sábado, 30 de julho de 2016

XVIII Domingo do Tempo Comum - ano C - 31.07.2016

       1 – A felicidade na pobreza é um desafio e um compromisso com a verdade e com o bem, optando pela bondade e pela delicadeza, colocando os outros como prioridade porque neles está impressa a imagem de Deus. A pobreza liberta-nos de nós, do nosso egoísmo e do auto endeusamento. Pobreza, neste sentido, é a humildade de quem se reconhece a caminho, a necessitar de salvação, de ajuda, da presença do outro. De quem se abre a Deus e aos outros.
       O contrário de pobreza é avareza. Prepotência. Ganância desmedida. Egoísmo.
       A pobreza em espírito caracteriza-se por usar os recursos e os bens materiais como meio para viver em segurança e em dignidade, aproximando-se dos outros. Dispor dos bens para viver e para a ajudar os outros a viverem com dignidade. Quando a riqueza material serve para contendas sem fim, disputas, violência, quando serve para anular ou destruir os outros, é diabólica!
       A riqueza fecha-nos o coração e a vida. O dinheiro ou os bens materiais não são mal ou bem em si mesmos, o uso que fazemos deles é que pode ser moralmente condenável ou assomar bondade. A criação de riqueza, o trabalho honesto, a aquisição justa engrandecem e dignificam o ser o humano. O roubo, a corrupção, a desonestidade empobrecem e destroem a pessoa e, com o tempo, todo o tecido social. Repare-se uma vez mais na crise económico-financeira onde uns poucos enriqueceram à custa de muitos. Como tem acentuado o Papa Francisco, esta economia mata, pois preocupa-se muito mais com os números do que com as pessoas que são sacrificadas por causa das percentagens.
       Defender a pobreza do evangelho para justificar a existência de pobres e não se comprometer na procura de soluções, é pecado que brada aos céus. Mas também a cobiça pelos bens dos outros, quando estes os conseguiram com trabalho, honestidade e justiça. Há pobres e ricos que são gananciosos e há pobres e ricos (materialmente falando) que são generosos.
       Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino de Deus. É uma opção da pessoa, nunca uma imposição. Não justifica a pobreza. Pelo contrário, ser pobres ao jeito de Jesus implica que nos façamos pão e vida para os mais pobres, como Ele fez. Dai-lhes vós de comer. Como Eu vos fiz, fazei-o também uns aos outros. O que fizerdes ao mais pequeno dos irmãos é a Mim que o fazeis. Dar de comer a quem tem fome, é uma das obras de misericórdia que nos implica. O caminho de Jesus é um caminho de leveza, de despojamento, livre para dar a vida a favor da humanidade porque nada O prende ou escraviza senão o amor, o serviço a todos, preferencialmente aos mais pobres. Em tudo, a grande riqueza é a sintonia com o Pai, fazendo a Sua vontade.

       2 – Certamente depois de ouvir Jesus a falar de despojamento, de partilha, de serviço aos demais, um homem aproximou-se para O convocar a resolver os seus problemas: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo».
       Tenho a impressão que Jesus não veio resolver os problemas de ninguém. Explico. Como facilmente se entende, Jesus não nos substitui, não vive a vida por nós. Os nossos pais por mais que nos amem não fazem o que devemos fazer para viver. Se os pais assumirem as responsabilidades que nos cabem e as consequências dos nossos atos, seremos sempre infantis. Por conseguinte, a nossa oração a Deus não é para que nos ajude a derrotar os outros, dando agora o exemplo do futebol e lembrando o testemunho do selecionador nacional, mas pedir a Deus a humildade para persistir, a sabedoria para buscar as melhores soluções e a persistência para fazer boas escolhas, pois nem o Fernando Santos ia para dentro de campo jogar nem Deus ia meter golos na baliza da equipa adversária. Ou como dizia o professor João Paiva, da Faculdade de Ciências do Porto, nas Jornadas de Formação para Catequistas, na Diocese do Porto, sobre "Bíblia e ciência": «Vi gente a comemorar a vitória de Portugal sobre França com imagens de Nossa Senhora e terços e uma das coisas que me ocorre é imaginar Nossa Senhora a contabilizar 11 milhões de Aves Marias, do lado de Portugal, 30 milhões de Aves Marias, do lado francês, imagino Lurdes contra Fátima...».
       Jesus desafia-nos ao melhor de nós mesmos e a buscarmos nos outros a presença de Deus, mas não se faz árbitro das nossas disputas. «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?».
       No seguimento da resposta, Jesus acrescenta, dizendo a todos: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». Quando os bens materiais substituem as pessoas, estamos a caminho da desumanização. O trabalho e as minhas compras ocupam o primeiro lugar, antes dos outros e de Deus, então terei que rever as minhas prioridades. Posso ganhar o mundo inteiro e perder a vida, a alegria, a capacidade de apreciar a presença dos que contam comigo e com quem eu posso contar.
       Vale a pena escutar e refletir a parábola de Jesus: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: ‘Que hei de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’. Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».
       3 – É de todos conhecido o texto proposto na primeira leitura: "Vaidade das vaidades – diz Qohélet – vaidade das vaidades: tudo é vaidade. Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito, tem de deixar tudo a outro que nada fez. Também isto é vaidade e grande desgraça. Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol? Na verdade, todos os seus dias são cheios de dores e os seus trabalhos cheios de cuidados e preocupações; e nem de noite o seu coração descansa. Também isto é vaidade".
       Aparentemente o sábio Qohélet está resignado perante a vida, diante das situações de sofrimento, de mal, de contradição. Levantar. Trabalhar. Comer. Deitar. Cansar-se para quê ou para quem? Que sentido tem a vida se há de terminar um dia? Por certo que também nós, em momentos de solidão, de incerteza, de doença, nos interrogamos sobre o sentido da vida.
       No final, o autor conclui o seu testamento (testemunho) dizendo que tudo é vaidade se não estiver referido a Deus. "O resumo do discurso, de tudo o que se ouviu, é este: teme a Deus e guarda os seus preceitos, porque este é o dever de todo o homem. Deus pedirá contas, no dia do juí­zo, de tudo o que está oculto, quer seja bom, quer seja mau" (Ecl 12, 13). Em Deus, a vida não se perderá, mas será assumida para sempre. Então não perderemos os que nos precederem, nem instrumentalizaremos os que que Deus colocou à nossa beira, pois neles se reflete Deus.
       A saída para este impasse está na oração. Melhor está em Deus, a quem nos dirigimos, com o salmista: "Saciai-nos desde a manhã com a vossa bondade, para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias. Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus. Confirmai, Senhor, a obra das nossas mãos".

       4 – Se olharmos horizontalmente só veremos o que está à nossa frente, ou o que nos rodeia. Não veremos além do que a nossa vista alcança nem além das primeiras montanhas. A não ser que nos desloquemos. Se olharmos com o coração, começamos a ver mais longe. Podemos sonhar. Imaginar. Há mais mundo. Assim também com os sentimentos e com os afetos. Quando negativos reduzem o nosso mundo, o meu e o teu, tornam-no minúsculo. Quando positivos e/ou bem canalizados alargam o nosso mundo, o nosso olhar, a nossa vida. Fazem-nos querer alargar o espaço e prolongar o tempo, fazer com que dure para sempre.
       Mas para sempre nada dura. Só Deus. Só Ele o garante da nossa memória, da nossa existência, da nossa identidade, para sempre. Isso não resolve os problemas todos, ou nenhum, mas ajuda-nos a relativizar as situações de treva, pois não duram para sempre, e a empenhar-nos com o mundo atual, para nele irmos experimentando a presença de Deus, iniciando a vida eterna, que já está em gestão com a ressurreição de Jesus.
       Desafia-nos São Paulo: “Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus... fazei morrer o que em vós é terreno: imoralidade, impureza, paixões, maus desejos e avareza, que é uma idolatria. Não mintais uns aos outros, vós que vos despojastes do homem velho com as suas ações e vos revestistes do homem novo... não há grego ou judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro ou cita, escravo ou livre; o que há é Cristo, que é tudo e está em todos”.
       Se Cristo é tudo em todos, Cristo que acolhemos ou afastamos quando cuidamos ou maltratamos os outros.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (C): Ecl 1, 2; 2, 21-23; Sl 89 (90); Col 3, 1-5. 9-11; Lc 12, 13-21.

João Baptista que ressuscitou dos mortos!

