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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A Palavra de Deus e as tradições...

       Reuniu-se à volta de Jesus um grupo de fariseus e alguns escribas que tinham vindo de Jerusalém. Viram que alguns dos discípulos de Jesus comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar. – Na verdade, os fariseus e os judeus em geral só comem depois de lavar cuidadosamente as mãos, conforme a tradição dos antigos. Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado. E seguem muitos outros costumes a que se prenderam por tradição, como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre –. Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus: «Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?». Jesus respondeu-lhes: «Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens». Jesus acrescentou:  «Sabeis muito bem desprezar o mandamento de Deus, para observar a vossa tradição. Porque Moisés disse: ‘Honra teu pai e tua mãe’; e ainda: ‘Quem amaldiçoar o seu pai ou a sua mãe deve morrer’. Mas vós dizeis que se alguém tiver bens para ajudar os seus pais necessitados, mas declarar esses bens como oferta sagrada, nesse caso fica dispensado de ajudar o pai ou a mãe. Deste modo anulais a palavra de Deus com a tradição que transmitis. E fazeis muitas coisas deste género» (Mc 7, 1-13).
       No diálogo/confronto com os fariseus, Jesus coloca a prioridade na conversão interior, na prática da caridade, na justiça, na generosidade para com o semelhante. Os fariseus interrogam Jesus pelo facto dos seus discípulos não lavarem as mãos antes da refeição. Tratava-se não apenas de higiene, mas de uma tradição religiosa. Jesus não perde a oportunidade para nos recentrar no essencial. As tradições podem ser e são importantes na medida em que nos aproximam dos outros e não podem servir de desculpa ou de justificação para não ajudarmos os outros. Pelo contrário, as tradições só são defensáveis se contribuem para a prática do bem.
       Dests modo, Jesus dá prioridade ao tratamento afável com o semelhante, ainda que algum costume não seja rigorosamente cumprido...

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Este homem acolhe os pecadores e come com eles

        Os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: «Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa» (Lc 15, 1-10).
       A postura de Jesus é de inclusão, de promoção, de acolhimento, em relação a todas as pessoas mas privilegiando as que vivem na rua, que estão abandonadas ao seu sofrimento, que estão excluidas social e religiosamente, as mulheres, as crianças, os doentes, leprosos, coxos, cegos, surdos, mudos, publicanos, estrangeiros.
       Jesus não Se apresenta a partir do palácio - símbolo do poder político, económico, social - nem a partir do tempo - símbolo do "poder" religioso, mas a partir da rua, das estradas, caminhos e vielas, a partir das margens, onde pulsa a vida em sofrimento. Todos são filhos. Como os pais, a atenção recai sobre quem está doente, perdido, desencantado, sem esperança. Se numa família um dos filhos está doente, a atenção redobra sobre esse filho. Não significa menos amor aos outros. Mas é necessário recuperar aquele. Jesus ama sem medida a todos, traz em plenitude o amor do Pai. Porém, e como seria de esperar, privilegia os que quer recuperar, incluir, a quem quer devolver a dignidade de filhos de Deus.
       Ele vem para os pecadores. Vem para curar. Vem para ajuntar os que andam dispersos, cansados e abatidos. E como é grande a alegria por cada pessoa que recobra a vida, a saúde, a esperança, a alegria de viver.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

A esmola purifica o interior e o exterior

       ...Um fariseu convidou-O para comer em sua casa. Jesus entrou e tomou lugar à mesa. O fariseu admirou-se, ao ver que Ele não tinha feito as abluções antes de comer. Disse-lhe o Senhor: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e perversidade. Insensatos! Quem fez o interior não fez também o exterior? Dai antes de esmola o que está dentro e tudo para vós ficará limpo» (Lc 11, 37-41).

