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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Haruki Murakami - ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO

HARUKI MURAKAMI (2024). Romancista como vocação. Alfragide: Casa das Letras. 232 páginas.

Sobejamente conhecido, Haruki Murakami, tem sido falado, em diversas ocasiões, para possível Prémio Nobel da Literatura, mas têm prevalecido outras opções. Japonês, radicou-se nos EUA. Desafiando-se a escrever num ambiente e para um mundo além-fronteiras, testando o sucesso fora da sua terra natal, de onde sempre colheu muitas críticas, mas onde vendeu generosamente. Procurou um estilo próprio, criando uma linguagem identificável e um discurso que, evoluindo, traz as suas marcas.

Escreve contos, novelas, traduções do inglês para o japonês, mas é sobretudo no romance que quis deixar a sua marca e no qual apostou a sua vida. Deixou uma vida folgada, no Japão, proprietário de um bar de Jazz, arriscando-se até a passar fome. Mas insistiu e persistiu.

Já anteriormente tinha escrito um livro que ia retratando o romancista como um maratonista: Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo. Casa das Letras: 2009. É uma espécie de autobiografia onde Murakami reflete a sua vida como corredor e quanto se tornou importante a corrida, o exercício físico, a persistência na sua escrita. Com efeito, também neste livro que ora sugerimos, a exercício físico, a corrida diária, a participação em maratonas sobressai, concomitantemente à missão de romancista. Para escrever demoradamente, umas cinco horas por dias, durante vários dias, o exercício ajuda a manter o corpo são e a mente sã.

Murakami explica como se tornou escrito, sensivelmente aos 30 anos de idade, como se dedicou exclusivamente à escrita, saiu do Japão até se fixar nos EUA, que técnicas engendrou para apresentar uma escrita original e distinta, o método de trabalho, o escrever e as revisões, os editores e os críticos. O autor caracteriza os romancistas, fala dos prémios literários, sobre a originalidade, sobre o que deve escrever um romancista, como escrever um romance, sobre a escola e a vida, que personagens criar e como as personagens também moldam a escrita e alteram o decorrer da história, para quem escreve e quem o lê.

Como nos seus romances, também aqui a escrita é escorreita, perceptível, sobressaindo a alegria com que escreve. Com efeito, mais que dirigir a escrita para este ou aquele leitor, ainda que possa estar no horizonte os seus leitores, o mais importante é ter gosto e “divertir-se” na escrita.

sábado, 12 de abril de 2025

TIMOTHY RADCLIFFE - ESCUTAI-O

Timothy Radcliffe (2024), Escutai-O! Para uma espiritualidade sinodal. Prior Velho: Paulinas Editora. 120 páginas.

O autor nasceu em Londres, em 1945, é um dos mais notáveis autores cristãos contemporâneos, para além de biblista e teólogo. Formado em Oxford e Paris, é membro da comunidade de Blackfriars, em Oxford. Foi mestre-geral da Ordem dos Pregadores entre 1992 e 2001, sendo o único dominicano da Província Inglesa a exercer este cargo, desde a fundação da Ordem em 1216. Desempenha funções de docente em Oxford e de consultor do Pontifício Conselho «Justiça e Paz», sendo frequentemente solicitado para conferências e palestras em todo o mundo. Foi criado Cardeal pelo Papa Francisco, a 8 de dezembro de 2024.

“Com o Sínodo sobre a Sinodalidade, o maior exercício de auscultação a nível mundial na história da humanidade, o papa Francisco convidou o povo de Deus a repensar criativamente, sob a batuta do Espírito, o modo de ser e estar em Igreja”. Timothy Radcliffe foi escolhido para pregar aos participantes no Sínodo sobre a Sinodalidade, em outubro de 2023. Neste livro são recolhidas as meditações, com o autor a explorar, “sem fabricados receios ou infundados entusiasmos, o desafio que a Igreja tem à sua frente, realçando a conversão interior e coletiva que este pressupõe. Partindo do episódio bíblico da Transfiguração, Radcliffe mostra como a comunhão plena só é possível aí onde as partes se escutam, esvaziando-se das suas certezas para acolher o outro como ele é. Nesse movimento, o Espírito fala: escutemo-Lo!”

Como em outros títulos, a leitura é corrida, sobressaindo a vivência de fé, como sacerdote dominicano, com uma vasta experiência de vida, com encontros diversos, com muitas histórias para contar. Uma linguagem atraente, de fácil perceção, com vida. Sendo o resultado de conferências/meditações o estilo só poderia ser vivo.

Ao sugerirmos o livro nada melhor do que partilharmos alguns parágrafos, acedendo ao discurso e às palavras do autor:

“Em casa, somos confirmados como somos e convidados a ser mais. O lar é o lugar onde somos conhecidos e amados e nos sentimos seguros, mas onde também somos desafiados a embarcar na aventura da fé. Precisamos de renovar a Igreja enquanto casa comum se quisermos falar a um mundo que padece de uma crise de falta de lar.

“A base do nosso encontro amoroso sempre foi o nosso encontro com o Senhor, cada um junto ao seu próprio poço, com os seus fracassos, fraquezas e desejos. Ele conhece-nos como somos e liberta-nos para nos encontrarmos com um amor que liberta e não controla. No silêncio da oração somos libertados.

A Samaritana conhece Aquele que a conhece totalmente. E isso impulsiona-a na sua missão. «Vem ver o homem que me contou tudo o que já fiz. Ela vivera até àquele momento na vergonha e na ocultação, temendo o julgamento dos seus concidadãos. Vai ao poço no calor do meio-dia, quando não está lá ninguém. Mas agora o Senhor lançou luz sobre tudo o que ela é e ama-a. Após a Queda, Adão e Eva esconderam-se da vista de Deus, envergonhados. Agora ela entra na luz…

Por isso, neste Sínodo, ouviremos pessoas que falarão com verdade sobre «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje»

Se a autoridade da beleza fala do fim da viagem, da pátria que nunca vimos, a autoridade da santidade fala do caminho a seguir se quisermos lá chegar. É a autoridade dos que dão a vida.

Pregamos o Evangelho através de amizades que ultrapassam fronteiras. Deus ultrapassou o abismo entre Criador e criatura. A amizade de Deus chegou mesmo à última barreira, a da morte. Quando Maria Madalena percorria o jardim em busca do corpo do seu amado Senhor, ouviu uma voz: «Maria!» (Jo 20,16). A Igreja é a comunidade de amizade que abraça os vivos e os mortos que estão vivos em Deus, a comunhão dos santos.

 

Autor: Timothy Radcliffe

Título: Escutai-O!

Subtítulo: Para uma espiritualidade sinodal

Editora: Paulinas Editora

Ano: 2024

Número de páginas: 120

quinta-feira, 3 de abril de 2025

GIULIA GABRIELI - DESCALÇA NO PARAÍSO


Giulia Gabrieli, nascida a 3 de março de 1997, em Bérgamo, viria a ser-lhe detetado cancro, um sarcoma agressivo que a conduzirá à morte, apesar da esperança, da fé, da alegria, da decisão firme de lutar contra a doença. É uma adolescente normal. O inchaço numa mão, o que poderia significar a mordidela de algum bicho do jardim, era afinal algo bem mais grave.
A adolescente Giulia nunca perdeu a esperança de vir a ser curada pelos médicos e a sua fé foi amadurecendo ao ponto de confiar em Deus as suas dores e sofrimentos, não se deixando abater sempre que as notícias eram menos boas ou quando a quimioterapia lhe tirava as forças.
Obviamente interroga Deus, porquê, onde estás neste momento? Mas logo reúne forças, animando os pais ou mesmo os médicos.
Quase curada, assim o sentia, surgem as notícias médicas que, afinal, tudo voltou. É ela que anima os médicos: conseguimos uma vez havemos de conseguir outra vez. Os médicos são os seus heróis. Internada, consegue prosseguir os estudos.
É um relato emotivo! Uma adolescente que lida com notícias que assustam e paralisam qualquer pessoa. É uma história de vida. Quis escrever e nada mais tocante do que falar das provações a que esteve sujeita. A sua vida é preenchida de alegria e fé, de sofrimento e resistência, em que a família tem um papel preponderante, mas igualmente a sua fé. A fé não a deixa vacilar. A sua alegria em viver é colocada por escrito, para que outros jovens não desperdicem as suas vidas com vícios, na toxicodependência.
Mas nada melhor do que ler palavras de Giulia Gabrieli:
“Quando a doença reapareceu pela segunda vez, finalmente entendi! Devo rezar ao Senhor para que Ele me dê a graça da cura através dos tratamentos de quimioterapia. Mas isso não basta: nos devemos rezar-lhe para que Ele nos dê força para seguir em frente, para suportar os tratamentos, para aceitá-los!
Este ano espero ficar curada, mas mesmo que isso não aconteça, sei que Ele está sempre perto de mim e me dá a força necessária para seguir em frente. Além disso, com o meu sofrimento, estou a salvar muitíssimas outras pessoas, e isso deixa-me feliz!
Esta «viagem», esta «aventura», mudou a minha fé: esta tornou-se muito mais forte, e, por isso, sinto-me melhor, pois sei que nunca estou só, porque Nossa Senhora e o meu anjo da guarda estão a meu lado. E também a Beata Chiara Luce... Às vezes, tenho pedido ao Senhor que me alivie um pouco o meu sofrimento. O próprio Jesus o fez: «Afasta de mim este cálice; porém, não se faça a minha, mas a tua vontade.» E Ele escutou o meu pedido. Diz Deus: «Pedi e vos será dado.» Eu pedi, e Ele deu-me imediatamente.
“… também me abri muito a Deus. Sim, eu já acreditava antes, mas acreditava como acreditam as crianças: vou à missa porque mo mandam os meus pais, rezo porque mo dizem os meus pais. Agora, compreendi de verdade por que razão rezamos a Deus, porque Ele está sempre perto de nós: compreendi muitas coisas da minha fé que dificilmente teria compreendido sem a experiência da doença. Ou talvez até lá chegasse, mas muito mais tarde...”
“…só através da oração consigo abandonar-me de novo ao Senhor.
Uma coisa que admiro muitíssimo em Chiara [Luce Badano], e que também é uma coisa difícil de fazer, é conseguir viver o momento presente de que eu falava antes. Isto parece muito fácil, mas experimentem não pensar no amanhã. Vão ter uma chamada na escola, vão ter um teste: sentem-se preocupados? Não deviam estar preocupados com o amanhã. Neste momento, não têm essa chamada e basta. Que devo fazer, devo preparar-me para essa chamada?
Está bem. No resto pensarei amanhã.
Por exemplo, se agora estivesses mal, é difícil não pensar: como estarei amanhã? Estarei bem? Estarei mal? É difícil não pensar. No entanto, devemo-nos esforçar, porque a nossa vida é agora, não é amanhã; devemo-nos empenhar, agora, em construir um mundo melhor para amanhã. Se vivemos bem agora, amanhã será um dia melhor. Nascerá certamente um jardim de alegria e de comunhão entre os nossos amigos”.
“É pelo amor que se gera a vida, o amor entre uma mulher e um homem gera vida. Aquilo que Deus criou: a vida. A vida é futuro. E Deus reserva-nos o melhor para o nosso futuro”.
 