       O tetrarca Herodes ouviu falar da fama de Jesus e disse aos seus familiares: «Esse homem é João Baptista que ressuscitou dos mortos. Por isso é que nele se exercem tais poderes miraculosos». De facto, Herodes tinha mandado prender João e algemá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe. Porque João dizia constantemente a Herodes: «Não te é permitido tê-la por mulher». E embora quisesse dar-Lhe a morte, tinha receio da multidão, que o considerava como profeta. Ocorreu entretanto o aniversário de Herodes e a filha de Herodíades dançou diante dos convidados. Agradou de tal maneira a Herodes, que este lhe prometeu com juramento dar-lhe o que ela pedisse. Instigada pela mãe, ela respondeu: «Dá-me agora mesmo num prato a cabeça de João Baptista». O rei ficou consternado, mas por causa do juramento e dos convidados, ordenou que lha dessem e mandou decapitar João no cárcere. A cabeça foi trazida num prato e entregue à jovem, que a levou a sua mãe. Os discípulos de João vieram buscar o seu cadáver e deram-lhe sepultura. Depois foram dar a notícia a Jesus (Mt 14, 1-12).
        A fama de Jesus vai-se espalhando. As autoridades não ficam indiferentes como ninguém pode ficar indiferente à Sua palavra de amor, pela adesão firme ou pela negação decidida. Herodes, com remorsos pelo morte de João Baptista julga que se está na presença de João Baptista ressuscitado.
       No Evangelho de hoje, o testemunho acerca de João Baptista como alguém que não teme nem a morte, procurando somente a verdade. E por outro lado, como Herodes se deixa enredar pelas circunstâncias, pela opinião alheia, pela conveniência momentânea.
       Podemos ser João Baptista, procurando que a nossa vida se aproxime da verdade. Podemos ser Herodes sempre e quando nos deixamos levar pelas conveniências do momento ou pela moda defendida pela maioria.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Santa Marta, irmã de Maria e Lázaro

Nota biográfica:
       Era irmã de Maria e de Lázaro. Quando recebia o Senhor em sua casa de Betânia, servia-O com grande diligência, e com suas orações obteve a ressurreição de seu irmão.
Oração (de colecta):
       Deus omnipotente e eterno, cujo Filho aceitou a hospitalidade que Santa Marta Lhe oferecia em sua casa, concedei-nos, por sua intercessão, que, servindo a Cristo em cada um dos nossos irmãos, sejamos por Vós recebidos nas moradas eternas. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Evangelho para este dia:
       Marta disse a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá». Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará». Marta respondeu: «Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição do último dia». Disse-lhe Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?». Disse-Lhe Marta: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo» (Jo 11, 19-27).

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo

Bem-aventurados os que mereceram receber o Senhor

em sua própria casa

As palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo que acabamos de ler no Evangelho advertem-nos que, no meio da multiplicidade das ocupações deste mundo, há um bem único para o qual devemos tender. Tendemos porque ainda estamos a caminho e não em morada permanente; em viagem e não na pátria definitiva; em tempo de desejo e não da posse perfeita. Mas devemos tender sem preguiça e sem parar, a fim de podermos um dia chegar ao fim.
Marta e Maria eram duas irmãs, ambas irmãs não só de sangue, mas também pelos sentimentos religiosos. Ambas estavam unidas ao Senhor; ambas, em perfeita harmonia, serviam o Senhor corporalmente presente.
Marta recebeu-O como costumam ser recebidos os peregrinos; e no entanto, era uma serva que recebia o seu Senhor, uma doente que acolhia o Salvador, uma criatura que hospedava o Criador. Recebeu o Senhor para Lhe dar o alimento corporal, ela que precisava do alimento espiritual. Com efeito, o Senhor quis tomar a forma de servo e nesta condição de servo quis ser alimentado pelos servos, por condescendência e não por necessidade. De facto, também foi por condescendência que Se apresentou para ser alimentado, porque tinha assumido um corpo sujeito à fome e à sede.
E assim pôde ser hospedado o Senhor, Aquele que veio para o que era seu e os seus não O receberam; mas a quantos O receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Adoptou os servos e fê-los irmãos; remiu os cativos e fê-los co-herdeiros. Mas ninguém de entre vós ouse dizer: «Oh bem-aventurados os que mereceram receber a Cristo na sua própria casa!». Não tenhas pena, não te lamentes por teres nascido num tempo em que já não podes ver o Senhor na sua carne. Ele não te privou dessa honra, porque Ele mesmo disse: O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes.
Além disso tu, Marta, – com tua licença o direi, e bendita sejas pelos teus bons serviços – buscas o descanso como recompensa do teu trabalho. Agora estás ocupada com muitos serviços, queres alimentar os corpos que são mortais, embora de pessoas santas. Porventura, quando chegares à outra pátria, poderás encontrar um peregrino a quem hospedar, um faminto com quem repartir o pão, um sequioso a quem dar de beber, um doente a quem visitar, algum litigante a quem reconciliar, algum morto a quem sepultar?
Lá, não haverá nada disto. Que haverá então? O que Maria escolheu: lá, seremos alimentados e não daremos alimento. Lá, há-de cumprir-se em plenitude aquilo que Maria aqui escolheu: daquela mesa opulenta, ela recolhia as migalhas da palavra do Senhor. Quereis saber o que haverá lá? O próprio Senhor o diz a respeito dos seus servos: Em verdade vos digo, que Ele os mandará sentar à mesa e, passando no meio deles, os servirá.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

O reino de Deus: como uma rede lançada ao mar

       Disse Jesus à multidão: «O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?». Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas». Quando acabou de proferir estas parábolas, Jesus continuou o seu caminho.(Mt 13, 47-53).
       Jesus continua a falar-nos em parábolas sobre o reino dos Céus.
       Hoje Jesus apresenta o reino dos Céus no contexto de uma pescaria: a rede é lançada ao mar. Nela vem toda a espécie de peixes, bons e maus, grandes e pequenos, de todas as cores e feitios. Faz-nos lembrar de novo a parábola do trigo e do joio, em que crescem juntamente, isto é, o bem e o mal, até ao fim. Numa e noutra se acentua a paciência de Deus, em espera para que vença o bem e possa abafar toda a semente ruim que há em nós. Deus chama todos. No início todos valemos o mesmo. A rede não nos separa. Só no fim. Deus dá-nos tempo. Espera. Mas respeita as nossas escolhas.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O reino dos Céus é um tesouro, uma pérola...

        Disse Jesus à multidão: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola» (Mt 13, 44-46).
       Nas imagens usadas por Jesus para nos falar do Reino dos Céus, mais duas muito significativas, em que se mostra a prioridade do reino sobre todos os bens, sobre todas as realidades. Não há nada mais importante que o reino dos Céus. Quem entra no reino dos Céus está próximo da felicidade, ainda que passe por provações e dificuldades.
       Os discípulos de Jesus devem procurar antes de mais o reino de Deus e a sua justiça, o mais virá por acréscimo. É o melhor tesouro que podemos encontrar, é a razão última para a nossa existência, é a resposta aos nossos porquês, às nossas buscas, às nossas dúvidas. O reino dos Céus justifica todo o compromisso com os outros e com o mundo.

terça-feira, 26 de julho de 2016

São Joaquim e Santa Ana, Pais da Virgem Santa Maria

Nota biográfica:
       Segundo uma antiga tradição, que remonta ao séc. II, assim se chamavam os pais da Santíssima Virgem Maria. O culto de Santa Ana existia no Oriente já no séc. VI e estendeu-se ao Ocidente no séc. X. Mais recentemente foi introduzido o culto de São Joaquim.

