terça-feira, 20 de novembro de 2018

Hoje a salvação entrou nesta casa!

       Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura. Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido» ( Lc 19, 1-10).
       O Evangelho deste dia mostra o chamamento interior. Deus suscita em nós a conversão. Zaqueu sentiu necessidade de encontrar Jesus. Ultrapassa os obstáculos, fazendo que a sua pequena estatura não seja impedimento para chegar até Jesus. Jesus olha e vê Zaqueu. Deus vê para lá da nossa estatura, do nosso pecado, mas nós precisamos de caminhar ao Seu encontro e deixarmo-nos ver por Ele, para, a exemplo de Zaqueu, nos deixarmos transformar.

       Alguns desafios do Evangelho proposto para hoje:
- desejo de ver e de encontrar Jesus;
- deixar-nos "ver" por Ele. Não nos escondamos da Sua presença e do Seu chamamento;
- desçamos do nosso "pedestal", do nosso orgulho, e acolhámo-l'O em nossa casa. Façamos do nosso coração e da nossa vida, a Sua casa, morada santa de Deus, pois "hoje entrou a salvação nesta casa";
- acolher a pessoa no seu todo, como ser humano, filho de Deus. Jesus não julga Zaqueu. Chama-o na sua pequenez, quer ir a sua casa..
- que a nossa pequena estatura não nos impeça de ver Jesus, que veio "procurar e salvar o que estava perdido".
Veja a reflexão completa no XXXI Domingo Tempo Comum.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Que queres que Eu te faça? Senhor, que eu veja!

        Quando Jesus Se aproximava de Jericó, estava um cego a pedir esmola, sentado à beira do caminho. Quando ele ouviu passar a multidão, perguntou o que era aquilo. Disseram-lhe que era Jesus Nazareno que passava. Então ele começou a gritar: «Jesus, filho de David, tem piedade de mim». Os que vinham à frente repreendiam-no, para que se calasse, mas ele gritava ainda mais: «Filho de David, tem piedade de mim». Jesus parou e mandou que Lho trouxessem. Quando ele se aproximou, perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?». Ele respondeu-Lhe: «Senhor, que eu veja». Disse-lhe Jesus: «Vê. A tua fé te salvou». No mesmo instante ele recuperou a vista e seguiu Jesus, glorificando a Deus. Ao ver o sucedido, todo o povo deu louvores a Deus (Lc 18, 35-43).
        A visão física é importante. Se nos imaginarmos às escuras, no breu da noite, sem qualquer claridade, já podemos intuir as dificuldades de um invisual. Mas os sentidos deste compensam, em certa medida, a falta de visão. É uma outra forma de ver. O Evangelho deste dia, fala da visão física mas também da visão espiritual. Esta muitas vezes é tenebrosa. Pior do que o "cego" é o que não quer ver.
       Mais uma vez podemos retirar um sentido mais literal - intervenção milagrosa de Jesus a favor de uma pessoa concreta -, mas igualmente um sentido simbólico, sabendo que muitas vezes estamos cegos e de tal maneira que não vemos a beleza da criação, os desafios da vida, a grandeza das pessoas que nos rodeiam, a alegria da presença de Deus em nós e em tudo o que nos rodeia.
       A fé abre-nos o coração para os outros e para o Totalmente Outro, ou melhor, o Totalmente Próximo (Deus connosco). Pela fé descobrimo-nos como filhos de Deus em Jesus Cristo e nesta mesma fé encontramo-nos como irmãos. É a fé que nos salva, retirando-nos da solidão e do egoísmo, colocando-nos em movimento de partilha solidária, de comunhão...
        Jesus vai passando. Está aqui! Não tenhamos receio de Lhe pedir: Senhor, que eu veja! Peçamos-Lhe que nos ilumine, que guie os nossos caminho pelo bem: "Senhor, que eu veja!".

sábado, 17 de novembro de 2018

Domingo XXXIII do Tempo Comum - ano B - 18.11.2018

Santa Isabel da Hungria

Nota biográfica:
       Isabel era filha de André II, rei da Hungria, e nasceu no ano 1207. Ainda muito jovem foi dada em matrimónio a Luís IV, landgrave da Turíngia, e teve três filhos. Dedicou-se a uma vida de intensa meditação das realidades celestes e de caridade para com o próximo. Depois da morte de seu marido, renunciou aos seus títulos e bens e construiu um hospital onde ela mesma servia os enfermos. Morreu em Marburgo no ano 1231.
Oração de coleta:
       Senhor, que destes a Santa Isabel da Hungria o dom de conhecer e venerar a Cristo nos pobres, concedei nos, por sua intercessão, a graça de servirmos com caridade sem limites os pobres e os atribulados. Por Nosso Senhor, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Conrado de Marburgo,
diretor espiritual de Santa Isabel da Hungria
ao Sumo Pontífice, no ano 1232

Isabel conheceu e amou a Cristo nos pobres

Isabel começou muito cedo a distinguir se na virtude. Em toda a sua vida foi consoladora dos pobres; a dada altura dedicou se inteiramente aos famintos e, junto de um castelo seu, mandou construir um hospital onde recolhia muitos enfermos e estropiados. Distribuía largamente os dons da sua beneficência, não só a quantos ali acorriam a pedir esmola, mas em todos os territórios da jurisdição de seu marido, chegando ao ponto de gastar nessas obras de assistência todas as rendas provenientes dos quatro principados e vendendo por fim, para utilidade dos pobres, todos os objectos de valor e vestes preciosas.
Costumava visitar duas vezes por dia, de manhã e à tarde, todos os seus doentes, ocupando se pessoalmente dos que apresentavam aspeto mais repugnante. Dava de comer a uns, deitava outros na cama, transportava outros aos ombros e dedicava se a todo o género de serviço humanitário. Em todas estas coisas nunca ela encontrou má vontade em seu marido de grata memória. Finalmente, depois da morte deste, no desejo da suma perfeição, pediu me com lágrimas que a autorizasse a pedir esmola de porta em porta.
Precisamente no dia de Sexta-Feira Santa, estando desnudados os altares, numa capela da sua cidade, onde acolhera os Frades Menores, na presença de testemunhas e postas as mãos sobre o altar, renunciou à sua própria vontade, a todas as pompas do mundo e ao que o Salvador no Evangelho aconselha a deixar. Feito isto e vendo que poderia ser absorvida pelo tumulto do século e pela glória mundana naquela terra, em que no tempo do marido vivera com tanta grandeza, veio para Marburgo contra minha vontade. Nesta cidade construiu um hospital para receber doentes e aleijados dos quais sentou à sua mesa os mais miseráveis e desprezados.
Além destas atividades caritativas, diante de Deus o afirmo, raras vezes encontrei mulher mais dada à contemplação. Algumas religiosas e religiosos viram muitas vezes que, quando voltava do recolhimento da oração, o seu rosto resplandecia maravilhosamente e os seus olhos brilhavam como raios de sol.
Antes de morrer ouvi a de confissão. Perguntando-lhe o que se devia fazer dos seus haveres e mobiliário, respondeu me que tudo quanto parecia possuir era já dos pobres desde há muito tempo e pediu-me que distribuísse tudo por eles, exceto a pobre túnica com que estava vestida e com a qual desejava ser sepultada. Depois recebeu o Corpo do Senhor e, seguidamente, até à hora de Vésperas, falou muitas vezes do que mais a tinha impressionado na pregação. Por fim, encomendou devotamente a Deus os que lhe assistiam e expirou como quem adormece suavemente.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Santo Alberto Magno, Bispo e Doutor da Igreja

Nota biográfica: 
       Nasceu em Lauingen, junto do Danúbio (Alemanha), cerca do ano 1206. Fez os seus estudos em Pádua e em Paris. Entrou na Ordem dos Pregadores e exerceu o magistério em vários lugares com grande competência. Ordenado bispo de Ratisbona, pôs todo o seu empenho em estabelecer a paz entre os povos e cidades. É autor de muitas e importantes obras, tanto de cultura sagrada como profana. Morreu em Colónia no ano 1280.
Oração de coleta:
       Senhor, que tornastes grande Santo Alberto na arte de conciliar a sabedoria humana com a fé divina, concedei nos que, seguindo os seus ensinamentos, possamos, através dos progressos da ciência, conhecer Vos melhor e amar Vos cada vez mais. Por Nosso Senhor.
Santo Alberto Magno, bispo, sobre o Evangelho de São Lucas

