quinta-feira, 14 de julho de 2016

Encontro dos Crismandos com D. António Couto

       Mais um grupo de catequese que completou o percurso de 10 anos do itinerário proposto. O culminar deste percurso, quanto possível, leva à celebração do Sacramento do Crisma, agendado para sábado, dia 16 de julho de 2016.
       Da preparação imediata para o Crisma, o encontro com o Sr. Bispo D. António Couto por forma a conhecer os crismandos, aproveitando para sublinhar os aspetos mais importantes na celebração e no compromisso com o Sacramento do Crisma.
       No final da tarde do dia 13 de julho, D. António Couto, acompanhado do Sr. Pró Vigário Geral, encontrou-se com os crismandos, no Centro Paroquial e com as suas catequistas.
Às jovens crismandas de Tabuaço juntaram-se três jovens de Arcos e uma de Valença do Douro.
       D. António Couto procurando salientar os aspetos que, em seu entender, são mais importantes, provocou um diálogo com os presentes, de forma a envolver-nos a todos na reflexão proposta, sobre o compromisso como batizados e ainda mais como crismados. Através de alguns dos símbolos presentes na celebração - o óleo/azeite, a pomba, a imposição das mãos - D. António clarificou o conteúdo do Crisma. Crisma que nos remete para unção, para Cristo. Como ungidos somos outros Cristo's. A pomba, que em Israel anuncia a chegada da primavera (o primeiro verão), com a vida que desponta de novo. A imposição das mãos, mãos de Deus que tudo nos dão, mãos abertas que nada guardam para Si, mãos estendidas a dar-nos todo o bem. Às mãos abertas e estendidas de Deus hão corresponder as nossas mãos estendidas, abertas, para tudo recebermos de Deus, que tudo nos dá, e de mãos abertas para partilharmos tudo o que recebemos de Deus.
       Algumas fotos deste momento preparatório:

terça-feira, 12 de julho de 2016

Naquele dia, haverá mais tolerância para Sodoma!

       Naquele tempo, começou Jesus a censurar duramente as cidades em que se tinha realizado a maior parte dos seus milagres, por não se terem arrependido: «Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidónia se tivessem realizado os milagres que em vós se realizaram, há muito teriam feito penitência, vestindo-se de cilício e cobrindo-se de cinza. Mas Eu vos digo que no dia do Juízo haverá mais tolerância para Tiro e Sidónia do que para vós. E tu, Cafarnaum, serás exaltada até ao céu? Até ao inferno é que descerás. Porque se em Sodoma se tivessem realizado os milagres que em ti se realizaram, ela teria permanecido até hoje. Mas Eu vos digo que no dia do Juízo haverá mais tolerância para a terra de Sodoma do que para ti» (Mt 11, 20-24).
       A censura de Jesus, feita sobre as cidades, ou melhor, sobre as pessoas que fazem as cidades, não é uma censura condenatória definitiva, como facilmente se poderá concluir do Evangelho no seu conjunto, mas é uma censura provocatória a fim de despertar as consciências, o arrependimento, a mudança de vida. Relembremos o episódio de Níneve, em que o profeta Jonas é enviado à cidade para anunciar a sua destruição e no final sobrevém a salvação. O aviso foi em ordem a salvar e não a condenar.
       Muitos foram os sinais dados por Jesus, em palavras, gestos e milagres. Sente-se em Jesus um certo dissabor muito humano por encontrar dificuldades no acolhimento da Palavra de Deus e na consequente conversão ao Reino de Deus. Em todo o caso, não deixa de ser uma fortíssima interpelação para as pessoas daquele tempo e para nós que vivemos neste tempo. É a conversão do coração que pode construir uma humanidade mais justa e solidária.

