terça-feira, 16 de julho de 2019

Leituras - Com o Coração nas Mãos

MARTA ARRAIS e EMANUEL DIAS (2019). Com o coração nas mãos. Lisboa: Paulus Editora. 128 páginas.
Aí estão 52 reflexões, uma para cada semana do ano, por exemplo. Com a chancela da Paulus Editora, tem como autores dois jovens cronistas, Marta Arrais e Emanuel António Dias, na plataforma digital “iMissio”, projeto de evangelização que “tem tido como objetivo dar voz a uma comunidade convicta de que a internet pode ser um ambiente de evangelização que desafie o modo de pensar a fé. Tem pretendido ser espaço de relação entre a fé, a vida da Igreja e as transformações vividas atualmente pelo Homem”.
Marta Arrais é mestrada em ensino de Inglês e Espanhol. É professora. Acompanha várias atividades de cariz voluntário em Portugal, Espanha e Moçambique. Emanuel Dias frequenta o mestrado integrado de Psicologia. É acólito e catequista na sua paróquia.

Para abrir o apetite:
“A vida não espera por ti. Não espera que te decidas. Não espera que fiques mais forte. Não espera que lutes um bocadinho mais. A vida tem muita pressa. Não fiques à espera do dia certo. Não fiques à espera de ter mais coragem e menos medo. De ver melhor. De descobrir uma verdade que te mude para sempre. A vida não espera por ti. Vem em forma de furacão, desarruma todas as tuas esperanças e certezas e obriga-te a entregares-lhe todas as armas” (Marta Arrais).
“Quando pedimos desculpa, damo-nos. Quando pedimos desculpa, soltamo-nos. Quando pedimos desculpa, envolvemo-nos… quando pedimos desculpa duas vidas se encontram na maior de todas as liberdades. Quando pedimos desculpa, desligamos o “descomplicador” e abraçamos a vida” (Emanuel Dias).
"Na dúvida, não duvides. Crava os pés e as mãos nas certezas que foram sempre tuas.
Na mágoa, não magoes. Priva o coração de sentir igual ao que te fizeram sentir a ti.
Na tristeza, não entristeças. Separa as águas e não deixes que se misturem. Não deixes que te misturem. Separa as marés de dentro e guarda sempre espaço para ser feliz.
Na queda, não faças cair. Olha para os dois lados antes de atravessar. Antes de atravessares a vida de alguém.
Na raiva, não te deixes arder. O que hoje queima e destrói, amanhã pode ser cicatriz que ensina" (Marta Arrais).
"Não é fácil admitir que erramos.
Não é fácil interiorizar que nem sempre temos razão.
É preciso olharmos para dentro e percebermos do que somos feitos.
É preciso nascermos de novo.
É necessário sabermos que "é muito mais aquilo que nos une, que aquilo que nos separa.".
É urgente que tenhamos a coragem de pedir desculpas.
É urgente que tenhamos a audácia de entender que aquele que se cruza connosco vai encontro da mesma humanidade.
É certo que é uma humanidade recheada de diferenças, mas são nelas que encontramos toda a sua beleza.
E nesta vida não vale a pena carregar a teimosia" (Emanuel Dias)
Cada reflexão se lê de uma assentada. A escrita é simples, acessível, compreensível para todos. Os temas são variados, falam de amor, de vida, de perdão, de Jesus, de luz e de trevas, de sonhos e projetos, falam de mim, falam de ti, falam de beleza e de leveza, de lágrimas e da Cruz de Jesus, falam humildade e de bondade, de paz e de luta.

