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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Joseph Ratzinger (BENTO XVI) - Por amor

JOSEPH RATZINGER/BENTO XVI (2019). Por Amor. Cascais: Lucerna. 144 páginas. 
Quando uma criança agarra um brinquedo dos irmãos, de algum amigo ou num centro comercial, é muito difícil convencê-la a largar o brinquedo, mesmo que tentem dar-lhe um melhor. Há tantas pessoas que continuam agarradas ao brinquedo que a comunicação social vendeu acerca do Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI. Muitos tiveram a oportunidade de corrigir a imagem que lhes tinham vendido, muitos continuam a fazer birrice, e daí também a necessidade de contrapor a humildade e bondade do atual Papa Francisco ao distanciamento e reserva de Bento XVI. Claro que são diferentes, mas a bondade, a simplicidade, a humildade e a sabedoria são características agrafadas à personalidade dos dois Papas. Mesmo no tempo em que era Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, quando recebia alguém, era sempre atencioso, delicado, com um trato familiar, próximo, direto, simples. Não deixava de ser amável, mesmo que houvesse desencontro de ideias. Uma das biógrafas do atual Papa Francisco, refere que quando o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio ia ao Vaticano, o também Cardeal Joseph Ratzinger (Bento XVI) era dos poucos que o tratava de igual para igual, sem tiques de superioridade, mas como a um irmão! 
Neste pequeno livro que hoje sugerimos - Por amor - publicado pela Lucerna, vem ao de a humildade do pastor, a simplicidade do padre, a sabedoria do teólogo, a fé do cristão, a melodia da mensagem cristã, a ternura maternal de Maria, a luz do Evangelho, a compaixão de Jesus. 24 homilias (inéditas, pelo menos no facto de serem publicadas em livro, como um conjunto) que vão do ano 1978 a 2003, portanto antes de ser eleito Papa. Muitos dos textos são anteriores à sua nomeação para Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé. Cada reflexão é uma pérola. Não adianta tentar explicar a alguém que não quer, à partida, compreender. Para sacerdotes – como eu e outros – que já fizeram muitas homilias e tenham ouvido outras tantas, aprendemos sempre com o Cardeal Ratzinger. Há sempre apontamentos e leituras novas. Quando se lê, fica a ideia: como é que não me lembrei disto? 
Nota-se que os textos foram preparados como homilias, tem um tom muito reflexivo, pastoral, dialogante com a assembleia celebrante. Como curiosidade, há uma reflexão/mensagem na bênção de tratores, numa interessante interpretação do que é a bênção e a razão de benzer "máquinas", e há também a homilia do então Cardeal, em Fátima, em 13 de outubro de 1996. 
Também através dos textos nos aproximamos de quem os escreve. Vejamos uma ou outra passagem: 
"Ser cristão é passar da morte para a vida. O cristianismo é portanto um movimento, um caminho; não é uma teoria, nem um conjunto de doutrinas; o cristianismo é vida, é um impulso vital que nos leva à verdadeira vida e, por conseguinte, abre também os nossos olhos para a verdade, que não é pensamento puro mas força criadora fundamentalmente idêntica à caridade... a vida humana é, segundo a sua tendência natural, um caminho em direção à morte... 'Nós sabemos que passámos da morte para a vida'... o que é a vida? ... o amor é vida. O amor é síntese, a morte é dissolução. Quem encontrou o amor pode dizer: 'encontrei a vida'. A inversão do processo da morte, numa passagem para a vida, realiza-se na conversão da cupidez ao amor. O cristianismo é a conversão ao amor divino e, portanto, ao amor fraterno e, por conseguinte, passagem da morte para a vida". 
"Só o amor conhece o amor... o amor faz ver, e faz amar" 
"Em Maria, o Antigo Testamento torna-se Novo, a esperança transforma-se em cumprimento, em realidade concretizada. Ela é o advento em pessoa, isto é, o templo vivo em que Deus habita corporalmente. O sim de Maria é o momento em que o Antigo testamento se torna Novo: este sim é a porta através da qual Deus entra no mundo... Maria pode acreditar porque ama. Eva, por seu turno, perde a fé na Palavra de Deus e experimenta o contrário, no momento em que abre o seu coração à suspeita de que Deus talvez não fosse inteiramente bom. Envenenada por esta suspeita, procura a sua felicidade, colocando-se contra Deus, teme que Deus seja o adversário que a impede de ser livre, e foge da presença de Deus... O diálogo entre o Anjo e a Virgem conclui-se não só com uma profissão de fé, mas com o ato de submissão: «Eis a servas do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). A Palavra de Deus não é só informação, comunicação da verdade; esta Palavra é missão, é mandato. A fé tem uma consequência prática: transforma a vida por completo. Deus tem necessidade de Maria, do seu sim, da sua obediência. A fé só é completa se se tornar obediência concreta ao mandato divino. Deus espera o nosso sim, espera a fé que se torna vida, na transformação da nossa vontade até à plena conformidade com a Sua vontade... a fé tende a ser comunicada. A fé é dinâmica, coloca-nos em movimento em direção aos outros... Ninguém crê só por si. Todos devem testemunhar com a sua vida a fé..." 
