terça-feira, 21 de agosto de 2018

São Pio X, Papa

Nota biográfica:
       Nasceu na aldeia de Riese, na região de Veneza, em 1835. Depois de ter desempenhado santamente o ministério sacerdotal, foi sucessivamente bispo de Mântua, patriarca de Veneza e papa eleito no ano 1903. Adoptou como lema do seu pontificado «Instaurare omnia in Christo», ideal que de facto orientou a sua acção pontifícia, na simplicidade de espírito, pobreza e fortaleza, dando assim um novo incremento à vida cristã na Igreja. Teve também de combater energicamente contra os erros que nela se infiltravam. Morreu no dia 20 de Agosto de 1914. 
Oração (de coleta):
       Senhor, que, para defender a fé católica e instaurar todas as coisas em Cristo, enchestes de sabedoria divina e de fortaleza apostólica o papa São Pio X, concedei que, seguindo os seus ensinamentos e exemplos, alcancemos a recompensa eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

BENTO XVI sobre o Predecessor São PIO X:

Giuseppe Sarto, este é o seu nome, nasceu em Riese (Treviso) em 1835 de uma família de camponeses e depois dos estudos no Seminário de Pádua foi ordenado sacerdote com 23 anos de idade. Primeiro foi vice-pároco em Tombolo, depois pároco em Salzano, em seguida cónego da catedral de Treviso, com o encargo de chanceler episcopal e director espiritual do Seminário diocesano. Nestes anos de rica e generosa experiência pastoral, o futuro Pontífice demonstrou aquele profundo amor a Cristo e à Igreja, a humildade e simplicidade e a grande caridade para com os mais necessitados, que constituíram características de toda a sua vida. Em 1884 foi nomeado Bispo de Mântua e em 1893 Patriarca de Veneza. No dia 4 de Agosto de 1903 foi eleito Papa, ministério que aceitou com hesitação, porque não se considerava à altura de uma tarefa tão importante.

O Pontificado de São Pio X deixou um sinal indelével na história da Igreja e caracterizou-se por uma notável esforço de reforma, resumida no mote Instaurare omnia in Christo, "Renovar tudo em Cristo". Com efeito as suas intervenções envolveram os vários âmbitos eclesiais. Desde o começo, dedicou-se à reorganização da Cúria romana; depois, deu início aos trabalhos para a redacção do Código de Direito Canónico, promulgado pelo seu Sucessor Bento XV. Sucessivamente, promoveu a revisão dos estudos e do percurso de formação dos futuros sacerdotes, fundando também vários seminários regionais, dotados de boas bibliotecas e professores preparados. Outro ramo importante foi o da formação doutrinal do Povo de Deus. Desde os anos em que era pároco, tinha redigido pessoalmente um catecismo e, durante o Episcopado em Mântua, trabalhara a fim de que se chegasse a um catecismo único, se não universal, pelo menos italiano. Como autêntico Pastor, compreendera que a situação nessa época, também devido ao fenómeno da emigração, tornava necessário um catecismo ao qual cada fiel pudesse fazer referência, independentemente do lugar e das circunstâncias de vida. Como pontífice, preparou um texto de doutrina cristã para a Diocese de Roma, depois se difundiu em toda a Itália e no mundo. Este Catecismo, chamado "de Pio X" foi para muitas pessoas uma guia segura na aprendizagem das verdades relativas à fé pela sua linguagem simples, clara e específica, e pela eficácia da sua exposição.

Ele dedicou uma atenção notável à reforma da Liturgia, de modo particular da música sacra, para levar os fiéis a uma vida de oração mais profunda e a uma participação mais completa nos Sacramentos. No Motu Proprio Tra le sollecitudini, de 1903, primeiro ano do seu Pontificado, ele afirma que o verdadeiro espírito cristão tem a sua fonte primária e indispensável na participação concreta nos mistérios sacrossantos e na oração pública e solene da Igreja (cf. AAS 36 [1903], 531). Por isso, recomendava a aproximação frequente dos Sacramentos, favorecendo a recepção diária da Sagrada Comunhão, bem preparados, e antecipando oportunamente a Primeira Comunhão das crianças mais ou menos aos sete anos de idade, "quando a criança começa a raciocinar" (cf. S. Congr. de Sacramentis, Decretum Quam singulari: AAS 2 [1910], 582).

Fiel à tarefa de confirmar os irmãos na fé, São Pio X, diante de algumas tendências que se manifestaram no âmbito teológico, no final do século XIX e no início do século XX, interveio com determinação, condenando o "Modernismo", para defender os fiéis de concepções erróneas e promover um aprofundamento científico da Revelação, em harmonia com a Tradição da Igreja. Em 7 de Maio de 1909, com a Carta Apostólica Vinea electa, fundou o Pontifício Instituto Bíblico. Os últimos meses da sua vida foram funestados pelos indícios da guerra. O apelo aos católicos do mundo, lançado a 2 de Agosto de 1914, para manifestar "a dor acerba" da hora presente, era o clamor de sofrimento do pai que vê os filhos pôr-se uns contra os outros. Faleceu pouco tempo depois, no dia 20 de Agosto, e a sua fama de santidade começou a difundir-se imediatamente no meio do povo cristão.

Caros irmãos e irmãs, São Pio X ensina-nos a todos que na base da nossa obra apostólica, nos vários campos em que trabalhamos, deve haver sempre uma íntima união pessoal com Cristo, que se há-de cultivar e aumentar dia após dia. Eis o cerne de todo o seu ensinamento, de todo o seu compromisso apostólico. Somente se formos apaixonados pelo Senhor, seremos capazes de conduzir os homens a Deus, de os abrir ao seu Amor misericordioso e, deste modo, de abrir o mundo à misericórdia de Deus.
Para mais informações sobre Pio X veja aqui!

sábado, 18 de agosto de 2018

Domingo XX do Tempo Comum - ano B - 19.agosto.2018

Deixai que as crianças se aproximem de Mim

       Apresentaram umas crianças a Jesus, para que lhes impusesse as mãos e orasse sobre elas. Mas os discípulos afastavam-nas. Então Jesus disse: «Deixai que as crianças se aproximem de Mim; não as estorveis. Dos que são como elas é o reino dos Céus». A seguir, impôs as mãos sobre as crianças e partiu dali ( Mt 19, 13-15).
        Jesus quebra mais um preconceito: no seu tempo, as mulheres e as crianças não faziam número, não contavam, apenas os homens. Em alguns episódios sublinha-se esta realidade como por exemplo na multiplicação, em que o autor sagrado refere que eram cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. As crianças, embora estimadas pelos judeus, só contavam a partir da adolescência, na idade em que se iniciavam no judaísmo, por volta dos 12/13 anos. Outra das razões, é que havia uma mortalidade infantil muito grande e, por conseguinte, a vida da criança estaria incerta e a breve prazo.
       No entanto, Jesus diz claramente aos seus discípulos e às multidões que as crianças também fazem parte do Seu reino. Mais, a sua simplicidade e transparência são um exemplo de como os adultos se devem colocar diante do Reino de Deus e do Evangelho.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Santa Beatriz da Silva

Nota biográfica:
       Nasceu em Campo Maior, no ano de 1437, filha de pais portugueses, Dr. Rui Gomes da Silva, Alcaide Mor da vila de Campo Maior e Ouguela e de Dona Isabel de Menezes, que por sua vez era filha de D. Pedro de Menezes, Governador da Praça de Ceuta, nessa altura pertencente à coroa dos reis de Portugal. Era uma família cristã, da primeira nobreza, aparentados com a família real. A família teve onze filhos. Em 1447, como Dama de Honor da Infanta D. Isabel de Portugal, passou a integrar as Cortes de Castela. Para viver mais profundamente a sua fé, retirou-se da corte para o mosteiro de Toledo, onde esteve mais de 30 anos.
       Em 1484, fundou o Instituto que mais tarde viria a assumir o nome de Imaculada Conceição de Nossa Senhora (Concepcionitas), aprovado pelo Papa Inocêncio VIII, em 1489. Pouco depois da sua profissão religiosa, em 9 de Agosto de 1492, em Toledo, morreu com a fama de santidade. Foi canonizada em 3 de Outubro de 1976, pelo Papa Paulo VI.