sábado, 9 de julho de 2016

XV Domingo do Tempo Comum - ano C - 10 de julho

       1 – «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento; e ao próximo como a ti mesmo». Um mandamento ou um duplo mandamento. Amar a Deus acima e antes de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Jesus Cristo dá Corpo a este mandato. Traz-nos Deus, aproxima a eternidade do tempo, vive e visualiza o amor de Deus, amando o ser humano, em especial o mais frágil, integrando, incluindo.
       Moisés lembra-nos que Deus não nos pede o impossível: «Escutarás a voz do Senhor teu Deus, cumprindo os seus preceitos e mandamentos… e converter-te-ás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma. Este mandamento que hoje te imponho não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance. Não está no céu... Não está para além dos mares... Esta palavra está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a possas pôr em prática».
       A ardilosidade do doutor da Lei é facilmente desmontável pelo próprio. Questiona Jesus que lhe devolve a questão, remetendo-o para a Sagrada Escritura. Inequivocamente, todos os judeus sabem que o primeiro mandamento e o mais importante é amar a Deus de todo o coração, com todas as forças, em todo o tempo, e que a vivência dos mandamentos (n)os coloca na senda da eternidade!
       Para nós cristãos, a herança eterna é dom de Deus, que nos salva em Jesus Cristo, pela Sua morte e ressurreição, mistério pascal que celebramos em cada Eucaristia, recordando e tornando-nos contemporâneos da oferenda de Jesus.
       Os mandamentos são um caminho que nos sintonizam com o melhor de nós mesmos, acolhendo a soberania e primazia de Deus, no empenho pela verdade, pela justiça, por um mundo em que reconheçamos os outros como imagem e semelhança de Deus e, por conseguinte, assimilemos o mandamento “não matarás”, com tudo o que isso implica: cuidar do outro, tratá-lo com respeito e deferência. Isto é algo que já está inscrito no nosso coração. Jesus levará à plenitude este mandamento, interligando o amor a Deus com o dar a vida pelos outros, por todos, pela humanidade. Com efeito, o amor, como o entende o Evangelho, “é a coragem de morrer para o próprio egoísmo, de nos esquecermos de nós próprios em favor dos outros e de sairmos de nós mesmos” (Tomáš Halík).
       2 – A sabedoria autêntica inclui o saber e o fazer; a informação e o conhecimento levados, pelo compromisso, à prática, na vivência quotidiana e concreta na sociedade atual, com estas pessoas que Deus confiou à minha, à tua, à nossa responsabilidade.
       O doutor da Lei volta à carga com outra questão: quem é o meu próximo?
       Talvez lhe possamos dar uma mão! O meu próximo é quem precisa da minha ajuda! O meu familiar! Os meus amigos! Os meus colegas de trabalho e/ou de copos! Os meus vizinhos! Os que constituem o meu bairro! Os do meu partido! Os da minha religião! As pessoas do meu país! Cada pessoa que se cruza comigo! Podemos ainda admitir que o nosso próximo seja também aquele de quem não gostamos tanto!
       Vejamos a resposta de Jesus:
«Um homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores. Roubaram-lhe tudo o que levava, espancaram-no e foram-se embora, deixando-o meio- morto. Por coincidência, descia pelo mesmo caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Do mesmo modo, um levita que vinha por aquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas, deu-as ao estalajadeiro e disse: ‘Trata bem dele; e o que gastares a mais eu to pagarei quando voltar’. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?». O doutor da lei respondeu: «O que teve compaixão dele».
       Não importa tanto o que os outros dizem, mas o que eu faço. Os mandamentos valem, não tanto pelas discussões académicas, mas sobretudo na medida em que nos aproximam e comprometem com os outros. E, por conseguinte, Jesus remata a questão, desafiando: «Então vai e faz o mesmo».
       3 – A parábola do Bom Samaritano é uma pérola do Evangelho e que nos diz de forma plástica e categórica que Jesus é, por excelência, o Bom Samaritano, que Se debruça sobre a humanidade ferida pelo pecado e pela morte, lhe trata das feridas, a coloca na sua montada, e assume todas as despesas, generosamente, sem cálculos.
       Por mais perfeitas e justas que sejam as leis só serão verdadeiramente humanas se nos ajudarem a conhecer os nossos limites e sobretudo nos deram o impulso para edificar o bem. O Bom Samaritano não se fixa na lei mas na pessoa. As leis estão (ou devem estar) ao serviço da pessoa na sua inserção social e cultural.
       A humanidade de cada pessoa não tem fronteiras mas coloca-nos na fronteira diante do outro, tratando-o como companheiro, como irmão. O sacerdote e o levita deixaram-se aprisionar pela lei e pelo preconceito. Mantiveram-se à distância. Viram um homem caído, derrotado, morto ou quase morto e não ousaram aproximar-se. Viram com os olhos, mas não com o coração. Viram as dificuldades mas não a pessoa ferida. Deixaram-se levar pela razão sem a compaixão.
       Aquele homem, estrangeiro – para amar não há religião ou nacionalidade – olha, aproxima-se e, nesse momento, quando está diante do homem meio-morto, vê, com o coração, compadece-se, toca-o, trata-lhe as feridas, coloca-o na sua montada, guia-o para um lugar seguro, assegura-se que será bem tratado e que ficará bem. Só nessa ocasião segue em frente.
       Vislumbra-se, de forma clarividente, a misericórdia, a compaixão, que anula distâncias, que supera os limites e as leis, que nos faz ver o outro. Jesus inverte o paradigma: mais que saber quem é o meu próximo, importa eu fazer-me próximo do outro para ajudar.
       No amor não há inimigos, nem estrangeiros, nem adversários. No amor há pessoas, há irmãos. A mesma humanidade que se cura e se refaz na comunhão, na partilha e no perdão, na alegria no serviço e na paz, na solidariedade, na verdade e na justiça. “O amor é a única força capaz de unificar as coisas sem as destruir” (Teilhard Chardin). É inclusivo, integrador. Faz-nos olhar além do nosso umbigo e rever-nos nas necessidades e nos sofrimentos do nosso semelhante.