HARUKI MURAKAMI - A morte do Comendador

HARUKI MURAKAMI (2018). A morte do Comendador. Volume 1. Alfragide: Casa das Letras. 408 páginas.
HARUKI MURAKAMI (2019). A morte do Comendador. Volume 2. Alfragide: Casa das Letras. 424 páginas.
Há ocasiões em que pegamos num copo cheio (de água, de cerveja, de vinho) e o bebemos de um trago. São assim os livros de Murakami, pelo menos para mim. Desde a obra "Em busca do Carneiro selvagem", a que aconselho para uma primeira leitura deste autor, que tenho seguido com atenção a publicação dos títulos deste autor japonês, radicado nos EUA.
Quem gosta de ler e segue de perto as publicações de alguns autores, procurando ler tudo ou quase tudo o que escrevem/publicam. Para mim, Paulo Coelho, durante um tempo, Virgílio Ferreira, José Saramago (com exceção dos diários), Augusto Cury, Gayle Forman. Um dos meus autores preferidos é Haruki Murakami. Sempre que surge uma nova publicação, qualquer outra leitura terá que esperar. Cada novo romance traz uma história encadeada, que nos prende do início ao final, com a inclusão de muitos ditados populares, criação de outros ditados, com personagens que surgem em diferentes livros, com recurso à cultura japonesa/oriental, à cultura mais ocidental, superstições e figuras mitológicas, crenças. Música, Jazz, carros, bares e rios, paisagens. Neste aparece o Toyota Corolla e um Jaguar, um Mini Cooper, e a música é clássica...
O narrador tem 36 anos (a idade de Murakami quando se tornou escritor) e enfrenta o divórcio, de um casamento que durou 6 anos, o sogro dava-lhes 5 anos de duração. Em vários livros, o autor apresenta personagens perfeitamente normais, sem se distinguirem do comum dos mortais. O narrador é um pintor, tendo-se especializado em retratos. O sucesso como retratista garante-lhe uma vida tranquila, sem sobressaltos. A opção por se tornar retratista foi o casamento e a família, agora tinha responsabilidades. Com o divórcio, a mulher decidiu que era o melhor, sente-se perdido pois continua a amar a mulher, mas "naturalmente" não faz fitas, sai de casa, anda a vaguear, até que se fixa na montanha, para Oddwara, na casa do filho do conhecido pintor Tomohiko Amada, Masahiko Amada, seu amigo, que lhe arranja emprego, a dar aulas, duas vezes por semana, duas turmas de adultos e uma de crianças.
Aí vai descobrir um quadro, escondido no sótão, onde vive uma coruja, intitulado "A Morte do Comendador". Um quadro desconhecido do grande público. Amada tinha ido para Viena estudar arte, para se dedicar a pintura ocidental, mas ao regressar ao Japão, adotou a pintura japonsesa, a nihonga, retalhos e colagens... Tornou-se famoso.
O narrador arruma o quadro no quarto de pintura. Vai-o admirando e estranhando porque é que o seu autor o manteve longe do público.
Entretanto um vizinho, Wataru Menshiki, mora numa vivenda em betão, branca, quer que o narrador lhe pinte o retrato e a soma avultada que lhe oferece fá-lo ponderar em voltar a pintar retratos. Menshiki trabalha na área das Novas Tecnologias, ou melhor, investe nesta aérea.
Uma das noites acorda, não com o barulho, mas com o silêncio, demasiado silêncio, nem os mosquitos se ouvem. Fica intrigado. Passado um momento começa a ouvir um barulho estranho, semelhante a um sino, olha para o exterior, mas está tudo às escuras, silencioso, a não ser aquele barulho. Sai para a floresta em busca do barulho, em direção a um santuário, e descobre um amontoado de pedras, quadradas, que parecem ter sido esculpidas. Volta para casa. O sino tocara entre a uma e meia e as duas horas e meia da manhã, mais coisa menos coisa. Volta a ouvir o barulho. Tem de contar a alguém e conta a Menshiki. Os dois vão novamente investigar o barulho vem do mesmo sítio. Através de pessoal contratado retiram as pedras. Pensam que podem encontrar um "monge" a tocar o sino, pois existem estórias várias de monges que se enterraram vivos e que tocam um gongo e pouco a pouco vão morrendo, ficando carne e osso. Depois anos mais tarde são desenterrados e muitas vezes são considerados como espécie de divindades. Um houve que se manteve anos a tocar o gongo e quando o encontraram, ressequido, ele continuava a tocar o sino. Alimentaram-no, ganhou carne, voltou à vida, casou, constituiu família, arranjou emprego, teve descendência... também o narrador e Menshik pensaram que poderiam encontrar um monge ressequido, mas encontram apenas um sino.
Levam-no para casa de Amada, onde vive o narrador, que o coloca no compartimento da pintura. O sino não deu sinal na primeira noite. Começam então a acontecer novos fenómenos. Um ocasião que está a tentar avançar no retrato, vai buscar qualquer coisa para comer e percebe que o banco em que se senta está noutra posição, mas não vê ninguém, daquela posição pode ver o que falta ao quadro. Mas há de ser uma voz que lhe diz que falta um pormenor importante (a cor branca do cabelo!). Mas não vê ninguém. Até que um dia encontra o Comendador, sentado tranquilamente no sofá da sala, do tamanho que está na pintura de Amada. Fala. Não está ferido. O narrador vai-lhe fazendo várias perguntas. Pode materializar-se pouco tempo e é mais fácil à noite, daí se materializar perto das duas manhã. Entrou na casa porque foi convidado no momento em que o sino também entrou. Depois pede ao narrador que convença Menshiki a convidá-lo. O narrador pergunta se pode levar o Comendador e Menshiki ri-se (da piada), mas convida-o e deixa-lhe um lugar à mesa. Só é visto e ouvido pelo narrador. O banquete é de agradecimento pelo retrato finalizado.
Menshiki pede outro favor, que pinte o retrato a uma menina, que é sua aluna, nas aulas de arte. A mãe da menina morreu, com picadas de vespas, e deixou-a com o marido, para todos os efeitos, o pai. Contudo, deixa uma carta a Menshiki e pela carta parece-lhe que ela poderá ser sua filha. Mas não quer recorrer ao ADN (se confirmasse, como é que iria retirar a filha do "pai"? E se não confirmasse, ficaria um vazio enorme), quer apenas estar próximo da filha e, por isso, comprou a casa naquele lugar, pois daí pode ver onde a filha mora. Se o narrador lhe pintar o quadro, Menshiki pode aparecer como que por acaso e vê de perto a filha, sem se revelar.

A história desenvolve, os quadros vão ficando prontos, os acontecimentos continuam a surgir. Eis que entretanto o retrato da menina está "inacabado", mas não há nada a acrescentar, fica a parte do mistério, a essência está lá.
Sem nada o prever, a menina desaparece. Parece ser um desaparecimento estranho. O narrador e Menshiki procuram-na no poço, mas apenas encontram um amoleto, que vai servir para o narrador atravessar um rio subterrâneo, será esse o pagamento ao barqueiro. Com o amigo, Masahiko Amada, o narrador vai visitar o grande pintor Tomohiko Amada. E volta a encontrar a figura do comendador, que lhe diz que terá que o matar (ainda que o Comendador seja uma Ideia). No quarto de Tomohiko Amada, na mesinha de cabeceira, a faca que anteriormente tinha desaparecido da casa de Mesahiko, onde mora o narrador. A morte do comendador será inevitável para que a menina possa reaparecer. Curiosamente, depois de aparecer, o narrador confronta a sua histórica com a da menina, a quem tinha aparecido o Comendador, quando ela se escondera na casa de Menshiki e como o Comendador a ajudou a manter-se escondida sem ser descoberta.

