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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

AUGUSTO CURY - FELICIDADE ROUBADA

AUGUSTO CURY (2015). Felicidade Roubada. Lisboa: Editora Pergaminho. 208 páginas. 
       Há autores que não precisam de apresentações. Augusto Cury é sobejamente conhecido em todo o mundo, sobretudo no âmbito da psiquiatria, psicologia, é, parafraseando-o, um poeta da mente humana e da saúde emocional.
       Criou uma nova teoria sobre a mente humana, a Inteligência Multifocal. A inteligência é complexa, tudo tem a ver com tudo, uma palavra, um gesto, pode armadilhar a mente e, com o tempo, ou quando menos se espera, resultar numa depressão, numa reação violenta ou extemporânea, sem se saber porquê, nem o próprio nem os outros. Quatro mil páginas, depois sintetizadas em pouco mais de 400, para se tornar acessível a todos. Janelas Killer (assassinas) e janelas light, síndrome do pensamento acelerado, reescrever memórias (já que as memórias não se podem apagar), memória RAM (registo automático da memória), são alguns dos termos “criados” pelo autor. Desafios sobre a importância de falar dos próprios sentimentos, também sobre as dificuldades e fracassos, higienizar mente, ter uma atitude positiva da vida, duvidar das ditaduras do insucesso, ser ator e não espectador da vida. DCD - duvidar, criticar, determinar.
       Hoje recomendamos este livro, mas recomendamos vivamente outros títulos, como os cinco que escreveu sobre a inteligência de Jesus Cristo - O Mestre dos Mestres, o Mestre da Sensibilidade, o Mestre da Vida, o Mestre do Amor, o Mestre Inesquecível, Maria, a maior educadora da história, mas também os romances, O Vendedor de Sonhos, O Semeador de Ideias, A Saga de um Pensador. Em cada um dos livros vêm ao de cima aspetos da teorização sobre a Inteligência Multifocal. Através dos livros, das palestras e intervenções, o autor tem como fito resgatar a mente humana, a saúde mental, que se repercute na saúde do corpo. Ler a teoria, com as teses, premissas, conclusões, pode ser interessante para se ficar por dentro desta original perspetiva sobre a memória e a inteligência, com a evocação de muitas situações, a ligação a muitos estudos, porém, ao escrever romances ou estudos (sobre Jesus, sobre a ditadura da beleza, sobre Maria, sobre educação, com muitas histórias reais à mistura), simplifica e torna mais contagiante os princípios que defende com o propósito de ajudar as pessoas, e a relação entre elas, os pais e os filhos, os professores e os alunos, os patrões e os empregados, e até mesmo profissionais que trabalham na área da saúde, para que não desistam de ninguém, mas que sejam humanos, que não temam falar abertamente dos medos, da ansiedade, dos fracassos, das perdas.
       Neste romance, o epicentro é um famoso neurocirurgião, cuja inteligência e rapidez de pensamento e sucesso com o bisturi, o levam a ser reconhecido e a ser convidado para conferências, a preparar outros médicos, como professor e a trazer fama ao hospital do qual também é um dos principais sócios. Até que tem um ataque de pânico, durante uma operação, com todos os sinais que pode ser um enfarte do miocárdio (ataque do coração), o fazem ter a sensação que a morte se aproxima. Os exames mostram que está bem de saúde, ao nível físico, mas o corpo sofre com um surto de ansiedade, medo de falhar, de deixar morrer quem tem na mesa de operações. Segundo o protagonista, mais perigoso do que os cirurgiões, só os psiquiatras – “Só há um médico que pode destruir mais do que um cirurgião: um psiquiatra. Quando é um mau profissional, o primeiro destrói o corpo, o segundo destrói a mente” –, mas descobrirá quanto é essencial reconhecer que precisa de ajuda para enfrentar os medos e, nessa missão, a criticar os anseios, a valorizar o que é, a olhar para quem lhe quer bem, a arranjar tempo de qualidade para a família e para os amigos, a dar descanso à mente.
       Logo no prefácio, Augusto Cury situa-nos na trama e na finalidade deste romance: "Quando abraçamos mais e julgamos menos, elogiamos mais e criticamos menos, apostamos mais cobramos menos (inclusive a nós próprios), dialogamos sobre quem somos e menos sobre onde estamos, aceitamos mais os limites dos outros e temos menos a necessidade neurótica de mudá-los, vivemos mais o presente e sofremos menos pelo futuro, protegemos a nossa emoção e traímos menos a nossa cama, o nosso sono, os nossos sonhos".
Mas vejamos algumas expressões significativas que o autor, também através das personagens do romance, explana e aprofunda algumas das ideias que estão na base da inteligência multifocal, na procura de criar seres humanos mais assertivos e saudáveis: 
"A necessidade de evidência social é um dos sintomas da infelicidade".
“Mais de 3 mil milhões de pessoas, mais cedo ou mais tarde, desenvolverão um transtorno psiquiátrico... as sociedades modernas tornaram-se uma fábrica de pessoas stressadas". 
"Antes escraviza-se o corpo, hoje escraviza-se a mente".
"Azedas a alma com as tuas reclamações". 
“Quando se ama não há sacrifícios, apenas há prazer em dar". \
"É melhor compreender do que julgar". 
  • Tratei e operei milhares de pacientes como um vendedor de tempo e de qualidade de vida. fazia quase o impossível para prolongar meses, ou mesmo alguns dias, a vida de cada paciente que estava no último estágio da vida... 
  • Todos os cérebros estão tranquilos quando se está distante da morte. Contudo, quando se aproximam dela, milhares de milhões de neurónios entram em estado de choque, clamam pela continuidade da existência através do aumento da frequência cardíaca... Se todos os seres humanos estivessem às portas da morte, ainda que virtualmente, através de um ataque de pânico, não haveria guerras, corrupção, disputas irracionais. Erradicaríamos as nossas loucuras. Nós seres humanos, vivemos como deuses, embora saibamos que somos mortais. 
  • A questão toda não é se Deus existe ou não, se se é materialista ou espiritual, se se é neurocientista, como eu fui, ou um leigo. A questão é que Deus tem de existir, senão a vida humana tornar-se-ia uma ilusão. Você ama, mas nunca mais poderá tocar quem ama e conviver com eles. É possível aceitar este fatalismo? Só se não se ama ou se não se tem consciência das sequelas irreparáveis do fim da existência. Já parou para pensar sobre o que acontece na solidão de um túmulo? 
  • Esfacela-se a memória, silencia-se a consciência, destrói-se a autonomia... tenho necessidade de crer em Deus. 
  • O edifício do presente apoia-se nos alicerces do passado, seja ele glorioso ou desastroso... 
  • Quem cobra demasiado de si próprio, sabota a sua saúde emocional, aumenta os níveis de exigência para ser feliz... 
  • Amar é necessitar, trocar, entregar-se, procurar, esperar... 
  • Uma dívida de amor não é uma dívida numérica... 
  • Se as palavras fossem balas, todos seríamos assassinos 
  • Quem só vê à sua frente a sua profissão ou o seu partido político tem um desequilíbrio intelectual doentio 
  • Todos vamos morrer. Quando? Não sabemos. O importante é fazer de cada dia um momento eterno 
  • Quem tem ciúmes diminui-se e sobredimensiona o outro... vive em função da perda... quem tem medo da perda, já perdeu. 
  • Ter uma cama confortável não quer dizer dormir bem 
  • Ter comida farta à mesa não quer dizer ter prazer em comer 
  • Conheço muitos milionários que mendigam o pão da alegria 
  • Saber corretamente uma língua não quer dizer ter maturidade para falar de si próprio e educar 
  • Ter bajuladores não quer dizer ter um ombro em que se apoiar quando o mundo desaba 
  • Ter um seguro de automóvel, de habitação, de vida, não significa, em hipótese alguma, ter proteção psíquica 
  • Ter tido uma vida mutilada, privada, ferida, abandonada não quer dizer ser programado para ser infeliz, doente, emocionalmente miserável 
  • Sem esperança, a emoção não tem oxigénio.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Augusto Cury - Tu és insubstituível

Algumas expressões do livro de AUGUSTO CURY (2018). Você é insubstituível. Lisboa: Editora Pergaminho:
"Sem sonhos, a vida não tem brilho. Sem metas, os sonhos não têm alicerces. Sem prioridades, os sonhos não se tornam reais. Sonhe, trace metas, estabeleça prioridades e corras riscos para realizar os seus sonhos. É melhor errar por tentar do que errar por se omitir. Não se esqueça de que tu, ainda que incompleto, foste o maior aventureiro da História" (espermatozóide entre 40 milhões na luta pela vida).

