus dois primeiros anos de ministério nas paróquias de Peniche, Atouguia da Baleia e Serra d’El Rei, onde conviveu com muitos jovens. Atualmente é pároco de Óbidos e diretor espiritual de vários jovens.

terça-feira, 30 de março de 2021

Giancarlo Paris - SÃO JOSÉ, o grande silencioso

 GIANCARLO PARIS (2021). São José, o grande silencioso. Prior Velho: Paulinas Editora. 96 páginas.


Como expectável, em ANO especial dedicado a SÃO JOSÉ, estão a surgir várias publicações, estudos, recuperação de documentos, que nos permitirão conhecer melhor o Pai (adotivo) de Jesus e esposo da Virgem Maria, guardião de Maria, de Jesus e da Igreja, homem justo e temente a Deus.
No dia 8 de dezembro de 2020, o Papa Francisco convocou este ano especialmente dedicado a São José, no 150.º aniversário do Decreto Quemadmodum Deus, com o qual o Beato Pio IX, declarou São José Patrono da Igreja Católica, num tempo de grande hostilidade para com a Igreja. De 8 de dezembro de 2020 a 8 de dezembro de 2021, "seja celebrado um especial Ano de São José, em que todos os fiéis, seguindo o seu exemplo, possam reforçar em cada dia a sua vida de fé no pleno cumprimento da vontade de Deus"(Decreto sobre o dom das indulgências).

Na Carta Apostólica PATRIS CORDE, o Papa convoca-nos à oração: Só nos resta implorar, de São José, a graça das graças: a nossa conversão. Dirijamos-lhe a nossa oração:

Salve, guardião do Redentor e esposo da Virgem Maria!
A vós, Deus confiou o seu Filho;
em vós, Maria depositou a sua confiança;
convosco, Cristo tornou-Se homem.
Ó Bem-aventurado José,
mostrai-vos pai também para nós
e guiai-nos no caminho da vida.
Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem,
e defendei-nos de todo o mal. Ámen.

Neste livro do bolso, o autor conduz-nos pelos Evangelhos, nas referências a São José e na ligação às promessas feitas por Deus ao Seu povo, no Antigo Testamento. A ligação, por exemplo, de São José a José, filho de Jacob, e como ambos têm a graça de Deus lhes falar através dos sonhos. Dos evangelhos, particularmente o de São Mateus e o de São Lucas, por apresentarem evangelhos de infância.
Num outro capítulo, a figura de São José no magistério dos Papas e a evolução na importância crescente do Esposo de Maria na vida da Igreja e da liturgia.
O Autor disponibiliza o terço de São José e as orações de São José. Referência especial para o túmulo de São José, onde se crê que foi sepultado, em Igreja que a arqueologia recuperou.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

PAPA FRANCISCO - VIDA APÓS A PANDEMIA

PAPA FRANCISCO (2020). Vida após a pandemia. Prior Velho: Paulinas Editora. 56 páginas.
Será impossível alguém falar em 2020 sem falar na pandemia do novo corona vírus e na respetiva doença que provoca, a Covid-19. Desde a primeira hora, a Igreja respondeu à chamada, quer a dar o exemplo no confinamento, suspendendo celebrações, quer na reflexão sobre o momento e sobre as consequências devastadoras sobretudo nos povos e nas pessoas mais vulneráveis, e na ajuda solidária e concreta a pessoas mais desfavorecidas, através de diversos organismos presentes no terreno, quer com a multiplicação de donativos para hospitais, distribuindo por várias países, em todos os continentes, e lançado outras campanhas de angariação de fundos em prol de hospitais ou de países que vivem situações verdadeiramente aflitivas.
O Santo Padre, o Papa Francisco, sentiu o distanciamento físico dos fiéis e a aflição dos serviços públicos para tentar preservar a vida e a saúde das pessoas. A praça de São Pedro espelhou bem o confinamento, esvaziando-se. No dia 27 de março, vimo-lo, pesaroso, alquebrado, subindo a praça de São Pedro, para um momento extraordinário de oração, com a Bênção Urbi et Orbi (sobre a cidade e o mundo). Na sua reflexão, o Papa partiu do texto de São Marcos (4, 35-41), seguindo com uma espécie de refrão: "Porque sois tão medrosos?". Pergunta feita por Jesus aos apóstolos, a atravessar uma tempestade. A partir deste trecho do Evangelho, o Papa enquadra a pandemia, a tempestade, o medo, mas também a confiança em Deus que age por todos aqueles que estão envolvidos.

"«Ao entardecer…» (Mc 4, 35): assim começa o Evangelho, que ouvimos. Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos". Uma reflexão tocante, assomando a dor partilhada, mas também a firmeza da fé. "O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança... Desta colunata que abraça Roma e o mundo desça sobre vós, como um abraço consolador, a bênção de Deus. Senhor, abençoa o mundo, dá saúde aos corpos e conforto aos corações! Pedes-nos para não ter medo; a nossa fé, porém, é fraca e sentimo-nos temerosos. Mas Tu, Senhor, não nos deixes à mercê da tempestade. Continua a repetir-nos: «Não tenhais medo!» (Mt 14, 27). E nós, juntamente com Pedro, «confiamos-Te todas as nossas preocupações, porque Tu tens cuidado de nós» (cf. 1 Ped 5, 7)".

Este é apenas um dos textos incluído neste livrinho. Claro que há forma de ler as intervenções do Papa nas plataformas do Vaticano, mas reunir as reflexões num livro, permite-nos voltar a ler e sublinhar algumas passagens mais tocantes. Vejamos como os títulos atribuídos às intervenções do Papa falam deste momento, mas procuram, já, lançar desafios: "A preparação para o depois é importante", "Como uma nova chama", "Um exército invisível", "Um plano para ressurgir", "O egoísmo: um vírus ainda pior", "Para os jornais de rua", e "Superar os desafios globais".