Oração (de coleta):
       Senhor nosso Deus, que fizestes resplandecer na virgem Santa Beatriz o altíssimo dom da contemplação e a adornastes com a singular devoção à Imaculada Conceição da Virgem Maria, concedei-nos que, seguindo o seu exemplo, busquemos na terra a verdadeira sabedoria para merecermos contemplar no Céu a glória do vosso rosto. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Perdoar 70 X 7 (= SEMPRE)

Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete (Mt 18, 21 – 19, 1).

       O Evangelho de hoje, mostra-nos como Jesus dá a Pedro uma resposta inequívoca, sublinhada pelo contexto judaico. Perdoar uma vez tolera-se. Perdoar duas vezes já é abuso. Perdoar três vezes é quebrar a cara, é humilhar-se, rebaixar-se. Ora, quando Pedro pergunta a Jesus se deve perdoar até sete vezes, isto é, se deve perdoar sempre, Jesus multiplica-lhe a equação, para que não restem dúvidas, perdoar sempre, em todas as circunstâncias, em todos os momentos.
       Pedro vê-se a si mesmo como pessoa generosa ao elevar a fasquia do perdão. Jesus leva o raciocínio até ao infinito, lembrando, através da parábola que conta de seguida:

O reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te, porque me pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’. E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração». 

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Assunção da Virgem Santa Maria - 15 de agosto de 2018

São Maximiliano Kolbe, presbítero e mártir

Nota Biográfica:
       Maximiliano Maria Kolbe nasceu no dia 8 de Janeiro de 1894, na Polónia.
       Foi ordenado sacerdote em 1918, em Roma.
       Foi por essa altura (1917) que fundou a Milícia da Imaculada. Depois de ordenado regressou à Polónia, a Cracóvia.
       Após abrigar muitos refugiados, entre os quais cerca de 2000 judeus, é preso em 17 de Fevereiro de 1941, pela Gestapo e transferido para Auschwitz em 25 de Maio como prisioneiro com o número 16670.
       Quando em Julho de 1941, um prisioneiro do bunker, onde se encontrava Kolbe, foge os nazis, como represália, enviam 10 outros prisioneiros para uma cela isolada até morrerem de fome e sede. Mais tarde o prisioneiro fugitivo é encontrado morto, afogado numa latrina.
       Um dos dez prisioneiros escolhidos para morrer lamenta-se pela família que deixa, dizendo que tem mulher e filhos. O padre Kolbe pede então para tomar o seu lugar e o seu pedido é aceite.
       Passadas duas semanas, apenas quatro dos dez homens sobrevivem, entre os quais Kolbe. Os guardas nazis executam-nos com uma injecção de ácido carbónico. Estávamos a 14 de Agosto de 1941.
       O corpo de Maximiliano Kolbe foi cremado e suas cinzas atiradas ao vento, realizando assim o seu desejo: “Quero ser reduzido a pó pela Imaculada e espalhado pelo vento do mundo”.
       No dia 17 de Outubro de 1979, é beatificado pelo Papa Paulo VI.
       No dia 10 de Outubro de 1982, é canonizado pelo Papa João Paulo II, como mártir da caridade, na presença de Franciszek Gajowniczek, que foi substituído por Kolbe e que sobreviveu aos horrores de Auschwitz.

Oração (de colecta):
       Deus de infinita bondade, que inspirastes a São Maximiliano Maria, presbítero e mártir, uma ardente devoção à Virgem Imaculada e o fortalecestes no zelo das almas e no amor ao próximo, concedei-nos, por sua intercessão, que, trabalhando generosamente pela vossa glória ao serviço dos homens, possamos conformar-nos até à morte com vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Das Cartas de S. Maximiliano Maria Kolbe, presbítero e mártir

O zelo apostólico  pela salvação e santificação das almas (1971)

Sinto grande alegria, querido irmão, pelo teu ardente zelo pela glória de Deus. Nos nossos tempos, infelizmente, vemos com tristeza propagar-se sob várias formas uma certa epidemia, a que chamam “indiferentismo”, não só entre os leigos mas também entre os religiosos. No entanto, porque Deus é digno de infinita glória, o nosso primeiro e mais importante objetivo é promover a sua glória, tanto quanto pode a nossa humana fraqueza, embora nunca possamos prestar Lhe a glória que Ele merece, dado que somos frágeis criaturas.
Uma vez, porém, que a glória de Deus resplandece sobretudo na salvação das almas que Cristo resgatou com o seu próprio sangue, o principal e mais profundo empenho da vida apostólica deve ser o de procurar a salvação do maior número de almas e a sua mais perfeita santificação. Sobre o caminho mais apto para este fim, isto é, para promover a glória divina e a santificação das almas, poucas palavras direi. Deus, que na sua infinita ciência e sabedoria conhece perfeitamente o que devemos fazer em todas as circunstâncias para promover a sua maior glória, manifesta-nos normalmente a sua vontade através dos seus representantes na terra.
É a obediência, e só ela, que nos manifesta com certeza a vontade divina. É possível que o superior cometa um erro, mas não é possível que nós, seguindo a obediência, sejamos induzidos em erro. A única excepção para não obedecer seria quando o superior mandasse alguma coisa que implicasse claramente uma transgressão da lei divina, por mais pequena que seja: nesse caso ele não seria intérprete fiel da vontade de Deus.
Só Deus é infinito, sapientíssimo, santíssimo; só Deus é Senhor clementíssimo, nosso Criador e nosso Pai, princípio e fim, sabedoria, poder e amor; Deus é tudo isto. Portanto, tudo o que se encontra fora de Deus, tudo o que não é Deus, só tem valor na medida em que se refere a Ele, que é o Criador de todas as coisas e o Redentor dos homens, o fim último de toda a criação. É Ele de facto que nos manifesta a sua adorável vontade por meio dos seus representantes na terra e nos atrai a Si, querendo também por meio de nós atrair as almas e uni las a Si na mais perfeita caridade.
Vê, irmão, como é grande, pela misericórdia de Deus, a dignidade da nossa condição. Pela obediência, apesar dos limites da nossa pequenez, como que nos transcendemos, conformando-nos à vontade divina, que, na sua infinita sabedoria e prudência, nos dirige para procedermos rectamente. Mais: aderindo à vontade de Deus, a que nenhum ser criado pode resistir, tornamo-nos mais fortes que todas as coisas.
É este o caminho da sabedoria e da prudência; é este o único caminho pelo qual podemos dar maior glória a Deus. Se houvesse outro caminho mais apto, Cristo no-lo teria certamente manifestado com a sua palavra e o seu exemplo. Mas a Escritura divina resume a sua vida, durante a longa permanência em Nazaré, com estas palavras: Era-lhes submisso; e insinua claramente que o resto da sua vida se passou sob o signo da obediência, declarando a cada passo que desceu à terra para fazer a vontade do Pai.
Amemos, portanto, irmãos, amemos com todo o coração o amantíssimo Pai celeste, e seja a nossa obediência a prova real desta caridade perfeita, que deve pôr se em prática sobretudo quando se nos pede o sacrifício da própria vontade. De facto, para progredir no amor de Deus, não conhecemos livro mais sublime que Jesus Cristo crucificado.
Tudo isto o alcançaremos mais facilmente por intermédio da Virgem Imaculada, a quem Deus, com infinita bondade, tornou dispenseira da sua misericórdia. Não há dúvida alguma de que a vontade de Maria é para nós a própria vontade de Deus. Se a ela nos consagramos, como instrumentos nas suas mãos, como ela o foi nas mãos de Deus, tornamo nos verdadeiramente instrumentos da misericórdia divina. Deixemo-nos portanto, dirigir por ela, deixemo-nos conduzir por ela, e fiquemos tranquilos e seguros sob o seu amparo: ela própria olhará por nós em todas as coisas, ela tudo providenciará; ela nos socorrerá prontamente nas necessidades de corpo e alma, ela nos livrará de todas as angústias e dificuldades.
Pode ver mais informação no blogue aqui.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Os filhos estão isentos de imposto!

