quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Haverá dias para fazer o bem?

       Jesus entrou de novo na sinagoga, onde estava um homem com uma das mãos atrofiada. Os fariseus observavam Jesus para verem se Ele ia curá-lo ao sábado e poderem assim acusá-l’O. Jesus disse ao homem que tinha a mão atrofiada: «Levanta-te e vem aqui para o meio». Depois perguntou-lhes: «Será permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar a vida ou tirá-la?». Mas eles ficaram calados. Então, olhando-os com indignação e entristecido com a dureza dos seus corações, disse ao homem: «Estende a mão». Ele estendeu-a e a mão ficou curada. Os fariseus, porém, logo que saíram dali, reuniram-se com os herodianos para deliberarem como haviam de acabar com Ele (Mc 3, 1-6).
        Para fazer o bem todos os dias são bons. Para fazer o mal nenhum dia deveria ser utilizado.
       Esta é a mensagem de Jesus, ontem como hoje. Para os fariseus e outros que mais, o mais importante é garantir o cumprimento escrupuloso da lei. A lei, e neste concreto a Lei de Moisés, não pode ser usada para impedir o bem, para o não-compromisso. Antes da Lei e paa lá da Lei estão as pessoas que Deus ama. Para Jesus, o fundamental é atender à pessoa, estar ao seu serviço e fazer o que está ao seu alcance para proporcionar bem-estar, paz, e saúde. Jesus testemunha a atenção de Deus às pessoas de carne e osso e neste gesto a certeza que Deus continua a agir no mundo. No sinal da cura, a certeza que Deus nos ama e nos quer bem.Assim com Jesus. Assim há de ser connosco.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Santo Antão, Abade

Nota biográfica:
       Este insigne pai do monaquismo nasceu no Egipto cerca do ano 250. Depois da morte de seus pais, distribuiu os seus haveres pelos pobres e retirou-se para o deserto, onde começou a sua vida de penitente. Teve numerosos discípulos e trabalhou em defesa da Igreja, animando os confessores na perseguição de Diocleciano e apoiando S. Atanásio na luta contra os arianos. Morreu no ano 356.
Oração de Colecta:
       Senhor nosso Deus, que destes a Santo Antão a graça de viver uma vida heróica na solidão do deserto, concedei-nos, por sua intercessão, que, renunciando a nós mesmos, Vos amemos sempre sobre todas as coisas. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Da Vida de Santo Antão, escrita por Santo Atanásio, bispo

A vocação de Santo Antão

Depois da morte de seus pais, tendo ficado com uma irmã ainda pequena, Antão, que tinha uns dezoito ou vinte anos, tomou conta da casa e da irmã.
Não tinham passado ainda seis meses do falecimento de seus pais, quando um dia em que se dirigia, segundo o seu costume, para a igreja, ia refletindo sobre a razão que levara os Apóstolos a abandonar tudo para seguir o Salvador e por que motivo também aqueles homens de que se fala nos Atos dos Apóstolos vendiam tudo o que possuíam e depunham o preço aos pés dos Apóstolos para que o distribuíssem aos pobres; e ia pensando na grande e maravilhosa esperança que lhes estava reservada nos Céus. Meditando nestas coisas, entrou na igreja mesmo no momento em que se lia o Evangelho e ouviu o que o Senhor disse ao jovem rico: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres. Depois vem e segue-me, e terás um tesouro nos Céus.
Então, considerando que a recordação dos santos exemplos lhe tinha sido enviada por Deus e que aquelas palavras eram dirigidas pessoalmente para ele, logo que voltou da Igreja, Antão distribuiu pelos habitantes da região as propriedades que herdara da família (possuía trezentos campos muito férteis e amenos), para que aquelas não fossem motivo de inquietação para si e para a sua irmã. Vendeu também todos os móveis e distribuiu pelos pobres a grande quantia que assim obtivera, conservando apenas uma pequena parte por causa da irmã.
Tendo entrado outra vez na igreja, ouviu o Senhor dizer no Evangelho: Não vos inquieteis com o dia de amanhã. Não conseguiu permanecer ali mais tempo. Saiu, e até aquele pouco que guardara distribuiu pelos pobres. Confiou a irmã a uma comunidade de virgens consagradas que conhecia e considerava fiéis, para que fosse educada no Pártenon. Quanto a ele, livre já de cuidados alheios, entregou-se a uma vida de ascese e rigorosa mortificação nas imediações da sua casa.
Trabalhava com as suas mãos, pois ouvira a palavra da Escritura: Quem não quiser trabalhar não coma. Do fruto do seu trabalho destinava uma parte para comprar o pão que comia; o resto distribuía-o pelos pobres.
Rezava constantemente, pois aprendera que é preciso rezar interiormente sem cessar; era tão atento à leitura que nada lhe esquecia do que tinha lido na Escritura: tudo retinha de tal maneira que a sua memória acabou por substituir o livro.
Todos os habitantes do lugar e os homens honrados que tratavam com ele, vendo um homem assim, chamavam-lhe amigo de Deus; e uns amavam-no como filho, outros como irmão.

O Filho do homem é Senhor do Sábado

       Passava Jesus através das searas num dia de sábado e os discípulos, enquanto caminhavam, começaram a apanhar espigas. Disseram-Lhe então os fariseus: "Vê como eles fazem ao sábado o que não é permitido". Respondeu-lhes Jesus: "Nunca lestes o que fez David, quando teve necessidade e sentiu fome, ele e os seus companheiros? Entrou na casa de Deus, no tempo do sumo sacerdote Abiatar, e comeu dos pães da proposição, que só os sacerdotes podiam comer, e também os deu aos companheiros". E acrescentou: "O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Por isso, o Filho do homem é também Senhor do sábado" (Mc 2, 23-28).
       Em continuidade com as leituras de ontem, o Evangelho para este dia motra como por vezes a religião e as suas radições podem ser usadas contra o outro. Jesus lembra-nos que o essencial está no coração, na conversão interior. A Lei, como todos os preceitos, valem enquanto estão ao serviço do ser humano e da sua dignidade. As leis devem ser elaboradas para favorecer a vida humana e o relacionamento saudável entre pessoas, e entre estas e as instiuições...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Porque motivo os teus discípulos não jejuam?!

       «Por que motivo jejuam os discípulos de João e os fariseus e os teus discípulos não jejuam?». Respondeu-lhes Jesus: «Podem os companheiros do noivo jejuar, enquanto o noivo está com eles? Enquanto têm o noivo consigo, não podem jejuar. Dias virão em que o noivo lhes será tirado; nesses dias jejuarão. Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho, porque o remendo novo arranca parte do velho e o rasgão fica maior. E ninguém deita vinho novo em odres velhos, porque o vinho acaba por romper os odres e perdem-se o vinho e os odres. Para vinho novo, odres novos» (Mc 2, 18-22).
       Jesus relembra àqueles que murmuram que para tudo há tempo. Importa viver cada momento, com o máximo empenho. Deixar as preocupações do amanhã para amanhã, avançar em relação às dificuldades superadas do passado, não se fixando obsessivamente nos dias de ontem. Para apreciar com sabedoria e generosidade cada tempo, cada oportunidade, cada encontro. De contrário nada se vive com sentido. O tempo é novo, diz Jesus, há que aproveitar a presença de Deus no meio de nós.
       Dias virão em que não sentiremos a Sua presença, mas a recordação dos tempos felizes, podem servir de lenitivo e de desafio a uma nova procura de Deus. O evangelho levanta um pouco o véu do que irá acontecer com Jesus. Será morto. O noivo ser-lhes-á e ser-nos-á tirado. O jejum, então, será uma forma de nos dispormos a descobrir a presença de Deus, a presença de Jesus, vivo, no meio de nós. Nesses dias jejuaremos de tudo o que tolhe o nosso olhar, a nossa vida, e que nos faz desconfiar e viver inseguros.
       HOJE, aqui e agora, Jesus nos interpela a vivermos o melhor que sabemos e podemos. Com a intensidade, como se fosse uma final, evocando a realidade do futebol. O jogo de amahã ainda está para acontecer. O jogo de ontem, independentemente do resultado, já está. HOJE é novo jogo, entremos com todas as nossas energias, capacidades, talentos.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Domingo II do Tempo Comum - ano A - 15 de janeiro