"Sem o perdão, o monstro do passado eclodirá no seu presente e controlará o seu futuro. Qual é a maior vingança contra um inimigo? É perdoá-lo. A palavra-chave para o perdoar não é tentar perdoá-lo, mas compreendê-lo. Se o compreender, perdoa-lo. Se o perdoas, ele morre dentro de ti e renasce de outra forma. Caso contrário, o seu inimigo dormirá contigo".

"Quando empreenderes, não tenhas medo de cometer erros. E quando os cometeres, não tenhas medo de os reconhecer. E quando os reconheceres, não tenhas medo de chorar. E quando chorares, não tenhas medo de reavaliar a tua vida. E quando reavaliares, não te esqueças de dares sempre uma nova oportunidade a ti próprio". 

terça-feira, 20 de março de 2018

VL - O coração não se pode ‘photoshopear’

O Papa Francisco esteve em trânsito pela “sua” América Latina, entre 15 e 22 de janeiro, Chile e Perú. Mantendo a tradição, no último domingo, rezou o Angelus, deixando uma mensagem para todos, mas especialmente aos jovens: o nosso coração não se pode photoshopear. O Papa recomenda que as homilias tenham uma ideia clara, uma mensagem, uma imagem. Lá diz o ditado que uma imagem vale por mil palavras. Imagens e gestos. É o jeito de Jesus que nos interpela com parábolas, comparações, analogias, pequenas estórias, imagens do quotidiano!

O mundo da moda, da música, do espetáculo, da televisão, das revistas conhecem bem o Photoshop, um programa de tratamento de fotografia. Dá para cortar “gorduras”, mazelas no corpo, no rosto, colocando as fotos ao gosto do freguês, de quem é retratado ou para quem vê. A propósito há um pequeno livro de Augusto Cury – A ditadura da beleza – acerca da beleza (sobretudo feminina) publicitada nos meios de comunicação social. Segundo o Psiquiatra brasileiro os “modelos” formatados são uma diminuta percentagem, pois as mulheres concretas não correspondem a medidas decididas por catálogo. É uma ditadura que se impõe pelo marketing, como se as pessoas pudessem se enfaixadas num modelo único!

De forma muito assertiva, como já nos habituou, o Papa Francisco diz como é agradável ver bonitas fotografias, cuidadas digitalmente, mas logo lembrando que o coração, fonte de onde brota o amor, onde se joga a felicidade verdadeira, não pode ser photoshopeado. Nem os outros, nem a realidade. Os filtros coloridos utilizados nas fotos ou nos vídeos não funcionam com os amigos.

Jesus não nos quer maquilhados, quere-nos como somos. Quando Jesus olha para nós não nos vê como seres perfeitos, mas repara no amor que temos no coração para dar aos outros, servindo-os. Na verdade, diz o Papa, Jesus “não Se fixa na tua altura, se tens dificuldade em falar ou não, se adormeces ao rezar, se és muito jovem ou uma pessoa idosa. A única pergunta é: queres seguir-Me e ser Meu discípulo? Não percas tempo em mascarar o teu coração; enche a tua vida do Espírito!”

O Papa dá como exemplo a aposta de Deus em Moisés, tartamudo; em Abraão, um idoso; em Jeremias, muito jovem; em Zaqueu, de baixa estatura; em Pedro, titubeante, e muitos outros.

Há momentos que apetece desistir. Nesses momentos, “não vos deis por vencidos, não percais a esperança! Não vos esqueçais dos Santos, que nos acompanham do céu; recorrei a eles, rezai e não vos canseis de pedir a sua intercessão”.

