terça-feira, 25 de abril de 2017

Paróquia de Tabuaço | Semana Santa - 2017

       Vídeo com fotos da vivência da Semana Santa, 9 a 16 de abril de 2017, na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, de Tabuaço. Músicas de fundo do frei Acílio Mendes e de Paulo Emanuel (Harmonização).

Festa de São Marcos, Evangelista

Nota biográfica:
       Era primo de Barnabé. Acompanhou o apóstolo Paulo na sua primeira viagem, e depois também o acompanhou a Roma. Foi discípulo de Pedro, de cuja pregação se fez intérprete no Evangelho que escreveu. É-lhe atribuída a fundação da Igreja de Alexandria.

Oração de Coleta:
       Senhor, que confiastes ao evangelista São Marcos a missão de proclamar o Evangelho, fazei que aproveitemos de tal modo os seus ensinamentos que sigamos fielmente os passos de Cristo. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Da Epístola de São Pedro:
       Revesti-vos de humildade, uns para com os outros, porque «Deus resiste aos soberbos e dá a graça aos humildes». Humilhai-vos sob a poderosa mão de Deus, para que Ele vos exalte no tempo oportuno. Confiai-Lhe todas as vossas preocupações, porque Ele vela por vós. Sede sóbrios e vigiai. O vosso inimigo, o diabo, anda à vossa volta, como leão que ruge, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé, sabendo que os vossos irmãos espalhados pelo mundo suportam os mesmos sofrimentos. O Deus de toda a graça, que vos chamou para a sua eterna glória em Cristo, depois de terdes sofrido um pouco, vos restabelecerá, vos aperfeiçoará, vos fortificará e vos tornará inabaláveis. A Ele o poder e a glória pelos séculos dos séculos. Amen. Foi por meio de Silvano, a quem considero irmão de confiança, que vos escrevi estas breves palavras, para vos exortar e assegurar que é esta a verdadeira graça de Deus. Permanecei firmes nela. Saúda-vos a comunidade estabelecida em Babilónia, eleita como vós, e também Marcos, meu filho. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo da caridade. Paz a todos os que estais em Cristo (1 Pedro 5, 5b-14)

FONTE: Secretariado Nacional da Liturgia
Para saber mais sobre este Evangelista e o seu Evangelho sugerimos:
Introdução ao Evangelho segundo Marcos, de D. Antonio Couto: AQUI.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

VL – Deus da Páscoa, da criação e da salvação


Deus. Amor. Criação. Vida. Humanidade. Harmonia. Cumplicidade. Diálogo. Alegria.
Homem e Mulher. Fragilidade. Pecado. Egoísmo. Discussão. Violência. Inveja. Morte.
Chamamento. Promessa. Aliança. Profecia. Conversão. Perdão. Misericórdia.
Jesus Cristo. Abaixamento. Compaixão. Vida nova. Nova criação. Salvação. Ressurreição.
Chamamento. Vocação. Seguimento. Discípulos. Missionários. Espírito Santo. Igreja.
Fraternidade. Humildade. Escuta. Obediência. Verdade. Libertação. Caridade.
        Deus criou-nos por amor. Desde toda a eternidade e para sempre, Deus nos ama, como Pai e sobretudo como Mãe. A Páscoa de Jesus, a Sua ressurreição entre os mortos, clarifica, ilumina, torna percetível e pleniza a Encarnação, mistério de abaixamento, Ele que era de condição divina não se valendo da Sua igualdade com Deus, assumiu a condição de servo, humilhou-se a Si mesmo, obedecendo até à morte e morte de Cruz. Por isso Deus O exaltou e lhe deu o NOME que está acima de todos os nomes.
       A vinda do Filho Unigénito de Deus aproxima a eternidade do tempo. Deus que nunca Se afastou nem Se distanciou, tornou-Se visível em Jesus Cristo. Não há como voltar atrás. Ele está no meio de nós como Quem serve, sempre e para sempre. Ao longo da Sua vida, sobretudo, ao longo dos três anos de vida pública, Jesus viveu para servir, para amar, para gastar a vida, para salvar, integrar, redimir, incluir todos os que andavam dispersos pelo pecado, pelas trevas e pela morte.
       Foi crescendo em graça e sabedoria, diante de Deus e dos homens e chegada a Sua hora espalhou bondade e doçura, procurando os que andavam cansados e abatidos, como ovelhas sem pastor, indo às margens para Se encontrar com os que se tinham perdido pela solidão, pela pobreza, pela exclusão social, cultural e religiosa. Contundente contra os que usavam de artimanhas e hipocrisias, escravizando pessoas e perpetuando situações de pecado, de abuso, de corrupção; dócil, próximo, misericordioso para leprosos, cegos, coxos, crianças, mulheres, publicanos, pecadores, estrangeiros. Veio para incluir, revelando a Misericórdia de Deus Pai. O Seu projeto e o Seu propósito, o Seu alimento e a Sua vida: em tudo fazer a vontade do Pai. E a vontade do Pai é que todos se salvem.
       Qual manso Cordeiro levado ao matadouro, inocente, arrastado para julgamento, condenado à morte, à ignomínia da Cruz, como malfeitor. Da Sua boca não se ouviram injúrias! Procurando-nos com o Seu olhar compassivo para nos manter vivos, como a Pedro ou a Judas; elevando o olhar, o coração e a vida para o Pai, nas mãos de Quem Se coloca por inteiro e em Quem nos coloca.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4408, de 18 de abril de 2017

VL – Caminhemos ao Calvário… e logo à Páscoa!