Na mensagem Urbi et Orbi, no dia de Páscoa, mais uma enxurrada de fé e confiança, e desafio: "Este não é tempo para a indiferença, porque o mundo inteiro está a sofrer e deve sentir-se unido ao enfrentar a pandemia... Este não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas... Este não é tempo para divisões. Cristo, nossa paz, ilumine a quantos têm responsabilidades nos conflitos, para que tenham a coragem de aderir ao apelo a um cessar-fogo global e imediato em todos os cantos do mundo. Este não é tempo para continuar a fabricar e comercializar armas, gastando somas enormes que deveriam ser usadas para cuidar das pessoas e salvar vidas... Este não é tempo para o esquecimento. A crise que estamos a enfrentar não nos faça esquecer muitas outras emergências que acarretam sofrimentos a tantas pessoas".

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Quarta-feira de Cinzas 2020 - Homilia do Papa Francisco

Começamos a Quaresma com a receção das cinzas: «Lembra-te que és pó da terra e à terra hás de voltar» (cf. Gn 3, 19). O pó sobre a cabeça faz-nos ter os pés assentes na terra: recorda-nos que viemos da terra e, à terra, voltaremos; isto é, somos débeis, frágeis, mortais. No longo decorrer dos séculos e milénios, passamos num ai; comparados com a imensidão das galáxias e do espaço, somos minúsculos; somos um bocado de pó no universo. Mas somos o pó amado por Deus. Amorosamente o Senhor recolheu nas suas mãos o nosso pó e, nele, insuflou o seu sopro de vida (cf. Gn 2, 7). Por isso somos um pó precioso, destinado a viver para sempre. Somos a terra sobre a qual Deus estendeu o seu céu, o pó que contém os seus sonhos. Somos a esperança de Deus, o seu tesouro, a sua glória.

Deste modo, a cinza recorda-nos o percurso da nossa existência: do pó à vida. Somos pó, terra, barro; mas, se nos deixarmos plasmar pelas mãos de Deus, tornamo-nos uma maravilha. Todavia muitas vezes, sobretudo nas dificuldades e na solidão, vemos só o nosso pó! Mas o Senhor encoraja-nos: o pouco que somos, aos olhos d’Ele tem valor infinito. Coragem! Nascemos para ser amados; nascemos para ser filhos de Deus.

No início da Quaresma, amados irmãos e irmãs, consciencializemo-nos disto. Porque a Quaresma não é o tempo para fazer cair sobre o povo inúteis moralismos, mas para reconhecer que as nossas míseras cinzas são amadas por Deus. É tempo de graça, para acolher o olhar amoroso de Deus sobre nós e, assim contemplados, mudar de vida. Estamos no mundo para caminhar da cinza à vida. Então, não pulverizemos a esperança, nem incineremos o sonho que Deus tem sobre nós. Não cedamos à resignação. Dizes tu: «E como posso ter confiança? O mundo vai mal, o medo alastra, há tanta malvadez e a sociedade está a descristianizar-se...» Mas tu, não acreditas que Deus pode transformar o nosso pó em glória?
A cinza, que recebemos na testa, abala os pensamentos que temos na cabeça. Lembra-nos que nós, filhos de Deus, não podemos viver correndo atrás do pó que desaparece. Pode descer da cabeça ao coração esta pergunta: «Para que vivo eu?» Se vivo para as coisas do mundo que passam, volto ao pó, renego aquilo que Deus fez em mim. Se vivo só para arrecadar algum dinheiro e divertir-me, procurar um certo prestígio, fazer carreira, então estou a viver de pó. Se julgo má a vida, só porque não sou tido suficientemente em consideração, ou não recebo dos outros o que acho merecer, estou ainda com o olhar no pó.

Não estamos no mundo para isso. Valemos muito mais, vivemos para muito mais: para realizar o sonho de Deus, para amar. A cinza pousa nas nossas testas, para que, nos corações, se acenda o fogo do amor. Com efeito, somos cidadãos do céu. E o amor a Deus e ao próximo é o passaporte para o céu; é o nosso passaporte. Não poderão valer-nos os bens terrenos que possuímos – são pó que desaparece! –, mas salvar-nos-á o amor que oferecemos na família, no trabalho, na Igreja, no mundo: tal amor permanecerá para sempre.

A cinza que recebemos recorda-nos um segundo percurso: o percurso contrário, que vai da vida ao pó. Olhamos em redor e vemos pó de morte, vidas reduzidas a cinzas: escombros, destruição, guerra. Vidas de bebés inocentes não acolhidos, vidas de pobres rejeitados, vidas de idosos descartados. Continuamos a destruir-nos, a fazer-nos voltar ao pó. E quanto pó existe nas nossas relações! Vejamos em nossa casa, nas famílias: quantas brigas, quanta incapacidade de neutralizar os conflitos, quanta dificuldade em pedir desculpa, perdoar, recomeçar, enquanto com tanta facilidade reclamamos os nossos espaços e direitos! Há tanto pó que suja o amor e embrutece a vida. Mesmo na Igreja, a casa de Deus, deixamos depositar tanto pó, o pó do mundanismo.

E olhemo-nos dentro, no coração… Quantas vezes sufocamos o fogo de Deus com a cinza da hipocrisia! A hipocrisia: é a imundície que hoje, no Evangelho, Jesus pede para remover. De facto, o Senhor não diz apenas para fazer obras de caridade, rezar e jejuar, mas que tudo isso seja feito sem fingimento, sem falsidade nem hipocrisia (cf. Mt 6, 2.5.16). E, contudo, quantas vezes fazemos algo só para ser louvados, para meter figura, para me vangloriar! Quantas vezes nos proclamamos cristãos e, no coração, cedemos sem problemas às paixões que nos escravizam! Quantas vezes pregamos uma coisa e fazemos outra! Quantas vezes nos mostramos bons por fora e dentro incubamos rancores! Quanta duplicidade temos no coração... É pó que suja, cinza que sufoca o fogo do amor.

