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quarta-feira, 20 de março de 2019

O Filho do homem vai ser entregue...

        Disse-lhes Jesus: «Vamos subir a Jerusalém e o Filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, que O condenarão à morte e O entregarão aos gentios, para ser por eles escarnecido, açoitado e crucificado. Mas ao terceiro dia Ele ressuscitará»...
       «Sabeis que os chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem entre vós quiser tornar-se grande seja vosso servo e quem entre vós quiser ser o primeiro seja vosso escravo. Será como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção dos homens» (Mt 20, 17-28).
       Jesus não veio para ser servido como um príncipe ou como uma rei, mas veio ao mundo para servir e dar a vida a favor da humanidade inteira.
       Hoje, o Evangelho mostra-nos a anúncio da paixão de Jesus. A caminhada para Jerusalém - a cidade santa - é uma caminhada para o desfecho da missão, rumo à CRUZ. Neste trajeto, a mãe dos filhos de Zebedeu pede a Jesus que os coloque à Sua esquerda e à Sua direita. É a procura pelo melhor lugar. Os outros discípulos contestam, pois também disputam os lugares mais importantes. Jesus inverte a lógica: quem quiser ser o maior faça servo de todos. O serviço é o caminho de Jesus Cristo até ao Pai, até à eternidade.
       O fim anunciado, mas não o esperado pelos discípulos de Jesus. No II Domingo da Quaresma, o Evangelho apresentava-nos a Transfiguração de Jesus, que surge precisamente neste contexto, em que Jesus lhes diz que será entregue às autoridades dos judeus, e depois será morto.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Jesus chorou sobre a cidade de Jerusalém

       Quando Jesus Se aproximou de Jerusalém, ao ver a cidade, chorou sobre ela e disse: "Se ao menos hoje conhecesses o que te pode dar a paz! Mas não. Está escondido a teus olhos. Dias virão para ti, em que os teus inimigos te rodearão de trincheiras e te apertarão de todos os lados. Esmagar-te-ão a ti e aos teus filhos e não deixarão em ti pedra sobre pedra, por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada" (Lc 19, 41-44).
       Ao olharmos para o Médio Oriente deparamos, na maioria da vezes, com notícias de atentados terroristas, de respostas bélicas às ameaças, suicídios para matar grupos de pessoas, conflitos, muros físicos que dividem, suspeitos em todas as esquinas, famílias destroçadas pela morte de algum familiar. Jerusalém é um foco de divisão. Três religiões presentes na Terra Santa: judaísmo, islamismo e cristianismo. Certamente outras pessoas com outros credos religiosos ou sem credo nenhum. A religião que deveria "re-ligare", deveria ser ponte, tornou-se muro intransponível entre os judeus e os muçulmanos, mas onde, no passado, o cristianismo também esteve presente nas guerras e guerrilhas pela posse da Terra sagrada.
       Jesus chora sobre Jerusalém sabendo que a salvação está próxima, basta abrir o coração ao perdão e ao amor. Mas chegar ao coração?

