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sábado, 24 de março de 2018

É melhor para nós morrer um só homem pelo povo

       Os sinais são por de mais evidentes. Jesus provoca uma onda crescente de adesão e uma onda crescente de contestação e oposição. Os milagres que realiza não abonam em Seu favor diante daqueles que se Lhe opõem, pelo contrário, os milagres e a adesão da multidão são vistos que ameaça à tradição, aos poderes instalados e à própria religião do Templo.
       A ressurreição de Lázaro, que não deixa dúvidas quanto ao poder de Jesus, parece ser a gota de água. É um sinal da ressurreição futura de Jesus, mas para os opositores é altura para o silenciar, não vá provocar mais estragos entre as fileiras do povo.
Muitos judeus que tinham vindo visitar Maria, para lhe apresentarem condolências pela morte de Lázaro, ao verem o que Jesus fizera, ressuscitando-o dos mortos, acreditaram n’Ele. Alguns deles, porém, foram ter com os fariseus e contaram-lhes o que Jesus tinha feito. Então os príncipes dos sacerdotes e os fariseus reuniram conselho e disseram: «Que havemos de fazer, uma vez que este homem realiza tantos milagres? Se O deixamos continuar assim, todos acreditarão n’Ele; e virão os romanos destruir-nos o nosso Lugar santo e toda a nação». Então Caifás, que era sumo sacerdote naquele ano, disse-lhes: «Vós não sabeis nada. Não compreendeis que é melhor para nós morrer um só homem pelo povo do que perecer a nação inteira?» Não disse isto por si próprio; mas, porque era sumo sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação; e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos. A partir desse dia, decidiram matar Jesus. Por isso Jesus já não andava abertamente entre os judeus, mas retirou-Se para uma região próxima do deserto, para uma cidade chamada Efraim, e aí permaneceu com os discípulos. Entretanto, estava próxima a Páscoa dos judeus e muitos subiram da província a Jerusalém, para se purificarem, antes da Páscoa. Procuravam então Jesus e perguntavam uns aos outros no templo: «Que vos parece? Ele não virá à festa?» (Jo 11, 45-56).
        Caifás tem uma leitura soberba sobre o destino de Jesus: é melhor que morra por todo o povo! E de facto, para nós cristãos, Jesus morre não apenas pelo povo mas por toda a humanidade.  "Não disse isto por si próprio; mas, porque era sumo sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação; e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos".
       A partir de então congeminaram matar Jesus, procurando uma ocasião propícia. Como se verá Jesus enfrentará com coragem as consequências das suas palavras e dos seus gestos, mas por ora retira-Se com os Seus discípulos para uma cidade próxima. A Sua hora está a chegar, mas ainda não chegou.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos

     Jesus provoca reações diferentes nos seus conterrâneo e contemporâneos. Para os que se sentem ameaçados no seu poder, sobretudo para esses, Jesus é um obstáculo que têm de derrubar, denegrir, calar. Para muitos outros, à procura de palavras de conforto, de esperança, à procura de viverem melhor, com mais coragem, Jesus é uma resposta vital. Cada vez mais acreditam n'Ele.
       A seis dias da Páscoa, Jesus opera um dos seus mais extraordinários prodígios, a ressurreição de Lázaro, antecipando a Sua ressurreição, ou melhor, mostrando que o poder de Deus é maior que a própria morte, o AMOR vence, por fim.
Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-Lhe lá um jantar: Marta andava a servir e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus. Então Maria tomou uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos; e a casa encheu-se com o perfume do bálsamo. Disse então Judas Iscariotes, um dos discípulos, aquele que havia de entregar Jesus: «Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários, para dar aos pobres?» Disse isto, não porque se importava com os pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa comum, tirava o que nela se lançava. Jesus respondeu-lhe: «Deixa-a em paz: ela tinha guardado o perfume para o dia da minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco; mas a Mim, nem sempre Me tereis». Soube então grande número de judeus que Jesus Se encontrava ali e vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Entretanto, os príncipes dos sacerdotes resolveram matar também Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus (Jo 12, 1-11).
       Salienta-se no texto outro dado que nos deve ajudar a refletir, quando não nos queremos comprometer, ou quando não queremos reconhecer o bem que vem do outro, o caminho mais fácil poderá ser o da zombaria, escarnecemos do outro. O gesto de Maria de Betânia é louvável e revela uma extraordinária atenção para com o Mestre que deveria enternecer os discípulos e os presentes. No entanto, há quem veja nisso um desperdício, desculpando-se com o gasto que poderia ser usado a bem dos pobres. Nos nossos dias isso continua a acontecer. Quando alguém tem um gesto de extraordinária generosidade, a tentação primeira é dizer que podia ter sido utilizado nos pobres. Há o reverso da medalha. Quem ajuda, quase sempre tem para beneficiar outros mais indigentes, quem não ajuda, sempre enche a boca com os pobres, para que os outros ajudem, não para que o próprio faça alguma coisa.
       Curiosidade: seja em Portugal, seja no mundo inteiro, a Igreja Católica é das instituições que mais ajuda as pessoas carenciadas: hospitais, escolas, creches, misericórdias, gaiatos, vicentinos, cáritas (internacional, nacionais e diocesanas), apoio a mães adolescentes e a mãe solteiras, centro de acolhimento de pessoas com deficiência profunda, instituições ligadas à Igreja de apoio a pessoas com SIDA e toxicodependência... no entanto, o que sobrevém é a riqueza patrimonial da Igreja... Diga-se, no entanto, que muita desta riqueza, museus, igrejas, é património também da humanidade... Por outro lado, quem ajuda precisa de meios para ajudar... se vender e dispensar os meios ajuda momentaneamente... e depois?
       Saliente-se também, a animosidade, justificável, do quarto evangelho em relação a Judas. Nos demais evangelhos diz-se claramente que alguns discípulos fizeram o reparo, e não que foi Judas. Como acontecerá também na entrega de Jesus, só no evangelho de João se diz que foi por 30 dinheiros, nos outros apenas que Judas O entregou e que os sumos-sacerdotes prometeram compensá-lo com dinheiro. Fica o reparo. De uma pessoa próxima e com quem nos damos bem, desculpamos todas as falhas ou pelo menos tentamos justificá-las; quando é alguém de quem não gostamos tanto, tudo serve para atacar, e o que acontece vemo-lo como instigação ou provocação de quem não podemos ver...