       1 – Um Paraíso! Onde? Quando? Alguém ainda se lembra de um mundo em paz, a viver em harmonia? Olhando para trás vemos lutas, guerras, genocídios, fratricídios, violência, escravização. Olhando para os lados, vemos agressões, corrupção, egoísmos que degeneram em ódios e vinganças, em invejas que destroem, assassinam, oprimem, agridem. Olhando para o futuro, com estes olhos que a terra há de comer, o que lá vem parece mais do mesmo: a violência que hoje semeamos dará fruto amanhã com mais violência, destruição, implosão da natureza, com a desflorestação, excesso de consumo e utilização abusiva de matérias-primas, novas formas de escravização, de exploração no trabalho, tráfico de pessoas, predomínio dos mais fortes (os que têm maior poder económico e militar) sobre os mais pobres (pessoas ou povos).
       Há 2.000 anos a ESPERANÇA ganhou um ROSTO: Jesus Cristo, Deus connosco, mensageiro da Paz, profeta da alegria, Messias da caridade, conselheiro da bênção, ELO da fraternidade. Em Jesus, Deus faz-Se um de nós para nos transformar a partir de dentro. Não pela imposição, pelo poder, pela força, mas pelo amor, pela docilidade.
       Naqueles dias, o mundo viu uma nova LUZ, já não intermitente, bruxuleante, mas a LUZ que não se apaga, mesmo que a possamos abafar. Não se apaga pois vem de Deus, vem da eternidade. João Batista testemunha e aponta para esta luz, para este homem como Alguém que pode mudar a história, porque é o "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". E João explica porque vê n'Ele a salvação de Deus: «Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou na batizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que batiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
       2 – Jesus não é mais um profeta, ou um vendedor de sonhos ou um ilusionista! É o Filho de Deus. Vem de longe, da eternidade, faz-Se próximo, tão próximo que é um de nós, confundindo-Se, misturando-Se, escondendo-Se na humanidade! Por outro lado, revela-Se, mostra-Se, está ao alcance da nossa mão! Podemos vê-l'O, segui-l'O, amá-l'O, podemos persegui-l'O ou até matá-l'O!
       Anuncia e inaugura um reino novo, inclusivo, um reino tão grande que tem lugar para todos. Não há ninguém a mais. Ninguém é dispensável. Ele quer salvar-nos a todos. É um reino diferente de todos os reinos terrenos, ainda que enxertado na terra, na humanidade, mas com ligações seguras ao Céu, a Deus. As portas da eternidade são escancaradas por Jesus Cristo.
       Governa-nos pelo serviço, pela humildade, pela obediência.
       Jesus lembra aos seus discípulos que os chefes das nações discutem lugares e impõem-se pela força, pelo poder. Ao invés, o poder de Jesus e dos Seus discípulos assenta no serviço dócil e atento. Entre vós quem quiser se o maior seja o servo de todos, quem quiser ser o primeiro seja o último. Eu não vim para ser servido, mas como Aquele que serve e dá a vida por todos.
       «De mim está escrito no livro da Lei que faça a vossa vontade. Assim o quero, ó meu Deus, a vossa lei está no meu coração». Jesus vive na obediência filial e ensina-nos a percorrer o mesmo caminho. Obedecer significa escutar com atenção. Quem escuta com o coração, perscruta a vida do outro, com as suas necessidades e anseios. A lei de Jesus é o amor, que escuta, que acolhe, que envolve. O Seu alimento é fazer a vontade do Pai. Responde com amor ao amor do Pai. Obedecer é escutar. Escutar é estar atento e disponível para acolher o outro. Obedecer e escutar levam a amar e a servir. É a missão de Jesus e o propósito e caminho do cristão.
       3 – Isaías visualiza e antecipa a missão do Messias, através de Quem se manifestará a Israel a glória de Deus. Mas não somente a Israel, às nações de toda a terra. O Servo de Deus há de tornar-se guia e luz: «Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».
       O povo eleito é zeloso da sua Aliança com Deus. Porém, as páginas do Antigo Testamento mostram com clarividência que a salvação de Deus não está confinada a um povo, a uma região, a um grupo limitado de pessoas, mas tende a universalizar-se, a estender-se por todo o mundo, para todas as nações, para toda a humanidade. A eleição e a aliança de Deus com o Povo de Israel é instrumental, na medida em que é dirigida a Israel mas com o compromisso que se alargue a todos os povos da terra. Jesus há de clarificar esta posição dentro do povo e abrindo os horizontes aos seus discípulos: Dentro do povo, convivendo e acolhendo os marginalizados, mulheres, doentes, publicanos, pecadores. Alargando os horizontes, apresentando samaritanos nas parábolas, atendendo aos pedidos da mulher sírio-fenícia e do centurião, conversando serena e afavelmente com a Samaritana, desafiando-a a acolher a Boa Nova da salvação. Para Jesus não há fronteiras nem limitações. Todos são salváveis!
       4 – A saudação de Paulo à Igreja de Corinto envolve-nos a todos no compromisso da santidade. Dirigindo-se àquela Igreja em particular mas logo agrafando todos os que foram chamados à santidade, todos os que invocam o nome de Jesus Cristo, "Senhor deles e nosso".
       Como nos recorda o Vaticano II, avivando-nos a memória, a santidade é vocação comum para os crentes cristãos, para os seguidores de Jesus, lembrando-nos também, sintonizados com a Carta Pastoral de D. António Couto para este ano pastoral de 2016-2017 que, enquanto cristãos, devemos ser discípulos missionários, transparecendo e testemunhando Jesus Cristo, a todo o momento, em toda a parte, perante todas as pessoas.
       Jesus Cristo, filho de Deus humano, veio ao mundo para a todos salvar. É Cordeiro que tira o pecado do mundo. Morreu dando a Sua vida por nós. Ressuscitou colocando a nossa natureza humana à direita do Pai. Contudo não partiu para sempre, abandonando a barca, pelo contrário, está ainda mais presente na história e no tempo através do Seu Espírito de Amor, na Igreja e nos cristãos, nos acontecimentos e no mundo, nos Sacramentos e em todo o bem proferido e vivido. Iniciou a construção do Paraíso, um reino sem muralhas nem fronteiras, reino de serviço e de amor, de compaixão e de ternura. Confiou-nos o Seu reino e o Seu amor, para que agora sejamos nós espalhar a esperança e a paz, a alegria e a bênção. Somos construtores deste Reino novo. Todos sem exceção.

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (A): Is 49, 3. 5-6; Sl 39 (40); 1 Cor 1, 1-3; Jo 1, 29-34.

Não são os que têm saúde que precisam do médico

        Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me». Ele levantou-se e seguiu Jesus. Encontrando-Se Jesus à mesa em casa de Levi, muitos publicanos e pecadores estavam também a mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que O seguiam. Os escribas do partido dos fariseus, ao verem-n’O comer com os pecadores e os publicanos, diziam aos discípulos: «Por que motivo é que Ele come com publicanos e pecadores?». Jesus ouviu e respondeu-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam do médico, mas os que estão doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mc 2, 13-17).
        O bom senso, por vezes, não parece ser a opção de Jesus, sobretudo quando estão em causas as pessoas mais simples, mais frágeis, mais distantes da normalidade social e religiosa. Encontra um cobrador de impostos, Levi, e chama-o, como se tratasse de alguém conhecido, honrado, exemplar. Na verdade, os cobradores de impostos eram tidos como traidores, faziam o trabalho sujo para a autoridade dominadora, cobrava os impostos dos seus conterrâneos para os entregarem às autoridade romanos. Para além disso, o zelo dos cobradores era de tal ordem que não facilitavam, retiravam o que competia e o que queriam, para também enriquecerem, servindo-se do seu posto. Eram pessoas odiosas. Jesus também os chama. A reação não se faz esperar, como é que Jesus, sendo Mestre e Profeta, se rodeiam dos pecadores, publicanos, numa palavra, como é possível rodear-se da escumalha de Israel. A resposta é simples: Jesus vem para todos, especialmente para os que estão mais longe... de uma vida condigna!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Santo Hilário de Poitiers, Bispo e Doutor da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu em Poitiers, no princípio do século IV. Eleito bispo da sua cidade natal cerca do ano 350, combateu valorosamente a heresia dos arianos e foi exilado pelo imperador Constâncio. Escreveu várias obras cheias de sabedoria e doutrina, para defender a fé católica e interpretar a Sagrada Escritura. Morreu no ano 367.
Oração de coleta:
       Concedei-nos, Deus todo-poderoso, a graça de conhecer e proclamar a verdadeira fé na divindade do vosso Filho, que o bispo Santo Hilário defendeu com tão admirável fortaleza e sabedoria. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Santo Hilário, bispo, sobre a Trindade