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Permanecei no meu amor


       A expansão do Evangelho encontra, aqui e além, externa e internamente, algumas dificuldades. Paulo e Barnabé sobem a Jerusalém para se encontrarem com a comunidade original, com o grupo dos Apóstolos e com os Anciãos. A polémica incide sobre se os cristãos vindos do paganismo têm de cumprir as prescrições judaicas, se têm de manter as tradições próprias da Lei mosaica. Segundo os cristãos vindos do judaísmo, os cristãos vindos do paganismo têm de ser circuncidados e cumprir com outros requisitos judaicos. Depois de refletirem em comunidade, inspirados pelo Espírito Santo, os Apóstolos, em comunidade, respondem.
       Por aqui se vê como a comunidade é também um espaço de reflexão, de diálogo, de oração, de compreensão. Vê-se também a estrutura hierárquica. Tiago, o Bispo de Jerusalém, tem a última palavra sobre o assunto.
       O essencial não são as tradições mas a fidelidade a Jesus Cristo. Em todo o caso há algumas recomendações para que não haja confusão com a idolatria e para apaziguar a relação entre todos os cristãos.
Pedro: «Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros dias, Deus me escolheu do meio de vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do Evangelho e abraçassem a fé. Deus, que conhece os corações, deu testemunho a favor deles, ao conceder-lhes o Espírito Santo como a nós; não fez qualquer distinção entre nós e eles, porque purificou os seus corações pela fé... toda a assembleia ficou em silêncio e começou a ouvir Barnabé e Paulo descrever os milagres e prodígios que Deus realizara por seu intermédio entre os gentios. Quando eles acabaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse: «Irmãos, escutai-me. Simão contou como Deus, ao princípio, Se dignou intervir, para formar de entre os gentios um povo consagrado ao seu nome. Isto concorda com as palavras dos Profetas, como está escrito: ‘Depois disto, virei para reconstruir a tenda de David, que estava caída; reconstruirei as suas ruínas e erguê-las-ei de novo, para que o resto dos homens procurem o Senhor, com todas as nações consagradas ao meu nome. Assim fala o Senhor, que desde sempre dá a conhecer estas coisas’. Por isso, sou de opinião de que não se devem importunar os gentios convertidos a Deus. Digam-lhes apenas que se abstenham de tudo o que foi contaminado pela idolatria, das relações imorais, das carnes sufocadas e do sangue. Desde os tempos antigos, Moisés tem em cada cidade os seus pregadores e é lido todos os sábados nas sinagogas» (Atos 15, 7-21).
       No Evangelho encontramos a resposta dada pela comunidade de Jerusalém. Jesus diz o que é essencial para os Seus seguidores: amar como Ele nos amou. Deus é fonte de todo o amor. Deus ama o Filho. O Filho, Jesus Cristo, ama-nos com o mesmo amor que recebeu do Pai. O cristão, seguidor de Cristo, deverá amar do mesmo jeito. Dessa forma saberemos que permanecemos em Deus. Amar como Jesus, leva-nos a cumprir as Suas palavras. A finalidade: para que a Sua alegria esteja em nós.

«Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa» (Jo 15, 9-11).

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

... como a galinha recolhe os pintainhos...

        Naquele dia, aproximaram-se alguns fariseus, que disseram a Jesus: «Vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te». Jesus respondeu-lhes: «Ide dizer a essa raposa: Eu expulso demónios e realizo curas hoje e amanhã; ao terceiro dia chego ao meu fim. Mas hoje, amanhã e depois de amanhã, devo seguir o meu caminho, porque não é possível que um profeta morra fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados, quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos, como a galinha recolhe os pintainhos debaixo das suas asas! Mas vós não quisestes. Pois bem. A vossa casa vai ficar abandonada. E Eu vos digo: Não voltareis a ver-Me, até chegar o dia em que direis: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor!’». (Lc 13, 31-35).
       Alguém avisa Jesus de que Herodes pretende matá-l'O e que é melhor abandonar a cidade. A resposta de Jesus é firme e como planeado permanecerá na cidade três dias. Aproveita também a ocasião para profetizar sobre a cidade de Jerusalém, como aviso e como desafio à conversão. Os seus habitantes tiveram muitos sinais. Deus permaneceu sempre próximo, na "espera" para que os filhos pudessem ser reunidos.
       O último aviso é mais uma oportunidade, radicada na esperança. Voltareis a ver-me no dia em que direis "bendito o que vem em nome do Senhor".