Pastor e doutor para edificação do Corpo de Cristo

Fazei isto em memória de Mim. Nestas palavras de Cristo há a notar duas coisas. A primeira é o mandato de celebrarmos este sacramento, quando diz: Fazei isto. A segunda é a afirmação de que se trata do memorial do Senhor que vai morrer por nós.
Fazei isto. Com efeito, não pôde mandar fazer nada mais útil, mais agradável, mais salutar, mais apetecível nem mais semelhante à vida eterna. Vejamos isto ponto por ponto.
O que é mais útil para a nossa vida é o que serve para nos dar o perdão dos pecados e a plenitude da graça. O Pai das almas, ensina nos tudo o que é útil para receber a sua santificação. Mas a sua santificação consiste no sacrifício de seu filho, isto é, na oblação sacramental, na qual Se ofereceu por nós ao Pai e Se ofereceu a nós para que O celebrássemos no sacramento. Por eles Me santifico a Mim próprio. Cristo, que pelo Espírito Santo Se ofereceu a Deus como sacrifício imaculado, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos o Deus vivo.
Nada mais agradável podemos fazer. Na verdade, que há de mais agradável do que o sacramento que contém todas as delícias divinas? Enviastes ao vosso povo um pão do Céu, já preparado, contendo em si todas as delícias e bom para todos os gostos. Este alimento revelava a doçura que tendes para com os vossos filhos, adaptava se ao gosto de quem o comia e acomodava se ao desejo de cada um.
Não pôde mandar fazer nada mais salutar. Este sacramento é fruto da árvore da vida e quem o recebe com fé sincera e devota jamais provará a morte. É árvore da vida para quem a alcançar; feliz o homem que a possuir. O que Me come viverá por Mim.
Não pôde mandar fazer nada mais apetecível. Este sacramento é fonte de amor e de união. Ora a maior prova de amor é dar se a si mesmo em alimento. Diziam os homens do meu acampamento: Quem nos dará a sua carne para nos saciarmos? É como se dissesse: Amei-os tanto a eles e eles a Mim que Eu ansiava por estar no seu interior e eles ansiavam por Me receberem, de modo que se incorporassem em Mim como membros do meu Corpo. Era impossível um modo de união mais íntimo e natural entre Mim e eles.
Também não podia mandar fazer nada de mais semelhante à vida eterna. Pois a permanência da vida eterna vem de Deus, que, com a sua doçura, Se infunde a Si mesmo nos bem aventurados. Este sacramento é a mais perfeita aproximação da vida eterna, porque esta consiste em saborear a doçura de Deus que Se comunica a Si mesmo e aos bem aventurados.

... porque o reino de Deus está no meio de vós

       "Os fariseus perguntaram a Jesus quando viria o reino de Deus e Ele respondeu-lhes, dizendo: «O reino de Deus não vem de maneira visível, nem se dirá: ‘Está aqui ou ali’; porque o reino de Deus está no meio de vós». Depois disse aos seus discípulos: «Dias virão em que desejareis ver um dia do Filho do homem e não o vereis. Hão-de dizer-vos: ‘Está ali’, ou ‘Está aqui’. Não queirais ir nem os sigais" (Lc 17, 20-25).
       A pergunta feita a Jesus é reveladora de uma inquietação também nossa. Vivemos, com o horizonte da nossa morte mas também com o fim do mundo. Profecias apocalíticas, de ontem e de hoje, fazem-nos pensar, quando não nos atemorizam. A resposta de Jesus é de confiança, apelando à serenidade. Não vos inqueteis. Não vos alarmeis, Eu venci o mundo. E continua: o reino de Deus é, antes de mais, interior, espiritual. Não ocupa lugar. Não está for da humanidade. O reino de Deus está no meio de nós, vem com a conversão, vem com a intimidade com Deus. A chegada do reino de Deus não será catastrófica, mas a revelação da misericórdia de Deus e da Sua justiça paternal. Em nenhum lado Jesus sugere temor, mas confiança, ainda que haja um juízo benevolente de Deus. Mas se cabe a Deus não temos que nos preocupar. Ele é Pai. A nossa preocupação há de ser viver bem, fazer as coisas bem feitas, agir com honestidade e justiça, promover a paz e a conciliação. Se fizermos a nossa parte, ainda que os nossos pecados, não temos que viver assustados. Há lugar para nós. Em Casa de Meu Pai há muitas moradas...

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou

       Indo Jesus a caminho de Jerusalém, passava entre a Samaria e a Galileia. Ao entrar numa povoação, vieram ao seu encontro dez leprosos. Conservando-se a distância, disseram em alta voz: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós». Ao vê-los, Jesus disse-lhes: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes». E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra. Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus para Lhe agradecer. Era um samaritano. Jesus, tomando a palavra, disse: «Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?». E disse ao homem: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou» (Lc 17, 11-19).
       Amiúde se verifica que Jesus interrompe o caminho para prestar atenção a quem Lhe suplica. Certamente que a fama de Jesus se tinha espalhado ao ponto de não passar despercebido nas diversas povoações, pessoas que chegavam e pessoas que partiam e que partilhavam informações sobre o que sucedia nas suas terras ou em outras povoações onde tinham passado.
       Se as pessoas se aproximam expondo-se e sujeitando-se à recriminação e até, neste caso, a serem apedrejadas, é porque as notícias que lhes tinham chegado sobre Jesus eram de esperança, sabendo que Ele não deixaria de ter uma palavra amiga ou um gesto curativo. É o que acontece com estes 10 leprosos.
       Sublinhe-se também a delicadeza de Jesus para com os sacerdotes do Templo, no respeito pela Lei de Moisés. Habitualmente os textos evangélicos mostram Jesus a contestar a Lei, ou melhor, as interpretações abusivas da Lei. Neste pormenor se vê como Jesus não põe em causa a Lei quando esta está ao serviço da pessoa.
       Outro aspeto bem vincado no Evangelho é a falta de gratidão. Jesus cura. Sem contrapartidas. Em todo o caso, o que se espera de quem é agraciado pelas bênçãos de Deus é que tenha uma atitude de louvor e de glória para com Deus... A verdadeira cura leva à mudança de vida...

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Recinto de Nossa Senhora da Conceição | 2018

       Domingo (e dia) seguinte à celebração da Festa da Natividade de Nossa Senhora, 9 de setembro, a quinta edição da Peregrinação ao Recinto de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Tabuaço, Madrinha dos Bombeiros Voluntários. Procissão a partir da Igreja Matriz até ao recinto, oração do rosário, Eucaristia no recinto, regresso da Procissão à Igreja Matriz, oração do Angelus.
       Créditos: Paróquia de Tabuaço - Raquel Assis; José Luís Longa (vista aérea).

Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer

       Disse o Senhor: «Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele volta do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu’. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’» (Lc 17, 7-10).
       O caminho de Jesus é exigente, mas compensador, vivido na caridade sem limites. O serviço ao semelhante, tratando-o como irmão, na proximidade de um abraço, na leveza de uma palavra, no afago do coração, no sorriso da alma, é um projeto de vida, é a postura de Jesus, permanentemente. Ontem, Ele lembrava-nos de perdoar sempre, de nos conciliarmos uns com os outros mesmo tendo motivos para o conflito e a divisão. Hoje, claramente, fala-nos no serviço aos outros com alegria e generosidade.
       A referência é Ele, que veio não para ser servido mas para servir e dar a vida pela humanidade.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

São Josafat, Bispo e Mártir

Nota biográfica:
        Nasceu na Ucrânia, cerca do ano 1580, de pais ortodoxos. Abraçou a fé católica e entrou na Ordem de São Basílio. Ordenado sacerdote e eleito bispo de Polock, dedicou-se com grande empenho à causa da unidade da Igreja, pelo que foi perseguido pelos seus inimigos e morreu mártir em 1623.

