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segunda-feira, 23 de abril de 2018

Eu sou a porta das ovelhas...

       Disse-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 1-10).
       O tema do pastoreio volta nesta semana. Um dia depois do Domingo do Bom Pastor ressoa em nós a voz de Jesus Cristo: "Eu sou o bom Pastor... Eu sou a porta das ovelhas... quem entrar por mim será salvo... Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância".
       A temática mostra-nos, uma vez mais, quanto Deus Se coloca do nosso lado, à nossa beira, junto a nós. Em Jesus Cristo vem para nos salvar, para nos constituir verdadeiro povo, para nos formar como família de Deus.

Por sua vez, na primeira Leitura, em São Pedro visualiza-se o mandato de Jesus Cristo. Pedro anuncia a todos oa Boa Notícia, alargando o pastoreio:
Disse-lhes Pedro: Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, como sobre nós ao princípio. Lembrei-me então das palavras que o Senhor dizia: ‘João baptizou com água, mas vós sereis baptizados no Espírito Santo’. Se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós, por terem acreditado no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para poder opor-me a Deus?» Quando ouviram estas palavras, tranquilizaram-se e deram glória a Deus, dizendo: «Portanto, Deus concedeu também aos gentios o arrependimento que conduz à vida» (Atos 11, 1-18).

       São Pedro regressa à comunidade judaica depois de ter estado entre pagãos. A reacção da comunidade é, de início, apreensiva, desconfiada, cautelosa. A salvação em Cristo é manifestada aos judeus, como é que Pedro vai até junto dos incircuncisos, os pagãos?
       Pedro, inspirado pelo Espírito Santo fala-lhes do sonho que teve e como Deus lhe manifestou a necessidade de alargar a mensagem para os pagãos e, ao mesmo tempo, a recepção positiva dos pagãos à mensagem pregada por Pedro, em nome de Jesus Cristo.
       Finalmente, a comunidade compreende que a salvação não é exclusiva de um povo, de uma nação, de um grupo de pessoas, mas destina-se à humanidade inteira... ainda que episódios destes se repitam pela história da Igreja...

sábado, 24 de março de 2018

É melhor para nós morrer um só homem pelo povo

       Os sinais são por de mais evidentes. Jesus provoca uma onda crescente de adesão e uma onda crescente de contestação e oposição. Os milagres que realiza não abonam em Seu favor diante daqueles que se Lhe opõem, pelo contrário, os milagres e a adesão da multidão são vistos que ameaça à tradição, aos poderes instalados e à própria religião do Templo.
       A ressurreição de Lázaro, que não deixa dúvidas quanto ao poder de Jesus, parece ser a gota de água. É um sinal da ressurreição futura de Jesus, mas para os opositores é altura para o silenciar, não vá provocar mais estragos entre as fileiras do povo.
Muitos judeus que tinham vindo visitar Maria, para lhe apresentarem condolências pela morte de Lázaro, ao verem o que Jesus fizera, ressuscitando-o dos mortos, acreditaram n’Ele. Alguns deles, porém, foram ter com os fariseus e contaram-lhes o que Jesus tinha feito. Então os príncipes dos sacerdotes e os fariseus reuniram conselho e disseram: «Que havemos de fazer, uma vez que este homem realiza tantos milagres? Se O deixamos continuar assim, todos acreditarão n’Ele; e virão os romanos destruir-nos o nosso Lugar santo e toda a nação». Então Caifás, que era sumo sacerdote naquele ano, disse-lhes: «Vós não sabeis nada. Não compreendeis que é melhor para nós morrer um só homem pelo povo do que perecer a nação inteira?» Não disse isto por si próprio; mas, porque era sumo sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação; e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos. A partir desse dia, decidiram matar Jesus. Por isso Jesus já não andava abertamente entre os judeus, mas retirou-Se para uma região próxima do deserto, para uma cidade chamada Efraim, e aí permaneceu com os discípulos. Entretanto, estava próxima a Páscoa dos judeus e muitos subiram da província a Jerusalém, para se purificarem, antes da Páscoa. Procuravam então Jesus e perguntavam uns aos outros no templo: «Que vos parece? Ele não virá à festa?» (Jo 11, 45-56).
        Caifás tem uma leitura soberba sobre o destino de Jesus: é melhor que morra por todo o povo! E de facto, para nós cristãos, Jesus morre não apenas pelo povo mas por toda a humanidade.  "Não disse isto por si próprio; mas, porque era sumo sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação; e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos".
       A partir de então congeminaram matar Jesus, procurando uma ocasião propícia. Como se verá Jesus enfrentará com coragem as consequências das suas palavras e dos seus gestos, mas por ora retira-Se com os Seus discípulos para uma cidade próxima. A Sua hora está a chegar, mas ainda não chegou.

sábado, 20 de agosto de 2016

Leituras: ELIE WIESEL - NOITE

ELIE WIESEL (2016). Noite. Lisboa: Texto Editores. 136 páginas.