Mais de 800 páginas, nos 2 volumes, mas que se leem de um trago. As estórias de Murakami multiplicam-se, entrelaçando-se por entre a trama principal. O autor recorre a metáforas, imagens, comparações, analogias, ditados populares, numa linguagem sempre muito viva, escorreita, envolvendo-nos na história, com descrições pormenorizadas de pessoas, de lugares e dos acontecimentos, como quem conta uma história e nos faz ficar boquiaberto. Surpreende a forma como conjuga os elementos reais, históricos, com lugares, pessoas, culturas, a música, a pintura, a história do Japão com a China e com a Austrália, com elementos do imaginário oriental, com elementos do sobrenatural, espiritual, fantasmagórico. 

PAPA FRANCISCO - Catequeses sobre o PAI-NOSSO

A oração do Pai-Nosso é a oração dos cristãos. A única oração que Jesus ensinou aos seus discípulos. Ensina-nos a rezar. É o pedido que Lhe fazem os Seus discípulos. Há de ser também o nosso pedido, quando nos falham as palavras ou quando temos palavras a mais. O importante não é a quantidade de palavras, mas falar com o coração e com a vida. O Vosso Pai celeste bem sabe do que precisais.
Na oração do Pai-Nosso, Jesus ensina-nos o essencial. Faz-nos olhar para Deus como "Paizinho", "Papai", um tratamento carinhoso, delicado, reconhecendo que Deus é Pai que nos ama como Pai e como Mãe, sempre, em todas as circunstâncias.
Já muito se escreveu sobre o Pai-Nosso e talvez muito se venha a escrever, tal a densidade desta oração, tal a sua simplicidade. Não é uma oração longa, não procura ser uma obra de arte, dirigida a uns quantos iluminados. É uma oração que nos faz perceber o Deus de Jesus Cristo, a quem podemos e devemos tratar por Paizinho, cuja soberania se manifesta no amor, na bondade e na misericórdia, que nos envolve com o "nós", pois não o tratamos por Pai, se não nos tratarmos por irmãos. O que pedimos é para nós. o "eu" não tem lugar. O relacionamento com os outros pressupõe darmos largas ao perdão, o que recebemos de Deus, somos-lhe sempre devedores, a começar pela própria vida. E se recebemos também o partilhamos. Perdoamos porque Ele nos perdoa! Como Pai.
O Papa Francisco, nas Audiências Gerais das quartas-feiras, de 12 de dezembro de 2018 ao dia 22 de maio último, debruçou-se sobre a oração do Senhor. 16 catequeses, sublinhando alguns aspetos que são percetíveis ao longo da vida de Jesus. Estas catequese podem ser lidas ou relidas na página do Vaticano (http://w2.vatican.va), mas estão também disponíveis num livrinho, publicado pelo Secretariado Nacional da Liturgia: Papa Francisco. Catequeses sobre o Pai-Nosso. Esta é uma opção para quem gosta de manusear o papel e de sublinhar o texto. Por outro lado, é garantia do que se lê foi mesmo escrito e/ou pronunciado pelo Papa. Sabe-se que há muitas frases e textos atribuídos ao Papa, sem que correspondam minimamente a alguma intervenção sua.
Vamos à leitura e a algumas expressões papais nas diferentes catequeses: "A oração transforma sempre a realidade, sempre. se não mudam as coisas à nossa volta, pelo menos mudamos nós, muda o nosso coração", "Deus procura-te, mesmo que tu não o procures. Deus ama-te, ainda que tu o tenhas esquecido. Deus vislumbra em ti uma beleza, não obstante tu penses que desperdiçaste inutilmente todos os teus talentos. Deus é não só um pai, mas é como uma mãe que nunca deixa de amar a sua criatura. Por outro lado, há uma “gestação” que dura para sempre, muito além dos nove meses da gestação física; trata-se de uma gestação que gera um circuito infinito de amor.
Para o cristão, rezar significa dizer simplesmente “Aba”, dizer “Papá”, “Paizinho”, “Pai” mas com a confiança de uma criança", "Eis o que muitas vezes é o nosso amor: uma promessa com dificuldade para se manter, uma tentativa que depressa evapora e seca, quase como quando de manhã nasce o sol e enxuga o orvalho da noite... Desejosos de amar, depois entramos em conflito com os nossos limites, com a pobreza das nossas forças: incapazes de manter uma promessa que nos dias de graça nos parecia fácil de realizar. No fundo também o apóstolo Pedro teve medo e fugiu. O apóstolo Pedro não foi fiel ao amor de Jesus. Há sempre esta fragilidade que nos faz cair. Somos mendigos que no caminho corremos o risco de nunca encontrar completamente aquele tesouro que procuramos desde o primeiro dia da nossa vida: o amor", "hoje a tatuagem está na moda: “Eu gravei a tua imagem na palma das minhas mãos”. Fiz uma tatuagem de ti nas minhas mãos. Estou nas mãos de Deus e não a possa cancelar. O amor de Deus é como o amor de uma mãe, que nunca se esquece. E se uma mãe se esquecer? “Eu não me esquecerei”, diz o Senhor. Este é o amor perfeito de Deus, assim somos amados por Ele. Se também todos os nossos amores terrenos se despedaçassem e nas nossas mãos ficasse apenas pó, haverá sempre para todos nós, ardente, o amor único e fiel de Deus."Nos Evangelhos encontramos uma multidão de mendigos que suplicam libertação e salvação. Há quem pede o pão, quem a cura; alguns a purificação, outros a vista; ou que uma pessoa querida possa reviver... Jesus nunca fica indiferente face a estes pedidos e padecimentos... A oração cristã começa por este nível. Não é um exercício para ascetas; parte da realidade, do coração e da carne de pessoas que vivem em necessidade, ou que partilham a condição de quem não dispõe do necessário para viver... O pão que o cristão pede na oração não é o “meu” pão mas o “nosso”... O pão que pedimos ao Senhor na oração é o mesmo que um dia nos acusará. Repreender-nos-á o pouco hábito de o repartir com quem está próximo, o pouco hábito de o repartir. Era um pão oferecido à humanidade, e ao contrário foi comido só por alguns: o amor não pode suportar isto. O nosso amor não o pode suportar; nem sequer o amor de Deus pode suportar este egoísmo de não repartir o pão".