Consciente da gravidade da doença, Giulia pensou e escreveu sobre a morte e o que esperava:
 
“Com a doença, comecei a pensar na morte. Não tinha medo dela...
Se tiver de acontecer, posso dizer que me é igual. É certo que gostava de viver uma vida longa, de realizar todos os meus sonhos.
No entanto, agora, vejo a morte como uma coisa maravilhosa. Já não tenho medo de morrer, graças à Chiara Luce Badano.
Sei que, depois da morte, está o Senhor, que volto para Ele. Ele é muito bom, toma-me nos braços. E também está a Nossa Senhorinha. Como será maravilhoso conhecê-los! Não vejo a hora de os encontrar, de poder conhecê-los e dar-lhes graças por tudo o que fazem por mim.
Gostava - quando tiver de acontecer, se vier a acontecer -, gostava que o Senhor me recebesse por aquilo que sou, Giulia Gabrieli.
No entanto, assim como aqui gostava de ser bonita e elegante, também então gostava de ser bela e elegante, mas tal como sou.
Quero levar o vestido que usei na comunhão do Davide, que é tão bonito e que me fica tão bem. Depois, na cabeça, estou um pouco indecisa entre uma peruca ou um lenço. Quero que Ele me receba por aquilo que sou. Se tiver de levar um lenço, está bem, um lenço branco. Um ramo de flores: quatro lírios, flores da esposa, e uma rosa vermelha no meio. O meu terço do Beato Papa João Paulo II, e assim fico pronta: nada de maquilhagem, nada de nada. Nada de carteira nem de lantejoulas. Apenas com o meu terço do pescoço e basta. Nada de pulseiras. Fora aquela que me ofereceu a vidente Marija, de Medjugorje. E basta, não preciso de mais nada.
Quando se está no Paraíso, passa-se o dia inteiro a rezar, segundo dizem. Terei de me habituar a isso, porque não me apetece muito, mas, está bem, tudo se tornará natural...
Além disso, se tiver de calçar sapados, quero as sabrinas brancas. Se não for preciso, descalça, descalça para estar em contacto direto com o chão do Céu. Imagino um chão feito de nuvens. Não vos dá vontade de caminhar sobre ele, descalços? Eh, eh... Tudo tão macio, com os pés enterrados nas nuvens. Aos saltos. Para um lado, para o outro, para cima, para baixo. Um Paraíso como o que aparece nos desenhos animados. Eu cá imagino o Paraíso como... Lembram-se do filme A idade do gelo, quando o esquilo encontra uma bolota enorme? Com todas aquelas nuvens cor-de-rosa e aquele megaportão dourado!
Assim: o megaportão dourado e nós, descalços, a abrir esse mesmo portão...
Oh, é maravilhoso!...”
 Autor: Giulia Gabrieli
Título: Descalça no Paraíso
Título original: Un gancio in messo al cielo
Editora: Paulinas Editora
Ano: 2025
Número de páginas: 100

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Bento XVI - o que é o cristianismo

BENTO XVI (2023). O que é o Cristianismo. Quase um testamento espiritual. Cascais: Lucerna. 200 páginas.


Existem muitos livros publicados de Bento XVI, enquanto Papa, além de conjuntos de homilias, discursos, encíclicas, exortações apostólicas, entrevistas; enquanto teólogo, muitos mais. Mas este não é mais um livro. Aliás, nenhuma das obras refletidas e escritas por Joseph Ratzinger / Bento XVI é mais uma a acrescentar a outra, como soma, mas é única, pois, mesmo em textos próximos, apresenta novos estudos, achegas, referências. Este é um livro, por vontade própria de Bento XVI, publicado a título póstumo.
Recolhe diversos textos, estudo, reflexão, entrevista, intervenções, alguns já conhecidos, mas aperfeiçoados, outros inéditos sobre os fundamentos do cristianismo, sobre a identidade católica, sobre a relação da Igreja com outras igrejas e com o judaísmo. 
O subtítulo diz bem do objetivo desta coletânea, é quase um testamento espiritual! Noutras obras, como Introdução ao Cristianismo ou Jesus de Nazaré, em três volumes, escrito já como Papa, pode ver-se as intuições fundamentais do teólogo e do papa, do estudioso e do pastor, ou ainda, por exemplo, a Introdução à Liturgia, ou os livros de entrevistas, como o Sal da Terra.
Neste livro póstumo, fruto de uma reflexão mais amadurecida, tendo em conta ulteriores desenvolvimentos teológicos, morais, históricos, sociais e culturais, permitem que o autor refaça ou enquadre temáticas e problemáticas, desafiando outros a refletir sobre as questões que se colocam ao mundo de hoje e concretamente à Igreja e à fé.
Nas diferentes temáticas, a linguagem do Papa é muito acessível, mesmo naqueles temas que exige maior cuidado e argumentação. Nesses casos, Bento XVI recorre a uma ou outra imagem facilitando a compreensão, como quando aborda a realidade da transubstanciação na Eucaristia.
Há apontamentos que mostram a delicadeza para com o seu sucessor, o Papa Francisco, o que merece registo. "No final das minhas reflexões gostaria de agradecer ao papa Francisco por tudo o que faz para nos mostrar continuamente a luz de Deus, que mesmo hoje não se extinguiu. Obrigado, santo Padre!" Ao abordar a teologia moral e a misericórdia divina: "... Aqui devemos encontrar a unidade interior da mensagem de João Paulo II e as intenções fundamentais do papa Francisco: contrariamente ao que por vezes se diz, Jão Paulo II não foi rigorista moral. Demonstrando a importância da misericórdia divina, ele dá-nos a oportunidade de aceitas as exigências morais que se colocam ao homem, ainda que não possamos nunca satisfazê-las cabalmente. Os nossos esforços morais são empreendidos sob a luz da misericórdia de Deus, que se revela uma força que cura a nossa fraqueza".
Ao responder a uma questão sobre o Ano de são José, proclamado pelo Papa Francisco: "Naturalmente, fico particularmente feliz por o Papa Francisco ter reavivado nos fiéis a consciência da importância de são José; e depois li com enorme gratidão e profunda adesão a carta apostólica Patris Corde que o Santo Padre escreveu para o 150.º aniversário da proclamação de são José como patrono universal da Igreja universal. É um texto muito simples que vem do coração e vai ao coração, e que exatamente por isso é muito profundo. Penso que este texto deve ser lido e meditado assiduamente pelos fiéis, contribuindo assim para a purificação e para o aprofundamento da nossa veneração dos santos em geral e de são José em particular".
Verifica-se que Bento XVI não foge a questões, em forma de resposta a perguntas que lhe são colocadas ou no desenvolvimento dos temas, mostrando a discordância com este ou aqueloutro autor, num convite à persistência da reflexão dos temas mais problemáticos. Sobre a Comissão da Teológica Fundamental, cujo Presidente era o mesmo que o da Congregação para a Doutrina da Fé e também da Pontifícia Comissão Bíblica, tendo assumido ele, cardeal Ratzinger, esse mandato e serviço durante muitos anos, quase na totalidade do pontificado de João Paulo II, reflete questões como a Teologia da Libertação, com momentos de grande debate. É curioso o apontamento pessoal que faz sobre um teólogo: "O meu amigo padre Juan Alfaro SJ, que na Gregorina ensinava sobretudo a Doutrina da Graça, por razões que me são totalmente incompreensíveis, com o passar do tempo tornara-se num apaixonado defensor da teologia da libertação. Não queria perder a amizade com ele e assim essa foi a única vez, em todo o período da minha pertença à comissão, que faltei à Assembleia Geral".  Também nisto se vê a sua humanidade: a amizade prevaleceu à disputa e discordância teológica.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