Pregando-Vos, Vos servirei

Eu estou bem consciente, Deus Pai Omnipotente, de que a Vós devo consagrar a mais importante tarefa da minha vida, de modo que todas as minhas palavras e todos os meus pensamentos falem de Vós.
O exercício da palavra que me concedestes não pode ter recompensa maior que a de Vos servir pregando-Vos, e demonstrar ao mundo que o ignora, ou ao herege que o nega, que sois Pai, isto é, o Pai do Deus Unigénito.
Embora seja esta a minha única intenção, é necessário para isso invocar o auxílio da vossa misericórdia, para que, desfraldando nós a vela da nossa confissão de fé, a enchais com o sopro do vosso Espírito e nos guieis pela rota da pregação que iniciámos. Não nos há de faltar Aquele que prometeu: Pedi e recebereis, procurai e achareis; batei à porta e abrir-se-vos-á.
Somos pobres, e por isso Vos pedimos o que nos falta; perscrutamos com esforço diligente as palavras dos vossos Profetas e Apóstolos e chamamos com insistência para que se nos abram as portas do conhecimento da verdade; mas é de Vós que depende conceder o que se pede, estar presente quando se procura, abrir a quem bate à porta.
Quando se trata de compreender as verdades que se referem a Vós, vemo-nos impedidos por um certo entorpecimento preguiçoso da nossa natureza e sentimo-nos limitados pela nossa inevitável ignorância e debilidade; mas o estudo da vossa doutrina nos dispõe para o sentido das realidades divinas e a submissão da fé nos leva a superar o nosso conhecimento natural.
Esperamos portanto que façais progredir o nosso tímido esforço inicial, que consolideis o seu desenvolvimento crescente e o leveis à união com o espírito dos Profetas e dos Apóstolos, para que compreendamos o sentido exacto das suas palavras e interpretemos o seu verdadeiro significado.
Vamos falar do que eles pregaram no sacramento: que Vós sois o Deus eterno, Pai do Unigénito Deus eterno; que só Vós sois sem nascimento; e que há um só Senhor Jesus Cristo, que de Vós procede por nascimento eterno; não afirmamos que Ele seja outro deus diverso de Vós, mas proclamamos que foi gerado de Vós que sois o único Deus; e confessamos que Ele é Deus verdadeiro, nascido de Vós que sois verdadeiro Deus e Pai.
Abri-nos, portanto, o significado autêntico das palavras, dai-nos a luz da inteligência, a perfeição da linguagem, a verdadeira fé. Fazei que sejamos capazes de exprimir a nossa fé: que Vós sois o único Deus Pai e que há um só Senhor Jesus Cristo, segundo o que nos transmitiram os Profetas e os Apóstolos. E contra os hereges que o negam, fazei que saibamos afirmar que Vós sois Deus com o Filho e que proclamemos sem erro a sua divindade.

Filho, os teus pecados estão perdoados...

       Trouxeram-Lhe um paralítico, transportado por quatro homens; e, como não podiam levá-lo até junto d’Ele, devido à multidão, descobriram o tecto, por cima do lugar onde Ele Se encontrava e, feita assim uma abertura, desceram a enxerga em que jazia o paralítico. Ao ver a fé daquela gente, Jesus disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados». Estavam ali sentados alguns escribas, que assim discorriam em seus corações: «Porque fala Ele deste modo? Está a blasfemar. Não é só Deus que pode perdoar os pecados?». Jesus, percebendo o que eles estavam a pensar, perguntou-lhes: «Porque pensais assim nos vossos corações? Que é mais fácil? Dizer ao paralítico ‘Os teus pecados estão perdoados’ ou dizer ‘Levanta-te, toma a tua enxerga e anda’? Pois bem. Para saberdes que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar os pecados, ‘Eu te ordeno – disse Ele ao paralítico – levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa’». O homem levantou-se, tomou a enxerga e saiu diante de toda a gente, de modo que todos ficaram maravilhados e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim» (Mc 2, 1-12).
       Um homem paralítico é levado à presença de Jesus. Perante a multidão que se junta Jesus, há uma enorme dificuldade em chegar perto d'Ele. Em todo o caso, a dificuldade pode ser sempre ultrapassada. É o que fazem os quatro homens que levam o paralítico a Jesus. Esta é uma lição importante para nós. Mesmo diante das dificuldades maiores, não devemos desistir. Conseguiremos chegar a Jesus.
       Por outro lado, para que Deus nos ajude, é necessário que queiramos ser ajudados. É o que acontece com este paralítico. Quer ser curado e enceta o caminho para se deixar curar. E Jesus, que vem para nos salvar, perante tamanha fé, atende às suas preces.
       Vê-se também como por vezes os nossos olhos estão ofuscados pela inveja, pelo ciúme, ou por uma visão muito materialista e racional. Jesus prepara-se para curar o paralítico, mas logo se levantam vozes sobre a forma como isso acontece, ao invés de apreciarmos os dons que Deus nos dá...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Grupo de Jovens leva o Menino Jesus a beijar...

       Proposta do Conselho Pastoral Paroquial, o Grupo de Jovens liderou a iniciativa de visitar os doentes na quadra do Natal, levando-lhes o gesto vivido na comunidade celebrante, o Beijar do Menino. No dia 27 de dezembro, a ida ao Lar da Santa Casa da Misericórdia de Tabuaço, na solenidade da Epifania do Senhor, a ida à casa dos doentes que previamente, através de familiares ou vizinhos, fizeram chegar o seu interesse em receber este gesto e esta presença.
       A iniciativa contou com um ou outro adulto que se juntaram ao Grupo de Jovens.
       Na Eucaristia Dominical sublinha-se o gesto dos Magos, com o trajar de três Magos, que levaram as ofertas ao altar e no final distribuíram bons-bons às pessoas que passaram para Beijar o Menino. Um gesto simples, mas desafiador, convidando a ser como os Magos, prostrar-se diante de Jesus e oferecer-lhe o melhor.
       Algumas imagens deste dia:

Para ver outras imagens visite a Paróquia de Tabuaço no Facebook.

Senhor, se quiseres, podes curar-me

        Veio ter com Jesus um leproso. Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe: «Se quiseres, podes curar-me». Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero: fica limpo». No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo. Advertindo-o severamente, despediu-o com esta ordem: «Não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou, para lhes servir de testemunho». Ele, porém, logo que partiu, começou a apregoar e a divulgar o que acontecera, e assim, Jesus já não podia entrar abertamente em nenhuma cidade. Ficava fora, em lugares desertos, e vinham ter com Ele de toda a parte (Mc 1, 40-45).
       Da missão de Jesus fazem parte as palavras da pregação, o acolhimento de todos, preferencialmente daqueles que vivem à margem, na fronteira da vida, os gestos de cura, de libertação, de devolução da dignidade perdida.
       Antes de ir ter com Jesus, o leproso sente-se tocado, impelido por Jesus. Ouviu falar, criou esperança, sedimentou a fé numa vida nova, parte ao encontro d'Ele, na certeza que a sua prece será atendida: Se quiseres, podes curar-se. Despojado da sua vida- os leprosos eram tidos como pessoas odiosas, pecadoras, que viviam afastadas, não se podiam aproximar da aldeia, da cidade, com o risco de serem apedrejados. Este leproso ousa aproximar-se. Mais, ousa falar, pedir, colocar-se nas mãos de Jesus. Dos humildes é o reino de Deus. O desejo de cura poderia esbater com a exposição pública, e com a negação. Confia. Já ouviu falar de Jesus. Se quiseres... deixa nas mãos de Jesus, entrega-lhe a sua vida, confia!
       E nós como estamos de confiança em Deus? Também nos dispomos, na circunstância concreta da nossa vida atual, a confiar a nossa situação a Jesus. Eis, faça-se segundo a Tua santa vontade! Se quiseres, Senhor, podes curar-me. Do meu egoísmo, da inveja que sinto dos outros, do distanciamento que construo para não me comprometer! Cura-me dos meus medos, da incerteza, da dúvida, da desconfiança.
       O encontro com Jesus, há de levar-nos ao testemunho. Logo que partiu começou a dizer a toda a gente o que lhe tinha sucedido. E nós? Como estamos de encontro com Jesus? Que é que Ele suscita em nós? Sentimo-nos curados? Tocados pela Sua graça? Como está o nosso encontro com Jesus? Sentimo-nos libertos? Com que alegria testemunhamos a Sua presença em nós?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Todos Te procuram, Senhor! Também eu...

        Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falaram dela. Jesus aproximou-Se, tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los. Ao cair da tarde, já depois do sol-posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos e a cidade inteira ficou reunida diante da porta. Jesus curou muitas pessoas, que eram atormentadas por várias doenças, e expulsou muitos demónios. Mas não deixava que os demónios falassem, porque sabiam quem Ele era. De manhã, muito cedo, levantou-Se e saiu. Retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar. Simão e os companheiros foram à procura d’Ele e, quando O encontraram, disseram-Lhe: «Todos Te procuram». Ele respondeu-lhes: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim» (Mc 1, 29-39).
       A missão de Jesus é um contínuo. Inicia a vida pública e passa de uma a outra terra, procurando chegar a todas as pessoas. Permanece o tempo suficiente para deixar marcas. Mas avança, para que cada um, tocado pela Sua presença, pela Sua graça, possa decidir livremente. Há os que O seguem, há os que O acolhem em suas vidas.
       Prega. Cura. Expulsa dos demónios. Esta é a certeza de que vem da parte de Deus.
       Embora a Sua vida seja uma oração constante a Deus - o seu verdadeiro alimento é Deus, é fazer a vontade de Seu Pai -, Jesus retira-se, afasta-se da multidão, para rezar. É um convite para nós: fazermos da nossa vida oração, mas reservarmos tempo para a intimidade com Deus, para o diálogo, para a oração.
       Todos de Te procuram Senhor! Alguns não sabem quem Tu és. Outros procuram-Te, mas estão longe de Ti, correm para Ti às apalpadelas, aos tropeções. Procuram-te onde Tu não estás. Procuram-Te substituindo-Te por ídolos, por deuses mais fáceis, criados à sua imagem e semelhança, conforme a disposição e o interesse. Procuram-Te!
       Também eu Te procuro. Também eu Te quero procurar.
       Também eu quero que me encontres. Também eu quero deixar que Tu me encontres.
       Também quero ser curado por Ti. Também quero seguir-Te.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Beato Gonçalo de Amarante

Nota biográfica:
       Nasceu em Tagilde, perto de Guimarães, Portugal. Não são conhecidas com precisão as datas da sua vida. Pertenceu ao clero secular, tendo sido pároco. Depois peregrinou 14 anos para visitar os lugares santos, quer da Palestina quer de Roma. Ao regressar à sua paróquia, tendo sido recebido com ameaças e perseguições, optou por uma vida eremítica. Entrou mais tarde na Ordem dos Pregadores e, após ter acabado o tempo da sua formação na Ordem, obteve licença para voltar a Amarante, ao anterior lugar solitário, na companhia de outro irmão. Aí, até ao fim da vida, repartiu o tempo entre a contemplação das coisas divinas e a evangelização daquela zona, levando uma vida de grande ascese. Morreu em Amarante, em 1259. Clemente X permitiu, em 10 de Julho de 1671, que se rezasse a sua Missa e o seu Ofício.

Oração:
       Senhor, que manifestastes as vossas maravilhas no coração do bem-aventurado Gonçalo de Amarante, inflamado no amor do vosso nome, concedei-nos que, à sua imitação, tenhamos sempre o pensamento em Vós e façamos fervorosamente o que Vos é agradável. Por Nosso Senhor.

Sei quem Tu és: o Santo de Deus

       Jesus chegou a Cafarnaum e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga e começou a ensinar, todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade e não como os escribas. Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro, que começou a gritar: «Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». O espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: «Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!». E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia. (Mc 1, 21-28).
       A vida de Jesus não tem interregnos. Depois do Seu batismo, Jesus vai percorrer cidades, aldeias, passando de uma região a outra. Os evangelhos dão-nos conta do movimento constante de Jesus. Quase não se encontra no mesmo sítio. Está como que estado de permanente peregrinação. Sabe que todo o tempo de que dispõe é escasso para anunciar o reino de Deus, curar os enfermos, sensibilizar os corações para se abrirem à graça de Deus. Todo o tempo é pouco para fazer o bem. Refira-se, em todo o caso, que não é um fugitivo. As pessoas sabem onde Ele se encontra. Por vezes permanece um, dois, três dias, para ter oportunidade de chegar a todos, para cimentar a Palavra.
       Em Cafarnaum, Jesus entra na Sinagoga onde encontra um homem possesso. Ao libertá-lo do espírito impuro, Jesus mostra como o poder do bem é maior, o poder de Deus tudo vence. Também aí deverá repousar a nossa confiança. Por mais pessimistas que possamos ser, o AMOR de Deus vencerá.
       Por outro lado, sublinha-se que Jesus ensinava com autoridade e não como os escribas. Muitas vezes o Evangelho fala desta autoridade de Jesus. Vem-Lhe de Deus Pai, vem do conteúdo da Mensagem, mas sobretudo, o que é observável pelos conterrâneos e contemporâneos, a palavra corresponde à vivência. A autoridade significa aqui coerência de vida.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Epifania do Senhor - ano A - 8 de janeiro de 2017

       1 – O que é que estranhos e estrangeiros nos podem dizer que nós não saibamos? Poderão ter qualidades que não possuímos? Não nos retirarão o que é nosso, a nossa importância, a nossa vida tranquila, o nosso trabalho? Vêm para ajudar ou para complicar? Serão uma mais-valia ou um estorvo?
       No último ano a questão dos migrantes e refugiados foi amplamente discutida. Nem sempre por razões fáceis e/ou positivas. Na Europa, que mais de perto nos diz respeito, mas em todo o Ocidente cresce o preconceito, a xenofobia, o racismo. Em época de eleições, em países democráticos, ganham adeptos os partidos mais radicais (sobretudo de direita mas também de esquerda que, por serem radicais, se tocam e por vezes se confundem na contestação e na exclusão dos que chegam). Os nacionalismos, banidos ou adormecidos no pós segunda guerra mundial, estão de volta. Inglaterra fecha-se. França quer fechar fronteiras e impedir a entrada de estrangeiros. Áustria, Alemanha, Suíça e outra meia dúzia de países.
       Vivemos num mundo globalizado. A cultura enriquece-se com o contributo de outros povos, os valores e as descobertas científicas, a construção de aldeias e de cidades e dos próprios países contaram com o contributo de pessoas de outras aldeias, de outras cidades e de outros países e de outras culturas. A globalização é, sobretudo, virtual. Importam-se modas e vícios. Importa-se a vontade em ser livres e autodeterminados. Mas quando as pessoas chegam as coisas complicam-se, sobrevem o medo, o egoísmo, o preconceito. Nós portugueses temos a experiência como emigrantes, umas vezes bem recebidos, singrando, outras vezes explorados e maltratados, e como país acolhedor, umas vezes integrando, outras dificultando e maltratando quem vem à procura de melhores condições de vida.
       O Natal de Jesus quebrou as fronteiras da nacionalidade, da raça e da religião. O nascimento de Jesus celebra a inclusão, o acolhimento, universalizando a fraternidade. Deus vem para todos. Deus é Pai de todos. Jesus é irmão de todos e a todos vem salvar, judeus e gregos, homens e mulheres.
       2 – Os Magos vêm de longe. São estranhos. Estrangeiros. Vêm de toda a parte. Do fim do mundo. Trazem os corações cheios de esperança, em busca de uma Luz maior. Perdem-se em sonhos e projetos, mas não perdem o horizonte, a confiança, o desafio da vida e do futuro.
      Há oito dias, a adoração dos Pastores: homens simples, pobres, humildes. Atentos ao que se passa à sua volta, atentos à voz e à luz que vem do Céu. Homens do campo e do mundo, conhecem a terra, o céu e o tempo. Sabem quando devem conduzir o rebanho para o pasto e quando devem recolhê-lo, quando os dias são favoráveis e quando são adversos. Diante do Menino deitado numa manjedoura transbordam de alegria e de sonho. Aquele Menino é uma bênção, salvação para todo o povo.
       Hoje, a adoração dos Magos: homens da cultura e do saber, da ciência e do estudo. Sábios. Os verdadeiros sábios são aqueles que estão disponíveis para aprender mais, tendo consciência que o que sabem é pouco ou nada. Por conseguinte, o verdadeiro sábio é simples, humilde, pobre. Só os pobres compreendem os mistérios divinos... quando não compreendem confiam, esperam, buscam!
       Os Magos são pessoas que têm os olhos abertos e o coração disponível para novas surpresas que o Universo possa trazer. Leem os sinais que surgem na natureza, no céu. Quem olha demasiado para si ou para baixo, perde-se, tropeça, estupidifica. Para saber a vida é preciso olhar para o alto e para longe, sem perder o pé nem esbarrar no que está por perto. Quem conduz uma bicicleta, uma moto ou um carro, sabe que tem de olhar a distância para antecipar obstáculos, mas sem esquecer o que está à volta e à frente.
       Vêm de longe, os Magos do Oriente! Aproximam-se do mistério. Fazem um longo caminho para encontrar o Caminho. Por momentos ainda são confundidos pelo barulho da cidade, pelas luzes, pelos encantos do palácio, mas logo reconhecem que os mistérios de Deus não se confundem com aparências. Deus nem sempre é evidente. Se nos lembrarmos de Elias, Deus não está na confusão, no fausto, no barulho, está (sobretudo) na brisa, no silêncio que fala, nas palavras que calam e enchem o coração. E com os corações cheios da Luz que vem do alto prosseguem até à gruta onde Se encontra o Senhor do tempo e da história. Um Menino – frágil, pequeno, com roupas tecidas de amor e de ternura, quentinhas pela presença e preocupação de Maria e de José – que é o Deus connosco, em carne e osso!
       3 – Lições e desafios da adoração dos Magos. Olhos abertos e coração disponível para acolher as surpresas que venham do Céu, que venham de Deus. Pôr-se a caminho. Não basta saber, não basta interpretar os sinais. É preciso pôr-se em movimento. Persistir além e apesar das contrariedades. Não se deixar iludir por luzes exteriores, com muito brilho mas pouca consistência, guiar-se pelas convicções, pela Luz interior, pela Luz que vem do Céu. Ajoelhar diante do mistério de Deus, diante de Jesus e oferecer-Lhe o melhor, os tesouros mais valiosos, oferecendo-nos a nós próprios, reconhecendo-O como verdadeiro Homem, frágil como nós, verdadeiro Deus, tão poderoso que Se faz do nosso tamanho, verdadeiro Rei, que reina pela verdade, pelo bem, pelo amor. Encher-se de LUZ e de AMOR, encher-se de Jesus, e partir por novos caminhos. Nada será como dantes. Tudo será diferente. Quem viu o Céu não pode contentar-se com a terra, ou melhor, não pode contentar-se em deixar ficar tudo como antes, tem a obrigação e a missão de encher o mundo com a Luz de Jesus. Ir e anunciá-l’O a toda a criatura.
       4 – Em Jesus – Deus que Se faz Menino, que Se faz um de nós – cumprem-se as Escrituras e as promessas. Isaías, o profeta do Advento e da Quaresma, prepara, anuncia, visualiza os tempos que estão para chegar, a força e a luz que se há de manifestar, os sinais que já se vislumbram e a fidelidade de Deus à aliança, congregando pessoas e povos. Só não vê quem não quer, pois a luz chega às próprias trevas.
       "Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor..." É uma luz intensa, mas também instrumental, há de iluminar os povos de toda a terra, "as nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor da tua aurora. Olha ao redor e vê: todos se reúnem e vêm ao teu encontro; os teus filhos vão chegar de longe e as tuas filhas são trazidas nos braços". Tanta luz que ninguém ficará indiferente. Tanta luz que até os corações mais duros cederão, libertando as trevas e deixando entrar a claridade. Tanta luz que os olhos e o coração exultarão de alegria.