Oração de Colecta:
       Intensificai, Senhor, na vossa Igreja a acção do Espírito Santo, que levou o bispo São Josafat a dar a vida pelo seu povo, e concedei-nos, por sua intercessão, que, fortificados pelo mesmo Espírito, não hesitemos em dar a vida pelos nossos irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Da encíclica Ecclesiam Dei do papa Pio XI

Derramou o seu sangue pela unidade da Igreja

Sabemos que a Igreja de Deus, constituída por sua admirável providência para ser na plenitude dos tempos uma família imensa que englobe todo o género humano, se distingue por disposição divina, entre outras características singulares, pela sua unidade ecuménica.
Cristo Senhor não Se limitou a encomendar apenas aos Apóstolos a missão que Ele próprio recebera do Pai, ao dizer: Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra; ide e fazei discípulos de todos os povos. Quis também que o colégio apostólico fosse especialmente uno, e ligado por um vínculo estreitíssimo e duplo: um interior, a saber, a mesma fé e caridade, que foi derramada pelo Espírito Santo nos nossos corações; e outro exterior, pelo governo de um sobre os demais, por ter conferido o primado apostólico a Pedro, como princípio permanente e fundamento visível da unidade. Para que esta unidade e harmonia permanecessem para sempre, Deus providentíssimo consagrou-a ao mesmo tempo com o selo da santidade e do martírio.
Esta grande honra coube ao arcebispo de Polock, São Josafat, de rito eslavo oriental, que com razão reconhecemos como glória e sustentáculo esplendoroso dos eslavos orientais. Nenhum outro ilustrou mais o nome deles e contribuiu mais para a sua salvação do que este seu pastor e apóstolo, especialmente ao derramar o seu sangue pela unidade da santa Igreja. Além disso, sentindo-se movido por uma inspiração celeste, compreendeu que podia contribuir muito para restabelecer a santa unidade, se mantivesse dentro da unidade universal o rito oriental eslavo e a ordem monástica de São Basílio.
Preocupado, entretanto, principalmente com a união dos seus compatriotas à Cátedra de Pedro, procurava por toda a parte quantos argumentos pudessem promovê-la ou confirmá-la, sobretudo consultando os livros litúrgicos que os Orientais e os próprios dissidentes costumavam usar por prescrição dos Santos Padres. Utilizando tão diligente preparação, começou a trabalhar pela unidade ao mesmo tempo com tal firmeza e brandura e também com tanto fruto que os próprios adversários lhe chamaram «conquistador de almas».

sábado, 10 de novembro de 2018

Domingo XXXII do Tempo Comum - ano B - 11.11.2018

São Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu na Toscana e no ano 440 foi elevado à Cátedra de Pedro, cargo que exerceu como verdadeiro pastor e pai das almas. Trabalhou intensamente pela integridade da fé, defendeu com ardor a unidade da Igreja, empenhou se por todos os meios possíveis em evitar as incursões dos bárbaros ou mitigar os seus efeitos. Por toda esta actividade extraordinária mereceu com toda a justiça ser apelidado «Magno». Morreu no ano 461.
Oração de colecta:
       Senhor, que, ao fundar a vossa Igreja sobre a pedra inabalável dos Apóstolos, prometestes que as forças do mal jamais prevaleceriam contra ela, fazei que, por intercessão de São Leão Magno, o povo cristão permaneça firme na vossa verdade e goze sempre da verdadeira paz. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
São Leão Magno (Papa Leão I) no encontro com Átila, convencendo-o a não invadir a Europa Ocidental. Pintura de Rafael.
Dos sermões do papa Leão Magno (grande):

O serviço especial do nosso ministério

Toda a Igreja de Deus está organizada em diversas ordens, de modo que a integridade do corpo sagrado subsiste na diversidade dos seus membros. Apesar disso, como diz o Apóstolo, somos um só em Cristo Jesus. A diversidade de funções não é de modo algum causa de divisão entre os membros, já que todos, por mais humilde que seja a sua função, estão unidos à cabeça. Na unidade da fé e do Batismo, formamos uma comunidade indissolúvel, na qual todos têm a mesma dignidade, segundo a palavra sagrada do apóstolo São Pedro: Também vós, como pedras vivas, entrai na construção deste templo espiritual, para constituirdes um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo; e ainda: Vós sois geração escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo resgatado.
Todos os que renasceram em Cristo obtiveram, pelo sinal da cruz, a dignidade real e, pela unção do Espírito Santo, receberam a consagração sacerdotal. Por isso, não obstante o serviço especial do nosso ministério, todos os cristãos foram revestidos de um carisma espiritual que os torna membros desta família de reis e deste povo de sacerdotes. Não será, na verdade, função régia o facto de uma alma, submetida a Deus, governar o seu corpo? E não será função sacerdotal consagrar ao Senhor uma consciência pura e oferecer no altar do coração a hóstia imaculada da nossa piedade? Pela graça de Deus, estas prerrogativas são comuns a todos. Mas é digno e justo que vos alegreis no dia da nossa eleição como se se tratasse de vossa própria honra, para que em todo o corpo da Igreja se celebre um único sacramento do sacerdócio. Ao derramar se o unguento da consagração, este sacramento derramou se certamente com mais abundância nos membros superiores, mas desceu também, e não escassamente, até aos inferiores.
Se a participação neste dom nos traz, com toda a razão, tão grande alegria, mais verdadeiro e excelente será o motivo do nosso júbilo, caríssimos irmãos, se não vos detiverdes a considerar a nossa humilde pessoa. Pelo contrário, será muito mais útil e digno dirigir a atenção do nosso espírito para a contemplação da glória do bem aventurado apóstolo Pedro e dedicar especialmente este dia à veneração daquele que foi inundado de bênçãos tão copiosamente pela própria fonte de todos os carismas, de tal modo que, tendo recebido muitas graças exclusivas à sua pessoa, nada se comunica aos sucessores sem a sua intervenção. O Verbo encarnado já habitava no meio de nós; Cristo já Se tinha entregado totalmente para a redenção do género humano."

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Dedicação da Basílica de Latrão - Sé do Papa

       Segundo uma tradição que remonta ao século XII, celebra-se neste dia o aniversário da dedicação da basílica de Latrão, construída pelo imperador Constantino. Inicialmente foi uma festa exclusivamente da cidade de Roma; mais tarde, estendeu-se à Igreja de rito romano, com o fim de honrar a basílica que é chamada «a igreja mãe de todas as igrejas da Urbe e do Orbe» (da cidade e do mundo) e como sinal de amor e unidade para com a Cátedra de Pedro que, como escreveu S. Inácio de Antioquia, «preside à assembleia universal da caridade». (Texto do Secretariado Nacional da Liturgia).
       É nesta Basílica, de São João de Latrão, que o Bispo de Roma, e nessa condição, Papa, tem a sua sede episcopal.

     "Vós sois edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, eu, como sábio arquitecto, coloquei o alicerce e outro levanta o edifício. Veja cada um como constrói: ninguém pode colocar outro alicerce além do que está posto, que é Jesus Cristo. Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo e vós sois esse templo" (1 Cor 3, 9c-11.16-17).

       Jesus Cristo apresenta-Se no templo de Jerusalém como o verdadeiro TEMPLO.
       "Destruí este templo e em três dias o levantarei"... Jesus, porém fala do templo de seu corpo (cf. Jo 2, 13-22). O texto de São Paulo aos Coríntios assume esta dimensão, também nós, incorporados em Cristo, somos templo do Espírito Santo. Neste sentido, a missão do cristão dignificar o seu corpo com as suas atitudes e acções.

Oração de coleta:
       Senhor, que edificais o templo da vossa glória com pedras vivas e escolhidas, derramai sobre a Igreja os dons do Espírito Santo, para que o vosso povo cresça cada vez mais na fé, esperança e caridade, até se transformar na Jerusalém celeste. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Este homem acolhe os pecadores e come com eles

        Os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: «Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa» (Lc 15, 1-10).
       A postura de Jesus é de inclusão, de promoção, de acolhimento, em relação a todas as pessoas mas privilegiando as que vivem na rua, que estão abandonadas ao seu sofrimento, que estão excluidas social e religiosamente, as mulheres, as crianças, os doentes, leprosos, coxos, cegos, surdos, mudos, publicanos, estrangeiros.
       Jesus não Se apresenta a partir do palácio - símbolo do poder político, económico, social - nem a partir do tempo - símbolo do "poder" religioso, mas a partir da rua, das estradas, caminhos e vielas, a partir das margens, onde pulsa a vida em sofrimento. Todos são filhos. Como os pais, a atenção recai sobre quem está doente, perdido, desencantado, sem esperança. Se numa família um dos filhos está doente, a atenção redobra sobre esse filho. Não significa menos amor aos outros. Mas é necessário recuperar aquele. Jesus ama sem medida a todos, traz em plenitude o amor do Pai. Porém, e como seria de esperar, privilegia os que quer recuperar, incluir, a quem quer devolver a dignidade de filhos de Deus.
       Ele vem para os pecadores. Vem para curar. Vem para ajuntar os que andam dispersos, cansados e abatidos. E como é grande a alegria por cada pessoa que recobra a vida, a saúde, a esperança, a alegria de viver.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