sábado, 5 de novembro de 2016

XXXII Domingo do Tempo Comum - ano C - 6/11/2016

       1 – Os dias 1 e 2 de novembro, com a solenidade de Todos os Santos e a comemoração dos Fiéis Defuntos, e todo o mês vivido como o mês das almas, evoca a fé católica na ressurreição da carne (pessoa) e a comunhão dos santos. Todos nos encaminhamos para a morte. Todos nos encaminhamos para a vida eterna. A morte não tem a última palavra. A última palavra é da vida. É de Deus. É do Amor que nos faz transcender já na vida histórica, transcendendo-nos para a eternidade de Deus.
       A oração, os gestos de carinho e cuidado pelos mortos, o arranjo das campas e do cemitério, nestes dias, pelo menos, mostra a gratidão para com familiares, amigos e vizinhos, sublinha a saudade da sua partida, evoca a esperança de um encontro futuro na ressurreição. Eles morreram. Partiram antes de nós. Levaram um pouco de nós, deixaram um pouco deles. Confiamos em Deus e esperamos reencontrar-nos na eternidade. No decorrer da Última Ceia, Jesus diz aos Seus discípulos que vai partir para o Pai, vai preparar-lhes um lugar. A tristeza do momento presente, pela separação, dará lugar à alegria do (re)encontro na Casa do Pai.
       É mais fácil acreditar em Deus que na vida eterna. A sensibilidade popular, tanto as pessoas mais piedosas como as mais instruídas acreditam facilmente num Deus bom, generoso, benevolente, que protege e abençoa. Quando se fala na vida além da morte (biológica), na ressurreição ou na eternidade já colocam mais interrogações. Ninguém veio do outro lado dizer-nos como é, só sabemos até ao momento da morte! Cá se fazem, cá se pagam! O bem e o mal serão retribuíveis durante a existência terrena... mesmo que saibamos de tantas injustiças das quais os prejudicados nunca foram ressarcidos nem os fautores foram penalizados! O cemitério como última morada! Todos temos um destino comum: a terra…
       Augusto Cury, célebre psiquiatra brasileiro, ao investigar a inteligência humana, chega à conclusão que seria um absurdo que tudo acabasse com a morte física, seria em vão todo o esforço feito por melhorar a vida das pessoas, a sabedoria acumulada, as descobertas, a própria inteligência que exige e luta pela eternidade. Ateu, através das suas investigações, chega à conclusão que a identidade da pessoa há de sobreviver à morte biológica, garantindo que a identidade de cada um não se perde para sempre. Assim se torna crente. A fé em Deus é decorrente da exigência da identidade sobreviver ao tempo e à história.
       2 – Escutemos o Evangelho. Logo de entrada o evangelista fala nos saduceus que se aproximam de Jesus, dizendo que eles não acreditam na ressurreição. São religiosos, frequentam o Templo, vivem as exigências da Lei judaica, mas não acreditam que haja vida além da vida temporal.
       Provocam Jesus com uma questão, no mínimo, curiosa: «Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?».
       Recorrendo aos ensinamentos de Moisés, que têm o peso e a sabedoria da Lei, os saduceus transportam para a eternidade as mesmas vivências e tradições. E no caso concreto até tem a sua lógica, pois também nós defendemos as repercussões da vida atual na eternidade, ainda que não desta forma tão material. Segundo a Lei, um casamento teria que dar fruto, pela parte masculina, assegurando a linhagem familiar. Se o homem morresse sem descendência, os irmãos assumiam o encargo de lhe dar descendência desposando a mulher (ou seja, a cunhada) até que gerasse um filho. Neste exemplo, todos os irmãos a desposaram, mas nenhum lhe deu descendência. Havendo continuidade material-histórica na eternidade, com quem ficava a mulher? Houve um tempo em que as pessoas julgavam que ressuscitavam como tinham morrido, por exemplo, sem um olho, ou com o rosto já encovado! Ou seja, a eternidade seria, destarte, a continuação natural do tempo e da história. Morre novo, ressuscita novo. Morre idoso, ressuscita idoso!
       A resposta de Jesus é clarificadora: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».
       A ressurreição dos mortos é agrafada à fé em Deus, pois para Ele todos estão vivos.
       3 – Jesus recorre ao Antigo Testamento para elucidar a fé em Deus e na ressurreição. Utiliza a mesma fonte dos seus interlocutores. A primeira leitura, por sua vez, traz-nos uma das passagens veterotestamentárias mais explícitas sobre a ressurreição.
       As invasões a que esteve sujeito o Reino de Israel, com a divisão, com a subjugação a povos estrangeiros, com o exílio de muitas famílias, levou à necessidade de preservar a fé, as tradições, os usos e costumes, para que não se perdesse o património cultural e religioso, a identidade do Povo de Deus. O segundo Livro de Macabeus terá sido escrito no Egipto, para os judeus aí residentes, retratando personagens heroicas, convidando à conversão e fidelidade à Aliança.
       O autor sagrado parte do pressuposto que o exílio é consequência natural e merecida dos pecados do povo, dos transvios à Lei de Moisés, das infidelidades à Aliança. Agora há que manter acesa a chama da fé, não perdendo de vista a herança recebida, até ao dia do regresso à terra prometida.
       Sete irmãos e a sua mãe são presos. O rei da Síria quer obrigá-los a trair a sua Lei, comendo carne de porco. A resposta dos irmãos, apoiados pela firmeza maternal, é clarividente: «Estamos prontos para morrer, antes que violar a lei de nossos pais». Com a morte de um, os seguintes poderiam vacilar, por medo, pela violência infligida. Mas também o segundo se mantém decidido: «Tu, malvado, pretendes arrancar-nos a vida presente, mas o Rei do universo ressuscitar-nos-á para a vida eterna, se morrermos fiéis às suas leis». A tortura continua e a resposta do terceiro irmão é igualmente clarificadora: «Do Céu recebi estes membros e é por causa das suas leis que os desprezo, pois do Céu espero recebê-los de novo».
       A coragem dos jovens e as suas palavras fazem admirar o próprio rei e quantos o acompanham. Segue o quarto irmão e o mesmo destemor: «Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará; mas tu, ó rei, não ressuscitarás para a vida».
       Na continuação do texto, verifica-se que os sete se fortalecem mutuamente. E a Mãe, que chorava por dentro a morte dos filhos, exteriormente animava-os, pois entendia que era muito mais importante sobreviver para Deus.
       4 – A continuidade entre o tempo e a eternidade, entre a história e a vida gloriosa, propalada pelos saduceus, não é de todo descabida, ainda que não da forma material-biológica com que questionaram Jesus. Com efeito, a vida eterna inicia-se aqui e agora (hic et nunc) na situação concreta, real, histórica. A salvação é dom gratuito de Deus. Cabe-nos acolhê-la e transparecê-la. O tempo que nos é dado é de graça, mas graça que nos irmana, nos compromete e nos envolve na transformação do mundo. Ressuscitados, pela água e pelo Espírito no Batismo, há que viver como ressuscitados, apostados na cultura da vida, da fraternidade, da compaixão. Seria uma contradição "viver" como mortos, deixando correr, afastando-se das dificuldades, mantendo-se indiferente ao sofrimento dos outros.
       O Apóstolo Paulo, na segunda missiva à Igreja de Tessalónica, convoca à fé comprometida com a vida: "Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu, pela sua graça, eterna consolação e feliz esperança, confortem os vossos corações e os tornem firmes em toda a espécie de boas obras e palavras".
       À saudação segue-se o pedido de oração: "orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague rapidamente e seja glorificada, como acontece no meio de vós. Orai também, para que sejamos livres dos homens perversos e maus, pois nem todos têm fé. Mas o Senhor é fiel: Ele vos dará firmeza e vos guardará do Maligno". E acrescenta a confiança que deposita nos membros na comunidade: "Quanto a vós, confiamos inteiramente no Senhor que cumpris e cumprireis o que vos mandamos. O Senhor dirija os vossos corações, para que amem a Deus e aguardem a Cristo com perseverança".

       5 – A oração conduz-nos à vontade de Deus. Colocamo-nos em atitude de escuta, para que Ele fale em nós. "Deus eterno e misericordioso, afastai de nós toda a adversidade, para que, sem obstáculos do corpo ou do espírito, possamos livremente cumprir a vossa vontade".
       Quem ora a Deus com sinceridade está a comprometer-se com a Sua vontade. É como pedirmos a opinião a alguém. Se somos sinceros, só perguntaremos para ultrapassar uma dúvida ou indecisão, e se levamos a sério a pergunta e a resposta, sujeitamo-nos a alterar a trajetória. A oração predispõe-nos, na escuta, à obediência.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): 2 Mac 7, 1-2. 9-14; Sal 16 (17); 2 Tes 2, 16 – 3, 5; Lc 20, 27-38.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

AUGUSTO CURY: TREINAR AS EMOÇÕES PARA SER FELIZ

AUGUSTO CURY (2014). Treinar as emoções para ser feliz. Alfragide: Lua de Papel. 168 páginas.
       A TIM - Teoria da Inteligência Multifocal é uma das teses estudadas ao longo de anos e de milhares de páginas por Augusto Cury. Não se trata apenas de uma teoria ao lado de outras para estudiosos testarem, refutarem, compararem. Trata-se de uma opção psicoterapéutica para ajudar pessoas, famílias, escolas, projetos educativos, líderes...
       Para qualquer um de nós seria muito difícil pegar num livro de 3 mil páginas e tentar acompanhar o texto, os passos, o conteúdo. Por certo, só o tamanho já seria suficiente para desmobilizar muitos de nós. O autor, através de diversos artigos, livros, tem procurado tornar mais acessível a teoria, com os diferentes enfoques, utilizando uma linguagem mais simples, com exemplos, muito exemplos, com os quais nos podemos identificar, ou pelo menos, dos quais poderemos tirar ilações para as nossas dificuldades.
       Neste livro, Augusto Cury desafia-nos a cuidar das nossas emoções, que são por demais importantes para a nossa vida, mas que devem ser doseadas com a nossa inteligência, com a nossa razão. Podemos e deveremos duvidar das impossibilidades da nossa vida, criticar os pensamentos e as emoções negativas, e escolhermos viver positivamente, determinando ser autores da nossa história e não meros observadores (DCD - duvidar, criticar, determinar).
       O ser humano é um mistério. Nem a nós nos conhecemos bem quanto mais àqueles que nos são mais próximos. A nossa mente regista todas as informações (RAM - Registo automático da memória), mas sobretudo os momentos mais tensos da nossa vida, os mais significativos. A memória não poderá ser apagada, como quando queremos apagar dados de um computador, mas podemos reeditar as memórias, optando pela vida, pela luta, deixando-nos ajudar pelos outros. O subtítulo ajuda-nos a perceber o conteúdo deste livro: "Não procure a felicidade no mundo lá fora. Ela está dentro de si".
       Cada um de nós é um vencedor. Vencedor na maior das batalhas, a batalha pela vida. Outrora, ainda não tínhamos consciência, nem pensávamos, e lutamos, contra milhões de outros idênticos a nós, prosseguimos a maior das viagens, sem muitos meios. Claro que houve um conjunto de fatores que concorreram para chegarmos ao destino. O espermatozóide que fomos prosseguiu corajosamente até perfurar o óvulo, a outra metade de nós e da qual dependemos para viver. Os fatores que concorreram, outros que foram forçando o óvulo, até que cedeu connosco.
       Vejam-se os oito capítulos em que se divide o livro e que fazem referência direta ao início da vida, à fecundação, mas também ao Mestre dos Mestres, Mestre da Vida, Mestre da Sensibilidade, Mestre do Amor, Mestre da Emoção, Jesus Cristo:

