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sábado, 22 de abril de 2017

Domingo da Divina Misericórdia - ano A - 23.abril.2017

       1 – "Eu cá tenho a minha fé". Não é nada que não tenhamos ouvido uma dúzia de vezes. Alguém que não frequenta assiduamente ou simplesmente não participa na vida da comunidade, clarificando que tem fé mas a Missa ou as atividades pastorais não lhe dizem respeito, pois resolve a sua vida com ligação direta e exclusiva a Deus. Claro que a não participação pode ter muitos fatores: "falta de tempo" e sobretudo disponibilidade interior, preguiça, desabituação, algum diferendo com outra pessoa que participa habitualmente, embate da vida com a fé, pois os problemas não foram resolvidos apesar da fervorosa oração, não utilidade prática da fé, falta de ligação à comunidade atual onde reside, com a qual não se identifica; não gosta do pároco; dúvidas e incertezas da fé; ainda à procura…
       Na ambiência da Páscoa vemos como a comunidade é essencial para acolher e reconhecer o Crucificado-Ressuscitado, para perceber que Ele está vivo e está no MEIO, no centro da comunidade. A fé fortalece-se e clarifica-se com os que caminham connosco. Uma pessoa sozinha nem para comer serve. Na vida, quem se encontra só acabará por duvidar de si mesmo, desaprendendo a interagir, a viver, a humanizar as palavras e ações. Quando estamos um tempo sem falar, depois parece que as palavras não saem, não articulamos os sons com os movimentos. Por isso, se recomenda que antes de falar e sobretudo cantar se beba água e, eventualmente, se façam alguns exercícios com as cordas vocais.
       Mesmo quando temos certezas sobre alguma matéria necessitamos que os outros o confirmem para nos sentirmos mais seguros e mais tranquilos na hora de dizermos ou de fazermos.
       2 – O definitivo, aquilo que leva à conversão, à adesão a Cristo, à fé na Ressurreição não é o túmulo vazio nem a inspiração pessoal (quando esta acontece visa a comunidade), mas o encontro com o Ressuscitado em dinâmica comunitária. Maria Madalena vai ao sepulcro e, não vendo o corpo de Jesus, vai ter com os discípulos para lhes dizer o que viu (São João); Pedro e o discípulo amado recebem a notícia e dirigem-se ao sepulcro, o discípulo amado não entra sem Pedro; a Maria Madalena e outra Mulher Jesus recomenda que vão ter com os discípulos e lhes digam que os encontrará na Galileia (São Mateus). Os discípulos de Emaús reconhecem Jesus ao partir do pão, isto é, no momento mais comunitário dos cristãos, à volta da mesa, unidos a Deus, em comunhão com os irmãos (São Lucas), e logo regressam à comunidade, para junto dos outros discípulos testemunharem o que viram e ouviram, o que viveram.
       Na tarde daquele primeiro dia, Jesus apresenta-Se no MEIO deles. É Jesus que toma a iniciativa. Vem ao nosso encontro e assume o lugar que Lhe pertence. É assim que Ele Se coloca, é assim que devemos colocá-l'O se verdadeiramente queremos ser Seus discípulos. E, obviamente, se estamos voltados para Jesus, se Ele sustenta o nosso olhar, o nosso coração, a nossa vida, começa então a comunhão com todos aqueles e aquelas que se voltam para Jesus e O colocam como centro de suas vidas, porque é Ele que nos une, nos congrega, como vide que sustém os ramos!
       Sublinhe-se também a dinâmica do Domingo, o Dia do Senhor. A Ressurreição marca o início de um tempo novo, é o primeiro dia da nova criação, é o Dia por excelência em que nasce a Igreja, Corpo de Cristo. É nesse mesmo dia que Jesus aparece aos discípulos, congregados em comunidade.
       Oito dias depois, Jesus volta a encontrar-Se com os Seus discípulos, coloca-Se novamente no meio deles. E se na semana anterior, no primeiro domingo, Tomé não estava, desta feita, no segundo domingo, já está em comunidade, reunido a aguardar a vinda do Senhor. E é em comunidade que faz a experiência de encontro com Jesus. Os outros fizeram a sua missão, contaram-lhe o que havia sucedido, mas Tomé precisa de tempo e de se deixar encontrar por Jesus. Nem todos temos o mesmo ritmo. Cada pessoa faz o seu caminho, mas se cada um se encaminhar para Cristo, formaremos a comunidade dos cristãos.
       3 – Não, não é a Cruz que mata Jesus. Não, não é a Cruz que nos mata. Matam Jesus os nossos pecados, o nosso egoísmo; o que nos mata é a solidão, o colocar-nos como centro ou deixando que nos endeusem. O que nos mata é a preguiça em amar e fazer o bem. Mata Jesus a prepotência, a corrupção, a idolatria, a intolerância. Morremos, não quando o coração falha ou o cérebro se desliga, mas quando deixamos de amar, quando deixamos de sentir a vida e o apelo dos outros.
       É na Cruz que Jesus é morto, mas nem a Cruz O impede de nos encontrar. Jesus não dá as costas à Cruz, enfrenta-a, carrega-a, mas não foge. Ressuscitado, traz na Sua carne, na Sua vida, as marcas da crucifixão. Vede as minhas mãos e o meu lado, Sou Eu, não temais. E de forma ainda mais incisiva a Tomé: vê, toca, as minhas chagas, Sou Eu, não é um fantasma ou um espírito.
       A continuidade não é apenas no Corpo é também na mensagem e no envio.
       A descontinuidade é absoluta, é divina. A ressurreição é algo de novo, nunca visto, não faz parte da biologia humana. As aparições de Jesus geram alegria, mas também surpresa e temor. Aquele que vimos esmagado pelo sofrimento, agredido violentamente, obrigado a carregar o travessão da cruz, exausto pelas vergastadas e pela perda de sangue, pela desidratação, voltou à vida. Deus Pai, a Quem Se confiou, não O desapontou, ressuscitou-O. Ele vive e está no meio de nós.
       Num primeiro momento, as mulheres ficam atónitas. Na tarde desse primeiro dia também os discípulos ficam boquiabertos. Como (depois) a Tomé, também (antes) aos outros discípulos Jesus mostra as mãos e o lado e lhes comunica a paz, enviando-os.
       4 – «Meu Senhor e Meu Deus». Confissão de fé tão breve e tão intensa e clarificadora. Não é preciso muito mais. Quando algo de bom nos acontece precisamos de o partilhar, mas há momentos que não encontramos palavras. É o que acontece com Tomé. Já tinha ouvido dizer... mas agora depara-se com Jesus e com as marcas da Paixão, com as marcas do amor. Quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer. O amor imenso e intenso de Jesus fazem-n'O assumir as nossas dores e levar ao Calvário os nossos sofrimentos, para nos redimir, para nos livrar da morte eterna.
       Agora é a nossa vez. «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». Dou-vos a paz, deixo-vos a paz. Levai a paz a toda a criatura. Eu estarei convosco até ao fim dos tempos. Se passardes por momentos de dúvida e hesitação tocai as minhas feridas, as minhas chagas, então sabereis que Eu vivo, que Eu preciso de vós, do vosso olhar, das vossas mãos, do vosso coração. Felizes sereis se acreditardes e saboreardes a minha presença nos irmãos, nos seus dramas e nas suas necessidades. Vivei a alegria, espalhai a esperança, sarai os doentes, expulsai os demónios que destroem e desumanizam, que excluem e segregam, acolhei a vida, em todos os momentos, protegei os mais frágeis, amai e servi, construí comunidade, inclui os que chegam, animai os abatidos, confortai os cansados e desiludidos. Recebeste de graça, dai de graça. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos, a Mim o fareis.
       Com Cristo, como nos recorda São Pedro, fomos ressuscitados, para vivermos numa esperança viva, porém, enquanto estamos no tempo, caminhamos como peregrinos, sujeitos a provações. Como o ouro se prova pelo fogo, a nossa fé prova-se no tempo presente, vivendo, fazendo com que a fé seja vida, compromisso, transformação (positiva) do mundo em que vivemos. Não há outro mundo nem outra vida. É neste mundo e nesta vida que nos tornamos verdadeiramente filhos amados de Deus, acolhendo a Sua misericórdia, irradiando a Sua Paz e o Seu amor a todos os que encontramos, prosseguindo com os outros até à eternidade. A vida eterna já começou, está em ebulição. E como fez Jesus façamos nós também. As suas palavras e os seus gestos levaram-n'O à Cruz e da Cruz à ressurreição. O mesmo será connosco se vivermos para amar e para servir. Podemos ter que carregar a Cruz, mas se for o amor que nos conduz permaneceremos para sempre.

