sábado, 20 de outubro de 2012

XXIX Domingo do Tempo Comum - ano B - 21 de outubro

        1 – Jesus é, por excelência, o Vendedor de Sonhos. É uma vida por inteiro a consumir-Se pela humanidade, no olhar, no anúncio, em cada encontro, gesto, prodígio, em cada palavra; da Encarnação à Paixão; vem de Deus, caminha connosco, eleva-nos para a eternidade de Deus.
       A Sua missão é revolucionar a nossa história a partir de dentro, do coração, reensinando-nos a viver humanamente. É uma reconstrução completa, alicerces, pilares, estrutura, telhado, e todos os compartimentos.
       É fácil visualizar uma casa antiga quase a cair, que bem pintada no exterior passará por uma casa imponente. Entra-se (dentro) e cada passo cada susto. Conforme as possibilidades vão-se fazendo reformas, renova-se aqui e acolá, mas a casa continua a ameaçar ruir. Muitas vezes a única solução, ou pelo menos a mais fiável, é deitar abaixo e da raiz estruturar toda a casa. Ela será nova, bela e segura e acolhedora. É isso que Cristo quer fazer connosco.
       2 – O sonho que nos vende entranha-Se até à medula, ao mais íntimo de nós, no recanto onde nos encontramos com Deus, com a nossa identidade original. A revolução de Jesus reconstrói-nos a partir do coração.
       As revoluções, ao longo da história da humanidade, que resultam de guerras, violência, de imposição, de convulsões sociais, políticas, económicas e religiosas, operam-se em horas, dias, ou meses. Muito rapidamente se passa de uma a outra situação. Mudam-se os protagonistas. No entanto nem sempre muda o sistema. Há a clara noção que implantar ideias novas, formas de pensar inovadoras e criativas, leva muito mais tempo. Demasiado tempo para muitos.
       A mudança de mentalidades e de paradigma leva uma vida inteira, ou leva gerações, ou leva a vida de cada um.
       Em três anos de vida pública, Jesus arrastou multidões. Como atualmente nas manifestações populares contra o governo, contra a troika, contra a austeridade, são muitas as motivações, como o eram nas multidões que se abeiravam de Jesus: umas para serem curadas, outras porque sim, outras por mera curiosidade, outras querendo dar um sentido novo à sua vida, outras procurando ser beneficiados se os ventos mudassem de direção, outros sem saber porquê, outros arrastados pelos ajuntamentos.
       Também os discípulos seguem Jesus motivados por aquilo que está para chegar e que no seu entender lhes dará um lugar privilegiado, serão favorecidos porque andam com Ele. Daí a sua irritação quando alguém se aproxima mais, pois julgam que podem ser prejudicados.

       3 – Depois do puxão de orelhas a Pedro – afasta-te de Mim Satanás –, surgem novas situações em que os discípulos deixam vir ao de cima outros sonhos, bem mais a prazo que o sonho de Jesus. Eles estão preparados para uma revolução física, imediata, material, com a garantia que estarão nos melhores lugares.
       Ora vejamos:
Tiago e João, filhos de Zebedeu, disseram a Jesus: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda». Disse-lhes Jesus: «Não sabeis o que pedis… Sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não Me pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem está reservado».
       Este episódio mostra de forma crua como os discípulos estão muito longe do sonhado por Jesus para a humanidade. Por exemplo, São Mateus, para desculpar os discípulos, refere que foi a mãe de Tiago e de João que fez semelhante pedido e não os próprios.
       Por aqui se vê em que estádio se encontravam os discípulos e como ainda não tinham entendido o desiderato do Messias. E se pensávamos que esta disputa era apenas de um ou de outro, verificamos como todos eles O rodeiam para terem o primeiro lugar:
Os outros dez, ouvindo isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João. Jesus chamou-os e disse-lhes: «… quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».
       4 – D. António Couto, Bispo de Lamego, na Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que decorre no Vaticano por estes dias, lançou uma inquietante pergunta que vale a pena meditar: “por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por ser pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza (Mt 19,22; Mc 10,22; Lc 18,23), por ser ricos e importantes?”

       5 – A história de Jesus é uma história de abaixamento para que a nossa seja uma história de ascensão em humanidade para Deus. Encarna, desce, esvazia-Se de Si, vive como verdadeiro Homem, revela o Homem ao homem, como nos ensina o Vaticano II, com a Sua morte faz-nos visualizar no Seu corpo, na Sua oferenda por nós, o AMOR imenso de Deus, na Sua ressurreição/ascensão ao Céu, coloca a nossa natureza humana à direita de Deus Pai, de onde nos atrai, comprometendo-nos com o corpo temporal e humano, com o Seu Corpo todo, a Igreja e a humanidade, todas as pessoas que Ele coloca à nossa beira.
       Na primeira e na segunda leitura, é expressiva a certeza do ministério (serviço) do Enviado de Deus, que atravessa a história humana, a história do sofrimento, para nos guiar ao caminho da luz, da verdade e do bem.
“Aprouve ao Senhor esmagar o seu servo pelo sofrimento... Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado na sua sabedoria. O justo, meu servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades”.
       Isaías revela que o servo sofredor carregará a nossas dores e justificará a nossa vida. Vem para servir e não para ser servido.
       A epístola aos Hebreus enquadra um registo muito parecido, apresentando-nos Jesus como o Sacerdote que atravessa os Céus, na nossa direção e na direção de Deus, vem do Céu, e do Céu intercede constantemente por nós. Ele bebe da nossa humanidade para que nós bebamos da Sua divindade:
“Tendo nós um sumo-sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, exceto no pecado. Vamos, portanto, cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno”.