sábado, 1 de abril de 2017

Domingo V da Quaresma - ano A - 2 de abril de 2017

       1 – Comum a todos, a morte é um mistério que nos ultrapassa. Ninguém quer morrer. Quando alguém quer antecipar a morte – estando plenamente consciente e sem nenhum trauma depressivo – não quer morrer mas tem medo de sofrer, de ser um empecilho para os outros. Terei forças para suportar um sofrimento descomunal e desumano? Perante o que vem pela frente, por que não colocar já um termo, prevenindo a dor e o sofrimento. Isto diz bem da cultura atual: eliminar sacrifícios e toda a dor e mal-estar. Quando não se consegue, corta-se o mal pela raiz. É um tema muito delicado. Só quem acompanha de perto vidas destroçadas pela doença crónica e/ou terminal poderá ter um juízo mais compreensível. Cabe-nos, a todos, assegurar a dignidade de toda a pessoa, desde a conceção à morte natural. Só Deus é o Senhor da vida e da morte. Para Ele todos valem tudo, como filhos bem-amados, independentemente das limitações humanas, físicas ou mentais. E de nenhum modo podemos impor a morte aos outros...
       Ao longo da Sua vida terrena, Jesus depara-se com a história humana, com os seus limites e fragilidades. Cresceu num ambiente familiar, em Nazaré, onde as pessoas se conheciam e se ajudavam mutuamente. Paredes meias com as alegrias e as tristezas de todos. É crível que tenha a experiência da perda do Pai, São José, aquele que Lhe deu nome e casa, O protegeu e O ensinou a trabalhar. Teve então que se tornar o homem da casa, assumindo as responsabilidades que eram do pai.
       2 – O Evangelho deste Domingo traz-nos a Ressurreição de Lázaro. Mas traz-nos também a nossa condição humana, com os seus desafios e as suas perdas. A história de Deus não apenas se cruza com a história humana, mas entranha-se, enraíza-se, enxerta-se na minha, na tua, na nossa vida.
       Jesus vem para todos. Quando falamos em todos corremos o sério risco de diluir os afetos e os compromissos com pessoas de carne e osso. É conhecido um comentário acerca da Princesa Diana: todo o mundo a amava, menos o marido! Nós gostamos de todo o mundo e estamos disponíveis a ajudar toda a gente, a dificuldade é ajudar o meu colega de carteira, a minha mãe nas tarefas de casa, o vizinho que está sempre a implicar com o meu cão que faz barulho e lhe faz as necessidades à porta!
       Há sempre muitas pessoas a seguir Jesus. Porém, Jesus tem disponibilidade para criar laços, escutar desalentos, confortar desavindos, olhar olhos nos olhos quem precisa de atenção e carinho.
       Em Betânia, Maria, Marta e Lázaro são Seus amigos. Quando Lázaro está doente, mandam-n’O chamar e Jesus voltará novamente à Judeia, existindo o perigo real de ser morto. A resposta de Jesus é contundente, mas é também um desafio: «Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem luz consigo». Tal como víamos no domingo passado, Jesus é a Luz do mundo (cf. Jo 9, 1-41), se andarmos na Luz não tropeçaremos, se andarmos de noite, sem Luz em nós, por certo que nos encaminhamos para a morte.
       3 – Quando Jesus chegou a Betânia, o seu amigo Lázaro já jazia no sepulcro há quatro dias. Pelo caminho, vemos como os discípulos vão discorrendo das palavras de Jesus. Tomé, o apóstolo que no habituamos a reconhecer como incrédulo, predispõe-se a morrer com Jesus, pois conclui que a ida para a Judeia é uma espécie de suicídio, depois das ameaças verificadas antes. Contudo, Jesus não volta para morrer, mas para "recuperar", ressuscitar Lázaro e, quando a hora chegar, volta para dar a vida, para que todos, e não apenas Lázaro, sejamos ressuscitados para um vida abundante de graça e salvação.
       Gente de bem, por certo, Marta e Maria recebem muitas pessoas que lhes apresentam as condolências. Marta, a irmã mais ativa, mal sabe que Jesus está perto vai ao Seu encontro e diz-lhe: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá». Marta confia em Jesus. É possível, contudo, como se percebe com o avançar do diálogo, que Marta confie que o pedido de Jesus a Deus seja para o irmão ir para bom lugar e não tanto para "regressar" à vida terrena, pois logo que Jesus lhe diz «Teu irmão ressuscitará», ela Lhe responde: «Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia».