       5 – Uma das provações da fé passa pela inserção na comunidade crente e pelo compromisso com os outros, sobretudo os mais fragilizados pela doença, pela solidão ou pelas condições de vida. Uma fé autêntica liga-nos aos que professam a mesma fé em Jesus morto e ressuscitado. Não faz sentido, por mais justificações que tenhamos, ainda que honestas, que a fé nos isole. Não é possível rezar ao mesmo Pai se estamos em rutura com a comunidade, de costas voltadas ou indiferentes às necessidades dos irmãos.
      A primeira comunidade continua a ser referência e desafio: «Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações». Estão cá os elementos necessários para que a fé não seja superstição, ilusão, medo, idolatria. Tudo parte do encontro celebrativo, o ensino, a oração, a Eucaristia, com continuidade na vida: «Todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam propriedades e bens e distribuíam o dinheiro por todos, conforme as necessidades de cada um».
       Não há uma separação estanque entre a Eucaristia e a vida quotidiana. À Eucaristia levamos a nossa vida, com as suas inquietações e desafios, com as suas alegrias e tristezas. A Eucaristia envia-nos para o mundo, cheios de luz para irradiarmos a claridade de Jesus; alimentados de esperança e confiantes no amor de Deus, para alimentarmos os outros nas suas necessidades corporais e espirituais. Os membros da primeira comunidade viviam como se tivessem um só coração e uma só alma, louvando a Deus e atentos uns aos outros. É essa autenticidade (a continuidade entre a celebração da fé e a transformação do mundo) que move outros a querer entrar para a comunidade dos crentes, seguindo Jesus Cristo, para como Ele e com Ele ressuscitarmos no tempo até à eternidade.


Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 2, 42-47; Sl 117 (118); 1 Pedro 1, 3-9; Jo 20, 19-31.

sábado, 2 de abril de 2016

Domingo da Divina Misericórdia - ano C - 3 de abril

       1 – A plenitude da misericórdia divina é visualizável no mistério da Encarnação, Deus cabe na palma da mão, cabe no meu e no teu coração. A omnipotência reduz-Se à pequenez e à finitude. Deus, em Jesus Cristo, percorre a história, podemos encontrá-l'O, segui-l'O, acohê-l'O em nossa casa, rejeitá-l'O, persegui-l'O e até matá-l'O. Faz-Se Caminho para nós e entra nos caminhos do tempo, vem ao nosso mundo. O mistério da Páscoa, morte e ressurreição de Jesus, condensa e evidencia em definitivo a misericórdia de Deus que Se ajusta à nossa fragilidade. O coração de Deus compadece-se da nossa miséria e envolve-nos no Seu amor. Já tínhamos visto em quinta-feira santa, como Jesus Se ajusta ao ser humano, ajoelhando-se para nos servir, lavando-nos os pés. Olha-nos a partir de baixo, para nos elevar. Em Sexta-feira Santa, Jesus leva até ao fim o Seu amor por nós, não vacilando, apesar de tanta dor. A Cruz é pesada e pesada é a traição e o abandono dos amigos, e como amargas são as trevas que quase O impedem de ver o Pai. No final, entrega-Se, por mim e por ti, por todos.
       Com a Páscoa vem uma enxurrada de vida nova. A morte não tem mais a última palavra. Esta é de Deus, é da vida, é do Amor. Jesus regressa trazendo-nos, na expressão de Bento XVI, a vastidão do Céu. Um vislumbre de luz que incendiou o mundo. Assim é a Luz da Fé, à minha luz, a luz do outro, e mais luz, como a chama de um isqueiro num estádio de futebol, quase invisível, mas logo que se acendem dezenas, centenas, milhares, o estádio fica todo iluminado. O encontro com Jesus ressuscitado, a experiência da misericórdia de Deus na nossa vida, impele-nos a sermos luz uns para os outros. Com a nossa luz podemos guiar outros para a luz de Cristo e acender a luz em outros!
       São João Paulo II quis que este segundo domingo de Páscoa fosse considerado sob o prisma da misericórdia, acentuando a Páscoa como expoente máximo da compaixão de Deus pela humanidade. Abaixa-Se para nos elevar, como a Mãe que se agacha para pegar o seu filho ao colo!
       2 – Páscoa de Jesus Cristo. Sepulcro sem corpo e sem vida. A vida está além do sepulcro. Não é um teatro em que se possa dizer que a vida está aquém das cortinas, contudo está aquém do sepulcro e além da morte. Jesus ressuscitou. A vida germina de novo em abundância. Deixou-Se matar, e Deus Pai ressuscitou-O, agora deixa-Se ver. Deixa-Se encontrar novamente, deixa-Se perceber ao nosso olhar e ao nosso coração. Não é fantasma, é Ele mesmo. Traz as marcas da crucifixão e a mesma mensagem: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
       Na tarde daquele Primeiro Dia, nova criação, Jesus volta a colocar-Se no MEIO, congregando, unindo, formando comunidade, é o ELO mais forte, sem o Qual não existe comunidade, mas medo e atrofiamento. Não é um corpo que foi reanimado, mas uma forma totalmente nova de Se manifestar. É tanta a LUZ que encandeia num primeiro momento. A aparição assusta, os gestos e as palavras, e as marcas de cumplicidade, esclarecem e comprometem. A morte tinha sido violenta e abrupta a separação. Já havia rumores. Algumas mulheres afirmavam que Ele tinha ressuscitado! Para os discípulos não passam de rumores que só deixam de o ser se puderem comprovar. E eis que vem Jesus, como sempre o havia feito, e os centra à Sua volta, mas logo enviando-os, com uma missão específica: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». A misericórdia divina tem novos intérpretes. Os discípulos são os braços, as pernas, as mãos, o coração de Jesus para o mundo das pessoas.
       3 – Mas como sermos testemunhas se não estávamos quando Jesus apareceu? O envio também é extensível a nós, ou só àquele grupo restrito? É possível ser enviado sem a comunidade?
       O Espírito sopra onde quer. Não podemos encerrar Deus nos nossos esquemas mentais nem dentro das portas que Lhe fixamos. Porém, Deus quer-nos à volta da mesma mesa, pois é ao mesmo Reino que nos chama. Quando estamos alheados, com os pés e com o coração distantes dos outros, será mais difícil reconhecermos a presença de Jesus, pois esta enlaça-nos, une-nos, irmana-nos. Jesus morre na Cruz para nos salvar, não Se salva a Si mesmo, mas a nós. Se Deus é o mesmo, Pai-nosso, se Jesus está no Meio, só estando juntos poderemos, verdadeiramente, testemunhá-l'O.
       Tomé, chamado Dídimo, isto é, Gémeo, nosso irmão gémeo, lembra-nos que a fé não é um dado adquirido, mas é procura constante para encontrar com Jesus, nas variadas situações da vida. Naquela tarde, Tomé não estava. Ouve o testemunho dos outros que viram Jesus. É um dizer indireto, em segunda mão. Tomé precisa de ver e de tocar. A fé não é mera abstração intelectual. Envolve-nos mental, afetiva e racionalmente. Oito dias depois, Jesus volta a colocar-se no MEIO deles, com Tomé presente. As marcas da paixão podem ver-se no Corpo de Jesus, e novamente a mensagem de sempre: a paz esteja convosco. É hora de Tomé ser surpreendido por Jesus: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé encontra-se com Jesus e ao vê-l'O confessa: «Meu Senhor e meu Deus!».
       Não se pense que a incredulidade de Tomé foi assim tão diferente da dos outros discípulos. Eles tinham escutado rumores, mas só quando Jesus lhes apareceu é que acreditaram. Não estava na primeira vez, porém, quando Jesus o encontra, Tomé acredita.
       Contudo, o anúncio é crucial para a transmissão da fé. A fé chega-nos através da comunidade, com Jesus ao centro, e pelo testemunho daqueles que fizeram a experiência de encontro com Jesus. Diz-nos Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto».
       4 – A Ressurreição de Jesus não é um acontecimento sensível, empírico, mas deixa marcas profundas na história. ONZE apóstolos, assustadiços, medrosos, fechados a sete chaves com medo que lhes suceda o mesmo que ao Mestre da Misericórdia. A experiência nas últimas horas de vida de Jesus foram avassaladoras. Nenhum deles estava preparado para aquele desfecho. Foi um descalabro: todos abandonaram o Mestre da Docilidade. Pedro negou-O publicamente. Judas traiu-O e precipitou o desfecho aguardado. Afastam-se de Jerusalém.
       Em pouco tempo os discípulos estão de volta. O encontro com o Ressuscitado abre portas e janelas e eles saem a testemunhar Jesus em todos os ambientes e em toda a parte. "Pelas mãos dos Apóstolos realizavam-se muitos milagres e prodígios entre o povo. Unidos pelos mesmos sentimentos, reuniam-se todos no Pórtico de Salomão... Uma multidão cada vez maior de homens e mulheres aderia ao Senhor pela fé, de tal maneira que traziam os doentes para as ruas e colocavam-nos em enxergas e em catres, para que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. Das cidades vizinhas de Jerusalém, a multidão também acorria, trazendo enfermos e atormentados por espíritos impuros e todos eram curados".
       É tempo de os discípulos imitarem Jesus, anunciando a Boa Nova aos pobres, curando os doentes, libertando os oprimidos pelos muitos demónios que impedem de viver a bem com os outros.