Textos para a Eucaristia (ano B): Is 53, 10-11; Hebr 4, 14-16; Mc 10, 35-45.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A Igreja nasce de um corpo ausente

       A beleza de Cristo. Humana e divina; à procura da ovelha perdida, abraçado ao filho pródigo, perdoando aos crucificadores, pobre a quem só resta aquele pouco de madeira e de ferro que basta para morrer pregado. Morrer de amor.
       ...
       Chegar a Deus amando a humanidade de Jesus, agora menino nos braços da sua mãe e, depois, homem das estradas e amigo dos publicanos, os seus anos escondidos e os seus gestos públicos, as suas mãos sobre os doentes e os seus olhos nos olhos dos réis, os seus pés e o pó dos caminhos da Palestina e, depois o nardo que desce e, depois, o sangue que escorre. E, por fim, o seu corpo ausente. A Igreja nasce de um corpo ausente.

ERMES RONCHI, As casas de Maria

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

D. António Couto - Sínodo dos Bispos - Fidelidade renovada

FIDELIDADE RENOVADA (n.º 158)
Igreja sinodal, próxima, fraterna e afectuosa
       1. Viver «em sínodo» é a vocação e a missão da Igreja peregrina e paroquial, casa de família fraterna e acolhedora no meio das casas dos filhos e filhas de Deus, no belo dizer do Beato Papa João Paulo II, Catechesi tradendae [1979], n.º 67; Christifideles Laici [1988], n.º 26.

        2. É também o retrato da Igreja-mãe de Jerusalém, saído da paleta de tintas do Autor do Livro dos Actos dos Apóstolos (2,42-47; 4,32-35; 5,12-15), que nos mostra uma comunidade cristã bem assente em quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna (2), a fracção do pão (3) e a oração (4), e com ramificações em todas as casas e em todos os corações. Trata-se de uma comunidade bela que, dia após dia, crescia, crescia, crescia. Não admira. Era uma comunidade jovem, leve e bela, tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!

Igreja da anunciação
       3. A vocação e missão da Igreja não é coisa própria sua, mas radica, como exemplarmente deixou escrito o Concílio Vaticano II, no seu Decreto Ad Gentes, no amor fontal do Pai, que enviou em missão o Filho e o Espírito Santo (n.º 2). É nesta missão que se enxerta a missão da Igreja, pelo que não compete à Igreja inventar a missão ou decidir em que consista a missão. Na verdade, o rosto da missão tem os traços do rosto de Jesus Cristo e já foi nele luminosamente manifestado. Temos, pois, uma memória viva a fazer, viver e guardar todos os dias.
       Abrindo o Evangelho de Marcos, reparamos logo que o primeiro afazer de Jesus não é pregar ou ensinar, mas ANUNCIAR, que traduz o verbo grego kêrýssô: anunciar o Evangelho (Mc 1,14). E qual é a primeira nota que soa quando Jesus se diz com o verbo ANUNCIAR? É, sem dúvida, a sua completa vinculação ao Pai, de quem é o Arauto, o Mensageiro, o ANUNCIADOR (kêryx). Pura transparência do Pai, de quem diz o que ouviu dizer (Jo 7,16-17; 8,26.38.40; 14,24; 17,8) e faz o que viu fazer (Jo 5,19; 17,4). Recebendo todo o amor fontal do Pai, bebendo da torrente cristalina do amor fontal do Pai (Sl 110,7), Jesus, o Filho, é pura transparência do Pai, e pode, com toda a verdade dizer a Filipe: «Filipe […], quem me vê, vê o Pai» (Jo 14,9).

       4. Tudo, no arauto, na mensagem que transmite (kêrygma) e no estilo com que o faz, remete para o seu Senhor. A primeira nota de todo o ANUNCIADOR ou arauto ou mensageiro consiste na sua FIDELIDADE Àquele que lhe confia a mensagem que deve anunciar. É em Seu Nome que diz o que diz; é em Seu Nome que diz como diz.