       Elie Wiesel sobreviveu para contar os horrores vividos nos Guetos de Sighet e depois nos campos de extermínio. Até ao fim, a ameaça permanente à vida. Para lá de todo o sofrimento infligido, a humilhação, os trabalhos forçados, a tortura, a fome, a sede, o tratamento desumano a que estavam sujeitos, a desinformação, a pressão psicológica, retirando toda a esperança. Momentos em que as forças faltas, o ânimo está de restos e só resta confiar-se à morte. Há momentos que chegam (quase) à loucura e outros enlouquecem de verdade, ao ponto de não saberem quem são, pelos horrores presenciados, pela impossibilidade de descansar em segurança, pela morte à frente, ao lado, atrás, vizinhos, amigos, família.
       É um texto comovente, pois se percebe com clareza os horrores perpetrados pelos nazis, o controlo do corpo e da mente, semeando a divisão entre membros do mesmo povo, para que uns possam guardar, vigiar, controlar os outros.
       Na contracapa, breve retrato do autor: "Nascido no seio de uma família judia na Roménia, Elie Wiesel era adolescente quando, justamente com a família, foi empurrado para um vagão de carga  e transportado, primeiro para o campo de extermínio, Auschwitz, e, depois, para Buchenwald. Este é o aterrador e íntimo relato do autor sobre os horrores que passou, a morte dos pais e da irmã de apenas 8 anos, e da perda da inocência a mãos bárbaras. Descrevendo com grande eloquência o assassínio de um povo, do ponto de vista de um sobrevivente, Noite faz parte dos mais pessoais e comovedores relatos sobre o Holocausto, e oferece uma perspetiva rara ao lado mais negro da natureza humana".
A fé em Deus é posta em questão. Não tanto a existência em Deus, mas a discussão com Ele, que não ouve, e Se mantém em silêncio perante tanta violência. Alguns judeus ficam chateados com Deus, como se revoltam por que não conseguem perdoar-Lhe a distância e/ou a indiferença. Também neste aspeto, é um testemunho de fé provada pela vida, pelos horrores da fome, da humilhação, a dignidade que lhes foi roubada.


Algumas expressões do autor:
"Nunca esquecerei aquela noite, a primeira noite no campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada.
Nunca esquecerei aquele fumo.
Nunca esquecerei os pequeninos rostos das crianças cujos corpos eu vi transformarem-se em espirais sob um céu mudo.
Nunca esquecerei aquelas chamas que consumiram para sempre a minha Fé.
Nunca esquecerei aquele silêncio noturno que me provou para a eternidade, do desejo de viver.
Nunca esquecerei aqueles momentos qua assassinaram o meu Deus e a minha alma, e que transformaram os meus sonhos em cinza.
Nunca esquecerei, mesmo que tenha sido condenado a viver tanto tempo quanto o próprio Deus.
Nunca".
Em Auschwitz, depois de uma correria louca, o responsável pelo bloco em que ficaram, um jovem polaco diz-lhes:
“Camaradas, encontram-se no campo de concentração de Auschwitz. Um longo caminho repleto de sofrimento espera-vos. Mas não percam a coragem. Já escaparam ao perigo mais grave: a seleção. Reúnam as vossas forças e não percam a esperança. Todos veremos chegar o dia da libertação. Tenham confiança na vida, mil vezes confiança. Afastem o desespero e assim afastarão de vós a morte. O inferno não dura para sempre… E, agora, uma prece que é mais um conselho: qua a camaradagem reine entre vós. Somos todos irmãos e sofremos o mesmo destino. O mesmo fumo flutua sobre as nossas cabeças. Ajudem-se uns aos outros. É a única maneira de sobreviverem”.
“Alguns falavam de Deus, dos Seus caminhos misteriosos, dos pecados do povo judeu e da libertação futura. Quanto a mim, tinha deixado de rezar. Como estava parecido com Job! Não tinha negado a Sua existência, mas duvidava da Sua justiça absoluta.
Akiba Drumer dizia: Deus põe-nos à prova. Quer ver se somos capazes de dominar os maus instintos, de matar o Satanás que existe em nós. Não temos o direito de desesperar. E se Ele nos castiga impiedosamente é sinal de que nos ama ainda mais”.
Três condenados ao enforcamento. Os dois adultos gritaram – viva a liberdade. O pequeno manteve-se calado.
“Onde está o Bom Deus, onde está Ele? – Perguntou alguém atrás de mim…
Ainda estava vivo quando passei diante dele. A sua língua ainda estava vermelha, os seus olhos tinham ainda uma centelha de vida.
Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntar:
– Onde está Deus, então?
E eu senti dentro de mim uma voz que lhe respondia:
– Onde é que Ele está? Ei-lo… está aqui pendurado nesta forca…
Naquela noite, a sopa sabia a cadáver”.
“Pobre Akiba Drumer! Se tivesse podido continuar a acreditar em Deus, a ver neste calvário um aprova de Deus, não teria sido levado pela seleção. Mas a partir do momento em que tinha sentido as primeiras brechas na sua fé, tinha perdido as suas razões para lutar e tinha começado a agonizar”

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Os cachorrinhos comem das migalhas que caem...

       Uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós». Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo: «Socorre-me, Senhor». Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos». Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada (Mt 15, 21-28).
        A salvação que nos é trazida em Jesus é universal e não elitista. Jesus vem para todos, judeus e gregos, escravos e livres, homens e mulheres, idosos e crianças.
       No Evangelho proposto para este dia vemos a hesitação dos judeus, manifesta no diálogo entre Jesus e a cananeia. Nas palavras de Jesus, a ideia dos judeus em geral e dos discípulos em particular, pensando que o Messias viria apenas para libertar Israel, esquecendo que a eleição do Povo da Aliança é instrumental, isto é, foi sempre na perspectiva de ser instrumento de salvação e de bênção para todos os povos. Nas palavras da cananeia e dos discípulos, a visão de Jesus. Ele vem para todos. O diálogo está claramente invertido. Jesus vai levar algum tempo a fazer compreender aos seus discípulos que a salvação não é exclusiva (não exclui ninguém) mas é inclusiva (inclui toda a humanidade, basta a fé).
       Neste episódio, vê-se claramente, que a salvação não é uma conquista ou um direito de uma raça ou de uma religião, mas resulta da adesão firme ao Evangelho, da fé que se professa. Ela (mulher cananeia) é salva porque acredita. Isso mesmo lhe diz Jesus: faça-se como desejas. É a abertura do coração, a nossa fé que nos leva a Jesus, para n'Ele nos encontrarmos na salvação de Deus.
       O segredo está na humildade, na abertura ao mistério que vem de Jesus. Com a mulher não tenhamos medo de suplicar: «Socorre-me, Senhor».

