A terceira Carta Encíclica de Bento XVI empresta o título a este blogue. A Caridade na Verdade. Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade, mas só esta entra na eternidade com Deus. Espaço pastoral de Tabuaço, Távora, Pinheiros e Carrazedo, de portas abertas para a Igreja e para o mundo...
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quarta-feira, 30 de novembro de 2022
sexta-feira, 10 de dezembro de 2021
Domingo III do Advento - ano C - 12 de dezembro de 2021
1 – “Alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos. Seja de todos conhecida a vossa bondade. O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com coisa alguma; mas em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e ações de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus”.
Belíssimo este pensamento do apóstolo São Paulo. Sobressai de imediato o desafio à alegria, que não é mero contentamento exterior, mas a paz e a confiança que brotam do coração do crente e do facto de se saber amado por Deus, salvo por Jesus Cristo. É simultaneamente um compromisso com a bondade. O apóstolo fala da segunda vinda de Jesus, mas partindo da primeira, encarnação, vida, missão, morte e ressurreição de Cristo Jesus. Estamos dentro de uma inclusão cristológica e salvífica, encontramo-nos na plenitude dos tempos.
A este propósito vale a pena recordar a reflexão do apóstolo, em diversas ocasiões, em que sublinha que a vinda de Jesus não está remetida (somente) para o fim dos tempos mas acontece agora, connosco, no tempo presente. Daí a importância da oração – que nos liga a Deus e n’Ele aos outros – e do bem que possamos fazer – expressão de uma fé autêntica –, procurando a configuração a Jesus Cristo, antecipando para a nossa vida a eternidade de Deus.
A alegria assenta na certeza que Deus atende às nossas súplicas, com prontidão em socorrer-nos em todos os momentos da nossa existência e lança-nos ao encontro daqueles que peregrinam ao nosso lado, pela história e pelo tempo fora.
2 – O terceiro domingo do Advento é precisamente conhecido como o Domingo da Alegria. Razões não faltam aos cristãos para viverem na ALEGRIA do Deus que vem e que permanece. Não estamos isentos de contratempos, de dificuldades, é algo de incontornável, faz parte da nossa fragilidade e finitude humanas. Não somos deuses, estamos a caminho e sujeitos às circunstâncias do tempo que corre, do mundo, das pessoas que nos rodeiam, da nossa identidade biológica e da nossa inserção social.
A alegria, como anteriormente ficou insinuado, vem de dentro, da nossa identidade – somos herdeiros/filhos de Deus –, da nossa pertença – irmãos em Jesus Cristo – e da salvação que Ele nos traz. Não somos prisioneiros nem do pecado nem da morte. Estamos configurados, pelo batismo, à morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ele veio, Ele vem, Ele virá, para a todos elevar para Deus, para todos salvar, não no fim mas a partir da Cruz e para sempre.
Nesta tensão, entre a celebração festiva do Natal, que nos coloca no presépio junto a Deus que Se faz criança, e a vinda definitiva de Jesus, no dia-a-dia, e no final, quando Deus fizer regressar a Si toda a criação, saboreamos já a salvação de Deus.
A profecia de Sofonias faz um apelo semelhante ao de São Paulo: «Clama jubilosamente, filha de Sião; solta brados de alegria, Israel. Exulta, rejubila de todo o coração, filha de Jerusalém. O Senhor revogou a sentença que te condenava, afastou os teus inimigos. O Senhor, Rei de Israel, está no meio de ti e já não temerás nenhum mal. Naquele dia, dir-se-á a Jerusalém: 'Não temas, Sião, não desfaleçam as tuas mãos. O Senhor teu Deus está no meio de ti, como poderoso salvador. Por causa de ti, Ele enche-Se de júbilo, renova-te com o seu amor, exulta de alegria por tua causa, como nos dias de festa'».
O que Sofonias profetiza para o futuro, São Paulo vive-o como experiência, testemunhando a presença constante de Jesus na sua vida e na via das comunidades cristãs.