       4 – Em Jesus Cristo, Deus revela-Se Misericórdia infinita, Pai de amor e de benevolência. “Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus”.
       Jesus faz-Se tão próximo da humanidade que a assume por inteiro, na sua fragilidade e finitude, fazendo-Se pecado por nós, deixando-Se ver e tocar, deixando-Se amar e odiar, deixando-Se perseguir e até matar. Para nos redimir. Para nos reconciliar, uns com os outros e com o Pai. Para nos resgatar do pecado e da morte, da solidão e do egoísmo.
       Ele é o Rosto da Misericórdia do Pai, o Bom Pastor, o Bom Samaritano. Não está longe de quantos se fazem próximos, dos construtores da paz e da harmonia, de quantos sonham e trabalham por um mundo melhor, daqueles que ousam esquecer-se de si para tratar as feridas dos outros, de todos os que fazem do amor a mais sagradas das leis.
       E, por outro lado, Ele está tão próximo de nós que O podemos encontrar nos outros, especialmente nos mais pobres e frágeis, a quem nos envia a anunciar o Reino de Deus, a curar e a expulsar os demónios que impedem a luz e a felicidade.
       O convite do salmo é elucidativo: “Vós, humildes, olhai e alegrai-vos, buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará. O Senhor ouve os pobres e não despreza os cativos”. A oração faz-nos interceder pelos outros, mas compromete-nos, desde já, aqui e agora, a fazer tudo o que está ao nosso alcance para os atender nas suas preces e nos seus sofrimentos. Somos responsáveis. Teremos de ser samaritanos, isto é, cristãos, procurando agir como Jesus, no cuidado e na delicadeza para com todos.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Deut 30, 10-14; Sal 68 (69); Col 1, 15-20; Lc 10, 25-37.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Leitura: LUCIANO MANICARDI - Caridade dá que fazer