JOACHIM FEST - No bunker de Hitler

JOACHIM FEST (2019). No bunker de Hitler. Os últimos dias do terceiro Reich. Lisboa: Guerra & Paz. 200 páginas.
Longe da vista longe do coração. A Segunda Guerra Mundial acabou em 1945, deixando um rasto de destruição, violência e morte, em grande escala. Mais de 6 milhões de judeus foram mortos e muitos outros feitos prisioneiros e escravizados, tratados como lixo. Um dos objetivos era eliminar os judeus, mais do que construir um império político e cultural. O holocausto continua a ser uma nódoa negra na civilização moderna. O nazismo, nacional-socialismo, cuja figura de proa foi Hitler, entre 1939 e 1945, tinha como lema construir uma raça pura, um (novo) império, eliminando todos os judeus, todos os que pudessem ser um obstáculo aos propósitos deste megalómano projeto imperial, subjugar e destruir as potências europeias e outras que se entrepusessem.
A esta distância... muitos não presenciaram, muitos procuraram esquecer, outros procuraram diluir os acontecimentos e há quem os negue abertamente! Esta é mais uma obra que reaviva a memória e nos obriga a refletir sobre o pior da humanidade, para que não repitamos os erros do passado. O autor, Joachim Fest, aprofunda os propósitos, procurando narrar os últimos dias de Hitler e apaniguados mais próximos, remetidos ao bunker, construído para esse efeito, para se protegerem caso houvesse ataques ou invasão de Berlim. No final, o autor constata que o distanciamento destes acontecimentos tem gerado mais simpatia pelo nazismo e pela figura de Hitler, o que é muito triste e lamentável. O autor mostra claramente que Hitler não tinha um projeto de um mundo novo, diferente, criando uma civilização mais nobre. Quer no momento de conquista e de sucesso, quer nos momentos de derrotas e fuga, o propósito é destruir e aniquilar, pessoas e bens, obras culturais e religiosas. Primeiro, a eliminação dos judeus e, depois, todos os que se opusessem à conquista. Quando se pressente o fim, as ordens, contraditórias, entre gritarias, Hitler procura que os alemães sejam também aniquilados. Se um é derrotado, então todo o país deve ser destruído e todos os que estiverem na mira das armas e dos canhões. É a estratégia da terra queimada, levado ao extremos, destruir não apenas para evitar as pilhagens dos conquistadores, ou lhes facilitar a vida, mas aniquilar os vencidos, para que os aliados, mormente os comunistas, não possam exibir vitória.
Joachim Fest (1926-2006), o autor, era jornalista e historiador alemão, e um dos maiores especialistas mundiais do nazismo. Filho de pai católico e antinazi, foi expulso do liceu em Berlim por ter feito caricaturas de Hitler. Embora tenha servido no exército, não se filiou na Juventude Hitleriana. Estudou Direito, História, Sociologia e História da Arte. O seu primeiro livro, O Rosto do Terceiro Reich (1963), uma série de retratos de chefes políticos nazis, trouxe-lhe o reconhecimento público. Em 1973, publicou uma extensa biografia de Hitler, que ficou para a posteridade como obra fundamental.
 
Vejamos alguns pedaços que nos fazem visualizar a tese do autor:
 
"Sobretudo desde que a guerra mudou de rumo no Inverno de 1942-1943, Hitler explicava sempre o prolongamento da luta com o argumento de que a rutura da «absurda coligação entre o bolchevismo e o capitalismo» estava iminente e que só depois disso chegaria o momento de entrar em negociações com êxito. Mas sempre que se apresentava uma oportunidade para fomentar a divisão entre as potências inimigas, Hitler deixava-a passar sem a aproveitar, e Gocbbcls escrevia, mal-humorado, no seu diário, que insistia e insistia, mas que «às vezes tem-se a impressão de que ele vive nas nuvens». Sebastian Haffner fez a observação que faltava a Hitler a imaginação construtiva de um estadista e que, pelo menos a partir do fim da década de 30, também tinha perdido a agilidade tática. Essa «falta de talentos básicos» acabou por ser a principal causa do fracasso".
 
"Pode ainda ir-se mais longe e chegar à conclusão de que Hitler, em toda a sua vida, não foi mais do que o ambicioso cabecilha de um bando de rua, inspirado em maquiavelismos atrevidos, com quem nenhum dos políticos complicados e circunspectos do cenário europeu podia competir. Foi exatamente esta completa falta de escrúpulos nos meios e nos fins que o ajudou durante algum tempo a conseguir os seus sensacionais êxitos. Como o chefe de uma quadrilha de bandidos, não tinha mais intenções senão aquelas de matar e roubar. De qualquer modo, o crescente conflito maldoso que iniciou contra quase todo o mundo não tinha, como constataram com assombro os seus generais e mais tarde todos os seus observadores, nenhum objetivo razoavelmente definido. Em fevereiro de 1941, ainda imaginando o final da campanha contra a União Soviética no Outono seguinte e preocupado com o iminente período de paz, pediu a Jodl para «elaborar um estudo» sobre a invasão do Afeganistão e da Índia" (p 149).

"Todas as tentativas que foram feitas para lhe atribuir um papel específico em relação à época ficaram-se por esforços vazios que chegaram a lado nenhum. O que arrastou, entusiasmou e fascinou a maioria das pessoas foi unicamente a pessoa de Hitler, por mais inquietante que isto possa parecer a muitos. A força indomável que o comandou a vida inteira foi a máxima pré-civilizacional da lei do mais forte. Só ela explica na sua totalidade aquilo que ele fazia passar como a sua concepção do mundo.
 
Do lema darwinista geral saíram uma série de ideias, adquiridas cedo e mantidas rigidamente, cuja finalidade era subjugar, escravizar e levar a cabo uma «reconversão racial» que no final sempre deixava para trás «terra queimada». Nunca e em nenhum lugar, nem sequer quando no início os seus exércitos eram saudados como libertadores, Hitler permitiu que houvesse dúvidas de que ele tinha chegado como inimigo e que a sua intenção era ficar ali na qualidade de inimigo. Quase todos os grandes conquistadores anteriores a ele de que há memória na história procuravam, no decurso da sua dominação, fazer surgir nos conquistados a dúvida, se a resistência contra o intruso seria um direito superior ou unicamente a tentativa de barrar o caminho do futuro. Contra Hitler, todos os inimigos tinham esse direito. O seu programa, já muito cedo por ele proclamado, era a «formulação de uma declaração de guerra. . . contra uma concepção do mundo existente» (pág 180).

"Sempre que se investiga com maior rigor o legado de Hitler, daquilo que fez e disse, ressalta o tom profundamente niilista que dominava a totalidade das suas ideias. Quase exatamente três anos antes da sua morte no bunker de Berlim, tinha dito aos seus companheiros de mesa no quartel-general do Führer para dedicarem toda a sua energia à vitória; não podiam deixar escapar essa grande oportunidade. Com uma expressão desdenhosa, acrescentou ainda que «se tinha de ter sempre em conta que, no caso de uma derrota, estava tudo de qualquer maneira perdido». Ele sabia que tinha destruído as pontes que o ligavam ao mundo. Mas convertia em mérito pessoal os choques inesquecíveis que tinha causado. As possíveis consequências não o preocupavam" (p 184).

John Boyne - O RAPAZ DO PIJAMA ÀS RISCAS

JOHN BOYNE (2020). O rapaz do pijama às riscas. Alfragide: Edições Asa. 176 páginas.


Este é um livro de fácil leitura, mas com uma intensidade que nos faz perceber o absurdo da guerra, do racismo, o mundo conflituoso dos adultos, e a simplicidade do mundo das crianças, que não percebem tudo, não percebem muitas coisas dos adultos, as birras, a sobranceria, a assunção de diferenças derivadas à cor da pele ou à nacionalidade, à política ou à religião. A expressão de Jesus também se verifica aqui: quem não se tornar como criança não entrará no Reino dos Céus.
Na verdade, Bruno e Shmuel têm a inocência e a ingenuidade das crianças. Vivem no mundo dos adultos, onde predominam os preconceitos, os muros, onde se acentuam as divisões e as diferenças, o egoísmo e o poder, a prepotência e a arbitrariedade de quem decide o destino dos povos e das pessoas.
É "uma história de inocência num mundo de ignorância".
A amizade entre um rapaz alemão, cujo pai é, entretanto, nomeado pelo Fúria (Führer) como comandante de Aucho-Vil (Auschwitz), obrigando a família a mudar-se para uma casa fora do campo de concentração. Bruno, como a irmã, de 12 anos e que ainda vive no mundo das bonecas, na passagem da infância para a adolescência, deixa a casa de cinco andares, deixa os amigos, e vai para um lugar em que não têm amigos, nem crianças da sua idade.