"Um dos costumes mais antigos da liturgia cristã é um pequeno gesto no início da preparação dos dons. Deita-se uma pequena gota de água no cálice com vinho. A origem deste gesto remonta simplesmente ao velho costume dos países mediterrâneos que não tinham hábito de beber vinho puro. Por esta gota de água estamos assim ligados à origem da Eucaristia: fazemos o que Jesus Cristo fez... A mistura da água e do vinho surgiu como uma interpretação para o grande mistério de que fala o Natal: o tornar-se um só do Homem com Deus, Cristo, em quem se dá a admirável troca. Deus assume a natureza humana para que o Homem possa participar da natureza de Deus. A pobre gotazinha de água, que cai no vinho delicioso e forte, representa a Encarnação de Deus. O pobre humano é mergulhado no oceano da divindade. No coração de Deus está o Homem... Regressemos uma vez mais á gota de água no vinho destinado à Eucaristia! Ele representa o facto de Deus e o Homem se tornarem um só em Cristo. Mas é também a orientação muito prática para o dia de hoje. Deixemo-nos simplesmente mergulhar no abismo de Deus, no vinho do seu amor!" 
"Não é possível estar junto da Cruz, junto dos mistérios da nossa redenção, sem estar também junto de Maria. É aqui que Maria se torna Mãe da Igreja. A Igreja nasceu no momento em que Jesus viu a sua Mãe e, ao lado dela, o discípulo que Ele amava… Tudo está consumado a partir do momento em que o discípulo «recebe» Maria «em sua casa»... Maria conduz-nos à Cruz. A presença eucarística do Senhor provém da Cruz. Não é possível aproximar-se de Jesus evitando a Cruz... O discípulo torna-se o filho, torna-se naquilo que é Jesus. Esta admirável identificação é o fruto do amor crucificado. Essa identificação, porém, torna-se realidade quando o discípulo «recebe» Maria «em sua casa». A comunhão com a Mãe é o caminho para a união com Jesus, o caminho da santa transformação. A Igreja nasce no momento em que, do alto da Cruz, o discípulo é confiado à Mãe... O facto de Maria ser recebida pelo discípulo em sua casa comporta dois aspetos. Por um lado, o discípulo de Jesus torna-se também discípulo da Mãe. Ele aprende a ser filho na escola da Mãe. Com a Mãe, ele aprende as palavras guardadas e ponderadas no coração materno. Com Maria, aprende não só as palavras, mas também o significado do silêncio de Jesus, o silêncio de 30 anos em Nazaré, o silêncio da sua origem eterna no regaço do Pai. Com a Mãe, que é a Igreja em pessoa, ele aprende a ser Igreja. A escola da Mãe é condição indispensável para se tornar filho, para reconhecer o Pai. Por outro lado, Maria é confiada ao discípulo: «Ele recebeu-a em sua casa». Santo Agostinho comenta a propósito desta passagem que o discípulo, tendo deixado tudo, não pode receber a Mãe em sua morada física - em «sua casa»... Ele «recebe-a» realmente «na sua intimidade», no seu ser, no seu pensamento e na sua vida". 
Quando Jesus esteve na Terra… escolheu o último lugar. Nasceu num estábulo. Viveu como trabalhador no meio dos pobres de Israel. Ensinou no meio dos publicanos, dos pecadores, dos desprezados. Reuniu pescadores à sua volta. E morreu fora dos muros da cidade, entre dois criminosos. A verdadeira imagem de Deus revela-se precisamente nisso, porque o verdadeiro Deus não é um tirano que exerça o poder como Lhe apetece, que Se apresente fechado em Si mesmo para se afirmar. O verdadeiro Deus é o amor trino que se oferece… 
Na Ceia do Senhor, vemos acontecer o que também acontece no banquete com os fariseus por causa dos primeiros lugares. Os evangelistas contam-nos que, na Última Ceia, os discípulos discutiram por causa do primeiro lugar (Lc 22, 24-30). Com este seu comportamento, mais uma vez, representam entre eles, em ponto pequeno, por assim dizer, o drama da história universal. Com isso, O Evangelho quer dizer-nos que também na Igreja há mundo. Não deve ser para nós motivo de espanto que a Imagem da história universal também atinja o âmago da Igreja, podendo chegar até ao mais sagrado, até à Eucaristia. A isso, no entanto, o Senhor contrapõe a inversão de valores que que é Ele próprio. Sobre o Seu lugar na Última Ceia, Ele também já decidiu. O seu lugar não é o lugar do Senhor, o lugar do poderoso, o lugar das tigelas cheias ou o mais confortável. Ele nem sequer Se senta com o grupo; pelo contrário, anda de um lado para o outro como o servo e, em especial, Se dá a Si mesmo. 
É este o significado do relato lava-pés de São João. O Senhor lava os pés dos discípulos da sujidade e do suor do dia-a-dia para que eles possam sentar-se à mesa. João, mais ainda do que os outros evangelistas, afirma claramente que não se trata aqui de um ato moral isolado. Ao longo de toda a sua vida, o próprio Senhor é o ato do lava-pés para connosco. A sua natureza consiste em baixar-Se; Ele é, na sua essência, humildade, porque o facto de Ele, o Filho de Deus, existir enquanto homem deve-se a Ele ter tirado a túnica da Sua glória e Se ter cingido com o linho grosseiro da natureza humana. E, agora, ajoelha-Se diante de nós, as suas criaturas. Ele lavou-nos, limpou-nos com o Seu próprio corpo, através do Seu sofrimento, do fedor da nossa soberba e da sujidade do nosso egoísmo, a fim de podermos sentar-nos à mesa do banquete do amor de Deus. 
«Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz vós façais também» (Jo 13, 15). Esta frase é mais do que uma exortação moral à prática de atos morais. É a razão de ser cristão, uma iniciação à comunhão com Jesus Cristo que tem a humildade de Se baixar. Só conseguiremos identificar-nos com Ele se entrarmos nesse movimento, se nós próprios nos tornarmos humildes. Não é possível acreditar sem humildade. Sem humildade, não é possível sequer afirmar o mistério no meio do mundo que não O reconhece, nem aceitar até ao limite do nosso entendimento o caráter insondável de um Deus que Se ajoelha diante de nós. E, assim como não há fé, também não há amor sem humildade. Todos sabemos que amar implica ser capaz de engolir algumas coisas e calar outras tantas e ainda suportar a humilhação. O amor só subsiste envolto numa enorme humildade. E como, sem fé e sem amor, o Homem não tem por que ter esperança, e a fé e o amor não podem existir onde não há humildade, esta última é também a condição indispensável para a nossa esperança.