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O DIÁRIO DE MARY BERG - sobrevivente do holocausto

Mary Berg (2015). O DIÁRIO DE MARY BERG. Amadora: Vogais, 20|20 Editora. 352 páginas.
      A segunda Guerra Mundial gerou milhares de vítimas, com plano nazi e conquistar o mundo e eliminar os judeus. Para o efeito bastava ter alguma ascendência judaica: se eram aptos para trabalhar, para se tornarem escravos, sobreviviam, pelo menos até morrerem de fome, de doença, ou em consequência do trabalho; se não eram aptos, então eram encaminhados para campos de concentração, para serem mortos. Muitas vezes eram mortos por brincadeira, por capricho ou simplesmente para provocar pânico aos outros judeus.
       O Diário da Mary Berg narra os dias passados no Gueto de Varsóvia, um conjunto de ruas, de casas, de bairros onde foram confinados os judeus, com regras restritas, em que se vivia com as ameaças, com a possibilidade de serem contratados para trabalhar, passaportes para sobreviverem mais tempo, buscando alguma normalidade, ajudando e sendo ajudado, metendo "cunhas" para ocupar melhores trabalhos, contrabandeando pão, comida e outros bens, dedicando-se à arte e à cultura.
       O projeto final era eliminar todo o gueto, todos os judeus. Os que tinha alguma ligação estrangeira, como a autora/protagonista, cuja cidadania americana da Mãe a tornam também uma privilegiada, apesar de tudo, com uma maior probabilidade de sobreviver.
       Será solta por troca dos prisioneiros de guerra alemães. Pouco tempo depois, os 12 caderninhos de apontamentos são publicados em livro para revelarem a atrocidade contra o povo judeu, mas também contra polacos (judeus ou cristãos) e alertar a comunidade internacional para se apressar e fazer alguma coisa.
       Para trás ficam amigos e um vislumbre de miséria, pobreza, violência gratuita e a tentativa de viver a normalidade da vida, estudando, cultivando-se, criando laços. É um diário "arrepiante" e sobretudo por visualizar a vida tal como foi vivida pelos intervenientes numa página negra da história e que se deseja que não volte a acontecer, ainda que os sinais apontem a um risco maior de intolerância, xenofobia, racismo, fanatismo religioso... 
       Passados poucos anos da publicação e do diário, e do fim da segunda guerra mundial, Mary Berg (1924-2013) desapareceu dos focos da ribalta, talvez para viver uma vida normal...
       O Diário de Anne Frank é dos mais conhecidos e divulgados, mas outras histórias que entretanto foram postas por escrito e divulgadas para que a nossa memória não esmoreça e se torne vigilante perante indícios de tamanha vilipêndia...
       Setenta anos depois já vários tentarem negar, esconder, suavizar a tragédia nazi. Por conseguinte, esta é mais uma leitura obrigatória para avivar o compromisso com a verdade e com a justiça, com a dignidade humana e com o respeito por todas as vidas, desde a concepção até à morte natural.

Vale a pena ler:

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei

       Disse Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia: «Irmãos, descendentes de Abraão e todos vós que temeis a Deus, a nós foi dirigida esta palavra da salvação. Na verdade, os habitantes de Jerusalém e os seus chefes não quiseram reconhecer Jesus, mas, condenando-O, cumpriram as palavras dos Profetas que se lêem cada sábado. Embora não tivessem encontrado nada que merecesse a morte, pediram a Pilatos que O mandasse matar. Cumprindo tudo o que estava escrito acerca d’Ele, desceram-no da cruz e depuseram-n’O no sepulcro. Mas Deus ressuscitou-O dos mortos e Ele apareceu durante muitos dias àqueles que tinham subido com Ele da Galileia a Jerusalém e são agora suas testemunhas diante do povo. Nós vos anunciamos a boa nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no salmo segundo: ‘Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei’» (Atos 13, 26-33).
       O Livro dos Atos dos Apóstolos, depois de narrar diversos feitos que envolvem todos os apóstolos, mas sobretudo a liderança de São Pedro, centra-se agora na figura ímpar de São Paulo. Os discípulos, com as perseguições à Igreja, espalhavam, com mais fervor no anúncio do Evangelho.
       Em Antioquia, dirigindo-se ainda aos judeus, Paulo mostra como em Jesus se cumprem as promessas de Deus a Israel. Os Profetas lidos em cada Sábado na sinagoga veem confirmados as suas palavras na vinda de Jesus, como Messias e Senhor. Mas, os judeus de Jerusalém, sobretudo os chefes, não O reconheceram, condenaram-n'O à morte... mas Deus ressuscitou-O dos mortos e Ele apareceu aos discípulos.
       Com a Ressurreição e com as aparições do Ressuscitado, a missão dos Apóstolos de anunciarem a boa notícia de que Deus cumpriu as promessas em Jesus Cristo. Também São Paulo é testemunha privilegiada de Jesus Cristo.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Quem era eu para poder opor-me a Deus?

