sábado, 7 de janeiro de 2017

Epifania do Senhor - ano A - 8 de janeiro de 2017

       1 – O que é que estranhos e estrangeiros nos podem dizer que nós não saibamos? Poderão ter qualidades que não possuímos? Não nos retirarão o que é nosso, a nossa importância, a nossa vida tranquila, o nosso trabalho? Vêm para ajudar ou para complicar? Serão uma mais-valia ou um estorvo?
       No último ano a questão dos migrantes e refugiados foi amplamente discutida. Nem sempre por razões fáceis e/ou positivas. Na Europa, que mais de perto nos diz respeito, mas em todo o Ocidente cresce o preconceito, a xenofobia, o racismo. Em época de eleições, em países democráticos, ganham adeptos os partidos mais radicais (sobretudo de direita mas também de esquerda que, por serem radicais, se tocam e por vezes se confundem na contestação e na exclusão dos que chegam). Os nacionalismos, banidos ou adormecidos no pós segunda guerra mundial, estão de volta. Inglaterra fecha-se. França quer fechar fronteiras e impedir a entrada de estrangeiros. Áustria, Alemanha, Suíça e outra meia dúzia de países.
       Vivemos num mundo globalizado. A cultura enriquece-se com o contributo de outros povos, os valores e as descobertas científicas, a construção de aldeias e de cidades e dos próprios países contaram com o contributo de pessoas de outras aldeias, de outras cidades e de outros países e de outras culturas. A globalização é, sobretudo, virtual. Importam-se modas e vícios. Importa-se a vontade em ser livres e autodeterminados. Mas quando as pessoas chegam as coisas complicam-se, sobrevem o medo, o egoísmo, o preconceito. Nós portugueses temos a experiência como emigrantes, umas vezes bem recebidos, singrando, outras vezes explorados e maltratados, e como país acolhedor, umas vezes integrando, outras dificultando e maltratando quem vem à procura de melhores condições de vida.
       O Natal de Jesus quebrou as fronteiras da nacionalidade, da raça e da religião. O nascimento de Jesus celebra a inclusão, o acolhimento, universalizando a fraternidade. Deus vem para todos. Deus é Pai de todos. Jesus é irmão de todos e a todos vem salvar, judeus e gregos, homens e mulheres.
       2 – Os Magos vêm de longe. São estranhos. Estrangeiros. Vêm de toda a parte. Do fim do mundo. Trazem os corações cheios de esperança, em busca de uma Luz maior. Perdem-se em sonhos e projetos, mas não perdem o horizonte, a confiança, o desafio da vida e do futuro.
      Há oito dias, a adoração dos Pastores: homens simples, pobres, humildes. Atentos ao que se passa à sua volta, atentos à voz e à luz que vem do Céu. Homens do campo e do mundo, conhecem a terra, o céu e o tempo. Sabem quando devem conduzir o rebanho para o pasto e quando devem recolhê-lo, quando os dias são favoráveis e quando são adversos. Diante do Menino deitado numa manjedoura transbordam de alegria e de sonho. Aquele Menino é uma bênção, salvação para todo o povo.
       Hoje, a adoração dos Magos: homens da cultura e do saber, da ciência e do estudo. Sábios. Os verdadeiros sábios são aqueles que estão disponíveis para aprender mais, tendo consciência que o que sabem é pouco ou nada. Por conseguinte, o verdadeiro sábio é simples, humilde, pobre. Só os pobres compreendem os mistérios divinos... quando não compreendem confiam, esperam, buscam!
       Os Magos são pessoas que têm os olhos abertos e o coração disponível para novas surpresas que o Universo possa trazer. Leem os sinais que surgem na natureza, no céu. Quem olha demasiado para si ou para baixo, perde-se, tropeça, estupidifica. Para saber a vida é preciso olhar para o alto e para longe, sem perder o pé nem esbarrar no que está por perto. Quem conduz uma bicicleta, uma moto ou um carro, sabe que tem de olhar a distância para antecipar obstáculos, mas sem esquecer o que está à volta e à frente.