       5 – São Paulo dialoga com a promessa e com o seu cumprimento. Nas gerações passadas o mistério de Cristo estava envolvo como num véu, que aos poucos se foi desvelando. Agora, nas gerações presentes, foi revelado pelo Espírito Santo aos apóstolos e aos profetas. Nas gerações passadas, a eleição e a aliança, entre Deus e o Povo de Israel. Mas como se intuía, a eleição e a bênção alargam-se a todos os povos.
       O Apóstolo conclui que "os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho".
       Como víamos no Evangelho, o encontro com Jesus, com o mistério que vem das alturas, não depende da origem carnal, étnica, racial, mas da disponibilidade para ver, para acolher, para reconhecer, para se abrir à Luz e à Graça que irradia de Jesus e que se expande e se espalha em cada rosto, em cada vida, em cada pessoa. Em cada Menino se pode ver a Luz que vem de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Is 60, 1-6; Sl 71 (72); Ef 3, 2-3a. 5-6; Mt 2, 1-12.

Marta Arrais - DESCALÇA AS TUAS FERIDAS

MARTA ARRAIS (2016). Descalça as tuas feridas. Crónicas para todos os dias. Lisboa: Paulus Editora. 136 páginas.
       Descalça as tuas feriadas é um daqueles títulos de excelência. É como a água fresca em pleno Verão, brisa suave que alivia qualquer cansaço, leitura envolvente que nos conduz ao nosso interior, ao que somos, aos dons recebidos, às forças que ainda há para gastar; leva-nos a perscrutar a vida e o sofrimento dos outros, valorizando o essencial, a vida, o amor, o serviço, a alegria. Marta Arrais é transparente, simples, acessível, profunda. Toca diversos temas e diria, toca o coração de quem a escuta (ou lê). Enternecedora, desafia, interpela, questiona, faz-nos refletir.
       Primeiro o contacto com os seus textos o sítio iMissio. Já tínhamos lido e partilhado algumas das suas reflexões. Depois o contacto com o livro. Na livraria da Diocese de Lamego, Gráfica de Lamego, peguei no livro e, como noutras ocasiões, perguntei à responsável, Paula Magalhães, se recomendava, se valia a pena. Também ela já tinha perguntado mas não lhe souberam responder. Voltei a olhar para o título, para o nome da autora e para a contracapa. E fez-se luz: acho que já li algumas reflexões, se for a autora dessas reflexões (do iMissio) então vale a pena. Vou levar. Fiquei convencido que era a autora das (tais) crónicas do iMissio e deixei a certeza à responsável que, sendo quem julgava ser, valeria bem a pena a compra e sobretudo e a leitura. E cá estou a confirmar o que então afirmei.
       É um livro que se lê bem. Algumas das crónicas podem ser lidas no sítio sugerido: iMISSIO ou também na página criada (julgo eu) para secundarizar a publicação deste livro: MARTA ARRAIS, o Barco de Sonhar. Mesmo tendo lido algumas das crónicas e podendo ler outras, prefiro ter o livro, ler, sublinhar, rever os sublinhados.
       E por falar em sublinhados, aqui ficam alguns:
"É a alegria que precisa de nos engordar! A vontade de fazer impossíveis, de gritar que não há dor que valha a pena. A tua dor não vale a pena. Vai encolher-te até deixares de saber quem és. Vai mirrar-te os horizontes e deixar-te sozinho. O colo da dor é muito frio. O da alegria. É nesse colo que deves enxugar as tuas lágrimas..."
"O amor sabe a pão acabado de sair do forno e é impossível que não queiramos empanturrar-nos dele. Mas o amor não chega se os que amamos não merecerem a nossa esperança. Merecem a nossa outra face aqueles que transformam a nossa esperança em luz e nos iluminam, boicotando todas as trevas que nos anoiteciam."
"Mas que pena. Que pena estar aqui esta sombra de gente a fazer-me pensar que um dia também poderei ficar assim. Sozinho. A beber cafés para chamar o sono. Quem mora no avesso do mundo bebe cafés para adormecer. Como quem ouve uma história de embalar. Isso de beber café para acordar é mania de gente que tem tudo. Quem não tem nada inventa novos sentidos para tudo. Até para o café"
"Somos mudados pela vida que os outros nos dão. Pela vida que os outros são para nós. A fé da Rosa não eram orações nem palavras repetidas. A fé da Rosa era a vida dela e era com a vida que a Rosa rezava (e reza) quando se sentava ao pé de mim na Eucaristia. Era a vida dela que se ajoelhava e que me ajudava, a mim, a rezar e a ser melhor.
"É tempo de colocar feridas à mostra. É tempo de deixar que o sol, que é Jesus, nos aqueça até transformar as feridas em água fresca. Costumamos ter vergonha das nossas cicatrizes porque nos lembram as nossas feridas. As cicatrizes são um grito costurado de silêncio mas, ainda assim, um grito... Não há nada que esteja mais perto da alma e da pele do que a presença de uma ferida. De um golpe. Ou do desenho que resta dele. Somos a cruz de Jesus. Somos a coroa de espinhos. Somos a humilhação, a mágoa, a tristeza, o sofrimento acabado em infinito. É tremenda esta responsabilidade. Jesus vem rezar connosco esta verdade que nos une profundamente a todos: somos as feridas de Jesus. “Tu és a minha ferida”... Nunca te esqueças que foste (e és!) tu a ferida mais querida de Jesus. Ele colocou-te no Seu colo e, do alto da Cruz ensanguentada, ofereceu-te ao Pai".
"Ser feliz é não saber onde acabamos. É não ter fim, não ter pressa, não ter nada. É apreciar profundamente essa maravilha que é não ter nada. Não te mintas. Não me venhas dizer que tens tudo o que te faz falta e que não precisas de mais um bocadinho de nada. Se pensas assim, inverte o sentido da marcha. Mas inverte agora. Porque ser feliz é nunca ter tudo. Ser feliz é querer ser tudo. É sentir que ter uma vida só é pouco para tudo o que se quer ser e fazer."
"Somos um perigo quando, de repente, deixamos de ter medo. Sentimos que nada podem contra nós, nada nos derruba, nada nos falta. Temos tudo. Podemos tudo. Cuidado. Piso escorregadio. Curva apertada à esquerda. À direita. Em todas as direções. Somos um risco e um perigo quando o nosso coração deixa de bater... Achávamos que íamos voar e caímos. Somos o maior perigo. É quando achamos que podemos tudo que podemos perder tudo. E perder-nos. Deformamos o mapa que somos e arriscamos demais. Queremos viver a vida toda num segundo. Queremos valer a pena. De uma vez só. Queremos engolir a vida de um só trago e despedaçamo-nos. Depois, lá sacudimos as lágrimas dos joelhos, atamos os arranhões com cicatrizes e dizemos como quem se quer convencer: “o que não te mata faz-te andar. Levanta-te”
Fazer o bem é fazer a única coisa que está ao nosso alcance. Estamos enganados quando achamos que o bem dá trabalho. Fazer o bem dá menos trabalho do que fazer qualquer outra coisa. Não é uma opção: é uma maneira de estar e de viver. A verdadeira e única forma de escrever o bem na nossa vida é pensar que para além de tudo o que é mau, ainda podemos fazer o bem. Apesar de todos os apesares que nos pesam, há um colo que se ilumina perante a possibilidade de fazer o bem. E sabes que colo é esse? É o teu. Quando fazes o bem, apesar de todos os tudos, o teu colo fica maior. Aparece aos olhos dos outros como uma risquinha do colo do próprio Jesus. O Bem também faz arder, sim. Faz arder os impossíveis, as lutas, as mágoas, e todas as outras palavras que rimam com a palavra triste.
Quando não puderes fazer mais nada quanto a isto ou aquilo, faz o bem.
Quando não puderes ver nada de bom, faz o bem.
Quando não puderes fazer o bem, faz melhor."