       5 – Como tinha garantido, Jesus não estará ausente da vida dos Seus discípulos e da vida da comunidade. Ele está no MEIO e é a partir do Meio que nos une a todos, como irmãos, apesar e além das diferenças e das características específicas.
       No Apocalipse, João ressalva a presença e a proteção de Jesus: "No dia do Senhor fui movido pelo Espírito e ouvi atrás de mim uma voz forte, semelhante à da trombeta… Voltei-me e vi alguém semelhante a um filho do homem... Quando o vi, caí a seus pés como morto. Mas ele poisou a mão direita sobre mim e disse-me: «Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive. Estive morto, mas eis-Me vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e da morada dos mortos. Escreve, pois, as coisas que viste, tanto as presentes como as que hão de acontecer depois destas».
       Com a mesma fé que libertou os discípulos das cadeias do medo e da morte, cofiemo-nos ao "Deus de eterna misericórdia" que reanima a fé do Seu povo na celebração anual das festas pascais, para que aumente em nós os dons da Sua graça, "para compreendermos melhor as riquezas inesgotáveis do Batismo com que fomos purificados, do Espírito em que fomos renovados e do Sangue com que fomos redimidos".
       Renovados em Cristo, configurados à Sua morte e ressurreição, pelo Espírito Santo, tornemo-nos obreiros da misericórdia divina nos nossos ambientes, em casa, na família, no trabalho, com os amigos e vizinhos, nos momentos de descontração e lazer, na alegria e na festa, no sofrimento e no luto, e a todos comuniquemos confiança e paz, carinho e ternura.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia: Atos 5, 12-16; Sl 117 (118); Ap 1, 9-11a. 12-13. 17-19; Jo 20, 19-31.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Domingo da Divina Misericórdia - ano B - 12 de abril