Precisamos de limpar o pó que se deposita no coração. Como fazer? Ajuda-nos o veemente apelo de São Paulo na segunda Leitura: «Deixai-vos reconciliar com Deus!» Paulo não o exige; suplica-o: «Em nome de Cristo suplicamo-vos: deixai-vos reconciliar com Deus!» (2 Cor 5, 20). Nós teríamos dito: «Reconciliai-vos com Deus». Mas ele, não; usa o passivo: deixai-vos reconciliar. Porque a santidade não é obra nossa; é graça. Sozinhos, não somos capazes de tirar o pó que suja o coração, pois só Jesus, que conhece e ama o nosso coração, pode curá-lo. A Quaresma é tempo de cura.

Que fazer então? No caminho rumo à Páscoa, podemos efetuar duas passagens: a primeira, do pó à vida, da nossa humanidade frágil à humanidade de Jesus, que nos cura. Podemos colocar-nos diante do Crucificado, ficar lá olhando-O e repetindo: «Jesus, Vós me amais; transformai-me! Jesus, Vós me amais; transformai-me…» E depois de ter acolhido o seu amor, depois de ter chorado à vista deste amor, a segunda passagem, para não voltar a cair da vida ao pó: vai-se receber o perdão de Deus, na Confissão, porque lá o fogo do amor de Deus consome a cinza do nosso pecado. O abraço do Pai na Confissão renova-nos por dentro, limpa-nos o coração. Deixemo-nos reconciliar, para viver como filhos amados, pecadores perdoados, doentes curados, viandantes acompanhados. Para amar, deixemo-nos amar; deixemo-nos erguer, para caminhar rumo à meta – à Páscoa. Teremos a alegria de descobrir que Deus nos ressuscita das nossas cinzas.

terça-feira, 16 de julho de 2019

PAPA FRANCISCO - Catequeses sobre o PAI-NOSSO

A oração do Pai-Nosso é a oração dos cristãos. A única oração que Jesus ensinou aos seus discípulos. Ensina-nos a rezar. É o pedido que Lhe fazem os Seus discípulos. Há de ser também o nosso pedido, quando nos falham as palavras ou quando temos palavras a mais. O importante não é a quantidade de palavras, mas falar com o coração e com a vida. O Vosso Pai celeste bem sabe do que precisais.
Na oração do Pai-Nosso, Jesus ensina-nos o essencial. Faz-nos olhar para Deus como "Paizinho", "Papai", um tratamento carinhoso, delicado, reconhecendo que Deus é Pai que nos ama como Pai e como Mãe, sempre, em todas as circunstâncias.
Já muito se escreveu sobre o Pai-Nosso e talvez muito se venha a escrever, tal a densidade desta oração, tal a sua simplicidade. Não é uma oração longa, não procura ser uma obra de arte, dirigida a uns quantos iluminados. É uma oração que nos faz perceber o Deus de Jesus Cristo, a quem podemos e devemos tratar por Paizinho, cuja soberania se manifesta no amor, na bondade e na misericórdia, que nos envolve com o "nós", pois não o tratamos por Pai, se não nos tratarmos por irmãos. O que pedimos é para nós. o "eu" não tem lugar. O relacionamento com os outros pressupõe darmos largas ao perdão, o que recebemos de Deus, somos-lhe sempre devedores, a começar pela própria vida. E se recebemos também o partilhamos. Perdoamos porque Ele nos perdoa! Como Pai.
O Papa Francisco, nas Audiências Gerais das quartas-feiras, de 12 de dezembro de 2018 ao dia 22 de maio último, debruçou-se sobre a oração do Senhor. 16 catequeses, sublinhando alguns aspetos que são percetíveis ao longo da vida de Jesus. Estas catequese podem ser lidas ou relidas na página do Vaticano (http://w2.vatican.va), mas estão também disponíveis num livrinho, publicado pelo Secretariado Nacional da Liturgia: Papa Francisco. Catequeses sobre o Pai-Nosso. Esta é uma opção para quem gosta de manusear o papel e de sublinhar o texto. Por outro lado, é garantia do que se lê foi mesmo escrito e/ou pronunciado pelo Papa. Sabe-se que há muitas frases e textos atribuídos ao Papa, sem que correspondam minimamente a alguma intervenção sua.
Vamos à leitura e a algumas expressões papais nas diferentes catequeses: "A oração transforma sempre a realidade, sempre. se não mudam as coisas à nossa volta, pelo menos mudamos nós, muda o nosso coração", "Deus procura-te, mesmo que tu não o procures. Deus ama-te, ainda que tu o tenhas esquecido. Deus vislumbra em ti uma beleza, não obstante tu penses que desperdiçaste inutilmente todos os teus talentos. Deus é não só um pai, mas é como uma mãe que nunca deixa de amar a sua criatura. Por outro lado, há uma “gestação” que dura para sempre, muito além dos nove meses da gestação física; trata-se de uma gestação que gera um circuito infinito de amor.
Para o cristão, rezar significa dizer simplesmente “Aba”, dizer “Papá”, “Paizinho”, “Pai” mas com a confiança de uma criança", "Eis o que muitas vezes é o nosso amor: uma promessa com dificuldade para se manter, uma tentativa que depressa evapora e seca, quase como quando de manhã nasce o sol e enxuga o orvalho da noite... Desejosos de amar, depois entramos em conflito com os nossos limites, com a pobreza das nossas forças: incapazes de manter uma promessa que nos dias de graça nos parecia fácil de realizar. No fundo também o apóstolo Pedro teve medo e fugiu. O apóstolo Pedro não foi fiel ao amor de Jesus. Há sempre esta fragilidade que nos faz cair. Somos mendigos que no caminho corremos o risco de nunca encontrar completamente aquele tesouro que procuramos desde o primeiro dia da nossa vida: o amor", "hoje a tatuagem está na moda: “Eu gravei a tua imagem na palma das minhas mãos”. Fiz uma tatuagem de ti nas minhas mãos. Estou nas mãos de Deus e não a possa cancelar. O amor de Deus é como o amor de uma mãe, que nunca se esquece. E se uma mãe se esquecer? “Eu não me esquecerei”, diz o Senhor. Este é o amor perfeito de Deus, assim somos amados por Ele. Se também todos os nossos amores terrenos se despedaçassem e nas nossas mãos ficasse apenas pó, haverá sempre para todos nós, ardente, o amor único e fiel de Deus."Nos Evangelhos encontramos uma multidão de mendigos que suplicam libertação e salvação. Há quem pede o pão, quem a cura; alguns a purificação, outros a vista; ou que uma pessoa querida possa reviver... Jesus nunca fica indiferente face a estes pedidos e padecimentos... A oração cristã começa por este nível. Não é um exercício para ascetas; parte da realidade, do coração e da carne de pessoas que vivem em necessidade, ou que partilham a condição de quem não dispõe do necessário para viver... O pão que o cristão pede na oração não é o “meu” pão mas o “nosso”... O pão que pedimos ao Senhor na oração é o mesmo que um dia nos acusará. Repreender-nos-á o pouco hábito de o repartir com quem está próximo, o pouco hábito de o repartir. Era um pão oferecido à humanidade, e ao contrário foi comido só por alguns: o amor não pode suportar isto. O nosso amor não o pode suportar; nem sequer o amor de Deus pode suportar este egoísmo de não repartir o pão".