sábado, 24 de março de 2012

Domingo V da Quaresma (ano B) - 25 de março

       1 – Cada vez mais perto, mais perto ainda, e logo depois a luz incandescer-nos-á, enchendo a nossa vida de luz, de paz, de vida nova, de presença de Deus, com o fulgor e o dinamismo da Páscoa, que nos atrairá para além da CRUZ, que tornará mais belo, mais profundo e mais generoso o nosso olhar e a nossa esperança. Os nossos olhos serão transformados pela magia do amor que Deus nos dá, para fazermos a experiência de encontro com o Ressuscitado.
       Em Jerusalém, Jesus passeia-se às claras por entre os homens e as mulheres, em festa. Vai onde germina a vida, ao encontro dos outros. Deus vem onde nos pode encontrar, a nossa casa, à nossa vida, às nossas praças e ruas. Em sentido inverso, muitos são os que se sentem também atraídos por Ele e O procuram, querem vê-l’O, ora por curiosidade ora tocados pela fé. Talvez neles arda o Espírito de Deus.
       As palavras de Jesus não podem ser mais explícitas:
       «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome».
       O Filho do Homem vai ser glorificado pelo sofrimento, pela cruz, melhor, vai ser glorificado pela entrega, pelo amor sem fim, pela dádiva da Sua vida, do seu Corpo, morrerá por amor. Se se pode morrer por amor, eis ALGUÉM que o faz. Sem apelo nem agravo. É hora do tormento e dor, de tristeza e angústia. É hora de confiança e de realizar-se a vontade do Pai, a vontade do Amor. É o grão de trigo que cai à terra, morre, para logo germinar na abundância de saborosos frutos.


       2 – Não é uma hora fácil, a de Jesus Cristo, ao contemplar o quão perto se encontra do fim biológico. "Agora a minha alma está perturbada" (Evangelho). Resolutamente sabe que não veio para fazer o caminho mais curto, mais fácil, mas para vivenciar connosco todas as experiências, também a da dor, do sofrimento, da solidão, do abandono e da morte. Também aqui Jesus, Deus feito Homem, nos assume por inteiro. Não fica à distância a contemplar a nossa morte. Vem morrer connosco. E por nós.
       Ele aprende como é amarga a passagem deste mundo para a eternidade. Angustiante. Há de transpirar gotas de sangue, tal a ansiedade e o medo. Mas não desfalece. Coloca-Se em Deus Pai. Cola-Se n'Aquele que O enviou. E que O livrará da morte eterna.
       "Nos dias da sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte e foi atendido por causa da sua piedade. Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento e, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de salvação eterna" (2.ª Leitura).

       3 – O desiderato da Sua vida e missão é a salvação da humanidade. Toda. De todos os lugares e em todos os tempos. Vem para cumprir as promessas de Deus feitas ao Seu povo, e por Israel a todos os povos da terra.
       O momento presente, de sofrimento, de blasfémias, de prisão e da morte que se aproxima, não é, de todo, comparável à beleza do amor de Deus. Jesus resiste nessa intimidade com Deus. Sabe que se aproxima a hora da morte, mas também sabe que o amor que vai até ao fim selará a nova aliança da Redenção.
       Ele inscrever-nos-á para sempre no coração de Deus e em nós inscreverá a lei do amor.
       Como nos revela através de Jeremias:
       "Dias virão, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova... Hei de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Não terão já de se instruir uns aos outros, nem de dizer cada um a seu irmão: «Aprendei a conhecer o Senhor». Todos eles Me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, diz o Senhor. Porque vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas".
       O início da nova Aliança dá-Se na oferenda de Jesus, da Sua vida, do Seu Corpo por inteiro. Pelo Seu sacrifício o perdão do nosso pecado. Acolhamos n'Ele a vida nova, novos céus e nova terra. É também pela Cruz que ficamos a conhecer a Lei de Deus, o rosto do Amor. 

       4 – A liturgia deste quinto domingo da Quaresma deve levar-nos ao mesmo desejo dos judeus gregos que vieram a Jerusalém, conforme se diz no Evangelho: "alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa, foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido: «Senhor, nós queríamos ver Jesus»".
       O nosso privilégio facilita a nossa fé e adesão ao Evangelho, pois nascemos na hora de Cristo Senhor, fomos sepultados para o pecado e para a morte, pelo Batismo, e tornamo-nos novas criaturas, ressuscitando pelo Espírito Santo. Nesta tensão entre a vida presente e a eternidade, entre a Quaresma e a Páscoa da nossa existência mortal, o desejo por ver Jesus há de ser o desejo por nos vermos transformados pelo Seu amor redentor e vivermos como filhos e irmãos.
       Também com o salmista rezemos, pedindo:
       "Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Dai-me de novo a alegria da vossa salvação e sustentai-me com espírito generoso".