       Vêm de longe, os Magos do Oriente! Aproximam-se do mistério. Fazem um longo caminho para encontrar o Caminho. Por momentos ainda são confundidos pelo barulho da cidade, pelas luzes, pelos encantos do palácio, mas logo reconhecem que os mistérios de Deus não se confundem com aparências. Deus nem sempre é evidente. Se nos lembrarmos de Elias, Deus não está na confusão, no fausto, no barulho, está (sobretudo) na brisa, no silêncio que fala, nas palavras que calam e enchem o coração. E com os corações cheios da Luz que vem do alto prosseguem até à gruta onde Se encontra o Senhor do tempo e da história. Um Menino – frágil, pequeno, com roupas tecidas de amor e de ternura, quentinhas pela presença e preocupação de Maria e de José – que é o Deus connosco, em carne e osso!
       3 – Lições e desafios da adoração dos Magos. Olhos abertos e coração disponível para acolher as surpresas que venham do Céu, que venham de Deus. Pôr-se a caminho. Não basta saber, não basta interpretar os sinais. É preciso pôr-se em movimento. Persistir além e apesar das contrariedades. Não se deixar iludir por luzes exteriores, com muito brilho mas pouca consistência, guiar-se pelas convicções, pela Luz interior, pela Luz que vem do Céu. Ajoelhar diante do mistério de Deus, diante de Jesus e oferecer-Lhe o melhor, os tesouros mais valiosos, oferecendo-nos a nós próprios, reconhecendo-O como verdadeiro Homem, frágil como nós, verdadeiro Deus, tão poderoso que Se faz do nosso tamanho, verdadeiro Rei, que reina pela verdade, pelo bem, pelo amor. Encher-se de LUZ e de AMOR, encher-se de Jesus, e partir por novos caminhos. Nada será como dantes. Tudo será diferente. Quem viu o Céu não pode contentar-se com a terra, ou melhor, não pode contentar-se em deixar ficar tudo como antes, tem a obrigação e a missão de encher o mundo com a Luz de Jesus. Ir e anunciá-l’O a toda a criatura.
       4 – Em Jesus – Deus que Se faz Menino, que Se faz um de nós – cumprem-se as Escrituras e as promessas. Isaías, o profeta do Advento e da Quaresma, prepara, anuncia, visualiza os tempos que estão para chegar, a força e a luz que se há de manifestar, os sinais que já se vislumbram e a fidelidade de Deus à aliança, congregando pessoas e povos. Só não vê quem não quer, pois a luz chega às próprias trevas.
       "Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor..." É uma luz intensa, mas também instrumental, há de iluminar os povos de toda a terra, "as nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor da tua aurora. Olha ao redor e vê: todos se reúnem e vêm ao teu encontro; os teus filhos vão chegar de longe e as tuas filhas são trazidas nos braços". Tanta luz que ninguém ficará indiferente. Tanta luz que até os corações mais duros cederão, libertando as trevas e deixando entrar a claridade. Tanta luz que os olhos e o coração exultarão de alegria.

       5 – São Paulo dialoga com a promessa e com o seu cumprimento. Nas gerações passadas o mistério de Cristo estava envolvo como num véu, que aos poucos se foi desvelando. Agora, nas gerações presentes, foi revelado pelo Espírito Santo aos apóstolos e aos profetas. Nas gerações passadas, a eleição e a aliança, entre Deus e o Povo de Israel. Mas como se intuía, a eleição e a bênção alargam-se a todos os povos.
       O Apóstolo conclui que "os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho".
       Como víamos no Evangelho, o encontro com Jesus, com o mistério que vem das alturas, não depende da origem carnal, étnica, racial, mas da disponibilidade para ver, para acolher, para reconhecer, para se abrir à Luz e à Graça que irradia de Jesus e que se expande e se espalha em cada rosto, em cada vida, em cada pessoa. Em cada Menino se pode ver a Luz que vem de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Is 60, 1-6; Sl 71 (72); Ef 3, 2-3a. 5-6; Mt 2, 1-12.

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