sábado, 16 de março de 2019

Amai os vossos inimigos

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 43-48).
       O paradigma de Jesus é bem mais elevado e saudável que a nossa limitação. É certo que nós também sabemos que o perdão é muito mais eficaz e faz-nos melhor à saúde que o rancor, a inveja e o desejo de vingança. Mas quando nos fazem mal a nós, aí já se torna mais delicado perdoar. Mas, ainda que momentaneamente nos pareça humilhação, com o tempo perceberemos que é o único caminho que nos liberta, que nos faz sentir bem connosco, com o mundo e com Deus. Dar a outra face, amar até os inimigos, ser perfeitos como o Pai celeste é perfeito. É este o modelo de vida que Jesus nos propõe.
       Amar os nossos amigos é tarefa de fácil execução, não custa nada. Agora, amar os inimigos, aqueles de quem não gostamos, que nos fizeram mal ou a quem nós fizemos mal já é uma missão muito pesada, mas, garante Jesus, muito libertadora e que nos dignifica.
       Como é que podemos rezar por alguém que nos fez mal? Como é que podemos amar alguém que disse mal de nós? Como podemos nutrir sentimentos positivos por alguém que não vemos com bons olhos? Não é fácil, mas é o mandamento de Jesus. A referência é Deus Pai. O cristão não se fixa nos mínimos garantidos, mas almeja o máximo, a perfeição de Deus.

sábado, 27 de outubro de 2018

... Talvez venha a dar fruto!

       Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante.
       Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’ Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandarás cortá-la» (Lc 13, 1-9).
       Deus ama-nos pacientemente. Aliás, a paciência de Deus constrói, espera por nós, aguarda a nossa conversão, respeita a nossa liberdade, as nossas escolhas, mas não nos abandona, mesmo em situações em que nós o arredamos da nossa vida, em situações em que, tal como a figueira, não damos fruto. No entanto, Deus continua a esperar, a cuidar de nós, a tratar-nos como filhos. Mais dia menos dia poderemos dar fruto...

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Festa da Exaltação da Santa Cruz

"Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem,
humilhou-se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz"
(Filp 2, 6-11).
Nota histórica:
       Foi na Cruz que Jesus Cristo ofereceu ao Pai o Seu Sacrifício, em expiação dos pecados de todos os homens. Por isso, é justo que veneremos o sinal e o instrumento da nossa libertação.
       Objecto de desprezo, patíbulo de infâmia, até ao momento em que Jesus «obediente até à morte» nela foi suspenso, a Cruz tornou-se, desde então, motivo de glória, pólo de atracção para todos os homens.
       Ao celebrarmos esta festa, nós queremos proclamar que é da cruz, «sinal do amor universal de Deus, fonte de toda a graça» (N.A., 4) que deriva toda a vida de Igreja. Queremos também manifestar o nosso desejo de colaborar com Cristo na salvação dos homens, aceitando a Cruz, que a carne e o mundo fizeram pesar sobre nós (G.S. 38).

Oração de Colecta:
       Senhor, que, na vossa infinita misericórdia, quisestes que o vosso Filho sofresse o suplício da cruz para salvar o género humano, concedei que, tendo conhecido na terra o mistério de Cristo, mereçamos alcançar no Céu os frutos da redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam

       «Digo-vos a vós que Me escutais: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam. Abençoai os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos injuriam. A quem te bater numa face, apresenta-lhe também a outra; e a quem te levar a capa, deixa-lhe também a túnica. Dá a todo aquele que te pedir e ao que levar o que é teu, não o reclames. Como quereis que os outros vos façam, fazei-lho vós também... amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Então será grande a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, que é bom até para os ingratos e os maus. Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco» (Lc 6, 27-38).
       O Evangelho deste dia está repleto de recomendações essenciais de Jesus.
       Para lá regra de ouro - faz aos outros o que queres que te façam a ti - Jesus acentua a misericórdia, a generosidade, o amor até aos inimigos, a compreensão com o próximo. A lei de talião - olho por olho, dente por dente - não cabe nas contas de Jesus: "a quem te bater numa face, apresenta-lhe também a outra".
       A caridade, ao jeito de Jesus, deve presidir a todos os nossos atos... quando estivermos irritados com alguém, como tem recomendado o Papa Francisco, rezemos por ele. Abençoemos em vez de condenarmos. Não julguemos. Não percamos tempo em juízos de valor acerca dos outros. Rezemos por todos.

sábado, 1 de setembro de 2018

A todo aquele que tem, dar-se-á mais...

       Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «Um homem, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um, conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu. O que tinha recebido cinco talentos fê-los render e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois talentos ganhou outros dois. Mas, o que recebera um só talento foi escavar a terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos e foi ajustar contas com eles. O que recebera cinco talentos aproximou-se e apresentou outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos: aqui estão outros cinco que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse: ‘Senhor, confiaste-me dois talentos: aqui estão outros dois que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse: ‘Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence’. O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei; devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu. Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez. Porque, a todo aquele que tem, dar-se-á mais e terá em abundância; mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes’» (Mt 25, 14-30).
       Vigilância e compromisso. Utilizando a beleza das palavras, "obrigando" a refletir, Jesus vai educando os seus discípulos, daquele e deste tempo, para a vivência concreta da fé. Na parábola das 10 virgens, 5 prudentes e 5 insensatas, sublinhava-se precisamente que a espera e confiança em Deus não nos leva a cruzar os braços, mas a preparar-nos em tempo útil para o que virá. A espera não resignação, imobilismo, ociosidade. Pelo contrário, o facto de esperarmos por Deus, a certeza de que Ele virá e que não estaremos cá para sempre, há de levar-nos a aproveitar bem o tempo de que dispomos para dar valor e sentido à nossa vida. Quando Ele vier, se praticámos o bem, se vivemos com os outros em lógica de serviço e de amor, as nossas mãos erguer-se-ão, confiantes, até ao Céu com o perfume que irradiámos pelos outros, pelo mundo.
       Hoje, do mesmo modo, a parábola dos talentos. Deus confia em nós. Deus coloca nas nossas mãos a salvação do mundo. Cabe-nos desenvolver os nossos talentos. A fé não nos desliga do tempo presente. Aliás, veja-se a oração sacerdotal. Jesus pede a Deus Pai não que livre os discípulos do mundo, mas do mal enquanto estão no mundo.
       Somos as mãos, os pés, a voz, o rosto de Deus para os nossos concidadãos. Poderia ser de outro modo. Mas Deus ama-nos e por que nos ama aposta em nós. Conta connosco. Não desperdicemos os talentos que possuímos. Agradeçamo-los ao Senhor, sabendo que a melhor forma de agradecer é pô-los a render. Como é que sabemos os talentos que temos que não os colocamos em ação?
       Como é que fixamos o olhar em Deus, se nos esquecemos de amar o nosso próximo?
       Não é possível, como facilmente se conclui, amarmos a Deus se não amarmos os Seus filhos...

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Perdoar 70 X 7 (= SEMPRE)

Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete (Mt 18, 21 – 19, 1).

       O Evangelho de hoje, mostra-nos como Jesus dá a Pedro uma resposta inequívoca, sublinhada pelo contexto judaico. Perdoar uma vez tolera-se. Perdoar duas vezes já é abuso. Perdoar três vezes é quebrar a cara, é humilhar-se, rebaixar-se. Ora, quando Pedro pergunta a Jesus se deve perdoar até sete vezes, isto é, se deve perdoar sempre, Jesus multiplica-lhe a equação, para que não restem dúvidas, perdoar sempre, em todas as circunstâncias, em todos os momentos.
       Pedro vê-se a si mesmo como pessoa generosa ao elevar a fasquia do perdão. Jesus leva o raciocínio até ao infinito, lembrando, através da parábola que conta de seguida:

O reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te, porque me pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’. E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração». 

terça-feira, 26 de junho de 2018

Entrai pela porta estreita...

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, não vão eles calcá-las aos pés e voltar-se para vos despedaçarem. Tudo quanto quiserdes que os homens vos façam fazei-o também a eles, pois nisto consiste a Lei e os Profetas. Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição e muitos são os que seguem por eles. Como é estreita a porta e apertado o caminho que conduz à vida e como são poucos aqueles que os encontram!» (Mt 7, 6.12-14).
       A regra de ouro: não faças aos outro o que não queres que te façam a ti. Jesus formula esta regra positivamente: faz aos outros o que queres que te façam a ti. Com efeito, se a nossa postura para com os outros, em palavras e gestos, corresponder àquilo que desejamos para nós, então estaríamos no caminho de fazer bem a todos e de todos dizer bem.
       O cristão não deve contentar-se com o mínimo garantido, com o que está na lei, mas procurar aperfeiçoar-se sempre mais e fazer todo o bem que puder, a todas as pessoas que encontrar. Não nos situamos no "deve" fazer-se isto ou aquilo para se manter dentro das recomendações da Igreja ou da sociedade, mas deve viver ao máximo, gastar a vida, apostar no hoje, dar o melhor de si mesmo, levar aos outros o próprio Deus que nos habita, sem medos nem hesitações. A única regra é amar, amar sem limites, de todo o coração, como Jesus, dando a vida. Todas as outras regras serão observadas se o AMOR presidir a toda vida, a todas as escolhas, a todos os caminhos.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Não julgueis e não sereis julgados