LUCIANO MANICARDI (2016). Caridade dá que fazer. Atualidade das obras de misericórdia. Prior Velho: Paulinas Editora. 240 páginas.
       Vivemos o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, e que decorre de 8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016. O Jubileu tem levado a rever planos pastorais, compromissos eclesiais. O Papa quis que a Igreja refletisse e vivesse procurando acolher e viver a misericórdia de Deus. As Obras de Misericórdia, corporais e espirituais, sinalizam a concretização da misericórdia de Deus no serviço aos outros.
       Têm sido vários os autores a centrar a sua atenção na Misericórdia, na Bíblia, na história, na Igreja, na vivência da fé. Um dos pedidos do Papa levou muitos a refletir sobre as obras de misercórdia e na sua pertinência no mundo atual.
       O livro que Luciano Manicardi, publicado em 2010, foi revisto e aumentado, englobando já algumas das afirmações do Papa Francisco e dos seus propósitos acerca da importância da misericórdia, no compromisso da Igreja com o mundo.
       Luciano Manacardi nasceu em 1957, em Itália. É monge na comunidade monástica fundada por Enzo Bianchi, onde também é responsável pela formação dos noviços. A sua formação é sobretudo bíblica, mas não deixa de recorrer às descobertas da antropologia e da psicologia.
       Neste trabalho é frequente o recurso à Sagrada Escritura, contextualizando, explicitando, tornando inteligível a caridade, como compromisso do amor com a justiça e com a verdade. As obras de misericórdia continuam a traduzir a assunção da fé cristã, na certeza que o corpo e o tempo nos identificam como irmãos, nos comprometem com o corpo (a vida) do outro e, nessa medida, nos tornam verdadeiramente humanos.
       A melhor forma de sugerir uma leitura será com palavras do próprio autor:
"A caridade ocorre sempre no âmbito das relações humanas. Relações interpessoais, sociais e políticas. A caridade ocorre na história, num espaço e num tempo precisos. A caridade é histórica, não é um princípio abstrato. Também a caridade cristã, que manifesta e mostra como «Deus é amor» ( 1 Jo 4, 16), a caridade que tem, portanto, uma configuração teológica essencial, que encontra a sua personificação em Cristo, a caridade suscitada pela ação do Espírito Santo, a caridade que «pertence à natureza da Igreja e que é expressão irrenunciável da sua própria essência» (Bento XVI), também esta caridade ocorre na história, manifestando-se e tomando uma forma no hoje histórico. E a Igreja tem a responsabilidade histórica dessa narração da caridade: é chamada a ser epifania da caridade nos dias de hoje. Não há outro lugar da caridade que não seja a histórica, o hoje, o corpo: corpo pessoal, social, eclesial, mundial..." 
"Deus é ferido pelo mal que o homem comete contra o homem. A indignação divina e profética face ao mal também é - e sobretudo - sofrimento... a profecia sintetiza-se na exclamação de que Deus não é indiferente ao mal e que, pelo contrário, o grande mal é o habituar-se ao mal, a ponto de já não se escandalizar, de já não se deixar ferir nem perturbar por ele" 
"O Deus que se ligou em aliança aos filhos de Israel é vulnerável, sensível aos sofrimento humano. O Deus que intervém para restabelecer a justiça, ali onde é violada, é o Deus que co-sofre com o povo oprimido" 
"Para uma teologia da quotidianidade, há que saber reconhecer o detalhe, o pormenor, a sinuosidade, os meandros da existência, o interstício da vida, para poder apreendê-la como lugar em que se deve manifestar, vivendo-a, a qualidade humana e evangélica. A tradição das obras da misericórdia fala de vestir e de se vestir, de comer e de dar de comer, de beber e de dar de beber, de gente sem casa a colher de doentes a tratar e a visitar, de mortos a sepultar, de ofensores a perdoar, de ignorância a instruir, de hesitantes a aconselhar. Em tudo isto não é difícil reconhecer-nos a nós próprios ou outros que se cruzam com a nossa vida quotidiana. Não é difícil ver as situações quotidianas da morte de um parente e do trabalho de luto, da doença de um familiar e da tarefa da assitência e da proximidade do drama vivido por um preso e pelos seus familiares, da condição penosa de tantos imigrantes, da convivência quotidiana com uma pessoa com dificuldades e de aspetos pesados de suportar" 
"A caridade é a atenção ao corpo do outro. E como o corpo é a realidade humana mais espiritual, é através do contacto com o corpo ferido, carente, sofredor, necessitado, que recriamos as condições de dignidade do homem ferido e ofendido injuriado pela vida" 
"Jesus de Nazaré deu um rosto humano a essa misericórdia e compaixão, revelando-a na sua vida (cf. Mc 1, 41; 6, 34; Lc 7,13; etc.), e, seguindo-o, pela fé e pelo amor por Ele, também o discípulo do Senhor pode viver a misericórdia". 
"A paciência de Deus não é impassibilidade nem passividade, mas a longa respiração da sua paixão, paixão de amor que aceita sofrer esperando os tempos do homem e a sua conversão: «Não é que o Senhor tarde em cumprir a sua promessa, como alguns pensam, mas simplesmente usa de paciência para convosco, pois não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam» (2 Ped 3, 9). 
A paciência de Deus surge como fruto da sua escolha, da sua vontade, de um trabalho interior em que Ele é confrontado com a possibilidade de deixar explodir a sua ira... A paciência, com efeito, não quer tornar-se cúmplice do mal cometido (cf. Jr 44, 22). A paciência divina não é ausência de cólera, mas capacidade de elaborá-la, de domá-la, de interpor uma espera entre a inspiração e a sua manifestação... a paciência é o olhar generoso de Deus fixo no homem olhar que não se detém nos detalhes, no acidente de percurso, que não considera o pecado definitivo, mas que o coloca no contexto de todo o caminho existencial que o homem é chamado a percorrer... Em Cristo, Deus aceita «carregar o fardo», «suportar» a insuficiência e incapacidade humanas, assumindo a responsabilidade pelo homem na sua falibilidade. A «paciência de Cristo» (2 Tes 3, 5), exprime assim o amor de Deus, do qual é sacramento". 
Oração de intercessão: "Um estar diante de Deus em favor do outro, um compromisso ativo entre duas partes, um situar-se na fronteira, um estar no limiar, um situar-se no vazio existente entre Deus e o homem, um habitar o espaço intermédio. É a posição de Aarão que «se interpôs» (Sb 18, 23), detendo assim a ira divina e impedindo-a de atingir os seres vivos; é a posição de Moisés que se colocou «na cavidade da rocha» (Sl 106,23) para desviar a ira de Deus do povo… O intercessor é o homem da fronteira, que se encontra entre dois fogos, na delicadíssima posição de quem está completamente exposto, de quem assume a responsabilidade pelo povo pecador e a levar à presença do Deus santo e misericordioso. É uma posição «crucial». É a posição de Jesus na cruz, quando o seu estar entre o céu e a terra, de braços estendidos para levar a Deus todos os homens, se torna revelação do resultado último da intercessão: o dar a vida pelos pecadores, por parte daquele que é santo"