       5. O missionário só tem autoridade na medida em que é fiel a Cristo e como Ele obediente, nada dizendo ou fazendo por sua conta e risco. Só pode dizer e fazer aquilo que, por graça, lhe foi dado ouvir, aquilo que, por graça, lhe foi dado ver fazer. O missionário não pode deixar de estar vinculado a Cristo, nele configurado e transfigurado. O Papa Bento XVI disse-o assim: «Tudo se define a partir de Cristo, quanto à origem e à eficácia da missão». E acrescentou este singular desabafo: «Quanto tempo perdido, quanto trabalho adiado, por inadvertência deste ponto» (Homilia da Santa Missa, Grande Praça da Avenida dos Aliados, Porto [Portugal], 14 de Maio de 2010).

Igreja da fidelidade
        6. Impõe-se ainda dizer, é mesmo necessário ainda dizer, em jeito de conclusão ou de introdução, que aquilo que me parece ser mais importante na expressão «nova evangelização» não é tanto a novidade de métodos, expressões ou estratégias, mas a FIDELIDADE da Igreja ao Senhor Jesus (Paulo VI, Evangelii Nuntiandi [1975], n.º 41), ao seu estilo, ao seu modo de viver, de fazer e de dizer: Dom total de si mesmo num estilo de vida pobre, humilde, despojado, feliz, apaixonado, ousado, próximo e dedicado. Passa por aqui sempre o caminho e o rosto da Igreja, que tem de fazer a memória do seu Senhor, configurando-se com o seu Senhor e transfigurando-se no seu Senhor. Impõe-se, portanto, uma verdadeira conversão do coração, e não apenas uma mudança de verniz. Sim, temos necessidade de anunciadores do Evangelho sem ouro, nem prata, nem cobre, nem bolsas, nem duas túnicas (Mt 19,9-10; Mc 6,6-8; Lc 9,3-4)… Sim, é de conversão que falo, e pergunto: por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por ser pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza (Mt 19,22; Mc 10,22; Lc 18,23), por ser ricos e importantes?

+ António José DA ROCHA COUTO

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

JESUS - Ama-me como és


AMA-ME COMO ÉS
(Palavras animadora de Jesus)
«Conheço a tua miséria, as lutas e tribulações da tua alma,
as deficiências e as enfermidades do teu corpo;
conheço a tua vileza, os teus pecados e, apesar disso, digo-te na mesma:
"Dá-me o teu coração, AMA-ME COMO ÉS..."
Se aguardas ser um anjo para te abandonares ao amor, nunca mais amarás.
Embora sejas cobarde na prática do dever e da virtude,
embora recaias muitas vezes nessas faltas, que nunca mais quererias cometer,
não permito o não me amares. AMA-ME COMO ÉS!
A cada instante e em qualquer situação que te encontres, no fervor ou na aridez,
na felicidade ou na infelicidade, ama-Me... como és...
Quero o amor do teu coração;
se aguardas ser perfeito, nunca mais Me amarás.
Por ventura, não poderia eu fazer, de todo o grãozinho de areia,
um Serafim radiante de pureza, de nobreza e de amor?
Não sou Eu o Omnipotente?
E, se gosto de deixar no nada aqueles seres maravilhosos,
preferindo o pobre amor do teu coração, não serei Eu Senhor do Meu amor?
Meu filho, deixa que te ame;
quero o teu coração.
Claro que, com o tempo, quero transformar-te, mas, para já, amo-te como és...
e desejo que tu faças a mesma coisa. Eu quero ver subir o amor da baixeza e da miséria.
Amo em ti também a tua fraqueza, amo o amor dos pobres e dos miseráveis;
quero que dos farrapos suba continuamente um grande grito: "JESUS, AMO-TE"!
Quero somente o cântico do teu coração;
não preciso nem da tua ciência nem do teu talento.
Interessa-Me só uma coisa: ver-te trabalhar com amor!
Não são as virtudes que Eu desejo;
se Eu tas desse, sendo tu tão débil, alimentariam o teu amor-próprio.
Não te preocupes com isso. Eu, poderia ver-te destinado para grandes coisas.
Não! Serás o servo inútil; tirar-te-ei até o que tens...
porque te criei só para o amor.
Hoje estou à porta do teu coração como mendigo.
Eu, o Rei dos reis, bato e espero; abre-Me de pressa.
Não aumentes a tua miséria; se tu soubesses a tua indigência, morrerias de dor.
O que Me feriria o coração seria ver-te duvidar de Mim e faltar à confiança.
Quero que tu penses em Mim a toda a hora, de dia e de noite;
quero que faças até a acção mais insignificante só por amor.
Conto contigo para Me dares alegria.
Não te preocupes por não possuíres virtudes; dar-te-ei as minhas.
Quando tiveres de sofrer, dar-te-ei a força.
Deste-Me o amor, dar-te-ei a capacidade de amar além de quanto podes imaginar...
Mas, lembra-te: Ama-Me como és!
Dei-te a Minha Mãe; faz passar tudo através do Seu Coração tão puro.
Aconteça o que acontecer, não esperes ser santo para te abandonares ao amor;
nunca mais Me amarias...Vamos!"
(Mons. Lebrum -- Ir. Gino)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Início da Catequese Paroquial - momento de descontração!