          Disse Jesus aos Apóstolos: «O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens, que hão-de matá-l’O; mas Ele ao terceiro dia ressuscitará». Os discípulos ficaram profundamente consternados. Quando chegaram a Cafarnaum, os cobradores das didracmas aproximaram-se de Pedro e perguntaram-lhe: «O vosso Mestre não paga a didracma?». Pedro respondeu-lhes: «Paga, sim». Quando chegou a casa, Jesus antecipou-Se e disse-lhe: «Simão, que te parece? De quem recebem os reis da terra impostos ou tributos? Dos filhos ou dos estranhos?». E como ele respondesse que era dos estranhos, Jesus disse-lhe: «Então os filhos estão isentos. Mas para não os escandalizarmos, vai ao mar e deita o anzol. Apanha o primeiro peixe que morder a isca, abre-lhe a boca e encontrarás um estáter. Pega nele e paga-lhes o imposto por Mim e por ti» (Mt 17, 22-27).
       O Evangelho proposto para hoje tem duas partes distintas: a primeira contém o anúncio da Paixão e da Ressurreição de Jesus; a segunda parte apresenta um discussão que contrapõe a fé e a religião.
       No primeiro momento, a caminho da Galileia, Jesus declara com clareza que vai chegar um tempo difícil em que será entregue nas mãos dos homens, será morto, mas ressuscitará ao terceiro dia. Como se esperava, a reacção dos Apóstolos centra-se exclusivamente na morte do Seu Mestre, ainda que Ele também anuncie a ressurreição.
       No segundo momento, alguém se abeira dos Apóstolos para subrepticiamente para lhes dizer que Jesus não pagou o imposto do Templo, como que a sugerir que Jesus se está a fazer de esquecido. A resposta do Apóstolo Pedro é célere. E Jesus antecipa-se e logo que chega a casa dá ordem a Pedro para tratar do pagamento.
       Antes, contudo, deixa claro que a fé não é negociável, e diante de Deus, como filhos, todos recebem gratuitamente. Só os estranhos pagam imposto. Se somos de Deus, se somos Seus filhos, Ele dá-nos a vida e a ferramenta para vivermos em abundância.

sábado, 11 de agosto de 2018

Domingo XIX do Tempo Comum - ano B - 12.08.2018

Santa Clara, Virgem

Nota biográfica:
       Nasceu em Assis no ano 1193. Imitando o exemplo do seu concidadão Francisco, seguiu o caminho da pobreza e fundou a Ordem monástica (Clarissas). A sua vida foi de grande austeridade, mas rica em obras de caridade e de piedade.
        Em 1212, dá-se o encontro São Francisco de Assis. Tocada pela pregação do santo, esta jovem rica de Assis, procurou-o e pediu-lhe que a deixasse seguir esta nova forma de vida. Tinha 18 anos. Permaneceu durante algum tempo com as monjas beneditinas, mas logo o santo arranjou um lugar, para Clara, para Santa Inês, sua irmã, e para outras virgens piedosas. A casa reconstruída por São Francisco, doada pelos beneditinos, serviu de mosteiro à Segunda Ordem Franciscana das Damas Pobres, atualmente Clarissas Pobres.
       Morreu em 1253.

Oração (de Coleta):
       Senhor, que na vossa infinita misericórdia inspirastes a Santa Clara um profundo amor à pobreza evangélica, concedei, por sua intercessão, que seguindo a Cristo na pobreza espiritual, mereçamos um dia contemplar Vos no reino dos Céus. Por Nosso Senhor.
Imita a pobreza, a humildade e a caridade de Cristo
(Da Carta de Santa Clara, virgem, à Beata Inês de Praga)
       Feliz de quem pode gozar as delícias do sagrado banquete e unir-se intimamente ao coração de Cristo, cuja beleza os Anjos admiram sem cessar, cujo afecto atrai os corações, cuja contemplação nos reconforta, cuja benignidade nos sacia, cuja suavidade enche a alma, cuja lembrança nos inunda de luz suave, cuja fragrância ressuscita os mortos, cuja visão gloriosa constitui a felicidade de todos os habitantes da Jerusalém celeste. Ele é o esplendor da luz eterna, o espelho puríssimo da acção divina. Olha continuamente para este espelho, rainha e esposa de Cristo; contempla nele o teu rosto e procura adornar te interior e exteriormente com as mais variadas flores das virtudes e com as vestes formosas que convêm à filha e à esposa castíssima do Rei dos reis.
       Neste espelho se reflecte esplendidamente a ditosa pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como podes observar, com a graça de Deus, em todas as suas partes. Ao começo do espelho, repara na pobreza d’Aquele que foi colocado no presépio e envolvido em panos. Oh admirável humildade, oh espantosa pobreza! O Rei dos Anjos, o Senhor do céu e da terra deitado num presépio! No centro do espelho, observa como a humildade, ou a santa pobreza, suporta tantos trabalhos e tormentos para remir o género humano. E no fim do espelho, contempla a caridade inefável que O levou à cruz e à morte mais infamante.
       Por isso o próprio espelho, suspenso na cruz, exortava os transeuntes a considerar estas coisas, dizendo: Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor semelhante à minha dor.
       Respondamos nós aos seus clamores e gemidos, com uma só alma e um só coração: A minha alma sempre o recorda e desfalece de tristeza dentro de mim. Abrasa-te cada vez mais neste amor, ó rainha do Rei celeste.
       Contempla ao mesmo tempo as delícias inefáveis do Rei dos Céus e as suas riquezas e honras perpétuas e, suspirando de amor ardente, proclama no íntimo do teu coração: Leva-me contigo; correrei seguindo o aroma dos teus perfumes, ó Esposo celeste. Correrei sem desfalecer, até que me introduzas na sala do festim, até que na tua mão esquerda descanse a minha cabeça e a tua direita me abrace com terno amor.
       No meio destas piedosas contemplações, lembra te desta pobrezinha, tua mãe, sabendo que te levo inseparavelmente gravada no meu coração como filha predilecta.
Veja o vídeo que se segue sobre Santa Clara de Assis:

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

São Lourenço, Diácono e Mártir

Nota biográfica:
          É tido como o "Príncipe dos Mártires".
       Morreu a 10 de Agosto de 258, na perseguição do imperador romano. Era diácono, responsável por administrar os bens da Igreja de Roma. No dia 6 de Agosto, desse ano, foi morto o Papa Sisto II, juntamente com quatros diáconos. Os perseguidores prenderam Lourenço, poupando-lhe temporariamente a vida, com o fito de ele lhes entregar os bens da Igreja.
       Pede alguns dias, ao juiz, para reunir os tesouros da Igreja. Apresenta-se com pobres, doentes, indigentes, assistidos pela Igreja: "Eis aqui os nossos tesouros, que nunca diminuem e podem ser encontrados em toda parte".
          Foi queimado vivo numa grelha.
       É o terceiro padroeiro de Roma, depois de Pedro e Paulo. Os restos mortais encontram-se na Igreja de São Lourenço, extra-muros.
Oração de Colecta:
       Senhor nosso Deus, que inflamastes no fogo da caridade o bem-aventurado São Lourenço e o fizestes resplandecer na fidelidade ao serviço da Igreja e na glória do martírio, fazei-nos amar o que ele amou e praticar o que ele ensinou. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Administrou o sagrado Sangue de Cristo
(Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo, Sermão 304, 1-4: PL 38, 1-395-1397. Sec. V)
       A Igreja Romana convida-nos hoje a celebrar o triunfo de São Lourenço, que, desprezando as ameaças e as seduções do mundo, venceu a perseguição do demónio. Exercia nessa Igreja de Roma, como sabeis, as funções de diácono. Aí administrou o sagrado Sangue de Cristo; aí derramou o seu sangue pelo nome de Cristo.
       O bem-aventurado apóstolo São João expôs claramente o mistério da Ceia do Senhor, dizendo: Como Cristo deu a sua vida por nós, também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos. Assim compreendeu São Lourenço; assim o compreendeu e realizou: o que tinha recebido naquela mesa, isso mesmo ofereceu. Amou a Cristo na sua vida, imitou O na sua morte.
       Portanto, também nós, irmãos, se realmente O amamos, imitemo l’O. A melhor prova que podemos dar do nosso amor é imitar o seu exemplo. Na verdade, Cristo sofreu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigamos os seus passos. Estas palavras do apóstolo São Pedro parecem dar a entender que Cristo só sofreu por aqueles que seguem os seus passos e que a paixão de Cristo de nada aproveita senão àqueles que O seguem. Seguiram-n’O os santos mártires até ao derramamento de sangue, à semelhança da sua paixão. Seguiram-n’O os mártires, mas não só eles. Não foi cortada a ponte depois de eles terem passado; não secou a fonte depois de eles terem bebido.
       Aquele jardim do Senhor, meus irmãos, não só tem as rosas dos mártires, mas também os lírios das virgens, as heras dos esposos e as violetas das viúvas. Nenhuma classe de pessoas, irmãos caríssimos, deve menosprezar a sua vocação. Cristo sofreu por todos. Com toda a verdade está escrito a este propósito: Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.
       Entendamos, portanto, como deve o cristão seguir a Cristo, mesmo sem ter de derramar o seu sangue, sem ter de suportar o martírio. Diz o Apóstolo, referindo-se a Cristo nosso Senhor: Ele, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus. Oh sublime majestade! Mas aniquilou-Se a Si próprio, assumindo a condição de servo, tornando-Se semelhante aos homens e aparecendo como homem. Oh profunda humildade!
       Cristo humilhou-Se: aqui tens, cristão, o que deves imitar. Cristo obedeceu: como podes orgulhar-te? E depois de ter passado semelhante humilhação e de ter vencido a morte, Cristo subiu ao Céu: sigamo l’O. Ouçamos o que diz o Apóstolo: Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Santa Teresa Benedita da Cruz, Virgem e Mártir