Etty Hillesum - Humanidade enraizada em Deus

FREI MICHAELDAVIDE (2016). Etty Hillesum. Humanidade enraizada em Deus. Prior Velho: Paulinas Editora. 112 páginas.
       Bento XVI (13 de fevereiro de 2013): "Penso também na figura de Etty Hillesum, uma jovem holandesa de origem judaica, que morrerá em Auschwitz. Inicialmente distante de Deus, descobre-o olhando em profundidade dentro de si mesma e escreve: «Dentro de mim existe um poço muito profundo. E naquele poço está Deus. Às vezes consigo alcançá-lo, mas na maioria das vezes está coberto por pedras e areia: então Deus está sepultado. É necessário que eu o volte a desenterrar» (Diário, 97). Na sua vida dispersa e inquieta, ela encontra Deus precisamente no meio da grande tragédia de Novecentos, o Shoah. Esta jovem frágil e insatisfeita, transfigurada pela fé, transforma-se numa mulher cheia de amor e de paz interior, capaz de afirmar: «Vivo constantemente em intimidade com Deus».
       É desta forma que o autor, Frei Michaeldavide apresenta este livro sobre Etty Hillesum, baseado no diário e nas cartas que ela escreveu. Dois dias depois de Bento XVI anunciar ao mundo a sua renúncia como Bispo de Roma, como Papa, em Quarta-feira de Cinzas, apresentava, Etty Hillesum - a par de Pavel Florenskij e de Dorothy Day - como modelo de fé, de conversão, de intimidade com Deus.
       Etty Hillesum nasceu na Holanda, em 15 de janeiro de 1914 e viria a ser morta em Auschwitz, por ser de descendência judia, no dia 30 de novembro de 1943.
       Nas palavras do autor, Etty Hillesum é uma "mulher, cuja vida está prestes a ser violentamente despedaçada, acredita - ainda consegue acreditar - que algum transeunte saberá recolher este seu bilhetinho... Etty Hillesum é uma jovem mulher que soube transfigurar- a própria vida, deixando-a amadurecer até à plenitude, aprendendo a rezar e a meditar... Mediante a oração aprendeu a meditar sobre as trevas humanas através da luz de Deus, sem as negar, mas também sem as tornar mais densas... como jovem mulher judia holandesa do seu tempo, Etty Hillesum vive e abraça até ao fundo o contexto terrível de uma das páginas mais sombrias da humanidade - talvez a mais tenebrosa, por ter sido concebida e dada à luz pela civilização europeia enraizada na tradição do cristianismo...
       Há um mal presente, mas também há um bem que está presente na vida, que nenhum mal se pode tornar tirano no sentido de chamar toda a atenção sobre si próprio. Nisto Etty Hillesum é mestra de total lucidez: na capacidade de atribuir um nome preciso àquilo que se pode verificar de negativo, sem esquecer que, no preciso momento em que qualquer coisa de terrivelmente negativo está a acontecer, continua a crescer o bem, que existe desde sempre e que é o futuro, enquanto o mal não tem futuro, mesmo quando parecer tão tremendo que atrai toda a nossa atenção...

