sábado, 8 de abril de 2017

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor - 9 de abril

       1 – O Domingo de Ramos remete-nos para o centro da nossa fé, com o mistério de entrega de Jesus a favor da humanidade inteira, logo a favor de cada um de nós, mistério de amor, de dádiva, de libertação, de resistência ao sofrimento, de priorização de Deus e da Sua vontade, de ousadia e de humildade, de perdão e de compaixão.
       Com a bênção dos Ramos, aproximamo-nos da Páscoa. Jesus manda preparar a Páscoa. É um momento de festa, de convívio, de encontro, de memória. Como bons judeus, Jesus e os Apóstolos cuidam de diferentes pormenores para uma Páscoa festiva, recordando as promessas feitas por Deus ao Povo da Aliança, rezando, louvando as maravilhas operadas através das gerações, agradecendo ao bom Deus.
       Um pouco antes, a entrada triunfal de Jesus na cidade santa, em Jerusalém. Entra montando num jumentinho. É o Príncipe da Paz, o filho de Deus, o Filho da Promessa. Não traz com Ele um exército, traz uma multidão desorganizada de maltrapilhos, pobres, galileus, adeptos, simpatizantes, discípulos, mulheres, publicanos. É uma multidão barulhenta, feliz, esperançosa. Aclamam, talvez, não a uma só voz ou na mesma direção, mas aclamam com júbilo, preparando-se exterior e interiormente para a Festa da Páscoa. Há rostos com lágrimas, há olhares apreensivos, há sorrisos rasgados e rostos fechados. Há quem esteja totalmente ali e quem esteja apenas por curiosidade, arrastados pelo ajuntamento. É, no entender de Bento XVI, uma multidão diferente daquela que empurra Jesus para a Cruz. Esta primeira multidão é marcadamente simples, pobre, despretensiosa. 
       2 – A refeição é um momento de festa, de alegria, de paz, de convivência com a família e com os amigos próximos. Para um judeu, partilhar uma refeição é partilhar a vida, é comungar com o outro as alegrias e as tristezas. A refeição tem uma dimensão social, mas também religiosa. Em dias festivos, o templo, a sinagoga e a refeição em família. Está tudo interligado. A comunidade reúne-se para celebrar a libertação, em família relembra tudo quanto fez o Senhor, Deus de Israel, a favor de todo o povo, para que as gerações vindouras vivam agradecidas e voltadas para o Senhor.
       Depois de um momento de revelação, em que Jesus é aclamado pela multidão, um momento mais íntimo, mais reservado, mas na mesma toada festiva. É, como sói dizer-se, o sossego antes da tempestade. O ambiente começa a ganhar contornos pouco expectáveis. Jesus vinha a dar sinais que as coisas poderiam descambar. Jesus não o esconde em nenhum momento. O Filho do Homem vai ser entregue às autoridades dos judeus, será morto, três dias depois ressuscitará. Os discípulos hesitam, mas vem a entrada triunfal e serenam, pensando que Jesus teria exagerado. O sentir de Jesus e o sentir dos discípulos é diferente. As palavras de Jesus vão alterando o quadro. Até então a expectativa que tudo poderia afinal correr melhor que o anunciado. Há que saborear a refeição.
       A saída de Judas de cena em nada altera festejos, pois é crível que só Jesus e o próprio tivessem consciência do que estava para acontecer, de contrário, os discípulos não teriam facilitado a saída do traidor. Nem pouco mais ou menos. A Ceia está a chegar ao fim, Jesus antecipa a Sua morte e ressurreição, instituindo a Eucaristia, sempre que fizerdes isto, fazei-o em memória de Mim. Este é o Meu Corpo. Este é o Meu sangue, entregue por vós e a vós confiado para a salvação do mundo.
       3 – A noite disfarça e esconde muita coisa. É dada por terminada a refeição. Jesus sai com os discípulos para o Jardim das Oliveiras. A noite permite também o silêncio e, até certo ponto, o descanso. Mas não são horas para dormir, são horas de vigiar, de rezar com insistência. Pelo menos da parte de Jesus. Aproximam-se as trevas densas, tenebrosas, mas mais do que a falta de luminosidade exterior é a falta de luz nos corações. Quem não tem luz no coração vive mergulhado na morte.
       Os discípulos adormecem. Segundo Augusto Cury, esta sonolência é doentia, stressante, resulta do excesso de ansiedade e de temor, o que leva o organismo a defender-se desta forma. Nos últimos dias redobrou a ameaça à vida de Jesus, acentuando-se a partir da ressurreição de Lázaro. Os discípulos vivem de momentos, do entusiasmo ao medo, do sol ao céu carregado de escuridão.