       Iniciámos a Semana Santa, a semana maior, pois nela se visualiza, de forma mais viva e intensa, o mistério maior da nossa fé, a paixão redentora de Jesus, que dá a vida por nós, e a Sua ressurreição gloriosa, certeza que a última palavra é da vida, é do amor, é de Deus.
       Até à Páscoa solene (anual) somos envolvidos nas últimas horas de vida de Jesus, centrados especialmente no processo rápido que O leva da ceia pascal ao Calvário, revelando-nos por inteiro o mistério de amor, de dádiva, de libertação, de resistência ao sofrimento, de priorização de Deus e da Sua vontade, de ousadia e de humildade, de perdão e de compaixão.
       Jesus manda preparar a Páscoa. É um momento de festa, de convívio, de encontro e de memória. A comunidade reúne-se para celebrar a libertação; em família, relembra-se tudo quanto fez o Senhor, Deus de Israel, a favor do povo, para que as gerações vindouras vivam agradecidas e voltadas para o Senhor.
       Quando a Ceia se aproxima do fim, Jesus antecipa a Sua morte e ressurreição, instituindo a Eucaristia: sempre que fizerdes isto, fazei-o em memória de Mim. Este é o Meu Corpo. Este é o Meu sangue, entregue por vós e a vós confiado para a salvação do mundo.
       Terminada a refeição, Jesus sai com os discípulos para o Jardim das Oliveiras. A noite convida ao descanso. Mas não são horas para dormir, são horas de vigiar, de rezar com insistência. Pelo menos da parte de Jesus. Aproximam-se trevas densas, tenebrosas, mas mais do que a falta de luminosidade exterior é a falta de luz nos corações. Quem não tem luz no coração vive mergulhado na morte.
       Naquela hora, Jesus penetra o sofrimento mais atroz. O desfecho está à vista. Um pouco mais, e ainda escuro, na noite de Judas e das lideranças judaicas, Jesus será preso, julgado, condenado à morte. Alguns minutos, algumas horas, e o fim virá! Pai, Pai, Pai, se é possível que passe de Mim esta hora, que passe rápido. Tanto sofrimento para um Homem só. Os gritos de Jesus levam os nossos gritos também. Pai, Pai, Pai, cumpra-se a Tua vontade. É mortal este caminho de entrega, é dom, mas é o caminho da salvação. Não há armas para lutar. A vida ganha-se pela fragilidade/força do amor, pela benevolência, pela misericórdia. O ódio, a guerra, a inveja, só geram mais discórdia, mais destruição, mais desumanização.
       Caminhemos com Jesus até ao calvário, até à cruz, e Ele nos mostrará a Luz!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4407, de 11 de abril de 2017

VL – Papa Francisco e as periferias no centro

       Completam-se quatro anos da eleição do surpreende Cardeal Jorge Mario Bergoglio para a Cadeira de São Pedro. Com a escolha do nome, Francisco, na referência a São Francisco de Assis, a primeira marca do pontificado, a pobreza como caminho, “uma Igreja pobre para os pobres”, Igreja despojada ao serviço dos mais frágeis. Da América Latina, o papa argentino traz a teologia do povo, desligando a fé e a religião de qualquer tentativa de manipulação político-partidária. «A imagem da Igreja de que gosto é a do povo santo e fiel de Deus… Deus na história da salvação salvou um povo. Não existe plena identidade sem pertença a um povo. Ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos considerando a complexa trama de relações interpessoais que se realizam na comunidade humana. Deus entra nesta dinâmica do povo… E a Igreja é o povo de Deus a caminho na história, com alegrias e dores».
       Cada Papa traz a sua marca espiritual, cultural, a sua riqueza pessoal, o seu amor à Igreja e a fidelidade a Jesus. Ao bom Papa João, que convocou o Concílio Vaticano II para “atualizar” o compromisso do Evangelho com o mundo, sucedeu o grande Papa Paulo VI, que concluiu o Concílio, enfrentando sérias dificuldades vincadas por uma cultura plural, livre, contestatária! Breve o pontificado de João Paulo I, mas significativo, o Papa do sorriso e da certeza de que Deus é Pai mas é mais Mãe. Logo o entusiasta João Paulo II, com a experiência de uma Igreja perseguida e silenciada, para uma presença global, nas viagens e nos meios de comunicação social, a ética, o corpo, a família, os jovens, a vida humana, a dignidade de cada pessoa. Pontificado mais curto, o do sábio Bento XVI, recentrando a Igreja e o mundo em Cristo, procurando fazer da Igreja a nossa casa, onde nos sentimos bem, atraindo outros para entrarem ou para regressarem, lançando pontes com a cultura e com a ciência. Há quatro anos, chegou a frescura de uma Igreja jovem, afetiva, próxima, vinda de uma região pobre… o Papa Francisco surpreendeu desde a primeira hora, com gestos de simplicidade, de alegria e de proximidade que continuam a conquistar pessoas.
       Na primeira homilia, os propósitos: CAMINHAR, EDIFICAR, CONFESSAR: «Quando não se caminha, ficamos parados. Quando não se edifica sobre as pedras, que acontece? Acontece o mesmo que às crianças na praia quando fazem castelos de areia: tudo se desmorona, não tem consistência… Quando não se confessa Jesus Cristo, confessa-se o mundanismo do diabo, o mundanismo do demónio…».