Algumas expressões de Etty Hillesum:
"Entre a vida que recebemos e a vida que devemos receber oscila a nossa vida, aquela que, de momento, vivemos ou não vivemos" 
"Se toda a dor não alargar os nossos horizontes e não nos tornar mais humanos, libertando-nos das mesquinhices e das coisas supérfluas desta vida, terá sido inútil"
"O homem ocidental não aceita a dor como parte desta vida: por isso, nunca consegue extrair forças positivas" 
"Fomos marcados para sempre pela dor. Contudo, a vida é maravilhosamente boa... basta que façamos com que Deus, apesar de tudo, esteja em segurança nas nossas mãos"
"Sermos verdadeiramente felizes sem voltar as costas a todo o sofrimento" 
"Meu Deus, dou-te graças por me teres criado tal como sou. Dou-te graças porque às vezes me permites estar tão cheia de vastidão, daquela vastidão que não é senão o meu ser transbordante de Ti" 
"Somos sobretudo nós próprios que nos roubamos. Acho a vida bela e sinto-me livre. Os céus estendem-se tanto dentro como acima de mim. Creio em Deus e nos homens e atrevo-me a dizê-lo sem falso pudor. A vida é difícil, ma isso não é grave" 
"É verdade que de vez enquando podemos estar tristes e abatidos por aquilo que nos fazem, é humano e compreensível que assim seja (...) A vida é difícil, mas não é grave. Devemos começar a tomar a sério o nosso lado sério, o resto virá por acréscimo: e «trabalharmo-nos a nós mesmos» não é propriamente uma forma de individualismo doentio. Uma paz futura só o poderá ser verdadeiramente se antes tiver sido encontrada por cada um dentro de si próprio - se cada homem se tiver libertado do ódio contra o próximo de qualquer raça ou povo, se tiver superado esse ódio e o tiver transformado em algo diferente, talvez a longo prazo, em amor, se isto for pedir de mais. É a única solução possível. Esse pedacinho de eternidade que trazemos dentro de nós tanto pode ser expresso numa palavra como em dez volumes. Eu sou uma pessoa feliz e bendigo a vida, bendigo-a precisamente neste ano do Senhor de 1942, enésimo da guerra" 
"Estamos em casa. Estamos em casa sob  céu. Estamos em casa em qualquer lugar, se trouxermos tudo dentro de nós. Muitas vezes me tenho sentido, e ainda sinto, como um navio que transporta a bordo uma carga preciosa: os cabos são cortados e agora o navio parte, livre para navegar por toda a parte. Temos de ser a nossa própria pátria"
"Dentro de mim há uma nascente muito profunda. E nessa nascente está Deus. Por vezes, consigo alcançá-lo, a maior parte das vezes, está coberta de pedras e de areia: nessas alturas, Deus está sepultado. Então há que voltar a desenterrá-lo. Imagino que certas pessoas rezam com os olhos fixos no céu: elas procuram Deus fora de si. Há outras que inclinam a cabeça, escondendo-a entre as mãos: creio que estas procuram Deus dentro de si" 
"De repente, compreendi como uma pessoa, com o rosto escondido atrás das mãos juntas, pode deixar-se cair violentamente de joelhos e depois ter paz"
"E se Deus deixar de me ajudar, então serei eu a ajudar Deus".
"Uma pessoa deve viver a sua própria vida" 
"Prometo-te uma coisa, meu Deus, só uma pequena coisa: tentarei não tornar o hoje mais pesado com o peso das minhas preocupações pelo amanhã.. Tentarei ajudar-Te para que Tu não sejas destruído dentro de mim, mas não posso prometer nada a priori. Uma coisa, porém, se torna cada vez mais evidente para mim, ou seja, que Tu não nos podes ajudar, mas que somos nós que Te ajudamos a Ti e, desse modo, ajudamo-nos a nós mesmos. A única coisa que podemos salvar destes tempos, e também a única coisa que conta de verdade, é um pedaço de Ti em nós mesmos, meu Deus. E talvez também possamos contribuir para te desenterrar dos corações devastados dos outros homens. Sim, meu Deus, parece que Tu não podes fazer muito para modificar as circunstâncias atuais, mas também elas fazem parte desta vida. Eu não ponho em questão a tua responsabilidade, mais tarde serás Tu a declarar-nos responsáveis a nós. E quase a cada batimento do meu coração aumenta a minha certeza: Tu não nos podes ajudar, mas cabe-nos a nós ajudar-te a ti, defender até ao fim a tua casa em nós... Alguns querem a todo o custo salvar o seu próprio corpo. Dizem: não me apanharão a mim. Esquecem-se que não se pode cair nas mãos de ninguém estando nos teus braços. Começo a sentir-me um pouco mais tranquila, meu Deus, depois desta conversa contigo. Daqui por diante, discorrerei contigo muitas vezes, e, desse modo, impedir-te-ei de me abandonares. Comigo passarás também por períodos de escassez, meu Deus, tempos escassamente alimentados pela minha pobre confiança; acredita, porém, eu continuarei a trabalhar para ti e a ser-te fiel, e não te expulsarei do meu território" 
"A escola da oração torna-se  para ela escola de humanidade e uma maneira de estar na presença de Deus, de si própria e do mundo que a rodeia numa medida cada vez mais harmoniosa e capaz de plena responsabilidade e de respeito absoluto, inclusive pelo inimigo...
"No meio daquele caos e daquela miséria, vivo de tal maneira a um ritmo meu, que a cada instante, enquanto escrevo à máquina aquelas cartas, posso embrenhar-me nas coisas que acho mais importantes. Não se trata de me isolar da dor que tenho à minha volta, sem sequer de uma forma de apatia. Suporto e guardo tudo dentro de mim mas sigo em frente pelo meu caminho".
"Meu Deus, ainda não se dão conta de que todas as coisas que existem são areias movediças, a não ser Tu" 
"Prefiro estar sozinha e ser para todos"
"A nascente de cada coisa deve ser a própria vida, nunca outra pessoa. Muitos, porém - sobretudo as mulheres -, vão buscar as próprias forças aos outros: a sua nascente é o homem e não a vida"
"Devo tornar-me mais simples, deixar-me viver um pouco mais. Não pretender ver resultados imediatos. Agora sei qual a minha cura: acocorar-me a um canto e escutar aquilo que tenho dentro de mim própria".
"Falarei contigo, meu Deus. Posso? como as pessoas vão desaparecendo, não me resta outra coisa senão o desejo de falar contigo. Amo assim tanto os outros porque em cada um deles amo o pedacinho de Ti, meu Deus. Procuro-Te em todos os homens e, frequentemente, encontro neles alguma coisa de Ti. E procuro desenterrar-Te do seu coração, meu Deus" 
"E, quando a borrasca for demasiado forte, e eu já não souber como escapar, restar-me-ão sempre duas mãos juntas e um joelho dobrado. É um gesto que a nós, judeus, não foi transmitido de geração em geração. Tive de aprendê-lo a custo. É a herança mais preciosa que recebi do homem de quem já quase esqueci o nome, mas cuja parte melhor continua a viver em mim. Como é estranha a minha história - a história de ua rapariga que não se sabia ajoelhar. Ou, com uma variante: da rapariga que aprendeu a rezar. É o meu gesto mais íntimo" 
"Meu Deus, às vezes não consigo entender nem aceitar aquilo que os teus semelhantes nesta terra fazem uns aos outros, nestes tempos tempestuosos. Contudo, isso não me leva a fechar-me no meu quarto, meu Deus: continuo a olhar as coisas de frente e não quero fugir diante de nada... Olho de frente para o teu mundo, meu Deus, e não fujo da realidade para me refugiar no sonhos - ou seja, mesmo perante a realidade mais atroz, há lugar para sonhos maravilhosos - e continuo a bendizer a tua criação, apesar de tudo"
Para conhecer melhor, a vida e o pensamento de Etty Hillesum:

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Dia da Família Diocesana - Santuário da Lapa - 2016

       A segunda edição do Dia da Família Diocesana, realizou-se a 25 de junho de 2016, no Santuário de Nossa Senhora da Lapa, em ambiente de Peregrinação, de Festa, de encontro, de celebração, de partilha da fé e da vida.
       A Diocese de Lamego é constituída por 223 paróquias e diversos movimentos. Uns e outros estiveram presentes em grande número. Deste espaço pastoral que me está confiado - Carrazedo, Pinheiros, Tabuaço, Távora - perto de meia centena de pessoas. Os acólitos tiveram um destaque especial, e também deste espaço se fizeram representar.