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Papa Francisco - A força da vocação

PAPA FRANCISCO (2018). A força da vocação. A vida consagrada hoje. Conversa com Fernando Prado, cmf. Prior Velho: Paulinas Editora. 104 páginas.

A figura do Papa Francisco é incontornável na atualidade e a simpatia que foi granjeando não esmoreceu; é escutado com agrado e apreciado nos gestos que assume, ainda que esteja também sujeito à crítica, por vezes daqueles que estão mais próximos e que deveriam ser amigos e defensores dos desafios que o Papa tem lançado à Igreja e ao mundo.
Os meios de comunicação social do Vaticano, mas também outros meios de comunicação, fazem-nos chegar todos os dias intervenções, mensagens, discursos, homilias do Papa Francisco, para já não falar das frases ou textos que lhe são atribuídos e que não foram por ele proferidos, mesmo que alguns depois defendam, como desculpa e justificação, que tais palavras correspondem à sua sensibilidade e que poderia ter sido ele a dizê-las. Enfim!
Também por isso, é mais garantido ir às fontes, procurar sítios seguros e de confiança, como as páginas do Vaticano na Internet, conferir se esta ou aquela mensagem que gostamos e queremos partilhar corresponde efetivamente às palavras do Papa, até porque às vezes, juntando uma foto do Papa, se divulga uma mensagem pessoal. Pode ser interessante, mas, se intencional, não deixa de ser aproveitamento da "imagem" para vender, para ter mais likes!
Há muita coisa escrita sobre o Papa Francisco, mas nada melhor, que ler o que ele diz e/ou escreve. Um comentário sobre o seu magistério, sobre as suas intervenções, é interessante e pode ajudar-nos a captar melhor a mensagem, as antes ou depois do comentário, é essencial que se leia e/ou se ouça o Papa em primeira mão. As homilias, as mensagens, os discursos, outras intervenções, por exemplo, no twitter, estão acessíveis e a qualquer momento pode serem consultados. Uma entrevista, no entanto, apresenta curiosidades, pois, neste como em outros casos, o entrevistador faz questão de descrever o espaço da entrevista, os gestos, a postura, o sorriso, os silêncios, o entusiasmo do Papa, e a interpretação das "emoções" que o papa vai deixando transparecer.
Nesta entrevista em concreto, o tema fulcral é a vida consagrada no tempo atual, revisitando o passado, olhando para o presente, perspetivando o futuro. Por ocasião da celebração do Ano de Vida Consagrada (2015-2016), o Papa endereçou uma Carta aos Consagrados. Motivado por esta missiva e por este ano da vida consagrada, o e. Fernando Prado, missionário claretiano, solicitou esta entrevista ao Papa Francisco.
O discurso simples, com imagens, pequenas histórias vividas na primeira pessoa ou que lhe foram comunicadas por alguém, boa disposição, tocando nos pontos essenciais que, segundo o Papa, é preciso alterar para que a vida consagrada continue ser profética, valorizando a pobreza, em detrimento das seguranças e das riquezas materiais, a oração, o estudo, o discernimento vocacional, a inserção na vida e na missão da Igreja, conservar o que aproxima de Cristo, do Evangelho e das pessoas, corrigir os desvios, tratar os consagrados, religiosos respeitando a sua identidade e o carisma das suas congregações, evitando "escravidão" dos mesmos ao serviço de algum projeto eclesial, diálogo entre consagrados e o Bispo diocesano, são alguns do temas que vale a pena refletir. Mais uma vez, o que vale para os consagrados, vale também para os Seminários e para as vocações, mas vale também para os cristãos, no seu conjunto, nomeadamente na questão do discernimento vocacional, do estudo, da vida de oração, da inserção à Igreja, do compromisso missionário, do respeito pelo tempo de cada um, pelo crescimento da fé.
O Papa coloca, nesta entrevista, mais uma vez o foco no discernimento. As regras são importantes, mas mais importantes são as pessoas, com as suas limitações e com os seus dons. Vincado também o diálogo jovens-idosos, vale para a Igreja, para a sociedade, vale para os Institutos de Vida consagrada. "Os jovens caminham rapidamente, mas os mais velhos conhecem o caminho". Cuidado com as generalizações. A rigidez é negativa. "O verdadeiro amor nunca é rígido". Caminhar em conjunto... Não existem soluções mágicas. É esse o meu critério: o triunfalismo nunca é de Jesus. O triunfo de Jesus, o verdadeiro triunfo, é sempre a Cruz".
E, claro, muito cuidado com o clericalismo. Na formação, 4 pilares: vida espiritual, vida comunitária, vida de estudo e vida apostólica. "Condescendência, de Jesus, que desceu para se inserir no povo. Ora o clericalismo é o oposto da inserção... O clericalismo é a raiz de muitos problemas... Inclusive, por trás dos abusos, além de outras imaturidades e neuroses, está o clericalismo. É preciso ter muito cuidado com isto na formação. É necessário discernir e ajudar a clarificar imaturidades e acompanhar o formando num saudável crescimento".