A espreitar pela janela do seu quarto, Bruno descobre que há casas, mais ou menos iguais, e muitas pessoas, esquisitas, para lá da vedação. Não tendo muito que fazer, decide explorar até que descobre uma criança, Shmuel, da mesma idade, 9 anos, e que, por coincidência, nasceram no mesmo dia, mas que vivem realidades muito diferentes. Tornam-se amigos.
Todos os dias, Bruno sai de casa, levando, para o seu amigo, alguma comida. Do outro lado, um menino, como ele, mas vestido de pijama, sujo, magro. Para Bruno, Shmuel é uma criança com quem quer brincar, não é judeu e nem é inimigo, como os adultos querem fazer crer.
Pelo meio, Shmuel vai a casa de Bruno, para lavar copos, pois tem os dedos pequenos, e aí se constata a perversidade do mundo dos adultos. Bruno perante a ameaça de um soldado nega a amizade com Shmuel, que reatará quando foi ao seu encontro, no lugar habitual, separados por uma vedação de arame-farpado e eletrificado.
Chega o dia de Bruno, a irmã e a mãe, voltarem para casa, pois aquele não é um ambiente saudável. Bruno e Shmuel combinam encontrar-se no dia seguinte, fazendo algo de diferente, escavarem por debaixo da rede e Bruno passar para o outro lado, para ajudar Shmuel a encontrar o pai, que desapareceu no campo, e para ver como é o campo por dentro, iludido pelo que viu nos filmes da propaganda nazi. Vestido com um pijama igual ao de Shmuel e dos outros "habitantes" do campo, Bruno confunde-se facilmente com eles e com eles será levado para o crematório.
Bruno e Shmuel esbatem as fronteiras religiosas, políticas e raciais. É um livro que integra o Plano Nacional de Leitura e é recomendado para o 3.º ciclo do ensino básico, destinado a leitura autónoma. O livro foi originalmente publicado no Reino Unido, em 2006 e encontra-se traduzido em 32 línguas. Em 2008, foi a vez de passar a filme.


John Boyne nasceu em Dublin, em 1971. Estudou no Trinity College, em Dublin, e na Universidade de East Anglia, em Norwich. Foi escritor-residente da Universidade de East Anglia para a área da Escrita Criativa e trabalhou durante vários anos como livreiro. Dedica-se actualmente à escrita a tempo inteiro. Publicou já quatro romances para adultos e um para jovens, tendo este último (O Rapaz do Pijama às Riscas) conhecido enorme sucesso em todo o mundo. Vive em Dublin.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

João Batista Libânio - a Ética do Quotidiano

LIBÂNIO, João Batista (2015). A Ética do Quotidiano. Obra póstuma. Prior Velho: Paulinas Editora. 200 páginas.
       O autor terminou a revisão final, em vésperas de morrer. A pendrive só foi encontrada algum tempo depois, mas permitiu a publicação desta obra sobre a ética do quotidiano. Crescendo num ambiente em que o contacto com a extrema pobreza vive ao lado da riqueza luxuosa, num país marcado pelos problemas sociais, tráfico de droga, guetos, favelas, conflitos, assaltos, trabalho infantil, exploração sexual, o autor brasileiro é uma das vozes esclarecidas da Teologia da Libertação.
       A sua reflexão, porém, não se enreda na luta de classes, na destruição de uns para outros ocuparem os seus lugares, mas aponta à transcendência, para garantir a perenidade dos valores, da ética, da vida, da dignidade da pessoa. O convite é que a racionalidade se abre ao divino sob pena de tudo relativizar.
       No primeiro capítulo, as questões sobre a vida, sublinhando os avanços científicos e tecnológicos, mas apresentando a ética da pessoa, da sua vida e da sua dignidade, acima de experiências ou instrumentalização em prol da ciência, do lucro, jogando com o controlo da vida, quer no início quer no fim. A a religião, a fé, é a garantia que a vida não pode ser relativizada, pois só Deus é o Senhor da vida e da morte. Quem não admite a existência de Deus cedo cederá ao relativimo.
       O segundo capítulo é um tema que continua na ordem do dia, a ecologia, o cuidar da casa comum. O perigo da destruição da terra, a escassez da água, a crise energética, as catástrofes, os dois extremos, a terra regenera-se por maior que seja a destruição, ou a um ecologismo que sacrificaria a pessoa em prol do ambiente. É possível a coabitação. Também aqui a dimensão da fé, da religião, da Bíblia. Deus criou o ser humano e deu-lhe o cuidado do mundo, não para o destruir, mas para o administrar.
       No terceiro capítulo, a ética e o cuidado, partindo desde logo do cuidado da mãe em relação ao filho, alargando-se à vida, olhando para os outros como semelhantes, não como estorvo ou empecilho, ainda que desde o início, com Caim e Abel, as pessoas vejam os irmãos como inimigos a abater. O cuidado é atitude de quem reconhece o outro como igual, como auxiliar, como imagem e semelhança de Deus.
       No quarto capítulo, a educação da ética, sublinhando a importância da educação, desde o berço, em casa, passando pela infância, pela adolescência, pela juventude. A educação é fundamental para salvar a humanidade, para salvar o mundo.
       No quinto capítulo, a ética e o mundo da informação. Num mundo em que parece valer tudo, o direito à informação e à devassa sobrepõe ao direito à dignidade e à privacidade. Aqui como em outras dimensões da vida, há de encontrar-se o equilíbrio, na certeza de que não vale tudo. O direito de informar terá em conta o bem e a verdade, a dignidade das pessoas.

Vale a pena ler também o dissensão do portal do

domingo, 10 de dezembro de 2017

Leitura: ANDREA MONDA - BENDITA HUMILDADE

ANDREA MONDA (2012). Bendita Humildade. O estilo simples de Joseph Ratzinger. Prior Velho: Paulinas Editora. 176 páginas.
       No dia 10 de novembro (2017), desloquei-me com três amigos sacerdotes, o Giroto, o Diamantino e o Diogo à VIII Jornada de Teologia Prática na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, e um dos conferencistas era precisamente o italiano Andrea Monda, testemunhando o anúncio do Evangelho às gerações atuais. O professor Andrea Monda leciona o equivalente a EMRC, tem um programa na TV2000, num formato semelhante a uma aula de 25 minutos, interagindo com a turma.
       Bastava o livro ser referido a Bento XVI / Joseph Ratzinger para me despertar o interesse, mas a conferência de Andrea Monda despertou-me mais o interesse. Mas como digo, bastava ser uma obra sobre Joseph Ratzinger, que já o lia e estudava, para uma ou outra disciplina de Teologia, longe do tempo em que viria a ser eleito Papa. O testemunho da D. Fernanda, que dedicou uma parte importante da sua vida ao Seminário de Lamego, aquando uma missão em Roma, era que àquele Cardeal era muito afável, muito simpático e atencioso, muito simples e muito humano. São características que Andrea Monda também descobrir, sem precisar de muito esforço, bastando o encontro com Bento XVI e os milhentos testemunhos dados por quem conviveu ou convive com o agora Papa Emérito.
       O autor mostra que este Homem de Deus, simples, afável, de fácil trato, que olha as pessoas olhos nos olhos, com um olhar profundo e interpelante, atento aos interlocutores, não foi uma novidade, sempre foi assim, como seminarista, como padre, como Bispo, como professor, como Prefeito da Congregação para a Doutrina na Fé (ex-Santo Ofício). A comunicação social, desde a primeira hora, não lhe concedeu qualquer interregno de simpatia, pois sendo já conhecido, agora era tempo de levantar suspeitas, insinuações, colocando com rótulos, com preconceitos, pelo facto de ser alemão e pelo facto de ter sido durante tantos anos o fiel guardador da fé, da doutrina católica, como se isso fosse um crime.
       Segundo o autor, a HUMILDADE é uma palavra que marca a vida de Joseph Ratzinger / Bento XVI, nas diferentes etapas da vida, como sacerdote, como professor, como Bispo, Cardeal e Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, como Papa. Numa biografia do atual Papa Francisco é sublinha a atenção e o cuidado com que o então Cardeal Ratizinger tratava as pessoas que encontrava, com atenção, colocando-se ao mesmo nível da pessoa. Era um dos poucos cardeais, consta, que não tratava o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio com sobranceria, como um Cardeal das periferias, como fazia outras eminências, mas de igual para igual, com respeito, deferência, respeito e simpatia.
       É uma humildade assente na verdade, sobretudo a Verdade do Evangelho. A fé é antes de mais um encontro com Jesus. Humildade que assenta na transparência, na comunhão com a Igreja, em comunhão com a "maioria" formada pelos santos. Uma humildade caracterizada pela simplicidade. Basta recordar a primeira vez que apareceu na varanda pontifícia como Papa, o simples servidor da vinha do Senhor, com uma camisola preta, normal, debaixo da batina branca. Mais tarde confessará q dificuldade em usar botões de punho.
       Como Prefeito era conhecida a rotina que mantinha, manhã cedo e no final do dia, atravessava a praça de São Pedro, com uma boina na cabeça, sempre disponível para quem se aproximava. Por vezes fazia-se acompanhar por gatos. Sempre cordial e simples. Já como professora passava como segundo ou terceiro coadjutor de uma paróquia de cidade, tal a simplicidade com que interagia com os alunos, nesse caso. Permaneceu sempre assim, simples, cordato e acessível, um sacerdote a caminho, que se move em direção aos outros, colocando-se sempre ao nível dos seus interlecutores.
"Se João Paulo II foi definido como «o pároco do mundo», nesta aceção de simplicidade e humildade, pode-se tranquilamente definir Bento XVI como «coadjutor paroquial do mundo»... Em Bona, Ratzinger podia andar a pé, em Munique, como jovem sacerdote, andava de bicicleta de um lado para o outro, em Tubinga, voltou a recorrer às duas rodas".
       A sua vida é marcada pela renúncia. O autor apresenta essa característica fundamental antes de se sonhar que o Papa bávaro iria renunciar ao pontificado, assumindo-se como simples Padre Bento (terá sido essa a designação que propôs usar depois da renúncia). Humildade obediente. Outros foram conduzindo o seu percurso. Vai numa direção e de repente alguém o desafia para outra missão, sempre com o sentido de obediência aos seus superiores.
       Como teólogo marcante, o próprio confessou que nunca se propôs apresentar/criar uma linha teológica, mas aprofundar a teologia dentro da comunidade, da Igreja, em comunhão com o testemunho dos santos, uma teologia de joelhos.
       A verdadeira grandeza de homem reside na sua humildade". É uma caracterização que lhe assenta bem. Numa das catequeses, ao apresentar a figura do Papa Gregório Magno, quase poderia falar de si mesmo, lembrando como o monge que se tornou Papa "procurou de todos os modos evitar aquela nomeação; mas, no fim, teve de render-se e, tendo deixado pesarosamente o claustro, dedicou-se à comunidade, consciente de cumprir um dever e de ser simples 'servo dos servos de Deus'".
       "Todas as pessoas que de algum modo se encontraram com Joseph-Bento, «ao vivo», puderam constatar a doçura deste homem simples e dialogante, sem traços de altivez nem de afetação... ele é o primeiro a movimentar-se e ir ao encontro dos outros, pondo-se ao seu nível, delicadamente".
       Um dos aspetos relevantes do autor - tendo em conta os 24 anos de Joseph na Congregação responsável por ajudar o Papa e a Igreja a manter-se fiel a Jesus Cristo e ao Evangelho, ao nível dos princípios e das palavras em cada tempo -, o dogma! O dogma é o que nos liberta e nos ajuda a viver em dinâmica de amor. «Se na Igreja existem os dogmas, é para que ninguém se engane sobre o amor. Eles expõem-se à acusação de ideologia: na realidade, têm por efeito impedir que o amor seja transformado em ideologia».