Textos para a Eucaristia (ano B): Jer 31,31-34; Sl 50 (51); Heb 5,7-9; Jo 12,20-33.

sábado, 17 de março de 2012

Domingo IV da Quaresma (ano B) - 18 de março

       1 – O cristianismo, a fé cristã, não é, de todo, um conjunto de preceitos, um código ético e moralizante, que obriga, força, impõe o seu cumprimento, sob pena de castigo, ou com uma retribuição pelos méritos conquistados.
       A fé cristã é um acontecimento: Jesus Cristo, com o mistério da Sua vida, morte e ressurreição. É encontro pessoal com Ele. É vida nova, transformada e transformadora. Com a morte na Cruz, Jesus leva o amor até ao fim. Com a ressurreição, Deus Pai confirma a história de entrega e de salvação que se opera em Seu Filho Jesus, e nosso irmão.
       Ao tempo de Jesus tinha-se dado a multiplicação de leis e preceitos. Jesus clarifica e simplifica: amar. Amar a Deus e amar o próximo como a Si mesmo. O paradigma do amor é a Sua vida de oblação. Dispõe-se a amar em todas as circunstâncias, até no sofrimento, na perseguição e na morte. Ama até aqueles que O colocam na Cruz, perdoando-lhes tamanha barbaridade. Por amor.
       Mas vejamos os textos litúrgicos propostos para este 4.º Domingo da Quaresma. Vale a pena uma leitura demorada e sobretudo meditada (ou a meditar).
       Com a largueza de vistas com que Jesus nos presenteia habitualmente, não deixa margens para imaginações fantasiosas:
       «Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou em nome do Filho Unigénito de Deus. E a causa da condenação é esta: a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. Todo aquele que pratica más ações odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas obras não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus».
       Sem mais. O Filho do Homem vai ser elevado da terra. A serpente é fator de saúde. Não morrerão os que olharem para ela. Jesus, levantado da terra, é a própria Salvação, Deus feito Homem que nos eleva com Ele, primeiro assumindo o nosso pecado, a nossa cruz, depois colocando-nos em Deus, na Luz eterna. Ele não veio para condenar o mundo, as pessoas, para mostrar as "garras" de um Deus irado, mas para ser Rosto de um Deus apaixonado, como na primeira hora, pela humanidade inteira, obra das Suas mãos.

       2 – Na mesma direção, a epístola de São Paulo à comunidade de Éfeso. O Apóstolo, uma vez mais, fala-nos ao coração. Fala-nos da vida, da salvação. Fala-nos do amor. Do amor oblativo, dádiva sem fim. É vida nova que se descobre em Jesus, na Sua morte e ressurreição. Todo o mistério pascal envolve Deus – Pai e Filho (Jesus Cristo: Deus no tempo, Deus connosco, Deus feito Homem) e Espírito Santo – que Se inclina, não sobre a Sua sombra, mas Se inclina sobre os filhos Seus, Se inclina como a Mãe se debruça para contemplar no regaço o filho nascido das suas entranhas, do seu amor.
       Belíssima esta carta que o Apóstolo nos escreve:
       "Deus, que é rico em misericórdia, pela grande caridade com que nos amou, a nós, que estávamos mortos por causa dos nossos pecados, restituiu-nos à vida em Cristo – é pela graça que fostes salvos – e com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos Céus com Cristo Jesus, para mostrar aos séculos futuros a abundante riqueza da sua graça e da sua bondade para connosco, em Cristo Jesus. De facto, é pela graça que fostes salvos, por meio da fé. A salvação não vem de vós: é dom de Deus. Não se deve às obras: ninguém se pode gloriar. Na verdade, nós somos obra sua, criados em Cristo Jesus, em vista das boas obras que Deus de antemão preparou, como caminho que devemos seguir".
       A fé é relação, encontro, revelação, comunicação, diálogo, é comunhão. Muito antes de ser um código ético-jurídico. A fé cristã é viva. É vida. É Jesus. É cada um de nós, perante os outros, diante de Deus. É descoberta. Ressurreição e vida. Pelo pecado, morremos cada vez mais. O pecado afasta-nos, divide-nos, diaboliza a minha, a tua, a nossa vida, que deveria ser salutar, encantadora e feliz. Com a Sua vida – morte e ressurreição – Jesus restitui-nos à vida, coloca-nos para sempre à direita do Pai.
       A fé e a salvação não são uma conquista, uma usurpação da nossa parte. A salvação é dom de Deus. Ninguém Lhe tira a vida, é Jesus que no-la entrega por amor. As obras que realizamos são fruto da nossa fé, e do bem que Deus desde sempre colocou no nosso coração. As nossas boas obras hão de ser expressão da luz e do amor de Deus em nós.