domingo, 31 de março de 2019

Homilia do Papa Francisco em Marrocos - 31/03/2019

«Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos» (Lc 15, 20).

       Assim nos leva o Evangelho ao coração da parábola onde se apresenta o comportamento do pai quando vê regressar o seu filho: comovido até às entranhas, não espera que ele chegue a casa, mas surpreende-o correndo ao seu encontro. Um filho ansiosamente esperado. Um pai comovido ao vê-lo regressar.
       Mas não foi a única vez que o pai correu. A sua alegria seria incompleta sem a presença do outro filho. Por isso, sai também ao seu encontro, para convidá-lo a tomar parte na festa (cf. 15, 28). Contudo o filho mais velho parece não gostar das festas de boas-vindas, custava-lhe suportar a alegria do pai, não reconhece o regresso do seu irmão: «esse teu filho» (15, 30) – dizia. Para ele, o irmão continua perdido, porque já o perdera no seu coração.
       Incapaz de participar na festa, não só não reconhece o irmão, mas tão-pouco reconhece o pai. Prefere ser órfão à fraternidade, o isolamento ao encontro, a amargura à festa. Custa-lhe não só compreender e perdoar a seu irmão, mas também aceitar ter um pai capaz de perdoar, disposto a esperar e velar por que ninguém fique fora; enfim, um pai capaz de sentir compaixão.

       No limiar daquela casa, parece manifestar-se o mistério da nossa humanidade: por um lado, temos a festa pelo filho reencontrado e, por outro, um certo sentimento de traição e indignação por se festejar o seu regresso. Por um lado, a hospitalidade para quem experimentara tal miséria e sofrimento, que chegara ao ponto de exalar o cheiro dos porcos e querer alimentar-se com o que eles comiam; por outro, a irritação e o ressentimento por se dar lugar a alguém que não era digno nem merecedor de tal abraço.
       Deste modo, mais uma vez vem à luz a tensão que se vive no meio da nossa gente e nas nossas comunidades, e até dentro de nós mesmos. Uma tensão que, a partir de Caim e Abel, mora em nós e que somos convidados a encarar: Quem tem direito a permanecer entre nós, ocupar um lugar à nossa mesa e nas nossas assembleias, nas nossas solicitudes e serviços, nas nossas praças e cidades? Parece continuar a ressoar aquela pergunta fratricida: Porventura sou eu o guardião do meu irmão? (cf. Gn 4, 9).
       No limiar daquela casa, surgem as divisões e desencontros, a agressividade e os conflitos que sempre atingirão as portas dos nossos grandes desejos, das nossas lutas pela fraternidade e pela possibilidade de cada pessoa experimentar desde já a sua condição e dignidade de filho.
       Mas no limiar daquela casa brilhará também em toda a sua claridade, sem lucubrações nem desculpas que lhe tirem força, o desejo do Pai: que todos os seus filhos tomem parte na sua alegria; que ninguém viva em condições desumanas como seu filho mais novo, nem na orfandade, isolamento ou amargura como o filho mais velho. O seu coração quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (cf. 1 Tm 2, 4).

       Sem dúvida, há tantas circunstâncias que podem alimentar a divisão e o conflito; são inegáveis as situações que podem levar a afrontar-nos e dividir-nos. Não podemos negá-lo. Estamos sempre ameaçados pela tentação de crer no ódio e na vingança como formas legítimas de obter justiça de maneira rápida e eficaz. Mas a experiência diz-nos que a única coisa que conseguem o ódio, a divisão e a vingança é matar a alma da nossa gente, envenenar a esperança dos nossos filhos, destruir e fazer desaparecer tudo o que amamos.
       Por isso, Jesus convida-nos a fixar e contemplar o coração do Pai. Só a partir dele poderemos, cada dia, redescobrir-nos como irmãos. Só a partir deste horizonte amplo, capaz de nos ajudar a superar as nossas míopes lógicas de divisão, é que seremos capazes de alcançar um olhar que não pretenda obscurecer ou desmentir as nossas diferenças, buscando talvez uma unidade forçada ou uma marginalização silenciosa. Só se formos capazes diariamente de levantar os olhos para o céu e dizer Pai Nosso, é que poderemos entrar numa dinâmica que nos possibilite olhar e ousar viver, não como inimigos, mas como irmãos.