São Nuno de Santa Maria, religioso

Nota biográfica:
       "Nuno Álvares Pereira, fundador da Casa de Bragança, nasceu em Santarém (Portugal) a 24 de junho de 1360. Como Condestável do reino de Portugal, foi militar invencível; mas, vencendo se a si mesmo, pediu a admissão, como irmão leigo, na Ordem do Carmelo. Tinha uma admirável piedade e confiança para com a Santíssima Virgem Maria. Sentia grande satisfação em pedir esmolas pelas portas, desempenhar os ofícios mais humildes na casa de Deus, e mostrou sempre grande compaixão e liberalidade para com os pobres. Morreu no domingo da Ressurreição do ano 1431 (1 de abril)".
       Foi canonizado (reconhecido como Santo para a Igreja) no dia 26 de abril deste ano de 2009, na praça de São Pedro, no Vaticano.
Oração de coleta:
       Senhor nosso Deus, que destes ao bem-aventurado Nuno de Santa Maria a graça de combater o bom combate e o tornastes exímio vencedor de si mesmo, concedei aos vossos servos que, dominando como ele as seduções do mundo, com ele vivam para sempre na pátria celeste. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

BENTO XVI na homilia de Canonização:

"Sabei que o Senhor me fez maravilhas. Ele me ouve, quando eu o chamo" (Sl 4, 4). Estas palavras do Salmo Responsorial exprimem o segredo da vida do bem-aventurado Nuno de Santa Maria, herói e santo de Portugal. Os setenta anos da sua vida situam-se na segunda metade do século XIV e primeira do século XV, que viram aquela nação consolidar a sua independência de Castela e estender-se depois pelos Oceanos – não sem um desígnio particular de Deus – abrindo novas rotas que haviam de propiciar a chegada do Evangelho de Cristo até aos confins da terra. São Nuno sente-se instrumento deste desígnio superior e alistado na militia Christi, ou seja, no serviço de testemunho que cada cristão é chamado a dar no mundo. Características dele são uma intensa vida de oração e absoluta confiança no auxílio divino. Embora fosse um óptimo militar e um grande chefe, nunca deixou os dotes pessoais sobreporem-se à acção suprema que vem de Deus. São Nuno esforçava-se por não pôr obstáculos à acção de Deus na sua vida, imitando Nossa Senhora, de Quem era devotíssimo e a Quem atribuía publicamente as suas vitórias. No ocaso da sua vida, retirou-se para o Convento do Carmo por ele mandado construir. Sinto-me feliz por apontar à Igreja inteira esta figura exemplar nomeadamente pela presença duma vida de fé e oração em contextos aparentemente pouco favoráveis à mesma, sendo a prova de que em qualquer situação, mesmo de carácter militar e bélico, é possível actuar e realizar os valores e princípios da vida cristã, sobretudo se esta é colocada ao serviço do bem comum e da glória de Deus.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

...serás feliz por eles não terem com que retribuir-te

        Disse Jesus a um dos principais fariseus, que O tinha convidado para uma refeição: «Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos» (Lc 14, 12-14).
        A recomendação de Jesus para hoje aposta, e uma vez mais, na radicalidade própria do Evangelho. Os almoços e jantares sociais podem ser oportunidade de aproximação e de enriquecimento humano, estreitando laços. Mas por vezes não passam de momentos de adulação, à espera da paga igual ou superior. Também aqui a afirmação "não há almoços grátis" tem algum sentido, quando o convite visa uma compensação posterior ou outro convite, ou alguma coisa em troca.
       Jesus desafia à partilha com os que têm mais necessidade, os mais frágeis e os mais pobres. Dar sem esperar nada em troca que não seja a alegria por ajudar alguém a ser um pouco mais feliz e a viver mais dignamente. Na linha do que escutávamos ontem no evangelho, não devemos fazer as coisas apenas para sermos vistos pelos outros, mas pelo bem em si mesmo, pela certeza de que concretizámos a nossa identidade cristã.
       À mesa de Jesus todos têm lugar...

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Esforçai-vos por entrar pela porta estreita

       «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos» (Lc 13, 22-30)
        A Deus nada é impossível. Ele dá-nos a salvação. Introduz-nos, por meio do Seu Filho, Jesus Cristo, na Sua comunhão, nesta vida e na eternidade. A cada um de nós cabe acolher (ou não) o projeto de vida e de amor que nos é dado. A preocupação, porém, é darmos o melhor de nós, fazermos a nossa parte, esforçarmo-nos por entrar pela porta estreita, praticar o bem, procurar a conciliação e a paz, promover a justiça, comprometermo-nos, em concreto, com os outros e com a transformação do mundo. As obras devem traduzir as nossas palavras e a nossa profissão de fé.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

O reino de Deus é semelhante a...

       Disse Jesus: «A que é semelhante o reino de Deus, a que hei-de compará-lo? É semelhante ao grão de mostarda que um homem tomou e lançou na sua horta. Cresceu, tornou-se árvore e as aves do céu vieram abrigar-se nos seus ramos». Jesus disse ainda: «A que hei-de comparar o reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado» (Lc 13, 18-21).
       O reino de Deus, instaurado por Jesus, por Ele anunciado e vivido, está em crescimento constante. Para nós, crentes cristãos, o reino de Deus está entre nós, veio em Jesus Cristo, é Ele o rosto de Deus Pai, é o Reino de Deus que seguimos e que queremos acolher em nossas vidas.
       Nestas duas parábolas, Jesus envolve-nos na confiança: Deus vai guiando a história e o tempo. Por vezes não se dá por isso, mas o reino de Deus cresce dia e noite, é semente lançada à terra, é fermento que leveda a massa. No meio da incerteza, Deus garante o nosso futuro.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

A prática do bem não tem horas definidas...

        Estava Jesus a ensinar ao sábado numa sinagoga. Apareceu lá uma mulher com um espírito que a tornava enferma havia dezoito anos; andava curvada e não podia de modo algum endireitar-se. Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe: «Mulher, estás livre da tua enfermidade»; e impôs-lhe as mãos. Ela endireitou-se logo e começou a dar glória a Deus. Mas o chefe da sinagoga, indignado por Jesus ter feito uma cura ao sábado, tomou a palavra e disse à multidão: «Há seis dias para trabalhar. Portanto, vinde curar-vos nesses dias e não no dia de sábado». O Senhor respondeu: «Hipócritas! Não solta cada um de vós do estábulo o seu boi ou o seu jumento ao sábado, para o levar a beber? E esta mulher, filha de Abraão, que Satanás prendeu há dezoito anos, não devia libertar-se desse jugo no dia de sábado?». Enquanto Jesus assim falava, todos os seus adversários ficaram envergonhados e a multidão alegrava-se com todas as maravilhas que Ele realizava (Lc 13, 10-17).
       Em mais um diálogo/confronto de Jesus com as classes predominantes do judaísmo sobressai o legalismo à volta da religião. Com efeito, esta justifica situações que deveria corrigir. Cumpre-se com a lei, ainda que se esqueça o semelhante. E com a mesma Lei se protegem trabalhos mais ou menos pesados, mas recusa-se a caridade.
       Jesus certamente não menospreza as tradições judaicas. Também Ele é judeu. Mas a religião não pode servir apenas para os interesses pessoais, nem como desculpa para não fazer o bem. Mais, o bem não tem dia nem hora para se realizar, todos os segundos são bons para praticar o bem.

sábado, 27 de outubro de 2018

... Talvez venha a dar fruto!

       Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante.
       Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’ Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandarás cortá-la» (Lc 13, 1-9).
       Deus ama-nos pacientemente. Aliás, a paciência de Deus constrói, espera por nós, aguarda a nossa conversão, respeita a nossa liberdade, as nossas escolhas, mas não nos abandona, mesmo em situações em que nós o arredamos da nossa vida, em situações em que, tal como a figueira, não damos fruto. No entanto, Deus continua a esperar, a cuidar de nós, a tratar-nos como filhos. Mais dia menos dia poderemos dar fruto...