Disse-lhes Pedro:
       Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, como sobre nós ao princípio. Lembrei-me então das palavras que o Senhor dizia: ‘João baptizou com água, mas vós sereis baptizados no Espírito Santo’. Se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós, por terem acreditado no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para poder opor-me a Deus?» Quando ouviram estas palavras, tranquilizaram-se e deram glória a Deus, dizendo: «Portanto, Deus concedeu também aos gentios o arrependimento que conduz à vida» (Atos 11, 1-18).
       São Pedro regressa à comunidade judaica depois de ter estado entre pagãos. A reacção da comunidade é, de início, apreensiva, desconfiada, cautelosa. A salvação em Cristo é manifestada aos judeus, como é que Pedro vai até junto dos incircuncisos, os pagãos?
       Pedro, inspirado pelo Espírito Santo fala-lhes do sonho que teve e como Deus lhe manifestou a necessidade de alargar a mensagem para os pagãos e, ao mesmo tempo, a recepção positiva dos pagãos à mensagem pregada por Pedro, em nome de Jesus Cristo.
       Finalmente, a comunidade compreende que a salvação não é exclusiva de um povo, de uma nação, de um grupo de pessoas, mas destina-se à humanidade inteira... ainda que episódios destes se repitam pela história da Igreja...

sábado, 12 de abril de 2014

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor - A - 13 de abril

       1 – «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres». Oportuna e luminosa síntese da vida e da missão de Jesus: fazer a vontade do Pai, alimentar-se da Sua Presença, procurar em tudo responder aos Seus desígnios. Eis que venho para fazer a Tua vontade. Tenho um alimento maior. Felizes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.
       Como qualquer ser humano, Jesus sente a dureza e fragilidade do caminho. Percebe que está próximo um desenlace fatal. Já não há como fugir. Há situações na vida em que enfrentamos ou nos perdemos, acobardando-nos. É preciso ter fibra, ainda que não seja agradável.
       Nas horas de maior aperto, Jesus reza e ensina-nos a rezar. Com toda a devoção. Confiante e confidente. E se a oração é essencial, também a companhia. Cada um sofre à sua maneira, mas partilhar o que nos dói, o que nos faz sofrer, os medos que estamos a enfrentar e os perigos que antevemos, ajudar-nos-á a dar sentido à nossa persistência. Jesus roga aos Seus discípulos: «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo». Também assim o desabafo, que não condena, mas alerta: «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo! Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».
       A consciência do que lá vem, os pés firmes na terra, não retiram o peso daquelas horas. Um pouco antes Jesus diz o que lhe vai na alma, prepara os discípulos, prepara-nos para atravessarmos as trevas, para que não fiquemos sem luz. «Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados. Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu Pai».
       O medo pode agigantar-se. Havendo alguma centelha de luz – a fé, a confiança em Deus, a presença dos amigos –, isso fará que não nos percamos no meio e apesar das trevas.
       2 – "Não se faça como Eu quero, mas como Tu queres". Vem ao de cima o instinto de sobrevivência, mas há de ser mais forte a obediência. "Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes…"
        O hino recolhido por São Paulo mostra-nos a identidade de Cristo, a Sua Encarnação, a assunção da nossa humanidade, o projeto de nos trazer Deus e nos introduzir num projeto de vida nova que nos projete para a eternidade, mas como Ele, vivendo em lógica de paixão pelos outros. A realeza e a grandeza de Jesus revela-se no despojamento, esvaziando-se de Si – não se faça o que EU quero –, enchendo-se do Amor do Pai – faça-se o que TU queres. Jesus recusa-se a salvar-Se a Si mesmo, livrando a própria pele da Cruz, pelo contrário, estende os braços para o Pai e para a humanidade. Até à morte e para lá da morte vencerá o amor, a obediência, a Presença de Deus.
       3 – Uns dias antes, a entrada triunfal de Jesus na cidade de Jerusalém clarifica o mesmo despojamento. O Rei que aí vem não passa de (mais) um Profeta, e passaria despercebido não fora uma multidão de pobres que O acompanham desde a Galileia. É uma multidão simples. Pessoas de todas as idades, e com intenções diferentes, com propósitos diversos. Pobres, humildes, rudes, deslocam-se em caravana para se protegerem mutuamente. Cada ano, por ocasião da Páscoa, deixam as suas casas, juntam alguns poucos haveres, e deslocam-se para celebrar a sua fé em Deus. É mais forte a fé que os move, com os sacrifícios que terão de fazer e dos perigos que terão que enfrentar.