  1. Você venceu o maior concurso da história
  2. Você foi o maior nadador da história
  3. Você foi o maior alpinista da história
  4. Você viveu o maior romance da história
  5. O mais excelente mestre da emoção
  6. O treino da emoção do Mestre dos mestres
  7. A corrida pela vida o grande encontro
  8. Você é insubstituível: um ser único no universo
       Umas das obras de referência de Augusto Cury é sobre a inteligência de Jesus Cristo. A análise parte de uma perspetiva psicológica, pedagógica, e não do ponto de vista religioso e divide-se em 5 volumes: O Mestre dos Mestres, O Mestre da Sensibilidade, O Mestre do Amor, O Mestre Inesquecível, O Mestre da Vida. Jesus tinha tudo para ser uma pessoa ansiosa, stressada, derrotista. Desde as condições em que nasceu às dificuldades que teve que enfrentar ao longo da vida. Quando se aproxima a morte, no Horto das Oliveiras, a ansiedade é tão grande que se dá com ele uma fenómeno muito raro: suor com gotículas de sangue. Mas logo desperta os seus discípulos, fala-lhes do que está a sentir, sem medo, sem se esconder numa suposta supremacia.
       "O mestre da emoção andou com o seu traidor, Judas, por muito tempo e, embora tivesse consciência da sua traição, não o baniu do convívio do seus discípulos. Previu que Pedro iria negá-lo de maneira dramática e não fez nada para impedi-lo. Que homem é este que não desiste nem de um traidor e que suporta ser negado com paciência? ... Ele sabia navegar e ser livre nas águas da emoção!"
       Este é mais um contributo de Augusto Cury para que nunca desistamos da vida. Já fomos os melhores alpinistas, os maiores nadadores da história, já vivemos o maior romance da história, então não desistamos agora ou no momento em que a nossa vida pareça desfeita.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Augusto Cury - ANSIEDADE. Enfrentar o mal do século

AUGUSTO CURY (2015). Ansiedade. Como enfrentar o mal do século. Lisboa: Pergaminho. 160 páginas.
       Augusto Cury tornou-se um escritor de renome, que lhe vem da formulação de algumas teorias em psicologia e psiquiatria. Durante 17 anos estudou e produziu um nova teoria: Inteligência Multifocal (TIM), escrevendo milhares de páginas. A tese inicial tinha mais de 3 páginas. Para conseguir que publicassem o seu trabalho teve de batalhar muito. Ao longo do tempo têm vindo a público diversas publicações, que partem daquela teoria, exemplificam-na, tornam-na explícita e acessível a todos.
       Este livro coloca em evidência o SPA - Síndrome do Pensamento Acelerado. Pensar faz bem. Não temos forma de parar o pensamento. É o maior centro de lazer do ser humano. No entanto pensar demasiado é prejudicial à saúde mental e, consequentemente, à pessoa.
        Temos muita informação, mas não somos mais felizes. A ciência e a tecnologia permite-nos resolver muitos problemas mas não têm acrescentado muita qualidade à nossa vida emocional, afetiva. A esperança média de vida é muito mais elevada, mas começamos a morrer muito antes, a envelhecer, ficando pessimistas, agressivos, doentes. E com um forte poder da mente, o surgimento de doenças corporais. O corpo e a mente estão interligadas. Somos psicossomáticos.
       Um dos males maiores do nosso tempo, segundo Augusto Cury, é o SPA, a ansiedade. Não estamos satisfeitos com nada. Pensamos em demasia, fazemos luto antes do tempo, andamos demasiado ocupados e preocupados, não temos tempo para apreciar a vida, a beleza à nossa volta, trabalhamos muitas horas que nem temos tempo para as pessoas que nos são queridas.
       Lembra-nos o autor, que a nossa mente regista milhares de informações, num fenómeno que chama de RAM (Registo automático da memória). Num computador podemos apagar o que não nos interessa, na nossa mente não, não podemos apagar partes da memória, quando muito podemos reeditar as memórias. Com efeito, a memória regista privilegiadamente os acontecimentos, momentos, mais significativos, positivos ou negativos. Se não fizermos a crítica aos nossos pensamentos, se não duvidamos do nosso pessimismo, então poderemos viver num campo minado de emoções.
       Outro dos termos utilizados por Augusto Cury, as janelas killer, pensamentos assassinos. Um clique e disparamos, por vezes sem saber bem porquê. Vem uma lembrança e caímos derrotados, antecipando problemas ou criando-os, deixando-nos abater por uma crítica ou uma derrota. O desafio do autor é a que façamos higiene mental através da técnica de DCD - duvide, critique, determine... Duvide da sua incapacidade, critique os seus pensamentos sobretudo os que são negativos. Seja determinado em promover pensamentos e decisões positivas.

Algumas expressões do autor neste livro:
"Quem não estiver preparado para perder o trivial não é digno de conquistar o essencial. E, se formos amigos da sabedoria, descobriremos que o essencial são as pessoas que amamos... " (p 7).
"O dinheiro compra bajuladores, mas não amigos; compra pacotes turísticos, mas não a alegria; compra todo e qualquer tipo de produto, mas não uma mente livre; compra seguros, mas não o seguro emocional" (pp 10-11).
"Tudo o que mais detestamos ou rejeitamos será registado com maior poder, formando janelas traumáticas, que denomino killer. Se o leitor detesta alguém, tenha a certeza de que essa pessoa dormirá consigo e estragará o seu sono" (p 27).
"A loucura e a racionalidade são mais próximas uma da outra do que imaginamos. Por isso, uma pessoa inteligente jamais discrimina ou diminui os outros" (p 30).
"Quem vence sem riscos triunfa sem dignidade" (p 33).
"Quem vence sem dificuldade triunfa sem grandeza" (p 86).
"Quem vence sem crises e acidentes vence sem glória" (p 144).
"Não há céu sem tempestade" (p 40).
"Ser sábio não significa ser perfeito, não falhar, não chorar e não ter momentos de fragilidade. Ser sábio é aprender a usar cada dor como uma oportunidade para aprender lições, cada erro como ocasião para corrigir caminhos, cada fracasso como hipótese de recomeçar" (p 45).
"A maturidade psíquica não exige que sejamos heróis, mas seres humanos com uma humildade inteligente, capazes de reconhecer a nossa pequenez e imaturidade e de construir uma nova estratégia, uma plataforma de janelas saudáveis, um novo «bairro» na nossa memória. O heroísmo deve ser enterrado" (p 61).
"Pais que querem ensinar os seus filhos a ser pacientes quando eles são impulsivos... o exemplo grita mais do que as palavras... quem trai as suas palavras com as suas ações precisa de aumentar o tom de voz e exercer pressão para ser ouvido. É, portanto, um péssimo líder. Devemos plantar janelas light para contribuir para a formação de mentes livres e de emoções saudáveis" (p 68-69).
"É fundamental que os pais não deem presentes e roupas em excesso aos filhos nem os coloquem em múltiplas atividades. É igualmente fundamental que conquistem o território da emoção deles e saibam transferir o capital das suas experiências, ou seja, que lhes deem o que o dinheiro não pode comprar. Não deixá-los o dia inteiro ligados às redes sociais e a usar smartphones. A utilização ansiosa destes aparelhos pode causar dependência psicológica como algumas drogas..." (p 110).
"Um Eu saudável e inteligente percebe que todos os seres humanos são igualmente complexos no processo de construção de pensamentos, embora essa construção implique diferentes manifestações culturais, velocidade de raciocínio, coerência e sensibilidade (p 84).
"O Eu gestor faz uma higiene mental diária: duvida dos pensamento perturbadores, critica as falsas crenças e determina ou decide estrategicamente aonde quer chegar; portanto, usa a técnica do duvidar, criticar e determinar (DCD)" (p 86).
"Duvidar de tudo o que nos aprisiona, criticar cada pensamento que nos fere e determinar estrategicamente aonde queremos chegar quanto à nossa qualidade de vida e relações sociais são tarefas fundamentais do Eu" (p 136).
"Quem exige demasiado de si retira o oxigénio da própria liberdade, asfixia a sua criatividade e, o que é pior, estimula o registo automático da memória produzir janelas killer sempre que falha, tropeça, claudica ou não corresponde às suas altíssimas expectativas" (p 92)
"Quem faz muito do pouco é muito mais estável e saudável do que quem precisa de muito para sentir migalhas de prazer" (p 92).
"A imaturidade emocional acompanha algumas necessidades neuróticas: de poder, de estar sempre certo, de não saber lidar com os limites, de controlar os outros, de querer tudo rapidamente e de ser o centro das atenções sociais" (p 122).
"Quem não luta pelos seus sonhos e quer tudo rapidamente será uma eterna criança" (p 123).
"Só os amigos nos traem; os inimigos dececionam-nos. Só as pessoas a quem nos damos nos podem ferir tanto" (p 145).
Outros livros que já sugerimos anteriormente (clique sobre o título):