       «Tudo o que é meu é teu» (Lc 15, 31): diz o pai ao filho mais velho. E não se refere apenas aos bens materiais, mas a ser participante também do seu próprio amor e compaixão. Esta é a maior herança e riqueza do cristão. Com efeito, em vez de nos medirmos ou classificarmos com base numa condição moral, social, étnica ou religiosa, podemos reconhecer que existe outra condição que ninguém poderá apagar ou aniquilar, pois é puro dom: a condição de filhos amados, esperados e festejados pelo Pai.
       «Tudo o que é meu é teu», incluindo a minha capacidade de compaixão: diz-nos o Pai. Não caiamos na tentação de reduzir a nossa filiação a uma questão de leis e proibições, de deveres e seu cumprimento. A nossa filiação e a nossa missão nascerão, não de voluntarismos, legalismos, relativismos ou integrismos, mas da imploração feita por pessoas crentes que diariamente rezam com humildade e constância: Venha a nós o vosso Reino.
       A parábola do Evangelho deixa aberto o final. Vemos o pai rogar ao filho mais velho que entre e participe na festa da misericórdia; mas o evangelista nada diz acerca da decisão que ele tomou. Ter-se-á associado à festa? Podemos pensar que este final aberto sirva para cada comunidade, cada um de nós o escrever com a sua vida, o seu olhar e atitude para com os outros. O cristão sabe que, na casa do Pai, há muitas moradas; de fora, ficam apenas aqueles que não querem tomar parte na sua alegria.

       Queridos irmãos, quero agradecer-vos pela forma como dais testemunho do Evangelho da misericórdia nestas terras. Obrigado pelos esforços feitos para tornardes as vossas comunidades oásis de misericórdia. Animo-vos e encorajo a continuar a fazer crescer a cultura da misericórdia, uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença nem desvie o olhar ao ver o seu sofrimento (cf. Carta ap. Misericordia et misera, 20). Continuai ao lado dos humildes e dos pobres, daqueles que são rejeitados, abandonados e ignorados; continuai a ser sinal do abraço e do coração do Pai.
       Que o Misericordioso e o Clemente – como tantas vezes O invocam os nossos irmãos e irmãs muçulmanos – vos fortaleça e faça frutificar as obras do vosso amor.


Papa Francisco
Complexo Desportivo Príncipe Moulay Abdellah - Rabat, 31 de março de 2019)

terça-feira, 19 de junho de 2018

Pe. TOLENTINO MENDONÇA - ELOGIO DA SEDE

TOLENTINO MENDONÇA, José (2018). Elogio da Sede. Lisboa: Quetzal. 178 páginas.
O Pe. José Tolentino Mendonça foi convidado, na última Quaresma (2018) para orientar os Exercícios Espirituais do Papa Francisco e da Cúria Romana. Este Livro recolhe as suas reflexões que tem como ponto de ancoragem o encontro de Jesus com a Samaritana. Ao abeirar-se do poço de Jacob, Jesus pede à mulher samaritana: dá-me de beber. Em Jesus, Deus faz-Se sedento da humanidade. A nossa sede de sentido tem correspondência à sede de Deus por nós. No final, é Jesus a Água viva que sacia a nossa sede, a da Samaritana, a minha sede e a tua sede.

       O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura publicou os textos, as intervenções do Pe. Tolentino Mendonça, dirigidas ao Papa e à Cúria Romana, mas que é útil também para nós. Siga a hiperligação: 

terça-feira, 22 de maio de 2018

Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja

Maria, Mãe da Igreja…
A Cruz, a Hóstia e a Virgem Maria 

       O Papa Francisco propôs a toda a Igreja a memória (litúrgica) da Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, a celebrar na segunda-feira a seguir à solenidade de Pentecostes, este ano a 21 de maio. O decreto Ecclesia Mater foi publicado a 11 de fevereiro de 2018, no 160.º aniversário da primeira aparição da Virgem Maria em Lurdes. 
       Há lugares e ordens religiosas que já celebravam sob esta invocação. O Papa quis que esta invocação fosse celebrada em toda a Igreja. 
       O decreto dá a tónica deste sublinhado: «A Mãe, que estava junto à cruz (cf. Jo 19, 25), aceitou o testamento do amor do seu Filho e acolheu todos os homens, personificado no discípulo amado, como filhos a regenerar à vida divina, tornando-se a amorosa Mãe da Igreja, que Cristo gerou na cruz, dando o Espírito. Por sua vez, no discípulo amado, Cristo elegeu todos os discípulos como herdeiros do seu amor para com a Mãe, confiando-a a eles para que estes a acolhessem com amor filial». 
       A vida dos cristãos há de assentar em três pilares, como salienta o mesmo decreto: «Esta celebração ajudará a lembrar que a vida cristã, para crescer, deve ser ancorada no mistério da Cruz, na oblação de Cristo no convite eucarístico e na Virgem oferente, Mãe do Redentor e dos redimidos». 
       Na verdade, a promoção desta devoção visa favorecer o sentido materno da Igreja nos pastores, nos religiosos e nos leigos. Integra, se quisermos, a revolução da ternura tantas vezes proposta pelo Papa Francisco. 
       No comentário ao decreto publicado, o Cardeal Robert Sarah (Prefeito da Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos), enfatiza o conteúdo desta devoção mariana: «O desejo é que esta celebração, agora para toda a Igreja, recorde a todos os discípulos de Cristo que, se queremos crescer e enchermo-nos do amor de Deus, é preciso enraizar a nossa vida sobre três realidades: na Cruz, na Hóstia e na Virgem – Crux, Hostia et Virgo. Estes são os três mistérios que Deus deu ao mundo para estruturar, fecundar, santificar a nossa vida interior e para nos conduzir a Jesus Cristo. São três mistérios a contemplar no silêncio». 
       O sim de Maria faz d’Ela a Mãe de Jesus. A Igreja é o Corpo de Cristo e nós somos os membros deste corpo. Maria é Mãe de todo o Corpo, de Cristo, em primeiro lugar, e dos membros, que somos nós. É, com propriedade, Mãe nossa, Mãe da Igreja. Com Ela aprendamos a doçura da intercessão e da proximidade a Jesus.