Oração:
       Senhor, Deus dos nossos pais, que concedestes a São Joaquim e Santa Ana a graça de darem ao mundo a Mãe do vosso Filho, alcançai-nos, por sua intercessão, a salvação que prometestes ao vosso povo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Dos Sermões de São João Damasceno, bispo

Pelos seus frutos os conhecereis

Porque estava determinado que de Ana havia de nascer a Virgem Mãe de Deus, a natureza não ousou preceder o germe da graça; mas para dar o seu fruto, esperou que a graça produzisse o seu. Convinha, de facto, que nascesse aquela Primogénita de quem havia de nascer o Primogénito de toda a criatura, no qual subsistem todas as coisas.
Oh bem-aventurados esposos Joaquim e Ana! Toda a criatura vos está obrigada. Porque foi por vosso intermédio que a criatura ofereceu ao Criador o melhor de todos os dons, isto é, a Virgem Mãe, a única que era digna do Criador.
Alegrai-vos, Ana estéril, que não tínheis filhos; soltai brados de júbilo e alegria, Vós que não dáveis à luz. Exultai, Joaquim, porque da vossa filha nos nasceu um Menino e nos foi dado um Filho e o seu nome será Anjo do grande conselho, de salvação para todo o mundo, Deus forte. Este Menino é Deus.
Oh bem-aventurados esposos, Joaquim e Ana, verdadeiramente sem mancha! Sois conhecidos pelo fruto do vosso ventre, como disse uma vez o Senhor: Pelos seus frutos os conhecereis. Estabelecestes as normas da vossa vida do modo mais agradável a Deus e digno d’Aquela que de vós nasceu. No vosso convívio casto e santo educastes a pérola da virgindade, Aquela que havia de ser virgem antes do parto, virgem no parto e ainda virgem depois do parto; Aquela que, de modo único e excepcional, conservaria sempre a virgindade, tanto na sua mente como na sua alma e no seu corpo.
Oh castíssimos esposos, Joaquim e Ana! Guardando a castidade prescrita pela lei natural, conseguistes alcançar, por graça de Deus, o que excede a natureza, porque gerastes para o mundo a Mãe de Deus, Mãe sem conhecer varão. Levando ao longo da existência humana uma vida piedosa e santa, gerastes uma filha que é superior aos Anjos e agora é rainha dos Anjos.
Ó donzela formosíssima e dulcíssima! Ó Filha de Adão e Mãe de Deus! Bem-aventurado o pai e a mãe que Vos geraram! Bem-aventurados os braços que Vos estreitaram em seu regaço e os lábios que Vos beijaram castamente, isto é, unicamente os de vossos pais, para que sempre e em tudo conservásseis a perfeita virgindade! Aclamai o Senhor, terra inteira, exultai de alegria e cantai. Levantai a vossa voz; clamai e não temais.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

São Tiago (Maior), Apóstolo

Nota biográfica:
       Nasceu em Betsaida; era filho de Zebedeu e irmão do apóstolo João. Esteve presente nos principais milagres do Senhor. Foi morto por Herodes cerca do ano 42. É venerado com culto especial em Compostela (Espanha), com as relíquias aí depositadas, onde se ergue a célebre basílica a ele dedicada, que atrai desde o século IX inumeráveis peregrinos de toda a cristandade.
       Foi o primeiro mártir entre os DOZE apóstolos. Era um dos três discípulos mais próximos de Jesus. Esteve presente na Transfiguração de Jesus (antecipação/visualização da glória da Ressurreição) e na hora dolorosa da agonia no Jardim das Oliveiras.
       Como no elenco dos Apóstolos aparecem duas pessoas com este nome - Tiago, filho de Zebedeu e Tiago, filho de Alfeu -, distinguem-se da seguinte forma, o primeiro como São Tiago Maior e o segundo como Tiago Menor. Como refere o Papa, a preocupação não é medir a santidade de um e outro, mas o realce que um e outro têm nos escritos neotestamentários.
       Ocupa o segundo lugar, logo depois de Pedro, em Marcos (3, 17), ou terceiro lugar, depois de Pedro e André, em Mateus (10, 2), ou depois de Pedro e João nos Atos dos Apóstolos (1, 13).
       Segundo o livro de Atos dos Apóstolos (12, 1-2), Tiago foi morto à espada, juntamente com outros membros da comunidade de Jerusalém, nos inícios dos anos 40, sob o reinado de Herodes Agripa, neto de Herodes o Grande. E os seus restos mortais teriam sido posteriormente levados/trazidos para Santiago de Compostela, segundo uma tradição antiquíssima...
Oração:
       Vós quisestes, Deus omnipotente, que São Tiago fosse o primeiro dos Apóstolos a dar a vida pelo Evangelho: concedei à vossa Igreja a graça de encontrar força no seu testemunho e auxílio na sua protecção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Fonte: Secretariado Nacional da Liturgia.

BENTO XVI sobre São TIAGO MAIOR:
Queridos irmãos e irmãs!
       Prosseguimos a série de retratos dos Apóstolos escolhidos directamente por Jesus durante a sua vida terrena. Falámos de São Pedro e de seu irmão, André. Encontramos hoje a figura de Tiago. Os elencos bíblicos dos Doze mencionam duas pessoas com este nome: Tiago, filho de Zebedeu, e Tiago, filho de Alfeu (cf. Mc 3, 17.18; Mt 10, 2-3), que são comummente distinguidos com os nomes de Tiago, o Maior e Tiago, o Menor. Sem dúvida, estas designações não querem medir a sua santidade, mas apenas distinguir o realce que eles recebem nos escritos do Novo Testamento e, em particular, no quadro da vida terrena de Jesus. Hoje dedicamos a nossa atenção à primeira destas duas personagens homónimas.
       O nome Tiago é a tradução de Iákobos, forma helenizada do nome do célebre patriarca Tiago. O apóstolo assim chamado é irmão de João, e nos elencos acima mencionados ocupa o segundo lugar logo depois de Pedro, como em Marcos (3, 17), ou o terceiro lugar depois de Pedro e André no Evangelho de Mateus (10, 2) e de Lucas (6, 14), enquanto que nos Actos vem depois de Pedro e de João (1, 13). Este Tiago pertence, juntamente com Pedro e João, ao grupo dos três discípulos privilegiados que foram admitidos por Jesus em momentos importantes da sua vida.
       Dado que faz muito calor, gostaria de abreviar e mencionar aqui só duas destas ocasiões. Ele pôde participar, juntamente com Pedro e Tiago, no momento da agonia de Jesus no horto do Getsémani e no acontecimento da Transfiguração de Jesus. Trata-se portanto de situações muito diversas uma da outra: num caso, Tiago com os outros dois Apóstolos experimenta a glória do Senhor, vê-o no diálogo com Moisés e Elias, vê transparecer o esplendor divino de Jesus; no outro encontra-se diante do sofrimento e da humilhação, vê com os próprios olhos como o Filho de Deus se humilha tornando-se obediente até à morte. Certamente a segunda experiência constitui para ele a ocasião de uma maturação na fé, para corrigir a interpretação unilateral, triunfalista da primeira: ele teve que entrever que o Messias, esperado pelo povo judaico como um triunfador, na realidade não era só circundado de honra e de glória, mas também de sofrimentos e fraqueza. A glória de Cristo realiza-se precisamente na Cruz, na participação dos nossos sofrimentos.
       Esta maturação da fé foi realizada pelo Espírito Santo no Pentecostes, de forma que Tiago, quando chegou o momento do testemunho supremo, não se retirou. No início dos anos 40 do século I o rei Herodes Agripa, neto de Herodes o Grande, como nos informa Lucas, "maltratou alguns membros da Igreja. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João" (Act 12, 1-2).
        A notícia tão limitada, privada de qualquer pormenor narrativo, revela, por um lado, quanto era normal para os cristãos testemunhar o Senhor com a própria vida e, por outro, como Tiago ocupava uma posição de relevo na Igreja de Jerusalém, também devido ao papel desempenhado durante a existência terrena de Jesus. Uma tradição sucessiva, que remonta pelo menos a Isidoro de Sevilha, narra de uma sua permanência na Espanha para evangelizar aquela importante região do Império Romano.
       Segundo outra tradição, ao contrário, o seu corpo teria sido transportado para a Espanha, para a cidade de Santiago de Compostela. Como todos sabemos, aquele lugar tornou-se objecto de grande veneração e ainda hoje é meta de numerosas peregrinações, não só da Europa mas de todo o mundo. É assim que se explica a representação iconográfica de São Tiago que tem na mão o cajado do peregrino e o rolo do Evangelho, típicos do apóstolo itinerante e dedicado ao anúncio da "boa nova", características da peregrinação da vida cristã.
        Portanto, de São Tiago podemos aprender muitas coisas: a abertura para aceitar a chamada do Senhor também quando nos pede que deixemos a "barca" das nossas seguranças humanas, o entusiasmo em segui-lo pelos caminhos que Ele nos indica além de qualquer presunção ilusória, a disponibilidade a testemunhá-lo com coragem, se for necessário, até ao sacrifício supremo da vida. Assim, Tiago o Maior, apresenta-se diante de nós como exemplo eloquente de adesão generosa a Cristo. Ele, que inicialmente tinha pedido, através de sua mãe, para se sentar com o irmão ao lado do Mestre no seu Reino, foi precisamente o primeiro a beber o cálice da paixão, a partilhar com os Apóstolos o martírio.
       E no final, resumindo tudo, podemos dizer que o caminho não só exterior mas sobretudo interior, do monte da Transfiguração ao monte da agonia, simboliza toda a peregrinação da vida cristã, entre as perseguições do mundo e os confortos de Deus, como diz o Concílio Vaticano II. Seguindo Jesus como São Tiago, sabemos, também nas dificuldades, que seguimos o caminho justo.