        Um dos gestos obrigatórios para os judeus eram as abluções, antes da refeição, lavar as mãos e eventualmente a cara. É uma questão prática e higiénica. Mas converteu-se em rito religioso. Jesus ignora o gesto e senta-se para tomar a refeição. Não deve ter sido inocente. Talvez uma provocação de Jesus para suscitar a reflexão. E a reflexão é clara: a insistência não deve ser no aspeto exterior, mas na vivência interior e que esta, por sua vez, possa traduzir-se com atitudes e gestos concretos na relação com o nosso semelhante.
       Obviamente que o copo como o prato devem estar limpos também no exterior e o aspecto ajuda à refeição, mas como seria se o prato estivesse limpo por fora mas sujo por dentro?! A prioridade é o interior, a conversão ao bem, à verdade, à justiça...
      Se algumas dúvidas existiam, agora tudo fica mais claro: as obras comprovam a fé professada, dão-lhe vida, sustentam-na e aprofundam-na. Uma fé sem obras é inútil, é balofa, oca. Aliás, se a fé é autêntica ela conduz ao compromisso. Por conseguinte, dizer que se tem uma grande fé é desnecessário, as obras mostram, num e noutro sentido.
      Jesus, assim, contrapõe o ritualismo à vivência da caridade. De pouco adianta cumprir todas as exigências da Lei, se não houver conversão do coração, transformação da vida, compromisso com o nosso semelhante. A esmola purifica o nosso interior e o nosso exterior...
       Dizia Blaise Pascal, que quando não vivemos como pensámos, acabamos por pensar como vivemos. Por outras palavras, o nosso exterior deve ser a expressão do que somos, do nosso interior, devemos viver de acordo com os nossos princípios éticos, sociais, culturais, religiosos. Se nos deixamos levar pela maré, acabamos por justificar, ou tentar justificar, aquilo que, por princípio está errado. Jesus insiste na necessidade de voltarmos o nosso olhar para o interior, onde nos podemos encontrar com Deus.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Levanta-te, põe-te de pé, estende a mão!

       Jesus entrou numa sinagoga a um sábado e começou a ensinar. Estava lá um homem com a mão direita paralítica. Os escribas e fariseus observavam Jesus, para verem se Ele ia curar ao sábado e encontrarem assim um pretexto para O acusarem. Mas Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse ao homem que tinha a mão paralítica: «Levanta-te e põe-te de pé, aí no meio». O homem levantou-se e ficou de pé. Depois Jesus disse-lhes: «Eu pergunto-vos se é permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar a vida ou tirá-la». Então olhou para todos à sua volta e disse ao homem: «Estende a mão». Ele assim fez e a mão ficou curada. Os escribas e fariseus ficaram furiosos e começaram a falar entre si do que haviam de fazer a Jesus (Lc 6, 6-11).
 
       Jesus entra numa sinagoga, lugar de oração, de escuta da Sagrada Escritura, e de reflexão, para os judeus. Aproveita a ocasião para ensinar. Entre os presentes um homem com a mão direita paralítica. Os doutores da lei e os fariseus estão atentos ao ensino de Jesus mas também aos gestos que Ele possa fazer.
        Jesus não se inibe e chama o homem para que ele fique ainda mais visível, trá-lo para a luz, para o meio, para que todos possam testemunhar, pergunta se é permitido fazer bem ou mal em dia de Sábado, o dia sagrado dos judeus... e cura a mão paralítica.
       Para Jesus, como para os seus seguidores, todos os dias são bons para fazer bem... e todos os dias sãos ruins para fazer mal
       Por outro lado, as curas são sinal da força e presença de Deus em Jesus Cristo, juntamente com os exorcismos e o perdoar pecados.
        A discussão de hoje não se centra tanto na cura do paralítico, mas sobretudo no facto de se realizar a um Sábado. Para os judeus aceitava-se com facilidade que alguém pudesse, inspirado por Deus, ter poderes curativos. Facilmente aceitariam este facto em Jesus. Mas o Sábado é sagrado, motivo para censurarem Jesus.
        Por sua vez, Jesus aproveita para lhes dizer com clareza: o bem não tem dia nem hora, deve fazer-se em todo o tempo. As leis, as tradições, os preceitos não devem servir para escravizar mas para libertar a pessoa.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Ninguém coloca remendo novo num vestido velho...