Texto publicado originalmente na Voz de Lamego, 22 de maio de 2018

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Papa FRANCISCO - DEUS É JOVEM

FRANCISCO (2018). Deus é Jovem. Uma conversa com Thomas Leoncini. Lisboa: Planeta. 128 páginas.
       Tudo o que traz o nome do Papa Francisco chama a atenção e desperta simpatia e curiosidade. Mas não é nenhum favor. O magistério do Papa está constantemente a ser comentado, discutido, escrutinado. É, sem dúvida, uma personalidade que tem o favor da maioria dos meios de comunicação social e desde a primeira hora granjeou a admiração de católicos, de crentes, e de pessoas do mundo inteiro, ainda que, como é óbvio, também suscite maledicência, ódios, suspeições.
       Mas mais que ler comentários acerca de uma pessoa, o recomendável é ler e/ou ouvir o que escreveu e/ou o que disse e escreveu. Não faltam textos, mensagens, discursos, frases. Atente-se, porém, ao facto de também circularem frases e textos que lhe são atribuídos mas que efetivamente não são da sua autoria, pois atribuir-lhos permite uma muito maior divulgação! Por conseguinte, numa perspetiva de verdade, convém saber as fontes, a originalidade, o fundamento. Nada como consultar a página da Santa Sé - https://w2.vatican.va/content/vatican/pt.html - ou as Notícias do Vaticano - https://www.vaticannews.va/pt.html - ou a presença no Papa nas plataformas como Instagram ou Twitter, mas que se encontram referenciadas nas duas páginas anteriores; em Portugal, entre outras páginas fidedignas, a Agência Ecclesia e a Rádio Renascença.
       Dito isto, há muitos textos, entrevistas, mensagens que estão publicadas e acessíveis. Hoje a nossa sugestão vai para esta entrevista com Thomas Leoncini. Em vésperas do Sínodo sobre os jovens, o título é, já por si, ilustrativo, da preocupação de envolver os jovens na vida da Igreja e do mundo, preparando-os hoje, escutando-os, dando-lhes voz e vez, envolvendo-os nas decisões do presente e do futuro. Para quem escutou ou leu as homilias do Papa, mensagens, documentos, reconhece o estilo, a linguagem, o conteúdo. Com efeito, a simplicidade do Papa argentino reveste-se de profundidade, de fé, de entusiasmo, mas não de ingenuidade, como ele próprio afirmou em outras entrevistas. A coerência é visível, para quem teve oportunidade de ler homilias e entrevistas do Papa quando ainda era cardeal em Buenos Aires, ou outras intervenções anteriores.
       Na entrevista, sobressai a proposta de colocar em diálogo privilegiado os jovens e os velhos, o sonho e a esperança, a memória e o futuro, o entusiasmo e a serenidade. Com efeito, unindo os extremos poderá ser a melhor garantia para salvar a humanidade, retirando-a de manipulações, medos, instrumentalização, recusando a cultura do descarte a favor da cultura do encontro, da misericórdia, do diálogo.
       É mais um extraordinário contributo para compreender o pensamento e a vida do atual Pontífice, sem filtros, acessível, direto, sem fugir ou contornar as questões, como expectável no Servo dos Servos de Deus. O crédito às gerações presentes e futuras, os seus anseios, as suas garras, ao serviço da inclusão, da humanização das relações entre pessoas, dentro das famílias, na política e na cultura, em dinâmica de diálogo franco, sincero, frontal, mas visando o compromisso e compromisso que transformem a sociedade, o mundo deste tempo, preparando-nos para o dia de amanhã.
       Boa leitura.

terça-feira, 20 de março de 2018

VL - O coração não se pode ‘photoshopear’

O Papa Francisco esteve em trânsito pela “sua” América Latina, entre 15 e 22 de janeiro, Chile e Perú. Mantendo a tradição, no último domingo, rezou o Angelus, deixando uma mensagem para todos, mas especialmente aos jovens: o nosso coração não se pode photoshopear. O Papa recomenda que as homilias tenham uma ideia clara, uma mensagem, uma imagem. Lá diz o ditado que uma imagem vale por mil palavras. Imagens e gestos. É o jeito de Jesus que nos interpela com parábolas, comparações, analogias, pequenas estórias, imagens do quotidiano!

O mundo da moda, da música, do espetáculo, da televisão, das revistas conhecem bem o Photoshop, um programa de tratamento de fotografia. Dá para cortar “gorduras”, mazelas no corpo, no rosto, colocando as fotos ao gosto do freguês, de quem é retratado ou para quem vê. A propósito há um pequeno livro de Augusto Cury – A ditadura da beleza – acerca da beleza (sobretudo feminina) publicitada nos meios de comunicação social. Segundo o Psiquiatra brasileiro os “modelos” formatados são uma diminuta percentagem, pois as mulheres concretas não correspondem a medidas decididas por catálogo. É uma ditadura que se impõe pelo marketing, como se as pessoas pudessem se enfaixadas num modelo único!

De forma muito assertiva, como já nos habituou, o Papa Francisco diz como é agradável ver bonitas fotografias, cuidadas digitalmente, mas logo lembrando que o coração, fonte de onde brota o amor, onde se joga a felicidade verdadeira, não pode ser photoshopeado. Nem os outros, nem a realidade. Os filtros coloridos utilizados nas fotos ou nos vídeos não funcionam com os amigos.

Jesus não nos quer maquilhados, quere-nos como somos. Quando Jesus olha para nós não nos vê como seres perfeitos, mas repara no amor que temos no coração para dar aos outros, servindo-os. Na verdade, diz o Papa, Jesus “não Se fixa na tua altura, se tens dificuldade em falar ou não, se adormeces ao rezar, se és muito jovem ou uma pessoa idosa. A única pergunta é: queres seguir-Me e ser Meu discípulo? Não percas tempo em mascarar o teu coração; enche a tua vida do Espírito!”

O Papa dá como exemplo a aposta de Deus em Moisés, tartamudo; em Abraão, um idoso; em Jeremias, muito jovem; em Zaqueu, de baixa estatura; em Pedro, titubeante, e muitos outros.