3 – Nestes ou noutros tempos, a alegria dos cristãos não significa a resignação com as situações do mal, pelo contrário, a alegria manifesta a certeza que o bem vencerá, Deus terá a última palavra. Nem a espada, nem a perseguição, nem a vida, nem a morte, prevalecerão à força do amor que nos vem de Deus. Esta certeza inunda o nosso coração de alegria, renova as nossas energias, compromete-nos com a justiça, com a paz, com a harmonia, com a construção da casa da Fé e do Evangelho, casa de todos e para todos.
Sem a fé, sem a certeza da salvação, muitos dos projetos não fariam sentido, far-nos-iam morrer na desilusão, na incerteza permanente, na resignação perante o mal. Se existe o mal e não há forma de o vencer não adianta o compromisso, o esforço, a luta. Se Ele vence o mundo, isto é, as forças do mal, então também nós podemos, com Ele, com a Sua graça, contribuir para vencer o a injustiça, o medo, o egoísmo, a intolerância e todas as manifestações malévolas.
O anúncio de João Batista traz a iminência do Messias, a alegria por O sabermos próximo, mas igualmente o envolvimento com o bem e com a verdade. As pessoas percebem que o anúncio de João leva a mudar de vida. João responde em concreto: «quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos faça o mesmo»; aos publicanos diz «não exijais nada além do que vos foi prescrito»; aos soldados, «não pratiqueis violência com ninguém nem denuncieis injustamente; e contentai-vos com o vosso soldo».
4 – Estamos a poucos dias do Natal, expressão da Encarnação, Deus que Se faz homem, assumindo a nossa humanidade. O Advento convoca-nos a entrar no presépio com Maria e com José, para acolhermos Jesus que está mesmo a chegar. Aí residirá a nossa alegria, a nossa esperança e que se multiplicará em caridade. A fé reveste-se de esperança, de alegria, funda-se em Deus que é Pai e nos ama com amor e coração de Mãe. Não é uma fé aérea, algo vago, efémero, mas assenta na omnipotência e misericórdia do Senhor Deus. Sendo Deus e sendo Pai responsabiliza-nos uns pelos outros, pois n’Ele somos irmãos. É essa a revelação de Jesus. A fé não nos desliga, não nos afasta, não faz de nós melhores que outros, em sentido de sobranceria, dá-nos a responsabilidade de sermos santos. É fé é para manusear, para colocar mãos à obra, a fé conduz-nos, fortalece-se e madurece na prática da caridade.
Os contemporâneos de João Batista alegram-se com o anúncio da vinda do Messias. Querem estar preparados. João anuncia-lhes a Boa Nova, mas esclarece: «Eu batizo-vos com água, mas está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias. Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo. Tem na mão a pá para limpar a sua eira e recolherá o trigo no seu celeiro; a palha, porém, queimá-la-á num fogo que não se apaga».
Deixemo-nos contagiar pelas suas palavras e com Isaías rezemos: “Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas, anunciai-as em toda a terra. Entoai cânticos de alegria, habitantes de Sião, porque é grande no meio de vós o Santo de Israel”.
A oração predispõe-nos a acolher a vontade de Deus e a fazermos o que nos compete para realizar a Sua santa vontade. A alegria que transborda em nós é comunicável e partilhável. Uma pessoa triste e melancólica tende a afastar-se, a isolar-se, a dobrar-se sobre si própria. Uma pessoa alegre, confiante, convicta das suas raízes e consciente da meta para onde se dirige, contagia os outros, trasvaza nas palavras e nos gestos, torna-se generosa. Uma alegria tão grande, fundada em Deus, faz com que nem as adversidades sejam obstáculo para viver. Pelo contrário, se sabemos Deus connosco, então caminhamos seguros e saberemos que nada nos poderá separar desse amor e dessa vida.
Pe. Manuel Gonçalves
sábado, 9 de janeiro de 2021
sábado, 12 de dezembro de 2020
sábado, 5 de dezembro de 2020
terça-feira, 28 de julho de 2020
sábado, 18 de janeiro de 2020
segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus
Naquele tempo, quando Jesus ouviu dizer que João Batista fora preso, retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum, terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali. Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer: «Terra de Zabulão e terra de Neftali, estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte uma luz se levantou». Desde então, Jesus começou a pregar: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». Depois percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo. A sua fama propagou-se por toda a Síria: traziam-Lhe todos os que estavam doentes, atingidos de diversos males e sofrimentos, possessos, epilépticos e paralíticos, e Jesus curava-os. Seguiram-n’O grandes multidões, que tinham vindo da Galileia e da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e de Além-Jordão (Mt 4, 12-17.23-25).