sábado, 17 de outubro de 2015

XXIX Domingo do Tempo Comum - ano B - 18.10.2015

       1 – «O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».
       Os domingos transparecem o CAMINHO que Jesus percorre com os discípulos e com a multidão. À volta do Mestre da Vida, há muitas aproximações mas também muitos distanciamentos. Os discípulos vão testemunhando o DIZER e o AGIR de Jesus. Entranhando-nos na missão de Jesus, também nós ficamos ora admirados, ora com dúvidas, ora estranhando as Suas opções. Para Quem é todo-poderoso e vem com o poder de Deus como pode anunciar a fragilidade, a finitude e a morte?!
       Vê-se como os discípulos precisam de tempo, muito tempo, para assimilar a mensagem. Feitos da mesma massa que nós, caminham (como nós) entre avanços e recuos, entre entusiasmos e refreamentos. No aplauso da multidão deixam-se empolgar pelo sucesso que se avizinha. Com as chamadas de atenção de Jesus, que lhes anuncia tempos difíceis, de perseguição e morte, começam a pensar que lugares poderão ocupar na sucessão ao Mestre dos Mestres.
       Quem ocupará o primeiro lugar na "ausência" de Jesus? A resposta começa a ser uma provocação, um desafio e um compromisso para quem quiser seguir Jesus. Quem de entre vós quiser ser o primeiro seja o servo de todos. Os discípulos ouvem a mensagem de Jesus mas logo se esquecem e voltam à carga. E Jesus volta a insistir que o maior será aquele que mais serve!
       2 – O evangelho de hoje é um exercício significativo que interpreta a nossa vida com os seus sonhos e anseios. Numa ou noutra fase da vida podemos rever-nos no pedido de Tiago e de João: «Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir: concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda».
       A reação dos demais apóstolos não nos permite colocar-nos fora desta cena, pois todos padecemos do mesmo ou, pelo menos, corremos tal risco. Os outros dez indignam-se contra Tiago e João, não pelo que desejam e pedem a Jesus, mas por se terem antecipado. Sabendo que está próximo um desfecho na vida de Jesus, e que trará em definitivo o reino de Deus, todos se chegam à frente, procurando apresentar os respetivos trunfos. Tiago e João interpretam, antecipando-se, o desejo dos outros.
       O reino de Deus no meio de nós inicia-se com a Encarnação. Deus em Jesus faz-Se um de nós e um entre nós. Vem para viver, para amar servindo, para servir amando. Ele "que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz" (Filip 2, 6-11).
       Os discípulos estão expectantes! Para eles, o reino de Deus será um tempo novo, mas não totalmente um reino diferente. Mudarão os protagonistas. Será um reino alternativo, não nas políticas, mas nas caras. Qualquer semelhança com as democracias atuais não é mera coincidência.
       Curiosamente, Tiago e João estão dispostos a fazer sacrifícios se isso significar serem colocados no melhor lugar. «Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o batismo com que Eu vou ser batizado?». À pergunta de Jesus, a resposta pronta dos dois irmãos: «Podemos».
       Perentoriamente Jesus lhes assenta o estômago: «Bebereis o cálice que Eu vou beber e sereis batizados com o batismo com que Eu vou ser batizado. Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não Me pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem está reservado».
       3 – O anúncio da Paixão está permanentemente no agir de Jesus, consciente que a prossecução da Sua missão – na opção pelos mais frágeis, indo ao encontro de todos mas especialmente dos excluídos, dos pobres, dos doentes, dos pecadores públicos, dos publicanos, na abertura aos estrangeiros; na crítica declarada às injustiças sociais, à incoerência de vida, entre o que se exige aos outros e o que se pratica, à frieza do legalismo que coloca a lei antes e acima da pessoa – mais tarde ou mais cedo provocará o desenlace expectável: a prisão e a morte!
       Os apóstolos vão também tomando consciência dessa possibilidade. Quando Pedro repreende Jesus por Ele dizer que vai ser entregue às autoridades e depois ser morto, compreende já o receio dos discípulos, precavendo-O para que tome cuidado e eventualmente altere a trajetória.
       Jesus não fica admirado com o pedido dos seus discípulos, nem com a indignação dos outros em relação a Tiago e João. Sabe de que carne são feitos, sabe o que valemos. Jesus não chama os apóstolos por serem as pessoas mais perfeitas. Como sustenta Augusto Cury, o único que talvez fosse contratado pelo departamento de pessoal de qualquer empresa moderna seria Judas Iscariotes – pela cultura e pela formação académica e pela capacidade de gestão – e no entanto veio a traí-l'O, não acolhendo o perdão de Jesus, como os demais, que se arrependeram de terem voltado as costas a Jesus. Os discípulos são pessoas normalíssimas, com qualidades e defeitos, inconstantes, ingénuos, interesseiros, espontâneos, bondosos, simples, disponíveis, impulsivos ou gananciosos. Há para todos os gostos. E por isso tão parecidos connosco! Podemos rever-nos num ou noutro!
       Não importa (tanto) o ponto de partida, a situação em que nos encontramos, a condição que vivemos no momento atual, a distância da estrada... Importa (sobretudo e acima de tudo) a nossa predisposição para escutar a voz de Deus, o caminho que nos dispomos a percorrer, a disponibilidade para nos deixarmos converter pela graça de Deus e de caminharmos juntamente com o Mestre dos Mestres, Jesus Cristo. Podemos ser os maiores pecadores. Ainda assim, Deus chama-nos, espera por nós, quer a nossa conversão, a nossa felicidade, a nossa salvação.
       Aí está a voz sapiente de Jesus para eles e para nós, com insistência: «Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos». É o que Ele faz. Assim nós se quisermos ser Seus discípulos. Cabe-nos imitá-l'O.