in Audiência Geral de Bento XVI, 21 de junho de 2006.
BENTO XVI, A Santidade não passa de moda, Editorial Franciscana, Braga 2010

sábado, 23 de julho de 2016

XVII Domingo do Tempo Comum - ano C - 24 de julho

       1 – A vocação primeira do cristão é apaixonar-se por Cristo e segui-l'O pelos caminhos por Ele propostos. Ele segue à frente e será curial que sigamos os Seus passos. Outras vezes, segue lado a lado connosco. Adianta-Se para que nos esforcemos por alcancá-l'O. Aponta-nos a meta, a direção e o quanto temos ainda que percorrer, para não afrouxarmos! Quando os nossos passos se tornam vacilantes, inseguros, Jesus volta-Se, espera por nós, vem até nós dar-nos ânimo para retomarmos o caminho. Importa não O perder de vista. Ele nunca nos deixa à deriva, mesmo quando parece que vai a dormir na nossa barca…
       A oração é o combustível que nos dá a vitalidade para enfrentarmos as adversidades, a humildade para nos reconhecermos pecadores, a sabedoria para aceitarmos que é a Sua mão que nos leva à felicidade, a pobreza para nos enriquecermos com a Sua graça e nos deixarmos preencher pelo Seu amor.
       O Evangelho de Lucas mostra-nos Jesus, recolhido, a orar. Orar é deixar que Deus fale em nós, rezar é falarmos a Deus da nossa vida, das nossas dificuldades e anseios. Se usarmos este sentido restrito, então, mais importante que rezar importa orar, deixar que Deus nos reze, que Deus diga em nós. A ligação de Jesus ao Pai é constante. A Sua vida é oração ao Pai, oferta, procurando perscrutar a vontade paterna, traduzindo-a nas palavras, nos gestos, no encontro com as pessoas. Porém, Jesus reserva momentos específicos para orar/rezar. Sem mais. Sem outro afazeres.
       Os discípulos percebem a importância da oração na vida de Jesus e deixam-se contagiar por esta postura, pedindo-Lhe que lhes ensine a rezar. O estilo de oração de Jesus leva à imitação. Jesus deixa claro que não são precisas muitas palavras, é imprescindível sintonizar o coração – pensamentos, intenções, propósitos – e a vida – serviço aos outros, luta pela justiça e pela paz, compromisso com os mais frágeis, caridade – com o coração e a vida de Deus.
       2 – A oração torna-nos íntimos de Deus e cúmplices uns dos outros. Rezai assim: «Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação».
       Percebe-se na oração do Pai-nosso, a prioridade de "orar" e não apenas "rezar". Explico: o fundamental é que a vontade do Pai se realize em nós e em todo o mundo, em todo o tempo. Começamos por reconhecer que Deus é Pai, Pai de todos, nosso Pai. E se todos o temos por Pai, todos procuramos ser-Lhe fiéis, fazendo por concretizar, aqui e agora, a Sua vontade: que todos se salvem!
       Se reconhecemos Deus como Pai e queremos que a Sua vontade se realize em mim, em ti, em nós, tornar-nos-emos mensageiros da alegria e da paz, fazedores de pontes, partidários do diálogo e da reconciliação, da partilha solidária e do perdão, do amor e da humildade, assumindo as próprias fragilidades para aceitar as dos outros. Se rezamos ao Pai, assumimo-nos como filhos, comprometidos uns com os outros, com todos os irmãos. Encaixa aqui o pedido do Pão nosso de cada dia. Se o pedimos ao nosso Pai, não o pedimos só para nós, teremos que o pedir para todos os Seus filhos, para os nossos irmãos.
       Jesus faz-Se Pão e Vida para nós. Por todos. Para todos. Jesus é partilhável. Melhor, se tento açambarcá-l'O, perco-O e traio a Sua mensagem de amor. Como Seus discípulos, como seguidores Seus, também nós teremos de nos fazermos pão e vida uns para os outros e cuidar que a ninguém falte o necessário para viver com dignidade e em segurança.
       3 – Deus não nos deixará sem resposta. A oração ajuda-nos a descobrir o que pedimos a Deus, isto é, que a Sua vontade Se realize no mundo (também) através de nós. A oração dilata o nosso coração e sintoniza-nos com Deus. Coloca-nos em atitude de escuta. A oração é um diálogo com Deus. Falamos a Deus e Deus fala-nos. Deus conhece-nos intimamente. Melhor que nós mesmos. Sabe do que precisamos. Não precisamos de dizer muito. Precisamos de nos dizer. Precisamos de perceber a vontade de Deus, escutando-O, estando atentos ao que nos quer dizer.
       Haverá ocasiões em que sobrevirá a dúvida e a incerteza sobre qual a vontade de Deus para nós e como realizarmos o que nos pede. Desde logo, a certeza que Deus é Pai. A Sua vontade e desejos descem aos nossos desejos e à nossa vontade em sermos felizes. Deus não atenta contra nós. Não nos exige sacrifícios que nos anulem e nos desumanizem, exige-nos, isso sim, dedicação, esforço, e, como Pai, que nos tratemos como irmãos cuidando sobretudo dos mais pequeninos. Nessa ocasião estaremos a cuidar de Jesus Cristo. “Sempre que fizeste isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizeste” (Mt 25, 40).
       O exemplo usado por Jesus convida-nos a resistir na oração, confiando em Deus. Se um amigo nos atende pela amizade ou pelo incómodo, quanto mais Deus que é nosso Pai. «Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á».
       Deus responder-nos-á como Pai. Podemos não gostar da resposta. Como por vezes não compreendemos as negas e os reparos dos nossos pais. Mas como Pai também Deus tudo fará para nos abençoar, nos proteger e nos guiar à verdadeira felicidade que a todos integra numa só família.
       4 – É expressiva a oração de intercessão de Abraão a favor do povo de Sodoma e Gomorra. Em primeiro lugar, vê-se com clareza como Abraão confia em Deus e na Sua misericórdia. Pede. Sugere. Negoceia. Não para si, mas para os outros. Em segundo lugar, a oração irmana-nos e leva-nos a querer o bem de todos.
       Abraão não cessa de interceder, apelando à compreensão e à benevolência de Deus. E se houver 50 justos na cidade? E se houver 40? «Se o meu Senhor não levar a mal, falarei mais uma vez: talvez haja lá trinta justos... vinte justos... talvez lá não se encontrem senão dez». A resposta de Deus é elucidativa: «Em atenção a esses dez, não destruirei a cidade». No final nem 5 justos! Uma cidade onde impere a injustiça, o egoísmo, a corrupção e a prepotência desembocará inevitavelmente em desgraça e destruição!
       A justiça de Deus é a Sua misericórdia. Deus adia o "castigo" até ao limite, melhor, prorroga todos os prazos para que sejamos salvos pelo Seu amor. A misericórdia de Deus "falha" quando o nosso pecado não Lhe abre qualquer brecha. Só nós podemos, com a liberdade com que Ele nos criou, impedir que a Sua misericórdia nos redima do pecado e da morte.

       5 – A Cruz de Cristo, reafirma São Paulo, cancela a dívida contraída pelo nosso pecado. No batismo configuramo-nos com a morte de Jesus. Com Ele sepultados, no pecado e na morte, para n'Ele e com Ele nos tornarmos novas criaturas, ressuscitando.
       Esta é uma página belíssima do Apóstolo: o documento da nossa dívida foi anulado ao ser cravado na cruz. Em Cristo, Deus perdoa-nos todas as faltas e faz-nos regressar à vida.

       6 – Peçamos a Deus o dom da sabedoria, para que em nós se multiplique a Sua misericórdia e, conduzidos por Ele, “usemos de tal modo os bens temporais que possamos aderir desde já aos bens eternos”. Complete Deus, na Sua bondade, a obra que em nós iniciou.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Gen 18, 20-32; Sl 137 (138); Col 2, 12-14; Lc 11, 1-13.

BENTO XVI > Santa Brígida da Suécia

Estimados irmãos e irmãs!
       Na férvida vigília do Grande Jubileu do Ano 2000, o Venerável Servo de Deus João Paulo II proclamou Santa Brígida da Suécia co-Padroeira de toda a Europa. Hoje de manhã, gostaria de apresentar a sua figura, a sua mensagem e os motivos pelos quais esta santa mulher tem muito a ensinar — ainda hoje — à Igreja e ao mundo.
       Conhecemos bem os acontecimentos da vida de Santa Brígida, porque os seus padres espirituais redigiram a sua biografia para promover o seu processo de canonização imediatamente depois da sua morte, ocorrida em 1373. Brígida nasceu setenta anos antes, em 1303, em Finster, na Suécia, uma nação do norte da Europa que, havia três séculos, tinha acolhido a fé cristã com o mesmo entusiasmo com que a Santa a recebera dos seus pais, pessoas muito piedosas, pertencentes a nobres famílias próximas da Casa reinante.