Nota Biográfica:
       Edith Stein, filha de pais judeus, nasceu em Breslau no dia 12 de Outubro de 1891. O pai era comerciante de madeiras e morreu antes de Edith ter completado os 2 anos. A mãe, mulher muito religiosa, solícita e voluntariosa, assumiu todo o cuidado da família, mas não conseguiu manter nos filhos uma fé viva.
      Edith dedica-se então a uma vida de estudos na Universidade de Breslau tendo como meta a Filosofia. Os anos de estudos passam até que, no ano de 1921, Edith visita um casal convertido ao Evangelho. Na biblioteca deste casal ela encontra a autobiografia de Santa Teresa de Ávila. Edith lê o livro durante toda a noite. "Quando fechei o livro, disse para mim própria: é esta a verdade", declarou ela mais tarde.
     Tendo-se dedicado aos estudos filosóficos, empenhou-se perseverantemente na procura da verdade, até que encontrou a fé em Deus e se converteu à Igreja Católica. Foi baptizada no dia 1 de janeiro de 1922. Desde então serviu a Deus na função de professora e escritora. Agregada às irmãs carmelitas em 1933 com o nome Teresa Benedita da Cruz por ela escolhido, dedicou a sua vida ao serviço do povo judaico e do povo alemão. Deixando a Alemanha por causa da perseguição aos Judeus, foi recebida a 31 de dezembro de 1938 no convento das carmelitas de Echt (Holanda). No dia 2 de Agosto de 1942 foi presa pelas autoridades que exerciam o poder aterrador na Alemanha e enviada para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau (Polónia), destinado ao genocídio do povo judaico. Aí foi cruelmente morta no dia 9 de Agosto, com 51 anos de idade.
     Tinha sido discípula e depois assistente de Edmund Husserl, o fundador da fenomenologia.
       Foi beatificada a 1 de Maio de 1987, e canonizada a 11 de Outubro de 1998, pelo Papa João Paulo II. É uma das padroeiras da Europa, juntamente com Santa Brígida e Santa Catarina de Sena.
       “Como cristã e judia, ela aceitou a morte com o seu povo e para o seu povo, que era visto como o lixo da nação alemã”, referiu Bento XVI, aquando da uma visita histórica ao complexo de Auschwitz, em 2006.
Oração:
       Senhor, Deus dos nossos pais, que conduzistes a mártir Teresa Benedita ao conhecimento do vosso Filho crucificado e à sua imitação até à morte, concedei, pela sua intercessão, todos os homens conheçam o Salvador, Jesus Cristo, e por Ele cheguem perpétua visão do vosso rosto. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Cristo tomou sobre Si o jugo da Lei, cumprindo plenamente a Lei e morrendo pela Lei e através da Lei. Assim libertou da Lei aqueles que querem receber d’Ele a vida. Mas eles sabem que só poderão recebê-la se ofereceram a sua própria vida. Porque os que foram baptizados em Cristo foram baptizados na sua morte. Submergiram-se na vida de Cristo, para se tornarem membros do seu Corpo, destinados a sofrer e morrer com Ele, mas também a ressuscitar com Ele para a vida eterna, a vida divina.
Para nós, evidentemente, esta vida atingirá a sua plenitude no Dia do Senhor. Contudo, já desde agora – «na carne» – participamos da sua vida quando acreditamos: acreditamos que Cristo morreu por nós para nos dar a sua vida. É esta fé que nos permite ser uma só realidade com Ele, como os membros com a cabeça, e nos abre a torrente da sua vida. Assim, esta fé no Crucificado – a fé viva, que está associada ao vínculo do amor – constitui para nós a entrada na vida e o princípio da futura glorificação. Por isso a cruz é o nosso único título de glória: Longe de mim gloriar-me, senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Quem decidiu aderir a Cristo morreu para o mundo e o mundo para ele. Leva no seu corpo os estigmas do Senhor. É débil e desprezado perante os homens; mas por isso mesmo é forte, porque na fraqueza se manifesta o poder de Deus.
Tendo consciência disto, o discípulo de Jesus aceita não somente a cruz que lhe é imposta, mas crucifica-se a si mesmo: os que são de Cristo crucificaram a sua carne com as suas paixões e concupiscências. Suportaram um combate implacável contra a sua natureza, a fim de que morra neles a vida do pecado e dê lugar à vida do espírito. Porque é esta que importa.
Contudo a CRUZ não é um fim em si mesma: ela eleva-nos para as alturas e revela-nos as realidades superiores. Por isso ela não é somente um símbolo; ela é a arma poderosa de Cristo; é o cajado de pastor com que o divino David sai ao encontro do David infernal e com o qual bate fortemente à porta do Céu e a abre. Então brotam as torrentes da luz divina que envolvem todos aqueles que seguem o Crucificado.
(Edith Steins Werke, ed. L. Gelber - R. Leuven, T. I, Freiburg 1983, pp. 15-16)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

São Domingos de Gusmão, Presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu em Caleruega (Espanha) cerca do ano 1170. Estudou Teologia em Palência e foi nomeado cónego da Igreja de Osma. Por meio da sua pregação e do exemplo da sua vida combateu com grande êxito a heresia dos Albigenses. Com os companheiros que aderiram a esta empresa fundou a Ordem dos Pregadores. Morreu em Bolonha no dia 6 de Agosto de 1221.
Oração de coleta:
       Venha, Senhor, em auxílio da vossa Igreja São Domingos, ilustre pregador da verdade, para que sejamos sempre iluminados pela sua doutrina e protegidos pela sua intercessão. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Falava com Deus ou de Deus:
       Era tão admirável na vida de Domingos a santidade de costumes e o fervor do espírito que todos viam nele um instrumento escolhido da graça divina. A sua tranquilidade e firmeza de ânimo apenas se alterava pelos sentimentos de compaixão e de misericórdia. A alegria de coração transparecia na jovialidade do seu rosto, revelando a paz e harmonia da sua vida interior.
       Em toda a parte se mostrava, nas palavras e nas obras, como um homem do Evangelho. Durante o dia, no trato com os irmãos e companheiros, ninguém era mais simples e agradável. Durante as horas da noite, ninguém era mais assíduo em vigílias e orações. Raramente falava, a não ser de Deus, ou com Deus na oração, e exortava os seus irmãos a fazerem o mesmo.
       Uma coisa pedia a Deus com especial insistência: que Se dignasse conceder lhe uma verdadeira caridade, que o levasse a trabalhar eficazmente para a salvação dos homens, consciente de que só seria verdadeiramente membro de Cristo, quando se dedicasse com todas as suas forças à salvação das almas, como o Salvador de todos nós, o Senhor Jesus, que totalmente Se ofereceu para nossa salvação. Com esta finalidade, fundou a Ordem dos Pregadores, que era um projecto em que meditava profundamente já há muito tempo.
       Com frequência exortava de palavra e por cartas os irmãos desta Ordem para que sempre se aplicassem ao estudo do Novo e do Antigo Testamento. Trazia sempre consigo o Evangelho de São Mateus e as Epístolas de São Paulo, e tanto as estudava que quase as sabia de cor.
       Por duas ou três vezes foi eleito bispo, mas sempre recusou, preferindo viver em pobreza com os seus irmãos, a governar uma diocese. Conservou intacta até ao fim a glória da sua pureza. Desejava ser flagelado e despedaçado e martirizado pela fé de Cristo. A seu respeito afirmou Gregório IX: «Conheci um homem tão fiel cumpridor das regras apostólicas que não duvido estar agora no Céu, associado à glória dos mesmos Apóstolos».
(De escritos diversos da História da Ordem dos Pregadores. Libellus de principiis O.P.: Acta Canonizationis S. Dominici: Monum. O. P. Mist. 16, Romae, 1935; pp. 30 ss., 146-147, do sec. XIII)

