sábado, 8 de julho de 2017

Domingo XIV do Tempo Comum - ano A - 9.julho.2017

       1 – Só a humildade nos permite aprender, dialogar, partilhar, comungar a vida com os outros. Só a humildade nos permite apreciar a vida, agradecer os dons recebidos, cultivar os talentos a favor dos outros e em prol de uma sociedade renovada. Só a humildade nos permite ser pessoas, diante dos outros e, para quem tem fé, diante de Deus. Só a humildade nos enriquece, nos humaniza e nos aproxima dos outros. Só a humildade nos leva a reconhecer as falhas, a pedir perdão e a tentar corrigir os erros. Só a humildade nos capacita para compreendermos os outros, sermos tolerantes com as suas falhas e apreciadores das suas qualidades. Só a humildade nos leva a construir pontes e derrubar muros, a juntar as nossas energias às energias dos outros, procurando a paz e a justiça. Só a humildade nos coloca à escuta e nos predispõe a aprender sempre mais. Olhos e ouvidos abertos ao que nos rodeia, coração atento a outros corações.
       Humildade não é o mesmo que ingenuidade, ignorância, descuido ou o não querer-saber. Humildade não é renunciar a valores e convicções, não é aderir, sem mais, aos valores, ideias e projetos dos outros. Humildade não é abdicar da própria vida para viver a vida dos outros. Humildade não é achar que os outros são bons e eu sou mau, que os outros são capazes de tudo e eu não sou capaz de nada. Humildade não é autocomiseração, fazer-se de coitadinho/a para que todos reparem em mim e me apapariquem. Humildade não é cruzar os braços, não é encolher-se ou remeter-se ao seu canto para não incomodar ninguém.
       A humildade compromete-nos, abre o meu e o teu coração à vida e aos outros, leva-nos a sair do nosso egoísmo para, com os outros, formarmos família. A humildade faz-nos reconhecer que estamos a caminho, somos limitados, podemos crescer e aprender sempre mais e que os outros são uma oportunidade e não um estorvo. A humildade leva-nos a reconhecer que não somos deuses e que não sabemos tudo.
       A prepotência, a sobranceria, a arrogância, ao invés da humildade, afasta-nos dos outros, uma vez que nos coloca acima, à parte, num mundo virtual ou ideal, longe do alcance de todos. Sou tão bom que não preciso de ninguém, já aprendi tudo, já não existe nada que possa surpreender-me ou que possa enriquecer-me. Se alguma coisa corre mal, foram os outros que não estiveram à altura. Eu não falho. Numa palavra, sou o meu deus, pelo que não preciso de Deus, não existem em mim insuficiências, limitações, não existe caminho a percorrer, sou perfeito e acabado!
       2 – As palavras de Jesus começam por ser oração, mas são também desafio: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado».
       Na continuação, Jesus fala na mediação necessária: só o Pai conhece verdadeiramente o Filho e só o Filho conhece verdadeiramente o Pai e aquele a quem o Filho O revelar. Jesus revela o Pai e a Sua ternura pela humanidade, mas só um coração dócil, humilde, solidário será capaz de escutar, de acolher e de reconhecer a voz, a palavra e a vida de Deus. Voltamos ao ponto de partida: só a humildade nos predispõe para a fé, para a esperança, para o encontro com Deus e com os outros.
       Jesus há de estar ao centro, no meio, unindo, congregando. Depois da Sua morte e da ressurreição faz-Se presente, faz-Se ver, da mesma forma que durante a Sua vida pública, no cuidado e no serviço aos mais pobres. Ele coloca como referência as crianças e os pequeninos: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40). Na verdade, «se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu. Quem, pois, se fizer humilde como este menino será o maior no Reino do Céu. Quem receber um menino como este, em Meu nome, é a Mim que recebe» (Mt 18, 3-5). Em certa ocasião trazem crianças para Jesus as abençoar e os discípulos, muito zelosos, tentam afastá-las. Então Jesus diz-lhes: «Deixai as crianças e não as impeçais de vir ter comigo, pois delas é o Reino do Céu (Mt 19, 14). Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como um pequenino, não entrará nele» (Lc 18, 17).