O diálogo continua. Disse-lhe Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?». Ao que se segue nova profissão de fé por parte de Marta: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo».
       4 – Marta vai chamar Maria, que rapidamente vem ao encontro de Jesus e se prostra a Seus pés, validando o que antes a sua irmã tinha dito, isto é, que a presença de Jesus teria evitado a morte de Lázaro.
       Maria chora e, com ela, os judeus que a acompanham. O evangelista sublinha a comoção de Jesus que também chora a morte do amigo. Alguns constatam a amizade mas questionam-se acerca do poder de Jesus, pois se curou um cego também poderia ter evitado a morte de um amigo.
       O túmulo em que Lázaro se encontra sepultado faz-nos visualizar o túmulo de Jesus. Uma gruta, com uma pedra posta à entrada. Comovido, Jesus pede que retirem a pedra. Continua a contar com o nosso esforço, cabe-nos fazer o que está ao nosso alcance, Deus fará o resto. A intervenção de Marta faz perceber o óbvio, o corpo já está em decomposição, já cheira mal. Está mesmo morto. Após a remoção da pedra, Jesus levanta os olhos para o Céu e reza: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste».
       A oração faz milagres, Deus sempre nos ouve, mas nem sempre compreendemos os Seus desígnios. Podemos não fazer o mundo à nossa maneira, mas poderemos acolher as bênçãos de Deus e procurar que o mundo seja dom onde vivamos como irmãos.
       É então que Jesus brada para que Lázaro saia. Ele sai, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e com o rosto envolvido num sudário. Antecipa-se aqui o sepultamento de Jesus. É necessário que lhe tirem as ligaduras. Antecipa-se também a ressurreição de Jesus. Quando forem ao Seu túmulo, vão perceber que saiu pelo próprio pé, deixando as ligaduras e o sudário arrumados.
       Muitos dos judeus que foram visitar Marta e Maria acreditaram em Jesus.

       5 – Pouco a pouco, o Povo da Promessa e da Aliança, vai percebendo que Deus é um Deus de vivos e não de mortos. Não teria sentido doutra maneira. Um Deus que não garantisse a preservação da nossa identidade para sempre seria um Deus a prazo, talvez útil e necessário para nos iludir no tempo, mas apenas isso, uma ilusão, um momento, um fogacho de esperança.
       Não é fácil entender a ressurreição dos mortos. Por certo. Até porque ninguém nos relatou como será. Sabemos que Jesus ressuscitou Lázaro, o filho da viúva de Naim, a filha de Jairo e foi ressuscitado por Deus Pai, ascendendo para junto d'Ele, de onde nos atrai e nos convoca. Há os que dizem acreditar em Deus mas não na vida eterna, na ressurreição dos mortos. Crer em Deus, que é fonte de vida, pressupõe fé na ressurreição e esperança que a nossa vida permanecerá para sempre.
       O profeta Ezequiel traz-nos a Palavra de Deus: «Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo. Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei de fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, digo e faço». E Deus é sempre fiel à Sua promessa. Mais que Lázaro ou que os filhos da Viúva de Naim e de Jairo, Jesus é a realização da promessa do Senhor, que antecipa a nossa própria ressurreição para Deus. De referir que só a ressurreição de Jesus é gloriosa, para sempre. Lázaro voltará a morrer, cuja ressurreição final o catapultará para a eternidade, e não para uma nova vida histórica, temporal ou reencarnada.

       6 – A certeza que o tempo presente, por mais violento e doloroso que seja, será passageiro, a esperança na vida futura, ressuscitada, a fé em Deus que fará justiça aos injustiçados, aos pobres, aos excluídos, levou alguns a falar no descomprometimento dos cristãos, pois fixando-se no futuro, deixariam de se empenhar na transformação do mundo.
        Pelo contrário, sem Deus e sem futuro, sem garantia de eternidade e de uma justiça definitiva, é que todos ficaríamos ao deus-dará, agindo cada um segundo os seus interesses mais imediatos. Sabendo que Deus nos espera, o compromisso em acolher a Sua misericórdia, os Seus dons, já aqui, na nossa vida, vivendo, amando, servindo, antecipando, tanto quanto possível, a glória da eternidade. Por conseguinte, rezamos, "Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça de viver com alegria o mesmo espírito de caridade que levou o vosso Filho a entregar-Se à morte pela salvação dos homens". A entrega e a vida de Jesus, o Seu compromisso com todos, preferencialmente pelos mais desfavorecidos, mostra-nos o caminho do Pai.
       Diz-nos São Paulo: "Se Cristo está em vós, embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado, o espírito permanece vivo por causa da justiça. E se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós".
       Caminhamos mais seguros, comprometidos na história, envolvidos no Espírito Santo, para vivermos ao jeito de Jesus, dando a vida, gastando-a a favor dos outros e não a guardando para nós. E assim iniciamos a vida eterna...