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Homem de pouca fé, porque duvidaste?

       Na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se, pensando que fosse um fantasma. E gritaram cheios de medo. Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais». Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas». «Vem!» – disse Jesus. Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas, para ir ter com Jesus. Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: «Salva-me, Senhor!». Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. Depois disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?». Logo que subiram para o barco, o vento amainou. Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus» (Mt 14, 22-36).
       No meio da tempestade, em mar alto e revolto, Jesus estende-nos a mão para não cairmos.
       Por um lado, Deus é o Senhor do dia e da noite, do mar e da terra, é o soberano de toda a criação. Ainda que as forças da natureza tenha dinâmicas próprias, neste episódio Jesus sublinha que a última palavra é de Deus e por isso a vida deverá ser encarada numa lógica de confiança. São as palavras do próprio Jesus: não temais, tende confiança.
       Quantas vezes perdemos o pé? Tantas situações que não acreditamos, em que as dúvidas são demasiados porque as situações da vida são adversas. E, para lá das complicações da vida, a insegurança e o medo ainda acentuam mais os problemas e por vezes afundamos mesmo. Jesus estende-nos a mão. Só n'Ele encontramos refúgio e segurança, no meio do mar das nossas vidas. Só n'Ele as inquietações e as preocupações da vida não nos despedaçam.
       Por vezes basta-nos a humildade de Pedro para também nós nos socorrermos de Jesus: «Salva-me, Senhor!».

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

TRANSFIGURAÇÃO do SENHOR - ano B

Nota Histórica:
       A festa da Transfiguração, celebrada no Oriente desde o século V e no Ocidente a partir de 1457, faz-nos reviver um acontecimento importante da vida de Jesus, com reflexos na nossa vida.
       Situada antes do anúncio da Paixão e da Morte, a Transfiguração foi uma manifestação da vida divina, que está em Jesus. A luz do Tabor é, porém, uma antecipação do esplendor, que encherá a noite da Páscoa. Por isso, os Apóstolos, contemplando a glória divina na Pessoa de Jesus, ficaram preparados para os dolorosos acontecimentos, que iriam pôr à prova a sua fé. Vendo Jesus na Sua condição de servo, já não poderão esquecer a Sua condição divina.
       Anúncio da Páscoa, a Transfiguração encerra também uma promessa – a da nossa transfiguração. Jesus, com efeito, fez transparecer na Sua Humanidade a glória de que resplandecerá o seu Corpo Místico, a Igreja, na Sua vinda final.
       A nossa vida cristã é, pois, um processo de lenta transformação em Cristo. Iniciado no nosso Baptismo, completa-se na Eucaristia, «penhor da futura glória», que opera a nossa transformação, até atingirmos a imagem de Cristo glorioso.

"Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas:  uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados. Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém,  a não ser Jesus, sozinho com eles. Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos" (ano B: Mc 9, 2-10).
       Ao longo da Sua vida pública, Jesus faz com que os Seus discípulos experimentem as mais diversas situações. Nem tudo será agradável. Haverá momentos dolorosos. Aliás, um pouco antes da Transfiguração Jesus anuncia um futuro mais ou menos negro, pelo menos humanamente falando. Vai ser entregue nas mãos das autoridades, vai ser morto... No meio da tristeza e desilusão por parte dos seus mais próximos seguidores, Jesus dá-lhes uma garantia, mostra-lhes o Céu. Esta antecipação mostra a divindade de Jesus, para de novo assumir a nossa humanidade com toda a crueza que a limitação e a finitude podem envolver. O seu destino é mortal, é como o de todos os mortais. Vai passar pela mesma provação. Aqui, Jesus mostra claramente àqueles apóstolos que a última palavra há de ser de Deus, da Vida nova...
       Importa, em todas as situações, escutar a Sua voz. É a voz do Pai de entre as nuvens que ressoa por todo o universo e que garante a eternidade para todos os que acreditarem n'Aquele que Ele enviou ao mundo, o Seu Filho muito amado.

sábado, 4 de agosto de 2018

Domingo XVIII do Tempo Comum - ano B - 5 de agosto de 2018

São João Maria Vianney, presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu em Lião no ano 1786. Depois de superar muitas dificuldades, pôde ser ordenado sacerdote. Tendo-lhe sido confiada a paróquia de Ars, na diocese de Belley, o santo promoveu nela admiravelmente a vida cristã, por meio duma eficaz pregação, com a mortificação, a oração e a caridade. Revelou especiais qualidades na administração do sacramento da Penitência e na direcção espiritual, e por isso acorriam fiéis de todas as partes para escutar os seus santos conselhos. Morreu em 1859.
Oração (de coleta):
       Deus omnipotente e misericordioso, que fizestes de São João Maria Vianney um sacerdote admirável no zelo pastoral, concedei-nos, que, imitando o seu exemplo, ganhemos para Vós no amor de Cristo os nossos irmãos e com eles alcancemos a glória eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Da Catequese de São João Maria Vianney, presbítero

Belo dever do homem: Orar e amar

Prestai atenção, meus filhos: o tesouro do homem cristão não está na terra, mas no Céu. Por isso, o nosso pensamento deve voltar-se para onde está o nosso tesouro.
O homem tem este belo dever e obrigação: orar e amar. Se orais e amais, tendes a felicidade do homem sobre a terra.
A oração não é outra coisa senão a união com Deus. Quando alguém tem o coração puro e unido a Deus, experimenta em si mesmo uma certa suavidade e doçura que inebria e uma luz admirável que o circunda. Nesta íntima união, Deus e a alma são como dois pedaços de cera, fundidos num só, de tal modo que ninguém mais os pode separar. Como é bela esta união de Deus com a sua pequena criatura! É uma felicidade que supera toda a compreensão humana.
Nós tornámo-nos indignos de orar; mas Deus, na sua bondade, permite-nos falar com Ele. A nossa oração é o incenso que mais Lhe agrada.
Meus filhos, o vosso coração é pequeno, mas a oração dilata-o e torna-o capaz de amar a Deus. A oração faz-nos saborear antecipadamente a suavidade do Céu, é como se alguma coisa do Paraíso descesse até nós. Ela nunca nos deixa sem doçura; é como o mel que se derrama sobre a alma e faz com que tudo nos seja doce. Na oração bem feita desaparecem as dores, como a neve aos raios do sol.
Outro benefício nos traz a oração: o tempo passa depressa e com tanto prazer que não se sente a sua duração. Escutai: quando era pároco em Bresse, em certa ocasião tive de percorrer grandes distâncias para substituir quase todos os meus colegas, que estavam doentes; e podeis estar certos disto: nessas longas caminhadas rezava ao bom Deus e o tempo não me parecia longo.
Há pessoas que se submergem profundamente na oração, como os peixes na água, porque estão completamente entregues a Deus. O seu coração não está dividido. Oh como eu amo estas almas generosas! São Francisco de Assis e Santa Coleta viam Nosso Senhor e conversavam com Ele do mesmo modo que nós falamos uns com os outros.
Nós, pelo contrário, quantas vezes vimos para a igreja sem saber o que havemos de fazer ou que pedir! No entanto, sempre que vamos ter com algum homem, sabemos perfeitamente o motivo por que vamos. Mais: há pessoas que parecem falar a Deus deste modo: «Só tenho a dizer-Vos duas palavras para ficar despachado...». Muitas vezes penso: Quando vimos para adorar a Deus, conseguiríamos tudo o que pedimos se pedíssemos com fé viva e coração puro.
Sobre o Santo Cura d'Ars, no âmbito do Ano Sacerdotal, clique aqui.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Não é Ele o filho do carpinteiro?