Jesus é a LUZ que vem erradicar toda a treva. É a grande luz que nos traz a salvação, a paz, a vida nova. Com a prisão do João Batista, diz-nos o Evangelho, Jesus alarga e aprofunda a Sua missão. De algum modo se percebe a delicadeza de Jesus para com João, respeitando a sua missão e o espaço. A missão de um e outro entrelaçam-se, não se confundem, nem se sobrepõem. João prepara o caminho. Jesus é o Caminho. João fala da luz que há de surgir. Jesus é a Luz.
De imediato e sem rodeios Jesus diz ao que vem: "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus". E age em conformidade. Prega, age: cura enfermidades e doenças. Como discípulos a missão é similar: anunciar a proximidade do Reino de Deus, que para nós é o próprio Jesus Cristo, e fazer com que Ele seja próximo de todos.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
Não temas, Zacarias, a tua súplica foi atendida...
Zacarias ficou perturbado e encheu-se de temor. Mas o Anjo disse lhe:
«Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi atendida. Isabel, tua
esposa, dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. Será para ti
motivo de grande alegria e muitos hão-de alegrar-se com o seu
nascimento, porque será grande aos olhos do Senhor. Não beberá vinho nem
bebida alcoólica; será cheio do Espírito Santo desde o seio materno e
reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá à
frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar
os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos,
a fim de preparar um povo para o Senhor». Zacarias disse ao Anjo:
«Como hei-de saber que é assim, se eu estou velho e a minha esposa de
idade avançada?». O Anjo respondeu-lhe: «Eu sou Gabriel, que assisto na
presença de Deus e fui enviado para te anunciar esta boa nova. Mas tu
vais guardar silêncio, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto
aconteça, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão
a seu tempo» (Lc 1, 5-25).
Na cultura judaica, a fertilidade/fecundidade do casal é sinal e expressão da bênção de Deus. Ao contrário, a infertilidade do casal é infortúnio e desonra. Sendo Zacarias sacerdote no templo fica mais exposto por não ter descendentes. Nem a proximidade de Deus o afastou desse opróbrio. Mas nem tudo está perdido, Deus olha para o Seu povo e neste caso específico para o Seu servo Zacarias, ele será pai e terá um descendente. Zacarias nem quer acreditar que a bênção de Deus se efetiva finalmente, num tempo em que já restava pouca esperança.
O filho que vai nascer de Zacarias e Isabel será um sinal de salvação, do mistério de Deus que vem até à humanidade...
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
Martírio de São João Batista
A censura que João Batista fez a Herodes Agripa pela sua conduta desonesta e imoral, que o Evangelho nos descreve, valeu-lhe a morte por degolação (Mt. 14, 1-12). É o seu nascimento para o céu que a Igreja hoje celebra.
A festa do martírio de São João Baptista remonta ao século V, na França; e ao século VI, em Roma. Está ligada à dedicação da igreja construída em Sebaste, na Samaria, no suposto túmulo do Precursor de Jesus. O próprio Jesus apresenta-nos João Baptista:
Depois deles partirem, Jesus começou a falar a respeito de João às multidões: "Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Mas que fostes ver? Um homem vestido de roupas finas? Mas os que vestem roupas finas vivem nos palácios dos reis. Então, que fostes ver? Um profeta? Eu vos afirmo que sim, e mais do que um profeta. É dele que está escrito: "eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele preparará o teu caminho diante de ti. Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior do que João, o Baptista, e, no entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele ..." (Mt 11, 2-11).
O martírio de João Batista liga-se à denúncia profética das injustiças cometidas pelos poderosos, inclusive o luxo da corte, cujo desfecho fatal é a morte do inocente e a opressão dos marginalizados.