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Ez 37, 12-14; Sl 129 (130); Rom 8, 8-11; Jo 11, 1-45.

quinta-feira, 16 de março de 2017

O pobre Lázaro e rico avarento...

       Disse Jesus aos fariseus: «Havia um homem rico, que se vestia de linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre chamado Lázaro jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se com os restos caídos da mesa do rico; mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas. Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado. Então ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas’. Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males. Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, há entre nós e vós um grande abismo, de modo que, se alguém quisesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo’. O rico exclamou: ‘Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento’. Disse-lhe Abraão: ‘Eles têm Moisés e os Profetas: que os oiçam’. Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão’. Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos’» (Lc 16,19-31).
       Esta parábola de Jesus é ainda mais provocante e significativa nos dias que correm.
       Em todos os tempos, é visível a dicotomia entre os que mandam e os que obedecem, os que têm e os que nada têm, os que vivem abastadamente e os que vivem na indigência.
       Ao tempo de Jesus, existiam os homens livres e os escravos. Uns viviam regaladamente em seus palácios, subjugando súbditos, gozando a vida, dando largas a todos os luxos, vivendo faustosamente, sem se importarem dos que viviam na miséria, não porque não tivessem feito por isso, mas simplesmente porque eram de outra classe e não tinham direito a almejar por melhores condições de vida. Um fosso gigantesco, determinado por nascimento. Quem nascia em família pobre, seria sempre pobre; quem nascesse em berço de ouro, viveria sempre na abundância, a não ser que acontecesse alguma desgraça.
       No nosso tempo, o fosso entre ricos e pobres, entre magnatas e pedintes, alargou-se, muitas vezes não pelo mérito dos primeiros, mas pelo trabalho e inteligência dos segundos. Não está em causa a criação de riqueza, quando resulta do trabalho honesto e recompensa uns e outros, patrões e trabalhadores. O problema é quando a riqueza se faz à custa dos mais pobres, dos que trabalham, dos malabarismos corruptos, da desonestidade. Por isso também se verifica que há cada vez um fosso maior, mas também que há cada vez mais pobres e uma crescente concentração de riqueza num número cada vez mais reduzido de pessoas e de empresas.
       Em tempo de crise vem ao de cima a fragilidade das economias que procuram satisfazer apenas o lucro esquecendo as pessoas e as famílias. Faltou a aposta na formação, habilitação e (re)qualificação) - daria menos lucro -, no investimento em novos produtos, na modernização de equipamentos e gestão, na reconversão de empresas, na promoção do melhor que havia e há nas empresas: as pessoas.
       Certamente que Jesus, naquele e neste tempo, não diaboliza a economia ou a riqueza, mas enquadra-a num contexto mais amplo. A pessoa há-de estar em primeiro lugar. A economia não é um fim em si mesmo, deve estar ao serviço da pessoa, da sua dignidade, do seu desenvolvimento.
       E ainda que por vezes a pobreza se tenha tornado endémica - "pobres sempre os tereis" -, a responsabilidade dos cristãos é permanente, procurar viver solidariamente como irmãos, partilhar com os mais desfavorecidos, não apenas os bens materiais, mas os valores, a cultura, os bens intelectuais e espirituais, lembrando aqui o provérbio japonês: não se deve dar o peixe, mas deve dar-se a cana e ensinar a pescar. Obviamente, que num primeiro momento é necessário também prover ao alimento e aos bens materiais essenciais, dar o peixe e a cana, ensinar a pescar...