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4403, de 14 de março de 2017

VL – O Jejum que Eu quero é a Misericórdia

É mais importante não comer carne à sexta-feira ou ir à Missa ao Domingo?
       Há tradições que são expressão da religiosidade mais popular. Mas, por vezes, parecem não passar de uma superstição entre outras como ver um gato preto, passar debaixo de uma escada, sentar-se a uma mesa com treze pessoas. É crucial não comer carne nas sextas-feiras da Quaresma porque é pecado e, pelo sim pelo não, mais vale prevenir e cumprir, não vá Deus chatear-Se. Temor sim, medo não. Deus ama-nos. É Pai de Misericórdia. Um Pai por certo não está à espera que o filho erre para o castigar, quando muito educa-o, dá-lhe ferramentas, aponta direções, caminhos…
       Perguntam-me se comer carne às sextas-feiras da Quaresma é pecado! Apetecia-me responder: é mais importante ir à Missa ao Domingo. Uma pessoa não vai à Missa há dois ou três anos, só entra na Igreja num funeral, e depois pergunta se é pecado comer carne à sexta-feira? Claro que há muitas outras coisas essenciais, cuidar da família, comprometer-se com a justiça e com a verdade, ser honesto, ajudar os mais frágeis… Mas se falamos numa proposta feita pela Igreja, de abster-se de alguma coisa que se gosta muito, e que pode muito bem ser a carne, e que esse gesto (sacrifício) possa beneficiar uma causa, pessoas mais carenciadas, então talvez faça sentido interrogar-se sobre o que é essencial na vivência e expressão da fé!
       Dois belíssimos textos no início da Quaresma. «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e rico em misericórdia» (Joel 2, 12-13). «O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injus­tamente, livrá-los do jugo que levam às cos­tas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opres­são, repartir o teu pão com os esfo­meados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não des­prezar o teu irmão» (Is 58, 6-7).
       Pergunta o Papa Francisco: como se pode pagar um jantar de duzentos euros e depois fazer de conta que não se vê um homem faminto à saída do restaurante? «Sou justo, pinto o coração mas depois discuto, exploro as pessoas… Eu sou generoso, darei uma boa oferta à Igreja… diz-me: tu pagas o justo às tuas colaboradoras domésticas? Aos teus empregados pagas o salário não declarado? Ou como a lei estabelece, para que possam dar de comer aos filhos?».
       Desafia Jesus: «Ide aprender o que significa: prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mt 9, 13).

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4405, de 28 de março de 2017

VL – Largar a pele da serpente, revestir-se de Cristo

       Quem tem familiaridade com o campo é possível que, por mais de uma vez, tenha encontrado a pele de uma cobra. Por vezes a pele encontra-se quase inteira, como se de repente a cobra despisse uma camisa e vestisse outra. A pele das cobras é constituída por escamas. Mudam de pele periodicamente. Uma das finalidades desta muda será remoção dos parasitas. Outra explicação plausível é que as cobras crescem constantemente e precisam de largar a pele que as aprisiona e limita por uma nova pele, maior, que as liberta para continuarem a crescerem.
       A Quaresma encaminha-nos e prepara-nos para a Páscoa, vida nova, luz e salvação, a vastidão do Céu chega para toda a humanidade. Neste caminho somos desafiados à renúncia, à penitência. É um tempo de conversão e de esperança. É caminho (pessoal e comunitário) mas já iluminado pela ressurreição de Jesus. A mudança de vida é uma constante na vida do discípulo de Jesus Cristo. Fomos batizados na água e no Espírito Santo, tornamo-nos novas criaturas. A vida toda é esta configuração à nossa origem batismal.
       Um dos ritos do batismo é o da veste branca. “Agora és nova criatura e estás revestido de Cristo. Esta veste branca seja para ti símbolo da dignidade cristã”. Se voltarmos ao exemplo da renovação da pele na cobra, também esta veste nos reveste por inteiro. A cobra cresce e precisa de mudar de pele, libertando-se. Nós crescemos desde o batismo, precisamos de viver numa tensão permanente para fazer com que a nossa vida nos faça crescer na santidade, afeiçoando-nos a Cristo, isto é, adotando as feições de Cristo, ficando parecidos com Ele. Qual é a nossa pele antiga que nos aprisiona? Tudo o que nos impede de transparecer e testemunhar Jesus. Tudo o que nos afasta dos outros, o nosso egoísmo, o orgulho, a sobranceria, a avareza, a prepotência a inveja, o endeusamento do nosso ego.
        Mas alguém poderá perguntar: se é só a pele que muda então nada muda interiormente? Se nos fixarmos no exemplo da cobra talvez tenhamos alguma razão. Contudo, o desprendimento da pele velha expressa o seu crescimento e, portanto, todo o corpo da cobra cresce, além de se libertar dos parasitas. Como cristãos revestimo-nos de Cristo para que toda a nossa vida se transforme, libertando-nos dos parasitas que nos impedem de ser imagem e semelhança de Deus, rosto e presença de Jesus Cristo para as pessoas do nosso tempo.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4404, de 21 de março de 2017