       O Grupo Coral da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição teve a responsabilidade de preparar e orientar os cânticos na Missa, presidida pelo nosso Bispo, D. António Couto, e contou com a presença de D. Jacinto Botelho, Bispo Emérito de Lamego, dos senhores Vigário e Pró Vigário Gerais, do reverendo reitor do Santuário e de uma vintena de sacerdotes.
       Foi uma dia preenchido. Pela manhã, a Peregrinação diocesana à Porta Santa da Lapa. As paróquias e os movimentos eclesiais, com as suas bandeiras e estandartes, com os seus acólitos, com os seus párocos, dirigiu-se a cantar e a rezar até à Porta Santa da Misericórdia, em oração presidida por D. António Couto.
       Seguiu-se um momento de oração com os Acólitos, com a exposição, adoração e bênção do Santíssimo Sacramento, seguindo-se outro momento de adoração do Santíssimo para os outros fiéis.        Durante este tempo, a celebração de Confissões.
       Pelas 13h00, o tempo do almoço e de convívio informal.
       O cortejo para a Eucaristia, iniciou-se pelas 15h00, a partir da Igreja para o recinto das Missas campais.
       Foram ainda destacado dois momentos: o ofertório, com produtos ou símbolos dos arciprestados/ zonas pastorais, e no momento de ação de graças, a encenação do Hino da Misericórdia, pela Paróquia da Meda.
       Algumas fotos deste dia:

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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Festa de São João Batista - Padroeiro do Município

       O Município de Tabuaço tem como Padroeiro São João Batista, que se celebra a 24 de junho. Também os concelhos limítrofes, São João da Pesqueira, Armamar, Moimenta da Beira, têm São João como Padroeiro, sendo o dia feriado Municipal.
       A paróquia acolhedora é a da Vila de Tabuaço, Paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Além da festa mais popular, a festa passa também pela dimensão religiosa, com a celebração da Santa Missa e da Procissão, com as imagens dos Padroeiros das Paróquias que constituem esta Zona Pastoral / Concelho de Tabuaço, bem como os padroeiros de alguns lugares anexos das paróquias.
       Além o Pároco, a presença amiga dos reverendos Padres Ildo e Luís António. O primeiro, pároco de Arcos e de Chavães; o segundo, pároco de Sendim, Granjinha e Paradela. Como Pregador, o reverendo Pe. António Jorge Giroto, Pároco de Leomil, Alvite e Sever, na Zona Pastoral de Moimenta da Beira.
        No decorrer da Eucaristia, no momento da homilia, o Pe. Giroto sublinhou a necessidade de viver a alegria que nos vem da fé, alegria interior, porque salvos em Jesus Cristo, e a alegria que se extreoriza na festa e no convívio. João Batista experimenta a alegria do encontro com Jesus ainda no ventre materno. Como João Batista, cada um de nós deve apontar para Jesus. A propósito uma pequena estória. Quando Jesus era aclamado na entrada triunfal na cidade de Jerusalém, o burro inclinou a cabeça em atitude de agradecimento, pensando que as palmas e os louvores eram para ele. Risco que podemos correr, quando não apontamos para Jesus. Apontamos Deus aos outros, e apontamo-l'O também para nós.
       Algumas fotos da celebração da Santa Missa e da Procissão:

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Primeiros santos mártires da Igreja de Roma

Nota biográfica:
       Na primeira perseguição contra a Igreja, desencadeada pelo imperador Nero, depois do incêndio da cidade de Roma no ano 64, muitos cristãos foram martirizados com atrozes tormentos. Este facto é atestado pelo escritor pagão Tácito (Annales 15, 44) e por S. Clemente, bispo de Roma, na sua Epístola aos Coríntios (cap. 5-6).
     Ontem celebrávamos o martírio de São Pedro e de São Paulo, Apóstolos, cuja importância e visibilidade os coloca como como testemunhas e modelos para a Igreja de Roma e, consequentemente, para toda a Igreja. Pedro e Paulo foram mortos nesta perseguição de Nero aos cristãos romanos. Mas além deles, mais conhecidos, muitos outros cristãos, só porque o eram, forma mortos.