Domingo XXX do Tempo Comum - ano B - 28.10.2018

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Jodi Picoult - A CONTADORA DE HISTÓRIAS

JODI PICOULT (2015). A contadora de Histórias. Lisboa: Betrand Editora. 520 páginas.
       No passado dia 21 de agosto (de 2018), Jakiw Palij, nascido na Polónia, agora com 95 anos de idade, ex-guarda de um campo de concentração nazi, foi deportado dos EUA, de Nova Iorque, onde vivia, para a Alemanha. Há 25 anos foi confrontado pela primeira vez sobre as suas ações durante a Segunda Guerra Mundial. Trabalhou como assistente das forças SS de Hitler no campo de concentração de Trawniki (na Polónia ocupada pelos alemães) em 1941. Mais de 6 mil judeus, entre homens, mulheres e crianças, foram assassinados a tiros nesse campo no dia 3 de novembro de 1943, num dos maiores massacres num único dia no Holocausto. Chegou aos EUA em 1949 e obteve, 8 anos depois, a cidadania americana, sendo-lhe retirada em 2003, por ter mentido sobre o seu passado ligado ao nazismo. Contribuiu diretamente para o extermínio dos prisioneiros judeus, já que tinha como missão assegurar-se que não fugiam. Levou alguns anos a ser deportado, pois nenhum país na Europa o aceitava até que finalmente a Alemanha o recebeu. A Alemanha julgou e condenou vários membros da SS por cumplicidade em assassinatos, mas nenhum deles foi para a prisão, por motivos de saúde.
       Este caso é real e histórico.
       No livro que agora sugerimos como leitura, a autora é verdadeiramente uma contadora de histórias, mas, como em outros romances que escreveu e deu à estampa, têm muito a ver com a realidade. Com efeito, "A Contadora de Histórias" narra a vida de Sage, neta de uma judia que foi prisioneira Nazi. Algumas das personagens vão contando a suas vidas, permitindo-nos diferentes pontos de vista. A história do presente encontra um bom homem, aceite pela comunidade e perfeitamente integrado, mas que quer contar o seu segredo, a sua vida passada, como membro das SS. Pouco a pouco, as personagens vão entrelaçando a trama, o passado e o presente, e o futuro. Josef pede ajuda a Sage para morrer. Aos poucos Sage percebe que Josef precisa de perdão, do perdão de uma judia, já que não pode pedir perdão aqueles e àquelas que morreram vítimas do Nazi. Vai-se percebendo que Josef, mesmo sendo nazista e no campo de concentração, vai procurando proteger sobretudo as crianças. De algum modo foi ele que protegeu a Avó de Sage, ainda que ele procure mostrar que era mau, para que Sage o possa ajudar a morrer. Sage tinha encontrado um amigo e agora enfrenta a dúvida se o há de entregar para ser julgado e expulso dos EUA ou se o há de proteger ou se o há de ajudar a morrer. Perdoar ou manter o ciclo das ofensas!
       A contadora de histórias é também a Avó de Sage, Minka, que, através da criação imaginativa de estórias, sobreviveu e ajudou outras a sobreviver no campo de concentração. É um romance que tem muito de histórico, com a seriedade e honestidade com que Jodi Picoult coloca em toda a trama. É como se estivesse dentro da história, ou dentro do filme, envolvidos e engolidos pela realidade. É daqueles romances, como aliás sugere a crítica, que se lê de fio a pavio sem parar, com vontade de continuar para descobrir onde nos conduz a história.

Uma ou outra frase:
"Dentro de cada um de nós existe um monstro; dentro de cada um de nós existe um santo. A verdadeira questão é qual deles alimentamos melhor, qual deles destruirá o outro"."Um monstro é apenas uma pessoa para quem o equilíbrio se desfez a favor do mal"
"... pessoas desesperadas fazem coisas que normalmente não fariam"."Quando a nossa existência é um inferno, a morte deve ser o céu".
"O poder não é fazer algo terrível a alguém que é mais fraco do que nós... É ter a força de fazer algo de terrível e optar por o não fazer"."O que tens de parti para reunir uma família? Pão, evidentemente".
"Se os meteres a todos no mesmo saco por serem alemães, como podes ser diferente, quando eles nos metem a todos no mesmo saco por sermos judeus?""Tudo o que precisamos para viver mais um dia é de uma boa razão para ficar neste mundo".
"Por vezes, para voltarmos a ser humanos, só precisamos que alguém seja capaz de nos ver como seres humanos independentemente do que mostramos à superfície"."A história não é um relato sobre datas, lugares e guerras. É sobre pessoas que preenchem os espaços entre eles".
"No Judaísmo há dois pecados que não podem ser perdoados. O primeiro é o homicídio, porque tem de ir ter com a outra parte e defender a nossa posição, e obviamente tal não é possível se a vítima está debaixo de terra. Mas o segundo pecado imperdoável é arruinar a reputação de alguém. Tal como um morto não pode perdoar ao assassino, uma boa reputação jamais pode ser reparadas. Durante o Holocausto os judeus foram assassinados e a sua reputação foi destruída"."Por vezes, para ganharmos precisamos de fazer sacrifícios".
"O padre disse: «O que ele fez está errado. Ele não merece o vosso amor. Mas merece o vosso perdão, porque caso contrário irá crescer como uma erva daninha dentro do vosso coração até o sufocar e cobrir. A única pessoa que sofre, quando se acumula todo esse ódio, és tu». Eu tinha treze anos e sabia muito pouco sobre o mundo, mas sabia que havia sabedoria na religião, então queria fazer parte dela. - Olha-me. - Não sei o que essa pessoa te fez, e não tenho a certeza se o quero saber. Mas perdoar não é algo que se faz por alguém. É algo que fazemos por nós próprios. É dizer: Não és suficientemente importante para teres poder sobre mim. É dizer: Não me vais deixar presa no passado, Eu mereço um futuro".

CARDEAL SEÁN O'MALLEY - Anel e Sandálias

CARDEAL SEÁN O'MALLEY (2010). Anel e Sandálias. Prior Velho: Paulinas Editora. 168 páginas.
       Em 2003, o Papa João Paulo II nomeou-o Arcebispo de Boston e em 2006 foi escolhido para Cardeal pelo Papa Bento XVI, mas antes disso, desde 1984, quando foi ordenado Bispo, passou por outras dioceses: São Tomás, nas Ilhas Virgens, Fall River, em Massachusetts e de Palm Beach, na Florida. Nasceu em 1944 e aos 21 anos professou na Ordem dos Frades Menores capuchinhos, sendo ordenado aos 26 anos de idade. É franciscano, é capuchinho, é Bispo e tem sangue irlandês.
       Esta é uma leitura intemporal, diríamos. Pessoas sábias, humildes, simples falam de forma simples, acessível, tocam-nos nas feridas, comprometem-nos com os que nos rodeiam.
       O livro é formado por um conjunto de Homilias, algumas delas aos sacerdotes, em quinta-feira santa, um intervenção, como por exemplo sobre a identidade capuchinha. Uma das homilias foi proferida no Santuário de Fátima, no dia 13 de agosto de 2007.
       O que dizemos integra o que somos e obviamente que o Cardeal recorre frequentemente à sua vida, dando exemplos concretos, como filho, com a costela irlandesa, como sacerdote capuchinho, como Bispo. Trabalhou de perto com emigrantes portugueses mas sobretudo hispânicos, em busca de uma terra de liberdade e se sonho, com empenho pessoal/eclesial para os acolher e os ajudar. Contactou diretamente, nos anos de formação, com D. Óscar Romero, o Bispo-mártir que se colocou à lado do seu povo, dos pobres e dos trabalhadores.
       Nas páginas deste livro sobrevém a clareza do pensamento, mas sobretudo a firmeza da fé e do testemunho cristão, na comunhão com a Igreja e na proximidade a Jesus e ao Seu Evangelho de ternura, no compromisso com as comunidades, com os mais desfavorecidos, no acolhimento a todos os que chegam! Uma das ideias-chaves do Papa Francisco é a Igreja em saída, também presente nas Homilias do Cardeal na Missa crismal das quinta-feiras santas, convocando a ir ao encontro não apenas da ovelha perdida, mas do rebanho que já se encontra fora. A não descurar nunca, para uma missão evangelizadora eficaz, a oração, a oração diligente, oração pessoal e comunitária. «Ser franciscano quer dizer procurar o último lugar à mesa e ser o menor dos irmãos. A função do Bispo, na Igreja, é a autoridade apostólica e de paternidade. Ser ao mesmo tempo o irmão mais pequeno e o pai é um verdadeiro desafio» Explicando título - Anel e Sandálias: «Na parábola evangélica, os dois presentes que  pai dá ao filho pródigo são um anel e umas sandálias... Tal como o filho pródigo, eu não merecia tanta generosidade da parte do Pai. O mínimo que posso dizer é que fui apanhado de surpresa...». 

Discernir os sinais dos tempos...