sábado, 28 de setembro de 2013

XXVI Domingo do Tempo Comum - ano C - 29 de setembro

       1 – A ganância desbarata a inteligência e destrói o tecido familiar e social. Com conta, peso e medida, a ambição integra o desejo de melhorar as condições de vida. No plano da fé, a ambição é um projeto de santidade que nos compromete diante de Deus e diante do próximo, todos os dias, procurando crescer, amadurecer, tornarmo-nos melhores, mais sãos.
       O desenvolvimento humano, em todas as suas vertentes, aproxima as pessoas e os povos, facilita a comunicação, torna mais democrático o acesso aos bens materiais e culturais. A criação não é exclusiva deste ou daquele, é património da humanidade inteira, mesmo reconhecendo o direito à propriedade privada. As matérias-primas, extraídas da terra que nos irmana, são de todos e para todos. O progresso deve-se ao génio humano. A criação, não! Está antes da vida, antes do ser humano. Tudo o que venha a desenvolver-se, científica e tecnologicamente, é devedor da terra. Os bens da criação não têm proprietários, mas administradores. Excluir outros destes bens é roubar-lhes o direito à terra, à vida, à alimentação, aos lucros da exploração do planeta, ainda que tenhamos contribuído com a nossa inteligência e dedicação. Não faz sentido tornarmo-nos donos daquilo que estava cá antes de nós e que vai ficar depois de nós. E mesmo a evolução científica, tecnológica, cultural, é devedora das gerações passadas. A terra recebemo-la como herança, para todos, deixá-la-emos aos nossos filhos. Não podemos quebrar a cadeia, não podemos transmitir só uma parte da terra. Não é nossa. É roubar o futuro a todos aqueles que estão para vir.
       Em lógica crente, mais se acentua a responsabilidade pelos outros. Não somos ilhas. A resposta de Caim continua a ser dada – acaso sou guarda do meu irmão? –, mas logo combatida por Deus. A vinda de Jesus mostra que o próprio Deus Se entranha no meio de nós, assumindo-nos como filhos. Não vale matar o irmão, destruir a sua vida, ou ser, ativa ou omissamente, facilitador da miséria do outro. O que acontece a um dos Seus filhos afeta os outros. Qual é a maior alegria dos Pais se não ver os filhos bem, todos os filhos? Se um está em sofrimento, os pais (o Pai) continuam a sofrer. Ofendemos um irmão, ofendemos a Deus, ofendemo-nos a nós próprios, já que, em sentido lato, o outro é do nosso sangue, da nossa carne, tem a mesma origem e o mesmo destino.
        2 – Mais uma parábola extraordinária de Jesus. O rico avarento e o pobre Lázaro.
       O rico não tem nome. Jesus não identifica os fautores do mal. Os pobres têm nome, devemos conhecê-los pelo nome. Na alegria todas as famílias são iguais, na tristeza cada uma sofre à sua maneira. Na abundância e na riqueza somos mais iguais. Na avareza não nos diferenciamos, tenhamos muito ou pouco. A pobreza tem rostos e tem nomes. Na sociedade deste tempo contam sobretudo como número. Tantos pobres. Tantas famílias sobre endividadas. Tantos desempregados. Tantos a passar necessidade. Tantos a morrer de fome. Tantas crianças subnutridas.
       A estatística pode ajudar a perceber o flagelo da fome. Porém, enquanto houver uma pessoa com fome, a viver na miséria, mesmo que já não entre nas contagens oficiais, não podemos cruzar os braços e assobiar para o lado como se não fosse nada connosco. É comigo. É contigo. Ajudar a matar a fome e a criar condições para que aquela pessoa possa gerir autonomamente a sua vida. É necessário dar o peixe e logo ajudar a pescar.
       Como tem vindo a acentuar o Papa Francisco, é revoltante ver como os governantes, e a comunicação social, se alarmem com a descida de um por cento na bolsa e silenciem a morte de milhares de pessoas que todos os dias morrem à fome.
       O desemprego é, neste contexto, um drama. A pessoa que não tem emprego, mesmo que conte com a ajuda da família, ou com a subsidiariedade (obrigatória) do Estado, está carente da sua realização, colocando em causa a dignidade de ser pessoa.
       É Lázaro que pede as sobras, as migalhas que caem da mesa, e que mais facilmente damos aos cães, fazendo deles nossa família. Tratar bem os animais, mas sem esquecer a primazia que o outro nos merece, este sim nosso irmão, carne da minha carne, osso dos meus ossos… Lázaro – Deus ajuda. Sempre ajuda através de nós. Deus está de forma privilegiada no pobre, no mais pequenino. As migalhas que caem das nossas mesas, alimentos desperdiçados, correspondem ao PIB da Suíça, 1,3 mil milhões de toneladas que vão para o lixo todos os anos. 870 milhões de Lázaros.
        3 – A época que atravessamos é particularmente marcada por contradições e paradoxos. Sinais preocupantes de individualismo e logo ao lado tantos gestos de partilha, abnegação, de solidariedade.
       Quando o ser humano se fecha e se fixa como centro, como medida de todas as coisas, o sério risco de se tornar deus para os demais. Igualmente perigoso é endeusar o dinheiro, a riqueza, os bens materiais. Se a pessoa é escrava dos bens que deveriam facilitar a sua vida acabará na ruína (afetiva, emocional, como ser humano).
       No Evangelho alguém se acerca de Jesus para lhe pedir a intervenção junto do irmão para que reparta a herança. Resposta pronta de Jesus – ninguém me fez juiz das vossas partilhas. A palavra de Deus não é para justificar a nossa inveja ou obrigarmos os outros a partilhar. A fé, o compromisso com Cristo, obriga-me. Obriga-te. Compromete-nos. Aquele que quiser ser o maior seja o servo de todos. Só seremos verdadeiramente discípulos se e quando nos identificarmos com o Mestre, que dá TUDO e Se entrega TOTALMENTE a nós, dá-nos o próprio Céu como herança.
       Se há uma pessoa com uma fortuna incalculável, e há muitas, voz corrente: essa pessoa podia ajudar mas o dinheiro é dela e que faça o que bem entender. Sim e não. Atente-se à celeuma provocada por uma entrevista a um jovem milionário, que numa noite de festa, terá gastado € 30.000,00. Escandaloso disse a jornalista. Vieram muitos à praça, alguns com a mesma opinião, quase crucificar a entrevistadora, e o entrevistado tornou-se rapidamente popular. Refira-se de novo, o compromisso cristão compromete-nos. Não obriga outros.
       Há muitas outras nuances. Os ordenados elevadíssimos de jogadores de futebol, ou de outras profissões, até na classe dos jornalistas, cuja solidariedade poderia minorar a situação em que se encontra o país. Tudo bem. Alguém tem uma fortuna: ganhou-a honestamente, como herança ou fruto do trabalho, paga de forma justa aos seus empregados, cria mais emprego, paga os respetivos impostos no país onde gera a riqueza. Não haverá muito mais a reclamar. Mais fácil se tolera que um jogador ganhe pelo seu talento que um génio farmacêutico, ou informático…
       Os bens que possuímos são devedores de outras inteligências, de outros tempos, e toda a fortuna é gerada “à custa” de outros, nem sempre devidamente compensados. Pelo meio fica o trabalho infantil, mão-de-obra baratíssima, abusando da necessidade de pessoas e famílias carenciadas. Os recursos naturais, por vezes, são desbaratos em países com necessidade de capital, para já não falar na corrupção.
       4 – Há aqui uma linha que separa. Para Jesus, se há um Lázaro, eu sou responsável por ele. Se o deixo à fome, estou a desviar-se da minha identidade, da minha filiação, do meu compromisso batismal. Como bem disse Santo Ambrósio, aquilo que damos aos pobres como esmola não nos pertence, é deles por direito. A lei que nos obriga é a Lei do Amor.
       No início da crise económico-financeiro e perante o colapso dos bancos, os governos injetaram nos bancos dinheiro mais que suficiente para acabar com a fome no mundo inteiro. Conclusão: existe fome no mundo por que não há vontade política de a irradiar.
       Na parábola deste dia, Jesus volta à perspetiva do Juízo final. O bem ou o mal que fazemos trará consequências no futuro, aqui na terra ou na eternidade. O rico avarento há de ser julgado pelo egoísmo e pela indiferença e desprezo com que tratou os Lázaros que bateram à sua porta. E nós também. Como refere D. António Couto, chegará o dia em que levantará o olhar para Deus…
       O profeta Amós, como há oito dias, é categórico na denúncia do fosso de indiferença do rico para com o pobre: «Ai daqueles que vivem comodamente em Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria. Deitados em leitos de marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos do estábulo. Bebem o vinho em grandes taças e perfumam-se com finos unguentos, mas não os aflige a ruína de José. Por isso, agora partirão para o exílio à frente dos deportados e acabará esse bando de voluptuosos».