       3 – De novo e sempre nos confrontamos com a realidade: a vida nova dada em Jesus Cristo esbarra com a violência que continua a impor-se no nosso mundo, no tempo atual. Mesmo que queiramos desviar o olhar, não é possível não ver os conflitos que se estendem e publicitam cada vez com maior espetacularidade; a fome, a guerra, a violência, as agressões contra pessoa e contra a própria natureza; não é possível não ver a corrupção, a usura, a prepotência de uns poucos à custa de muitos; o serviço público ao serviço de alguns. É mais difícil saber do sol quando o céu está nublado, fechado, escuro como o breu.
       O povo de Israel passou por tempos de grande provação e desânimo. Muitos obstáculos e dificuldades que a um tempo o deixava sem norte e a outro tempo a aprofundar a oração e a adesão à Palavra do Senhor.
       O pecado de uns e de outros, sempre prejudica todos. O bem e a santidade de uns e de outros, sempre beneficia a todos. O povo, no seu todo, há de pagar pelos erros e pecados dos seus líderes. As famílias e as comunidades sempre hão de pagar pelos pecados do egoísmo e da prepotência de algum dos seus membros.
       Mas vejamos o texto, do livro das Crónicas:
       "Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pela boca de Jeremias: «Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos»... «Assim fala Ciro, rei da Pérsia: O Senhor, Deus do Céu, deu-me todos os reinos da terra e Ele próprio me confiou o encargo de Lhe construir um templo em Jerusalém, na terra de Judá. Quem de entre vós fizer parte do seu povo ponha-se a caminho e que Deus esteja com ele»". 
       As palavras de Jeremias, grande profeta de Israel, mostram, não o afastamento de Deus ou o castigo imposto por Ele ao povo, mas como o povo paga caro por ter desfeito os laços de amizade, de sadia convivência, de solidariedade, de coesão social e religiosa. Para lá das contingências próprias do tempo e da história. A união e a solidariedade ajudam a superar as provações.
       Estamos a caminho, já se vislumbra a LUZ que há de vir para a todos reconduzir a Jerusalém. Nós não nos esquecemos da promessa, e muito menos Deus se há de esquecer. "Apegue-se-me a língua ao paladar, se não me lembrar de ti, se não fizer de Jerusalém a maior das minhas alegrias". Voltemos a Jerusalém, a nossa alegria, o nosso encontro com Deus.
       O tempo nosso, ainda que implique feridas e sofrimentos, é impulsionado pela Luz que nos atrai de Jesus Cristo, que passa pelas frestas da Cruz, e nos impele às alturas, ao regaço de Deus, Pai e Mãe.

Textos para a Eucaristia (ano B): 2 Cr 36,14-16.19-23; Ef 2,4-10; Jo 3,14-21.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