VL - Resiliência na oração

       A Quaresma recentra-nos tradicionalmente em três dinâmicas para melhor vivermos a Páscoa do Senhor: a oração, o jejum e a esmola. São vistas como expressões da conversão interior, da adesão decidida a Jesus e ao Seu Evangelho, como concretização do nosso compromisso em nos tornarmos discípulos missionários, identificando-nos com o Mestre da Docilidade para, como Ele e com Ele, nos fazermos próximos dos outros e os acolhermos como irmãos.
       A oração é o ponto de partida e o chão que nos move para Deus. E se a oração é autêntica levar-nos-á a querer o que Deus quer. Na oração predispomo-nos a encontrar a vontade de Deus para nós. A referência é Jesus Cristo, cuja vontade paterna é o Seu programa de vida, o Seu alimento. Eu venho, ó Deus, para fazer a Vossa vontade. Faça-se não o que Eu quero, mas o que Tu queres! A oração não é fácil. Ou nem sempre é fácil, sobretudo quando a vida não corre de feição. Ainda assim não devemos deixar de rezar, de suplicar, de louvar, de agradecer a Deus, a chuva e o sol, o vento e a névoa!
       Alguns modelos de oração combativa: Abraão, Jacob, Moisés, Ana, Job, David, Jesus.
       Abrão “negoceia” com Deus, insistindo até ao limite, com veemência, tentando proteger a cidade de Sodoma e de Gomorra. É um dos exemplos muito queridos ao Papa Francisco. Jacob é aquele que luta com Deus pela noite dentro e, por isso, o seu nome é mudado para Israel, porque lutou com Deus e venceu. Moisés eleva os braços, o coração, a vida para Deus, intercedendo uma e outra vez pelo povo, de dura servis, mas ainda assim o povo que Deus lhe confiou. Ana, mãe de Samuel, que persiste na oração até que Deus lhe concede o que deseja. Job, na imensidão do mistério de Deus, no confronto com a desgraça pessoal e familiar, não desiste de se dirigir a Deus, convocando-O à justiça. E Deus responde-lhe. David, grande Rei – o Papa Francisco invoca-o como São David – apesar do grave pecado contra o próximo, tomando a mulher de Urias e provocando-lhe a morte, não deixa de dialogar com Deus, penitente, arrependido, assumindo as consequências do seu pecado, protegendo o povo. E, claro, a oração de Jesus. Em todos os momentos cruciais da Sua vida, Jesus respira oração, suplicando, louvando, agradecendo, oferecendo. A sua vida faz-se oração, mas Jesus reserva momentos específicos para orar a Deus Pai: antes da vida pública, antes de escolher os apóstolos, na realização de milagres, antes do Calvário… e na Cruz!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4406, de 4 de abril de 2017

VL – Eu Sou o Caminho que vos conduz ao Pai – 2

       O Cardeal Joseph Ratzinger (Bento XVI), há uma vintena de anos, sublinhava que para o reino de Deus há tantos caminhos quantas as pessoas, o que obviamente não anula o facto de Jesus ser o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14, 6). Com efeito, o meu caminho, o teu caminho, há de levar-nos a Jesus, há de levar-nos ao Pai. Sendo assim, quanto mais perto eu estiver de Jesus e quanto mais perto tu estiveres de Jesus, mais perto vamos estar um do outro. E se estamos próximos poderemos apoiar-nos mutuamente, ajudar-nos, incentivar-nos quando um de nós estiver a fraquejar.
       A Quaresma é reconhecidamente tempo de conversão e de penitência, tempo de esperança e de mudança de vida. É caminho de santidade, de aperfeiçoamento, ou seja, caminho de humanização. Preparamo-nos ao longo de toda a vida para entrarmos na morada eterna no Pai. Caminhamos mas não sozinhos. Seguem connosco todos os que Deus colocou à nossa beira e que coincidem connosco no tempo e no espaço. Mas também nos acompanham os santos, aqueles que vieram antes de nós e nos ensinaram, imitando Jesus, o caminho da docilidade, da bondade, do serviço à pessoa e à humanidade e, agora junto de Deus, atraem-nos e desafiam a viver no bem que nos irmana. Com a ajuda de Deus e dos irmãos eles chegaram lá, nós também havemos de lá chegar. E o caminho começa AGORA na nossa vida diária.
       No Reino de Deus não há excluídos (à partida), todos fomos criados por amor, para vivermos em abundância e sermos felizes (=santos). Por conseguinte, estamos "condenados" a aproximar-nos uns dos outros. Na verdade, diz-nos Jesus, Deus é Pai de todos e «faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos» (Mt 5, 45). A bênção recai sobre todos. Temos afinidades, mas nem por isso estamos dispensados de amarmos até os nossos inimigos, os que nos são indiferentes, os que desprezamos. Aliás, questiona Jesus, que vantagem haveria em amar aqueles que nos amam? Isso todos podem fazer. Os discípulos de Jesus são desafiados ao máximo. E o máximo é Deus. «Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48).
       A vinda de Jesus ao mundo, Deus que Se faz Homem, tem como missão reconciliar-nos uns com os outros e com Deus. Pelo mistério da Sua morte e da Sua ressurreição, Jesus resgata-nos das trevas, do pecado e da morte, para nos reconduzir ao Coração do Pai.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4402, de 7 de março de 2017