       1 – «Meu Senhor e meu Deus!» A profissão de fé de Tomé, simples, breve, direta, fica como marca indelével da caminhada crente, da dúvida diante do mistério de Deus que irrompe na nossa vida, espanto perante tão grande novidade, seguimento após encontro com o Senhor Ressuscitado, e que conduzirá ao testemunho alegre.
       A ressurreição não é um acontecimento da história. Segundo D. António Couto, Bispo desta mui nobre Diocese de Lamego, no programa Ecclesia, emitido pela RTP 2, na passada segunda-feira de Páscoa, o conteúdo da ressurreição vem de fora. A Paixão é relatada, a ressurreição não tem um relato, é uma notícia que vem de fora, é uma vida completamente nova, está fora das coordenadas do tempo e da história. A nossa história humana termina com a morte. A ressurreição é algo de novo, que nos ultrapassa. Vem do alto, vem de Deus, da eternidade, mas deixa marcas na história, esbarra connosco. A partir do primeiro dia da semana, tempo novo, de graça e de salvação, as mulheres, os discípulos, todos os que se deixam encontrar pelo Ressuscitado, transformam as suas vidas e assumem-se como verdadeiras testemunhas da boa notícia da ressurreição que nos aproxima e irmana, para sermos um só Povo.
       2 – O encontro com o Senhor Ressuscitado, dimensão sobrenatural, tem local e hora marcada. Tarde do primeiro dia da semana, em casa onde se encontram reunidos os discípulos, com as portas e janelas trancadas, com medo dos judeus, vem Jesus, coloca-Se no MEIO, o lugar que congrega, reúne, forma família. Estando Jesus no MEIO, o medo dá lugar à alegria, a tristeza converte-se em júbilo.
       Inesperado. Novo. As mulheres já tinham anunciado a ressurreição. Mas é tão difícil compreender como é que Alguém que foi morto possa estar vivo! É uma dúvida que acentua a nossa humanidade. Aquele que não duvida não caminha, pois não tem a capacidade da procura, da descoberta, da conversão. Tomé, o irmão gémeo, nosso gémeo, mostra-nos como passar da incredulidade à fé e ao testemunho. Quando damos tudo por adquirido, fechamo-nos à novidade, ao futuro, àquilo que vem dos outros. “A incredulidade de Tomé é mais útil que a fé dos discípulos que acreditam” (São Gregório Magno). A busca deve ser constante e cada encontro com o Senhor Ressuscitado deve provocar nova procura.
       Deus não Se impõe. Respeita o ritmo de cada um, mas desafia: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente... Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto».
       A fé tem uma dimensão pessoal, encontro com Jesus, que se insere e nos insere na comunidade. Se estamos fora da comunidade, a nossa fé é insegura, titubeante, descaracterizada, não tem raízes que a sustentem. Tomé não estava com a comunidade na tarde daquele primeiro dia. Regressa à comunidade, com Jesus no MEIO, e dá-se a integração e a maturação da sua fé: Meu Senhor e Meu Deus. A comunidade de irmãos ajuda-nos a encontrar Jesus, a amadurecer a fé, a fortalecer a esperança, a potenciar a caridade. Precisamos do encontro pessoal com Jesus Cristo, porém, a comunidade pode preparar-nos e encaminhar-nos para este encontro.
       3 – A Páscoa traz-nos a vastidão do Céu (Ratzinger/Bento XVI), reconcilia-nos com Deus, que pela Sua misericórdia infinita ultrapassa a barreira do nosso pecado, limitação e fragilidade. Jesus, sumo e eterno Sacerdote, liga-nos a Deus, dando-nos Deus, reconciliando-nos uns com os outros.
       «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Recebemos a paz como dom do Ressuscitado, para a comunicarmos aos outros. O encontro com Jesus transforma-nos e torna-nos irmãos.
       A comunidade dos discípulos segue as pegadas do Mestre, procurando que a Sua mensagem e a Sua postura seja traduzida HOJE nos comportamentos de cada cristão. «A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de grande simpatia. Não havia entre eles qualquer necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o produto das vendas, que depunham aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade».
       A ressurreição recupera os discípulos que se perderam, à exceção de Judas. Voltam a seguir Jesus, procurando colocá-l’O no centro, atualizando os seus gestos, a Sua Mensagem de amor e de perdão, a Sua opção preferente pelos mais frágeis.
       Vê-se bem como as comunidades primitivas não apenas pregam mas vivem verdadeiramente a chamada justiça social, partilhando conforme a necessidade de cada um.

       4 – O mistério pascal, a experiência de encontro com Jesus, leva à conversão pessoal e comunitária. Como víamos antes, a fé faz-nos caminhar em conjunto. Não faria sentido que partindo e orientando-nos para Deus, estivéssemos isolados ou de costas voltadas. Quando isso acontece, é sinal que o nosso coração e a nossa vida se desviaram da sua identidade cristã.
       «Onde se destrói a comunhão com Deus, que é comunhão com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo, destrói-se também a raiz e a fonte de comunhão entre nós. Onde a comunhão entre nós não for vivida, também a comunhão com o Deus-Trindade não é viva nem verdadeira» (Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 76).
       Belíssima, esclarecedora e interpelativa a página da primeira Carta de São João:
«Quem acredita que Jesus é o Messias, nasceu de Deus, e quem ama Aquele que gerou ama também Aquele que nasceu d’Ele. Nós sabemos que amamos os filhos de Deus quando amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos, porque o amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos. Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé».
       As primeiras comunidades responderam rapidamente ao discipulado, provendo às necessidades de todos, procurando que todos se tratassem como irmãos, identidade recebida de Jesus Cristo, morto e ressuscitado.
       Como respondem HOJE as nossas comunidades e cada um de nós como membros do único Corpo de Cristo que é a Igreja? Vivemos como irmãos? Sentimos como nossas as dores dos vizinhos? Apostamos na misericórdia ou na crítica? Somos assíduos à oração, participamos da vida da comunidade cristã a que pertencemos? Fazemo-lo com alegria ou como um peso?