       5 – Como conclusão, o desafio de Paulo a Timóteo e a cada um de nós: “Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna... Guarda o mandamento do Senhor, sem mancha e acima de toda a censura, até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo...”

Textos para a Eucaristia (ano C): Am 6, 1a.4-7; 1 Tim 6, 11-16; Lc 16, 19-31.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Unção da Betânia, a unção para a sepultura!

       Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-Lhe lá um jantar: Marta andava a servir e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus. Então Maria tomou uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos; e a casa encheu-se com o perfume do bálsamo... (Jo 12, 1-11).
       O evangelista São João revela um momento significativo da vida de Jesus precisamente seis dias antes da Páscoa judaica, mostrando eminente a Sua glorificação pela Cruz. Jesus vai a casa de Maria, Marta e Lázaro. Aliás, diz mais à frente que muita gente acorreu para ver Jesus mas também para ver Lázaro que tinha sido ressuscitado.
        Uma vez mais surge Marta a cuidar do jantar e a servir os convidados que acompanham Jesus. Maria, por sua vez está perto de Jesus, a ouvi-lo. É nesse contexto que Maria unge os pés de Jesus, enxugando-lhos com os cabelos. É uma imagem que de algum modo antecipa a unção post mortem, os defuntos são ungidos antes de serem sepultados. A  unção de Betânia não deixa dúvidas quanto ao desfecho da vida e missão de Jesus.
       De seguida, nas palavras de Judas, mas certamente dos demais apóstolos, a contestação, dizendo que o elevado preço do perfume deveria ser para distribuir pelos pobres. Jesus responde que uma situação não invalida a outras: pobres e oportunidade de partilhar com eles a vida será uma constante para os discípulos e para a Igreja. Mas importa não perder de vista que mais importante é a presença d'Ele, de Jesus. Só assim terá sentido a prática da caridade.

domingo, 10 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO: promessa, garantia e certeza