VL – Eu Sou o Caminho que vos conduz ao Pai

       No diálogo bem conhecido com os discípulos (cf. Jo 14, 1-6), Jesus responde diretamente a Tomé: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim. Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Mas desde agora já O conheceis e já O vistes». E logo de seguida a Filipe: «Quem Me vê, vê o Pai».
       Iniciamos o ciclo da Páscoa neste ano pastoral 2016-2017. O tempo santo da Quaresma encaminha-nos e prepara-nos para a Páscoa, envolvendo-nos na vivência mais consciente da Liturgia da Palavra, comprometendo-nos com o mundo atual em que vivemos, para chegarmos a ser, nas palavras de Jesus, sal da terra e luz do mundo.
       No caminho da Quaresma a oração, o jejum e a esmola (cf. Mt 6, 1-18). A oração para nos sintonizar com Deus e com a Sua palavra, na certeza que a proximidade a Deus nos impele ao encontro dos irmãos.
       O jejum como gesto e oportunidade de tomarmos consciência que a vida não depende só daquilo que comemos, mas tem como referencial e fundamento o próprio Deus (cf. Mt 6, 25ss). A vida é um dom inalienável. Recebemo-la de Outro, através dos nossos pais, pelo que o direito sobre a vida, a nossa e a dos outros, não nos pertence. O que nos pertence é a missão de viver e viver em abundância (cf. Jo 10, 10). O jejum não é dieta, o jejum balança-nos para outros. «Tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12, 31)» (Bento XVI).
       Decorrente da vivência do Jejum, que nos recorda que o pão de cada dia deve chegar a todos, a prática da caridade, cuja esmola continua a ser uma belíssima tradição que não dispensa de refletir e lutar por mais justiça social e pela transformação das estruturas, humanizando-as. «A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia» (Bento XVI).

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4401, de 28 de fevereiro de 2017

Todos ficaram cheios do Espírito Santo

       A liturgia da Palavra em tempo de Páscoa vai mostrando como a comunidade dos primeiros discípulos fazem a experiência de Jesus ressuscitado e como dão testemunho da Sua presença, ainda que de forma gloriosa. Através deles, o Espírito de Cristo vai agindo na história. A condição para sermos discípulos é acolher o que vem de Deus, a predisposição para seguir Jesus nos caminhos atuais, com as suas dificuldades e com as suas potencialidades. Ele superará a nossa imperfeição, agirá também através de nós com as nossa fragilidades. Vejamos como Pedro e João agem em nome de Jesus:
Pedro e João, tendo sido postos em liberdade, voltaram para junto dos seus e contaram-lhes tudo o que os príncipes dos sacerdotes e os anciãos lhes tinham dito. Depois de os ouvirem, invocaram a Deus numa só alma, dizendo: «Senhor, Vós fizestes o céu, a terra, o mar e tudo o que neles se encontra; Vós dissestes, mediante o Espírito Santo, pela boca do nosso pai David, vosso servo: ‘Porque se agitaram em tumulto as nações e os povos intentaram vãos projectos? Revoltaram-se os reis da terra e os príncipes conspiraram juntos contra o Senhor e contra o seu Ungido’. Na verdade, Herodes e Pôncio Pilatos uniram-se nesta cidade com as nações pagãs e os povos de Israel contra o vosso santo servo Jesus, a quem ungistes. Assim cumpriram tudo o que o vosso poder e sabedoria tinham de antemão determinado. E agora, Senhor, vede como nos amea¬çam e concedei aos vossos servos que possam anunciar com toda a confiança a vossa palavra. Estendei a vossa mão, para que se realizem curas, milagres e prodígios, em nome do vosso santo servo Jesus». Depois de terem rezado, tremeu o lugar onde estavam reunidos: todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a anunciar com firmeza a palavra de Deus. (Actos 4, 23-31).
       No Evangelho, proposto para este dia, o encontro luminoso entre Jesus e Nicodemos:
Havia um fariseu chamado Nicodemos, que era um dos principais entre os judeus. Foi ter com Jesus de noite e disse-Lhe: «Rabi, nós sabemos que vens da parte de Deus como mestre, pois ninguém pode realizar os milagres que Tu fazes se Deus não está com ele». Jesus respondeu-lhe: «Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer de novo não pode ver o reino de Deus». Disse-Lhe Nicodemos: «Como pode um homem nascer, sendo já velho? Pode entrar segunda vez no seio materno e voltar a nascer?» Jesus respondeu: «Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que nasceu da carne é carne e o que nasceu do Espírito é espírito. Não te admires por Eu te haver dito que todos devem nascer de novo. O vento sopra onde quer: ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito». (Jo 3, 1-8).
       Jesus diz a Nicodemos que é necessário nascer de novo, com a força do Espírito Santo que nos renova e transforma. É sob a inspiração e a fortaleza do Espírito Santo que os Apóstolos, sem temor, anunciam Jesus Cristo Ressuscitado. Há de ser com esta força que Nicodemos, e cada um de nós, se tornará discípulo de Jesus. É Ele que nos atrai, nos desafia e no envia. Cabe-nos permitir que o nosso coração se predisponha a esvaziar-se de nós, a morrer para o nosso egoísmo, para nos enchermos de Deus, para ressuscitarmos em Jesus Cristo.

domingo, 23 de abril de 2017

Paróquia de Távora | Semana Santa 2017

       Fotos, em formato de vídeos, das celebrações da Semana Santa, iniciando com a Via-Sacra, no sábado, dia 8 de abril de 2017, Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, Quinta-feira Santa, com a cerimónia do Lava-pés, o Domingo de Páscoa, com a Procissão da Ressurreição e grupo da Visita Pascal.