       Os fariseus e os escribas disseram a Jesus: «Os discípulos de João Baptista e os fariseus jejuam muitas vezes e recitam orações. Mas os teus discípulos comem e bebem». Jesus respondeu-lhes: «Quereis vós obrigar a jejuar os companheiros do noivo, enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo lhes será tirado; nesses dias jejuarão». Disse-lhes também esta parábola: «Ninguém corta um remendo de um vestido novo, para o deitar num vestido velho, porque não só rasga o vestido novo, como também o remendo não se ajustará ao velho. E ninguém deita vinho novo em odres velhos, porque o vinho novo acaba por romper os odres, derramar-se-á e os odres ficarão perdidos. Mas deve deitar-se vinho novo em odres novos. Quem beber do vinho velho não quer do novo, pois diz: ‘O velho é que é bom’» (Lc 5, 33-39).
       Todas as instituições, constituídas por pessoas, enquadram regras, ritos, tradições, que as identificam. As religiões não são excepção. Pelo contrário, é nos ritos e nas tradições que têm a sua força e a sua identidade. Mas para que a religião seja saudável e redentora não pode ser fixista e aprisionar as pessoas a tradições válidas no passado mas que na atualidade estão desajustadas.
       Jesus depara-se com as tradições judaicas. Os fariseus e os escribas chamam-n'O a atenção para o não cumprimento das normas religiosas por parte dos seus discípulos. Embora Jesus não se volte diretamente contra as tradições - importa sobretudo a vivência interior, a transformação de vida, o compromisso com a justiça e com a paz, e a coerência entre o que se exige aos outros e o que se vive -, ainda assim aproveita a ocasião para lembrar que os tempos são novos e se são novos não se encerram nas mesmas estruturas do passado.
       A salvação vai para lá de todas as estruturas, tradições, usos e costumes, normas e preceitos. A graça de Deus é maior, e não está prisioneira das nossas estruturas ou concepções.

sábado, 25 de agosto de 2018

Não imiteis as suas obras, eles dizem e não fazem

       No Evangelho para hoje, Jesus remete-nos para a necessidade das boas obras confirmarem o que professamos pelas palavras, procurando a correspondência entre o que nos exigimos e o que exigimos ao nosso irmão, optando por um caminho de humildade, e não de sobranceria. É no reconhecimento da nossa limitação, que podemos abrir-nos aos outros e a Deus.
       «Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens: alargam as filactérias e ampliam as borlas; gostam do primeiro lugar nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças públicas e que os tratem por ‘Mestres’. Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’, porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos. Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’, porque um só é o vosso pai, o Pai celeste. Nem vos deixeis tratar por ‘Doutores’, porque um só é o vosso doutor, o Messias. Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» (Mt 23, 1-12).
       As nossas palavras devem levar-nos ao compromisso, a fazer o bem, a viver honesta e solidariamente. De que adianta ter uma fé imensa, se vejo alguém a quem deitar a mão e não o faço por preguiça, ou deixando que outros façam?
       Jesus diz claramente que devemos agir pela justiça, pelo amor, pelo bem, não para que outros vejam e nos elogiem, mas por ser bem e justo. E, por outro lado, e necessidade das nossas palavras não serem ocas, mas corresponderem à nossa prática

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O Filho do Homem é também o Senhor do sábado

        Jesus passou através das searas em dia de sábado e os discípulos, sentindo fome, começaram a apanhar e a comer espigas. Os fariseus viram e disseram a Jesus: «Vê como os teus discípulos estão a fazer o que não é permitido ao sábado». Jesus respondeu-lhes: «Não lestes o que fez David, quando ele e os seus companheiros sentiram fome? Entrou na casa de Deus e comeu dos pães da proposição, que não era permitido comer, nem a ele nem aos seus companheiros, mas somente aos sacerdotes. Também não lestes na Lei que, ao sábado, no templo, os sacerdotes violam o repouso sabático e ficam isentos de culpa? Eu vos digo que está aqui alguém que é maior que o templo. Se soubésseis o que significa: ‘Eu quero misericórdia e não sacrifício’, não condenaríeis os que não têm culpa. Porque o Filho do homem é Senhor do sábado» (Mt 12, 1-8).
       Jesus e os seus discípulos passam no meio das searas e estes vão debicando os grãos das espigas, pois sentiram fome. Certamente, em trânsito, entre cidades e aldeias, por vezes não deveriam ter muito que comer, e por vezes nem tempo. E Jesus não faz esperar as pessoas.
       Segundo a tradição, retirar as espigas para comer não é mal e também não prejudica ninguém. Mas o que aqui está em causa, é o apanharem e comerem as espigas ao sábado, o dia de descanso, o dia sagrado. Na volta vemos a resposta firme e clara de Jesus, como em outros lugares do Evangelho.
       As leis hão de ser um ser um serviço para as pessoas, para as ajudar a viver melhor e a organizar-se em sociedade de forma harmoniosa, não tem, ou não deve ter, uma preocupação escravizante. O que é certo é que ao longo dos séculos as leis judaicas se multiplicaram de tal forma que se tornaram incompreensíveis para as pessoas mais simples. Acresce a isto, que muitas das leis foram elaboradas para beneficiar ou justificar a postura dos líderes do povo.
       Sem reservas, Jesus diz que toda a LEI está ao serviço da pessoa humana (e não apenas de uma classe ou corporação). E quanto às leis religiosas, especificamente, têm de ser libertadoras, e não castradoras. "Eu quero a misericórdia e não sacrifícios". Mais importante é a conversão interior e a conduta que se assume perante os outros.