Podemos distinguir dois períodos na vida desta Santa.
       O primeiro é caracterizado pela sua condição de mulher felizmente casada. O marido chamava-se Ulf e era governador de um importante distrito do Reino da Suécia. O matrimónio durou vinte e oito anos, até à morte de Ulf. Nasceram oito filhos, dos quais a segunda Karin (Catarina), é venerada como Santa. Isto é um sinal eloquente do compromisso educativo de Brígida em relação aos seus próprios filhos. De resto, a sua sabedoria pedagógica foi apreciada a tal ponto, que o rei da Suécia, Magnus, a chamou à corte por um certo período, com a finalidade de introduzir a sua jovem esposa, Bianca de Namur, na cultura sueca.
       Brígida, espiritualmente guiada por um douto religioso que a iniciou no estudo das Escrituras, exerceu uma influência muito positiva sobre a própria família que, graças à sua presença, se tornou uma verdadeira «igreja doméstica». Juntamente com o marido, adoptou a Regra dos Terciários franciscanos. Praticava com generosidade obras de caridade em prol dos indigentes; fundou também um hospital. Ao lado da sua esposa, Ulf aprendeu a melhorar a sua índole e a progredir na vida cristã. Quando regressou de uma longa peregrinação a Santiago de Compostela, realizada em 1341 juntamente com outros membros da família, os cônjuges amadureceram o projecto de viver em continência; mas pouco tempo mais tarde, na paz de um mosteiro onde se tinha retirado, Ulf concluiu a sua vida terrena.
       Este primeiro período da vida de Brígida ajuda-nos a apreciar aquela que hoje poderíamos definir uma autêntica «espiritualidade conjugal»: juntos, os cônjuges cristãos podem percorrer um caminho de santidade, sustentados pela graça do Sacramento do Matrimónio. Não poucas vezes, precisamente como aconteceu na vida de Santa Brígida e de Ulf, é a mulher que, com a sua sensibilidade religiosa, com a delicadeza e a docilidade consegue levar o marido a percorrer um caminho de fé. Penso com reconhecimento em muitas mulheres que, dia após dia, ainda hoje iluminam as próprias famílias com o seu testemunho de vida cristã. Possa o Espírito do Senhor suscitar também nos dias de hoje a santidade dos cônjuges cristãos, para mostrar ao mundo a beleza do matrimónio vivido segundo os valores do Evangelho: o amor, a ternura, a ajuda recíproca, a fecundidade na geração e na educação dos filhos, a abertura e a solidariedade para com o mundo e a participação na vida da Igreja.
       Quando Brígida ficou viúva, teve início o segundo período da sua vida. Renunciou a outras bodas para aprofundar a união com o Senhor através da oração, da penitência e das obras de caridade. Portanto, também as viúvas cristãs podem encontrar nesta Santa um modelo a seguir. Com efeito, após a morte do marido, Brígida distribuiu os seus próprios bens aos pobres e, mesmo sem jamais aceder à consagração religiosa, estabeleceu-se no mosteiro cisterciense de Alvastra. Ali tiveram início as revelações divinas, que a acompanharam durante o resto da sua vida. Elas foram ditadas por Brígida aos seus secretários-confessores, que as traduziram do sueco para o latim e as reuniram numa edição de oito livros, intitulados Revelationes (Revelações). A estes livros acrescenta-se um suplemento, que tem como título precisamente Revelationes extravagantes (Revelações suplementares).
       As Revelações de Santa Brígida apresentam um conteúdo e um estilo muito diversificados. Às vezes a revelação apresenta-se sob a forma de diálogos entre as Pessoas divinas, a Virgem, os Santos e até os demónios; diálogos em que também Brígida intervém. Outras vezes, ao contrário, trata-se da narração de uma visão particular; e noutras ainda narra-se aquilo que a Virgem Maria lhe revela acerca da vida e dos mistérios do Filho. O valor das Revelações de Santa Brígida, por vezes objecto de algumas dúvidas, foi especificado pelo Venerável João Paulo II, na Carta Spes aedificandi: «A Igreja, ao reconhecer a santidade de Brígida, mesmo sem se pronunciar sobre cada uma das revelações, acolheu a autenticidade do conjunto da sua experiência interior» (n. 5).
       Com efeito, lendo estas Revelações somos interpelados sobre muitos temas importantes. Por exemplo, volta-se a descrever frequentemente, com pormenores bastante realistas, a Paixão de Cristo, pela qual Brígida teve sempre uma devoção privilegiada, contemplando nela o amor infinito de Deus pelos homens. Nos lábios do Senhor que lhe fala, ela põe com audácia estas palavras comovedoras: «Ó, meus amigos, Eu amo tão ternamente as minhas ovelhas que, se fosse possível, gostaria de morrer muitas outras vezes, por cada uma delas, daquela mesma morte que padeci pela redenção de todas elas» (Revelationes, Livro I, C. 59). Também a dolorosa maternidade de Maria, que a tornou Mediadora e Mãe de misericórdia, é um argumento que aparece com frequência nas Revelações.
       Ao receber estes carismas, Brígida estava consciente de ser destinatária de um dom de grande predilecção da parte do Senhor: «Minha filha — lemos no primeiro Livro das Revelações — Eu escolhi-te para mim; ama-me com todo o seu coração... mais do que tudo quanto existe no mundo» (c. 1). De resto, Brígida sabia bem, e disto estava firmemente convencida, que cada carisma está destinado a edificar a Igreja. Precisamente por este motivo, não poucas das suas revelações eram dirigidas, em forma de admoestações até severas, aos fiéis do seu tempo, também às Autoridades religiosas e políticas, a fim de que vivessem coerentemente a sua vida cristã; mas fazia isto sempre com uma atitude de respeito e de fidelidade integral ao Magistério da Igreja, de modo particular ao Sucessor do Apóstolo Pedro.
       Em 1349, Brígida deixou para sempre a Suécia e veio em peregrinação a Roma. Não só tencionava participar no Jubileu de 1350, mas também desejava obter do Papa a aprovação da Regra de uma Ordem religiosa que ela queria fundar, intitulada ao Santo Salvador, e composta por monges e monjas sob a autoridade da abadessa. Trata-se de um elemento que não nos deve surpreender: na Idade Média existiam fundações monásticas com um ramo masculino e outro feminino, mas com a prática da mesma regra monástica, que previa a direcção de uma abadessa. Com efeito, na grande tradição cristã, à mulher são reconhecidos a própria dignidade e — sempre a exemplo de Maria, Rainha dos Apóstolos — o próprio lugar na Igreja que, sem coincidir com o sacerdócio ordenado, é igualmente importante para o crescimento espiritual da Comunidade. Além disso, a colaboração de consagrados e de consagradas, sempre no respeito pela sua vocação específica, tem uma grande importância no mundo contemporâneo.
       Em Roma, acompanhada pela filha Karin, Brígida dedicou-se a uma vida de intenso apostolado e de oração. E de Roma partiu em peregrinação a vários santuários italianos, em particular a Assis, pátria de São Francisco, por quem Brígida nutriu sempre uma grande devoção. Finalmente, em 1371, coroou a sua maior aspiração: a viagem à Terra Santa, aonde foi em companhia dos seus filhos espirituais, um grupo ao qual Brígida chamava «os amigos de Deus».
       Durante aqueles anos, os Pontífices encontravam-se em Avinhão, longe de Roma: Brígida dirigiu-se sentidamente a eles, a fim de que voltassem para a Sé de Pedro, na Cidade Eterna.
       Faleceu em 1373, antes que o Papa Gregório XI tivesse voltado definitivamente para Roma. Foi sepultada provisoriamente na igreja romana de São Lourenço «in Panisperna», mas em 1374 os seus filhos Birger e Karin trasladaram-na para a pátria, no mosteiro de Vadstena, sede da Ordem religiosa fundada por Santa Brígida, que conheceu imediatamente uma expansão notável. Em 1391 o Papa Bonifácio IX canonizou-a solenemente.
       A santidade de Brígida, caracterizada pela multiplicidade dos dons e das experiências que eu quis recordar neste breve perfil biográfico-espiritual, faz dela uma figura eminente na história da Europa. Proveniente da Escandinávia, Santa Brígida testemunha como o cristianismo permeou profundamente a vida de todos os povos deste Continente. Declarando-a co-Padroeira da Europa, o Papa João Paulo II fez votos por que Santa Brígida – que viveu no século XIV, quando a cristandade ocidental ainda não estava ferida pela divisão — possa interceder junto de Deus, para obter a graça tão almejada da plena unidade de todos os cristãos. Por esta mesma intenção, que é por nós muito desejada, e para que a Europa saiba alimentar-se sempre a partir das suas raízes cristãs, queremos rezar, caros irmãos e irmãs, invocando a poderosa intercessão de Santa Brígida da Suécia, discípula fiel de Deus e co-Padroeira da Europa. Obrigado pela atenção!