       5 – Neste Domingo da Misericórdia, o segundo de Páscoa, instituído por São João Paulo II, os textos da liturgia facilmente nos remetem para a misericórdia de Deus, que, em Jesus Cristo, nos gera para uma vida nova. É por amor que Deus nos dá Jesus; é por amor que no-l’O devolve vivo; é por amor que assiste à Sua Igreja pelo Espírito Santo.
       O amor de Deus, a Sua misericórdia, faz em nós maravilhas, transforma o mundo que habitamos em lugar de encontro e de fraternidade. Jesus leva à plenitude a caridade divina ao entregar-Se por nós e ao introduzir-nos na eternidade de Deus, com a Sua ressurreição de entre os mortos, antecipando o nosso futuro, para trabalharmos no presente com mais afinco.
       É como família nova e renovada que rezamos: «Diga a casa de Israel: é eterna a sua misericórdia… A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. / Tudo isto veio do Senhor: é admirável aos nossos olhos. /Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria».

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): Atos 4, 32-35; Sl 117 (118); 1 Jo 5, 1-6; Jo 20, 19-31.

sábado, 6 de abril de 2013

Domindo II de Páscoa - ano C - 7 de abril de 2013

       1 – «Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive. Estive morto, mas eis-Me vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e da morada dos mortos. Escreve, pois, as coisas que viste, tanto as presentes como as que hão de acontecer depois destas».
       Revelador o texto do Apocalipse (= Revelação). Aparições (Visões) do Ressuscitado, trazem-nos o Céu, a certeza que Deus não nos larga à nossa sorte. As palavras de Jesus durante a Sua peregrinação humana são DITAS de novo: não temais, Eu venci o mundo, Eu Sou o Senhor da Vida e da Morte. Nada vos pode separar do amor de Deus, nem a espada, nem a potestade, nem a vida nem a morte. Basta querer. Basta acolher Aquele que vem de Deus.
       Ressuscitado, Jesus apresenta-Se com o mesmo ROSTO (mais luminoso), a mesma PRESENÇA, a mesma PALAVRA redentora. Somos testemunhas destas coisas, então demos testemunho do que experimentamos, a ALEGRIA de sermos filhos bem-amados de Deus, a paz de sabermos que Deus nos habita. Jesus vive e está no meio de nós.
       O autor do Apocalipse e do Evangelho, São João, percebe a tarefa de colocar por escrito o que viu, ouviu, o que viveu junto de Jesus, o que lhe foi revelado e, por conseguinte, coloca por escrito para que outros tenham acesso a Jesus e à Sua Mensagem. As palavras são instrumento da REVELAÇÃO. São palavras humanas a servirem a COMUNICAÇÃO de Deus, e por isso são também Palavra de Deus, palavra de salvação. Não podemos calar o que vimos e ouvimos. Não posso deixar de evangelizar, de levar o mais longe possível a BOA NOTÍCIA. Deus veio até nós, para nos reunir, para nos remir, para construir connosco novos céus e nova terra, para que todas as coisas sejam novas, sob a luz da ressurreição.
       Escrevamos também nós. Façamos com que as nossas palavras e a nossa vida sejam um livro aberto, pintado com a postura de Jesus, escrito com o SONHO de cavar em todos os corações AMOR e PERDÃO.
 