São Raimundo de Penhaforte, Presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu pelo ano 1175 perto de Barcelona. Foi cónego da Igreja de Barcelona, entrou depois na Ordem dos Pregadores e colaborou com S. Pedro Nolasco na fundação da Ordem de Nossa Senhora das Mercês para a Redenção dos Cativos. Por ordem do Papa Gregório IX, editou a colecção das «Decretais». Eleito Geral da Ordem, governou-a com sabedoria e prudência. Entre os seus escritos, destaca-se a «Summa Casuum» para a administração recta e proveitosa do sacramento da Penitência. Morreu em 1275.

Oração de Colecta:
       Senhor, que destes a São Raimundo de Penhaforte a virtude de uma admirável misericórdia para com os pecadores e os prisioneiros, dignai-Vos, por sua intercessão, quebrar as cadeias dos nossos pecados para podermos cumprir livremente a vossa vontade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Tu guardaste o vinho bom até agora

        Realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, e cada uma levava duas ou três medidas. Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo e disse- lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora». Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele (Jo 2, 1-11).
        Nesta semana, temos acompanhado os passos de João Baptista e de Jesus Cristo, ou melhor, a passagem de testemunho e de missão, de João para Jesus. Hoje, claramente, o Evangelho de São João coloca-nos no início da vida pública de Jesus, nas Bodas de Canaã, com a intervenção de Maria, Mãe de Jesus, que parece desencadear esse início.
       Alguns aspetos importantes a considerar.
       Primeiro: a vida de Jesus é vivida no mundo, no meio de pessoas de carne e osso. Assume a nossa fragilidade e a nossa finitude e vive entranhado na historia real e concreta, participando nos momentos importantes da família e da comunidade. Também por aqui se pode dizer que a humanidade e a história são salvas a partir do interior...
       Segundo: a intervenção de Nossa Senhora parece ser providencial. Com a resposta de Jesus parece-nos que Ele ainda não estava disposto a encetar uma mudança na sua vida. Porém, a sua hora será antecipada por Maria. Certamente que nem Jesus se sente pressionado, nem Maria força a hora de Jesus. Sublinhe-se a intercessão de Maria. Também para o nosso tempo. Ela antecipa para nos a certeza da salvação. Por outro lado, Jesus dá espaço a Maria, para que a sintamos próxima e possamos contar com a Sua intercessão.
       Terceiro: a certeza de Maria, diante dos serventes - fazei tudo o que Ele vos disser. Confiança e desafio. Confiança de Maria em Jesus. Desafio aos serventes daquele e deste tempo. Para que Deus continue a operar no mundo é necessário que nós façamos o que Ele nos disser, sabendo que é para nosso bem e para bem de todos.
       Quarto: o vinho bom está a chegar. O melhor vinho transformar-se-á no Sangue de Jesus, derramado a favor de toda a humanidade. Por ora a água é transformada em vinho. A abundância e qualidade do vinho antecipam o Banquete que Jesus está a preparar para nós, na oferta que faz de Si. Na última Ceia, deixar-nos-á um banquete que não se esgotará jamais, o pão e o vinho transformar-se-ão no Seu corpo e sangue.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Eu batizo na água, Ele batizar-vos-á no Espírito Santo

       João começou a pregar, dizendo: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu baptizo na água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo». Sucedeu que, naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi baptizado por João no rio Jordão. Ao subir da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito, como uma pomba, descer sobre Ele. E dos céus ouviu-se uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus toda a minha complacência» (Mc 1, 7-11)
        O Evangelho de hoje envolve-nos na missão de João Baptista, conduzindo-nos até Jesus. Do anúncio de João faz parte orientar para o Messias que há de vir. Quando O encontra, aponta claramente para Ele. O Baptista é testemunha do que sucede com Jesus no batismo, os céus abrem-se e ouve-se a voz do Pai: Este é o meu Filho muito amado.
       Não se trata, sublinhe-se, de mero conhecimento da identidade de Jesus, trata-se de um desafio. Se Ele é o Filho de Deus nada nos deve desviar de O seguir...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

VL – Não deixeis que vos roubem a esperança

       Expressão bem conhecida do Papa Francisco, dirigida aos jovens mas extensível a todos e proferida em diferentes ocasiões. Desafios semelhantes: no deixeis que vos roubem a alegria, o sonho, a vida, o futuro. Desafios que convocam à militância, a não baixar os braços, a não desistir diante das adversidades. A referência é sempre Cristo e a alegria do Seu Evangelho. Jesus está envolvido nos momentos mais adversos: situações de pecado e sofrimento, de exclusão e injustiça. Torna-Se Ele mesmo vítima do preconceito (religioso) e do fanatismo, vítima dos interesses instalados e da recusa da novidade.
       Ao iniciarmos um novo ano civil este é um grito veemente a não nos deixarmos sucumbir pelas desgraças, pelas notícias constantes de violência gratuita, de corrupção, de abusos de poder, de tráfico de pessoas e de órgãos humanos, da sobrevalorização da economia sobre a política – economia que mata, que pensa em termos percentuais, em margens de lucro, em produtividade, menos pessoas, menos gastos, mais dinheiro, mais poder –, devastação ambiental, terrorismo, abusos sobre migrantes e refugiados.
       Na Sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2017), o Papa identifica a dilaceração do mundo: violência feita «aos pedaços». Ao diagnóstico, todavia, contrapõe a esperança, lembrando que o próprio Jesus viveu em tempos de violência. Há uma batalha a travar desde logo dentro do coração humano. Com efeito, “a resposta que oferece a mensagem de Cristo é radicalmente positiva: Ele pregou incansavelmente o amor incondicional de Deus, que acolhe e perdoa, e ensinou os seus discípulos a amar os inimigos (cf. Mateus 5, 44) e a oferecer a outra face (cf. Mateus 5, 39)… Quem acolhe a Boa Nova de Jesus sabe reconhecer a violência que carrega dentro de si e deixa-se curar pela misericórdia de Deus, tornando-se assim, por sua vez, instrumento de reconciliação, como exortava São Francisco de Assis: «A paz que anunciais com os lábios, conservai-a ainda mais abundante nos vossos corações».
       Não deixeis que vos roubem a esperança. A esperança é vida. Morremos a partir do momento em que deixamos de ter esperança. Não é uma esperança vã, mas uma esperança que vem de Deus e que Se manifesta plenamente em Jesus Cristo. É aquela chama que não se apaga e mesmo que não elimine todas as trevas aponta uma direção, um caminho, é um lampejo de luz que não nos deixa desistir. A esperança não anula as dificuldades, mas dá-nos o ânimo para prosseguir lutando por um mundo mais humano.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4393, de 3 de janeiro de 2017

Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira

       Jesus resolveu partir para a Galileia. Encontrou Filipe e disse-lhe: «Segue-Me». Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro. Filipe encontrou Natanael e disse-lhe: «Encontrámos Aquele de quem está escrito na Lei de Moisés e nos Profetas. É Jesus de Nazaré, filho de José». Disse-lhe Natanael: «De Nazaré pode vir alguma coisa boa?» Filipe respondeu-lhe: «Vem ver». Jesus viu Natanael, que vinha ao seu encontro, e disse: «Eis um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento». Perguntou-lhe Natanael: «De onde me conheces?» Jesus respondeu-lhe: «Antes que Filipe te chamasse, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira». Disse-lhe Natanael: «Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel!». Jesus respondeu: «Porque te disse: ‘Eu vi-te debaixo da figueira’, acreditas. Verás coisas maiores do que estas». E acrescentou: «Em verdade, em verdade vos digo: Vereis o Céu aberto e os Anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem» (Jo 1, 43-51).
        Dois dos discípulos seguiram Jesus. Um deles, André, foi ao encontro do seu irmão (Simão Pedro) para lhe dizer que tinham encontrado o Messias. Hoje, vemos um processo idêntico. Jesus encontra Filipe e diz-lhe: segue-me. Ontem, tinha dito aos discípulos (de João): vinde ver. Para conhecermos Jesus é necessário ir com Ele, segui-l'O, ver onde mora, viver com Ele, adotar o seu estilo de vida. Só dessa forma poderemos transpirar Jesus e testemunhá-l'O com convicção.
       Tal como André, Filipe, no evangelho deste dia, não guarda a descoberta, a alegria de encontro do Messias, para si, mas comunica-a, no caso concreto, a Natanael. Perante as dúvidas deste, Filipe propõe o mesmo que Jesus tinha feito: vem ver. Não adianta muitas palavras, muitas justificações, importa que a experiência de encontro com Jesus seja pessoal.
       Em todo o caso, a interrogação de Natanael coloca Jesus num lugar muito específico, em Nazaré. De algum modo, podemos concluir que é possível encontrar Deus em toda a parte, mesmo onde julgávamos que isso seria impensável.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Mestre – onde moras? Vinde ver...

       Jesus voltou-Se; e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: «Que procurais?» Eles responderam: «Rabi – que quer dizer ‘Mestre’ – onde moras?» Disse-lhes Jesus: «Vinde ver». Eles foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Era por volta das quatro horas da tarde. André, irmão de Simão Pedro, foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus. Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe: «Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’ – ; e levou-o a Jesus. Fitando nele os olhos, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’ (Jo 1, 35-42). 
        João Baptista aponta para Jesus e dois dos seus discípulos seguem-n'O. Jesus percebe essa aproximação e interroga-os: que procurais? Deixemos que também a nós Jesus nos lance a mesma questão. Que procuramos? Que queremos da nossa vida? O que é que dá sentido e sabor à nossa existência? Para onde queremos ir, quem queremos seguir?
       Os discípulos devem ter ficado perplexos, timidamente iam no seu encalço mas ainda sem saber muito bem o que iam encontrar ou o que o futuro lhes reservaria. A curiosidade desperta-lhes o seguimento. "Onde  moras?" Jesus não dá respostas feitas, elaboradas, não justifica, não tenta explicar. Vinde ver. Antes de tirarmos conclusões (precipitadas) importa ver, ficar com Ele, abrir o coração ao que nos reserva a vida na Sua presença. Eles foram e ficaram com Ele.
       A experiência de encontro com Jesus deverá ter sido envolvente, de tal forma que os discípulos, entre os quais André, irmão de Simão Pedro, voltam para procurar outros companheiros e lhes falarem deste encontro na morada do Mestre.
       E nós? Sabemos onde Ele mora? Já o "visitámos" na Sua morada? E que tipo de experiência fizemos no encontro com Ele? Vamos revigorados ao encontro de outros para lhes falar da nossa experiência com Cristo Jesus?

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

VL – Vocação universal à felicidade

       Desde a mais tenra idade que cada um de nós procura realizar-se como pessoa, chamando a atenção dos outros, primeiro dos adultos, enquanto crianças, adolescentes e jovens e, depois, sendo mais idosos, de toda a gente e especialmente dos mais novos. Precisamos de atenção, de cuidado e carinho, ao longo de toda a vida. Precisamos de ser vistos e reconhecidos e que nos tratem pelo nome próprio – a melhor música para os nossos ouvidos – e não apenas por um apelido ou por um título profissional. Queremos a atenção dos outros. Queremos sentir-nos amados, especiais, únicos. É um desejo inscrito no coração, no nosso ADN.
       Uma pessoa indisposta o tempo todo também quer sentir-se bem, também quer ser feliz. Mas por qualquer motivo, um desgosto, o feitio, ou porque só dessa forma se sente capaz de chamar a atenção dos outros, assume uma atitude de azedume ou de prepotência. No final, como dizemos dos adolescentes mais indisciplinados ou mais ativos, o que quer mesmo é chamar a atenção de alguém, ainda que o faça da pior maneira, já que destrói a amizade e os laços de proximidade.
       Como nos lembrava um professor do Seminário, não importa que falem bem ou mal de ti, importa é que falem de ti. Se falam mal já estão a dar-te importância, já contas para eles. Obviamente que quem não se sente não é filho de boa gente e ninguém quer ouvir dizer mal de si próprio. Mas entre dizerem mal e não dizerem nada…. Mais vale que digam alguma coisa!
       A felicidade que procuramos leva-nos a melhorar a nossa relação com os outros, procurando ser amados e reconhecidos. Por outras palavras, procuramos ser bem-sucedidos. Numa linguagem mais religiosa, o aperfeiçoamento da nossa vida, para nos tornarmos perfeitos como Deus Pai é perfeito. Não uma perfeição que distancia, um perfeccionismo viciante, mas uma perfeição que ama, que promove os outros, servindo-os e cuidando deles. É a vocação universal à santidade. A primeira vocação do cristão é seguir Jesus. Segui-l’O imitando-O, assimilando a Sua postura de vida, dando-Se por inteiro a favor dos outros. A santidade é transmutável com a felicidade. Daí se dizer que os santos já se encontram na bem-aventurança (= felicidade) eterna.
       A santidade não é póstuma. Póstuma apenas a declaração e o reconhecimento da santidade em vida. Com todos os que Deus colocou à nossa beira, começamos, aqui e agora, o trajeto da santidade, começamos a ser felizes, como caminho de realização que nos salva…

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4385, de 1 de novembro de 2016

VL - E tudo se renova… ressuscitando!

       As Portas da Misericórdia encerram-se mas não a Misericórdia divina. Como referiu o nosso Bispo, na Solenidade de Cristo Rei, no passado dia 20 de novembro, o encerrar das Portas recorda-nos a urgência de ir e levar a misericórdia a toda a gente, a todo o mundo.
       No Arciprestado de Moimenta da Beira-Sernancelhe-Tabuaço, a Caminhada do Advento, proposta às paróquias que o constituem, sintonizando com o plano pastoral diocesano e com a liturgia dominical, inicia com uma porta fechada, para impedir os ladrões de entrar. No decorrer da Eucaristia, a porta abre-se para que Jesus entre, deixando que Ele nasça na nossa vida. Fechamo-nos ao mal, a todo o tipo de guerra, dispomo-nos à paz, a construir, a viver as obras de misericórdia, a despertarmos do sono para saborearmos o DIA que irradia com a vinda de Cristo.
       O Advento é tempo de graça e salvação. Sendo um tempo novo, o Advento não se desfaz do que está antes, mas dá-lhe o colorido da festa que se aproxima, comprometendo-nos mais, fazendo-nos recordar a razão da nossa esperança e do nosso compromisso com os outros. Preparamo-nos para celebrar o aniversário de Jesus. Não é algo que se repita. Nada se repete na nossa vida. Cada instante conta. Cada segundo. É a minha, a tua, a nossa vida. Todos os momentos são importantes. Todos os minutos valem!
       Um ciclo finda, outro se inicia, entrelaçando-se no anterior e projetando-nos para o futuro, em espiral. Nos textos da liturgia (cf. Mt 24, 37-44), Jesus a desafia-nos à vigilância para que a Sua vinda não passe despercebida como no tempo de Noé, em que as pessoas comiam e bebiam, casavam-se e davam em casamento e só se aperceberam do dilúvio quando este chegou. Era tarde demais!
       Jesus anuncia aos seus discípulos um tempo novo que está a chegar, aproxima-se a Sua morte. Logo advirá a Sua ressurreição, inaugurando, em plenitude, um Reino novo, de paz e de misericórdia, de justiça e de amor. Naquele tempo, o mistério da Sua morte e da Sua ressurreição passou indiferente para muitos. Também nos pode passar ao lado. Não podemos deixar o tempo correr. É preciso que saboreemos a vida e nos comprometamos uns com os outros.
       Ele continua a emergir na nossa vida e a ressuscitar connosco em todo o bem que praticamos. Por ora, preparamos a celebração da Sua primeira vinda, mas em dinâmica futura. Jesus volta. Não tardará. Como nos vai encontrar? Como O vamos receber?