       No sábado, dia 13 de outubro: início da catequese paroquial. Aqui um dos momentos da animação e do convívio entre as crianças, adolescentes, jovens e catequistas...

sábado, 13 de outubro de 2012

XXVIII Domingo do Tempo Comum - ano B - 14 de outubro

       1 – Um homem correu ao encontro de Jesus, ajoelhou diante d’Ele e perguntou- Lhe: «Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?» A atitude deste homem é delicada e de grande expetativa. Vem a correr. Ofegante. A primeira coisa que faz é colocar-se de joelhos diante de Jesus, reconhecendo-O como Mestre justo e bom. A primeira atitude diante de Deus é de reverência, para em Deus tratarmos a todos como iguais, como irmãos.
       Rico de muitos bens materiais, como vemos mais à frente, é um homem em correrias, ansioso, insatisfeito, à procura de um sentido maior para a sua vida e que justifique os seus dias. “O Homem ultrapassa infinitamente o homem”, como salienta o filósofo francês Blaise Pascal, o homem não cabe em si mesmo, tende a buscar-se até ao infinito, constitutivamente limitado e finito, mas procurando sobreviver para lá do tempo e da materialidade, além das fronteiras do seu corpo e do seu espírito.
       Ouve falar de um homem que tem palavras de vida eterna, e procura serenar e confiar a sua busca, junto de Alguém que lhe merece o benefício da dúvida. Faz-nos evocar as sábias palavras de Santo Agostinho, “Senhor, criastes-nos para Vós, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Vós”.
       A resposta de Jesus não visa agradar ou convir ao seu interlocutor, mas desafiar, propondo um projeto de vida viável e exequível: “Tu sabes os mandamentos: Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe”.
       Mas cumprir a lei não liberta e não salva. Mesmo que escrupulosamente se cumpra. A lei é uma orientação para vivermos harmoniosamente em sociedade. Não basta. É necessário que a lei seja vida, que brote da convicção, e que corresponda a um compromisso alegre com os outros. O homem disse a Jesus: «Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude».        Num segundo momento, e vendo que a lei era um fardo para aquele homem, ainda que ele a cumprisse, Jesus, olha para ele com simpatia, e lança um desafio maior: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, porque era muito rico.
       2 – O seguimento de Jesus é uma proposta de salvação que revoluciona a nossa vida. Como constatámos nos domingos anteriores, seguir Jesus implica-nos, não é uma adesão exterior, como camisa que se troca a qualquer momento, é a vida toda, um jeito de viver, de amar, de se relacionar com os outros. Ele entranha-Se em nós, somos transformados não pela rama, como crosta que se desprende passado algum tempo, mas em todas as veias, é seiva que circula, vida nova, sangue que nos liga a Jesus, totalmente, para a vida toda.
       Garantida está a Sua presença, o Seu olhar, o Seu espírito de Amor, e a vida eterna. Garantida está uma vida de serviço aos outros. O maior para Jesus, o maior no reino de Deus, é o que se faz menor, o que serve os demais, como Ele que veio para servir e não para ser servido. Ou nas palavras de Santo Agostinho, “quem não vive para servir, não serve para viver”.        A disputa dos discípulos por lugares há de dar lugar à disputa pela caridade. Não devais nada uns aos outros, senão a caridade (São Paulo). Para seguir Jesus não pode haver nada que nos impeça de nos fazermos próximos uns dos outros. O homem do evangelho queria ser útil aos demais, dar um rumo novo à sua vida, preenchida com o esqueleto da Lei, dos Mandamentos, mas faltando-lhe a carne, o espírito, a alegria, um sentido de plenitude, como flor que para o ser precisa de desabrochar, mostrando a sua beleza.
       Falta alguma coisa. Ainda não está preparado para dar o salto, ainda há demasiadas coisas, demasiados bens, que o impedem de se dar aos outros e de seguir Jesus, ainda não está disposto a pegar na Sua cruz, renunciando a todo o tipo de egoísmo, ainda vive como a borboleta cómoda no seu casulo, com medo de arriscar. Seria o ponto de viragem, da comodidade da sua casa (plano material) para se tornar casa para os outros (plano espiritual e afetivo).