       A liturgia da Palavra proposta para este V Domingo da Quaresma pode ler-se a partir destes três itens, um para cada leitura: 1.º leitura: promessa; Evangelho: garantia; 2.º leitura: certeza.
PROMESSA: 
       «Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo. Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei-de fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, o disse e o executarei» (Ez 37,12-14).
       O profeta Ezequiel apresenta-nos claramente a ressurreição como promessa de Deus. Diga-se, que esta ressurreição pode ser entendida em dois sentidos: Deus ressuscitar-nos-á para a eternidade, e, também, a ressurreição do povo de Israel, enquanto restauração do povo e do seu território.
GARANTIA:
       "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá" (Jo 11,1-45).
       Jesus garante-nos a vida futuro. Quem acredita no Filho do Homem não morrerá, irá à presença de Deus. É uma garantia que Se faz certeza na Sua ressurreição. Porquanto, ressuscitamos, pelo Baptismo, para a vida nova de filhos, para vivermos em espírito e verdade.
       Também a ressurreição de Lázaro é uma garantia, do poder de Deus, do Seu amor por nós, e do poder que é mais forte que a morte. Lázaro é "reanimado" para a vida temporal, mas também um dia morrerá e então há-de ressuscitar para a eternidade de Deus.
CERTEZA:
       "Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós... E, se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós" (Rom 8,8-11).
       A ressurreição de Jesus é a certeza de que Aquele que O ressuscitou também nos ressuscitará. A nossa vida e a nossa fé são sustentadas e enformadas pela Ressurreição de Jesus. Primeiro Ele, depois nós.  

Deus criou-nos para a ressurreição e para a vida

Na Sua Mensagem para esta QUARESMA 2011, Bento XVI diz o seguinte sobre este V Domingo de Quaresma:

       Quando, no quinto domingo, nos é proclamada a ressurreição de Lázaro, somos postos diante do último mistério da nossa existência: «Eu sou a ressurreição e a vida... Crês tu isto?» (Jo 11, 25-26). Para a comunidade cristã é o momento de depor com sinceridade, juntamente com Marta, toda a esperança em Jesus de Nazaré: «Sim, Senhor, creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo» (v. 27). A comunhão com Cristo nesta vida prepara-nos para superar o limite da morte, para viver sem fim n’Ele. A fé na ressurreição dos mortos e a esperança da vida eterna abrem o nosso olhar para o sentido derradeiro da nossa existência: Deus criou o homem para a ressurreição e para a vida, e esta verdade doa a dimensão autêntica e definitiva à história dos homens, à sua existência pessoal e ao seu viver social, à cultura, à política, à economia. Privado da luz da fé todo o universo acaba por se fechar num sepulcro sem futuro, sem esperança.

sábado, 9 de abril de 2011

Domingo V da Quaresma - 10 de abril

       1 – "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá". A afirmação de Jesus é inaudita e surpreendente, e incontornável. A pergunta/desafio a Marta vai muito para além de uma concepção de vida apenas terrena e material, transcendendo-nos nas nossas limitações humanas.
       A fé é essencial para que a vida ressurja constantemente. O desafio à confissão de fé de Marta, para que não se deixe afoguear pela dor e pelo luto, mas, ela e nós, se abra à confiança plena em Deus, na certeza de que, para os crentes, como nos recordará São Paulo, a vida não acaba apenas se transforma e desfeita a morada deste exílio terrestre, entraremos na morada eterna, já não feita por mãos humana, mas dádiva de Deus e que n’Ele perdurará para sempre.
       A ressurreição, para nós, crentes cristãos, é crucial, é o ponto de partida da nossa vida espiritual e a nossa meta. Está presente em todo o tempo. Radicámos toda a nossa vida de fé a partir da ressurreição de Jesus Cristo, como antecipação da nossa ressurreição para a eternidade de Deus. Aliás, em cada Eucaristia, em cada Domingo e, como solenidade, anualmente, a liturgia da Igreja centra-se na Páscoa de Jesus.


       2 – Quando Marta se aproxima de Jesus, quando Maria O interpela, uma e outra confiam no Seu poder e sabem que Deus está com Ele. Marta acredita em Jesus. Maria diz mesmo que a presença de Jesus evitaria a morte do seu irmão. Ambas sabem que a vida e a ressurreição acompanham Jesus, na Sua pregação, nos seus gestos e na promessa de nos preparar uma morada eterna. Compreendem que a vida não se esgota agora, no tempo presente, crêem na ressurreição, ainda que a separação de Lázaro lhes traga sofrimento e tristeza. Não é o fim. Esta certeza, contudo, não anula a dor, mas enquadra-a na garantia da eternidade.
       "Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste». Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora». O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário".
       A ressurreição de Lázaro é antecipação da ressurreição de Jesus. É sinal e expressão, tal como outros prodígios realizados por Jesus, que o poder de Deus está no meio de nós, pela fé e simultaneamente que o mal, o sofrimento, a doença e a morte devem ser combatidos até onde for humanamente possível, com a ajuda de Deus. Mas, contrariamente à ressurreição de Jesus, a de Lázaro é sobretudo uma reanimação, para a vida terrena. Biologicamente, na nossa finitude e fragilidade humanas, a morte chegará um dia. Também a de Lázaro. Mas não como fatalismo. Na ressurreição do Seu amigo, Jesus mostra-nos que o poder de Deus vence a morte, como mais claramente se verá na Sua própria ressurreição. A separação dos entes queridos é passageira, logo nos encontraremos na comunhão gloriosa dos santos.