       3 – Quase a abrir o evangelho de São João, o encontro e diálogo de Jesus com Nicodemos. Diz-lhe Jesus: «Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer do Alto não pode ver o Reino de Deus». Nicodemos contrapõe: «Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura poderá entrar no ventre de sua mãe outra vez, e nascer?» (Jo 3, 3-4).
       Na resposta, Jesus aponta a conversão, o deixar-se moldar pelo Espírito de Deus. A pequenez e a humildade, para se deixar iluminar pela Luz que vem de Deus.
       Nas bem-aventuranças, o mesmo registo: «Felizes os pobres em espírito...Felizes os mansos... Felizes os puros de coração... Felizes os pacificadores... porque deles é o Reino de Deus» (Mt 5, 3-10).
       Com a delicadeza, transparência, disponibilidade das crianças, mas na certeza de quem ninguém pode voltar a ser criança. Seria, além disso, doentio voltar à infantilidade. Diz São Paulo: «Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança» (1 Cor 13, 11). Não se trata então de voltar a ser criança, infantil, ingénuo, mas como criança, humilde, ávido de aprender e crescer, disponível para se admirar com a vida e com os dons dos outros, aberto às surpresas de Deus e a aceitar o que não se compreende totalmente, confiar, lançar-se nas mãos de Deus.
       Ser humilde dá muito mais trabalho do que ser arrogante, prepotente, sobranceiro. A humildade exige vigilância e cuidado, para não se ensoberbecer, treino diário para não se fechar no seu saber. A humildade exige uma conversão permanente, um esforço (da vontade) para se deixar vencer pela graça de Deus, pela força do amor, para se deixar preencher pelo Espírito de Cristo.
       4 – É a confiança que nos faz viver, viver bem e com qualidade. A confiança, como a humildade, não é ingenuidade, estupidez, mas capacidade de se entregar a Alguém que é confiável e apostar que, no final, apesar do caminho tortuoso, com altos e baixos, com opções que exigem renúncias e sacrifícios, nada terá sido em vão, porque vivemos, gastamos a vida por amor, e a vida não desaparecerá para sempre: será plenizada em Deus.
       Impressiona ver uma criança lançar-se nos braços da mãe ou do pai. Assusta-nos ver que pode cair! Como é que se atira com tanta facilidade? Basta o olhar materno/paterno, um sorriso, um gesto e a criança deixa-se cair, atira-se, entrega-se, porque sabe, porque acredita e, mais, porque confia. Vale a pena recuperar uma pequena estória que escutámos ao Pe. Joaquim Dionísio na pregação da novena da Imaculada Conceição:
       Um malabarista chegou a uma aldeia. Na praça onde as pessoas se juntaram, atou a ponta de uma corda a um poste, num dos lados da praça, e a outra ponta da corda noutro poste do outro lado da praça. Perguntou: quem acredita que eu passo de uma lado para o outro sem cair? Se caísse corria o sério risco de morrer, tal era a altura a que estava colocada a corda. Todos responderem que acreditavam. E passou para o outro lado. Voltou a perguntar se acreditariam se regressaria em segurança ao ponto inicial. Todos responderam que acreditavam. Depois pegou numa vara e pergunta idêntica responderam que acreditavam, e também no regresso ao ponto inicial. Pegou numa carreta, colocou-a sobre a corda e perguntou quem acreditava que ele passasse de um para outro lado. Todos disseram que sim. E ele mais uma vez passou em segurança. Quando chegou ao outro lado, perguntou quem queria colocar-se na carreta para ir para o outro lado. Ninguém se ofereceu. A não ser o filho. Acreditavam nele e nos seus feitos, mas não confiavam. Por vezes temos de confiar. Confiar em Deus. Confiar como crianças, confiar como filhos!
       É o convite de Jesus: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

       5 – Na primeira leitura anuncia-se a alegria pela proximidade da salvação. «Exulta de alegria, filha de Sião, solta brados de júbilo, filha de Jerusalém. Eis o teu Rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho duma jumenta... Anunciará a paz às nações».
       O Messias que está para vir vencerá, não pela violência, mas pela força do amor. Cristo Jesus, o Messias que vem de Deus, mostra-nos que o caminho para regressar a Deus é feito de delicadeza, de amor, de compaixão, é tecido de perdão e de serviço, de ternura e de misericórdia.
       Foi assim com Ele, será assim connosco, seus discípulos e suas testemunhas. Ele libertou-nos da ignomínia do pecado e da morte, pela Sua entrega, até ao fim, como cordeiro, inocente e imaculado, levado ao matadouro. Já não estamos sujeitos ao mal e às trevas. Coloquemo-nos sob o domínio do Espírito de Deus que nos habita. Se o Espírito de Deus habita em nós, então, diz-nos São Paulo, pertencemos a Cristo e se Lhe pertencemos caminhemos à Sua luz pelo caminho do bem, da verdade, da justiça e da paz.

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano A): Zac 9, 9-10; Sal 144 (145); Rom 8, 9. 11-13; Mt 11, 25-30.

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