3 – A resposta de Jesus é também para os discípulos, de ontem e de hoje, a quem alerta com veemência: «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus».
       Uma vez mais dá-se um nó na cabeça dos discípulos, continuam a magicar qual deles tirará mais dividendos do facto de seguir o Mestre e procuram saber mais, tirando tudo a limpo: «Quem pode então salvar-se?». Fitando neles os olhos, Jesus respondeu: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Pedro insiste, apresentando créditos – «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir» – que Jesus valoriza: «Em verdade vos digo: Todo aquele que tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais, já neste mundo, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, juntamente com perseguições, e, no mundo futuro, a vida eterna».
       A salvação é dom gratuito, que cabe acolher, viver, aqui e agora, até à eternidade. Iniciámos no tempo presente, o que havemos de ser no encontro definitivo com Deus. Muitas coisas e muitas situações se entrepõem entre nós e Deus: dúvidas, distanciamentos, trabalho e falta dele, doenças, solidão, conflitos familiares e/ou profissionais, deceções, falta de tempo.
       O que se entrepõe entre nós e Deus também se entrepõe entre nós e o próximo. Exatamente o que aconteceu ao bem-intencionado que se dirige a Jesus para o interpelar sobre a vida eterna. Ele queria algo mais da sua vida. Jesus propõe-lhe o seguimento e serviço aos outros. Ele pensava que haveria alguma forma mágica que o salvasse do cinismo (ram-ram) da sua existência, dando-lhe um sentido novo mas sem comprometer a sua vida por inteiro, uma vestimenta que pudesse usar por cima, vestir e despir conforme a disposição, sem alterar nada da vida que tinha.

         4 – O destino do ser humano é ser feliz. É para isso que Deus nos criou. É para isso que andamos por cá. A pergunta feita a Jesus tem a ver precisamente com esta busca incessante: o que devo fazer para ser feliz, agora e no futuro? A vida eterna é o fim último que se inicia no tempo presente. A felicidade não é uma meta, mas um caminho, com muitas etapas e muitas estações, com paragens, com avanços e, por vezes, recuos.
       Em Jesus Cristo a meta está iluminada, está ao nosso alcance, já a podemos experimentar no compromisso quotidiano com os outros. Daí a importância de escutar e mastigar a palavra de Deus, que “é viva e eficaz… é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração… tudo está patente e descoberto a seus olhos. É a ela que devemos prestar contas”.        Não precisamos de pedir muitas coisas a Deus, peçamos o discernimento, a sabedoria, para calcorrear um chão que nos ligue aos outros. “Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a aos cetros e aos tronos e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada. Não a equiparei à pedra mais preciosa, pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo. Amei-a mais do que a saúde e a beleza e decidi tê-la como luz, porque o seu brilho jamais se extingue. Com ela me vieram todos os bens e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis”.
       Se nos ligamos aos outros, em atitude de serviço, neles encontraremos a Deus, a Quem buscamos no mais íntimo de nós mesmos.

Textos para a Eucaristia (ano B): Sab 7, 7-11; Hebr 4, 12-13; Mc 10, 17-30.
 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A forma do cristianismo em mudança

Em tantas situações, nesta diáspora cultural onde estamos semeados, a única palavra verosímil é a do testemunho de uma vida vivida com simplicidade e alegria no seguimento de Jesus.

       O teólogo Karl Rahner escreveu que “A Igreja tem sido conduzida pelo Senhor da história para uma nova época”. Não se trata só de baixas drásticas nos indicadores estatísticos quando se compara a atualidade com aquele que já foi o quadro da vivência da Fé. A questão é bem mais complexa. Talvez o que o nosso tempo descobre, mesmo entre convulsões e incertezas, seja um modo diferente de ser crente, traduzido de formas alternativas nas suas necessidades, buscas e pertenças. Não estamos perante o crepúsculo do cristianismo, como defendem aqueles que se apressam a chamar pós-cristãs às nossas sociedades. Quem não se apercebe que o radical lugar do cristianismo foi sempre a habitação da própria mudança não o colhe por dentro. Mas há eixos que se vão tornando suficientemente claros para que seja cada vez mais um dever os enunciarmos e contarmos com eles. 
Podem-se apontar três:
  • Primeiro, os cristãos regressam à condição de “pequeno rebanho”. Com a evaporação de um cristianismo que se transmitia geracionalmente como herança inquestionada, os cristãos voltam a sê-lo por decisão pessoal, uma decisão muitas vezes em contra-corrente, maturada de modo solitário em relação aos círculos mais imediatos de pertença. Já não é de modo previsível que nos tornamos cristãos. Isso acontece e acontecerá cada vez mais como uma opção e uma surpresa.
  • Depois, à medida que se assiste a um enfraquecimento da inscrição institucional das Igrejas no horizonte da sociedade redescobrimos o valor e as possibilidades de uma presença discreta no meio do mundo. Em tantas situações, nesta diáspora cultural onde estamos semeados, a única palavra verosímil é a do testemunho de uma vida vivida com simplicidade e alegria no seguimento de Jesus.
  • E, em terceiro lugar, esta grande mudança epocal mostra-nos que precisamos recuperar aquilo que Karl Rahner chama o “santo poder do coração”. Os cristãos são chamados a viver a amizade como um ministério. “Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,17). Há, de facto, uma revelação do cristianismo que só a prática da amizade é capaz de proporcionar. E nisto, o mundo, que pode até perder-se em equívocos sobre os cristãos, não se engana. Mesmo se for um único instante de contacto o que tivermos, tal basta para deixar transparecer uma amizade.
José Tolentino Mendonça, Editorial da Agência Ecclesia.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Frei Beto - tanta coisa que não preciso para ser feliz

       "Ao viajar pelo Oriente, mantive contactos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

        Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação! Estamos construindo super-homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.
        Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
        Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...
        A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta
a neurose.
        O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse. Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
        Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...
        Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:...
"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz"!!!