terça-feira, 25 de junho de 2019

São João de Tabuaço - Procissão 2019

O Padroeiro do Município de Tabuaço é São João Batista e, por isso, também feriado municipal. É festa para todas as freguesias e para todas as pessoas. Nas marchas participam os diversos lugares e assim também na Procissão, com as imagens dos Padroeiros de cada Paróquia e lugar de culto.
Créditos: Paróquia de Tabuaço / Frederico Gomes

domingo, 16 de junho de 2019

Mamoru Itoh - Quero falar-te dos meus sentimentos

MAMORU ITOH (2013). Quero falar-te dos meus sentimentos. Lisboa: Padrões Culturais Editora. 4.ª Edição. 80 páginas.
Já o publicámos, na tradução magnífica de Helena Gil da Costa - Quero falar contigo sobre os meus sentimentos. Neste livrinho, os textos são acompanhados por ilustrações.
O autor recorre a uma imagem muito sugestiva, a do jogo da bola. “Comunicar é como jogar a bola. Eu atiro a bola e tu apanha-la. E outra vez: eu atiro a bola… Eu quero falar contigo sobre os meus sentimentos”. Foi assim que a comunicação começou. Tal como precisamos de lançar a bola de um lado para o outro para que haja jogo, nós, para comunicar, precisamos de falar de uns para com os outros sobre os nossos sentimentos”.
Mas, tal como no jogo, também na comunicação, alguém tem de tomar a iniciativa. Não posso simplesmente ficar à espera que o outro o faça. E, tomando a iniciativa, tenho de estar preparado para que as coisas não decorram como expectável. A bola pode não chegar ao outro. Eu atiro a bola e o outro pode não a apanhar por ser demasiado pesada, ou ser lançada com demasiada força ou não saber jogar à bola! Ou estar demasiado distante. Pode não a devolver, ou devolvê-la com um tamanho mais reduzido…
Não há comunicação se falamos os dois ao mesmo tempo. Falar de banalidades não é comunicar. Comunicar implica-me e implica-te, envolve sentimentos. Podemos estar preparados para comunicar (sentimentos), darmo-nos, e o outro simplesmente ignorar, por não estar preparado ou por estar noutra onda.
«Se a pessoa a quem atiraste a bola não a apanhou da maneira que tu querias, não culpes essa pessoa. Talvez ela não seja muito boa a jogar a bola. Talvez ela estivesse nervosa, e a sua mão tenha deslizado. Talvez a tua bola fosse demasiado pesada».

Solenidade da Santíssima Trindade - 16 d junho d 2019

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Leituras: JEAN VANIER - OUVE-SE UM GRITO

JEAN VANIER (2018). Ouve-se um grito. O mistério da pessoa é um encontro. Prior Velho: Paulinas Editora. 200 páginas.
       Jean Vanier faleceu no passado dia 7 de maio, do ano corrente, de 2019. Na semana subsequente dedicamos-lhe o editorial. Hoje sugerimos como leitura este livro que pode ser visto como autobiografia e testamento espiritual do autor: "Ouve-se um grito. O mistério da pessoa é um encontro", com a colaboração do jovem poeta François-Xavier Maigre.
       Jean nasceu em Genebra, a 10 de setembro de 1928, filho de pais canadianos. Foi Oficial da Marinha, primeiro britânica, depois canadiense. Em 1950, desiste da carreira militar e começa a estudar teologia e filosofia. Sente-se atraído pelo Evangelho. Tornou-se professor na Universidade de Toronto, mas abandona a carreira universitária. Descobre que a sua verdadeira vocação é encontrar Jesus nas pessoas mais fracas e mais abandonadas. Em 1964 funda a Arca e em 1971 contribui para o nascimento do movimento "Foi et Lumiere" (Fé e Luz).
       Ao escrever estas páginas, o autor percorre a sua vida, da infância à descoberta do caminho que o realiza, ou por outras palavras, a vocação a que Deus o chama. "Este livro nasceu de uma urgência. Face ao triste espetáculo das divisões, dos medos, das guerras e das desigualdades que se espalham no nosso mundo, face à depressão e às desesperanças de tantos jovens, atrevo-me a partilhar convosco um caminho de esperança que se me abriu... Nada está perdido. Um caminho para a unidade, a fraternidade e a paz é possível. O futuro depende de cada um de nós... Graças à 'Arca', aprendemos que a vida com pessoas portadoras de uma deficiência é uma maneira de curar os nossos corações tantas vezes fechados e de ir ao encontro de todos aqueles que são atingidos pela exclusão e humilhação... os mais frágeis abrem-nos à esperança".
       O que fizerdes aos mais pequeninos é a Mim que o fazei. A revelação de Jesus está bem presente na vida, na vocação e na missão do autor. As pessoas portadoras de deficiência ajudam a libertar-se de comodismo, de certezas, da autocomiseração, da procura de poder e prestígio. Nestas pessoas, o encontro com Jesus. A descoberta da fé e das razões para a esperança e para a construção da paz.

