sábado, 14 de dezembro de 2013

Domingo III do Advento - ano A - 15 de dezembro

       1 – Em muitas casas portuguesas, talvez mais a norte de Portugal, e num tempo de grande dificuldade que acentuou a emigração, podem ouvir-se diálogos como este:
       – Mãe, em que dia vem mesmo o pai?
       – Se Deus quiser estará em casa no dia 18 à noite. Mas porquê? Eu já te tinha dito.
       – O tempo nunca mais passa, parece que os dias são enormes.
       – Eu sei, sinto o mesmo, mas já só faltam uns dias.
       – Olha, mãezinha, podíamos começar a preparar tudo, o presépio, a árvore de Natal, colocar as prendas do pai. Vais-me dizer mesmo o dia em que chega?! Queria vestir aquela roupa que ele me trouxe. Podíamos ir arranjar o cabelo, compor as unhas, fazer o buço…
       – Mas filha, não podemos desperdiçar dinheiro. Sabes, o teu pai está lá fora para ganhar algum dinheiro mais e nós temos que poupar para que um dia ele não precise de sair de ao pé de nós. Ele ficará mais feliz com a nossa presença e com a nossa alegria. Veremos o que podemos fazer.
       – Ele não se importa, pois sabe que queremos estar todas lindas para ele. Estou tão contente, parece que ele já está à porta, pronto para entrar. Estou tão feliz. Espero que estes dias passem rapidamente. Vou arrumar melhor o meu quarto, vai ficar nos trinques!
       2 – O terceiro domingo do Advento é conhecido como o Domingo da Alegria – Gaudete. Ainda faltam uns dias para a celebração festiva do Natal, mas sublinhamos esta alegria pela certeza que Jesus vai chegar às nossas vidas, ao nosso coração. A Alegria do Evangelho há de generalizar-se em todo o tempo, pois Deus ama-nos infinitamente e sempre desce à nossa vida. É uma alegria missionária. Acolhemos o Senhor e deixamos que transborde o amor de Deus em nós para as pessoas que encontramos, procurando identificar-nos com Ele. Enquanto preparamos, em espera ativa, sentimos o entusiasmo pela brevidade com que o Senhor vem salvar-nos.
       De outros tempos e lugares, chega-nos a voz da esperança de Isaías. No meio de incertezas e adversidades, o profeta convida o povo a levantar-se em júbilo, pois já falta pouco para chegar a salvação, é como luz que já se vê no horizonte, dando-nos mais força para caminhar, fortalecendo os nossos passos, iluminando cada vez com mais luz o nosso peregrinar. E isso é motivo de alegria, de paz e de confiança:
«Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida, cubra-se de flores como o narciso, exulte com brados de alegria. Dizei aos corações perturbados: 'Tende coragem, não temais: Aí está o vosso Deus, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-vos'. Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. Voltarão os que o Senhor libertar, hão de chegar a Sião com brados de alegria, com eterna felicidade a iluminar-lhes o rosto. Reinarão o prazer e o contentamento e acabarão a dor e os gemidos». 

       3 – A alegria, pela proximidade do Messias, e a consequente salvação, está de mãos dadas com a confiança, mas também com a paciência. Se vislumbramos a luz, por menor que seja, se a Luz nos atrai cada vez com mais intensidade, isso não significa que não advenha a dúvida, a incerteza, a escuridão em algum recanto da nossa vida, ou que tropecemos em algum obstáculo.
       O apóstolo São Tiago apresenta-nos uma imagem belíssima, convidando-nos a esperar pacientemente e a fortalecer o ânimo dos irmãos:
«Esperai com paciência a vinda do Senhor. Vede como o agricultor espera pacientemente o precioso fruto da terra, aguardando a chuva temporã e a tardia. Sede pacientes, vós também, e fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima. Não vos queixeis uns dos outros, a fim de não serdes julgados. Eis que o Juiz está à porta. Irmãos, tomai como modelos de sofrimento e de paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor».
       O agricultor não se esquece da sementeira, cada manhã olha para o tempo que faz. Se é desfavorável, não se revolta, aguarda que outra manhã seja diferente. A cada passo vai ao campo, ver se já desponta alguma das sementes. Por vezes cobre pedaços de terreno, nomeadamente a hortaliça. Outras vezes arranca uma erva incómoda que vem antes dos seus rebentos. Outras vezes, alisa mais a terra, ou revolve-a, tirando a crosta dura da terra para não impedir as sementes de germinar. Pacientemente. Quando começam a ver-se as sementes a romper a terra, brota a alegria que ainda há de passar por mais trabalhos e provações, pois agora o clima será ainda mais importante, podendo queimar o que se semeou, ou contribuindo, por exemplo, para que a hortaliça seja mais mole e mais “doce”.

       4 – Quem não quer perder a alegria da chegada do Messias, é o Precursor. Está na cadeia. Já se terá cruzado com Ele, mas ainda assim não quer morrer sem antes ter a certeza absoluta que é mesmo o Messias esperado. Quase como o velho Simeão, no Templo, aquando da apresentação de Jesus: «Agora, Senhor, segundo a tua palavra, deixarás ir em paz o teu servo, porque meus olhos viram a Salvação que ofereceste a todos os povos, Luz para se revelar às nações e glória de Israel, teu povo» (Lc 2, 28-32).
       Chegam a João Batista ecos variados da pregação de Jesus e dos prodígios realizados. Também devem ter chegado acusações, maledicências, insinuações. Pela via das dúvidas, João envia discípulos a Jesus para tirar as coisas a limpo. Na volta, Jesus não responde com palavras, podem sempre ser lidas, interpretadas, e alteradas pelos interlocutores. Diz-lhes Jesus: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo».
       Como em outras situações, Jesus não tenta convencer, mas mover, envolver, deixando-nos espaço suficiente para uma adesão pessoal e livre, e dando-nos tempo para refletir e acolher a Sua presença e a Sua mensagem. Os enviados de João observam e serão eles a dizer-lhe o que viram. Conhecedor da Sagrada Escritura, João Batista não terá muitas dúvidas em reconhecer o messianismo de Jesus.

       5 – Quando os discípulos regressam para contar tudo o que viram fazer, Jesus dá um extraordinário testemunho de João Batista: «É dele que está escrito: ‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, para te preparar o caminho’. Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele».
       Também em Jesus transborda a alegria por saber que Deus Se manifestou através de João Batista, ao mesmo tempo que nos convida a prepararmo-nos, como João, para melhor O acolhermos. Não basta esperar de braços cruzados, é preciso esperar ativamente, como o agricultor que espera e se vai alegrando com o irromper das sementes, ajeitando a terra, e protegendo as plantas que são mais sensíveis ao clima. Sabe que não controla todos os elementos, mas há algumas situações de que se pode precaver.
       Para estarmos quentes e felizes à lareira, precisamos de lenha, de a acarretar, de a ajeitar, de a colocar a arder e esperar que a chama se espalhe. A fogueira pode apagar-se, e, por isso, vamos ajeitando o lume para que não morra, e controlamos se queremos mais ou menos quente. Assim na nossa vivência da fé cristã. Experimentamos uma alegria imensa, por Deus que vem, mas comprometidos em Lhe responder com amor e dedicação, comprometidos com os irmãos, que são, como nós, filhos seus. Alimentamos a chama, a fé, com alegria.

Textos para a Eucaristia (ano A): Is 35, 1-6a.10; Tg 5, 7-10; Mt 11, 2-11.

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