BENTO XVI: «Deus não nos deixa tatear na escuridão. Mostrou-se como homem. Ele é tão grande que pode permitir-se tornar-se pequeníssimo».

quarta-feira, 22 de março de 2017

Aura Miguel. Conversas... com o Papa Francisco

AURA MIGUEL (2017). Conversas em Altos Voos. Encontros e entrevista com o Papa Francisco. Lisboa: Paulus Editora. 146 páginas.
"A matéria-prima deste livro é a entrevista de uma hora que o Papa Francisco concedeu à Rádio Renascença, a 8 de Setembro de 2015, na Casa Santa Marta. Mas este livro inclui detalhes inéditos sobre como é viajar com o Papa Francisco e como é o seu estilo descontraído, dentro do avião e não só; há várias peripécias documentadas em muitas fotos, aqui reproduzidas, bem como minuciosos relatos dos bastidores. Mas o motivo principal deste livro relaciona-se com a próxima visita do primeiro Papa latino-americano a Fátima. A nossa esperança é que estas páginas ajudem a conhecer melhor o ilustre peregrino que aí vem e reforcem o amor dos portugueses pelo Sucessor de Pedro, tão inseparavelmente ligado à Mensagem que a Virgem, há cem anos, confiou a três crianças portuguesas" (contracapa).
       Aura Miguel é "vaticanista", isto é, jornalista, da Rádio Renascença, e que está creditada junto da Santa Sé (Vaticano), acompanhando o Papa nas suas viagens apostólicas. Já conta mais de 80 viagens no avião que transporta o Papa para diversos países. Acompanhou João Paulo II, Bento XVI e agora Francisco. São muitas as histórias e as curiosidades. Neste livro conta o primeiro encontro com o Papa Francisco, como lhe solicitou uma entrevista para a Rádio Renascença e como Francisco respondeu num novo voo, numa nova Viagem Apostólica, seis meses depois, entregando-lhe um envelope, com a data para entrevista, o lugar e a hora.
       A entrevista realizou-se a 8 de setembro de 2015, Natividade de Nossa Senhora, na Casa de Santa Marta, por ocasião da Visita Ad Limina dos Bispos portugueses, com início a 7 de setembro.
       A publicação do livro e da entrevista, disponível digitalmente na Rádio Renascença, prepara e antecipa a Visita do Papa Francisco a Portugal como Peregrino de Fátima.
       A entrevista começa precisamente por falar do conhecimento que o Papa tem dos portugueses, falando também encontro com os Bispos portugueses, com a acentuação nos jovens e na catequese, partindo depois para outros temas como a surpresa da eleição, as periferias, os jovens e a Europa envelhecida, os valores e a educação, a paz em que sente apesar de tamanha responsabilidade, o Jubileu da Misericórdia, a cultura do encontro, a criatividade na educação, os direitos e os deveres, os direitos com a verdade, a felicidade e os problemas a enfrentar, o empenho político e o cuidado pela criação, a preferência de uma Igreja acidentada que uma Igreja doente por não sair...
       Além de outras curiosidades que constam do livro, o facto do Papa Francisco, juntamente com o envelope, ter entregado a Aura Miguel duas pagelas, uma de Santa Teresa do Menino Jesus e outra de São José.

sábado, 18 de março de 2017

Georges Bernanos - DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA

GEORGES BERNANOS (2016). Diário de um pároco de aldeia. Prior Velho: Paulinas Editora. 264 páginas.
       O título já deixa antever um conjunto de vivências num lugar em que as pessoas se conhecem, em que as novidades, os boatos, as insinuações se espalham rapidamente, onde a privacidade é muito relativa. O padre, numa pequena aldeia, rústica, vai escrevendo um diário com as suas impressões, encontros, dificuldades, tornando visível a intriga e o mau-estar entre o pároco, vindo de uma família simples, o senhor conde, benemérito da paróquia e que tem outros familiares mais bem colocados, com outros contacto, como um tio padre.
       Padre jovem, por um lado, e acabado de chegar, as dificuldades cedo se fazem notar. No catecismo ou na celebração da Eucaristia, por vezes com poucas pessoas, outras vezes desinteressadas. Os jovens, em fase adolescente, provocam-no e gozam com ele. As condições sócio-económicas são mínimas. Alimenta-se mal. Por vezes a refeição é vinho aquecido com pão. Pouco mais. As dívidas são do conhecimento da povoação. Os sacerdotes amigos tentam alertá-lo, chamá-lo à razão. De algum modo, até pode ter razão e iniciativa, mas o melhor é não levantar ondas nem enfrentar os poderes instituídos.
       O conde, a esposa e a filha são o rosto mais visível da oposição ao padre. Os pecados que escondem, e talvez para os esconder, voltam-se contra o padre. Ora o convidam ora o alertam para não se meter em determinados assuntos, que não lhe dizem respeito.
       Querendo ser fiel ao ministério sacerdotal não deixa de ouvir, de exortar, de intervir. A saúde é que não ajuda. E os comentários sobre a sua conduta também não. É considerado um bêbado, ainda que não se considere tal. A fraqueza, a batina gasta, uma cor de meter dó, amarelo, sumido, faz pena vê-lo assim e assim se vê, ainda que a bebida (vinho aquecido com pão) seja o único que o seu frágil estômago vai aguentando. Adia a ida ao médico. Quando vai ao médico, a revelação de cancro deixa-o de rastos. Não há muito a fazer.
       Mas não é a doença terminal que mais o afeta, mas o silêncio de Deus. Há muito que vive com dificuldades em falar com Deus, em rezar, em se colocar confiante nas mãos de Deus. Os que se aproximam dele, desabafam, falam e voltam a falar e, no entanto, há um silêncio e um vazio que o preenchem. Faz com que os outros se abram, mas fecha-se, discreto, como que desejando apagar-se. Até a morte quer que seja silenciosa.
"A minha morte está ali. É uma morte igual a qualquer outra, e eu entrarei nela com os sentimentos de um homem muito comum, muito vulgar. É mesmo mais que certo que não saberei morrer melhor do que soube governar a minha pessoa. Vou ser na morte tão desastrado, tão acanhado como na vida... Meu Deus dou-te tudo, de boa vontade. Simplesmente, não sei dar, dou como quem deixa que lhe tirem as coisas. O melhor que tenho a fazer é estar sossegado. Pois se eu não sei dar, Tu, Tu sabes tirar... E no entanto teria gostado de ser, pelo menos uma vez, uma só vez, liberal para contigo... O heroísmo à minha medida está em não ter heroísmo, visto que me faltam as forças, agora o que eu queria é que a minha morte fosse pequena, o mais pequena possível, que se não distinguisse dos outros acontecimentos da minha vida. No fim de conta é a minha natural inépcia..."
Para leituras próximas outras sugestões:
       Obviamente que são livros muito diferentes, Tomáš Halík e Timothy Radcliffe ajduam-nos a refletir em Deus e na Sua presença amoroso na nossa vida, também nos momentos difíceis e até obscuros, apontando para um Deus que em Jesus Cristo Se revela dócil, compreensivo, próximo, exigente.
       Cormac McCarthy mostra que a fé pode ser ténue, mas a força do amor é inabalável, até ao fim. Shusaku Endo, no seu romance com fundo histórico e que deu origem ao filme com o mesmo nome, questiona até que ponto a fé é sustentável nas adversidades e nas monstruosidades. Todos os títulos nos falam da busca de Deus, do questionamento de Deus, da fé e do amor, da vida e da generosidade, da noite e da dúvida e da treva, mas com aquela réstia de esperança que tudo possa ser diferente.

