sábado, 23 de março de 2013

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor - ano C

       1 – Entramos na SEMANA MAIOR da nossa fé, Semana Santa, pois SANTO é Aquele vem da parte de Deus e nos dá Deus, num mistério que nos envolve, nos desafia e nos salva. Jesus percorre connosco as diversas situações da vida, como facilmente se visualiza nos dois momentos que se entrelaçam: entrada triunfal em Jerusalém, um REI sentado num jumentinho, e processo que condena Jesus e O devolve a Jerusalém, com uma coroa de espinhos e suspenso numa cruz.
       Na epístola de São Paulo aos Filipenses, segunda leitura, encontramos um ponto de partida luminoso, uma grande síntese da vida de Jesus: 
“Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes”.
       Ele está no meio de nós, nas mesmas circunstâncias finitas, frágeis, limitadas, caminha lado a lado, entra connosco na cidade, ouve as nossas preces e os nossos gritos, aceita o nosso louvor, as nossas oferendas e a nossa conversão. A realeza de Jesus é despojada de poder, de riqueza, de exuberância. Não vem numa caravana, protegido por um exército, vem num jumentinho e com Ele vem uma multidão de discípulos, preocupada em viver:
“Estando já próximo da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos começou a louvar alegremente a Deus em alta voz por todos os milagres que tinham visto, dizendo: «Bendito o Rei que vem em nome do Senhor. Paz no Céu e glória nas alturas!». Alguns fariseus disseram a Jesus, do meio da multidão: «Mestre, repreende os teus discípulos». Mas Jesus respondeu: «Eu vos digo: se eles se calarem, clamarão as pedras».
       2 – Quando as coisas parecem estar a correr (demasiado) bem, eis que Jesus lhes/nos revela um tempo de grande provação. Fá-lo na intimidade da casa e da refeição, com palavras e gestos já nossos conhecidos: “Tomai e reparti entre vós, pois digo-vos que não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o reino de Deus...”
       Os discípulos percebem que alguma coisa não está bem, mas ainda não sabem a dimensão das palavras de Jesus, que institui o memorial, antecipando no repartir do pão e do cálice, a Sua permanência no meio de nós, depois da Sua morte e ascensão para Deus. Ouvem Jesus a dizer que entre eles está alguém cujas intenções não são concordes com o Seu projeto. A casa começa a desfazer-se. Um deles levanta-se da mesa e sai de casa. Doravante a casa fica vulnerável, exposta, as portas não são forçadas, abrem-se por dentro.
       E quando o edifício começa a desmoronar-se, o espírito de sobrevivência vem ao de cima, procurando cada um safar-se quanto antes: “Levantou-se também entre eles uma questão: qual deles se devia considerar o maior?... O maior entre vós seja como o menor e aquele que manda seja como quem serve. Pois quem é o maior: o que está à mesa ou o que serve? Não é o que está à mesa? Ora Eu estou no meio de vós como aquele que serve...”
       No momento da Ceia, a última ou a primeira, Jesus clarifica de novo a opção pelo serviço: EU estou no meio de vós para servir e dar a vida. A disputa não é pelo poder, mas pelo amor.
       3 – A ceia avança, e as horas aceleram. É tempo de Jesus solidificar a adesão e o seguimento dos seus discípulos.
       Diz Jesus a Pedro: “Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos». Pedro respondeu-Lhe: «Senhor, eu estou pronto a ir contigo, até para a prisão e para a morte». Disse-lhe Jesus: «Eu te digo, Pedro: Não cantará hoje o galo, sem que tu, por três vezes, negues conhecer-Me». Depois de Jesus ser preso, Pedro não resistirá ao medo e à vergonha: «Esse homem, com certeza, também andava com Jesus, pois até é galileu». Pedro respondeu: «Homem, não sei o que dizes»... Por três vezes Pedro se coloca fora da comunhão com Jesus, contradizendo a predisposição manifestada quando está à mesa com Jesus e os companheiros.