Algumas frases e/ou parágrafos do autor:
"Os muros impedem-nos de encontrar o outro que é diferente, de o amar como Deus o ama. É uma luta diária".
"Nas nossas sociedades opulentas, procuramos muitas vezes livrar-nos dos mais frágeis, e até de os matar antes de nascer".
"Vim para aqui para viver o Evangelho, decidido a lutar pacificamente contra as injustiças por causa de Jesus"
Deus ama cada pessoa e chama cada uma a crescer no amor. Deus está escondido no coração dos mais pequeninos, dos mais sofredores, dos mais humilhados. Pouco a pouco, 'A Arca' torna-se sinal deste amor".
"As pessoas com deficiência mental não são uns pobrezinhos de quem é preciso tomar conta. Estas pessoas são mensageiras de Deus que nos aproximam de Jesus. São um caminho para Deus. Ao contactar com elas, elas transformam-nos e conduzem-nos até Deus".
"O amor implica o perdão. Crescer humanamente é aprender a perdoar sempre, trata-se de uma luta de cada dia. Uma luta na ternura consigo próprio e nas relações".
"Jesus ama-nos ao ensinar-nos a descer, a ajoelharmo-nos para lavar os pés dos outros. Sem lhes dar ordens de cima. Sem procurar ter influência".
"Apenas a descoberta da nossa frágil humanidade pode abrir um caminho de paz".
"Responder ao grito do pobre torna-se um apelo. O apelo torna-se atração. A atração tornar-se generosidade. A generosidade torna-se encontro. O encontro torna-se comunhão e presença de Deus".
       No livro o autor fala de muitos encontros marcantes, entre os quais se destacam o encontro com Madre Teresa de Calcutá, com o João Paulo II, com a comunidade de Taizé e com os Focolares, de Chiara Lubich. O Epílogo da obra é dedicado ao tempo que Jean passou em Fátima, a elaborar a tese de doutoramento para o Instituto Católico de Paris, sobre Aristóteles. Referência a Fátima também no capítulo 9.
       Refira-se ainda que na descoberta da vocação o autor ainda ponderou tornar-se padre, mas foi descobrindo que o Senhor o chamava a outra missão.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Solenidade de Pentecostes- ano C - 9 de junho de 2019

Visita Pastoral de D. António a Tabuaço - 2019

Visita Pastoral de D. António Couto à Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço, entre 9 e 19 de maio de 2019.
Seleção de fotos dos diferentes dias: visita aos doentes, Lar da Santa Casa, Creche, Centro de Dia, Agrupamento de escolas, encontro com os grupos paroquiais, com a Câmara e instituições ligadas à Câmara, celebrações, encerramento da Visita Pastoral. Fotos disponíveis na página da paróquia no Facebook: @tbcparoquia 
Créditos das fotos: Paróquia de Tabuaço (vários jovens e adultos); Rui de Carvalho; Centro de Dia; Irmão Joaquim.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Visita Pastoral de D. António a Pinheiros - 2019

Visita Pastoral de D. António José da Rocha Couto, à Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros. Na sexta-feira, 26 de abril, na aproximação ao final da tarde, a visita à Junta de Freguesia e sede também da associação "Unidos por Pinheiros". Seguiu-se a visita e oração no Cemitério, por todos aqueles, familiares, amigos e conterrâneos, que vive na eternidade de Deus. Logo depois, a celebração da Eucaristia com a administração da Santa Unção. Depois da celebração, o encontro com os crismandos. 
O Domingo, 28 de abril, o dia da grande FESTA, com a receção ao Senhor Bispo, no largo em frente à sede da Junta de Freguesia, ao som de foguetes e de cânticos, iniciando a procissão para a Igreja, para a Santa Missa.
Na celebração da Eucaristia, o Crisma da Jéssica, de Carrazedo, do Pedro Barradas, da Margarida Silva e do Ricardo Egger. Depois da Santa Missa, o almoço com a comunidade. Participação especial do Grupo Coral da Catequese da Paróquia de Tabuaço na animação coral. 
Créditos - Fotos: Ana Fonseca, Teresa Costa, Anabela Moura 
Música de fundo: DDPJ de Lamego - Hino da JMJ e JDJ 2019 - "Eis aqui a Serva do Senhor".