       4 – Isaías, um dos profetas que mais claramente anuncia e visualiza a vinda do Messias, o Emanuel (cf. Is 7), o Deus connosco, também o caracteriza como o Servo Sofredor. Depois da morte e ressurreição de Jesus, os discípulos facilmente reveem Jesus nas palavras do (segundo) Isaías: «Aprouve ao Senhor esmagar o seu servo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como sacrifício de expiação, terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado na sua sabedoria. O justo, meu servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades».
       A intuição de Isaías transparece na vida, na missão e na entrega de Jesus, como o Eleito de Deus, o Messias que vem salvar-nos. Ele não Se revolta nem responde à violência com maior violência, mas oferece-Se por inteiro para inteiramente salvar o ser humano. Dá a Sua vida para que tenhamos vida em abundância (cf. Jo 10,10), como o Bom Pastor dá a vida pelas Suas ovelhas, qual Sumo-Sacerdote que nos oferece a Deus oferecendo-Se: «Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, exceto no pecado. Vamos, portanto, cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno».
       A Carta aos Hebreus, que escutamos como segunda leitura, convida-nos a permanecer firmes na fé, pois o Sumo-Sacerdote, Jesus Cristo, penetrou nos Céus e intercede continuamente por nós; d’Ele nos vem a graça e a salvação; é Ele que nos alcança de Deus a misericórdia.

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (B): Is 53, 10-11; Sl 32 (33); Hebr 4, 14-16; Mc 10, 35-45.

domingo, 9 de março de 2014

Dormir bem... em suave cama!

"Quem determina a suavidade da cama é o nível de ansiedade da nossa mente. Só dorme bem quem aprende primeiro a repousar dentro de si".

Augusto Cury, O Vendedor de Sonhos. O chamamento.

Servir a dois senhores...

"Não é possível servir a dois senhores: ou vendemos sonhos ou nos preocupamos com a nossa imagem social; ou somos fiéis à nossa consciência ou gravitamos na órbita do que os outros pensam e dizem de nós".

Augusto Cury, O Vendedor de Sonhos.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O nada é eternamente estéril

       "O nada é eternamente estéril. O nada nunca poderia ter despertado do pesadelo da inexistência para o sonho da existência. Nem a teoria do Big Bang, ou a do Universo Oscilante, ou a do universo Estático se desenvencilharam de uma causa fundamental. Tu tens de Ser a Causa das causas".

Augusto Cury, O Semeador de Ideias.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Sem Deus, ateus e religiosos seriam nada...

       "A grande questão era que Deus precisava de existir, caso contrário, ateus e religiosos seriam ambos destroçados pelo caos da inexistência, extinguir-se-se-ia a liberdade de ser e a de pensar. Teria de haver um Deus com uma capacidade muito maior do que qualquer imaginação religiosa para resgatar as informações do córtex cerebral que se perderam com a morte. Caso contrário, seríamos mera poeira cósmica. Alguns de nós estariam nas páginas da história para nos fazer pensar que fomos algo do passado e disfarçar o angustiante facto de que seremos nada, simplesmente nada, no futuro.

Augusto Cury, O Semeador de Ideias.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Cure-se a si mesmo...

       "Segundo a psicóloga americana Louise L. Hay, todas as doenças que temos são criadas por nós. Afirma ela, que somos 100% responsáveis por tudo de ruim que acontece no nosso organismo. Todas as doenças tem origem num estado de não-perdão, diz a psicóloga americana Louise L. Hay.
       Sempre que estamos doentes, necessitamos descobrir a quem precisamos perdoar. Quando estamos empacados num certo ponto, significa que precisamos perdoar mais. Pesar, tristeza, raiva e vingança são sentimentos que vieram de um espaço onde não houve perdão. Perdoar dissolve o ressentimento. A seguir, você vai conhecer uma relação de algumas doenças e suas prováveis causas, elaboradas pela psicóloga Louise.

Doenças / Causas:
Amidalite: Emoções reprimidas, criatividade sufocada.
Anorexia: Ódio ao externo de si mesmo.
Apendicite: Medo da vida. Bloqueio do fluxo do que é bom.
Arteriosclerose: Resistência. Recusa em ver o bem.
Artrite: Crítica conservada por longo tempo.
Asma: Sentimento contido, choro reprimido.
Bronquite: Ambiente familiar inflamado. Gritos, discussões.
Cancro: Mágoa profunda, tristezas mantidas por muito tempo.
Colesterol: Medo de aceitar a alegria.
Derrame: Resistência. Rejeição à vida.
Diabetes: Tristeza profunda.
Diarreia: Medo, rejeição, fuga.
Dor de cabeça: Autocrítica, falta de auto-valorização.
Dor nos joelhos: medo de recomeçar, medo de seguir em frente
Enxaqueca: Raiva reprimida. Pessoa perfeccionista.
Fibromas: Alimentar mágoas causadas pelo parceiro (a).
Frigidez: Medo. Negação do prazer.
Gastrite: Incerteza profunda. Sensação de condenação.
Hemorróidas: Medo de prazos determinados. Raiva do passado.
Hepatite: Raiva, ódio. Resistência a mudanças.
Insónia: Medo, culpa.
Labirintite: Medo de não estar no controle.
Meningite: Tumulto interior. Falta de apoio.
Nódulos: Ressentimento, frustração. Ego ferido.
Pele (acne): Individualidade ameaçada. Não aceitar a si mesmo.
Pneumonia: Desespero. Cansaço da vida.
Pressão alta: Problema emocional duradouro não resolvido.
Pressão baixa: Falta de amor quando criança. Derrotismo.
Prisão de ventre: Preso ao passado. Medo de não ter dinheiro suficiente..
Pulmões: Medo de absorver a vida.
Quistos: Alimentar mágoa. Falsa evolução.
Resfriados: Confusão mental, desordem, mágoas.
Reumatismo: Sentir-se vitima. Falta de amor. Amargura.
Rinite alérgica: Congestão emocional. Culpa, crença em perseguição.
Rins: medo da crítica, do fracasso, desapontamento.
Sinusite: Irritação com pessoa próxima.
Tiróide: Humilhação.
Tumores: Alimentar mágoas. Acumular remorsos.
Úlceras: Medo. Crença de não ser bom o bastante.
Varizes: Desencorajamento. Sentir-se sobrecarregado".

Postado a partir de Pedacinhos de Luz.
       Não iríamos tão longe. Sabendo que a pessoa se caracteriza como um todo, num fenómeno chamado pela psicologia de psicossomático, pelo que podemos constatar: o que nos afecta fisicamente influencia directamente a nossa dimensão interior, psicológica, espiritual, mas também uma disposição interior pode levar a reacções físicas e provocar uma e outra doença.
       Nesta perspectiva, a importância de tratar dos nossos afectos e sentimentos e da atitude face à vida e aos outros. Nesta reflexão, e uma vez mais, recomendaríamos os livros do célebre psiquiatra brasileiro, Augusto Cury, que nos mostra até que ponto a nossa "sensibilidade" nos pode tornar saudáveis ou doentes.
       Mas e antes disso, a recomendação de Jesus Cristo. Jesus aposta também na atitude positiva, no perdão, na caridade, na partilha solidária. Ele é o autêntico médico. Aliás, Augusto Cury, aponta-O como paradigma, como grande pedagogo, como curador de almas.
       Deixámos outra sugestão: Servan-Schreiber, Curar, o stress, a ansiedade e a depressão sem medicamentos nem psicanálise, Dom Quixote, Lisboa 2004. Mais um incentivo a usarmos o para-simpático para equilibramos o nosso organismo.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A vida dá-nos sempre outras oportunidades, a morte nunca

A morte é cruel. Degladia-se com intelectuais e torna-os meninos. Debate com ateus e transforma-os em tímidas crianças. Guerreia contra generais e torna-os frágeis combatentes. Batalha com milionários e sepulta-os na lama da miserabilidade. Peleja contra celebridades e fá-las beijar a lona da insignificância. A vida dá-nos sempre outras oportunidades, a morte nunca.