       Dizia Jesus à multidão: «Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: ‘Vem chuva’; e assim acontece. E quando sopra o vento sul, dizeis: ‘Vai fazer muito calor’; e assim sucede. Hipócritas, se sabeis discernir o aspecto da terra e do céu, porque não sabeis discernir o tempo presente? Porque não julgais por vós mesmos o que é justo?». E acrescentou: «Quando fores com o teu adversário ao magistrado, esforça-te por te entenderes com ele no caminho, para que ele não te arraste ao juiz e o juiz te entregue ao oficial de justiça e o oficial de justiça te meta na prisão. Eu te digo: Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo» (Lc 12, 54-59).
        É necessário ler os sinais dos tempos e agir em conformidade. Ter conhecimentos, porém, sejam eles quais forem, só fará sentido e só terá importância na medida que nos aproximarem dos outros, se nos mobilizarem para os irmãos. Assim, o verdadeiro conhecimento é aquele que nos congrega e nos compromete com os nossos semelhantes.
       Como é costume dizer-se, quem melhor conhece a Deus é o Diabo e no entanto não é crente, não é cristão. Obviamente, para amarmos precisamos de conhecer, não amamos que que ignoramos. Ainda que o conhecimento (sobretudo) acerca das pessoas seja progressivo. Partir do conhecimento para adquirirmos a sabedoria que nos leva a utilizar a inteligência para viver melhor, para dar qualidade aos nossos dias, para nos aproximarmos uns dos outros.
Por outro lado, a evolução científica e tecnológica, o desenvolvimento dos meios de comunicação aproximou-nos uns dos outros, mas como recordou Bento XVI numa das Mensagens para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, não nos tornou irmãos. Não basta saber muito de história, de filosofia, de matemática, ou ter esta ou aquela licenciatura. É preciso amar. É preciso conhecer o nosso semelhante, o nosso vizinho (e não apenas aquele ator, ou aquele cantor).

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Eu vim trazer o fogo à terra...

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um baptismo e estou ansioso até que ele se realize. Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra» (Lc 12, 49-53).
       As expressões do Evangelho de hoje, usadas por Jesus, e à primeira vista, colocam algumas dúvidas e integerrogações. Então Jesus não veio estabelecer a paz em toda a terra? Como é que sendo o Princípe da Paz, Ele vem para incendiar, para pôr mais achas na fogueira, para dividir?
       Numa leitura atenta, não apenas ao Evangelho proposto, mas no contexto da vida de Jesus e da Sua mensagem, verificamos que o cristão, o seguidor de Jesus Cristo, não pode acomodar-se, instalar-se no seu conforto sem se comprometer com os outros. O cristão não renuncia aos seus valores para agradar ou para facilitar um determinado tipo de paz. O cristão não combate pessoas, mas deve combater por ideias, por convicções, ainda que por vezes incomode outras pessoas ou instituições.
       A paz, mas não a paz a qualquer preço, a paz que se baseia no amor, na justiça, na verdade.
       Quando as pessoas agem procurando a verdade e a justiça, a rectidão e a frontalidade, quando se guiam pela sua consciência (bem formada, esclarecida, aberta aos outros) e não se deixam arrastar pela correnteza da opinião geral, estão sujeitas a alguns dissabores, a enfrentar-se com outras opiniões e outras pessoas. Bem entendida a discussão é positiva, como diz o ditado, da discussão nasce a luz. Porém, a procura da verdade pode encontrar diversos obstáculos, porque expõe outros que vivem na mentira e na hipocrisia, e porque podem impedir outros mais de viverem a seu bel-prazer e à custa das ilusões que inculcam nos demais...

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Estai vós também preparados...

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem».
       Disse Pedro a Jesus: «Senhor, é para nós que dizes esta parábola, ou também para todos os outros?».
       O Senhor respondeu: «Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor estabelecerá à frente da sua casa, para dar devidamente a cada um a sua ração de trigo? Feliz o servo a quem o senhor, ao chegar, encontrar assim ocupado. Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. Mas se aquele servo disser consigo mesmo: ‘O meu senhor tarda em vir’; e começar a bater em servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele servo chegará no dia em que menos espera e a horas que ele não sabe; ele o expulsará e fará que tenha a sorte dos infiéis. O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou ou não cumpriu a sua vontade, levará muitas vergastadas. Aquele, porém, que, sem a conhecer, tenha feito acções que mereçam vergastadas, levará apenas algumas. A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá» (Lc 12, 39-48). 
        A recomendação de Jesus é permanente: vigilância. Agir em cada momento como se fora a última oportunidade para deixarmos marcas positivas no mundo em que estamos inseridos e pelo qual também somos responsáveis.
       Por outro lado, refira-se, que os talentos que Deus nos dá têm uma dimensão instrumental, não são para auto-regozijo, aliás não faria sentido termos talentos que não desenvolvemos... como é que saberíamos que são talentos se não funcionassem como tal. São instrumentais, estão ao serviço dos outros, e do mundo que nos envolve. Quanta mais informação e dons maior a responsabilidade no compromisso com os outros.
       O cristão não espera para amanhã para ser feliz nem para se comprometer com os outros. O cristão deve ser santo hoje, deve praticar a caridade, o bem, agora, com pessoas concretas...

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Tende os rins cingidos...

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada felizes serão se assim os encontrar» (Lc 12, 35-38).
       Os judeus, naquele tempo, hoje apenas alguns, e naturalmente as pessoas de outros povos, trajavam roupas compridas, em formato de vestido/túnica. Depois colocavam um manto que os identificava socialmente, mediante a qualidade do mesmo e os padrões exibidos.
       Quando era necessário servir, as roupas tinham de ser acomodadas, para que não tropeçassem. Assim subiam ligeiramente as roupas, prendendo-as à cintura (rins).
       Jesus utiliza como imagem esta realidade concreta. Ter os rins cingidos significa estar pronto, preparado para todas as eventualidades, preparado mesmo para a morte.
       O cristão, discípulo/seguidor de Jesus Cristo deverá estar sempre comprometido com o bem, com a justiça, com a caridade. Já temos ouvido pessoas a dizer que quando forem mais velhas então passarão a ir à Missa, a fazer tudo certinho; ou quando a situação melhorar poderão nessa altura ajudar: na Igreja ou na Sociedade.
       Porém, o cristão não é ou não deve ser pessoa de adiar, mas viver agora, comprometer-se agora, (re)organizar o seu tempo e as suas energias para hoje. Amanhã pode ser tarde de mais. As condições nunca serão as ideais. Porque não ajudar onde se detecta esta ou aquela necessidade?
       A santidade não se conquista no fim, mas na caminhada...