Não deixe de ler o seguinte o comentário ao livro: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

ELMAR SALMANN - A VITALIDADE DA BÊNÇÃO

ELMAR SALMANN (2017). A Vitalidade da Bênção. Braga: Editorial A.O. 176 páginas.
       Na Assembleia do Clero de Lamego, em 14 de novembro de 2015, o Provincial da Companhia de Jesus em Portugal, Pe. José Frazão Correia, comentou e sugeriu a leitura deste livrinho, de Elmar Salmann, seu mestre. A Editorial do Apostolado de Oração, integrada na Companhia de Jesus, dá à estampa para Portugal, publicado em Itália em 2010, no âmbito do Ano Sacerdotal. Mas como se costuma dizer mais vale tarde que nunca.
       O ministério da bênção há de caracterizar a vida do sacerdote e da Igreja. O cristianismo, em muitas situações, já não está em maioria e, por vezes, cultural e socialmente já não tem a relevância do passado. Por outro lado, existem situações novas, na vivência dos sacramentos, no compromisso com a comunidade, nos casais, na coexistência de várias confissões religiosas. Poderá ser necessário criar centros sociológico-religiosos, para lá das paróquias, envolvendo e comprometendo os leigos, surgindo o sacerdote numa dinâmica de abençoar...
       Deus não se vende no supermercado ou à medida de cada um. Em todo o caso, já passamos de um Deus distante e juiz, para um Deus próximo, que abençoa e nos renova, nos desafia a não desistir. O Deus cristão é o mais difícil. No Islamismo não há praticamente dogmas. É um Deus soberano, transcendente. No Judaísmo, Deus é transcendente, embora intervenha na História. Há, com efeito, uma interdependência entre Deus e o povo. Deus alimenta o povo e o povo mantém-se obediente às Suas leis. Quando há fome, violência, dispersão, é porque Deus está de costas voltadas para o povo, em consequência do seu pecado. No Cristianismo, Deus encarna, assume a nossa natureza humana. Um Pai, que sendo Amor, Se dá inteiramente. Cristo, Filho de Deus, tudo recebe do Pai e tudo acolhe para partilhar, no Espírito Santo. Há circularidade do amor que deve ser paradigma para que assim nos comprometamos. É um Deus mais difícil de conjugar. Em Jesus, Deus e o Homem...

Alguns recortes:
"De Igreja masculina, hierárquica, sacral, maioritária, representante do sagrado e da administração da graça, tornamo-nos uma Igreja comunitária (...), mais exposta, fraterna; de uma Igreja da verdade e da santidade, chegamos a uma Igreja em busca de sentido, da abertura, da solidariedade; do primado de Deus e de Cristo Nosso Senhor passamos a Cristo nosso irmão, que Se torna companheiro da jornada".
"A Ressurreição é a confirmação, por assim dizer, do ato criador, daquela alegria primordial e elementar, sob as condições de uma história distorcida e sobrecarregada... Na ressurreição, explode o mundo, abre-se como o rasgar de um véu. O riso pascal corresponde a este evento libertador; corresponde a este evento que explode e rasga paisagens de vida".
"O juízo derradeiro de Deus não se destina a uma condenação. Não se trata de um recontro com um observador, não é um relatório nem muito menos um prestar contas! mas, sob o olhar límpido e, talvez também, sorridente de Deus, seremos capazes de rever e avaliar as reais proporções da nossa existência... talz no juízo final possamos pela primeira vez rir de nós, com verdade, sem azedume nem amargura, com um riso capaz de desembaraçar os nós da nossa emaranhada existência".
"O domingo nasce precisamente do olhar positivo e comprazido de Deus que «viu que tudo era bom» (Gn 1, 3.10.12.18.21.31). Deus tem os olhos contemplativos capazes de realçar em tudo a sua vertente positiva. Deus é capaz de consentir, sorrindo, àquilo que simplesmente, é. Fala bem daquilo que vem à existência e daí a capacidade de «bem-dizer»/«abençoar». O domingo... irrompe os mecanismos chantagistas e esmagadores da nossa autoconfirmação e da nossa necessidade de conflitualidade, de nos compararmos, de nos perdermos em mil azáfamas... Faz-nos descobri a melodia de fundo que dá estabilidade à nossa vida e nos convida a afinar por ela. Faz-nos «falar bem» de nós mesmos, do outro e da nossa vida e deixa-nos entrever-nos a nós mesmos, num suave vislumbre, como uma bênção. Todos os sentidos, a vista, a voz, o ouvido, o tato, o gosto, confluem no domingo para criar este tipo de sensibilidade positiva, para o ciclo virtuoso que dinamiza a nossa existência".
"Ser padre significa a aventura desta incarnação do Céu nas cabanas dos homens".
"Em tudo isto, a vida e a pregação de um sacerdote que saiba abençoar refletirá a riqueza da tradição, a vastidão dos estilos de vida cristã no mundo global, as muitas vozes da comunidade, e tornar-se-á advogado dos ausentes, dos pobres, dos excluídos (cada um segundo a sua sensibilidade) - e um pobre representante e advogado da voz e da presença do estilo de Jesus, do seu dar-Se, dizer-Se e mostrar-Se no meio de nós e diante do Pai".

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Leituras: SHUSAKU ENDO - SILÊNCIO

SHUSAKU ENDO (2017). Silêncio. (3.ª Edição) Alfragide: Publicações Dom Quixote. 272 páginas.
       Na Viagem à Polónia, o Papa Bento XVI, como já o tinha feito o Seu Predecessor, João Paulo II, deslocou-se ao campo de extermínio Auschwitz-Birkenau, no dia 28 de maio de 2006. As primeiras palavras do Papa Bento XVI: «Tomar a palavra neste lugar de horror, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem igual na história, é quase impossível e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, para um Papa que provém da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte; todavia, este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante».
       O Papa alemão sublinha o silêncio de Deus e o grito das vítimas, 6 milhões de polacos, um quinto da sua população, que perderam a vida. E o discurso continuava: «Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: "... Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas... por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27). Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje. Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história».
       Estas palavras de Bento XVI bem podem servir de mote à leitura e a um possível enquadramento.
       Com a adaptação ao cinema, pela mão de Martin Scorsese, o romance de Shusaku Endo ganhou novo fôlego e por certo baterá alguns recordes de vendas. E será merecido. Boa literatura. Bom enredo. A história romanceada tem tudo para prender o leitor do início até ao fim.
Não sendo histórico, o romance parte da história de evangelização do Japão, onde os portugueses tiveram um papel importante, como por exemplo São Francisco Xavier. No Oriente outros desembarcaram para levar o Evangelho até o fim do mundo, como São João de Brito, missionário português que deu a vida na Índia, em tormentos, torturas e sofrimentos como os que são relatos neste romance.
       A história parte da apostasia de Cristóvão Ferreira, enviado pela Companhia de Jesus em Portugal para a evangelização do Japão. Submetido à tortura da fossa, de mãos e pés atados, de cabeça para baixo, sobre excrementos de pessoas e de animais... Era superior provincial, era um exemplo para clero e leigos. Mas apostatou.
       Sebastião Rodrigues (a personagem principal do romance), com Francisco Garpe, também pertencentes à Companhia de Jesus, não querendo acreditar no que sucedeu a Cristóvão Ferreira - tinha sido professor deles e era uma referência intelectual, moral, espiritual - querem tirar a limpo o que sucedeu e vão para o Japão. Acolhidos numa aldeia, mas colocando em perigo os aldeões, separam-se e fogem. Sebastião Rodrigues é apanhado. Com ele, a reflexão sobre o silêncio de Deus e o grito de tantos cristãos que morrem em nome de Cristo, por serem cristãos. Para entrarem no Japão, fazem-no através de Macau. Para isso contam com Kichijiro, que tinha fugido, atraiçoado toda a família, atraiçoa Rodrigues, por duas vezes, vendendo-o como Judas a Cristo. Aqui entra a reflexão de Endo, japonês e católico. Rodrigues renuncia à fé ou publicamente nega a Cristo para defender os outros cristãos? Tal como Cristóvão Ferreira, abjurando permite que outros cristãos sejam libertados.
       Vale a pena ver a leitura do provincial dos Jesuítas em Portugal, em entrevista à Agência Ecclesia, em que sublinha a grande oportunidade - o filme / romance - para confrontar as várias dimensões da fé. A obra recorda uma página histórica do encontro difícil entre o cristianismo (e o Ocidente) e as tradições japoneses que inicialmente acolheram com benevolência o cristianismo e depois moveram-lhe uma grande perseguição. Para o Padre José Frazão Correia é uma grande oportunidade para revisitar a questão dramática da fé. A dificuldade em permanecer firme num ambiente de extrema perseguição. Revisitar a experiência da fé a partir da sua dimensão dramática e equívoca, várias perspetivas possíveis para enquadrar a questão da adesão a Jesus e da sua visibilidade pública.
       O filme/romance não nos permite fazer uma leitura a branco e preto, bem e mal, afirmação da fé pelo martírio ou negação da fé pela apostasia. Aqui percebemos que a aproximação à fé, a afirmação de fé em contextos de grande perseguição, de um grande sofrimento, põe em reserva um juízo demasiado fácil… Publicamente o personagem principal, o padre Sebastião Rodrigues, renuncia à fé, mas o realizador, tal como o autor, faz-nos perceber que no íntimo do padre jesuíta há um percurso de fé e estamos longe de concluir que a sua apostasia pública seja uma renúncia à fé no mais íntimo do seu coração.
       O filme tem provocado diversos apontamentos e, claro, também a leitura do romance. Segundo Laurinda Alves - o que não gostei no Silêncio - falta sublinhar as razões da fé dos japoneses, o amor de Deus para connosco e de nós para com Deus. «No século XVII os missionários convertiam a partir do testemunho de Jesus e não de uma ideia de Deus distante, castigador, do Antigo Testamento. Por isso, esperava ver no filme este amor novo dos filhos e amigos, dos irmãos e companheiros de Jesus que querem viver para amar e servir, também ele traduzido em imagens e diálogos. Isto para que o amor de Deus ficasse a fazer eco a par do Seu silêncio e dos dramas da negação sob tortura».