Há momentos que apetece desistir. Nesses momentos, “não vos deis por vencidos, não percais a esperança! Não vos esqueçais dos Santos, que nos acompanham do céu; recorrei a eles, rezai e não vos canseis de pedir a sua intercessão”.

VL – O Pobre de Nazaré é o Rei do Universo

Vivemos, no penúltimo domingo, o primeiro Dia Mundial dos Pobres, iniciativa proposta pelo Papa Francisco por ocasião do encerramento do Jubileu da Misericórdia. A designação suscitou algumas críticas em surdina, pois poderia dar a sensação que se estava a cristalizar a pobreza. Em vez de “pobres” talvez pudesse combinar melhor erradicação da pobreza ou da exclusão social. Porém, “pobres” é uma palavra e uma realidade que se cola. Podemos ter opiniões diferentes sobre o que significa pobreza, mas falar de pobres não ilude, sabemos que nos remete imediatamente para vidas marcadas pela doença, pela miséria, pelo abandono, pela solidão, pela perda de identidade e de pertença a uma comunidade.
Com a criação deste dia, o Papa interpela, antes de mais, os crentes contra a cultura do descarte e do desperdício, desafiando-nos à partilha solidária, ao cuidado do outro, ao acolhimento de Cristo nos mais frágeis, pois para tocar Cristo é necessário tocar as chagas do Seu corpo no corpo dos pobres. O convite alarga-se a todos “independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão”.
O Papa Francisco deixou bem claro que os pobres não são um problema, mas “um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho… são eles que nos abrem o caminho para o Céu, são o nosso «passaporte para o paraíso». Para nós, é um dever evangélico cuidar deles, que são a nossa verdadeira riqueza; e fazê-lo não só dando pão, mas também repartindo com eles o pão da Palavra, do qual são os destinatários mais naturais. Amar o pobre significa lutar contra todas as pobrezas, espirituais e materiais”.
Na Sua mensagem para este dia, o Papa lança a ponte para a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo. Com efeito, “a realeza de Cristo aparece em todo o seu significado precisamente no Gólgota, quando o Inocente, pregado na cruz, pobre, nu e privado de tudo, encarna e revela a plenitude do amor de Deus. O seu completo abandono ao Pai, ao mesmo tempo que exprime a sua pobreza total, torna evidente a força deste Amor, que O ressuscita para uma vida nova no dia de Páscoa”. O reconhecimento da soberania de Cristo coloca-nos todos ao mesmo nível, como súbditos mas sobretudo como irmãos.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Cardeal Luis Antonio Tagle - Aprendi com os últimos

Cardeal LUÍS ANTÓNIO TAGLE (2017). Aprendi com os últimos. A minha vida, as minhas esperanças. Lisboa: Paulus Editoria. 160 páginas.
       No último conclave em que foi eleito o atual Papa, Francisco, então Cardeal Jorge Mario Bergoglio, o Cardeal das Filipas, Tagle, era apontando como um dos possíveis à sucessão do papa Bento XVI. Se já era um Cardeal muito conhecido, pela sua juventude e pela presença nos meios de comunicação e por ser também o responsável da Cáritas Internacional, o que lhe permite viajar um pouco por todo o mundo. Abrindo-se a possibilidade de ser Papa,então a procura da sua biografia, da sua história.
       Este livro em formato de entrevista, conduzida por Gerolamo Fazzini e Lorenzo Fazzini, procura apresentar-nos este jovem Bispo e um dos mais novos Cardeais da Santa Igreja, passando pelo berço e contexto em que nasceu e crescer, a sua vocação e a vida como seminaristas, os primeiros anos como padre e os estudos superiores nos EUA, a escolha para Bispo e posteriormente a ascensão a Cardeal. Pelo meio, a escolha para integrar a Comissão Teológica Internacional, presidida então pelo Cardeal Joseph Ratzinger. Quando este o apresentou ao Papa João Paulo II, em dois momentos lhe perguntou a idade e se já tinha feito a Primeira Comunhão.
       A biografia revela as origens humildes do Cardeal Tagle, da sua ascendência filipina e chinesa, abarcando a cultura das Filipinas, mas a abertura ao mundo chinês e ao mundo ocidental. Os estudos nos EUA deram-lhe outra perspetiva mais universal da cultura, da religião, do cristianismo, mas simultaneamente, como filipino, pode dar um contributo para a vivência cristã, o testemunho de vida num mundo de muitas dificuldades, o diálogo e a combatividade com os as autoridades locais, a teologia da libertação vista a partir das Filipinas, numa libertação sobretudo ideológica. As dificuldades do povo filipino está presente na sua formação, na pastoral de sacerdote e de bispo, alargando-se pelo facto de ter assumido a Presidência da Cáritas Internacional. Está habituado ao contacto com a pobreza e com os pobres, a trabalhar não tanto para eles, mas a trabalhar com eles, já que o próprio partilhou o trabalho para viver com dignidade. Nos EUA teve que ser criativo para conseguir fazer o doutoramento, passando trabalhos a computador, ajudando os párocos, aproveitando as férias não para descansar mas para prover ao necessário para pagar as propinas.
       Hoje é uma referência mundial, mas a humildade, o trato fácil, a afabilidade é visível na entrevista e garantida pelos testemunho dos próprios entrevistadores. É também um homem da comunicação, está presente em diversas redes sociais, interagindo com os diocesanos e com pessoas  de todo o mundo.
       Na despedida "oficial" dos Cardeais ao papa Bento XVI o diálogo entre os dois suscitou o riso, pelo que os outros cardeais quiseram saber que palavras trocaram. Segredo pontíficio! Revelando um grande humor. Foi oicasião para o Cardeal lembrar ao papa Bento XVI que afinal já tinha feito a Primeira Comunhão.