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

São JOÃO PAULO II, Papa

Nota biográfica
      Karol Józef Wojtyła nasceu a 18 de maio de 1920, no lugar de Wadowice, na Polónia. O mais novo de três irmãos. Filho de Karol Wojtyła e Emilia Kaczorowska. A sua mãe morreu em 1929. O seu irmão mais velho, (médico) morreu em 1932 e o seu pai (suboficial do exército) em 1941. A sua irmã, Olga, morreu antes dele nascer.
       Foi batizado por Franciszek Zak, em 20 de junho de 1920 na Igreja paroquial de Wadowice; aos 9 anos fez a Primeira Comunhão. Aos 18, recebeu o Sacramento da Confirmação.
       Em 1938 matriculou-se na Universidade Jagellónica de Cracóvia e numa escola de teatro.
       Com a ocupação nazi, e com o encerramento da Universidade, em 1939, começou a trabalhar numa pedreira e logo numa fábrica de químicos, para ganhar a vida e evitar ser deportado para a Alemanha.
       A partir de 1942, ao sentir a vocação para o sacerdócio, começou a formação do seminário clandestino de Cracóvia, dirigido pelo Arcebispo de Cracóvia, Cardeal Adam Stefan Sapieha. Ao mesmo tempo, foi um dos promotores da "Teatro Rapsódico", também clandestino. 
       Após a Segunda Guerra Mundial, continuou seus estudos no Seminário Maior de Cracóvia, e na Faculdade de Teologia da Universidade Jagiellonian, até à sua ordenação sacerdotal em Cracóvia em 1 de novembro de 1946 pelo Arcebispo Sapieha. Seguiram-se estudos em Roma, onde, sob a direção do dominicano francês Garrigou-Lagrange, se doutorou, em 1948, em teologia, com uma tese sobre o tema da fé nas obras de São João da Cruz. Naquele período, durante as férias, exerceu o seu ministério pastoral entre os imigrantes polacos da França, Bélgica e Holanda. 
       Em 1948, regressou à Polónia e foi vigário de diversas paróquias de Cracóvia, bem como capelão universitário até 1951, retomando os estudos filosóficos e teológicos. Em 1953, apresentou, na Universidade Católica de Lublin, uma tese sobre "Avaliação da possibilidade de fundar uma ética católica sobre o sistema ético de Max Scheler". Tornou-se, então, professor de Teologia Moral e Ética Social no Seminário Maior de Cracóvia e na Faculdade de Teologia de Lublin.
       Em 4 de julho de 1958, foi nomeado, pelo Papa Pio XII, Bispo titular de Olmi e auxiliar de Cracóvia. Recebeu a Ordenação Episcopal em 28 de setembro de 1958, na Catedral de Wawel (Cracóvia) pelo arcebispo Eugeniusz Baziak. 
       Em 13 de janeiro de 1964, foi nomeado Arcebispo de Cracóvia pelo Papa Paulo VI, que o fez cardeal 26 de junho de 1967, com o título de São César em Palatio. 
       Além de participar do Concílio Vaticano II (1962-1965), com uma contribuição importante para a elaboração da Constituição Gaudium et spes, o Cardeal Wojtyla participou em todas as assembleias do Sínodo dos Bispos, antes de seu pontificado.
       Depois da morte prematura do papa João Paulo I, os Cardeais elegeram-no Papa, o 263.º, em 16 de outubro de 1978, escolhendo o nome de João Paulo II, e começou o seu pontificado petrino no dia 22 de outubro, data em que agora se celebra a Sua memória litúrgica.
       Foi um dos pontificados mais longos, durou quase 27 anos.
       Distinguiu-se pela extraordinária solicitude apostólica, em particular para com as famílias, os jovens e os doentes, o que o levou a realizar numerosas visitas pastorais a todo o mundo. Entre os muitos frutos mais significativos deixados em herança à Igreja, destaca-se o seu riquíssimo Magistério e a promulgação do Catecismo da Igreja Católica e do Código de Direito Canónico para a Igreja latina e oriental, a criação das Jornadas Mundiais da Juventude, reflexão sobre a família e sobre o corpo humano, sobre o trabalho e a dignidade da mulher... 
       Outros marcos no seu pontificado: promoção do diálogo ecuménico e inter-religioso, encontro de oração em Assis pela paz, com membros de outras religiões; grande Jubileu do Ano 2000 do nascimento de Jesus Cristo; Ano da Redenção; Ano Mariano; Ano da Eucaristia; proclamou Santa Teresa do Menino Jesus como Doutora da Igreja, além dos muitos santos e beatos elevados aos altares.
       Documentos principais: 14 Encíclicas; 15 Exortações Apostólicas; 11 Constituições Apostólicas e 45 Cartas Apostólicas.
       A título mais pessoal, publicou 5 livros: Atravessando o Limiar da Esperança (outubro de 1994); Dom e Mistério - 50.º aniversário da ordenação sacerdotal (novembro de 1996); Tríptico romano - Meditações, livro de poesias (março de 2003); Levantai-vos, vamos (maio de 2004), e Memória e Identidade (fevereiro de 2005).
       Morreu piedosamente, em Roma, a 2 de Abril de 2005, na Vigília do II Domingo de Páscoa ou da Divina Misericórdia.
       No dia 8 de abril, a celebração da Exéquias, sob a presidência do Cardeal Joseph Ratzinger, conhecido como Seu braço direito e que viria a ser Seu sucessor, como Papa Bento XVI. Mais de três milhões de pessoas que passaram junto do Seu corpo, para prestar uma última homenagem.
       Bento XVI, a 28 de abril, poucos dias de assumir o pontificado petrino, dispensou os 5 anos de espera depois da morte para se abrir o processo de beatificação e canonização, causa aberta em 28 de junho de 2005, pelo Cardeal Camillo Ruini, Vigário-Geral para a Diocese de Roma.
       Foi beatificado em 1 de maio de 2011, pelo Papa Bento XVI, e canonizado conjuntamente com o Papa João XXIII, em 27 de abril de 2014, pelo Papa Francisco. A concelebrar esteve o Papa Emérito Bento XVI.

Oração de coleta:
Deus, rico de misericórdia, que colocastes o papa João Paulo II à frente da vossa Igreja, fazei que, instruídos pelos seus ensinamentos, abramos confiadamente os nossos corações à graça salvadora de Cristo, único salvador do mundo. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
  • Será interessante ler também:

Página Oficial da Santa Sé, Vaticano (seguimos a versão em castelhano)

sábado, 20 de outubro de 2018

Domingo XXIX do Tempo Comum - ano B - 21.10.2018

O Espírito Santo vos ensinará o que haveis de dizer

       Disse Jesus aos seus discípulos:
       «A todo aquele que Me tiver reconhecido diante dos homens também o Filho do homem o reconhecerá diante dos Anjos de Deus. Mas quem Me tiver negado diante dos homens será negado diante dos Anjos de Deus. E todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem será perdoado; mas quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo não será perdoado. Quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos preocupeis com o que haveis de responder nem com o que haveis de dizer em vossa defesa. O Espírito Santo vos ensinará naquela hora o que haveis de dizer» (Lc 12, 8-12).
       O testemunho, pelas palavras e pela vida, é essencial na vida dos cristãos. A vida de Jesus é expressão, isto é, testemunho do amor de Deus por nós, pela humanidade inteira. É a vocação do cristão, o seu compromisso com Jesus Cristo: acolhê-l'O, vivê-l'O e dá-l'O a conhecer a todo o mundo. Ide e anunciai o Evangelho a todos os povos da terra. Eu estarei convosco até ao fim do mundo, em toda a parte, em todo o tempo.
       A garantia do nosso testemunho é a vida eterna, o testemunho que Jesus dará por nós junto do Pai. Ou por outras palavras, a certeza de que Jesus testemunhará a nosso favor, deverá ser desafio suficiente para nos comprometermos com os outros dando testemunho do amor de Deus por nós, em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo, para que todos tenham possibilidade de conhecer, amar e viver do amor de Deus.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Não temais. Valeis mais do que todos os passarinhos

        E Jesus começou a dizer, em primeiro lugar para os seus discípulos: «Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem há nada oculto que não venha a conhecer-se. Por isso, tudo o que tiverdes dito às escuras será ouvido à luz do dia e o que tiverdes dito aos ouvidos, nos aposentos interiores, será proclamado sobre os telhados. Digo-vos a vós, meus amigos: Não temais os que matam o corpo e depois nada mais podem fazer. Vou mostrar-vos a quem deveis temer: Temei Aquele que, depois de matar, tem poder para lançar na Geena. Sim, Eu vos digo, a Esse é que deveis temer. Não se vendem cinco passarinhos por duas moedas? Contudo, nenhum deles é esquecido diante de Deus. Mais ainda, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais. Valeis mais do que todos os passarinhos» (Lc 12, 1-7).
        O confronto com os fariseus continua, agora como forma de recomendação aos discípulos.
       A preocupação de Jesus é que os Seus discípulos se libertam de ritos, tradições, usos, que pretendam apenas manter posições, ou para que os outros vejam. O essencial é a vivência da própria vida como um dom, confiantes na presença e na bondade de Deus, a coerência de vida, a partilha solidária do que se tem mas sobretudo do que se é.
       Por outro lado, Jesus diz claramente aos seus discípulos, que hoje somos nós, para não temerem os que matam o corpo mas que não podem matar o espírito. Para que não nos vendamos a modas, ou conveniências, mas para agirmos em conformidade com a nossa fé. Deus estará sempre connosco, Ele é o Bom Pastor que nos guarda e protege. Nem um só cabelo da nossa cabeça cai sem que Ele o saiba e permita...
       Importa, em todas as circunstâncias, o interior, a conversão, a fé que se transforma, em obras. Ou como nos recorda Santa Teresa de Jesus: “O Senhor não olha tanto a grandeza das nossas obras. Olha mais o amor com que são feitas”. Importa pouco a imagem que os outros tenham de nós, e sobretudo se a imagem, fabricada, em pouco disser do que somos e do que devemos ser, como filhos de Deus, sua imagem e semelhança.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

São Lucas, Evangelista

Nota biográfica:
       Nascido numa família pagã e convertido à fé, acompanhou o apóstolo Paulo, de cuja pregação é reflexo o Evangelho que escreveu. Transmitiu noutro livro, intitulado Actos dos Apóstolos, os primeiros passos da vida da Igreja até à primeira estadia de Paulo em Roma.
Oração de coleta:
       Senhor nosso Deus, que escolhestes São Lucas para revelar com a sua palavra e os seus escritos o mistério do vosso amor pelos pobres, fazei que sejam um só coração e uma só alma aqueles que se gloriam no vosso nome, e todos os povos mereçam ver a vossa salvação. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Das Homilias de São Gregório Magno, papa, sobre os Evangelhos