Visita Pastoral de D. António a Távora - 2019

A Visita Pastoral de D. António Couto à Paróquia de São João Batista de Távora realizou-se a 3 de fevereiro de 2019.
Na sexta-feira precedente, 1 de fevereiro, o Sr. Bispo reuniu com os crismandos e pessoas empenhadas na vida da comunidade. O domingo foi festivo para toda a comunidade, acolhendo o Sr. Bispo na Capela de Nossa Senhora dos Prazeres. A santa Missa, na Igreja Matriz, contou com a celebração do Crisma, com a bênção das crianças, dois bebés ao colo das mães... A parte da celebração, visita ao Cemitério... seguindo-se as concertinas de Távora e o almoço para a comunidade. Créditos: Fotos - Rui da Costa Carvalho
Música de fundo: DDPJ de Lamego - Hino da JDJ 2018 (Pretarouca - Lamego) - Queres precisar de mim.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Visita Pastoral D. António a Carrazedo - 2019

Paróquia de São Salvador de Carrazedo​, 27 de janeiro de 2019.
Imagens dos momentos da Visita de D. António à nossa comunidade: Receção à entrada da povoação, junto à imagem do Imaculado Coração de Maria; Santa Missa, com a celebração da Santa Unção; ação de graças pelas obras na Igreja (2017-2018), visita e oração ao Cemitério, lanche-convívio para toda a comunidade.
Música de fundo: DDPJ de Lamego - "Diz o teu sim" - Hino da JDJ 2017, em Nespereira - Cinfães.


Visita Pastoral D. António a Carrazedo - 2019



Visita de D. António José da Rocha Couto, Bispo de Lamego à Paróquia de São Salvador de Carrazedo.
Receção à entrada da povoação, junto à imagem do Imaculado Coração de Maria; Santa Missa, com a celebração da Santa Unção; ação de graças pelas obras na Igreja (2017-2018), visita e oração ao Cemitério, lanche-convívio para toda a comunidade.
Música de fundo: DDPJ de Lamego - "Diz o teu sim" - Hino da JDJ 2017, em Nespereira - Cinfães.



Paróquia de Tabuaço | Semana Santa 2019

A morte e a ressurreição de Jesus marca indelevelmente a vida dos cristãos e das comunidades, pois é o acontecimento fundador da Igreja. Daqui que as celebrações anuais da Páscoa ocupem um lugar central e essencial na vida litúrgica das comunidades.
Na Paróquia de Tabuaço não é diferente: é uma época de momentos significativos de vivência e partilha da fé, envolvendo os mais novos, os adultos e os mais idosos.
Música de Fundo: Tu me chamas e envias, do Grupo Juvenil "Bagos de Deus" (São João da Pesqueira - Diocese de Lamego; Vem da Palavra, do Grupo de Jovens do Olhalvo, da Diocese de Lisboa. Duas canções que participaram no XII Festival Nacional da Canção de Mensagem - Fátima Jovem 2019.

Paróquia de Pinheiros | Semana Santa: 2019

O maior mistério da nossa fé cristã é o mistério pascal de Jesus, morte e ressurreição, que se celebra em cada Eucaristia, mas de forma mais solene na Páscoa (anual).
A Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros, seguindo a tradição, com com o fito de celebrar e avivar a fé, vive com alegria, devoção e intensidade estes dias festivos.
Música de fundo: «Agora não sou eu, somos nós», Grupo de Jovens Católicos da Ericeira, Patriarcado de Lisboa, cançõ vencedora do XI Festival Nacional da Canção Jovem.No videoporama o conjunto de fotos ilustrativo de diferentes celebrações da Semana Santa.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Paróquia de Távora | Semana Santa: 2019

A Semana Santa, para os cristãos, é um dos momentos mais importantes na vida pessoal e comunitário, ao nível da celebração da fé e da identidade do crente cristão com o mistério pascal de Jesus.
Neste videoporama, momentos em fotos das diferentes celebrações na Paróquia de São João Batista de Távora, 14 a 21 de abril.
Música de Fundo: Gerou-se em Mim - Canção vencedora do XII Festival da Canção de Mensagem - Fátima 2019, pelo Grupo de Jovens Ad Saltum / JSF - da Diocese de Vila Real.

sábado, 25 de maio de 2019

Leituras: PRIMO LEVI - SE ISTO É UM HOMEM

PRIMO LEVI (2017). Se isto é um Homem. Alfragide: D. Quixote. 15.º Edição. 192 páginas.
Foi-nos sugerido, lemos e agora sugerimos a outros esta bela, pertinente e luminosa narrativa sobre os campos de concentração nazis, ou melhor, sobre a experiência vivida na primeira pessoa pelo autor, Primo Levi, judeu italiano deportado no campo de extermínio, onde a humanidade é questionada e onde a preocupação imediata não será a ética, a vida, a dignidade, o respeito, os valores, mas a sobrevivência ao frio e à fome, ao trabalho e às doenças.
Para compreendermos o pensamento de Primo Levi teríamos que ler vários (ou todos) livros e de preferência na língua original, segundo o Bispo de Lamego, D. António Couto, tal a profundidade e a relevância das suas reflexões.
Esta pode ser a leitura de entrada deste autor. É o testemunho pessoal, impressionante, lúcido sobre o tratamento desumano nos campos de extermínio, mas também da forma como as vítimas lidaram com a sobrevivência, havendo lugar a alguma solidariedade, mas prevalecendo a luta animalesca por sobreviver mais um dia.
Quando alguns tentam branquear aquela que foi uma das páginas mais negras da história europeia e mundial, com a eliminação de 6 milhões de judeus e de outros que se tornaram críticos do regime, ou simplesmente porque não se enquadraram no ideal da raça pura, este é mais uma obra provocante, que aviva a memória, que nos revela como, em situações degradantes, as pessoas são capazes das maiores barbaridades. Aqui e além há lampejos de humanidade e de alguma esperança, de alguma fé.
Levi foi detido pelas forças alemãs a 13 de dezembro de 1943, era então um jovem químico, membro da resistência. Tendo confessado a sua ascendência judaica, foi deportado para Auschwitz em fevereiro do ano seguinte, onde permaneceu até 27 de janeiro de 1945 quando o campo foi libertado.