       3 – Enquanto caminhamos neste "vale de lágrimas", onde nos deparamos com o sofrimento, com a doença e com o mal, com a solidão e com a morte, somos enlevados pela esperança que Se funda nas promessas de Deus a Israel: "Assim fala o Senhor Deus: «Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo. Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei-de fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, o disse e o executarei». Aqui de novo se pode entender a fé na ressurreição em dois sentidos: os que morrem ressuscitarão para a vida eterna; o povo enquanto tal não morrerá mas será reconduzido para a terra prometida, renovando-se.
       Um e outro sentido, são garantia que Deus continuará a agir na história e no tempo a favor da humanidade.
       Mas não apenas isso. A nossa esperança agora tem um rosto, real e concreto, Jesus Cristo, que vem de junto de Deus para nos mostrar o Seu amor, e regressa, pela Sua morte e ressurreição, para nos introduzir no Reino eterno de Seu e nosso Pai.
       "Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós... E, se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós".
       A fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, morto e ressuscitado, dá-nos a certeza de que a nossa identidade humana não se perderá com a morte natural, mas prosseguirá na eternidade, na comunhão dos santos, com a ressurreição da carne.
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Textos para a Eucaristia (ano A): Ez 37,12-14; Rom 8,8-11; Jo 11,1-45.

sábado, 17 de julho de 2010

XVI Domingo do Tempo Comum (ano C) - 18 de Julho

       1 – O cristianismo não é abstracto, mas vivência concreta do Evangelho no meio do mundo, na relação concreta e quotidiana com pessoas de carne e osso, procurando a verdade, a partilha solidária, o compromisso pela justiça, o empenho pela paz, a construção de um ambiente saudável e fraterno, em casa, com a família, com os vizinhos, no local de trabalho, no lazer, proporcionando aos outros bem-estar e alegria.
       A Primeira Leitura intui a delicadeza de um homem de fé. Abraão, pela hora do calor, resguarda-se à entrada da tenda, na sombra e no descanso. Passam três homens (de Deus) e imediatamente o grande patriarca os retém para que parem, descansem, retemperem forças. Para ele, em todo o caso, são presença Deus. Com efeito, em todas as pessoas poderemos acolher o rosto de Deus. São muitas as oportunidades que se nos apresentam para fazermos o bem. ainda que seja um copo de água.
       Também no Evangelho deste domingo vemos a vivência do carinho para com Jesus, vivido em gestos concretos de acolhimento, ternura e conforto. Cansado da jornada, Jesus tem na casa de Lázaro, de Maria e de Marta um porto de abrigo. Ao passar sabe que pode descansar e retemperar as forças. Marta atarefa-se para cuidar do bem-estar de Jesus. Maria acolhe-O na escuta atenta. Duas formas de acolhimento que Jesus aprecia.
       2 – Em tempos de agitação, de crise, de dificuldades, o nosso porto seguro é Jesus Cristo. Ouvimos as Suas palavras, "vinde a Mim todos os que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei". Para nós, Ele é a tenda de Abraão, a casa de Lázaro, de Maria e de Marta. É Ele que nos trata das feridas, o Bom Samaritano, que nos acolhe, nos escuta, nos dá novas forças para o caminhar. É d'Ele que nos alimentamos, na Sua palavra e nos Seus sacramentos, em especial da Eucaristia, o alimento espiritual até à vida eterna.
       Paulo, na Segunda Leitura, mostra a sua alegria por contribuir para disseminar a palavra de Jesus Cristo, por deixar transparecer o Seu amor por nós, manifesto sobretudo na Sua paixão redentora. Cada um de nós, seguindo a interpelação de São Paulo, deve testemunhar a paixão de Jesus Cristo com alegria, pela voz e com a vida.

       3 – A dinâmica da fé permite que todos nós possamos contribuir com os nossos talentos, com a nossa forma de ser, com as nossas qualidades, procurando dar o melhor de nós mesmos, com a tal alegria de que nos fala São Paulo. Por vezes perdemos tempo a discutir os dons que não temos, ou os dons que os outros têm.
       Ora, Deus é o mesmo. É o mesmo Pai. Os dons são tão variados quanto as pessoas, e cada um tem algo importante e essencial a dar aos outros e ao mundo.
       Quando Jesus chama a atenção de Marta: "Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada", diz-lhe precisamente isso. Marta acolhe Jesus com trabalho, arranjando a casa, preparando o repouso e a refeição, mas deverá fazê-lo com alegria, com generosidade e não em esforço. O reparo de Marta a Jesus, merece d’Ele um outro reparo. O que Maria faz é tão ou mais importante. Não basta alimentar o corpo, mas também o espírito. Ela escuta-O, conforta-O do cansaço da missão.
       A Igreja é Marta e Maria. Mas se for demasiado Marta pode esquecer-se da sua origem e do seu fim último. Tudo começa em Deus, na oração, na meditação e na contemplação que leve à Sua adoração. O compromisso com os outros e com o mundo, para o crente, há-de partir daqui, para que não haja instrumentalização de pessoas nem falte a alegria no serviço solidário.
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Textos para a Eucaristia (ano C): Gen 18,1-10a; Col 1,24-28; Lc 10,38-42.