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4389, de 29 de novembro de 2016

VL – E tudo de renova… ressuscitando! – 2

       «Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Ficai sabendo isto: Se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa. Por isso, estai também preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que não pensais» (Mt 24, 42-44).
       O que se avizinha não tem de ser atemorizador! A salvação está ao nosso alcance, foi-nos colocada na palma da mão. Jesus viveu e morreu por nós, por mim e por ti. E, por mim e por ti, por nós, ressuscitou. Introduziu-nos na eternidade de Deus. Deixemos que nasça em nós, na nossa vida, que nasça e nos ressuscite, nos desperte para a vida abundante de graça e de misericórdia.
       Nada há a temer quando estamos preparados. Sabendo que Ele vem. Há 2.000 mil anos veio ao mundo. A Sua vinda conjuga-se agora no presente. Vem. E vem para ficar, para criar raízes. E para que n'Ele enraizemos a nossa vida. Lembremo-nos que os ramos crescem à medida que as raízes se fincam na terra. Ou, noutra imagem, a videira e a seiva que alimentam os ramos e as folhas. Quando a vida de Jesus Cristo circula em nós então a nossa vida está garantida, como promessa e como tarefa. Os sustos que apanhamos têm a ver com o facto de estarmos desprevenidos. Jesus previne-nos para estarmos preparados, para O reconhecermos e O acolhermos.
       No "Principezinho", a Raposa sublinha a alegria a crescer com o aproximar do encontro com o Principezinho quando sabe a hora do mesmo. "Teria sido preferível teres voltado à mesma hora. Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, eu, a partir das três, já começo a ser feliz. Quanto mais se aproximar a hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já estarei agitada e inquieta; descobrirei o preço da felicidade! Mas se vieres a qualquer hora, ficarei sem saber a que horas hei de vestir o meu coração..."
       Ora, Jesus diz-nos que está a chegar. Revistamo-nos de alegria e de esperança. Preparemo-nos para que não nos surpreenda distraídos. Abramos os ouvidos, os olhos, o coração, a vida por inteiro. Ele está a chegar. Não aqui ou ali. Mas em nós. Em cada pessoa que se aproxima de nós, em cada pessoa de quem nos aproximamos. Em todo o tempo! A qualquer hora!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4391, de 13 de dezembro de 2016

VL: Queria que a Mãe morresse… para ir para o Céu – 2

       A afirmação inocente de Santa Teresinha será o seu modo de agir. É o seu desejo para consumar o encontro definitivo com Jesus Cristo. Aos 15 anos entra para o convento, por sua insistência, para viver uma vida inteiramente dedicada a Jesus, à oração, à contemplação.
       Quer ser santa. E tudo o que faz, o trabalho mais humilde, a paciência com os outros, o sofrimento em silêncio, a aceitação da zombaria por parte de outras irmãs, a oração e o tempo de recreio, em tudo procura ser agradável a Jesus Cristo, o Seu único Esposo, bem-amado, com Quem se quer em definitivo na eternidade.
       Não é caso único. Santa Teresinha tem a vida resolvida. Quer viva quer morra será para glória de Deus. Quer ir para o Céu, mas se for melhor permanecer viva, então aceita, pois dessa forma ajudar outros a encontrar-se com Jesus.
       O Apóstolo São Paulo, o maior missionário de todos os tempos, vive a mesma dualidade. A identificação a Jesus – «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gál 2, 20) – deixam-no pronto para ascender à glória de Deus Pai. Todavia, o mais importante será cumprir a vontade de Deus: “Cristo será engrandecido no meu corpo, quer pela vida quer pela morte. É que, para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro. Se, entretanto, eu viver corporalmente, isso permitirá que dê fruto a obra que realizo. Que escolher então? Não sei. Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós. E é confiado nisto que eu sei que ficarei e continuarei junto de todos vós, para o progresso e a alegria da vossa fé, a fim de que a glória, que tendes em Cristo Jesus por meio de mim, aumente com a minha presença de novo junto de vós” (Fil 1, 19-26).
       Noutra missiva, o Apóstolo reafirma o mesmo dilema: “Permanecendo neste corpo, vivemos exilados, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão... Cheios dessa confiança, preferimos exilar-nos do corpo, para irmos morar junto do Senhor. Por isso também, quer permaneçamos na nossa morada, quer a deixemos, esforçamo-nos por lhe agradar” (2 Cor 6-9). 
       Mas outros santos tinham o mesmo desejo e o mesmo compromisso. Santa Fustina de Kowalska, Santo Inácio de Antioquia, Santa Eufémia de Calcedónia… Viver u morrer para glória e louvor de Deus Pai!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4387, de 15 de novembro de 2016

VL: Queria que a Mãe morresse… para ir para o Céu – 1

       No Arciprestado de Moimenta da Beira – Sernancelhe - Tabuaço, procurando responder ao Plano Pastoral da Diocese de Lamego, sob o lema “Ide e anunciai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15), proposto, fundamentado e refletido por D. António Couto na Carta Pastoral dirigida a toda a Diocese, acolhemos uma iniciativa pastoral – “Um santo missionário por mês”.
       No Jubileu da Misericórdia havia um conjunto de santos mais ligados, pelas palavras e pelos gestos, à misericórdia e que nos ajudavam a viver a fé e a vida sob o prisma da misericórdia, da compaixão e da ternura, testemunhando e transparecendo a misericórdia divina. Quando nos centramos numa dinâmica missionária, como tem sido ao longo dos últimos anos na nossa Diocese, com a referência e convite permanentes “Ide”, há santos cuja vida visualiza a pressa em levar o Evangelho a toda a parte, a todas as pessoas.
       Desta feita, em 2016-2017, a missão evangelizadora alarga-se e aprofunda-se: “todos, tudo, sempre, em toda a parte”. Em diversas paróquias do Arciprestado, a oportunidade de nos deixarmos envolver com o testemunho de santos missionários como Santa Teresa do Menino Jesus (outubro) e São Francisco Xavier (novembro), Padroeiros das Missões; Santa Faustina de Kowalska (dezembro), missionária da misericórdia ou Santa Teresa De Calcutá, missionária da caridade.
       Em épocas distantes, em ambientes diferentes, em dinâmicas variadas, os santos missionários permitem-nos ver como é possível viver a santidade em casa, num convento, indo ao encontro dos outros, na família, no meio dos jovens, na prática da caridade, na oração.
       Nesta dinâmica pastoral, a entrega de uma pagela com o santo missionário do mês, com uma tarefa para o mês que pode passar por um pai-nosso pelas missões, uma oração, a prática de uma das obras de misericórdia, levar um convite e/ou mensagem ao vizinho, visitar um doente individualmente ou em grupo. Desdobráveis, boletins paroquiais ou dominicais, escolas da fé, para aprofundar o conhecimento sobre o respetivo santo missionário, procurando, pelo sua intercessão e pelo seu testemunho, assumir a mesma paixão missionária de viver o Evangelho, levando-o a todos.
       Na Paróquia de Tabuaço, na primeira sessão da escola da fé, desta iniciativa pastoral, o responsável arciprestal, reverendo Pe. Giroto, acerca de Santa Teresa do Menino Jesus e como provocação inicial, apresentou-nos um pedaço de um filme, em que Teresa ainda menina diz à Mãe que quer que ela morra. Ao porquê, responde que, segundo lhe disse a própria Mãe, só morrendo a Mãe poderá ir para o Céu.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4386, de 8 de novembro de 2016