       Naquela hora, Jesus penetra o sofrimento mais atroz. O desfecho está à vista. Um pouco mais, e ainda escuro, na noite de Judas e das lideranças judaicas, será preso, julgado, condenado à morte. Resta pouco tempo. Alguns minutos, algumas horas, e o fim virá! Pai, Pai, Pai, se é possível que passe de Mim esta hora, que passe rápido que não aguento mais, ou passe adiante, porque é de mais, tanto sofrimento para um Homem só. As gotículas de sangue que Jesus transpira, antes entendidas como construção literária para sublinhar o sofrimento em que Jesus se encontrava, mostram momentos de grande dor, de grande ansiedade. Os gritos de Jesus levam os nossos gritos também. Pai, Pai, Pai, cumpra-se a Tua vontade. É mortal este caminho de entrega, é dom, mas é o caminho da salvação, a afirmação da verdade, da vida, da compaixão. Não há armas para lutar. É necessário manter as espadas embainhadas, a vida só se ganha pela fragilidade/força do amor, pela benevolência, pela misericórdia. O ódio, a guerra, a inveja, só geram mais discórdia, mais destruição, mais desumanização.
       São horas de levantar do sono, já se aproxima aquele que vai entregar o Filho do Homem. Vem com passo decidido e com um beijo – mostrando a cumplicidade e a amizade com Jesus – com um beijo entrega o Messias, o Filho de Deus, sujeitando-O à prisão, a andar de Anás para Caifás, do tribunal judaico ao pretório de Pilatos, e do silenciamento pelas vergastas ao silenciamento total pela crucifixão e morte.
       4 – Há outra multidão, mais burguesa, certamente também com muitas pessoas sérias, simples, pobres. São motivações diferentes as de cada um. Uns seguem por curiosidade, outros instigados pelas autoridades judaicas, receosas dos seus postos ou por inveja, outras vão ver o espetáculo – há quem goste de sangue e guerra e conflito, desde que seja o sangue dos outros – vão e também berram. As multidões são perigosas quando manipuladas, instigadas, enganadas por alguém.
       As multidões são facilmente conduzidas. Temos essa experiência. Quando estamos rodeados de pessoas a gritar pelo nosso clube ou pelo nosso partido, não racionalizamos sobre o que se diz, aplaudimos, gritamos, coreografamos o momento, entramos em direto, tiramos umas selfies. Para o bem funciona, mas também para o mal. A multidão pede a crucifixão de Jesus. Se alguém antes tivesse pedido a Sua libertação é possível que a multidão hesitasse ou o pedido fosse outro. Não tem razão quem grita mais alto, mas por vezes gritar gera adeptos, ajunta pessoas, impele a agir, mesmo contra os próprios princípios.
       As lideranças judaicas justificam as suas palavras e os seus gestos, defendendo que a morte de Um, por todos, apaziguará as autoridades romanas eliminando qualquer tentativa de sublevação contra o império. Já todos testemunhamos a ardilosidade de alguns políticos de convencerem a opinião pública, basta usar alguns argumentos mais empáticos, repetidos à exaustão, procurando casos particulares para justificar o todo, situações em que pareça estarem do mesmo lado daqueles a quem querem conquistar. É um risco a que estamos sujeitos, como agentes ou como povo!
       Em menos de nada, Jesus é condenado à morte, sem tempo para que alguém lance alguma dúvida, sem tempo para ponderações. É açoitado, cuspido, injuriado, escarnecido. Colocam-se uma coroa, de espinhos, que se espetam na carne. Põem-Lhe aos ombros a trave da cruz. Pesada a cruz, difícil o caminho, fisicamente Jesus vai ficando esgotado.
       5 – Entre apupos, sobe a encosta do calvário, a arrastar-se, faz das tripas coração, das fraquezas forças. Os açoites violentos fizeram com que perdesse muito sangue, ficando em carne viva quase por todo o corpo, com músculos gravemente feridos. Segue mais morto que vivo. Mas avança decidido conforme as forças Lhe permitem. E se arrastam um Simão para ajudar a Cruz é por alguma compaixão ou simplesmente para apressar o desfecho, pois também os soldados veem que Jesus já não pode mais. Os amigos vão ficando para trás, escondendo-se entre a multidão e só as mulheres O seguem de perto, com Maria, Sua Mãe, no Seu encalço.
       Completamente esgotado, a respirar a custo e ainda assim não O deixam sossegado, recebendo mais injúrias. A Sua oração ao Pai respira este aparente abandono – «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?». É o início do longo Salmo que termina confiando, entregando-se e suplicando a Deus. «Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim, sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me».
       6 – Na voz do centurião e dos soldados vislumbra-se a possibilidade da fraqueza ser divina e da morte ser passagem, ainda que possam não ter consciência da profissão de fé que nos legaram: «Este era verdadeiramente Filho de Deus».
       Com São Paulo, podemos perceber melhor o que aconteceu no Calvário: «Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai».
       Na proclamação do louvor do Deus que Se faz humano inicia a nossa conversão, o reconhecimento que só Deus é Deus e que, apesar de ser Deus, quis descer até nós para que com Ele aprendêssemos a viver humanamente, assumindo os outros como irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos (ano A): (Ramos:) Mt 21, 1-11 (Ramos); Is 50, 4-7; Sl 21 (22); Filip 2, 6-11; Mt 26, 14 – 27, 66.

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