       2 – Os primeiros discípulos (que presenciam a peregrinação terrena de Jesus e a sua visitação gloriosa) e nós, os últimos discípulos de Cristo, os discípulos deste tempo e para este mundo, somos RESPONSÁVEIS por tornar habitável esta terra. Teremos que contagiar. Mostrar que JESUS ressuscitou há dois mil anos mas que também ressuscitou na minha, na tua, na nossa vida, nos dias que passam. Ele continua a encontrar-Se no nosso caminho, por vezes silenciosamente, escondido nas lágrimas e nos sorrisos das pessoas que estão ao nosso lado, nas crianças ou nos idosos, nos jovens sonhadores ou nos adultos desencantados, como naquela manhã de Páscoa e naquela tarde, o primeiro dia da NOVA CRIAÇÃO.
“Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
       Com a Ressurreição chega Jesus e com Ele a Paz e o Envio. Os discípulos não vão sozinhos. Nós não vamos isoladamente. Vamos como irmãos. Levamos as MARCAS de Jesus. Guia-nos o Seu Espírito de Amor. Ele vive. Não temamos. Ressuscitou e com Ele vêm as marcas da crucifixão, melhor, os sinais do Seu amor por nós. São as mesmas mãos que se abriram para abraçar, para perdoar, para acolher, para apoiar, para levantar. É o mesmo lado que nos anima, o lado do CORAÇÃO. O amor que o levou à Cruz é o mesmo que no-lo devolve VIVO.
        3 – Dizia o então Cardeal Ratzinger, papa emérito Bento XVI, respondendo a uma questão, que a Igreja tem tantos caminhos quantas as pessoas, pois cada pessoa faz o seu caminho, ainda que na aproximação ao CAMINHO que é Cristo Jesus. Ao olharmos para o colorido dos apóstolos que compõem o grupo de seguidores vemos como todos eles acolhem Jesus de maneira diferente, mas todos experimentam a dúvida sinalizada hoje em Tomé:
“Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão na seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome”.
       Tomé, chamado Gémeo (veja-se texto de D. António: AQUI), precisa de provas. Ele não está no primeiro dia da semana. Mais um que se deixou prender pelo medo. Ele não estava com a comunidade e por conseguinte precisa de se incluir DENTRO, para que Jesus possa apresentar-Se no MEIO deles. Só estando com eles O podemos ver. Fora, à margem, contra os outros, não podemos ver Jesus. Tomé é irmão gémeo. Somos como ele. Nos silêncios de Deus aguardamos por clarividências, por provas. Quantas vezes Deus está sorrateiramente no MEIO de nós e nem nos apercebemos, tão grandes sãos as nossas feridas, tão amargas são as nossas lágrimas. O medo deu lugar à alegria, as portas fechadas são escancaradas pela PRESENÇA do Senhor. Mas é preciso deixar que Ele esteja no MEIO de nós. Só assim nos reconhecemos como seus discípulos, como irmãos. A dúvida de Tomé é igual à minha e à tua dúvida. Quando estamos mais sós assola-nos o medo e a treva e a noite.
       Mas duvidar não é pecar. O ser humano é um ser que se inquieta e se questiona. A dúvida abre o nosso coração e a nossa mente às SURPRESAS que vêm dos outros, que vêm de Deus. Quando deixarmos de perguntar ou nos tornamos deuses ou demónios, ou temo-nos como auto suficientes, ou como incapazes de Deus. Sem dúvida, sem perguntas, caímos no cinismo que nos pesa e aniquila. Que o nosso irmão Gémeo nos leve à contemplação de Jesus e à sábia profissão de fé: “Meu Senhor e Meu Deus”.
 
       4 – O medo paralisante junto à Cruz dá lugar à alegria contagiante junto do Ressuscitado. Porém, não é um comprazimento pessoal, egoísta. A alegria, a festa, só têm sentido se vividas com os outros, partilhadas. Quando a vida nos sorri saímos fora de nós, por vezes aluamos, saltamos, cantamos, tornámos audível a nossa alegria.
       O encontro com Jesus Ressuscitado compromete-nos com o anúncio do Evangelho, visualizando em nossas palavras e nos nossos gestos que Jesus vive em nós. A Igreja dos primeiros dias dá lugar à Igreja contemporânea de cada pessoa, atraindo todos para os últimos tempos, para a plenitude.
“Pelas mãos dos Apóstolos realizavam-se muitos milagres e prodígios entre o povo. Unidos pelos mesmos sentimentos, reuniam-se todos no Pórtico de Salomão; nenhum dos outros se atrevia a juntar-se a eles, mas o povo enaltecia-os. Cada vez mais gente aderia ao Senhor pela fé, uma multidão de homens e mulheres, de tal maneira que traziam os doentes para as ruas e colocavam-nos em enxergas e em catres, para que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. Das cidades vizinhas de Jerusalém, a multidão também acorria, trazendo enfermos e atormentados por espíritos impuros e todos eram curados”.
       A alegria da nossa fé há de transformar-nos e transbordar para os outros, para que outros se sintam desafiados a viver a fé, a viver ao jeito de Jesus.

Textos para a Eucaristia (ano C): Atos 5,12-16; Ap 1,9-11a.12-13.17-19; Jo 20,19-31

sábado, 14 de abril de 2012

Domingo da Divina Misericórdia (2.º de Páscoa)

       1 – "Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa, e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto»".


       Ficará para sempre a confissão de fé de Tomé: "Meu Senhor e Meu Deus". Diante de Jesus ressuscitado não são necessárias muitas palavras. A experiência de encontro é tão forte e sublime que leva à contemplação, ao êxtase. Com Tomé, também nós rezamos, repetimos (em silêncio), professamos a nossa fé, num dos momentos mais extraordinários, o mistério da fé por excelência, o da CONSAGRAÇÃO, quando o Pão e o Vinho dão lugar à pessoa de Jesus Cristo, PÃO divino, o lugar à adoração. Somos privilegiados, não O vimos fisicamente, mas participámos deste milagre maior: "felizes os que acreditam sem terem visto".
       A cada passo evocamos a memória do apóstolo: crer como Tomé, ver para crer. A dúvida do Apóstolo é compreensível, uma vez que a RESSURREIÇÃO é um acontecimento inaudito, novo, extraordinário, que sai fora do humanamente expectável. Veja-se o caso dos discípulos de Emaús (evangelho de são Lucas), que tendo ouvido dizer que Ele ressuscitara, pois as mulheres encontraram o túmulo vazio (como podem constatar também alguns discípulos) e apareceram-lhes uns anjos, estão tristes, ainda não acreditam, até Jesus Se manifestar na fração do pão. Do mesmo jeito, o demais apóstolos, acreditam porque veem, e não porque outros o testemunharam.
       "Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos»".
       Também a eles Jesus mostra o lado e as mãos, repetindo a saudação, para que não restem dúvidas que estão perante o Mestre dos Mestres.