Uma das fontes possíveis: Passeio Socrático.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

70 X 7: Entrevista de D. José Policarpo

       D. José da Cruz Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, em entrevista ao Programa 70X7, programa da Igreja Católica na RTP 2, sobre diversas questões, o ano da Fé, o Concílio Vaticano II, a crise económico financeira, o apelo à serenidade, e à solidariedade cristã:


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Paróquia/freguesia de Pinheiros - por Chico Gouveia


Vivemos Presos ao Nosso Passado e ao Nosso Futuro

       A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-los subir e descer na balança. O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos. Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por distracção, por esquecimento, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes actuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos tratam de acordo com isso.

Franz Kafka, in 'Diário (1910), retirado do CITADOR.

domingo, 7 de outubro de 2012

Porque choras, Mamã?

       "Nunca os meus olhos haviam visto tanta beleza espraiada no rosto de um recém-nascido. Mas como tu eras belo, David! De uma beleza tão grande que não cabia nas máquinas fotográficas nem em câmaras de filmar. Mas conseguirá toda essa beleza ofuscar tanta dor e tanta angústia? Conseguirá essa beleza compensar todo o sofrimento que invade todos os recantos de uma mente acabada de ser mãe? Foram tantas perguntas que correram em busca de respostas. Tantas noites escuras à espera do amanhecer. Uma alma aparentemente destruída em busca de algo ou de alguém que lhe apanhasse os destroços e a fizesse regressar à normalidade da vida" (contracapa).
       Porque choras, mamã?, de Joana Leitão, do Sítio do Livro, onde pode ser adquirido via internet, é um testemunho envolvente, de uma mãe à beira do desespero, cuja depressão se acentua com o nascimento do filho, mas que já se vinha a desenvolver com a gravidez, muito desejada.
       Várias perguntas: como podem conviver sentimentos tão diversos, como foi possível chegar àquele fosso? Porque é que os amigos se afastam, porque é que não compreendem? Será louca esta mãe? Grita ou silencia? Porque é que ninguém ouve os seus gritos? De onde brotam tantas lágrimas, quando deveriam ser momentos de grande alegria?
       É uma leitura impressionante, intensa, que se lê de uma assentada, num texto claro, agradável, muito bem escrito, e com conteúdo, com interrogações que nos ficam presas à garganta. Será possível compreender uma pessoa que caiu em depressão?
      "Uma depressão é como um cancro, 'pode acontecer a qualquer pessoa, ninguém está imune'. Eu chamei-lhe o cancro da alma. A verdade é que assim é: tal como um cancro, ela deixa marcas. Ficamos frágeis e arriscamo-nos a recaídas... 'As portas ficam sempre abertas'. Ah! Se eu pudesse fechar as portas e perder as chaves...!
       "Sei hoje que é possível viver momentos felizes, porque a vida é feita de momentos. Momentos em que o sol brilha e momentos chuvosos e nublosos. Durante a nossa estadia terrena atravessamos por diversas vezes a escuridão da noite e a claridade diurna. se pudermos dormir durante a noite... tanto melhor!
       Quanto ao resto, sempre acreditei que se as lágrimas não nos deixam ver o sol, temos de as limpar; pelo menos poderemos ver as estrelas.
       ...para que se possa acreditar que da noite se pode fazer luz, e que a luz poderá ser um crespúsculo mais sereno ou um amanhecer amaciado pelo Amor".
       É uma leitura a não perder, para mães, que podem sentir a presença dos filhos de maneira tão diversa, para pessoas que passaram/passam por momentos depressivos ou depressões profundas, para quem gosta de ler e para quem quer ler textos mais suaves e de fácil compreensão, para quem gosta de se interrogar e quer conhecer a alma das pessoas.
      
A venda/compra está disponível na página do Sítio do Livro, na internet.