       "Eis o teu Rei, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho de uma jumenta... Numerosa multidão estendia as capas no caminho; outros cortavam ramos de árvores e espalhavam-nos pelo chão. E, tanto as multidões que vinham à frente de Jesus como as que O seguiam, diziam em altos brados: «Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!».
       Alguns estão à beira do caminho. Perguntam-se e perguntam quem é Ele. "Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou em alvoroço. «Quem é Ele?» – perguntavam. E a multidão respondia: «É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia».
       Faz-nos lembrar o alvoroço com que Herodes recebeu a notícia do nascimento do Messias. Um alvoroço que não foi suficiente para ele sair do seu conforto e ir à procura e ao encontro do Rei-Menino.
       Registe-se a reflexão de Bento XVI acerca desta multidão que acompanha Jesus e que não é coincidente com a multidão que O arrasta até ao Calvário. Pedro é precisamente acusado de ser "um deles" porque fala com os mesmos "tiques" ou nuances dos Galileus. Estes seriam estranhos naquela outra multidão que acusa Jesus, que O persegue, que tenta desacreditá-l’O, por inveja, por medo, por ignorância, por instigação de alguns bem instalados na vida, que empurram outros para o campo de batalha. Não se juntam à multidão que aclama Jesus, juntam-se agora em multidão que condena!
        4 – "Ainda Jesus estava a falar, quando chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo". 
       Tudo parece acontecer demasiadamente rápido. Pela calada da noite. Um silêncio incómodo. Quando o sono ainda é rei. Os próprios discípulos, desgastados, com medo, sem forças, ansiosos, se deixam vencer pelos acontecimentos, não acompanham Jesus na Sua oração e vigília. São horas de luta e de desistência. Lutam para sobreviver àquele momento. Mas desistem de Jesus, desistem de "dar a vida por ele". "Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram". Mantêm-se à distância. Vão observando o desenrolar dos acontecimentos. Lamentando-se. Chorando. Bloqueando, sem saber o que fazer. Se dão mais um passo, tudo pode desabar por cima deles. Por outro lado, sentem o olhar envolvente e misericordioso de Jesus que os serena e os desafia.
       Podemos incluir-nos dentro daquela multidão, entre os apóstolos, com a autoridade judaica e com a autoridade romana, com a multidão da Galileia que antes O aclamava, ou com a multidão da Judeia que se deixa levar pela inventiva de alguns poucos. Judas. Pedro. Discípulos. Caifás. Pilatos. Sacerdotes e fariseus. Acusando ou lavando as mãos. Traindo ou negando. Gritando em fúria no meio da multidão anónima ou pegar nos instrumentos de flagelação. Ajudar a levar a cruz ou ser forçado a isso. Quais as mulheres e mães que não arredam, a espreitaram para o caso de as deixarem ajudar Jesus. "Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus. Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus".
        Em todo o caso, no final sobrevêm novas escolhas. Enquanto vivemos, estamos a tempo de nos convertermos e aderirmos a Jesus Cristo e ao Seu Evangelho. Pedro refaz o seu testemunho e o seguimento de Cristo. José de Arimateia não se envergonha e recolhe o corpo de um condenado. O Centurião, e os que por ali estavam, que têm um lampejo da realeza divina de Jesus, e expressa-o de forma audível: «Este era verdadeiramente Filho de Deus».
       5 – Isaías, na primeira leitura, caracteriza o Messias que há de vir, identificando-o com o Servo Sofredor, qual Cordeiro inocente levado ao matadouro, manso e humilde de coração, cuja vida e missão têm o fito único de dar esperança a todos que andam cansados e abatidos. "O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido".
       Abramos bem os ouvidos para ouvir a Palavra de Deus e o grito dos irmãos que buscam razões para viver. Abramos bem os olhos para nos outros descobrirmos a presença de Deus e os acolhermos como se a Ele o acolhêssemos.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Mt. 21, 1-11; Is 50, 4-7; Sl 21; Fl 2, 6-11; Mt 26, 14 – 27, 66.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Papa Francisco - sobre o idoso