O Senhor segue atrás dos seus pregadores

Irmãos caríssimos: Nosso Senhor e Salvador ensina nos umas vezes por palavras e outras por acções. Com efeito, as suas próprias obras são preceitos, pois com elas nos dá a conhecer tacitamente o que devemos fazer.
Ele envia os seus discípulos em pregação dois a dois, porque são dois os mandamentos da caridade, a saber, o amor de Deus e do próximo. O Senhor manda os seus discípulos em pregação dois a dois, para nos indicar isto sem palavras: quem não tiver caridade para com os outros de modo algum deve assumir o ofício da pregação.
Apropriadamente se diz que os mandou à sua frente a todas as cidades e lugares aonde Ele próprio havia de ir. Na verdade, o Senhor segue os seus pregadores, porque a pregação prepara a sua vinda. O momento em que o Senhor vem habitar no nosso espírito é justamente quando as palavras de exortação aparecem antes d’Ele e por meio delas a verdade é recebida na alma. É por isso que Isaías diz aos mesmos pregadores: Preparai o caminho do Senhor, aplanai as veredas para o nosso Deus. Também o Salmista lhes diz: Abri caminho Àquele que sobe sobre o ocaso. É o Senhor que sobe sobre o ocaso, porque a sua morte Lhe serviu de pedestal para manifestar mais esplendorosamente a sua glória na ressurreição. Sobe sobre o ocaso, dizemos, porque a morte que suportou, Ele a calcou aos pés ao ressurgir. Portanto, abrimos caminho Àquele que sobe sobre o ocaso quando pregamos às vossas almas a sua glória, para que venha depois Ele próprio iluminá las com a presença do seu amor.
Mas ouçamos o que diz aos pregadores que enviou: A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai portanto ao senhor da messe que mande operários para a sua messe. Para a messe, que é grande, os trabalhadores são poucos, o que não podemos referir sem tristeza; porque, embora haja quem ouça a boa nova, falta quem a pregue. De facto o mundo está cheio de sacerdotes, mas muito raramente se encontra um operário na messe de Deus. É verdade que recebemos o ministério sacerdotal, mas não cumprimos as obrigações do cargo.
Pensai, caros irmãos, pensai no que diz o Evangelho: Rogai ao senhor da messe que mande operários para a sua messe. Pedi por nós para que possamos trabalhar por vós como convém; para que a nossa língua não deixe de vos exortar, não seja caso, que, tendo recebido o ofício da pregação, o nosso silêncio nos venha acusar perante o justo juiz.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Paróquia de Pinheiros - Santa Eufémia 2018

Festa e romaria de Santa Eufémia de Pinheiros, a maior romaria do Concelho / Zona Pastoral de Tabuaço, com o seu dia maior a 16 de setembro, dia do martírio de Santa Eufémia.
Antes da Festa da Novena. A 14 de setembro (de 2018), a Procissão das Velas em honra de Nossa Senhora do Rosário, Padroeira primitiva da Paróquia. No dia seguinte à Santa Eufémia, festa em honra de Santa Bárbara. 
Créditos:
Fotos - Paróquia de Pinheiros.
Música de fundo: Coral de Santa Maria Maior de Almacave - Em Tuas mãos e O Senhor é meu Pastor.

Santo Inácio de Antioquia, Bispo e Mártir

       Antioquia e Alexandria era dois grandes centros académicos, nos inícios da Igreja. A teologia desenvolvia-se de sobremaneira nestes dois pólos, mas pelo caminho fica marcas profundas de perseguição aos cristãos, à Igreja, e sobretudo às figuras que estavam à frente das comunidades.
       Não se sabe muito dos primeiros anos da vida de Inácio. Assim acontece com muitas personagens históricas.
       São conhecidas as cartas de Santo Inácio, obra incontornável do cristianismo e da teologia, onde deixa transparecer a intimidade com Jesus Cristo, em que nada o desvia do olhar de Cristo e nada o afasta da vivência autêntica do Evangelho, nelas se encontra a doutrina evangélica e paulina. É a segunda geração depois dos Apóstolos.
       Com ele aparece pela primeira vez o termo que caracteriza a Igreja como "CATÓLICA":
     "Onde aparecer o bispo, aí está também a multidão, de maneira que, onde estiver Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica".
       Inácio foi detido e condenado a ser devorado pelas feras na grande cidade de Roma. E a partir daqui se conhecem melhor os passos deste santo.
       Condenado o santo Bispo de Antioquia mantém-se sereno. Pelo caminho para Roma escreve à comunidade de Éfeso. Em Esmirna, a comunidade, juntamente com o seu Bispo, São Policarpo, discípulo de São João Evangelista, recebe-o como fosse o próprio Jesus Cristo. Outras comunidades seguem o exemplo de Esmirna e recebem-no com toda a caridade. Algumas delas são enriquecidas com as suas cartas: Éfeso, Trales, Magnésia, Esmirna, Roma.
       Ao aproximar-se de Roma é informado que os romanos procuram, através de diversas influências, alterar a condenação. Ao saber disso, Santo Inácio escreve-lhes a carta mais comovedora, começando por reconhecer a Igreja de Roma como aquela que preside à caridade.
       A sua grande serenidade aproxima-o da eternidade com Jesus Cristo:
       "Desde a Síria até Roma estou a lutar com as feras, por terra e por mar, de noite e de dia, atado como estou de dez leopardos, quer dizer, um pelotão de soldados que, com benefícios que lhes são feitos, se tornam piores. Agora sim, com os seus maus tratos, aprendo eu a ser melhor discípulos do Senhor, embora nem por isto me tenha por justificado.
     "Oxalá goze eu das feras que estão para mim destinadas... Agora começo a ser discípulo. Nenhuma coisa visível ou invisível seja posta diante de mim por má vontade,, impedindo-me alcançar Jesus Cristo...
     "O meu amor está crucificado e já não há em mim fogo que busque alimentar-me de matéria; mas sim, em troca, água viva murmura dentro de mim e do íntimo está dizendo: 'Vem para o Pai'...
     "Trigo sou de Deus, e pelos dentes das feras hei-de ser moído, a fim de ser apresentado como limpo pão de Cristo".
      Foi lançado às feras no dia 20 de Dezembro de 107.

Oração de Coleta: 
       Deus eterno e omnipotente, que pelo testemunho dos santos mártires honrais todo o corpo da Igreja, concedei que o glorioso martírio de Santo Inácio de Antioquia que hoje celebramos, assim como mereceu para ele a glória eterna, seja também para nós um auxílio permanente. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Da Carta de Santo Inácio, bispo e mártir, aos Romanos
Sou trigo de Deus e serei moído pelos dentes das feras
Escrevo a todas as Igrejas e asseguro a todas elas que estou disposto a morrer de bom grado por Deus, se vós não o impedirdes. Peço-vos que não manifesteis por mim uma benevolência inoportuna. Deixai-me ser pasto das feras, pelas quais poderei chegar à posse de Deus. Sou trigo de Deus e devo ser moído pelos dentes das feras, para me transformar em pão limpo de Cristo. Rezai por mim a Cristo, para que, por meio desses instrumentos, eu seja sacrifício para Deus.
Para nada me serviriam os prazeres do mundo ou os reinos deste século. Prefiro morrer em Cristo Jesus a reinar sobre todos os confins da terra. Procuro Aquele que morreu por nós; quero Aquele que ressuscitou por nossa causa. Estou prestes a nascer. Tende piedade de mim, irmãos. Não me impeçais de viver, não queirais que eu morra. Não me entregueis ao mundo, a mim que desejo ser de Deus, nem penseis seduzir-me com coisas terrenas. Deixai-me alcançar a luz pura. Quando lá chegar serei verdadeiramente um homem. Deixai-me ser imitador da paixão do meu Deus. Se alguém O possuir, compreenderá o que quero e terá compaixão de mim, por conhecer a ânsia que me atormenta.
O príncipe deste mundo quer arrebatar-me e corromper a disposição da minha vontade para com Deus. Nenhum de vós o ajude; tornai-vos antes partidários meus, isto é, de Deus. Não queirais ter ao mesmo tempo o nome de Jesus Cristo na boca e desejos mundanos no coração. Não me queirais mal. Mesmo que eu vo-lo pedisse na vossa presença, não me devíeis acreditar. Acreditai antes nisto que vos escrevo. Estou a escrever-vos enquanto ainda vivo, mas desejando morrer. O meu Amor está crucificado e não há em mim fogo que se alimente da matéria. Mas há uma água viva que murmura dentro de mim e me diz interiormente: «Vem para o Pai». Não me satisfazem os alimentos corruptíveis nem os prazeres deste mundo. Quero o pão de Deus, que é a Carne de Jesus Cristo, nascido da linhagem de David, e por bebida quero o seu Sangue que é a caridade incorruptível.
Já não quero viver mais segundo os homens; e isto acontecerá, se vós quiserdes. Peço-vos que o queirais, para que também vós alcanceis benevolência. Peço-vos em poucas palavras: acreditai-me. Jesus Cristo vos fará compreender que digo a verdade. Ele é a boca da verdade, no qual o Pai falou verdadeiramente. Pedi por mim para que o consiga. Não vos escrevi segundo a carne, mas segundo o espírito de Deus. Se padecer o martírio, ter-me-eis amado; se me rejeitarem, ter me eis querido mal.