Oração de coleta:
Senhor, que na vossa admirável providência, quisestes que São João Batista fosse o Precursor do nascimento e da morte do vosso Filho, concedei-nos que, assim como ele deu a sua vida pela justiça e pela verdade, também nós saibamos lutar corajosamente pela confissão da fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Fonte: Secretariado Nacional da LiturgiaSão Beda Venerável, presbíteroO santo precursor do nascimento, da pregação e da morte do Senhor, mostrou no momento da sua luta suprema uma coragem digna de atrair o olhar de Deus. Como diz a Escritura: Se aos olhos dos homens foi atormentado, a sua esperança estava cheia de imortalidade. Com razão celebramos festivamente o dia do seu novo nascimento, dia que ele tornou memorável com a sua própria morte e ilustrou com a gloriosa púrpura do seu sangue. Merecidamente veneramos com alegria espiritual a memória daquele que selou com o martírio o testemunho que dera do Senhor.
Precursor de Cristo no nascimento e na morte
São João sofreu a prisão e as cadeias e deu a sua vida em testemunho do nosso Redentor, a quem devia preparar os caminhos. Não lhe foi pedido pelo perseguidor que negasse a Cristo, mas que calasse a verdade. E no entanto, ele morreu por Cristo.
Cristo disse: Eu sou a verdade. Por isso, foi por Cristo que São João derramou o seu sangue, porque foi pela verdade que o derramou. Se com o seu nascimento, a sua pregação e o seu batismo dera testemunho de Cristo que havia de nascer, pregar e batizar, também com o seu martírio precursor deu testemunho da futura paixão do Senhor.
Assim terminou a sua vida este homem tão insigne e valoroso, derramando o seu sangue depois de longo e penoso cativeiro. Ele que anunciara a liberdade duma paz superior, é lançado pelos ímpios na prisão; é encerrado na escuridão do cárcere aquele que veio para dar testemunho da luz e a quem a própria Luz, que é Cristo, denominou como uma lâmpada que arde e alumia; e foi batizado com o próprio sangue aquele a quem foi concedido baptizar o Redentor do mundo, ouvir a voz do Pai que falava do Filho, ver a graça do Espírito Santo que descia sobre Ele. Por isso, longe de lhe parecer penoso, era pelo contrário fácil e desejável para ele suportar pela verdade os tormentos temporais, que lhe faziam antever a recompensa das alegrias eternas.
A morte não era para João Batista apenas uma realidade inevitável da natureza ou uma dura necessidade. Ele desejou a como o melhor modo de confessar o nome de Cristo e receber assim a palma da vida eterna. Bem diz o Apóstolo: A vós foi concedido por Cristo não só acreditar n’Ele, mas também sofrer por Ele. E se ele diz que sofrer por Cristo é um dom concedido aos eleitos, é porque os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória futura que se há de manifestar em nós.
BENTO XVI no martírio de São João Batista
Estimados irmãos e irmãs
Nesta última quarta-feira do mês de Agosto celebra-se a memória do martírio de são João Batista, o precursor de Jesus. No Calendário romano, é o único santo do qual se celebra tanto o nascimento, a 24 de Junho, como a morte ocorrida através do martírio. A memória hodierna remonta à dedicação de uma cripta de Sebaste, em Samaria onde, já em meados do século IV, se venerava a sua cabeça. Depois, o culto alargou-se a Jerusalém, às Igrejas do Oriente e a Roma, com o título de Degolação de são João Batista. No Martirológio romano faz-se referência a uma segunda descoberta da preciosa relíquia, transportada naquela ocasião para a igreja de São Silvestre em Campo Márcio, em Roma.