Paróquia de Pinheiros | Semana Santa 2017

       Vídeo com as fotos da Semana Santa na Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros: Domingo de Ramos, Sexta-feira Santa, Segunda-Feira de Páscoa.
       Músicas de fundo: Movimento da Mensagem de Fátima e Infinitus.

sábado, 22 de abril de 2017

Domingo da Divina Misericórdia - ano A - 23.abril.2017

       1 – "Eu cá tenho a minha fé". Não é nada que não tenhamos ouvido uma dúzia de vezes. Alguém que não frequenta assiduamente ou simplesmente não participa na vida da comunidade, clarificando que tem fé mas a Missa ou as atividades pastorais não lhe dizem respeito, pois resolve a sua vida com ligação direta e exclusiva a Deus. Claro que a não participação pode ter muitos fatores: "falta de tempo" e sobretudo disponibilidade interior, preguiça, desabituação, algum diferendo com outra pessoa que participa habitualmente, embate da vida com a fé, pois os problemas não foram resolvidos apesar da fervorosa oração, não utilidade prática da fé, falta de ligação à comunidade atual onde reside, com a qual não se identifica; não gosta do pároco; dúvidas e incertezas da fé; ainda à procura…
       Na ambiência da Páscoa vemos como a comunidade é essencial para acolher e reconhecer o Crucificado-Ressuscitado, para perceber que Ele está vivo e está no MEIO, no centro da comunidade. A fé fortalece-se e clarifica-se com os que caminham connosco. Uma pessoa sozinha nem para comer serve. Na vida, quem se encontra só acabará por duvidar de si mesmo, desaprendendo a interagir, a viver, a humanizar as palavras e ações. Quando estamos um tempo sem falar, depois parece que as palavras não saem, não articulamos os sons com os movimentos. Por isso, se recomenda que antes de falar e sobretudo cantar se beba água e, eventualmente, se façam alguns exercícios com as cordas vocais.
       Mesmo quando temos certezas sobre alguma matéria necessitamos que os outros o confirmem para nos sentirmos mais seguros e mais tranquilos na hora de dizermos ou de fazermos.
       2 – O definitivo, aquilo que leva à conversão, à adesão a Cristo, à fé na Ressurreição não é o túmulo vazio nem a inspiração pessoal (quando esta acontece visa a comunidade), mas o encontro com o Ressuscitado em dinâmica comunitária. Maria Madalena vai ao sepulcro e, não vendo o corpo de Jesus, vai ter com os discípulos para lhes dizer o que viu (São João); Pedro e o discípulo amado recebem a notícia e dirigem-se ao sepulcro, o discípulo amado não entra sem Pedro; a Maria Madalena e outra Mulher Jesus recomenda que vão ter com os discípulos e lhes digam que os encontrará na Galileia (São Mateus). Os discípulos de Emaús reconhecem Jesus ao partir do pão, isto é, no momento mais comunitário dos cristãos, à volta da mesa, unidos a Deus, em comunhão com os irmãos (São Lucas), e logo regressam à comunidade, para junto dos outros discípulos testemunharem o que viram e ouviram, o que viveram.
       Na tarde daquele primeiro dia, Jesus apresenta-Se no MEIO deles. É Jesus que toma a iniciativa. Vem ao nosso encontro e assume o lugar que Lhe pertence. É assim que Ele Se coloca, é assim que devemos colocá-l'O se verdadeiramente queremos ser Seus discípulos. E, obviamente, se estamos voltados para Jesus, se Ele sustenta o nosso olhar, o nosso coração, a nossa vida, começa então a comunhão com todos aqueles e aquelas que se voltam para Jesus e O colocam como centro de suas vidas, porque é Ele que nos une, nos congrega, como vide que sustém os ramos!
       Sublinhe-se também a dinâmica do Domingo, o Dia do Senhor. A Ressurreição marca o início de um tempo novo, é o primeiro dia da nova criação, é o Dia por excelência em que nasce a Igreja, Corpo de Cristo. É nesse mesmo dia que Jesus aparece aos discípulos, congregados em comunidade.
       Oito dias depois, Jesus volta a encontrar-Se com os Seus discípulos, coloca-Se novamente no meio deles. E se na semana anterior, no primeiro domingo, Tomé não estava, desta feita, no segundo domingo, já está em comunidade, reunido a aguardar a vinda do Senhor. E é em comunidade que faz a experiência de encontro com Jesus. Os outros fizeram a sua missão, contaram-lhe o que havia sucedido, mas Tomé precisa de tempo e de se deixar encontrar por Jesus. Nem todos temos o mesmo ritmo. Cada pessoa faz o seu caminho, mas se cada um se encaminhar para Cristo, formaremos a comunidade dos cristãos.
       3 – Não, não é a Cruz que mata Jesus. Não, não é a Cruz que nos mata. Matam Jesus os nossos pecados, o nosso egoísmo; o que nos mata é a solidão, o colocar-nos como centro ou deixando que nos endeusem. O que nos mata é a preguiça em amar e fazer o bem. Mata Jesus a prepotência, a corrupção, a idolatria, a intolerância. Morremos, não quando o coração falha ou o cérebro se desliga, mas quando deixamos de amar, quando deixamos de sentir a vida e o apelo dos outros.
       É na Cruz que Jesus é morto, mas nem a Cruz O impede de nos encontrar. Jesus não dá as costas à Cruz, enfrenta-a, carrega-a, mas não foge. Ressuscitado, traz na Sua carne, na Sua vida, as marcas da crucifixão. Vede as minhas mãos e o meu lado, Sou Eu, não temais. E de forma ainda mais incisiva a Tomé: vê, toca, as minhas chagas, Sou Eu, não é um fantasma ou um espírito.
       A continuidade não é apenas no Corpo é também na mensagem e no envio.
       A descontinuidade é absoluta, é divina. A ressurreição é algo de novo, nunca visto, não faz parte da biologia humana. As aparições de Jesus geram alegria, mas também surpresa e temor. Aquele que vimos esmagado pelo sofrimento, agredido violentamente, obrigado a carregar o travessão da cruz, exausto pelas vergastadas e pela perda de sangue, pela desidratação, voltou à vida. Deus Pai, a Quem Se confiou, não O desapontou, ressuscitou-O. Ele vive e está no meio de nós.
       Num primeiro momento, as mulheres ficam atónitas. Na tarde desse primeiro dia também os discípulos ficam boquiabertos. Como (depois) a Tomé, também (antes) aos outros discípulos Jesus mostra as mãos e o lado e lhes comunica a paz, enviando-os.
       4 – «Meu Senhor e Meu Deus». Confissão de fé tão breve e tão intensa e clarificadora. Não é preciso muito mais. Quando algo de bom nos acontece precisamos de o partilhar, mas há momentos que não encontramos palavras. É o que acontece com Tomé. Já tinha ouvido dizer... mas agora depara-se com Jesus e com as marcas da Paixão, com as marcas do amor. Quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer. O amor imenso e intenso de Jesus fazem-n'O assumir as nossas dores e levar ao Calvário os nossos sofrimentos, para nos redimir, para nos livrar da morte eterna.
       Agora é a nossa vez. «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». Dou-vos a paz, deixo-vos a paz. Levai a paz a toda a criatura. Eu estarei convosco até ao fim dos tempos. Se passardes por momentos de dúvida e hesitação tocai as minhas feridas, as minhas chagas, então sabereis que Eu vivo, que Eu preciso de vós, do vosso olhar, das vossas mãos, do vosso coração. Felizes sereis se acreditardes e saboreardes a minha presença nos irmãos, nos seus dramas e nas suas necessidades. Vivei a alegria, espalhai a esperança, sarai os doentes, expulsai os demónios que destroem e desumanizam, que excluem e segregam, acolhei a vida, em todos os momentos, protegei os mais frágeis, amai e servi, construí comunidade, inclui os que chegam, animai os abatidos, confortai os cansados e desiludidos. Recebeste de graça, dai de graça. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos, a Mim o fareis.
       Com Cristo, como nos recorda São Pedro, fomos ressuscitados, para vivermos numa esperança viva, porém, enquanto estamos no tempo, caminhamos como peregrinos, sujeitos a provações. Como o ouro se prova pelo fogo, a nossa fé prova-se no tempo presente, vivendo, fazendo com que a fé seja vida, compromisso, transformação (positiva) do mundo em que vivemos. Não há outro mundo nem outra vida. É neste mundo e nesta vida que nos tornamos verdadeiramente filhos amados de Deus, acolhendo a Sua misericórdia, irradiando a Sua Paz e o Seu amor a todos os que encontramos, prosseguindo com os outros até à eternidade. A vida eterna já começou, está em ebulição. E como fez Jesus façamos nós também. As suas palavras e os seus gestos levaram-n'O à Cruz e da Cruz à ressurreição. O mesmo será connosco se vivermos para amar e para servir. Podemos ter que carregar a Cruz, mas se for o amor que nos conduz permaneceremos para sempre.