Santa Brígida, Padroeira da Europa

Nota biográfica:
       Nasceu na Suécia em 1303; casou muito jovem e teve oito filhos que educou com esmero exemplar. Ingressou na Ordem Terceira de S. Francisco e, depois da morte do marido, entregou-se a uma vida de maior ascetismo, embora sem deixar de viver no mundo. Fundou então uma Ordem religiosa e, partindo para Roma, foi para todos exemplo de grande virtude. Empreendeu peregrinações de penitência e escreveu muitas obras em que narra as suas experiências místicas. Morreu em Roma no ano 1373.
Oração (de colecta):
       Senhor, nosso Deus, que dirigistes Santa Brígida pelos diversos caminhos da vida e admiravelmente lhe ensinastes a sabedoria da cruz na contemplação da paixão do vosso Filho, fazei que, seguindo dignamente os caminhos do vosso chamamento, procuremos em todas as coisas a vossa presença. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Das orações atribuídas a Santa Brígida

Elevação da alma a Cristo Salvador

Bendito sejais, meu Senhor Jesus Cristo, que predissestes a vossa morte e na última ceia consagrastes maravilhosamente o pão material, transformando-o no vosso Corpo glorioso, e por amor O destes aos Apóstolos como memorial da vossa digníssima paixão, e lhes lavastes os pés com vossas santas e preciosas mãos, manifestando assim a imensa grandeza da vossa humildade.
Honra Vos seja dada, meu Senhor Jesus Cristo, que suastes sangue do vosso corpo inocente ante o temor da paixão e da morte, prosseguindo no entanto o desígnio de consumar a nossa redenção, mostrando assim claramente o vosso amor para com o género humano.
Bendito sejais, meu Senhor Jesus Cristo, que fostes levado à presença de Caifás e, sendo Vós o juiz de todos, humildemente permitistes que Vos entregassem ao julgamento de Pilatos.
Glória Vos seja dada, meu Senhor Jesus Cristo, pelo escárnio que sofrestes ao serdes revestido dum manto de púrpura e coroado de agudos espinhos, e por terdes suportado, com infinita paciência, que cuspissem no vosso rosto glorioso, velassem os vossos olhos e Vos batessem brutalmente na face e no pescoço, com mãos sacrílegas e desumanas.
Louvor Vos seja dado, meu Senhor Jesus Cristo, que permitistes com grande paciência ser atado à coluna, ser cruelmente flagelado e conduzido ao tribunal de Pilatos coberto de sangue, aparecendo à vista de todos como inocente cordeiro levado ao matadouro.
Honra Vos seja dada, meu Senhor Jesus Cristo, que, tendo o vosso glorioso corpo ensanguentado, fostes condenado à morte de cruz, transportastes dolorosamente aos vossos sagrados ombros o duro madeiro e, conduzido com fúria ao lugar do suplício e despojado das vossas vestes, assim desejastes ser cravado no lenho da cruz.
Honra Vos seja dada para sempre, Senhor Jesus Cristo, que no meio de tais angústias olhastes com grande bondade e amor para a vossa Mãe digníssima, que nunca pecou nem consentiu na menor falta; e, a fim de a consolar, a confiastes à protecção do vosso fiel discípulo.
Bendito sejais eternamente, meu Senhor Jesus Cristo, que na vossa mortal agonia destes a todos os pecadores a esperança do perdão, ao prometer misericordiosamente a glória do paraíso ao ladrão arrependido.
Louvor eterno Vos seja dado, meu Senhor Jesus Cristo, por todos os momentos em que por nós pecadores suportastes na cruz as maiores amarguras e angústias; porque as dores agudíssimas das vossas chagas penetravam ferozmente na vossa alma bem-aventurada e trespassavam cruelmente o vosso peito sacratíssimo e, com um estremecimento do coração, exalastes suavemente o espírito; e inclinando a cabeça, entregastes humildemente o espírito nas mãos de Deus Pai, enquanto o vosso corpo cedia à rigidez da morte.
Bendito sejais, meu Senhor Jesus Cristo, que com vosso precioso sangue e a vossa morte sacratíssima remistes as almas e as reconduzistes misericordiosamente deste exílio para a vida eterna.
Bendito sejais, meu Senhor Jesus Cristo, que, para nossa salvação, permitistes que o vosso lado e o vosso coração fossem trespassados pela lança e fizestes brotar abundantemente do vosso peito sangue e água para nossa redenção.
Glória Vos seja dada, meu Senhor Jesus Cristo, porque quisestes que o vosso bendito corpo fosse descido da cruz pelos vossos amigos e reclinado nos braços da vossa Mãe dolorosíssima, e que ela o envolvesse em panos; que fosse depositado no sepulcro e guardado pelos soldados.
Honra sempiterna Vos seja dada, meu Senhor Jesus Cristo, que ao terceiro dia ressuscitastes dos mortos e Vos manifestastes vivo àqueles que escolhestes e, quarenta dias depois, à vista de muita gente, subistes ao Céu e aí colocastes com toda a honra os vossos amigos que havíeis libertado do limbo.
Louvor e glória eterna a Vós, Senhor Jesus Cristo, que enviastes o Espírito Santo aos corações dos discípulos e comunicastes às suas almas o imenso amor divino.
Bendito, louvado e glorificado sejais pelos séculos, meu Senhor Jesus, que estais sentado sobre o trono do vosso reino dos Céus, na glória da vossa divindade, onde viveis corporalmente com todos os vossos santíssimos membros que assumistes da carne da Virgem. E assim haveis de vir no dia de juízo para julgar as almas de todos os vivos e os mortos: Vós que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amen.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Santa Maria Madalena

Nota Biográfica:
       É mencionada entre os discípulos de Cristo, assistiu à sua morte e mereceu ser a primeira a ver o Redentor ressuscitado de entre os mortos na madrugada do dia de Páscoa (Mc 16, 9). O seu culto difundiu-se na Igreja ocidental, sobretudo a partir do século XII.
Oração (coleta):
       Senhor, que, na vossa infinita bondade, quisestes que Maria Madalena fosse a primeira a receber do vosso Filho a missão de anunciar a alegria pascal, concedei-nos, por sua intercessão, que, seguindo o seu exemplo, anunciemos a Cristo ressuscitado e O contemplemos no reino da glória. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