       Com efeito, aos discípulos ainda lhes falta a maturidade do sofrimento e das contrariedades, as expetativas estão eivadas de sucesso e fama. Precisam de muita oração e de muito amor, de muita confiança em Deus. “Então saiu e foi, como de costume, para o monte das Oliveiras e os discípulos acompanharam-n’O. Quando chegou ao local, disse-lhes: «Orai, para não entrardes em tentação... Porque estais a dormir? Levantai-vos e orai, para não entrardes em tentação»...
       Das indicações de Jesus, a oração é a primeira. Pela oração fortalecemos as nossas escolhas diante de Deus e dos homens. Há tempo para tudo, não pode faltar tempo para Deus, para melhor acolhermos a Sua vontade e percebermos os caminhos que nos conduzem a Ele, e d’Ele para as pessoas que nos rodeiam.
       4 – Jesus sai do Jardim das Oliveiras e entra triunfalmente em Jerusalém. Agora de novo vai para o Jardim, para rezar, para Se configurar mais e mais à vontade de Deus. Leva os discípulos, para Se sentir apoiado. Mas eles dormem, estão demasiado ansiosos por todas as notícias que envolvem o Mestre. Ninguém aguenta a intensidade e a tensão dos acontecimentos presentes. O Mestre vai morrer. Ele sabe disso. Confessa-o aos discípulos. Não querem acreditar. É um disparate o Seu Senhor ser preso e morto. Não pode ser.
       “Judas, um dos Doze, aproximou-se de Jesus, para O beijar. Disse-lhe Jesus: «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do homem?».
       Ser traído é sempre mau. Ser traído por um amigo é uma calamidade. Ser traído pelo melhor amigo, o homem de confiança (de Jesus e dos outros discípulos) é inacreditável. O cumprimento de Judas a Jesus é o de um amigo próximo e confidente. Perdoa-lhes, Senhor, ele perdeu o juízo, não sabe o que está a fazer, a entregar à morte um inocente, o melhor amigo.
       Preso, açoitado, provocado, Jesus não responde com injúrias ou palavrões: «Tu és então o Filho de Deus?». Jesus respondeu-lhes: «Vós mesmos dizeis que Eu sou». Confirma apenas o que abertamente já tinha dito: EU SOU.
       Outra subida, para o Calvário, com a pesada CRUZ às costas, vergado pelo cansaço, pela desilusão, pelo desamparo dos discípulos, pelas acusações injustas, pelas vergastadas, pelas invetivas da multidão. São muitas horas…
       “Quando O conduziam, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas, para a levar atrás de Jesus. Seguia-O grande multidão de povo e mulheres que batiam no peito e se lamentavam, chorando por Ele”. Mesmo para pessoas menos atentas, a atitude de Jesus gera empatia, tanto sofrimento sem um lamento.
        É crucificado, e a postura é a mesma de sempre. De perdão: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem». De entrega confiante ao Pai: “O véu do templo rasgou-se ao meio. E Jesus exclamou com voz forte: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito». Dito isto, expirou”.
       Mas a história não acaba aqui. Há de continuar ao terceiro dia… no nosso dia.
       5 – Se a Cruz fosse a última palavra, e com ela a morte, não estaríamos a falar de Jesus, não estaríamos reunidos em Seu nome para escutar a Sua Palavra, atualizando os seus gestos, não estaríamos a partilhar o Seu Corpo para sermos mais Corpo de Cristo, Igreja viva.
         A Grande Semana é vivida sob a égide da esperança, Luz que irradia para além da cruz, do sofrimento e da morte. As nuvens carregadas que surgem sobre as nossas cabeças darão lugar à vida, à ressurreição, a Deus no meio de nós. A última palavra é de Deus.
       O profeta Isaías apresenta-se como discípulo, respondendo com amor a toda a ofensa. Nestas palavras se caracteriza a figura do servo sofredor, identificável com Jesus Cristo: “O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio”, ou como víamos na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, se os discípulos se calarem, as pedras falarão.
        Nesta hora e em todas as horas nublosas rezemos confiantes: “Senhor, não Vos afasteis de mim, sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me”.

Textos para a Eucaristia (ano C): Lc 19, 28-40; Is. 50, 4-7; Sl 21 (22); Filip 2, 6-11; Lc 22, 14 – 23, 56

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