sábado, 6 de outubro de 2012

XXVII Domingo do Tempo Comum - ano B - 7 de outubro

        1 – A leitura do livro do Génesis, que neste domingo nos é proposta, permite-nos refletir na dimensão social do ser humano, na necessidade que temos uns dos outros para sermos felizes – só nos encontramos e sabemos o que somos se nos confrontarmos com iguais –, e a vontade de Deus, neste como em outros textos, para o ser humano: a felicidade de todos.
Disse o Senhor Deus: «Não é bom que o homem esteja só: vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele»... Da costela do homem o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem. Ao vê-la, o homem exclamou: «Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem».
       Deus criou-nos por amor, capacitados para amar e ser amados, partilhar o melhor de nós, viver em comunhão, desfrutando da presença uns dos outros.
       Ninguém é feliz sozinho. O primeiro pecado da humanidade é o egoísmo (individualismo), o querer viver sem o outro, achar que se pode colocar para os outros como deus, soberano, independente, autossuficiente, sem precisar de prestar contas a outro que seja da mesma carne.
       Lembra Ermes Ronchi, “Adão, senhor de todas as coisas, busca no Éden uma ajuda semelhante a ele. Busca a coisa mais importante da sua vida: o assombro da infinita abertura. Ao outro mundo, a si mesmo. Adão está triste: o paraíso não vale a ausência de Eva... Só quando te sentes amado, podes desabrochar em todos os teus aspetos; só quando te sentes escutado, dás o melhor de ti próprio... O amor, em todas as suas formas, desvenda o sonho de Deus de que está repassada toda a criação...”.
       Segundo este autor, a primeira expressão do mal é a solidão. É o próprio Deus a concluir: não é bom que o homem esteja só. E essa solidão original só pode ser colmada por outro semelhante. Precisamos de outro coração para amar, precisamos de outro coração a quem amar. Só no encontro de corações acontece a redenção. E por conseguinte, na belíssima imagem deste texto, a mulher é “criada” a partir da costela do homem, ou seja, formada do coração do homem, para amar e ser amada, para se situarem lado a lado.
       2 – Deus criou-nos por amor e criou-nos livres. Não somos marionetas. Criou-nos inteligentes, relacionáveis, criativos, com criadores, diferentes e com qualidades que podem interagir e complementar-se, o homem com a mulher, e as pessoas entre si.
        Contudo, a liberdade tem um preço. Somos livres, nós e os outros, e por vezes, na nossa fragilidade muito humano, colidimos com a liberdade dos outros. Usando uma linguagem quotidiana, diríamos que no geral a liberdade é um dom de inestimável riqueza, que deve ser defendido, protegido, salvaguardado por todos e para todos. Mas ao descermos ao concreto da vida, nem sempre é fácil respeitar e promover a liberdade de todos. Na diferença enriquecemo-nos mutuamente, mas a conciliação de vontades próprias nem sempre é exequível. O encontro de liberdades engrandece-nos, obrigando, porém, ao diálogo. Ou melhor, ao amor, purificado pelo perdão.
       Diante de situações reais, de casas destruídas, de corações traídos, de famílias expostas ao egoísmo e ao pecado, perguntam a Jesus: «Pode um homem repudiar a sua mulher?». Ao que Jesus replica: «Que vos ordenou Moisés?». Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se repudiar a mulher». Jesus responde com a nossa limitação e fragilidade: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu».
       O encontro de dois corações, duas vidas, duas casas, do homem e da mulher, que são imagem e semelhança de Deus na comunhão de amor, é o que existe de mais belo e extraordinário e criativo, é o que existe de mais sagrado. Dois corações que se prendem e se libertam mutuamente (do egoísmo, da solidão, da tristeza), é a força maior, a maior revolução. É nesse diálogo de vidas, interação de casas – a minha casa entra na casa alheia e aquela torna-se a minha casa e eu a sua casa – dá-se a salvação, descubro o melhor de mim no encontro com outro semelhante a mim, da mesma carne, há uma parte de mim que habita nela e que me atrai como um íman e me completa: o amor (e não a costela). E o que se refere para o gérmen da família, o encontro de homem e da mulher, é exemplo para que a humanidade se torne uma grande família, dos pais com os filhos, dos patrões com os trabalhadores. Em Cristo não há judeus nem gregos, homens ou mulheres, livres ou escravos, todos são filhos amados de Deus, irmãos.

       3 – Como nas semanas anteriores, o exemplo para uma convivência sadia e fraterna, em casa, na família, e nas comunidades, vem das crianças, da sua delicadeza e simplicidade, da espontaneidade com que se dão em sorriso transparente aos outros, até aos estranhos.
       Relembramos que as crianças, como as mulheres, como os escravos, como os pecadores públicos, como as pessoas com alguma deficiência, não contavam, não faziam número. Jesus conta com uns e com outros. Não são números, ontem como hoje, são pessoas, e o mais insignificante também vale, vale tudo, é rosto, é presença de Deus. Jesus trá-los para a luz, para o meio, para junto dos seus discípulos. É assim com as mulheres, que seguem anonimamente atrás de Jesus, discretamente, em serviço, prestáveis, e que não chamam a atenção e aparecem quando expostas por homens. Jesus altera a postura. Faz incidir sobre elas a luz, reconhecendo-as como iguais. Do mesmo modo em relação às pessoas excluídas, leprosos, enfermos, surdos e mudos, coxos, publicanos e pecadores. Jesus convive com eles. Come à mesma meda e do mesmo pão. Vai ao seu encontro, não se desvia, e repreende os discípulos sempre que afastam crianças, ou querem silenciar alguém que grita por Ele.
“Apresentaram a Jesus umas crianças para que Ele lhes tocasse, mas os discípulos afastavam-nas. Jesus, ao ver isto, indignou-Se e disse-lhes: «Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis: dos que são como elas é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não acolher o reino de Deus como uma criança, não entrará nele». E, abraçando-as, começou a abençoá-las, impondo as mãos sobre ela”.
       A receita de Jesus, para a família, e para a humanidade, é o amor, o perdão, a fraternidade, ir buscar os últimos, os que servem, os que não contam, trazê-los para a vida, para o centro, para a luz do dia. O maior no reino de Deus é o que serve, o que ama, o que acolhe, o que protege e dá as mãos. O pecado e a destruição da família e da sociedade resulta do egoísmo e da solidão, que exclui e marginaliza.