Augusto Cury, O Semeador de Ideias,

A humanidade não precisa de heróis nem de deuses

       - A humanidade não precisa de heróis nem de deuses, mas de seres humanos que reconheçam as suas tolices e assumam as suas limitações e imperfeições...
       - Todos os heróis veem a sua força esfacelar-se um dia, há sempre um momento em que ela diminui. Todos os pensadores se deparam, mais cedo ou mais tarde, com as suas loucuras. E todos os mestres, na sua caminhada, se tornam um menino diante do inexplorado.

       Augusto Cury, O Semeador de Ideias.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Não tropeçamos em grandes montanhas...

"Não tropeçamos em grandes montanhas, mas nas pequenas pedras. Os vírus matam-nos mais do que os grandes inimigos exteriores. Quais vírus? Os do humor depressivo, da autopunição, do medo, dos pensamentos perturbadores que se alojam em nós e ninguém vê"

Augusto Cury, O Semeador de Ideias.

A maior vingança contra um inimigo é perdoá-lo

"A maior vingança contra um inimigo é perdoá-lo. Perdoe-o, e ele morrerá dentro de si; odeie-o, e ele viverá no centro da sua história e aterrorizá-lo-á dia e noite...

Augusto Cury, O Semeador de Ideias

terça-feira, 2 de julho de 2013

Augusto Cury - O Semeador de Ideias

AUGUSTO CURY, O Semeador de Ideias. Planeta. Lisboa 2011.

       Mais um livro e mais uma sugestão de uma obra de Augusto Cury. Para quem conhece é fácil gostar das variadas propostas que o famoso psiquiatra brasileiro nos faz. Partindo dos princípios que originaram o seu esforço por cuidar da mente das pessoas, da sua saúde, da abertura ao transcendente, de diálogo entre pessoas, povos, culturas, raças, religiões, no respeito e integração das diferenças.
       Cada pessoa é um mundo, complexo, multicolor. Numa situação diferente pessoas diferentes reagem de maneira diferente. A mesma pessoa poderá reagir de formas variadas a situações semelhantes. A mente humana registas milhares de informações, palavras, imagens, de forma privilegiada situações muito positivas ou muito negativas. Não se apagam. Não somos computadores. A qualquer momento podemos explodir se a nossa mente estiver poluída com muitas situações dramáticas. Por vezes pensamos conhecer uma pessoa, e somos surpreendidos pela sua reação. Passa-nos ao lado.
       Usando como estilo o romance, torna-se mais vívido e de mais fácil compreensão os seus ensinamentos sobre a mente humana, a necessidade de criticar os pensamentos negativos, não deixando que sejam deuses que nos controlam. Assumindo as perdas, integrando-as na nossa história.
       Neste romance, na lógica do Vendedor de Sonhos - nos vários livros entrelaçam-se as personagens, umas provocam as outras, e fazem-nas mudar o rumo da sua vida - o Mestre é um empresário de sucesso que perdeu a família num acidente aéreo. Há de descobrir que o acidente foi encomendado, consequência da ganância. A sua vida nunca mais será a mesma. Tinha tudo. Tudo o que não não vale nada comparado com o que perdeu, a esposa e os dois filhos. Torna-se maltrapilho e vai surpreender os antigos colaboradores, e num meio globalizado pelos media corre veloz a notícia que um dos mais ricos homens da terra, enlouqueceu, morreu, reapareceu.
       Mais uma leitura empolgante, envolvente, escrita ao correr da pena (escorreita), leve, agradável, que nos prende. E, acima de tudo, pode ser uma excelente ferramenta para melhorar a qualidade da nossa vida, da nossa mente, da nossa saúde psíquica e consequentemente de todo o nosso ser.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Augusto Cury - O Vendedor de Sonhos

        Para os leitores habituais de Augusto Cury - psiquiatra, psicoterapeuta, investigador na área da psicologia, escrito - recomendar uma leitura é muito fácil.
        São muitos os conceitos que o autor apresenta, diversas as teorias, os pensamentos, as convicções, de um homem que descobriu a fé como último estágio dos seus estudos, dúvidas e hesitações. Estudioso e como muitos outros, pensou que a ciência resolveria as suas dúvidas. Mas quanto mais estudou mais claro se tornou que só a abertura a Deus, ao espiritual, ao Infinito, seria possível dar sentido à vida atual, sem correr o risco de se fixar entre o nascimento e o drama da morte.
        Ler um livro de ciência, ainda que no campo da psiquiatria e/ou da psicologia, precisa de muita motivação. Por conseguinte, Augusto Cury facilita-nos a compreensão dos princípios que norteiam os seus estudos, e também a sua atividade como psicoterapeuta, ao romancear, com simplicidade e muito engenho, as suas "teorias"...

O VENDEDOR DE SONHOS - o chamamento, editado por Livros d'Hoje, Alfragide, 2008, 

é um romance repleto de dramas, histórias, descobertas, encontros, revoluções. Em jeito de romance, o autor mostra o caminho da libertação interior, provocando as pérolas que há em nós, criticando os pensamentos negativos, promovendo as ideias positivas. Todos somos capazes. Só quem se intitula como Deus não pode mudar, por é imutável. Uma pessoa doente é antes de mais uma pessoa que está doente. É passageiro. Há que eliminar da nossa mente, do nosso coração, todo o lixo que armazenamos nos afetos e emoções que nos fizeram prisioneiros da desgraça.

Na contracapa faz-se a seguinte apresentação:
        "Um homem desconhecido tenta salvar da morte um suicida. De seguida, espalha a mensagem que a sociedade moderna se tornou um manicómio global. O seu discurso fresco e irreverente conquista as pessoas, habituadas a frases feitas e ao «politicamente correto», ao mesmo tempo que as assusta. O que pensar de um estranho com ar de pedinte que fala da importância de vender sonhos ao ser humano? Uma ideia maravilhosa, mas invulgar... Numa época em que nos habituamos ao ritmo e às exigências desmesuradas de um relógio que não pára, libertarmo-nos das grilhetas da rotina e recuperarmos a consciência do que é, de facto, importante nesta vida pode ser assustador. Mas é fundamental"

Augusto Cury - A saga de um pensador

       Mais uma leitura de Augusto Cury, mais um romance cheio de vida, montra de muitas estórias e de muitos dramas, de convulsões e de curas, revolucionando a mente, criticando os sentimentos e as ideias killer, que nos destroem constantemente, para recomeçar cada dia uma vida nova, com confiança, anulando a ditadura do pessimismo, da desconfiança, das incapacidades.

SAGA DE UM PENSADOR. O Futuro da Humanidade, Editora Pergaminho, Lisboa 2011.