terça-feira, 20 de março de 2018

Eu vou partir... Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima

       Disse Jesus aos fariseus: «Eu vou partir. Haveis de procurar-Me e morrereis no vosso pecado. Vós não podeis ir para onde Eu vou». Diziam então os judeus: «Irá Ele matar-Se? Será por isso que Ele afirma: ‘Vós não podeis ir para onde Eu vou’?» Mas Jesus continuou, dizendo: «Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo. Ora Eu disse-vos que morrereis nos vossos pecados, porque, se não acreditardes que ‘Eu sou’, morrereis nos vossos pecados». Então perguntaram-Lhe: «Quem és Tu?» Respondeu-lhes Jesus: «Absolutamente aquilo que vos digo. Tenho muito que dizer e julgar a respeito de vós. Mas Aquele que Me enviou é verdadeiro e Eu comunico ao mundo o que Lhe ouvi». Eles não compreenderam que lhes falava do Pai. Disse-lhes então Jesus: «Quando levantardes o Filho do homem, então sabereis que ‘Eu sou’ e que por Mim nada faço, mas falo como o Pai Me ensinou. Aquele que Me enviou está comigo: não Me deixou só, porque Eu faço sempre o que é do seu agrado» (Jo 8, 21-30).
        As palavras de Jesus tornam-se cada vez mais clarividentes. Mas quanto maior a clareza, maior a surpresa por parte de quem O escuta.
       Jesus vai partir. Vai para Deus. Ele é de cima, nós somos da terra. Ele pisa o nosso chão para nos elevar da terra. Quando Ele for elevado, nós seguiremos, com o nosso olhar, o Seu olhar de ternura e de paixão por nós.
       Na hora de mais dor, sentindo o abandono de todos, Jesus não deixa de sentir a intimidade de Deus Pai que Lhe dá forças e ganas para seguir em frente e concluir a obra da redenção, gastando-se até ao fim e apesar de todo o sofrimento prossegue até à Cruz, abrindo-nos os braços para a eternidade de Deus e enviando-nos a espalhar o mesmo amor misericordioso.

terça-feira, 13 de março de 2018

Levanta-te, toma a tua enxerga e anda...

Pela água e pelo Espírito Santo tornamo-nos novas criaturas, nascemos de novo, enformados como Corpo de Jesus que é a Igreja. Nas leituras propostas para hoje, a água aparece como elemento fundamental. Na primeira leitura, do profeta Ezequiel, a água em abundância produz vida, purifica, sara, gera abundância:
O Anjo disse-me: «Esta água corre para a região oriental, desce até Arabá e entra no mar, para que as suas águas se tornem salubres. Em toda a parte aonde chegar esta torrente, todo o ser vivo que nela se move terá novo alento e o peixe será muito abundante. Porque aonde esta água chegar, tornar-se-ão sãs as outras águas e haverá vida por toda a parte aonde chegar esta torrente. À beira da torrente, nas duas margens, crescerá toda a espécie de árvores de fruto: a sua folhagem não murchará, nem acabarão os seus frutos. Todos os meses darão frutos novos, porque as águas vêm do santuário. Os frutos servirão de alimento e as folhas de remédio» (Ez 47, 1-9.12).
       Também no Evangelho, a água surge como elemento purificador. As águas agitadas da piscina possibilitam a cura dos que nelas mergulham o corpo. Jesus é a Salvação em pessoa, é água, é vida nova, é cura. Quem vem/vai a Ele torna-se saudável não apenas de corpo mas sobretudo espiritualmente, capaz de viver, de amar, de caminhar para os outros, de abraçar, de partir, de rezar, de louvar...
Jesus subiu a Jerusalém. Existe em Jerusalém, junto à porta das ovelhas, uma piscina, chamada, em hebraico, Betsatá, que tem cinco pórticos. Ali jazia um grande número de enfermos, cegos, coxos e paralíticos. Estava ali também um homem, enfermo havia trinta e oito anos. Ao vê-lo deitado e sabendo que estava assim há muito tempo, Jesus perguntou-lhe: «Queres ser curado?» O enfermo respondeu-Lhe: «Senhor, não tenho ninguém que me introduza na piscina, quando a água é agitada; enquanto eu vou, outro desce antes de mim». Disse-lhe Jesus: «Levanta-te, toma a tua enxerga e anda». No mesmo instante o homem ficou são, tomou a sua enxerga e começou a caminhar. Ora aquele dia era sábado. Diziam os judeus àquele que tinha sido curado: «Hoje é sábado: não podes levar a tua enxerga». Mas ele respondeu-lhes: «Aquele que me curou disse-me: ‘Toma a tua enxerga e anda’». Perguntaram-lhe então: «Quem é que te disse: ‘Toma a tua enxerga e anda’». Mas o homem que tinha sido curado não sabia quem era, porque Jesus tinha-Se afastado da multidão que estava naquele local. Mais tarde, Jesus encontrou-o no templo e disse-lhe: «Agora estás são. Não voltes a pecar, para que não te suceda coisa pior». O homem foi então dizer aos judeus que era Jesus quem o tinha curado. Desde então os judeus começaram a perseguir Jesus, por fazer isto num dia de sábado (Jo 5, 1-3a.5-16).
       No Evangelho podem sublinhar-se outros aspetos relevantes. Aquele homem não tinha ninguém que olhasse por ele. Muitas passavam indiferentes. Como hoje pode acontecer. Há depois o preconceito (desculpa) religioso. A cura ao sábado provoca escândalo a quem não teve mãos, nem vontade, nem lembrança, nem generosidade para ajudar aquele enfermo, mas tem língua para expor e apontar...