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Não julgueis e não sereis julgados. Segundo o julgamento que fizerdes sereis julgados, segundo a medida com que medirdes vos será medido. Porque olhas o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua? Como poderás dizer a teu irmão: ‘Deixa-me tirar o argueiro que tens na vista’, enquanto a trave está na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e então verás bem para tirar o argueiro da vista do teu irmão» (Mt 7, 1-5).
        É tão fácil olharmos para os outros. Desde logo por uma razão biológica, estão à nossa volta, vemos e/ouvimos, formulamos juízos de valor e nem sempre (e talvez muitas vezes não são) positivos. Por vezes, como nos recordam vários autores como Augusto Cury, o que detestamos nos outros é aquilo que detestamos em nós, mas é mais simples observá-lo nos outros. Contudo, já o desafio de Sócrates (filósofo grego que viveu antes de Jesus Cristo) nos envidava a que cada um se conhecesse a si mesmo, para depois conhecer os outros e o mundo.
       Jesus é peremptório, o nosso juízo de valor sobre os outros deve ser muito cuidadoso, usando para com eles a medida que gostaríamos que usassem connosco. Ou como nos lembra um ditado popular, não atiremos pedras aos telhados vizinhos quando nós temos telhados de vidro, é um perigo, poderemos ficar sem telhado...

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Não acumuleis tesouros na terra

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os destroem e os ladrões os assaltam e roubam. Acumulai tesouros no Céu, onde a traça e a ferrugem não os destroem e os ladrões não os assaltam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração. A lâmpada do teu corpo são os olhos. Se o teu olhar for límpido, todo o teu corpo ficará iluminado. Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo andará nas trevas. E se a luz que há em ti são trevas, como serão grandes essas trevas!» (Mt 6, 19-23).
       Obviamente, os bens materiais são necessários para se viver com dignidade, mas como meio, como instrumento, ao serviço da humanidade e da felicidade que se deseja.
       Mas por mais duradoiros que sejam, os bens materiais são corruptíveis, e não definem o grau da nossa felicidade. Jesus interpela para que acumulemos tesouros no Céu, sabendo que estes são incorruptíveis: a caridade para com o próximo, o serviço ao semelhante, traduzidos por perdão, por justiça, por partilha solidária.
       O que acumulamos de riqueza material, se for um fim em si mesmo, não nos satisfaz nunca e nunca nos trará a paz, a alegria, a felicidade. Veja-se, por mais riqueza que tenhamos, se nos faltar a família, os amigos, a saúde, de pouco nos vale. Não podemos comprar a felicidade. Esta constrói-se.
       Por outro lado, Jesus convida-nos a termos um olhar límpido e transparente para que os nossos juízos sejam benevolentes e generosos e para que a Luz possa iluminar o nosso coração e a nossa vida.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Oferece a outra face...

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado» (Mt 5, 38-42).
       O Evangelho hoje fala-nos de perdão, de tolerância, de compreensão, de benevolência, numa palavra, fala-nos de caridade que depois se expressa no perdão e no acolhimento aos outros mesmo daqueles que me/nos ofendem. Ao olho por olho, dente por dente, a conhecida lei de talião, Jesus propõe que se ame até o inimigo.
       Jesus não se fica pelos mínimos garantidos, no cumprimento fiel da Lei, mas quer que a Lei tenha rosto, vida, tenha espírito. Jesus aponta como limite o infinito, o Amor sem fim. Ele próprio assume este desiderato: por amor derrama a vida até à última gota de sangue...

sábado, 9 de junho de 2018

Imaculado Coração da Virgem Santa Maria

"Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados; e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso. Sua Mãe guardava todas estes acontecimentos em seu coração" (Lc 2, 41-51).
       Ontem celebrámos o Sagrado Coração de Jesus. Hoje, o Imaculado Coração de Maria. Do Coração de Maria o SIM a Deus, o SIM à humanidade. Maria responde com amor, cheia de graça diante de Deus. É no amor que acolhe Jesus e pela vida fora muitas vão ser as vezes que Nossa Senhora guarda no Seu coração as palavras, os gestos de Jesus e os acontecimentos ligados ao Seu filho.
       O CORAÇÃO de Maria é cheio de AMOR, por Jesus e por nós. Quando Jesus está na CRUZ, dá-nos Maria por Mãe e Ela recebe-nos como filhos. É a última vontade do Filho antes de morrer. É um desejo para cumprir naquele momento e pelos tempos fora. Maria continua a acolher-nos como filhos e a recomendar-nos a Jesus.
       É um coração de Mãe, que ama, que acolhe, que está disponível para o Filho e para os filhos, que intercede (junto de Deus Pai e junto de Seu Filho), que vive em função do bem de seus amados filhos. Maria é um coração que escuta, que reza, que medita, que guarda o que vem do Filho, mesmo quando não compreende tão bem. É modelo de discípulo, disponível para escutar, para se abrir ao mistério de Deus.

Leituras e orações: Secretariado Nacional da Liturgia.