       Jesus foi à sua terra e começou a ensinar os que estavam na sinagoga, de tal modo que ficavam admirados e diziam: «De onde Lhe vem esta sabedoria e este poder de fazer milagres? Não é Ele o filho do carpinteiro? A sua Mãe não se chama Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs não vivem entre nós? De onde Lhe vem tudo isto?». E estavam escandalizados com Ele. Mas Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra e em sua casa». E por causa da falta de fé daquela gente, Jesus não fez ali muitos milagres (Mt 13, 54-58).
       Surpresa admirável, Jesus na sua terra, em Nazaré, onde cresceu, e se inseriu na comunidade social, cultural e religiosa. Chegada a hora, Jesus sai e vai por aldeias e cidades para a anunciar o Reino de Deus. Nazaré não poderia ficar para trás. Imaginemos, a viagem de João Paulo II à Polónia, de Bento XVI à Alemanha, e do Papa Francisco à Argentina! A reação primeira será de júbilo, o bom filho à casa volta. Também assim com Jesus. Vai à Sinagoga e a reação é de admiração, entusiasmo. Pelo Evangelho se vê que havia notícias que tinha chegado antes d'Ele, de milagres realizados, de multidões.
       Mas por vezes, ao tempo de Jesus como nas nossas vidas, o foco não se centra no que a pessoa é ou faz ou diz, foca-se no que não diz, no que não faz, vindo ao de cima o ciúme e a inveja. Não é Ele o filho do carpinteiro, não conhecemos nós os seus familiares? Que poderá Ele ensinar-nos de novo que não saibamos já? Poderá dizer-nos algo de novo? Poderá mostrar mais do que o que já mostrou ao longo de trinta anos?
       Vem o pedido de provas: realiza aqui milagres como realizaste em outros lugares. Sem generalizar, certamente que muitos dos seus conterrâneos aderiram de coração à Sua mensagem, mas sobrevém a crítica, a dúvida, a inveja, a incredulidade. Jesus não fez muitos milagres pela falta de fé... significa que fez milagres, pois aí havia pessoas de fé.
       Um aspeto notório: a fé faz acontecer a vida, o milagre.
        Outro aspeto relevante: Jesus é de carne e osso e tem família, e tem um lugar onde regressar, e é cidadão do mundo, mas tem a casa da família humana. Está no meio de nós! Não O conhecemos nas nossas vidas?

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O reino de Deus: como uma rede lançada ao mar

       Disse Jesus à multidão: «O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?». Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas». Quando acabou de proferir estas parábolas, Jesus continuou o seu caminho.(Mt 13, 47-53).
       Jesus continua a falar-nos em parábolas sobre o reino dos Céus.
       Hoje Jesus apresenta o reino dos Céus no contexto de uma pescaria: a rede é lançada ao mar. Nela vem toda a espécie de peixes, bons e maus, grandes e pequenos, de todas as cores e feitios. Faz-nos lembrar de novo a parábola do trigo e do joio, em que crescem juntamente, isto é, o bem e o mal, até ao fim. Numa e noutra se acentua a paciência de Deus, em espera para que vença o bem e possa abafar toda a semente ruim que há em nós. Deus chama todos. No início todos valemos o mesmo. A rede não nos separa. Só no fim. Deus dá-nos tempo. Espera. Mas respeita as nossas escolhas.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Santo Afonso Maria de Ligório, bispo e doutor da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu em Nápoles no ano 1696; obteve o doutorado em Direito Civil e Eclesiástico, recebeu a ordenação sacerdotal e fundou a Congregação do Santíssimo Redentor. Para fomentar entre o povo a vida cristã, dedicou-se à pregação e escreveu vários livros, sobretudo de teologia moral, matéria em que é considerado mestre insigne. Foi eleito bispo de Sant’Agata dei Goti, mas renunciou pouco depois ao cargo e morreu entre os seus, em Pagani, na Campânia, no ano 1787.
Oração de coleta:
       Deus omnipotente e misericordioso, que despertais continuamente na vossa Igreja novos exemplos de virtude, fazei que, imitando Santo Afonso Maria de Ligório no seu zelo pela salvação das almas, alcancemos com ele a recompensa celeste. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Das Obras de Santo Afonso Maria de Ligório, bispo

O amor de Cristo

Toda a santidade e perfeição da alma consiste em amar a Jesus Cristo, nosso Deus, nosso sumo bem e nosso redentor. É a caridade que une e conserva todas as virtudes que tornam o homem perfeito.
Não merece Deus, porventura, todo o nosso amor? Ele amou-nos desde a eternidade. «Lembra-te, ó homem – diz o Senhor – que fui Eu o primeiro a amar-te. Ainda tu não tinhas sido dado à luz, nem é próprio mundo existia, e já Eu te amava. Amo-te desde que existo».
Sabendo Deus que o homem se deixa cativar com os benefícios, quis atraí-lo ao seu amor por meio dos seus dons. Por isso disse: «Quero atrair os homens ao meu amor com aqueles laços com que eles se deixam prender, isto é, com os laços do amor». Tais precisamente têm sido todos os dons feitos por Deus ao homem. Deu-lhe uma alma, dotada, à sua imagem, de memória, inteligência e vontade; deu-lhe um corpo com os seus sentidos; para ele também criou o céu e a terra e toda a multidão dos seres; por amor do homem criou tudo isto, para que todas aquelas criaturas estejam ao serviço do homem e o homem O ame a Ele em agradecimento por tantos benefícios.
Mas não Se contentou Deus com dar-nos todas estas formosas criaturas. Para conquistar todo o nosso amor, foi muito mais além e deu-Se a Si mesmo totalmente a nós. O Pai Eterno chegou ao extremo de nos dar o seu único Filho. Quando viu que estávamos todos mortos pelo pecado e privados da sua graça, que fez Ele? Pelo amor imenso, melhor – como diz o Apóstolo – pelo seu excessivo amor por nós, enviou o seu amado Filho, para satisfazer por nós e para nos restituir à vida que perdêramos pelo pecado.
E dando-nos o seu Filho (a quem não perdoou para nos perdoar a nós), deu-nos com Ele todos os bens: a graça, a caridade e o paraíso; porque todos estes bens são certamente menores que o seu Filho: Ele que não poupou o seu próprio Filho, mas O entregou à morte por todos nós, como não haveria de dar-nos com Ele todas as coisas?

terça-feira, 31 de julho de 2018

Santo Inácio de Loiola, presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu no ano 1491 em Loiola, na Cantábria (Espanha); seguiu primeiramente a vida da corte e a vida militar. Depois, consagrando-se totalmente ao Senhor, estudou teologia em Paris e aí reuniu os primeiros companheiros, com quem mais tarde fundou em Roma a Companhia de Jesus. Exerceu intensa actividade apostólica e, particularmente com os seus escritos e com a formação de discípulos, contribuiu grandemente para a reforma da vida cristã e para a renovação da acção missionária. Morreu em Roma no ano 1556.