sábado, 10 de março de 2018

Dois homens subiram ao templo para orar

       Oseias presenteia-nos com mais esta belíssimo confissão de fé, de confiança em Deus. Se Ele nos feriu, Ele nos há de curar. Faz lembrar um Pai/Mãe que coloca o filho de castigo mas com a preocupação de o orientar para o bem. E numa imagem que hoje não se usa, a mãe ou o pai que dão uma bofetada no filho, mas que logo abraçam, afaçam, fazem sentir bem, acarinham, curam o filho que se magoou.
Vinde, voltemos para o Senhor. Se Ele nos feriu, Ele nos curará. Se nos atingiu com os seus golpes, Ele tratará as nossas feridas. Ao fim de dois dias, Ele nos fará viver de novo; ao terceiro dia nos levantará e viveremos na sua presença. Procuremos conhecer o Senhor: a sua vinda é certa como a aurora. Virá a nós como o aguaceiro de Outono, como a chuva da Primavera sobre a face da terra. «Que farei por ti, Efraim? Que farei por ti, Judá?» – diz o Senhor – «O vosso amor é como o nevoeiro da manhã, como o orvalho da madrugada que logo se evapora. Por isso os castiguei por meio dos Profetas e os matei com palavras da minha boca; e o meu direito resplandece como a luz. Porque Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos» (Os 6, 1-6).
       O profeta sublinha a conversão, as boas obras, a justiça, o amor, como forma de viver em Deus, remetendo para a misericórdia de Deus mais que todas as tradições ou sacrifícios. Também assim no Evangelho de hoje, não vale tanto o ritualismo, o cumprimento de uma tradição, de uma obrigação (ainda que religiosa), mas sobretudo uma atitude permanente de conversão e de despojamento diante de Deus.
       O publicano sai justificado, diante de Deus posta-se como "nada", precisado da graça de Deus. O fariseu aparece diante de Deus como "tudo", não precisa nem de Deus. Mas escutemos e meditemos o texto:
Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros: «Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo’. O publicano ficou a distância e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: ‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’. Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» ( Lc 18, 9-14)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Respeitai o direito, protegei, fazei justiça, defendei

       A palavra de Deus proposta para esta terça feira acentua a misericórdia de Deus. Jesus colocava a misericórdia de Deus como ideal comparativo para nos centrarmos na vivência da misericórdia. Hoje, na primeira leitura, a bondade de Deus, e o Seu perdão, estão ao alcance de todos, importa, antes de mais, iniciar um caminho positivo, de honestidade, de atenção ao semelhante, de prática da justiça e da caridade. Uma vez mais, as boas obras testam e aprofunda a fé.

Mas atentemos ao texto:
       Escutai a palavra do Senhor, chefes de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, povo de Gomorra: «Lavai-vos, purificai-vos, afastai dos meus olhos a malícia das vossas acções, deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Vinde então para discutirmos as nossas razões, – diz o Senhor. Ainda que os vossos pecados sejam como o escarlate, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã. Se fordes dóceis e obedientes, comereis os bens da terra. Mas se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados pela espada» (Is 1, 10.16-20).
       No Evangelho, Jesus remete-nos para a necessidade das boas obras confirmarem o que professamos pelas palavras, procurando a correspondência entre o que nos exigimos e o que exigimos ao nosso irmão, optando por um caminho de humildade, e não de sobranceria. É no reconhecimento da nossa limitação, que podemos abrir-nos aos outros e a Deus.