Oração de coleta:
       Senhor nosso Deus, que consagrastes pelo sangue dos mártires os grandiosos princípios da Igreja de Roma, fazei que a sua coragem no combate nos alcance uma força invencível e a alegria da vitória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Epístola de São Clemente, papa, aos Coríntios

Sendo vítimas de fanatismo iníquo, deram-nos um magnífico exemplo de fidelidade
Deixemos os exemplos dos antigos e falemos dos nossos atletas mais recentes; apresentemos os exemplos generosos do nosso tempo. Vítimas do fanatismo e da inveja, os que eram as maiores e mais santas colunas da Igreja sofreram perseguição e tiveram de combater até à morte.
Ponhamos diante dos nossos olhos os bons Apóstolos. Por causa dum fanatismo iníquo, Pedro teve de suportar duros tormentos, não uma ou duas vezes, mas muitas; e, depois de sofrer o martírio, passou para o lugar que lhe era devido na glória. O mesmo fanatismo e rivalidade deu a Paulo ocasião para alcançar o prémio da paciência: sete vezes lançado na prisão, exilado e apedrejado, tornou-se o pregoeiro da palavra no Oriente e no Ocidente e conseguiu uma extraordinária fama com a sua fé. Depois de ensinar ao mundo inteiro o caminho da justiça e de chegar até aos confins do Ocidente, sofreu o martírio que lhe infligiram as autoridades e partiu deste mundo para o lugar santo, deixando-nos um exemplo perfeito de paciência.
A estes homens, mestres de vida santa, juntou-se uma grande multidão de eleitos, que, vítimas de ódio iníquo, sofreram muitos suplícios e tormentos, e assim se converteram para nós num magnífico exemplo de fidelidade. Vítimas do mesmo ódio, sofreram perseguição muitas mulheres, como Danaides e Dirces, que, suportando graves e horríveis suplícios, correram até ao fim a árdua carreira da fé e, sendo fracas de corpo, receberam o nobre prémio do triunfo. O fanatismo dos perseguidores separou esposas dos maridos, alterando o que disse nosso pai Adão: É osso dos meus ossos e carne da minha carne. O fanatismo e a rivalidade destruíram grandes cidades e fizeram desaparecer numerosas povoações.
Escrevemo-vos isto, caríssimos, não só para vos recordar os deveres que tendes, mas também para nos incitarmos a nós próprios. Encontramo-nos na mesma arena e combatemos o mesmo combate. Deixemos portanto as preocupações inúteis e vãs, e voltemo-nos para a norma gloriosa e venerável da nossa tradição, para compreendermos o que é belo, o que é bom, o que é agradável ao nosso Criador. Fixemos atentamente o nosso olhar no Sangue de Cristo e reconheçamos como é precioso perante Deus o seu Sangue, que, tendo sido derramado pela nossa salvação, alcançou para o mundo inteiro a graça da conversão.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Salva-nos, Senhor, que estamos perdidos

       Jesus subiu para o barco e os discípulos acompanharam-n’O. Entretanto, levantou-se no mar tão grande tormenta que as ondas cobriam o barco. Jesus dormia. Aproximaram-se os discípulos e acordaram-n’O, dizendo: «Salva-nos, Senhor, que estamos perdidos». Disse-lhes Jesus: «Porque temeis, homens de pouca fé?». Então levantou-Se, falou imperiosamente ao vento e ao mar e fez-se grande bonança. Os homens ficaram admirados e disseram: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?» (Mt 8, 23-27).
       Um momento de provação. Jesus chama os seus discípulos para uma aventura extraordinária de descoberta, de encontro, de abertura aos outros e ao Totalmente Outro, ou numa expressão muito feliz, ao Totalmente Próximo. Desafia os limites, convida à utopia, trabalha a mente e o coração daqueles que chama, para no final os enviar ao mundo inteiro, destemidos, confiantes, a anunciar/testemunhar a Boa Notícia da salvação. É um sonho. É mistério. Entra na grandeza e na beleza de Deus. Porquanto é tempo de tornar mais firme o seguimento e a fé.
       Jesus vai para a outra margem. Para a nossa margem. Caminha. Leva-nos conSigo. Vamos com Ele no barco. Quando vêm as ondas, o mar revolto, julgamos que Deus está a dormir. Não nos ouve. Já tem muito com que se preocupar. Ou, então, não mereço que Ele escute as minhas preces. No entanto, Jesus vai no barco. Deus caminha connosco.
        Há momentos em que não nos resta muito. Não sabemos o que fazer. Parece que tudo corre mal. É uma tempestade enorme a acontecer na nossa vida. Nessa hora, entreguemo-nos confiantes ao Senhor. Não nos acanhemos a pedir e como discípulos supliquemos-Lhe: «Salva-nos, Senhor, que estamos perdidos». E quase sem nos darmos por isso as águas caudalosas começarão a obedecer-lhe e o nosso coração a ganhar a serenidade para enfrentar outras tormentas.
       Não cessemos de rezar. Deus há de atender-nos. Estejamos atentos. Coloquemo-nos à escuta. Deixemos que Ele grite em nós o Seu amor. Ainda que seja fraca a nossa fé, não tememos que Ele está connosco. E se Ele está connosco, como há de ser grande, a transbordar, a nossa alegria e confiança, e a nossa vontade de viver a vida como dom, como tarefa, como entrega, transformando o sonho de Deus em vivência quotidiana.