       2 – A ressurreição de Jesus Cristo revoluciona a história da humanidade. E, nesta perspetiva, é um acontecimento histórico. Nada será como dantes. Não só divide a história ao meio, o antes e o depois de Cristo (a era cristã inicia-se na referência ao nascimento de Jesus, mas este só é reconhecido a partir da Páscoa, e dos encontros com o Ressuscitado, de contrário Jesus seria mais um profeta caído em desgraça e esquecido), como influencia (continua a influenciar) a cultura, a sociedade, a política, a economia, a religião. É uma revolução a partir do interior do homem, mas efetiva, que se espalha de Jerusalém para o mundo inteiro, ou pelo menos para meio mundo, e cuja perseguição não só não desmobiliza mas apressa a evangelização. Expulsos de casa, expulsos da cidade, levam Cristo para outras casas e cidades.
       A casa do medo há de incendiar-se com a alegria do Ressuscitado. A vida nova invade toda a casa, como quando os raios de sol, num alegre dia de primavera, inundam todos os compartimentos com uma claridade tal que o olhar tem de se apurar (para resistir!).
       É em casa que a vida acontece. E é à volta de uma mesa que se solidificam e estreitam os laços que unem e caraterizam a família. Na última das Ceias encontram-se lá todos. O ambiente é de festa, mas cedo fica carregado com o anúncio de Jesus. É um testamento. Vai partir. Não mais se sentará à mesa com os seus, a não ser noutra Páscoa. A família aprende a superar as dificuldades. A casa começa a desmoronar-se quando alguém se levanta da mesa e abandona a casa. É o que acontece com Judas. Não voltará a entrar em casa, a sentar-se à mesa com os companheiros e com o Mestre, não voltará à convivência com os amigos. Nem tudo estava perdido. Pedro volta. Os outros discípulos hão de voltar também.
       c É em casa que os discípulos se fecham e se apoiam uns aos outros, lamentando o sucedido, as portas e as janelas estão fechadas. A luz espreita pelas frinchas. Reina o medo e a tristeza. Jesus vem e coloca-se no meio deles. A casa ganha nova vida. Jesus ilumina toda a casa. Melhor, inunda de alegria os seus discípulos. Passa a ser casa de esperança, de festa, arejada com a presença do Ressuscitado, o cheiro a mofo desaparece rapidamente. Abrem-se as portas. Começa a revolução. A partir de dentro. A partir de casa.
       A casa não é apenas o espaço físico, a habitação, é o outro, a casa são as pessoas que a constituem. Quando alguém regressa a casa, um filho desavindo, um pai ou uma mãe fora em trabalho, uma filha que estivera longo tempo hospitalizada, surge vida nova. O regresso de Jesus a casa, à convivência dos seus, provoca nova vida. "Família e nova evangelização", é a temática proposta para o ano pastoral a decorrer na Diocese de Lamego. Nada mais incisivo: é a partir de casa, da família, que a evangelização há efetivar a adesão firme a Jesus Cristo, mudança no coração, para mudar o mundo.

       3 – A comunidade inicia em casa a verdadeira ressurreição, vida nova. Abrem-se as portas para o mundo. Os discípulos fizeram um longo caminho. Deus caminhou com eles. Jesus fez-Se casa para eles. É a LUZ da ressurreição que finalmente lhes abre o entendimento.
       Há vida nova. Jesus está de volta. Os discípulos saem da letargia em que tinham caído com a Sua morte. E com eles se faz a primeira comunidade cristã, que vai aumentando de dia para dia.
       O acontecimento – Ressurreição de Jesus – dá origem a uma postura nova, que assume e espelha a postura de Jesus Cristo e responde ao Seu mandato de amor e de comunhão.
       "A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de grande simpatia. Não havia entre eles qualquer necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o produto das vendas, que depunham aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade".
       Eis o modo como as primeiras comunidades assumem viver e anunciar a Ressurreição em Cristo Jesus. Continuam a ser modelo para as comunidades do nosso tempo.

       4 – Hoje como ontem, não estamos sós. E não devemos estar sós, se Deus nos criou para vivermos uns com os outros e uns para os outros, em comunidade, ajudando-nos como irmãos, vivendo com os outros como em família, como em casa, protegendo, dialogando, partilhando, comendo do mesmo pão, alimentando-nos da mesma vida, da mesma vontade de viver, acolhendo e acolchoando as dores uns dos outros, solidificando a confiança e a segurança.
       Deus amou-nos primeiro. Enviou-nos o Seu Filho. Ama-nos, em todos os momentos da nossa vida. A referência para nos amarmos como irmãos é o amor de Deus. E amamos a Deus sempre que seguimos o Seu projeto de amor, de vida nova, de reconciliação e de paz.
       "Nós sabemos que amamos os filhos de Deus quando amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos, porque o amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados, porque todo o que nasceu de Deus vence o mundo. Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o vencedor do mundo senão aquele que acredita que Jesus é o Filho de Deus? Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo; não só com a água, mas com a água e o sangue. É o Espírito que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade".

Textos para a Eucaristia (ano B): Act 4,32-35; 1 Jo 5,1-6; Jo 20,19-31.