Vejamos as palavras de Jesus aos discípulos e à multidão:
       «Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens: alargam as filactérias e ampliam as borlas; gostam do primeiro lugar nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças públicas e que os tratem por ‘Mestres’. Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’, porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos. Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’, porque um só é o vosso pai, o Pai celeste. Nem vos deixeis tratar por ‘Doutores’, porque um só é o vosso doutor, o Messias. Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» (Mt 23, 1-12).

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Porque pede esta geração um sinal?

       Apareceram alguns fariseus e começaram a discutir com Jesus. Para O porem à prova, pediam-Lhe um sinal do céu. Jesus suspirou do fundo da alma e respondeu-lhes: «Porque pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo: não se dará nenhum sinal a esta geração». Depois deixou-os, voltou a subir para o barco e foi para a outra margem do lago (Mc 8, 11-13).
       Um dos ingredientes do Evangelho é a discussão/diálogo de Jesus com os fariseus, que por vezes se caracteriza pelo confronto entre Moisés e Jesus, ou melhor, entre os preceitos atribuídos a Moisés e interpretados pelos escribas/doutores da lei, e a interpretação e vivência de Jesus.
       Hoje, numa perspetiva diferente, os fariseus pedem a Jesus um sinal, para ver se devem confiar n'Ele e na Sua mensagem, ou apenas para provocar, expondo-O, mostrando que é apenas mais um pregador itinerante, sem conteúdo e sem força própria. Jesus. O Mestre dos Mestres, segue o seu caminho.
       Quantas vezes nos são pedidos sinais, provas, juras, para que demos alguma fiabilidade às pessoas, invertendo assim a lógica da saúde social, confiar nas pessoas. A mensagem é uma parte, mas não é a pessoa enquanto tal. Se confio na pessoa, confio nas suas palavra, como expressão da sua identidade, ainda que saiba das suas limitações, que podem traduzir-se em erro (não necessariamente, em engano propositado). Mas a opção deveria ser sempre pelo benefício da dúvida, sem falsas ingenuidades, mas sabendo que as pessoas se enganam, erram.
       Por outro lado, e mais de acordo com o Evangelho de hoje, quantas vezes pedimos sinais a Deus, uma prova, uma palavra, uma coincidência?

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Tudo será perdoado aos filhos dos homens...

       Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam: «Está possesso de Belzebu», e ainda: «É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios». Mas Jesus chamou-os e começou a falar-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode aguentar-se. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado eterno». Referia-Se aos que diziam: «Está possesso dum espírito impuro» (Mc 3, 22-30).
        Nesta disputa com os fariseus e doutores da lei, Jesus salienta como a Salvação veio até à humanidade, até à história e que Deus é na Sua essência um Deus de misericórdia. Por outro lado, o evangelho evidencia como Jesus cumpre com as promessas de Deus ao seu povo, n'Ele Se manifesta o poder de Deus.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Vós não entrastes e impedistes os que queriam entrar

        Disse o Senhor aos doutores da lei: «Ai de vós, porque edificais os túmulos dos profetas, quando foram os vossos pais que os mataram. Assim dais testemunho e aprovação às obras dos vossos pais, porque eles mataram-nos e vós levantais os monumentos.... Ai de vós, doutores da lei, porque tirastes a chave da ciência: vós não entrastes e impedistes os que queriam entrar!». Quando Jesus saiu dali, os escribas e os fariseus começaram a persegui-l’O terrivelmente e a provocá-l’O com perguntas sobre muitas coisas, armando-Lhe ciladas, para O surpreenderem nalguma palavra da sua boca (Lc 11, 47-54).
       O evangelho apresenta-nos a continuação do "diálogo" de Jesus com os fariseus e com os doutores da lei, num confronto bem directo e focado. Em mais um tentativa de cilada, Jesus responde "sem papas na língua", lembrando que o mais importante é o que está para lá das aparências, dizendo claramente a fariseus e a doutores da lei como muitos deles exigem aos outros o que não cumprem, têm a ciência, mas nem a aproveitam nem a usam para ajudar os outros...
       Esta frontalidade há-de valer a Jesus a perseguição... e a morte!