CRUZ: lugar de arrependimento e não de culpabilidade

       Ao 9.º dia da novena, o texto escolhido e proclamado foi o que narra o episódio de Maria junto ao Cruz, com o discípulo amado, tradicionalmente identificado com o apóstolo e evangelista São João.
        O pregador remeteu-nos para a Cruz de Jesus, sublinhando a necessidade de não excluir a cruz pela ressurreição, esta acontece porque a morte é real, é verdadeira. Junto à Cruz estavam poucos, mas a Sua Mãe estava. "A cruz não é lugar de culpabilidade mas de arrependimento".
       Maria está de pé junto à cruz, com doçura mas firme. Quando nos dobramos sobre nós, não vemos Deus, temos que levantar o pescoço, a cabeça, firmes, mesmo que o sofrimento seja intenso.
       Maria não grita, esquece-se de Si, não desvia o olhar de Jesus Cristo. Aponta sempre para Ele. Fixa-se no Seu Menino.
       Jesus que teve compaixão da viúva de Naim que vê morrer o seu filho único, ressuscitando-lho, agora não recorre ao milagre, também Ele filho único, mas vence a obediência.
       Quando Abraão vai ao alto do monte para oferecer o Cordeiro, Isaac interroga-o porque não levam com eles o cordeiro a imolar. Abraão diz simplesmente: Deus providenciará. Agora no alto do monte, no calvário, Deus entrega o Filho como Cordeiro. É Ele que tira o pecado do mundo.
A salvação não vem pelo sofrimento, mas pela obediência até ao fim, é um amor louco pela humanidade, por cada um de nós.
       Na cruz dá-se como que uma segunda anunciação: "Eis o teu filho". Maria torna-se a mãe de uma multidão, a mãe da Igreja. No nascimento Maria coloca o Menino na manjedoura, dá-O à humanidade. Agora é Jesus que no-l'A entrega. Que fazemos? Como o discípulo amado que A leva para casa?
       Com Maria, firmes diante da Cruz que nos redime, e mesmo que a noite da fé também nos envolva na dúvida, confiemos que Ela nos guia a Jesus, dissipe as nossas dúvidas e incertezas, apazigue o nossos medos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ser "serventes" dos milagres de Deus

       Ao 8.º Dia de novena, o nosso padre pregador, Pe. António Giroto, partiu da proclamação do Evangelho das Bodas de Caná da Galileia. Jesus, Sua Mãe e os discípulos são convidados para uma boda. A determinada altura, Nossa Senhora constata que os noivos não têm vinho e faz chegar rapidamente essa informação ao Seu filho Jesus.

O caminho de Maria é um caminho de Fé, ligado a Jesus.
       A partir de agora ela deixa o nome próprio e passa a ser a Mãe de Jesus. A presença de Maria increve-se numa lógica de caridade, como na visitação assim também nas bodas de Canaã. Sublinhe-se a delicada atenção de Maria e o exemplo de uma oração confiante: Ela não especifica a Jesus o que tem de fazer, Ele o saberá. Diz apenas que os noivos não têm vinho. Quantas vezes nas nossas orações já especificamos o que queremos e em que tempo queremos que Deus nos atenda e até "negociamos" a realização das nossas súplicas. Deus bem sabe o que precisamos.
       "A mediação ininterrupta de Maria; solidária com as necessidades humanas, mas confiante no plano de Deus (não sabia o que jesus ia pedir) - Maria... confia em Deus".
       Aos serventes, Maria diz apenas para que eles façam tudo o que Jesus lhes disser. Também nós precisamos de ser serventes de Deus, para que Ele continue a operar no mundo, para que os milagres continuem a realizar-se.
       Entre Maria e Jesus mantém-se uma ligação íntima, numa troca de olhares intensa, permanente, comunhão de alma e de coração. Ela confia, mesmo quando Ele lhe diz: que temos nós a ver com isso? Maria "sugere" aos serventes que sirvam confiantes.
  
"O vinho da boda é distribuído por toda a humanidade sedenta"
       As talhas que estavam por ali serviam para a purificação dos judeus. Tinha água suja. Deus serve-se até do nosso pecado para realizar o milagre. Naquelas talhas surge "o vinho da alegria oferecido por Deus... vinho das núpcias, da nova aliança, sangue do cordeiro.

O seguimento de Cristo
       Depois da Boda, Maria, Jesus e os seus discípulos desceram para Cafarnaum… Depois do milagre, da festa, tempo para refletir, para rezar, para fazer um exame de consciência sobre o sucedido, até para apreciar o dom. Por sua vez, Maria surge agora como discípula, acompanha Jesus e com Ele faz o caminho de Nazaré até Jerusalém, das Bodas até à Cruz, no Calvário...