Estas breves referências históricas ajudam-nos a compreender como é antiga e profunda a veneração de são João Batista. Nos Evangelhos realça-se muito bem o seu papel em relação a Jesus. De modo particular, são Lucas narra o seu nascimento, a sua vida no deserto e a sua pregação, e no Evangelho de hoje são Marcos fala-nos da sua morte dramática. João Batista começa a sua pregação sob o imperador Tibério, em 27-28 d.C., e o convite claro que ele dirige ao povo que acorre para o ouvir é que prepare o caminho para receber o Senhor, e endireitem as veredas tortas da própria vida através de uma conversão radical do coração (cf. Lc 3, 4). Contudo, João Batista não se limita a pregar a penitência e a conversão mas, reconhecendo Jesus como «o Cordeiro de Deus» que veio para tirar o pecado do mundo (cf. Jo 1, 29), tem a profunda humildade de mostrar em Jesus o verdadeiro Enviado de Deus, pondo-se de lado a fim de que Jesus possa crescer, ser ouvido e seguido. Como último gesto, João Batista testemunha com o sangue a sua fidelidade aos mandamentos de Deus, sem ceder nem desistir, cumprindo a sua missão até ao fim. São Beda, monge do século IX, nas suas Homilias diz assim: «São João, por [Cristo] deu a sua vida; embora não lhe tenha sido imposto que negasse Jesus Cristo, só lhe foi imposto que não dissesse a verdade» (cf. Hom. 23: ccl 122, 354). E ele dizia a verdade, e assim morreu por Cristo, que é a Verdade. Precisamente pelo amor à Verdade, não cedeu a compromissos nem teve medo de dirigir palavras fortes a quantos tinham perdido o caminho de Deus.
Nós vemos esta grande figura, esta força na paixão, na resistência contra os poderosos. Interroguemo-nos: de onde nasce esta vida, esta interioridade tão forte, tão recta e tão coerente, empregue totalmente por Deus e para preparar o caminho para Jesus? A resposta é simples: da relação com Deus, da oração, que é o fio condutor de toda a sua existência. João é o dom divino longamente invocado pelos seus pais, Zacarias e Isabel (cf. Lc 1, 13); uma dádiva grande, humanamente inesperada, porque ambos eram de idade avançada e Isabel era estéril (cf. Lc 1, 7); mas a Deus nada é impossível (cf. Lc 1, 36). O anúncio deste nascimento verifica-se precisamente no contexto da oração, no templo de Jerusalém; aliás, acontece quando Zacarias recebe o grande privilégio de entrar no lugar mais sagrado do templo para fazer a oferta do incenso ao Senhor (cf. Lc 1, 8-20). Também o nascimento de João Batista é marcado pela oração: o cântico de alegria, de louvor e de acção de graças que Zacarias eleva ao Senhor e que nós recitamos todas as manhãs nas Laudes, o «Benedictus», exalta a obra de Deus na história e indica profeticamente a missão do filho João: preceder o Filho de Deus que se fez carne, para lhe preparar as estradas (cf. Lc 1, 67-79). Toda a existência do precursor de Jesus é alimentada pela relação com Deus, de modo particular o período transcorrido em regiões desertas (cf. Lc 1, 80); as regiões desertas que são lugares de tentação, mas também lugares onde o homem sente a própria pobreza, porque desprovido de apoios e certezas materiais, e compreende que o único ponto de referência sólido permanece o próprio Deus. Mas João Batista não é apenas um homem de oração, do contacto permanente com Deus, mas também um guia para esta relação. Citando a oração que Jesus ensina aos discípulos, o «Pai-Nosso», o evangelista Lucas anota que o pedido é formulado pelos discípulos com estas palavras: «Senhor, ensinai-nos a rezar, como também João ensinou aos seus discípulos» (cf. Lc 11, 1).
Caros irmãos e irmãs, celebrar o martírio de são João Batista recorda-nos, também a nós cristãos deste nosso tempo, que não se pode ceder a compromissos com o amor a Cristo, à sua Palavra e à Verdade. A Verdade é Verdade, não existem compromissos. A vida cristã exige, por assim dizer, o «martírio» da fidelidade quotidiana ao Evangelho, ou seja, a coragem de deixar que Cristo cresça em nós e que seja Cristo quem orienta o nosso pensamento e as nossas acções. Mas isto só se verifica na nossa vida se a nossa relação com Deus for sólida. A oração não é tempo perdido, não é roubar espaço às actividades, inclusive às obras apostólicas, mas é precisamente o contrário: se formos capazes de ter uma vida de oração fiel, constante e confiante, o próprio Deus dar-nos-á a capacidade e a força para viver de modo feliz e tranquilo, para superar as dificuldades e testemunhá-lo com coragem. São João Batista interceda por nós, a fim de sabermos conservar sempre o primado de Deus na nossa vida. Obrigado!