Oração (de coleta):
        Senhor nosso Deus, que suscitastes na vossa Igreja Santo Inácio de Loiola para propagar a maior glória do vosso nome, concedei que, à sua imitação e com o seu auxílio, combatendo o bom combate na terra, participemos da sua vitória no Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Da Autobiografia de Santo Inácio, redigida pelo Padre Luís Gonçalves da Câmara

Examinai os espíritos para ver se vêm de Deus

Inácio gostava muito de ler livros mundanos e fantasistas, que costumam chamar-se «de cavalaria». Quando se sentiu livre de perigo, pediu que lhe dessem alguns deste género para passar o tempo. Mas não se tendo encontrado naquela casa nenhum livro desses, deram-lhe a «Vita Christi» e um livro da vida dos Santos, ambos em vernáculo.
Com a leitura frequente destas obras, começou a ganhar algum gosto pelas coisas que ali estavam escritas. Mas deixando de as ler, detinha-se a pensar algumas vezes naquilo que tinha lido e outras vezes nas coisas do mundo em que antes costumava pensar.
Entretanto, Nosso Senhor vinha em seu auxílio, fazendo com que a estes pensamentos se sucedessem outros, sugeridos pelas novas leituras. De facto, lendo a vida de Nosso Senhor e dos Santos, detinha-se a pensar consigo mesmo: «E se eu fizesse como fez São Francisco e como fez São Domingos?». E reflectia em muitas coisas destas, durante longo tempo. Mas sobrevinham-lhe depois os pensamentos mundanos de que acima se fala, e também neles se demorava longamente. E esta sucessão de pensamentos durou muito tempo.
Mas havia esta diferença: quando se entretinha com os pensamentos mundanos, sentia grande prazer; e logo que, já cansado, os deixava, ficava triste e árido de espírito; quando, porém, pensava em seguir os rigores dos Santos, não somente sentia consolação enquanto neles pensava, mas também ficava contente e alegre depois de os deixar.
No entanto, não advertia nem considerava esta diferença, até que uma vez se lhe abriram os olhos da alma e começou a admirar-se desta diferença e a reflectir sobre ela; e compreendeu por experiência própria que um género de pensamentos lhe deixava tristeza e o outro alegria.
Mais tarde, quando fez os Exercícios Espirituais, foi desta experiência que tomou as primeiras luzes para compreender e ensinar aos seus irmãos o discernimento de espíritos.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Reino dos Céus: grão de mostarda... ou fermento...

       Jesus disse ainda à multidão a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as hortaliças e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos». Disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado». Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia, a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo» (Mt 13, 31-35)
        No evangelho que nos é proposto para este dia, Jesus fala-nos através de duas parábolas bem nossas conhecidas e ilustrativas do jeito simples e próximo de Jesus comunicar. Uma e outra parábola acentuam que não é o tamanho ou o poder inicial da semente, nem a visibilidade... mas a seiva no seu interior que de pequena semente a torna uma árvore frondosa, ou a "qualidade" do fermente.
       Deus sustenta o mundo em todo o tempo, mesmo quando as situações problemáticas parecem mostrar a ausência de Deus. Mesmo quando não se percebe a presença e o amor de Deus, Deus está, Deus faz-Se presente, Deus conta connosco. Por outro lado, não importa a pobreza inicial da nossa vida, mas o que poderemos vir a tornar-nos.

sábado, 28 de julho de 2018

Domingo XVII do Tempo Comum - ano B - 29.julho.2018

Parábola do trigo e do joio

       «O reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio. Os servos do dono da casa foram dizer-lhe: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem então o joio?’. Ele respondeu-lhes: ‘Foi um inimigo que fez isso’. Disseram-lhe os servos: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’. ‘Não! – disse ele – não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro’» (Mt 13, 24-30).
       Outra parábola de Jesus usando a imagem da semente lançada à terra.
       Nesta, o semeador lança a semente, mas alguém, pela calada da noite, lança o joio, um semente ruim que poderá estragar a colheita. Perguntam os servos ao senhor se quer que arranquem o joio, ao que este responde para deixarem amadurecer trigo e joio, boa e má semente, para que não paguem os justos pelos pecadores, o bem pelo mal.
       A tolerância do senhor da parábola é a mesma de Deus que ama e usa de misericórdia até ao fim.
       É de todos conhecida a expressão de uma outra parábola, o risco de deitar a água suja fora com o bebé dentro da água. Isto é, com a desculpa de destruir o mal poderemos correr o risco de destruir o bem e de impedir que o bem frutifique.
       Vale a pena pensar nisto!

Poderá aprofundar a reflexão em: XVII Domingo do TC (ano A) - 24 de julho de 2011

quinta-feira, 26 de julho de 2018

São Joaquim e Santa Ana, Pais da Virgem Santa Maria

Nota biográfica:
       Segundo uma antiga tradição, que remonta ao séc. II, assim se chamavam os pais da Santíssima Virgem Maria. O culto de Santa Ana existia no Oriente já no séc. VI e estendeu-se ao Ocidente no séc. X. Mais recentemente foi introduzido o culto de São Joaquim.

Oração:
       Senhor, Deus dos nossos pais, que concedestes a São Joaquim e Santa Ana a graça de darem ao mundo a Mãe do vosso Filho, alcançai-nos, por sua intercessão, a salvação que prometestes ao vosso povo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Dos Sermões de São João Damasceno, bispo

Pelos seus frutos os conhecereis

Porque estava determinado que de Ana havia de nascer a Virgem Mãe de Deus, a natureza não ousou preceder o germe da graça; mas para dar o seu fruto, esperou que a graça produzisse o seu. Convinha, de facto, que nascesse aquela Primogénita de quem havia de nascer o Primogénito de toda a criatura, no qual subsistem todas as coisas.
Oh bem-aventurados esposos Joaquim e Ana! Toda a criatura vos está obrigada. Porque foi por vosso intermédio que a criatura ofereceu ao Criador o melhor de todos os dons, isto é, a Virgem Mãe, a única que era digna do Criador.
Alegrai-vos, Ana estéril, que não tínheis filhos; soltai brados de júbilo e alegria, Vós que não dáveis à luz. Exultai, Joaquim, porque da vossa filha nos nasceu um Menino e nos foi dado um Filho e o seu nome será Anjo do grande conselho, de salvação para todo o mundo, Deus forte. Este Menino é Deus.
Oh bem-aventurados esposos, Joaquim e Ana, verdadeiramente sem mancha! Sois conhecidos pelo fruto do vosso ventre, como disse uma vez o Senhor: Pelos seus frutos os conhecereis. Estabelecestes as normas da vossa vida do modo mais agradável a Deus e digno d’Aquela que de vós nasceu. No vosso convívio casto e santo educastes a pérola da virgindade, Aquela que havia de ser virgem antes do parto, virgem no parto e ainda virgem depois do parto; Aquela que, de modo único e excepcional, conservaria sempre a virgindade, tanto na sua mente como na sua alma e no seu corpo.
Oh castíssimos esposos, Joaquim e Ana! Guardando a castidade prescrita pela lei natural, conseguistes alcançar, por graça de Deus, o que excede a natureza, porque gerastes para o mundo a Mãe de Deus, Mãe sem conhecer varão. Levando ao longo da existência humana uma vida piedosa e santa, gerastes uma filha que é superior aos Anjos e agora é rainha dos Anjos.
Ó donzela formosíssima e dulcíssima! Ó Filha de Adão e Mãe de Deus! Bem-aventurado o pai e a mãe que Vos geraram! Bem-aventurados os braços que Vos estreitaram em seu regaço e os lábios que Vos beijaram castamente, isto é, unicamente os de vossos pais, para que sempre e em tudo conservásseis a perfeita virgindade! Aclamai o Senhor, terra inteira, exultai de alegria e cantai. Levantai a vossa voz; clamai e não temais.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

São Tiago (Maior), Apóstolo

Nota biográfica:
       Nasceu em Betsaida; era filho de Zebedeu e irmão do apóstolo João. Esteve presente nos principais milagres do Senhor. Foi morto por Herodes cerca do ano 42. É venerado com culto especial em Compostela (Espanha), com as relíquias aí depositadas, onde se ergue a célebre basílica a ele dedicada, que atrai desde o século IX inumeráveis peregrinos de toda a cristandade.
       Foi o primeiro mártir entre os DOZE apóstolos. Era um dos três discípulos mais próximos de Jesus. Esteve presente na Transfiguração de Jesus (antecipação/visualização da glória da Ressurreição) e na hora dolorosa da agonia no Jardim das Oliveiras.
       Como no elenco dos Apóstolos aparecem duas pessoas com este nome - Tiago, filho de Zebedeu e Tiago, filho de Alfeu -, distinguem-se da seguinte forma, o primeiro como São Tiago Maior e o segundo como Tiago Menor. Como refere o Papa, a preocupação não é medir a santidade de um e outro, mas o realce que um e outro têm nos escritos neotestamentários.
       Ocupa o segundo lugar, logo depois de Pedro, em Marcos (3, 17), ou terceiro lugar, depois de Pedro e André, em Mateus (10, 2), ou depois de Pedro e João nos Atos dos Apóstolos (1, 13).
       Segundo o livro de Atos dos Apóstolos (12, 1-2), Tiago foi morto à espada, juntamente com outros membros da comunidade de Jerusalém, nos inícios dos anos 40, sob o reinado de Herodes Agripa, neto de Herodes o Grande. E os seus restos mortais teriam sido posteriormente levados/trazidos para Santiago de Compostela, segundo uma tradição antiquíssima...
Oração:
       Vós quisestes, Deus omnipotente, que São Tiago fosse o primeiro dos Apóstolos a dar a vida pelo Evangelho: concedei à vossa Igreja a graça de encontrar força no seu testemunho e auxílio na sua protecção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Fonte: Secretariado Nacional da Liturgia.