A tentação da Mãe 
       Maria e José guiam-se pela certeza de que Jesus vem da parte de Deus, é o Filho de Deus altíssim, mas por outro lado a incredulidade do povo, as hesitações. Jesus esteve sujeito às tentações. Certamente também Maria o esteve. Mas que tentações? A tentação das mães, tentação de ir buscar Jesus, o Seu Menino, de O proteger contra os delatores, os boatos, a malediência, de não deixar que digam ma d'Ele, por exemplo quando é instada a ir ver o que se passa com Jesus, de Quem se dizia que tinha um espírito impuro, que estava possuído. A espada de dor que atravessa a alma de Maria é cada vez mais profunda. 
 
Caminho de alegria 
       "Feliz o ventre que te trouxe e os peitos que te amamentaram" - alguém grita o meio da multidão. Contudo Jesus acentua uma vez mais que felizes são os que escutam a Palavra de Deus e procuram fazer a Sua vontade. Isso vale para Maria, vale também pata nós.
       Perante Jesus é necessário assumir uma liberdade interior de acolhimento, de aceitação. Ele vem até nós para nos elevar. Deixemos que através de nós, Deus continue a operar maravilhas.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Voltar à cidade de Jerusalém para encontrar Jesus

       No sétimo dia de novena o nosso pregador, Pe. António Giroto, partiu de duas passagens dos Evangelhos de Infância: a "Apresentação de Jesus no Templo e a Purificação de Nossa Senhora (4.º mistério gozoso) e a "perda e encontro de Jesus no Templo entre os Doutores da Lei (5.º mistério gozoso).
       Maria não precisava de purificação, Ela é sumamente pura, mas não quer "armar-se", cumpre, como todos os do seu tempo, com os preceitos religiosos prescritos. Assim o cumprem Maria e José em relação a Jesus.
       No templo estão dois anciãos, Simeão e Ana. São movidos pelo Espírito Santo. Quando o Espírito Santo guia as nossas escolhas não erramos.
       Simeão expressa a sua alegria ao receber o Menino nos seus braços. N'Ele reconhece o Messias prometido: "Agora Senhor, segundo a Tua palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a salvação que puseste ao alcance de todos os povos, luz para se revelar às nações, glória de Israel vosso povo." Nas palavras de Simeão, a certeza de que o Deus que vem está em seus braços, dado ao mundo por Maria.
       Mas se Simeão proclama a glória, também projeta a cruz: "uma espada atravessará a tua alma". Maria e José não entram em euforia nem se tornam depressivos. Confiam em Deus.

       A perda de Jesus no templo marca uma nova etapa na vida de Jesus, passa para a idade adulta, pode ler e comentar a Sagrada Escritura em público. Ele está onde deve estar, no templo. Maria e José dão-se conta que Jesus ficou para trás. Notam a ausência do MENINO. Quantas vezes nos apercebemos da ausência de Deus, não porque Ele esteja distante, mas porque o nosso pecado ou a nossa distração não nos permitem perceber a Sua presença. Precisamos de O procurar onde O poderemos encontrar. Maria e José voltam ao templo. Hoje, a Igreja é o lugar privilegiado para encontrar Jesus, no pão da Eucaristia. Podemos encontrar Deus no mundo, nas pessoas, na natureza, mas é na Igreja, nos Sacramentos, no Pão da Eucaristia onde Ele se dá inteiramente.
       Como Maria e José, precisamos de regressar, voltar, procurá-l'O, ou melhor, deixarmo-nos encontrar por Ele. Mas ainda que se esteja bem no templo, na Igreja, e nos sintamos fortes, não podemos ficar o tempo todo, temos de ir. Maria e José encontram o Seu menino no templo, depois regressam a casa, ao mundo, guardam as Suas palavras, para o testemunhar. Assim também nós, procuremo-l'O até o encontrar, como diria Santo Agostinho, e depois de O encontrar, continuemos a procurá-l'O... voltemos com Ele para a nossa casa, para o nosso mundo.