Alguns comentários-entrevistas: 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Santa Faustina Kowalska - DIÁRIO

Santa FAUSTINA KOWALSKA (2016). Diário. A Misericórdia Divina na minha alma. Fátima: Marianos da Imaculada Conceição. 632 páginas.
       Santa Faustina adquiriu uma maior notoriedade neste Jubileu Extraordinário da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, a decorrer entre 8 de dezembro de 2015, solenidade da Imaculada Conceição, e o dia 20 de novembro de 2016, solenidade de Cristo Rei. Outros santos estiveram em evidência, mas Faustina é tida como a Secretária/Santa da Misericórdia. Ela própria se define como Secretária da Misericórdia, segundo as revelações de Jesus, que lhe pede para escrever sobre a Misericórdia divina, como Secretária fiel em colocar por escrito tudo quanto Jesus lhe disser.
Faustina "nasceu em Glogowiec, na Polónia central, no dia 25 de agosto de 1905, de uma família camponesa de sólida formação cristã. Desde a infância sentiu a aspiração à vida consagrada, mas teve de esperar diversos anos antes de poder seguir a sua vocação...
Com a idade de 16 anos deixou a casa paterna e começou a trabalhar como doméstica. Na oração tomou depois a decisão de ingressar num convento. Assim, em 1925, entrou na Congregação das Irmãs da Bem-aventurada Virgem Maria da Misericórdia, que se dedica à educação das jovens e à assistência das mulheres necessitadas de renovação espiritual. Ao concluir o noviciado, emitiu os votos religiosos que foram observados durante toda a sua vida, com prontidão e lealdade. Em diversas casas do Instituto, desempenhou de modo exemplar as funções de cozinheira, jardineira e porteira. Teve uma vida espiritual extraordinariamente rica de generosidade, de amor e de carismas que escondeu na humildade dos empenhos quotidianos.
O Senhor escolheu esta Religiosa para se tornar apóstola da Sua misericórdia, a fim de aproximar mais de Deus os homens, segundo o expresso mandato de Jesus: "Os homens têm necessidade da minha misericórdia".
Em 1934, Irmã Maria Faustina ofereceu-se a Deus pelos pecadores, sobretudo por aqueles que tinham perdido a esperança na misericórdia divina. Nutriu uma fervorosa devoção à Eucaristia e à Mãe do Redentor, e amou intensamente a Igreja participando, no escondimento, na sua missão de salvação. Enriqueceu a sua vida consagrada e o seu apostolado, com o sofrimento do espírito e do coração. Consumada pela tuberculose, morreu santamente em Cracóvia no dia 5 de Outubro de 1938, com a idade de 33 anos.
João Paulo II proclamou-a Beata no dia 18 de abril de 1993; sucessivamente, a Congregação para as Causas dos Santos examinou com êxito positivo uma cura milagrosa atribuída à intercessão da Beata Maria Faustina, e no dia 20 de dezembro de 1999 foi promulgado o Decreto sobre esse milagre" (Nota biográfica na página oficial do Vaticano: AQUI).
       O DIÁRIO é uma ferramenta essencial para compreender a vida, o pensamento de Santa Faustina e para nos deixarmos interpelar pela Mensagem da Misericórdia Divina. Como outros santos, vem ao de cima a luta constante pela humildade, pelo serviço, pela descrição, procurando o silêncio e a oração, com o desejo de permanecer junto de Deus, junto ao Coração de Jesus Vive para anunciar a Misericórdia divina, a confiança na bondade de Deus que a todos quer salvar. O desejo por salvar os pecadores compromete-a cada dia, ainda que a morte não seja desprezível, já que dessa forma se unirá em definitivo a Jesus Cristo.
       Por exemplo sobre a Hóstia consagrada. Nesta sugestão, a tradução/adaptação das Servas da Divina Misericórdia:
Ó Jesus Hóstia Santa, na qual está encerrado o testamento da Misericórdia de Deus para nós, e especialmente para Sacerdotes e os pobres pecadores.
Ó Jesus Hóstia Santa, na qual está encerrado o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, como testemunho de infinita Misericórdia para connosco, especialmente para com os Sacerdotes, e os pobres pecadores.
Ó Jesus Hóstia Santana qual está encerrada a Vida eterna e a infinita Misericórdia concedida copiosamente a nós, especialmente aos Sacerdotes e aos pobres pecadores.
Ó Jesus Hóstia Santa, na qual está encerrada a Misericórdia do Pai, do Filho, e do Espírito Santo para connosco, especialmente para com os Sacerdotes e os pobres pecadores.
Ó Jesus Hóstia Santa, na qual está encerrado o infinito preço da misericórdia, que pagará todas as nossas dividas, especialmente as dos Sacerdotes e dos pobres pecadores.
Ó Jesus Hóstia Santa, na qual está encerrada a Fonte da água viva que brota da infinita misericórdia para connosco, especialmente para com os Sacerdotes e os pobres pecadores.
Ó Jesus Hóstia Santa, na qual está encerrado o fogo do amor mais puro, que arde no seio do Pai Eterno, como num abismo de infinita misericórdia para connosco, especialmente para com os Sacerdotes e os pobres pecadores.
Ó Jesus Hóstia Santa, na qual está encerrado o remédio para todas as nossas doenças, que flui da infinita misericórdia como de uma fonte para nós especialmente para os Sacerdotes e os pobres pecadores.
Ó Jesus Hóstia Santa, na qual está encerrada a união entre Deus e nós pela infinita misericórdia para connosco, especialmente para com os Sacerdotes e os pobres pecadores.
Ó Jesus Hóstia Santa, na qual estão encerrado todos os sentimentos do Dulcíssimo Coração de Jesus para connosco, especialmente para com os Sacerdotes e os pobres pecadores.
Ó Jesus Hóstia Santa, nossa única esperança, em todos os sofrimentos e contrariedades da vida.
Ó Jesus Hóstia Santa, nossa única esperança em meio ás trevas e ás tempestades interiores e exteriores.
Ó Jesus Hóstia Santa, nossa única esperança, na vida e na hora da morte.
Ó Jesus Hóstia Santa, nossa única esperança, em meio aos insucessos e ás profundas incertezas.
Ó Jesus Hóstia Santa, nossa única esperança em meio ás falsidades e ás traições.
Ó Jesus Hóstia Santa, nossa única esperança nas trevas e na perversidade que cobrem a Terra.
Ó Jesus Hóstia Santa, nossa única esperança em meio da saudade e da dor, em que ninguém nos compreende.
Ó Jesus Hóstia Santa, nossa única esperança em meio dos afazeres e a monotonia da vida quotidiana.
Ó Jesus Hóstia Santa, nossa única esperança, em meio à destruição das ruínas dos anseios e dos nossos esforços.
Ó Jesus Hóstia Santa, nossa única esperança em meio dos ataques do inimigo e das investidas do inferno.
Ó Jesus Hóstia Santa, confio em Vós, quando as dificuldades superarem as minhas forças, quando eu ver ineficazes os meus esforços.
Ó Jesus Hóstia Santa, confio em Vós, quando as tempestades agitarem o meu coração e o espírito atemorizado inclinar-se ao desespero.
Ó Jesus Hóstia Santa, confio em Vós, quando o meu coração tremer e, quando o suor mortal cobrir a minha fronte.
Ó Jesus Hóstia Santa, confio em Vós, quando tudo conspirar contra mim e o negro desespero penetrar em minha alma.
Ó Jesus Hóstia Santa, confio em Vós, quando a minha vista se apagar para tudo que é terrestre, e o meu espírito ver pela primeira vez os mundos desconhecidos.
Ó Jesus Hóstia Santa, confio em Vós, quando os meus trabalhos superarem as minhas forças e o insucesso me acompanhar continuamente.
Ó Jesus Hóstia Santa, confio em Vós, quando o cumprimento da virtude me parecer difícil e a natureza se revoltar.
Ó Jesus Hóstia Santa, confio em Vós, quando os golpes do inimigo forem desferidos contra mim.
Ó Jesus Hóstia Santa, confio em Vós quando os trabalhos e esforços forem condenados pelos homens.
Ó Jesus Hóstia Santa, confio em Vós, quando soar sobre mim Vosso Juízo, então, confiarei no oceano da Vossa Misericórdia.
Sobre o Terço da Misericórdia (n.º 476 do Diário)
“Primeiro dirás o Pai-nosso, a Avé-Maria e o Credo. Depois, nas contas do Pai Nosso, dirás as seguintes palavras: Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade de Vosso diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e dos do mundo inteiro. Nas contas da Ave-Maria rezarás as seguintes palavras: Pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro. No fim, rezarás três vezes estas palavras: Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro” (Diário, 476).