BENTO XVI sobre São TIAGO MAIOR:
Queridos irmãos e irmãs!
       Prosseguimos a série de retratos dos Apóstolos escolhidos directamente por Jesus durante a sua vida terrena. Falámos de São Pedro e de seu irmão, André. Encontramos hoje a figura de Tiago. Os elencos bíblicos dos Doze mencionam duas pessoas com este nome: Tiago, filho de Zebedeu, e Tiago, filho de Alfeu (cf. Mc 3, 17.18; Mt 10, 2-3), que são comummente distinguidos com os nomes de Tiago, o Maior e Tiago, o Menor. Sem dúvida, estas designações não querem medir a sua santidade, mas apenas distinguir o realce que eles recebem nos escritos do Novo Testamento e, em particular, no quadro da vida terrena de Jesus. Hoje dedicamos a nossa atenção à primeira destas duas personagens homónimas.
       O nome Tiago é a tradução de Iákobos, forma helenizada do nome do célebre patriarca Tiago. O apóstolo assim chamado é irmão de João, e nos elencos acima mencionados ocupa o segundo lugar logo depois de Pedro, como em Marcos (3, 17), ou o terceiro lugar depois de Pedro e André no Evangelho de Mateus (10, 2) e de Lucas (6, 14), enquanto que nos Actos vem depois de Pedro e de João (1, 13). Este Tiago pertence, juntamente com Pedro e João, ao grupo dos três discípulos privilegiados que foram admitidos por Jesus em momentos importantes da sua vida.
       Dado que faz muito calor, gostaria de abreviar e mencionar aqui só duas destas ocasiões. Ele pôde participar, juntamente com Pedro e Tiago, no momento da agonia de Jesus no horto do Getsémani e no acontecimento da Transfiguração de Jesus. Trata-se portanto de situações muito diversas uma da outra: num caso, Tiago com os outros dois Apóstolos experimenta a glória do Senhor, vê-o no diálogo com Moisés e Elias, vê transparecer o esplendor divino de Jesus; no outro encontra-se diante do sofrimento e da humilhação, vê com os próprios olhos como o Filho de Deus se humilha tornando-se obediente até à morte. Certamente a segunda experiência constitui para ele a ocasião de uma maturação na fé, para corrigir a interpretação unilateral, triunfalista da primeira: ele teve que entrever que o Messias, esperado pelo povo judaico como um triunfador, na realidade não era só circundado de honra e de glória, mas também de sofrimentos e fraqueza. A glória de Cristo realiza-se precisamente na Cruz, na participação dos nossos sofrimentos.
       Esta maturação da fé foi realizada pelo Espírito Santo no Pentecostes, de forma que Tiago, quando chegou o momento do testemunho supremo, não se retirou. No início dos anos 40 do século I o rei Herodes Agripa, neto de Herodes o Grande, como nos informa Lucas, "maltratou alguns membros da Igreja. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João" (Act 12, 1-2).
        A notícia tão limitada, privada de qualquer pormenor narrativo, revela, por um lado, quanto era normal para os cristãos testemunhar o Senhor com a própria vida e, por outro, como Tiago ocupava uma posição de relevo na Igreja de Jerusalém, também devido ao papel desempenhado durante a existência terrena de Jesus. Uma tradição sucessiva, que remonta pelo menos a Isidoro de Sevilha, narra de uma sua permanência na Espanha para evangelizar aquela importante região do Império Romano.
       Segundo outra tradição, ao contrário, o seu corpo teria sido transportado para a Espanha, para a cidade de Santiago de Compostela. Como todos sabemos, aquele lugar tornou-se objecto de grande veneração e ainda hoje é meta de numerosas peregrinações, não só da Europa mas de todo o mundo. É assim que se explica a representação iconográfica de São Tiago que tem na mão o cajado do peregrino e o rolo do Evangelho, típicos do apóstolo itinerante e dedicado ao anúncio da "boa nova", características da peregrinação da vida cristã.
        Portanto, de São Tiago podemos aprender muitas coisas: a abertura para aceitar a chamada do Senhor também quando nos pede que deixemos a "barca" das nossas seguranças humanas, o entusiasmo em segui-lo pelos caminhos que Ele nos indica além de qualquer presunção ilusória, a disponibilidade a testemunhá-lo com coragem, se for necessário, até ao sacrifício supremo da vida. Assim, Tiago o Maior, apresenta-se diante de nós como exemplo eloquente de adesão generosa a Cristo. Ele, que inicialmente tinha pedido, através de sua mãe, para se sentar com o irmão ao lado do Mestre no seu Reino, foi precisamente o primeiro a beber o cálice da paixão, a partilhar com os Apóstolos o martírio.
       E no final, resumindo tudo, podemos dizer que o caminho não só exterior mas sobretudo interior, do monte da Transfiguração ao monte da agonia, simboliza toda a peregrinação da vida cristã, entre as perseguições do mundo e os confortos de Deus, como diz o Concílio Vaticano II. Seguindo Jesus como São Tiago, sabemos, também nas dificuldades, que seguimos o caminho justo.

in Audiência Geral de Bento XVI, 21 de junho de 2006.
BENTO XVI, A Santidade não passa de moda, Editorial Franciscana, Braga 2010

terça-feira, 24 de julho de 2018

Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?

        Enquanto Jesus estava a falar à multidão, chegaram sua Mãe e seus irmãos. Ficaram do lado de fora e queriam falar-Lhe. Alguém Lhe disse: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar contigo». Mas Jesus respondeu a quem O avisou: «Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?». E apontando para os discípulos, disse: «Estes são a minha mãe e os meus irmãos: todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Mt 12, 46-50).
       Este é um dos encontros bem conhecidos de Jesus com a Sua Mãe e com parentes próximos. De terra em terra, anunciando o reino dos Céus, curando os enfermos, expulsando espírito impuros, deixando uma mensagem de salvação, Jesus confronta-se com a oposição daqueles que instalados no poder não querem perder qualquer regalias, confronta-se com uma visão tradicional de Deus, contrapondo um Deus próximo, Pai, libertador.
       Esta aparição de Sua mãe e seus familiares dever-se-á a alguns rumores que diziam que Jesus estaria fora de Si, descontrolado, louco. Certamente que Nossa Senhora e os seus familiares estariam habitualmente perto de Jesus, mas ao mesmo tempo tinham as lides caseiras para realizar. Aqui foi em sobressalto que Maria terá ido até Jesus.
       A resposta de Jesus é contundente: minha Mãe e meus irmãos são todos aqueles que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. Faz lembrar outro episódio em que uma mulher diz alto e bom som para Jesus: feliz aquela que Te trouxe no seu ventre e os peitos que Te amamentaram. A resposta é semelhante: felizes antes aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.
       À primeira vista parece que Jesus renega a Sua Mãe. Mas num olhar mais atento vê-se como Maria integra esta outra família primordial, a família daqueles que acolhem a vontade de Deus e a concretizam no dia a dia.
       Por outro lado, acentua-se uma prioridade e uma realidade: todos podemos ser família de Jesus, desde e quando fazemos a vontade de Deus.