       4 – Neste nosso peregrinar, mais esclarecidos ou titubeantes, no confronto com uma realidade quotidiana inundada de mil cores, de muitas situações felizes e de muitas outras controversas e destrutivas, de momentos luminosos e de momentos obscurecidos pela tristeza, pela solidão, não estamos sós, Jesus é o nosso garante, o nosso fim, a nossa salvação.
       Na epístola aos Hebreus, Jesus é reconhecido e apresentado como o sumo-sacerdote. Vem de Deus, para nos elevar para Ele. Faz-Se história, encarna, entranha-se no sofrimento humano, “ensina-nos” a viver humanamente. Morre e introduz-nos na eternidade de Céu, onde Se encontra a interceder por nós, de onde nos atrai e desafia.
“Jesus, que, por um pouco, foi inferior aos Anjos, vemo-l’O agora coroado de glória e de honra por causa da morte que sofreu, pois era necessário que, pela graça de Deus, experimentasse a morte em proveito de todos. Convinha, na verdade, que Deus, origem e fim de todas as coisas, querendo conduzir muitos filhos para a sua glória, levasse à glória perfeita, pelo sofrimento, o Autor da salvação. Pois Aquele que santifica e os que são santificados procedem todos de um só. Por isso não Se envergonha de lhes chamar irmãos”.
       N'Ele tornamo-nos irmãos, e na abertura recíproca aos outros e a Deus, encontraremos a salvação. Não é bom estarmos sós. Só com semelhantes poderemos progredir e caminhar. Só tornando-nos como crianças, na disponibilidade de servir, de amar, de perdoar, de dar o que temos e o que nos dão, seremos verdadeiramente humanos.
Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano B): Gen 2, 18-24; Hebr 2, 9-11; Mc 10, 2-16.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Editorial Agência Ecclesia - No labirinto da crise

«A Humanidade só pode crescer como um todo» e «esse todo não é apenas material, mas sobretudo espiritual e cultural»
       Procuram-se soluções. Desejam-se certezas sobre o amanhã. É grande a vontade de ter respostas, de saber, sem rodeios nem enganos, o que fazer e com o que contar.
       Poucas vezes, porém, se murmuram interrogações sobre o sentido das coisas e da vida, sobre o ser pessoa neste tempo, as razões para ser mais e melhor todos os dias.
       Os problemas sociais e económicos, individuais e da sociedade, parecem fazer esquecer o essencial da existência, aquilo que não se contabiliza em folhas de cálculo ou em listagens de estatísticas.
       Sem esquecer a necessária luta pela justiça social e pela conquista da dignidade de vida para todas as pessoas, é preciso primeiro clarificar as questões que derivam da procura do sentido da vida, do valor dado a cada momento e das motivações imediatas e últimas. Só posteriormente se podem encontrar soluções para os problemas de âmbito económico e social.
       José Mattoso, na recolha de artigos e conferências em torno do tema da sabedoria, publicados no livro “Levantar o Céu – Os labirintos da Sabedoria”, responde a estes dois grupos de questões. Este volume, fundamentado na investigação da História e na profundidade espiritual do autor, oferece um quadro interpretativo do momento presente, informa sobre as opções civilizacionais que lhe deram origem e aponta para as necessárias mudanças de rumo. Nestas páginas, sim, encontram-se as soluções para os problemas do amanhã, aqueles que todas as pessoas anseiam ver resolvidos. Mas com surpresas.
       “A Humanidade só pode crescer como um todo” e “esse todo não é apenas material, mas sobretudo espiritual e cultural”, sustenta o autor.
       Para “encontrar a saída do labirinto em que a vida nos coloca”, José Mattoso sugere a procura do “desenvolvimento espiritual, cultural e solidário, orientado para o progresso integral do homem e não apenas para o benefício de uma minoria egoísta, irresponsável e predadora”.
       Como o conseguir? – a resposta é do historiador: “Creio que a perspetiva meramente ética, cívica e laica acerca do valor do princípio da cidadania como fator de desenvolvimento humano é ineficaz. Encerra os cidadãos num plano limitado e material, e este torna-se inoperante para neutralizar a tendência egoísta e gananciosa do homem. Se queremos manter a esperança num futuro melhor para a Humanidade temos de recuperar a noção do sagrado”.
       A celebração do Ano da Fé pode oferecer uma ocasião de excelência para essa recuperação da “noção do sagrado” na procura de um futuro melhor para a Humanidade.