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Leituras: PABLO d'ORS - Sendino está a morrer

PABLO d'ORS (2014). Sendino está a morrer. A elegância do adeus. Prior Velho: Paulinas Editora. 80 páginas.
       Pablo d'Ors nasceu em Madrid em 1963. É sacerdote católico e escritor. É consultor do Pontifico Conselho da Cultura (Vaticano), por designação do Papa Francisco. Fundou a Associação Amigos do Deserto, para viver e aprofundar a prática da meditação. Publicou, entre outros títulos, a triologia do silêncio: O amigo do deserto (2009), O esquecimento de si (2013) e A biografia do Silêncio, que já aqui recomendámos.
       No pequeno livro que agora sugerimos, o autor parte da sua condição de capelão hospitalar, onde encontra a Dra. África Sendino, que lhe pedirá para ajudar a escrever um testemunho sobre a vida, a doença, o sofrimento, a morte e, sobretudo, a fé, a confiança em Deus, a entrega confiante nas mãos do Pai.
       Médica descobre que tem cancro da mama. Começa então um diálogo profundo com Deus. «Fui à capela de Traumatologia e ajoelhei-me - escreve: - "Senhor (rezei), só me ocorre dizer-te que quero que sirva para tua maior glória o que me tocar viver a partir de agora. Tu saberás o caminho que inicias. Tu saberás aonde me conduzes»".
       Pablo d'Ors conhece-a nas últimas semanas de vida e acabará com a missão de escrever o seu testemunho, pegando nas notas que ela vai escrevendo, cada vez com mais dificuldade, menos texto, pouco perceptível. Para o autor, conhecendo e convivendo com Sendino vai tendo a perceção que ela é santa, com as suas imperfeições e limitações, mas também com a sua serenidade e confiança em Deus. "O que a meus olhos faz com que Sendino seja grande não é a morte, mas o morrer, o ir morrendo, o modo de morrer".
       Um dos primeiros aspetos que Pablo d'Ors sublinha é a elegância com que Sendino está deitada na cama do hospital. "Sim, Sendino era bela: tinha um olhar franco e limpo, um sorriso tímido e amável - nunca coquete -, uma pele branca e lisa. umas mãos gráceis - embora grandes - e uma feminilidade totalmente natural, nada importada ou estudada e, por isso, talvez, tão encantadora como desconcertante".
       Outro os aspetos que o autor sublinha é a clareza no falar, exprimindo as ideias de forma consistente, talvez demasiado analítica. Dedicado ao ensino de medicina, facilidade da comunicação oral. Curiosamente, maior dificuldade na escrita.
       Outro dos aspetos relevantes: o seu altíssimo nível espiritual, embora Sendino vivesse a sua fé com descrição. "Viveu a sua doença na perspetiva da Anunciação. Como a Virgem Maria, também ela deu à luz uma criatura: por virtude da graça, Sendino alumiou-se a si mesma para a eternidade. Eu sou testemunha".
        Como confidencia a  Pablo d'Ors, pediram-lhe para escrever sobre a sua enfermidade e, por isso, pede ajuda ao autor. "Nunca vi um processo de declínio e morte tão eloquentemente refletido nas folhinhas que Sendino me entregava sempre que a ia visitar... A progressão do seu cancro não se percebia somente na brevidade dos seus escritos, mas também na sua forma estilística, progressivamente mais frouxa, e até na caligrafia que, no final, era ilegível".
       Dos escritos confiados ao autor: "Chamo-me África Sendino e sou médica internista. Desde que me foi diagnosticado um cancro da mama, fui submetida a um tratamento cirúrgico de quimioterapia e radioterapia. Num sábado apalpo um nódulo e na segunda, às nove, fui recebida pelo patologista. Às nove e um quarto, saio do seu laboratório com um novo panorama vital: tenho cancro. De repente, eu era uma nova personagem: o médico adoece; e, depois, compreendi o que me tocava com a doença (uma conhecida com a qual até então eu tinha lutado diariamente) era dançar com ela. Também me veio à cabeça a imagem das duas margens de um rio. Inesperadamente, sem me consultar, tinham-me passado para a outra margem. Podia chorar, queixar-me, espernear... mas na verdade, o barco já se tinha ido embora. Teria de esperar que chegasse e, entretanto..., era apenas o que poderia fazer! Podia passear naquela margem, por exemplo, contemplar a outra minha nova perpetiva, deter-me tranquilamente diante desse rio, molhar os pés... O doente não deve ser apenas paciente; deve ser o protagonista da sua enfermidade" (Uma das primeiras entradas do diário de Sendino, dia em que lhe detetaram o cancro, 19 de outubro de 1999).
       As notícias que vão chegando não são animadoras. "Quero deixar claro - continua Sendino, quando relata a segunda fase do seu temor - que o facto de a doença pressupor um período de perdas não sentencia irremediavelmente que seja, realmente, um período de perda para mim mesma. Não, de modo nenhum! Mesmo sendo dolorosa a comprovação do fracasso do tratamento para erradicar o tumor, experimentei que a minha recaída tinha algumas vantagens: por exemplo, já não me esperariam tantas novidades, excetuando, naturalmente, a perpetiva de um desenlace final. Então, a morte apresentou-se como uma convidada para a festa".
       Mais adiante: "A doença vai ter connosco onde estamos. Quando me sobreveio a mim, soube que poderia vivê-la como uma circunstância adversa e até certo ponto irritante ou, ao contrário, como uma imensa e imerecida ocasião de aprendizagem. Decidi que a minha perpetiva seria a segunda. O meu primeiro desejo foi percorrer dignamente este caminho em benefício da Igreja. Aceitei ingressar num curso prático de patologia: a doença vivida na minha própria carne. Se superasse o cancro - disse a mim própria -, voltaria enriquecida à prática assistencial. Se saísse com vida, eu seria uma interlocutora vália para os doentes".
       Sendino apoia-se, para a oração, numa expressão de São Pedro: "Confiai a Deus todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós" (1 Ped 5, 7). "Desde o princípio da minha enfermidade - escreve neste mesmo sentido - compreendi que a minha forma de encará-la não era o resultado de uma grande fortaleza psicológica, mas um dom estritamente sobrenatural. Desde esse primeiro momento - continua - soube que só tinha um desejo: fazer esta minha peregrinação do melhor modo possível... Os enfermos são um tesouro para a Igreja".
       "O meu maior medo? Que a intensidade do meu sofrimento me tente a não louvar a Deus e a não dar graças ao seu nome. Só peço uma coisa: que a minha enfermidade não em afaste d'Ele; pois, se o fizesse, para quê e a quem serviria?... Aceito ser um despojo. Quero gastar-me e desgastar-me a cumprir a sua vontade".

Outro apontamento:
       "Um dos mistérios mais insondáveis da enfermidade é o do tempo: os sãos não têm tempo; em contrapartida, os doentes o que mais têm é precisamente tempo. Um dia pode ser infinito numa cama do hospital. Espera-se durante horas a visita de um médico que dura um minuto. Eu esperei esse médico e, agora, sou essa paciente que espera. Deus quis que eu dedicasse a minha vida a ajudar os outros, mas não quis que me fosse embora deste mundo sem deixar-me ajudar pelos outros. Deixar-se ajudar pressupõe um nível espiritual muito superior ao de simples ajudar. Porque, se ajudar os outros é bom, melhor é ser ocasião para que os outros nos ajudem. Quem se deixa ajudar parece-se mais com Cristo do que quem ajuda. Mas ninguém que não tenha ajudado os seus semelhantes saberá deixar-se ajudar quando chegar o seu momento. Sim, o mais difícil deste mundo é aprender a ser necessitado".

domingo, 12 de junho de 2016

Leituras: João XXIII e a Pequena via da misericórdia

RINALDO DONGHI (2016). A Pequena via da misericórdia. Da Agenda pessoal do Papa João XXIII. Prior Velho: Paulinas Editora. 176 páginas.
       Mais um livro obrigatório para quem quiser conhecer São João XXIII, canonizado no dia 27 de abril de 2014, num acontecimento significativo, pois foram canonizados dois Papas (João Paulo II e João XXIII), com a presença de dois Papas, Francisco, o nosso Santo Padre, e Bento XVI, o magno papa Emérito.
       Por outro lado, e por maioria de razão porque vivemos o Jubileu da Misericórdia, João XXIII, o Bom Papa, introduziu a simplicidade, a bondade e a misericórdia no Papado e na Igreja. Na abertura do Concílio Vaticano II, a 11 de outubro de 1962, deixava claro que "agora, a Esposa de Cristo prefere usar o medicamento da misericórdia em vez de abraçar as armas do rigor [...]. A Igreja Católica, enquanto com este Concílio Ecuménico levanta o facho da verdade católica, quer mostrar-se mãe amorabilíssima de todos, benigna e paciente, inclinada à misericórdia e com a bondade para com os filhos dela separados".
       A sua natural bonomia, simplicidade, com gestos espontâneos, apostando tudo na delicadeza, na atenção às pessoas e às suas situações, o trato próximo e benevolente com todos, o cuidado com os mais pobres, procurando construir uma Igreja pobre para os pobre, levou muitas pessoas a identificarem o papa Francisco com o bom Papa João, ainda que o próprio Papa Francisco se afirme mais devedor do grande Papa Paulo VI.
       Com a temática da misericórdia e com sua a canonização, João XXIII tem vindo a ser descoberto, através de biografias e da publicação das suas intervenções. Neste livro, o autor enquadra, numa perspetiva das 14 obras de misericórdia o viver e João XXIII como Delegado Apostólico na Grécia e na Turquia e Administrador do Vicariato latino de Estambul, partindo dos apontamentos que o futuro Papa iam fazendo nas suas agendas, mostrando à saciedade a bondade, a simplicidade, a preocupação pelas pessoas que viviam em situações mais precárias, nomeadamente em ambientes de guerra. Angelo Giuseppe Roncalli procura atender a todos os pedidos, receber todas as pessoas, usar a influência que tem para libertar prisioneiros ou tentar aliviar-lhes as penas. Recebe cada pessoa com fidalguia. Vai ao encontro dos pobres, visita orfanatos, hospitais, prisões, usa os recursos da Santa Sé para aliviar uns e outros, e usa dos próprios recursos. Ajuda até onde pode.
       A santidade perpassa no compromisso quotidiano de cada pessoa. João XXIII transparece com facilidade o compromisso com Jesus Cristo, com a Igreja, com o mundo, usando a caridade, a paciência, o diálogo e o respeito.