       Maria Madalena, aquela de quem Jesus retirou sete espíritos, e que O acompanhou durante a vida pública, servindo-O juntamente com outras mulheres, predispondo dos bens que possuíam e do facto de pertencerem a um grupo mais favorecido, livre, com posses (cf. Lc 8, 1-3).
       Durante muitos anos, Maria Madalena foi confundida ora com a mulher adúltera, ora com uma mulher de vida fácil, passe a expressão. Contudo a Igreja tem vindo a corrigir o erro. Não é que não pudesse ser um ou ser outra, e estar entre as primeiras e principais testemunhas do Evangelho. Mas destas não se conhece a identidade, e daquela sabe-se quem é (Maria) e de onde é: Magdala (= magdalena = madalena).
       Crê-se, que os sete espíritos deveria ser uma grave doença e a partir da cura ela não mais deixou de servir Jesus e os seus discípulos, com os seus bens, e com os seus préstimos, como reconhecimento e gratidão pela cura.
       A passagem de São João (8, 1-11), da mulher que é levada à Sua presença para que Ele emita um juízo. "Tu que dizes?" Deve cumprir-se o que está prescrito na Lei de Moisés? A resposta de Jesus é inequívoca: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» E logo para esta mulher: «Ninguém te condenou? Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.»
       Em nenhum momento se fala na identidade desta mulher. Mais tarde a Igreja, e alguns Padres da Igreja, fazem uma leitura abusiva dizendo que se tratava de Maria Madalena.
       Outra passagem que é confundida relacionando-a com Maria Madalena, é a unção de Betânia (Jo 12, 1-11). A mulher que unge os pés de Jesus, com um perfume de alto preço é MARIA, IRMÃ DE LÁZARO e não Maria Madalena, e não é confundível com nenhuma prostituta. O que acontece, com efeito, nos outros evangelistas: Mateus (26, 6-13) e Marcos (14, 3-9) referem a unção de Betânia, dizendo que uma mulher se aproximou d'Ele e lhe perfumou os pés. Não dizem o nome da mulher, ainda que alguns concluam que se poderia tratar de Maria, irmão de Lázaro, por ser aí que a família morava. Ajuda outra passagem, em (Lc 10, 38-42), em que Maria está aos pés de Jesus a escutá-l'O. É uma cena semelhante à da mulher que se senta por detrás de Jesus para lhe perfumar os pés. O evangelho de São Lucas (7, 36-50) é mais extenso na narração desta passagem. Em casa do fariseu Simão, uma mulher, conhecida da cidade como pecadora, banha os pés de Jesus com as lágrimas, limpa-lhos com os cabelos e perfuma-lhos. Em todas as narrações há uma grande proximidade de dados, pelo que facilmente se concluiria que se trata de Maria, irmã de Lázaro e de Marta. Pecadora, conhecida por toda a cidade, só Lucas o refere e sem especificar o nome. MARIA MADALENA não se confunde nem com Maria de Betânia, irmã de Lázaro, nem com a Mulher pecadora que Lucas refere, nem muito menos com a Mulher surpreendida em adultério e levada à presença de Jesus. TODAS ELAS, a três ou quatro mulheres merecem o maior carinho da parte de Jesus. Das que são assinaladas como "pecadoras" não se refere o nome para as salvaguardar, pois ao tempo dos evangelhos ainda havia pessoas que reconheceriam as suas famílias.
       SEM DÚVIDA, Maria Madalena é a primeira testemunha da ressurreição de Jesus.
São Gregório Magno, papa, sobre os Evangelhos

A minha alma tem sede do Deus vivo

Maria Madalena, quando chegou ao sepulcro e não encontrou lá o corpo do Senhor, julgou que alguém O tinha levado e foi avisar os discípulos. Estes vieram também ao sepulcro, viram e acreditaram no que essa mulher lhes dissera. Destes está escrito logo a seguir: E regressaram os discípulos para sua casa. E depois acrescenta-se: Maria, porém, estava cá fora, junto do sepulcro, a chorar.
Estes factos levam-nos a considerar a grandeza do amor que inflamava a alma desta mulher, que não se afastava do sepulcro do Senhor, mesmo depois de se terem afastado os discípulos. Procurava a quem não encontrava, chorava enquanto buscava e, abrasada no fogo do amor, sentia a ardente saudade d’Aquele que pensava ter-lhe sido roubado. Por isso, só ela O viu então, porque só ela ficou a procurá-l’O. Na verdade, a eficácia das boas obras está na perseverança, como afirma também a voz da Verdade: Quem perseverar até ao fim será salvo.
Começou a buscar e não encontrou; continuou a procurar e finalmente encontrou. Os desejos foram aumentando com a espera e fizeram que chegasse a encontrar. Porque os desejos santos crescem com a demora; mas os que esfriam com a dilação não são desejos autênticos. Todas as pessoas que chegaram à verdade, conseguiram-no porque lhe dedicaram um amor ardente. Por isso afirmou David: A minha alma tem sede do Deus vivo; quando irei contemplar a face de Deus? Por isso também diz a Igreja no Cântico dos Cânticos: Estou ferida pelo amor. E ainda: A minha alma desfalece.
Mulher, porque choras? Quem procuras? É interrogada sobre a causa da sua dor, para que aumente o seu desejo e, ao mencionar ela o nome de quem procurava, mais se inflame no amor que Lhe tem.
Disse-lhe Jesus: Maria! Depois de a ter tratado pelo nome comum de «mulher», sem que ela O tenha reconhecido, chamou-a pelo nome próprio. Foi como se lhe dissesse abertamente: «Reconhece Aquele que te conhece a ti. Não é de modo genérico que te conheço, mas pessoalmente». Por isso Maria, ao ser chamada pelo seu nome, reconhece quem lhe falou; e imediatamente lhe chama «Rabbúni», isto é, «Mestre». Era Ele a quem procurava externamente e era Ele quem a ensinava interiormente a procurá-l’O.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Paróquia de Tabuaço: Sacramento do Crisma - 2016

       No dia 16 de julho de 2016, pelas 16h00, a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço esteve em festa: treze jovens receberam o Espírito Santo sob o sinal da imposição das mãos e da unção do óleo do crisma por Sua Excelência Reverendíssima o senhor Bispo de Lamego, D. António Couto.
       Nesta celebração estiveram presentes, para além do Sr. Bispo e do Sr. Padre Manuel, o Sr. Padre João Carlos, o Sr. Padre Ildo, o Sr. Padre Jorge Giroto e o Sr. Padre Duarte Lara, o que demonstra de forma visível a unidade da Igreja.


       O grupo de crismandas contou com 9 jovens de Tabuaço, acolhendo também três jovens da Paróquia de Arcos e uma da Paróquia de Valença do Douro. A preparação imediata, com pregação na Eucaristia, contou com a prestimosa participação dos reverendos Pe. Diamantino Alvaíde e Pe. Jorge Giroto.
       Foi uma festa muito bonita, com a Igreja Matriz de Tabuaço igualmente bonita e engalanada.
       Porém, a caminhada foi longa e exigiu de todos uma entrega e dedicação que decorreu ao longo de dez anos de catequese. Foram dez anos de crescimento mútuo… juntas aprendemos, rimos, chorámos, crescemos como cristãos conscientes e comprometidos, mas também estabelecemos laços de amizade que, tenho a certeza, irão perdurar por muito tempo.
       A preparação para o Sacramento do Crisma constitui, nos dias de hoje, um enorme desafio para todos nós! Para conseguirmos ultrapassá-lo, neste último ano de catequese, utilizámos o Youcat, cujo objetivo é precisamente o de cativar os jovens para um contacto permanente e interativo com a Fé, dando a conhecer os “mistérios” e a força renovadora do Crisma através de uma linguagem jovem, criativa e cativante.
        Foi maravilhoso e gratificante ver as treze jovens renovarem as promessas que outrora foram feitas pelos seus pais e padrinhos no dia do seu batismo, sempre com um sorriso no rosto e um brilho especial no olhar, que espelhava a imensa felicidade que inundava os seus corações.
       Pais, padrinhos e restante comunidade paroquial tiveram, assim, a oportunidade de partilhar deste ato tão significativo da vida destas jovens.
       Peço a Deus para que estas jovens, impulsionadas pelo Espírito Santo, saibam ser verdadeiras testemunhas de Cristo no mundo.

Clara Castro, in Voz de Lamego, ano 86/36, n.º 4372, 19 de julho de 2016

Algumas das fotos disponíveis:
 (Encontro de D. António Couto com as Crismandas - 13 de julho de 2016
(Crismandas da Paróquia de Tabuaço)

As 13 crismandas: primeira fila, da esquerda para a direita - Ana Balsa, Ana Patrícia, Véronique Lamego, Ana Letícia, Inês Ramos,Bárbara Longa, Luana Cardoso, Ana Almeida, Cátia Sofia, Eliana Santos, Cristina Amaral. Em segunda fila - Rosa Mendonça e Sofia Barradas

Para ver as FOTOS que disponibilizámos
visite a Paróquia de Tabuaço no Facebook

Muitos profetas desejaram ver o que vós vedes!

       Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Porque lhes falas em parábolas?». Jesus respondeu: «Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus, mas a eles não. Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. É por isso que lhes falo em parábolas, porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender. Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz: ‘Ouvindo ouvireis, mas sem compreender; olhando olhareis, mas sem ver. Porque o coração deste povo tornou-se duro: endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para não acontecer que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos e compreendendo com o coração, se convertam e Eu os cure’. Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem! Em verdade vos digo: muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes e não viram e ouvir o que vós ouvis e não ouviram» (Mt 13, 10-17).
        Jesus fala às multidões em parábolas. Em casa explica aos seus discípulos o significado de algumas parábolas. Eles próprios pedem para que lhes sejam explicadas. Aparentemente, o objectivo de Jesus seria que as multidões não percebessem a mensagem. No conjunto ter-se-á que concluir que não é, nem podia ser, essa a finalidade. No entanto, Jesus salienta a dureza dos corações com empecilho para perceber e acolher a Palavra de Deus.
       No contexto específico, a preocupação de Jesus em relação aos discípulos é que estes acolham e entendem bem o que lhes quer dizer para que logo se tornem anunciadores da Palavra de Deus e possam (não apenas anunciá-la) torná-la perceptível para todas as multidões.
       Diga-se também, perante a simplicidade das palavras de Jesus, em que as parábolas ainda tornam mais acessível, a dificuldade em perceber a Palavra de Deus não advém da falta de conhecimentos mas da dureza do coração, da falta de humildade.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Saiu o Semeador a semear...

       Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar. Reuniu-se à sua volta tão grande multidão que teve de subir para um barco e sentar-Se, enquanto a multidão ficava na margem. Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
       «Saiu o semeador a semear. Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo nasceram porque a terra era pouco profunda; mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não terem raiz. Outras caíram entre espinhos e os espinhos cresceram e afogaram-nas. Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um» (Mt 13, 1-9).
        Fácil de entender a parábola. Mais fácil se torna com a explicação de Jesus.
       Tradicionalmente, os diferentes terrenos seriam diferentes pessoas. Mas não é descabido pensar que cada um de nós, em diferentes épocas da sua vida, passa por diversas fases, umas vezes é terreno fértil, outras, pedregoso, outras vezes, terra com muitos espinhos.
       Por vezes as circunstâncias da vida deixam-nos sem paciência para escutar. Fechamo-nos. Não queremos ouvir. Não queremos que nos macem. Isolámo-nos
       Outras vezes, escutámos a Palavra de Deus e a voz da nossa consciência que nos atrai para Deus, mas temos muitas urgências: decidir, fazer, comprar, sair, divertir, encontros e mais encontros, festas, compromissos inadiáveis, muito trabalho... e não temos tempo nem para nós, nem para os outros, nem para a família, nem para viver com alegria e generosidade.
       Por vezes até gostaríamos de fazer diferente, comprometermo-nos mais, mas falta a coragem. Outras vezes, deixamos que outros façam. Outras vezes, vamos com a corrente...
       Mas também sabemos ser, e também somos, em muitas situações, terreno fértil, onde a Palavra de Deus germina e dá fruto em abundância.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?

        Enquanto Jesus estava a falar à multidão, chegaram sua Mãe e seus irmãos. Ficaram do lado de fora e queriam falar-Lhe. Alguém Lhe disse: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar contigo». Mas Jesus respondeu a quem O avisou: «Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?». E apontando para os discípulos, disse: «Estes são a minha mãe e os meus irmãos: todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Mt 12, 46-50).
       Este é um dos encontros bem conhecidos de Jesus com a Sua Mãe e com parentes próximos. De terra em terra, anunciando o reino dos Céus, curando os enfermos, expulsando espírito impuros, deixando uma mensagem de salvação, Jesus confronta-se com a oposição daqueles que instalados no poder não querem perder qualquer regalias, confronta-se com uma visão tradicional de Deus, contrapondo um Deus próximo, Pai, libertador.
       Esta aparição de Sua mãe e seus familiares dever-se-á a alguns rumores que diziam que Jesus estaria fora de Si, descontrolado, louco. Certamente que Nossa Senhora e os seus familiares estariam habitualmente perto de Jesus, mas ao mesmo tempo tinham as lides caseiras para realizar. Aqui foi em sobressalto que Maria terá ido até Jesus.
       A resposta de Jesus é contundente: minha Mãe e meus irmãos são todos aqueles que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. Faz lembrar outro episódio em que uma mulher diz alto e bom som para Jesus: feliz aquela que Te trouxe no seu ventre e os peitos que Te amamentaram. A resposta é semelhante: felizes antes aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.
       À primeira vista parece que Jesus renega a Sua Mãe. Mas num olhar mais atento vê-se como Maria integra esta outra família primordial, a família daqueles que acolhem a vontade de Deus e a concretizam no dia a dia.
       Por outro lado, acentua-se uma prioridade e uma realidade: todos podemos ser família de Jesus, desde e quando fazemos a vontade de Deus.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Beato Bartolomeu dos Mártires

Nota biográfica:
       Bartolomeu nasceu em Lisboa, na paróquia dos Mártires, em Maio de 1514. Recebeu o hábito dominicano a 11 de Novembro de 1528 e professou um ano depois. Tendo concluído os estudos em 1538, leccionou Filosofia e Teologia em diversos conventos da Ordem. Foi nomeado por Pio IV, a 27 de Janeiro de 1559, Arcebispo de Braga, vindo a exercer com incansável diligência e eficácia uma intensa actividade apostólica.
       Efectuou, de modo sistemático e muito eficiente, visitas pastorais às paróquias da Arquidiocese, mesmo às mais distantes e inóspitas. Fomentou a Evangelização do povo, para o qual preparou um catecismo ou doutrina cristã e práticas espirituais. Preocupou-se com a santidade e cultura do clero e redigiu muitas e valiosas obras doutrinárias, entre as quais se salientam o notável tratado «Estímulo dos Pastores» e o «Compêndio de Doutrina Espiritual».
       Participou no período final do Concílio de Trento (1561-1563), merecendo o elogio do Papa e o aplauso dos seus pares, que o chamaram Luminar do Concílio. Em vista da execução das reformas tridentinas, efectuou um Sínodo Diocesano (1564) e um Concílio Provincial dois anos mais tarde (1566), e promoveu a fundação do Seminário, dito “conciliar” (1572), para conveniente formação dos sacerdotes.
       Aceite pelo Papa a sua renúncia do Arcebispado, recolheu em 1582 ao convento de Santa Cruz de Viana, construído por sua iniciativa, onde prosseguiu a vida austera de simples religioso, todo voltado para a oração, caridade e estudo. Aí faleceu em 16 de Julho de 1590.
Oração de Colecta:
       Senhor, que dotastes de grande caridade apostólica o bem-aventurado Bartolomeu dos Mártires, protegei sempre a vossa Igreja de modo que, assim como ele foi glorioso na sua solicitude pastoral, também nós sejamos, pela sua intercessão, sempre fervorosos no vosso amor. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

B. Bartolomeu dos Mártires, bispo

Exposição anagógica da Oração Dominical

Pai. Por natureza e graça, nos comunicastes o ser, os sentidos e os movimentos naturais, bem como a essência da graça, isto é, o seu movimento, que nos faz viver.
Nosso. Porque, com a concessão liberal da vossa bondade, gerais em cada dia muitos filhos segundo o ser espiritual da graça e do amor.
Que estais nos céus. Quer dizer, que habitais admiravelmente naqueles que são chamados a viver no Céu, isto é, que estão firmes no vosso amor, sempre movidos pela assiduidade dos desejos sublimes, como se estivessem ornados de estrelas, o mesmo é dizer, de virtudes.
Santificado seja o vosso nome. Realize-se em mim, sem nada de terreno, o vosso nome, com a purificação de todos os afectos mundanos.
Venha a nós o vosso reino. Reina inteiramente e sempre em mim, não só para que não haja nenhum movimento ou acto contra os vossos preceitos, mas para que todas as minhas acções sejam feitas com a aprovação da vossa providência. São Bernardo, no comentário septuagésimo terceiro ao Cântico dos Cânticos, expõe esta matéria do segundo advento, dizendo: “Oh se acabasse já este mundo e se manifestasse o vosso reino! Isto é o que ardentemente deseja a esposa, ou seja, a Igreja”.
Seja feita a vossa vontade. Nos homens da terra como nos habitantes do Céu, isto é, nos firmes, nos que sempre estão em crescimento, ornados de estrelas, como acima dissemos.
O pão nosso de cada dia. Ó Pai, se não mandardes, lá do alto, o pão do fervor e da consolação espiritual, todos os dias e a todas as horas, depressa desfaleceremos e iremos procurar pão vilíssimo de consolações exteriores. Enviai-nos, Pai benigníssimo, as migalhas daquela mesa opulentíssima, pois se com elas (quer dizer, com os actos de amor unitivo) não for alimentado todos os dias, perderei por certo, o vigor da fortaleza.
Perdoai-nos as nossas dívidas. Perdoai o castigo devido até pelos mais leves pecados. Detesto-os, odeio-os, porque fazem obscurecer o raio da vossa luz e tornam tíbio o fervor do meu amor.
Não nos deixeis cair em tentação. Quanto mais Vos amo, benigníssimo Senhor, mais temo separar-me de Vós, considerando a fragilidade da minha carne e a astúcia das investidas do inimigo. Não permitais, que alguma vez eu ceda às suas carícias ou ciladas, mas livrai-me das muitas inclinações para o mal, bem como das penas do Purgatório, na medida em que podem adiar a vossa dulcíssima visão.