Vale a pena reter algumas palavras:

“Todos descobrem, mas tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se-lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; e a isto se chama, num caso, esperança; no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se-lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor. Opõem-se-lhe as inevitáveis preocupações materiais que, assim como poluem qualquer felicidade duradoura, também distraem assiduamente a nossa atenção da desgraça que paira sobre nós e tornam fragmentária, e, por isso mesmo, a consciência dela.
Foram precisamente as provações, as pancadas, o frio, a sede, que nos deixaram afundar no vazio de um desespero sem fim, durante a viagem e depois. Não a vontade de viver, nem uma resignação consciente: pois são poucos os homens capazes disso, e nós mais não éramos que uma vulgar amostra de humanidade”.

"A persuasão de que a vida tem uma finalidade está enraizada em todas as fibras do homem, é uma propriedade da substância humana. Os homens livres dão a essa finalidade muitos nomes, e sobre a sua natureza muito se debruçam e discutem; mas para nós a questão é mais simples. 
Agora e aqui, a nossa finalidade é chegar à Primavera. Neste momento, nada mais nos preocupa. Por detrás desta meta, neste momento, não há outra meta. De manhã, quando em fila na Praça da Chamada, esperamos durante um tempo interminável a hora de partir para o trabalho, e cada sopro de vento penetra por debaixo das nossas roupas e corre em arrepios violentos pelos nossos corpos sem defesa, e tudo em volta está cinzento, e nós estamos cinzentos; de manhã, ainda antes de o dia chegar, todos observamos o céu do lado do Oriente para espreitar os primeiros indícios da estação amena, e o nascer do Sol é todos os dias comentado: hoje foi um pouco mais cedo do que ontem; hoje está um pouco mais calor do que ontem; dentro de dois meses, dentro de um mês, o frio dar-nos-á tréguas e teremos um inimigo a menos. 
Hoje, pela primeira vez, o Sol nasceu vivo e nítido por cima do horizonte lamacento. É um sol polaco, frio, branco e longínquo e não consegue aquecer para além da epiderme; mas, quando se libertou das últimas neblinas, um murmúrio percorreu a massa descorada que somos e, quando também senti a tepidez através da roupa, compreendi como se pode adorar o Sol". 

"Sucumbir é o mais simples: basta cumprir todas as ordens que se recebem, comer só a ração, obedecer à disciplina do trabalho e do campo. A experiência demonstrou que só em casos excecionais, desta forma, se pode durar para além dos três meses. Todos os ‘muçulmanos’ que vão para a câmara de gás têm a mesma história, ou, melhor dizendo, não têm história; seguiram o declive até ao fundo, naturalmente, como os rios vão desaguar no mar. Depois de terem ingressado no campo, por sua incapacidade essencial, ou por azar, ou por qualquer acidente banal, sucumbiram antes de poderem habituar-se; estão sempre atrasados... a sua vida é breve, mas o seu número é enorme... dentro deles apagou-se a centelha divina, já demasiado vazios para sofrer de verdade... eles povoam a minha memória com a sua presença sem rosto e, se pudesse resumir numa única imagem todo o mal do nosso tempo, escolheria esta, que me é familiar: um homem ressequido, com a testa baixa e os ombros curvados, em cujo rosto e em cujos olhos não se pode ler qualquer sinal de pensamento. E os que sucumbiram não têm história, e um só amplo é o caminho da perdição, os caminhos da salvação são, pelo contrário, muitos, difíceis e imprevisíveis". 

Na vida comum "não é frequente acontecer que um homem se perca, pois normalmente não está só e, no seu subir e descer, está ligado ao destino dos que o rodeiam; pelo que só excecionalmente acontece que alguém cresça sem limites ou desça continuamente de derrota em derrota até à ruína. Mais, cada um possui habitualmente recursos, espirituais, físicos e também económicos, capazes de tornar ainda menos provável a eventualidade de um naufrágio, de uma carência perante a vida. Acrescente-se ainda que uma sensível ação de amortecimento é exercida pela lei e pelo sentido moral, que é a lei interior; de facto, considera-se tanto mais civilizado um país quanto mais sábias e eficazes são as leis que impedem ao miserável ser demasiado miserável e ao poderoso demasiado poderoso... Mas no Lager tudo acontece de outra forma: aqui, a luta para sobreviver é sem remissão, porque cada um está desesperada e ferozmente só. Se um Null Achtzenh qualquer vacilar, não encontrará quem lhe estenda a mão, mas sim alguém que o deitará abaixo, pois ninguém está interessado em que um «muçulmano» (nome pelo qual são chamados os fracos, os ineptos, os votados à seleção para serem mortos) a mais se arraste todos os dias para o trabalho; e se alguém, com um milagre de paciência selvagem e astúcia, encontrar nova combinação para escapar ao trabalho mais duro, uma nova artimanha que lhe proporcione algumas gramas de pão, procurará manter secreta a forma como o conseguiu, e por isso será estimado e respeitado, e tirará um lucro exclusivo e pessoal; tornar-se-á mais forte, os outros terão medo dele e, por isso mesmo, será um candidato à sobrevivência". 