Bergoglio:
       "São muitos os que abandonam quem lhes deu de comer, quem os educou, quem lhes limpou o traseiro. Dói-me, faz-me chorar por dentro. E nem vale a pena falar daquilo a que chamo eutanásia encoberta: o tratamento indevido dados aos idosos nos hospitais e nas instituições de assistência social, a quem não dão os medicamentos e a atenção de que necessitam. O idoso é o transmissor da história, que nos traz lembranças, a memória do povo, da nossa pátria, da família, de uma cultura, de uma religião...
       Com setenta e quatro anos estou prestes a começar a velhice. Não resisto. Estou a preparar-me e queria ser como o vinho envelhecido, não vinho passado. A amargura do idoso é pior do que qualquer outra, porque não tem retorno. O idoso é chamado à paz, à tranquilidade. peço essa graça para mim.
       ... Olhar para um idoso é reconhecer que esse homem fez o seu caminho até mim. Há um desígnio de Deus que caminha com esta pessoa, que começou com os seus antepassados e que continua com os seus filhos. Quando acreditamos que a história começa connosco, começamos a não honrar o idoso...

in JORGE BERGOGLIO e ABRAHAM SKORKA, Sobre o Céu e a Terra.

Papa Francisco e Skorka - sobre a MORTE

Bergoglio:
       "A morte é um despojamento, por isso se vive com angústia. Estamos agarrados à vida e não queremos ir, temos medo. E não há imaginação do além que nos liberte disso. Até o mais crente sente que o estão a despojar, que tem de abandonar parte da sua existência, da sua história. São sensações intransferíveis. Talvez aqueles que estiveram em coma tenham percebido alguma coisa. Nos Evangelhos, o próprio Jesus, antes da oração no Monte das Oliveiras, diz que a sua alma sente angústias de morte. Tem medo do que O espera, está escrito. Segundo os relatos evangélicos, morre recitando o salmo XXI: «Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste». Disso ninguém se salva. Eu confio na misericórdia de Deus, que é benévolo. Digamos que não é uma angústia com anestesia, mas com capacidade para a suportar.
Skorka:
       "É muito angustiante saber que o tempo é limitado, e mais ainda não saber onde reside o limite. É terrível pensar que a nossa existência é um absurdo da natureza e nada mais, que tudo termina inexoravelmente na morte. Desta forma, a vida não teria sentido, nem os valores nem a justiça... Seria um pensamento extremo. Restam duas possibilidades: para aquele que não quer abordar o tema de Deus, a natureza humana tem um sentido intrínseco, a mensagem de bondade, de justiça, passa de geração em geração, e nós, que temos fé em Deus, evidentemente acreditamos que uma centelha de Dele está em nós e que a morte não é mais do que uma mudança numa situação.
Bergoglio:
       "... Caminhar é uma responsabilidade criativa no sentido de cumprir com o mandamento divino: crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Os primeiros cristãos associavam a imagem da morte à da esperança e usavam a âncora como símbolo. Então, a esperança era a âncora que mantínhamos cravada na margem, e com a corda íamo-nos agarrando para avançar, sem nos desviarmos. A salvação reside na esperança, que se nos irá revelar plenamente, mas, entretanto, mantemo-nos agarramos à corda e fazemos o que achamos que temos de fazer. São Paulo diz-nos «Em esperança, estamos salvos»...
       É a esperança que estrutura todo o nosso caminho. O perigo é apaixonarmo-nos pelo caminho e perdermos a meta de vista, e outro perigo é o quietisno: ficar a olhar a meta e não fazer nada pelo caminho...

in JORGE BERGOGLIO e ABRAHAM SKORKA, Sobre o Céu e a Terra.

domingo, 23 de junho de 2013

Abraham Skorka - sobre o fundamentalismo


Skorka:
       "Temos que honrar Deus através da liberdade e honrando o outro. Deus diz que tenho de respeitar o próximo como a mim mesmo. Quando um judeu reza todos os dias, a oração começa assim: «Deus nosso e Deus de nossos pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob...» Por que motivo é necessário repetir o vocábulo antes de cada Patriarca? Porque cada um deles se relacionou de maneira diferente com Ele. Ninguém pode impor uma verdade sobre o outro, arbitrariamente. Esta deve ser ensinada, induzida, e cada um expressará essa verdade à sua maneira, no seu sincero sentir, algo que o fundamentalismo rejeita.
       Como o outro não vive como eu acredito que Deus diz que terá de viver, então posso matá-lo. Este é o extremo do fundamentalismo...

in JORGE BERGOGLIO e ABRAHAM SKORKA, Sobre o Céu e a Terra.

Papa Francisco - sobre Deus e o homem com-criador

Bergoglio:
       ... transformar o tronco numa mesa...  o trabalho do homem face a Deus e face a si mesmo deve manter-se numa tensão constante entre a dádiva e a tarefa. Quando o homem fica apenas com a dádiva e não realiza a tarefa, não cumpre a sua ordem e permanece primitivo; quando o homem se entusiasma demasiado com a tarefa, esquece-se da dádiva, cria uma ética construtivista: pensa que tudo é fruto das suas mãos e que não há dádiva. É aquilo a que eu chamo a síndrome de Babel..

Skorka:
       ... O Midrash diz que Deus se aborreceu pelo facto de os construtores se importarem mais por perder um tijolo do que por dessa altura poder cair um homem...

in JORGE BERGOGLIO e ABRAHAM SKORKA, Sobre o Céu e a Terra.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Papa Francisco - sobre o diálogo

Jorge Bergoglio:
       ... Por momentos, chegamos a identificar-nos mais com os construtores de muralhas do que com os de pontes. Faltam o abraço, o pranto e a pergunta pelo pai, pelo património, pelas raízes da pátria. Há falta de diálogo...
        O diálogo nasce de uma atitude de respeito pela outra pessoa, de uma convicção de que o outro tem algo de bom para dizer, pressupõe criar espaço no nosso coração para o seu ponto de vista, para a sua opinião e para a sua proposta. Dialogar implica uma receção cordial, e não de uma condenação prévia. Para dialogar teremos de saber baixar a guarda, abrir as portas de casa e oferecer calor humano.
       São muitas as barreiras que diariamente impedem o diálogo: a desinformação, a intriga, o preconceito, a difamação, a calúnia. Todas estas realidades constituem um certo azedume cultural, que sufoca qualquer abertura aos outros. E assim se trava o diálogo e o encontro.

in JORGE BERGOGLIO e ABRAHAM SKORKA, Sobre o Céu e a Terra.

domingo, 16 de junho de 2013

Papa Francisco - Deus encontra-nos no caminho

Bergoglio:
       "Excelente palavra «caminho»! Na experiência pessoal de Deus não posso prescindir do caminho. Diria que a Deus encontra-se caminhando, andando, quando O procuramos e deixamos que Ele nos procure. São dois caminhos que se encontram. Por um lado, o nosso, que O procura, impulsionado por este instinto que flui do coração. E depois, quando nos  encontramos, apercebemo-nos de que Ele já nos procurava, de que já nos precedeu. A experiência religiosa primordial é a do caminho: «Caminha até à terra que te irei indicar» (Gen 12,1). É uma promessa que Deus faz a Abraão. E, nessa promessa, nesse caminho, estabelece-se uma aliança que se vai consolidando ao longo dos séculos. Por isso digo que a minha experiência com Deus tem lugar no caminho, na procura, no deixar que me procurem. Pode ser por diversos caminhos: o da dor, o da alegria, o da luz, o da escuridão.