       Marco Polo herda o nome do célebre descobridor/aventureiro italiano, que partiu pelo mundo, de Veneza, com 17 anos, numa viagem que duraria 24 anos. Admirável e ousado aventureiro, destemido, enfrenta tormentas, incertezas, dificuldades, navegou mares e rios, caminhou pelos desertos e por montanha, descobrindo um mundo fascinante.
       Rodolfo, admirador confesso de Marco Polo, coloca o mesmo nome ao seu filho, para que também este se torne aventureiro e corajoso. E Marco Polo, o atual, faz jus ao nome. Torna-se um grande revolucionário, desbravando mundos nunca antes conhecidos, o mundo das ideias, da mente, dos afetos e dos sentimentos, ousando devolver às pessoas a história das suas vidas.
       O primeiro incidente que nos é relatado deixa antever os dramas futuros. Numa sala de anatomia, Marco Polo interroga o professor e os colegas dizendo que aqueles corpos não são anónimos, devem ter uma história para contar. Seria bom saber o nome e a história de cada um.
       Não satisfeito com o saber feito, Marco Polo vai investigar a vida do corpo que lhe coube em sorte. Nas ruas encontra Falcão, um célebre professor que não consegui ultrapassar o preconceito social, a maior das doenças, do sogro e com diversos episódios psicóticos, é internado sucessivamente, forçado a abandonar a universidade, onde era um filósofo de gabarito. Decide deixar tudo e ir para a rua. Perderam-lhe o rasto. Com o poeta, Marco Polo vai viver uma aventura intensa, descobrindo que o Poeta, cujo corpo há de ser dissecado pelos universitários, era afinal um dos mais notáveis estudiosos, naquela mesma universidade, a quem doara a corpo para investigações. Com a morte da mulher e do filho num acidente não sobrevive a tamanha dor. Abandona tudo e torna-se mendigo.
       A descoberta feita por Marco Polo há de operar uma reviravolta na universidade...
       No grande Hospital Atlântico, em estágio, na área da Psiquiatria, Marco Polo volta a fazer história, envolvendo e envolvendo-se com os pacientes, que afinal são pessoas que estão doentes e que é preciso ouvir, respeitar, devolver as rédeas da sua vida.
       Marco Polo tudo fará por resgatar da miséria afetiva e sentimental alunos, pacientes, professores, ricos e pobres, a partir da beleza e do amor...
       Mais um romance encantador. Pode mudar a sua/tua vida.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A nossa cura está dentro de nós!

        Hoje uma vez mais escutamos no Evangelho quotidiano o poder dado por Jesus aos seus discípulos de expulsar espíritos impuros e de curar doenças e enfermidades. O mesmo poder que Jesus possuir dá-o aos seus discípulos. Quer isto dizer, grosso modo, que também nós, como discípulos de Jesus para este tempo, recebemos o poder de expulsar espíritos demoníacos e de curar doenças e enfermidades, nossas e dos outros.
       O poder curativo é próprio do ser humano. Mas não só, outros animais "auto curam-se" e/ou auto medicam-se.
       Fisicamente, o nosso corpo tem organismos de defesa, de protecção, de reacção a corpos estranhos, ou a vírus, micróbios, bactérias, doenças. Possui alarmes. Avisa-nos, através de diferentes reacções, quando não está a funcionar bem. Por vezes contornamos ou adiamos o problema precisamente convencidos que o organismo corrigir-se-á por si mesmo. Em parte é verdade. O único senão, por vezes precisa de ser ajudado, ou pela nossa mente, ou por mecanismos externos, medicamentos...
       Por exemplo, uma ferida exposta, não se cura com as aplicações de produtos medicamentosos, mas através das propriedades do sangue. Quando se tapa a ferida, não é para que cure, mas para evitar que entre elementos que danifiquem os tecidos e adulterem o fluxo sanguíneo. As aplicações medicamentosas visam potenciar os poderes curativos existentes no nosso organismo.
       Mesmo em doenças crónicas e/ou doenças graves, o auxílio médico e a medicação visam preparar o organismo para que este possa ganhar a batalha da cura contra a doença. Por vezes, o estado gravoso pode levar a uma intervenção mais profunda, substituindo elementos naturais por mecanismos artificiais, mas mesmo desta forma tenta-se enganar o organismo, para que ele não detecte intromissão nos seus mecanismos. As drogas ingeridas ou introduzidas, em forma de medicamentos, procuram interferir, escondendo, enganando, adulterando o organismo. De contrário, este rejeitaria tudo o que lhe é estranho. Por vezes, mesmo com medidas drásticas, o organismo rejeita enxertos, ou órgãos alheios e/ou artificiais. A cura está dentro de nós. O médico e o medicamento potenciam o organismo para que este cure. Às vezes levam muito tempo. Ingerem-se medicamentos e só passadas semanas, meses, ou até anos é que a cura advém, quando o organismo assimilou e fez seu e o que era alheio.
       Psicologicamente, o mecanismo é semelhante. Mesmo em estados de grande ansiedade e depressão, a cura é interior. Por vezes é necessário forçar o organismo, para que este descanse, retempere forças. Os medicamentos utilizados na psiquiatria não visam a cura, mas anestesiar a pessoa, ou prepará-la para que descubra e assuma as ferramentas da sua própria cura, ou simplesmente para que o processo auto-destrutivo não seja completo ao ponto de não permitir o retorno e a cura.
       Os milagres, do mesmo modo, são uma potenciação das nossas capacidades curativas. Jesus exige sempre a fé. A cura não é um passe de mágica que, utilizando objectos, palavras e elementos da natureza, se obtenha espectacularmente. As palavras como os gestos, quando acontecem, visam que a pessoa desperte e se deixe tocar pela graça.
       O grande milagre de Jesus, e que é pedido aos seus discípulos e à humanidade, é a conversão interior, a mudança de mentalidades, o encontrar as marcas do verdadeiramente humano, e do divino e agir para curar, para salvar, para dar vida. Quantas palavras escutamos a Jesus que são sintomáticas: a cura exige a fé, "a tua fé te salvou", "vai e não tornes a pecar", "os teus pecados estão perdoados", "levantas-te e anda". As expressões são claramente um desafio à cura interior, à conversão, à mudança de vida. Nos casos, em que Jesus procura provocar a fé, haverá simultaneidade, isto é, provoca a cura, provocando a fé, ou provocando fé, provoca também a cura.
       Obviamente, os médicos e a medicina são essenciais à humanidade e á qualidade de vida. Há doenças que exigem a intervenção de clínicos especialistas no corpo e na mente. É meritório o trabalho realizado. São louváveis os esforços técnicos e científicos. Mas a lógica continua a ser a de potenciar o organismo para que o mesmo reaja. Quantas doenças físicas que não são curadas porque a mente, a força de vontade, a defesa da vida e da saúde, estão também em desequilibro e impedem a cura. Hoje, cada vez mais, os médicos sabem como o optimismo, a força de vontade, a ajuda das pessoas queridas, são essenciais, para que se obtenha sucesso contra as doenças, físicas e/ou mentais.
       Pode curar-se uma pessoa contra a sua própria vontade? Muito dificilmente. Por vezes as próprias pessoas, mais consciente ou inconscientemente auto-infligem-se doenças... algumas bem graves, físicas e mentais...
       Como é que nós podemos ser agentes curativos?
       Somo-lo em relação a nós, mas também o podemos ser na relação com os outros.
       Jesus envia-nos para curar. Quantas vezes uma pessoa ficou melhor só porque recebeu uma palavra de conforto? Quantas vezes uma criança ficou saudável do estômago porque foi acarinhada pela mãe? Quantas situações desastrosas foram evitadas com uma palavra de simpatia?
       Vale a pena reflectir!

       Leia o Evangelho. Jesus ajuda-nos a descobri o que há de melhor em nós. Introduz-nos na capacidade de amar, de perdoar, de dar, de receber dando a vida, de olhar parta o outro como pessoa, ...
       Já agora, algum livro de Augusto Cury, conhecido psiquiatra e cientista, que nos invita a sermos protagonistas da nossa vida e não espectadores... e Antoine Saint-Exupéry, com o Principezinho que busca em outros lugares o que possui no seu mundo, ainda que pequeno e com poucas coisas... e Paulo Coelho... a felicidade não está longe, no exterior, mas perto de nós, no interior... ou o livro de David Servan-Schreiber, CURAR o stressm a ansiedade e a depressão sem medicamentos nem psicanálise, Dom Quixote, Lisboa: 2004.