quinta-feira, 16 de abril de 2015

Domingo III da Páscoa - ano B - 19 de abril de 2015

       1 – Estamos aqui, como cristãos e como comunidade crente, porque Jesus Cristo vive no MEIO de nós e nos congrega como Seu CORPO, do qual somos membros. Se a morte de Jesus pusesse fim à Sua vida, como um todo, também o Seu projeto de salvação ficaria para sempre encerrado naquele túmulo.
       Mas eis que, passados três dias, o túmulo se abre. Jesus vem e coloca-Se no MEIO de nós, trazendo-nos a PAZ, associando-nos à Sua vida nova. Encontra-nos perto do sepulcro, encontra-nos no caminho, encontra-nos em casa. E provoca-nos, enviando-nos a todo o mundo.
       «Vós sois as testemunhas de todas estas coisas».
       Pedro, depois das aparições de Jesus, temperado pelo fogo de Deus, posto à prova, reconciliando-se com a sua fragilidade e com os seus medos, torna-se, com os demais apóstolos, testemunha convicta diante de todo o povo: «O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus, que vós entregastes e negastes na presença de Pilatos, estando ele resolvido a soltá-l’O. Negastes o Santo e o Justo e pedistes a libertação dum assassino; matastes o autor da vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos, e nós somos testemunhas disso. Agora, irmãos, eu sei que agistes por ignorância, como também os vossos chefes. Foi assim que Deus cumpriu o que de antemão tinha anunciado pela boca de todos os Profetas: que o seu Messias havia de padecer. Portanto, arrependei-vos e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados».
       A palavra de Deus, nas palavras de Pedro, convida-nos a assumir o passado, a nossa história, em ordem à conversão. Vivemos desta ou daquela maneira! Pecámos! Agora é tempo de balançar a vida para a frente, deixando que o Espírito de Deus nos comunique a vida nova, para n'Ele vivermos e anunciarmos o Evangelho do perdão e do amor. Sejamos também nós testemunhas do Ressuscitado Jesus!


       2 – A Páscoa transforma-nos, pois nos introduz numa vida nova e numa nova maneira de compromisso com o mundo que nos rodeia e ao qual Deus nos envia com a missão de o cultivarmos, tornando-nos com criadores, possibilitando que seja habitável para todos, como lugar de encontro, de partilha e de comunhão. O mundo, enformado pelo Espírito de Deus, que nos habita, não será mais um lugar inóspito, de ódio e violência, de disputa de poder e de guerrilha, um campo de batalha, mas uma oportunidade para nos encontrarmos como irmãos a fim de formarmos uma só família para Deus.
       Com a Ressurreição de Jesus, o Céu chega a nós com toda a sua força transformadora, a força do amor, do perdão, do serviço, que nos aproxima e irmana e nos leva a cuidar dos mais frágeis, sabendo que neles, de forma preferencial, poderemos encontrar o Deus de Jesus Cristo, que Se deixa ver e tocar pelas chagas, pelas feridas humanas.
       Aquela manhã é uma surpresa contínua. Ainda hoje nos reunimos, como cristãos e como comunidade, no primeiro DIA DA SEMANA que se tornou o DIA DO SENHOR (Dies Domini = Domingo), para celebrarmos a Páscoa de Jesus Cristo. N'Ele, Deus recria todas as coisas, fazendo-nos participantes da salvação, corresponsáveis uns pelos outros, porque membros da mesma família, filhos do mesmo Pai, irmãos de Jesus.
       O Encontro com o Ressuscitado convoca-nos para a missão e de discípulos tornamo-nos missionários. Os discípulos de Emaús, que Jesus encontrou no caminho e que O reconheceram ao partir do pão, saem rapidamente, mesmo que se aproxime a noite, e vão ao encontro dos outros para lhes contarem tudo o que aconteceu. São testemunhas destas coisas! Eles e nós.

       3 – Jesus surpreende. Quando deixar de nos surpreender com a Sua presença, há que suspeitar da nossa fé. Apresenta-se no MEIO e traz-nos a paz: «A paz esteja convosco». Ainda atolados na noite da dúvida e da incerteza nem queremos acreditar que Aquele que morreu numa cruz está de volta ao nosso convívio.
       Jesus tranquiliza-nos: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». E logo acrescenta: «Tendes aí alguma coisa para comer?». Segue o mesmo padrão que antes, em vez de grandes discursos, visualiza o que afirma com uma realidade do dia-a-dia.
       Em definitivo, Jesus não é um espírito a vaguear pelo mundo ou um fantasma. Por um lado, a realidade temporal foi ultrapassada pela ressurreição, por outro, a identidade corpórea é evidente. O Crucificado é o Ressuscitado. Jesus relembra a mensagem anterior à Paixão. Manifesta-Se num corpo glorioso mas a Sua aparição é mais do que um susto, um fantasma, uma ilusão, é o próprio Cristo com a Sua identidade humana e divina. Como Filho de Deus, Ele pode comer e ser tocado, apesar da Sua presença gloriosa.
       Por vezes queremos explicar e encerrar Deus nas nossas conceções racionais e empíricas. Mas Deus, enquanto Deus, não pode ser limitado nem prisioneiro dos nossos conceitos. A palavra de Deus convida-nos a abrir-nos à esperança e ao futuro, a deixarmo-nos surpreender por Deus, como aconteceu com os discípulos daquele tempo.


       4 – «Vós sois as testemunhas de todas estas coisas».
       A Ressurreição de Jesus é DOM de Deus a toda a humanidade. Assim como Jesus Cristo morreu por todos os homens, também ressuscitou para a todos elevar para Deus.
       Ora, a ressurreição não é um acontecimento do passado nem simplesmente um acontecimento do futuro. Do passado em relação a Cristo, do futuro em relação a cada um de nós. A ressurreição é um acontecimento que HOJE nos mobiliza para fazermos chegar esta LUZ nova e intensa a todos os recantos do mundo, a todas as situações. A nossa ressurreição começou a operar com a batismo, na água e no Espírito Santo, morremos com Cristo e com Ele ressuscitamos novas criaturas, aprofundando os laços que nos unem, testemunhando as maravilhas que Deus realiza em nós.
       Por conseguinte, o encontro com o Senhor ressuscitado desinstala-nos e envia-nos. Na primeira leitura víamos como Pedro e os outros Apóstolos transformam o medo em luta e entusiasmo. No Evangelho, víamos os discípulos de Emaús a regressarem a Jerusalém para testemunharem a Ressurreição. Na segunda leitura, São João relembra-nos como Cristo está presente em todos os momentos da nossa vida, redimindo-nos, desafiando-nos a permanecermos em comunhão com Ele:
«Nós temos Jesus Cristo, o Justo, como advogado junto do Pai. Ele é a vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro. E nós sabemos que O conhecemos, se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz conhecê-l’O e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele. Mas se alguém guardar a sua palavra, nesse o amor de Deus é perfeito».
       5 – A experiência finita e limitada, a fragilidade e o sofrimento que enfrentamos, pode, em certos momentos, levar-nos a duvidar de novo. Nessa ocasião seja mais intensa a nossa súplica: «Quando Vos invocar, ouvi-me, ó Deus de justiça. / Vós que na tribulação me tendes protegido, / compadecei-Vos de mim / e ouvi a minha súplica».
       E Deus não deixará de nos responder e nos enviar sinais do Seu amor por nós. Nos momentos mais dolorosos Ele nos guarda e protege, ainda que o nosso coração esteja ferido.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (B): Atos 3, 13-19; Sl 4; 1 Jo 2, 1-5a; Lc 24, 35-48.

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