in JORGE BERGOGLIO e ABRAHAM SKORKA, Sobre o Céu e a Terra.
Sobre Deus: ver em Livraria FUNDAMENTOS

domingo, 2 de junho de 2013

Papa Francisco - sobre o Céu e a Terra

        Depois da Sua eleição, no passado dia 13 de março, tem surgido diversos escritos do atual papa Francisco. Era expectável, que muitos procurassem de imediato saber o que já disse, fez, o que escreveu, as mensagens mais emblemáticas, gestos mais relevantes, acontecimentos mais transformadores, e, claro, para outros, ver o que poderia gerar crítica ou escândalo.
       Começamos por sugerir uma primeira leitura, juntando as primeiras palavras de Francisco, com as últimas de Bento XVI: BENTO XVI, Embora me retire continuo unido a vós. Discursos de Bento XVI e SAVERIO GAETA. Papa Francisco. A vida e os desafios. Este constitui uma primeria abordagem biográfica de Jorge Bergoglio, agora Papa Francisco, com algumas citações de frases, intervenções, mensagens, homilias...
       Mais completo, quanto aos temas tratados, a célebre entrevista ao então Cardeal Jorge Bergoglio, assumindo o título "O Jesuíta", que recebeu nova edição: SERGIO RUBIN e FRANCESCA AMBROGETTI, Papa Francisco. Conversas com Jorge Bergoglio.
       Este título que agora apresentamos é um extraordinário encontro de um cristão e de um judeu, um cardeal e um rabino, num diálogo muito profícuo, com muitos pontos de contacto, de respeito, admiração, humildade, mostrando que a sabedoria leva à concórdia e a buscar o que verdadeiramente é ponte para os outros. Para haver diálogo é inevitável e necessário que cada um se apresente com os seus princípios, ideias, convicções, com abertura, não para desistir da sua identidade, mas para a enriquecer com as convicções dos outros. Se há pura cedência de uma das partes, não há diálogo. Se há imposição também não. Mas se existe humildade é possível encontrar pontos de contacto que ajuda a entender o mundo e a humanidade, procurando soluções ou pelo menos caminhos.
JORGE BERGOGLIO e ABRAHAM SKORKA, Sobre o Céu e a Terra. Clube do Autor. Lisboa 2013, 224 páginas.

       O então cardeal Jorge Bergoglio e Abraham Skorka já se tinha encontrado em diversas ocasiões, tornando-se amigos, abordando diversos temas da fé, da vida, da política. Inclusive, já tinham escrito prefácios para livros um do outro. Por que não colocar por escrito os diálogos entre ambos.
       Este livro nasce dessa vontade comum de partilhar com outros as conversas tidas ao longo dos anos, sinalizando desde logo que é possível, e até necessário, que pessoas de diferentes credos, comungarem o essencial da vida.
       São variados os temas: sobre Deus, o Diabo, a oração, a culpa, a morte, a eutanásia, o aborto, a mulher, os idosos, o fundamentalismo, o divórcio, a política, a educação, o dinheiro, a pobreza, sobre o holocausto, sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, sobre o conflito israel-árabe, ou sobre a evolução política e social da Argentina.
       Muito clarificador. Mais um livro que se lê com muito agrado, quer nas intervenções do atual Papa, quer nas palavras do rabino Skorka. Com sabedoria e simplicidade, numa abordagem que desafia, e envolve, pois traz a experiência de vida de cada uma dos intervenientes.
       Por outro lado, e no que diz respeito ao Papa Francisco, pode constatar-se que a mensagem que tem chegado ao mundo inteiro é genuína, não surge de repente, é fruto da vida, da experiência, do estudo, da oração, de milhentas situações concretas. Lendo o Jesuíta, ou lendo este (bom seria ler os dois títulos - já há outros) fica-se a conhecer bem melhor o pensamento de Francisco, os seus gestos e as suas mensagens sobre humildade, serviço, pobreza, diálogo, pontes em vez de muros.

       No Youtube podem encontrar-se outras conversas, do Papa com Abrahm Skorka:

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

CARTA DO JUDEU DO GUETO DE VARSÓVIA

       "... O texto apresenta o ambiente de 1943: o gueto de Varsóvia está cercado e em chamas. Um após outro, caem todos os seus defensores. Numa das últimas casas em que ainda resiste está presente o filho de Israel. E mete numa garrafa vazia um escrito com as suas últimas palavras:
...
       Creio no Deus de Israel, embora Ele tenha feito de tudo para arrasar a minha fé n'Ele. As minhas relações com Ele já não são as de um servo diante do seu senhor, mas a de um discípulo perante o seu mestre...
       Morro, mas não satisfeito; como um homem abatido, mas não desesperado; crente, mas não suplicante; amando a Deus, mas sem dizer cegamente: Ámen. Segui a Deus, mesmo quando Ele me repeliu. Cumpri o seu mandamento, mesmo quando, para premiar a minha observância, Ele me castigava. Amei-o, amava-o e amo-o ainda, embora me tenha abaixado até ao chão, me tenha torturado até à morte, me tenha reduzido à vergonha e ao escárnio. Podes torturar-me até à morte, acreditarei sempre em ti; amar-te-ei sempre, mesmo que não queiras. E estas são as minhas últimas palavras, meu Deus de cólera: Não conseguirás fazer com que Te renegue.
       Tentaste de tudo para fazer-me cair na dúvida, mas eu morro como vivi: numa fé inabalável em Ti. Louvado seja o Deus dos mortos, o Deus da vingança, o Deus da verdade e da fé que imediatamente mostrará os fundamentos com a sua voz omnipotente. Shema' Israel, Adonai Elohenu, Adonai echad! Escuta, Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é um!
in BRUNO FORTE, As quatro noites da salvação, Prior Velho, Paulinas 2009.

sábado, 19 de novembro de 2011

Falaste bem, Mestre...