sábado, 7 de julho de 2018
Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho
Os discípulos de João Baptista foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe:
«Por que motivo nós e os fariseus jejuamos e os teus discípulos não
jejuam?». Jesus respondeu-lhes: «Podem os companheiros do esposo ficar
de luto, enquanto o esposo estiver com eles? Dias virão em que o esposo
lhes será tirado: nesses dias jejuarão. Ninguém põe remendo de pano novo
em vestido velho, porque o remendo repuxa o vestido e o rasgão fica
maior. Nem se deita vinho novo em odres velhos; aliás, os odres
rebentam, derrama-se o vinho e perdem-se os odres. Mas deita-se o vinho
novo em odres novos e assim ambas as coisas se conservam» (Mt 9, 14-17).
São novos os tempos, novos devem ser os comportamentos, as atitudes.
Não se põe panos novo em vestido velho, pois este seria repuxado por aquele. Nem vinho novo em odres velhos. Este é o tempo novo da graça e da salvação, é tempo de Jesus Cristo que vive na Igreja e no mundo pelo Espírito Santo e pelo compromisso dos cristãos, dos crentes. Não bastam pequenos remendos, é necessário um vestido novo, uma nova linguagem, uma nova postura.
Os discípulos de João que vão ter com Jesus veem-n'O como mais um entre outros, que vem para cimentar o que já existe e para confirmar o que outros já deram a conhecer. Na resposta de Jesus, a certeza que Ele vem não apenas para renovar o existente, para para trazer a novidade de Deus. Deus no meio de nós.
É-nos dado um tempo de graça, não o desperdicemos com tradições ou costumes que nos fechem à novidade de Deus.
sábado, 23 de junho de 2018
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
Festa do Batismo do Senhor - 11 de janeiro de 2015
1 – Os Céus são-nos abertos completamente em Jesus Cristo. Pelo nascimento, que ainda agora celebrámos. Pela Sua vida. A inteira vida de Jesus. Pela Sua paixão. Inteira paixão por nós, pela humanidade inteira. Os Céus estão escancarados pela Ressurreição de onde vem toda a LUZ, intensa, fulgurante, mais penetrante que a espada de dois gumes, é uma LUZ que chega ao mais profundo do nosso coração. A vastidão do Céu – na expressão feliz de Bento XVI – abarca o mundo inteiro.
Hoje Jesus aproxima-Se de João para ser batizado e logo o Céu desce à terra e a voz do Pai ressoa nos nossos ouvidos, com ressonância indelével nosso coração: «Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus toda a minha complacência». Deus reconhece e faz ouvir o amor da Sua eleição. E nós estávamos lá, no Jordão e não podemos ignorar o que ouvimos. Mais tarde, a mesma voz, falará para nós e para nos dizer o que temos de fazer: Este é o Meu filho muito amado. Escutai-O (cf. Lc 9, 35).
Logo ali, ao presenciarmos a cena e ao escutarmos Aquela voz que vem do alto, que vem do Céu, ficamos a saber que algo de novo começa a surgir, a manifestar-se. Vamos ver mais de perto. João já nos havia precavido: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu batizo na água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo».
E assim aconteceu. Jesus não se fez rogado e quando o tempo amadureceu, veio ter com João ao Jordão. E vimos que ao subir da água, os Céus se rasgaram e o Espírito desceu sobre Ele, e logo aquela voz nos deixou atordoados, sem saber o que dizer e o que fazer, sem saber o que sentir. És o meu Filho muito amado! Dirige-se a Jesus, mas n’Ele se dirige a cada um de nós.
2 – O profeta Isaías, profeta do Advento, do Natal, da Quaresma, profeta da Paixão que nos traz Deus ao coração, apresenta mais uma bela página de incentivo, de confiança, de desafio. O Senhor Deus faz saber, através de Isaías, que o Seu Ungido está à porta:
«Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam. Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas».