"As personagens deste livro não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrem... Mas Lorenzo era um homem; a sua humanidade era pura e incontaminada, estava fora deste mundo de negação. graças a Lorenzo, aconteceu-me não esquecer que também eu era um homem". 

Pobre e ingénuo Kraus. Se soubesse que… para mim também ele é nada, a não ser um breve momento, nada como aqui tudo é nada, a não ser a fome dentro de nós, e o frio e a chuva à nossa volta".

O livro começa com o seguinte poema:
«Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não
Considerai se isto é uma mulher
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno. 
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração.
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara»

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Papa Francisco - A força da vocação

PAPA FRANCISCO (2018). A força da vocação. A vida consagrada hoje. Conversa com Fernando Prado, cmf. Prior Velho: Paulinas Editora. 104 páginas.

A figura do Papa Francisco é incontornável na atualidade e a simpatia que foi granjeando não esmoreceu; é escutado com agrado e apreciado nos gestos que assume, ainda que esteja também sujeito à crítica, por vezes daqueles que estão mais próximos e que deveriam ser amigos e defensores dos desafios que o Papa tem lançado à Igreja e ao mundo.
Os meios de comunicação social do Vaticano, mas também outros meios de comunicação, fazem-nos chegar todos os dias intervenções, mensagens, discursos, homilias do Papa Francisco, para já não falar das frases ou textos que lhe são atribuídos e que não foram por ele proferidos, mesmo que alguns depois defendam, como desculpa e justificação, que tais palavras correspondem à sua sensibilidade e que poderia ter sido ele a dizê-las. Enfim!
Também por isso, é mais garantido ir às fontes, procurar sítios seguros e de confiança, como as páginas do Vaticano na Internet, conferir se esta ou aquela mensagem que gostamos e queremos partilhar corresponde efetivamente às palavras do Papa, até porque às vezes, juntando uma foto do Papa, se divulga uma mensagem pessoal. Pode ser interessante, mas, se intencional, não deixa de ser aproveitamento da "imagem" para vender, para ter mais likes!
Há muita coisa escrita sobre o Papa Francisco, mas nada melhor, que ler o que ele diz e/ou escreve. Um comentário sobre o seu magistério, sobre as suas intervenções, é interessante e pode ajudar-nos a captar melhor a mensagem, as antes ou depois do comentário, é essencial que se leia e/ou se ouça o Papa em primeira mão. As homilias, as mensagens, os discursos, outras intervenções, por exemplo, no twitter, estão acessíveis e a qualquer momento pode serem consultados. Uma entrevista, no entanto, apresenta curiosidades, pois, neste como em outros casos, o entrevistador faz questão de descrever o espaço da entrevista, os gestos, a postura, o sorriso, os silêncios, o entusiasmo do Papa, e a interpretação das "emoções" que o papa vai deixando transparecer.
Nesta entrevista em concreto, o tema fulcral é a vida consagrada no tempo atual, revisitando o passado, olhando para o presente, perspetivando o futuro. Por ocasião da celebração do Ano de Vida Consagrada (2015-2016), o Papa endereçou uma Carta aos Consagrados. Motivado por esta missiva e por este ano da vida consagrada, o e. Fernando Prado, missionário claretiano, solicitou esta entrevista ao Papa Francisco.
O discurso simples, com imagens, pequenas histórias vividas na primeira pessoa ou que lhe foram comunicadas por alguém, boa disposição, tocando nos pontos essenciais que, segundo o Papa, é preciso alterar para que a vida consagrada continue ser profética, valorizando a pobreza, em detrimento das seguranças e das riquezas materiais, a oração, o estudo, o discernimento vocacional, a inserção na vida e na missão da Igreja, conservar o que aproxima de Cristo, do Evangelho e das pessoas, corrigir os desvios, tratar os consagrados, religiosos respeitando a sua identidade e o carisma das suas congregações, evitando "escravidão" dos mesmos ao serviço de algum projeto eclesial, diálogo entre consagrados e o Bispo diocesano, são alguns do temas que vale a pena refletir. Mais uma vez, o que vale para os consagrados, vale também para os Seminários e para as vocações, mas vale também para os cristãos, no seu conjunto, nomeadamente na questão do discernimento vocacional, do estudo, da vida de oração, da inserção à Igreja, do compromisso missionário, do respeito pelo tempo de cada um, pelo crescimento da fé.
O Papa coloca, nesta entrevista, mais uma vez o foco no discernimento. As regras são importantes, mas mais importantes são as pessoas, com as suas limitações e com os seus dons. Vincado também o diálogo jovens-idosos, vale para a Igreja, para a sociedade, vale para os Institutos de Vida consagrada. "Os jovens caminham rapidamente, mas os mais velhos conhecem o caminho". Cuidado com as generalizações. A rigidez é negativa. "O verdadeiro amor nunca é rígido". Caminhar em conjunto... Não existem soluções mágicas. É esse o meu critério: o triunfalismo nunca é de Jesus. O triunfo de Jesus, o verdadeiro triunfo, é sempre a Cruz".
E, claro, muito cuidado com o clericalismo. Na formação, 4 pilares: vida espiritual, vida comunitária, vida de estudo e vida apostólica. "Condescendência, de Jesus, que desceu para se inserir no povo. Ora o clericalismo é o oposto da inserção... O clericalismo é a raiz de muitos problemas... Inclusive, por trás dos abusos, além de outras imaturidades e neuroses, está o clericalismo. É preciso ter muito cuidado com isto na formação. É necessário discernir e ajudar a clarificar imaturidades e acompanhar o formando num saudável crescimento".