       E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos». Então alguns escribas tomaram a palavra e disseram: «Falaste bem, Mestre». E ninguém mais se atrevia a fazer-Lhe qualquer pergunta (Lc 20, 27-40).
        No tempo de Jesus existiam vários grupos, fações. Um desses grupos, os saduceus, classe dos comerciantes, preocupava-se sobretudo com o que era material, com o que poderia dar dinheiro. Era um grupo materialista. Os seus membros não acreditavam na ressurreição dos mortos.
       Aproximam-se de Jesus e colocam-lhe um "problema" muito da tradição judaica. Se um irmão tivesse casado e morrido sem descendência, o irmão a seguir desposaria a mesma mulher para desse modo lhe dar descendência, e se este, por sua vez, também não deixasse descendência, o seguinte assumia a responsabilidade de casar com a mesma mulher a fim de lhe dar a descendência. Ora sucedeu que sete desposaram a mulher, mas todos morreram sem descendência, com qual deles ficaria ela na vida eterna?
A resposta de Jesus é clara e inequívoca, na vida eterna nem se casam nem se dão em casamento. É uma realidade distinta da terrena e história.
       Por outro lado, Jesus evoca a Sagrada Escritura, na ocasião em que Moisés vai falar com Deus, tratando Deus como o "Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob", ou seja, um Deus de vivos e não de mortos. Como Moisés é uma referência fundante e fundamental para todos os judeus, esta referência de Jesus é conclusiva e não merece reparos.

sábado, 16 de abril de 2011

É melhor morrer um só homem pelo povo

       Então Caifás, que era sumo sacerdote naquele ano, disse-lhes: «Vós não sabeis nada. Não compreendeis que é melhor para nós morrer um só homem pelo povo do que perecer a nação inteira?» Não disse isto por si próprio; mas, porque era sumo sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação; e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos. A partir desse dia, decidiram matar Jesus. Por isso Jesus já não andava abertamente entre os judeus, mas retirou-Se para uma região próxima do deserto, para uma cidade chamada Efraim, e aí permaneceu com os discípulos. Entretanto, estava próxima a Páscoa dos judeus e muitos subiram da província a Jerusalém, para se purificarem, antes da Páscoa. Procuravam então Jesus e perguntavam uns aos outros no templo: «Que vos parece? Ele não virá à festa?» (Jo 11, 45-56).
        O desfecho está cada vez mais próximo. Os evangelistas mostram-nos como as chefias do templo se reúnem para decidirem o modo de calar Jesus, prendendo-O ou matando-O. Aqui aparece a profecia de Caifás: é melhor morrer um só homem por todo o povo.
       Com efeito, é uma profecia repleta de conteúdo, Jesus morre para unir num só rebanho todo o povo e em que haja um só pastor. A sua missão é precisamente essa, congregar na unidade todos os povos e nações.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O Pai está em Mim e Eu estou no Pai...

       Disse-lhes Jesus: «Não está escrito na vossa Lei: ‘Eu disse: vós sois deuses’? Se a Lei chama ‘deuses’ a quem a palavra de Deus se dirigia – e a Escritura não pode abolir-se –, de Mim, que o Pai consagrou e enviou ao mundo, vós dizeis: ‘Estás a blasfemar’, por Eu ter dito: ‘Sou Filho de Deus’!» Se não faço as obras de meu Pai, não acrediteis. Mas se as faço, embora não acrediteis em Mim, acreditai nas minhas obras, para reconhecerdes e saberdes que o Pai está em Mim e Eu estou no Pai». De novo procuraram prendê-l’O, mas Ele escapou-Se das suas mãos (Jo 10, 31-42). 
       A situação de Jesus agudiza-se progressivamente. A Sua linguagem é cada vez mais evidente. Se em alguns momentos Ele fala em parábolas ou por imagens, quanto mais se aproxima de Jerusalém, e do fim, mais explicita a Sua missão e a Sua identidade.
       Num diálogo intenso com os judeus, Jesus diz-lhes claramente que vem da parte de Deus, faz as obras de Deus, é o "Filho de Deus". No mundo semítico e na religiosidade arreigadamente monoteísta é difícil, quase violento, aceitar que um homem se apresente como Deus. Jesus contesta dizendo que a Sagrada Escritura diz que os filhos de Israel são filhos de Deus...
       De novo procuram prendê-l'O, mas ainda não chegou a Sua hora. São João sublinha até à saciedade que a escolha da Hora pertence a Deus. Ainda que a morte seja uma certeza cada vez maior, há-de surgir como entrega, como serviço a favor da humanidade, ninguém Lha tira é Ele que no-la entrega.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Sereis meus discípulos, se permanecerdes na minha palavra

       "Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará"...
       "Em verdade, em verdade vos digo: Todo aquele que comete o pecado é escravo. Ora o escravo não fica para sempre em casa ; o filho é que fica para sempre. Mas se o Filho vos libertar, sereis realmente homens livres"...
       "Se Deus fosse o vosso Pai, amar-Me-íeis, porque saí de Deus e d’Ele venho. Eu não vim de Mim próprio; foi Ele que Me enviou"... (Jo 8, 31-42).
       A palavra de Deus é crucial para o seguimento e a certeza de que a comunhão com Jesus Cristo é efectiva. Nas várias respostas de Jesus dadas aos judeus, acentua-se a necessidade de permanecer na Palavra de Jesus, de nos deixarmos libertar pelo Seu amor, para sermos verdadeiramente homens livres...