Página bela e intensa, pura filigrana, como diria o nosso Bispo D. António Couto, em que se visualiza a fonte do amor, o amor primeiro. Deus que nos precede, n'Ele a origem do amor, primeiro e verdadeiro, único e perfeito. Faz repousar o Seu Espírito no Filho que nos dá, a Luz que ofusca no instante inicial mas que logo purifica o nosso olhar. E quando olhamos a vida e os outros com o mesmo Olhar com que Deus nos ama, então ficamos mais próximos uns dos outros, reconhecemo-nos e acolhemo-nos irmãos e amamo-nos como Ele nos ama.
A caracterização do Messias é visível e confirmada em Jesus. O testemunho dos Céus na hora do batismo é antecipado pelo Profeta. O Ungido não se imporá pelo poder, pela majestade, pela força ou pela violência, mas pela paz, pelo amor, pela persistência no caminho da justiça e do bem. É o Senhor que O modela como luz das nações, libertação dos oprimidos e dos que vivem nas trevas. Ele e nós que n'Ele somos acolhidos, reconhecidos e considerados irmãos. Ele é o Cordeiro que carrega e tira os pecados do mundo. Nós, com Ele, carregamo-nos uns aos outros para nos aliviarmos mutuamente dos fardos que por vezes pesam sobre cada um.
3 – «O Senhor abençoará o seu povo na paz».
Também a bela melodia do Salmo faz sinfonia com o Ungido do Senhor, que vem para amar, libertar, para dar a Vida por nós e nos salvar, nos guiar, nos elevar com Ele para junto do Pai. O Deus da Paz nos abençoe e proteja, nos conduza por águas calmas e que no caudal da vida, do tempo e da história, nos faça avançar com os outros, nunca contra eles, com mais amor para construirmos a Sua verdadeira família, que começamos aqui na terra, no tempo que Deus nos dá.
4 – Depois de tantas vicissitudes, eis o imponente testemunho de São Pedro. A Luz das Nações, o Filho de Deus, revelou-Se em toda a plenitude na Morte e sobretudo na Ressurreição. Essa luz intensa e imensa invade agora o coração e a vida de Pedro e dos apóstolos e dos discípulos e de todos nós. A alegria sobrepõe-se ao medo; a luz afasta as trevas; o amor aproxima-nos esboroando egoísmos; a identificação com Aquele que dá a vida por nós, o Filho Amado do Deus Altíssimo, leva-nos a imitá-l'O, no perdão, no amor e na paz.
Ponhamo-nos à escuta, no meio da multidão, como havia feito Jesus quando vai ter com João ao Jordão para por ele Se fazer batizar. Não passa à frente ou ao lado, mas está no MEIO do povo, com o Povo e com o Povo caminha até João. Para que a justiça se faça e se efetive a Sua identificação connosco, Ele faz o que nós fazemos, Ele vive connosco, para que depois nós aprendamos a viver como Ele e a fazer como Ele faz.
No meio da multidão, Pedro toma a palavra, sem medo nem travo na voz, com olhar fundo e terno, e a voz bem colocada e audível, entoada, para que as palavras ecoem em nós. Pedro, aquele que antes, por medo e por vergonha, se tinha recusado a ser associado a Jesus, associa-se agora com todo o coração:
«Na verdade, eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável. Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».
O amor de Deus é para todos. Não escolhe nem idade, nem sexo, nem nacionalidade, não escolhe brancos ou pretos, homens ou mulheres, é para todos. Em Jesus todos somos irmãos. Um povo, uma nação cuja aliança se expande a todo o mundo. Deus não faz aceção de pessoas, como tantas vezes a nós nos acontece ou deixamos acontecer.
5 – Depois do Batismo, e durante toda a vida, Jesus passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos. Deus estava com Ele. E Ele transparecia Deus, nas palavras, nos gestos, no olhar, nos prodígios realizados, nos silêncios, na oração, a caminhar, e em todos aqueles e aquelas que encontrava no Seu caminho, todos aqueles de quem se aproximava com ternura e compaixão.
Deus está (sempre) connosco. Com e em Jesus somos batizados. E como passamos? Fazendo o bem? Curando todos os que à nossa volta estão oprimidos? Sentimo-nos ungidos e enviados? Preenchemos os nossos dias com a presença de Deus? O quê ou Quem transparecemos na nossa vida?
Pe. Manuel Gonçalves
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