       5 – Uma das provações da fé passa pela inserção na comunidade crente e pelo compromisso com os outros, sobretudo os mais fragilizados pela doença, pela solidão ou pelas condições de vida. Uma fé autêntica liga-nos aos que professam a mesma fé em Jesus morto e ressuscitado. Não faz sentido, por mais justificações que tenhamos, ainda que honestas, que a fé nos isole. Não é possível rezar ao mesmo Pai se estamos em rutura com a comunidade, de costas voltadas ou indiferentes às necessidades dos irmãos.
      A primeira comunidade continua a ser referência e desafio: «Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações». Estão cá os elementos necessários para que a fé não seja superstição, ilusão, medo, idolatria. Tudo parte do encontro celebrativo, o ensino, a oração, a Eucaristia, com continuidade na vida: «Todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam propriedades e bens e distribuíam o dinheiro por todos, conforme as necessidades de cada um».
       Não há uma separação estanque entre a Eucaristia e a vida quotidiana. À Eucaristia levamos a nossa vida, com as suas inquietações e desafios, com as suas alegrias e tristezas. A Eucaristia envia-nos para o mundo, cheios de luz para irradiarmos a claridade de Jesus; alimentados de esperança e confiantes no amor de Deus, para alimentarmos os outros nas suas necessidades corporais e espirituais. Os membros da primeira comunidade viviam como se tivessem um só coração e uma só alma, louvando a Deus e atentos uns aos outros. É essa autenticidade (a continuidade entre a celebração da fé e a transformação do mundo) que move outros a querer entrar para a comunidade dos crentes, seguindo Jesus Cristo, para como Ele e com Ele ressuscitarmos no tempo até à eternidade.


Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 2, 42-47; Sl 117 (118); 1 Pedro 1, 3-9; Jo 20, 19-31.

Paróquia de Tabuaço | Festa do Pai Nosso - 2017

       Vídeo com as fotos da Festa do Pai-Nosso, do 2.º Ano de Catequese, da Paróquia de Tabuaço, celebrada no dia 19 de março de 2017, no dia do Pai. (Tradicionalmente também solenidade de São José, mas que este ano, por ser domingo da Quaresma, passou para segunda, dia 20 de março).

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Tendes alguma coisa para comer?

        Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, e Natanael, que era de Caná da Galileia. Também estavam presentes os filhos de Zebedeu e mais dois discípulos de Jesus. Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar». Eles responderam-lhe: «Nós vamos contigo». Saíram de casa e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. Ao romper da manhã, Jesus apresentou-Se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. Disse-lhes então Jesus: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» Eles responderam: «Não». Disse-lhes Jesus: «Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis». Eles lançaram a rede e já mal a podiam arrastar por causa da abundância de peixes. Então o discípulo predilecto de Jesus disse a Pedro: «É o Senhor»...
        Disse-lhes Jesus: «Vinde comer». Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar: «Quem és Tu?» bem sabiam que era o Senhor. Então Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe. Foi esta a terceira vez que Jesus Se manifestou aos discípulos, depois de ter ressuscitado dos mortos (Jo 21, 1-14).
       Oito dias de Páscoa, como se de um só dia se tratasse, para sublinhar a importância primordial da Ressurreição de Jesus Cristo, como acontece também por ocasião do Natal. Em cada dia desta Semana, celebramos o primeiro dia - eis o DIA que o Senhor fez, exultemos e cantemos de alegria -, o grande DIA em que se inicia um tempo novo, de graça e salvação.
       Com o primeiro dia, vêm as aparições de Jesus aos seus, para renovar neles a esperança, para confirmar neles a missão de serem Apóstolos para a humanidade, Apóstolos da salvação, da ressurreição.
       Esta, segundo São João, é a terceira aparição.
       Jesus aparece-lhe no local de trabalho. Já por si é um dado importante. Jesus vem ao nosso encontro, não apenas nos momentos de oração e de reunião, mas também no hoje da nossa existência, no meio das nossas preocupações e trajetos. Podemos encontrar Deus em qualquer parte, em todos os momentos.
       Jesus dá-Se a conhecer no lugar onde tinha chamado alguns dos discípulos, relembrando que doravante serão pescadores de homens. É outro dado importante.
       Manifesta-Se na pesca abundante mas uma vez mais também na refeição, que poderá apontar para a abundância da outra refeição - a Eucaristia, como alimento espiritual até à vida eterna, saciando-nos com o Pão descido do Céu, que é o próprio Jesus.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

... a Paz esteja convosco!

        Os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto diziam isto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. Disse-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?» Deram-Lhe uma posta de peixe assado, que Ele tomou e começou a comer diante deles. Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’» (Lc 24, 35-48).
        O Evangelho de hoje continua a narração de ontem. Jesus aparece aos discípulos de Emaús, e estes, depois de O reconhecerem no partir do pão, vão a correr relatar o que lhes sucedeu e como o Mestre os encontrou.
       Estão reunidos, com alegria, a contarem uns aos outros os momentos em que Jesus apareceu às mulheres, como os discípulos que foram ao sepulcro e o encontraram vazio, a aparição em Emaús, e eis que Jesus Se coloca no meio deles e lhes diz: "A paz esteja convosco".
       Entra aqui mais um elemento novo. Jesus não é um espírito a vaguear pelo mundo ou um fantasma. Por um lado, a realidade temporal foi ultrapassada pela ressurreição, por outro, a identidade corpórea é evidente. O Crucificado é o Ressuscitado. Jesus relembra a mensagem anterior à Paixão. Manifesta-Se num corpo glorioso mas a Sua aparição é mais do que um susto, um fantasma, uma ilusão, é o próprio Cristo com a Sua identidade humana e divina e daí que no poder de Deus que Se manifesta Ele poder comer e ser "tacteado", apesar da Sua presença gloriosa.
       No tempo em que vivemos, por vezes, queremos explicar e encerrar Deus nas nossas concepções racionais e empíricas. Mas Deus, enquanto Deus, não pode ser limitado nem prisioneiro dos nossos conceitos. A palavra de Deus convida-nos a abrir-nos à esperança e ao futuro, a deixarmo-nos surpreender por Deus, como aconteceu com os discípulos daquele tempo.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Não ardia cá dentro o nosso coração...

       ... «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão (Lc 24, 13-35).
       É-nos hoje apresentado o relato da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús.
       Salientam-se diversos momentos e sentimentos. Os discípulos caminham em direcção a casa desiludidos e tristes com os acontecimentos desses dias. No meio deles surge Jesus que os interroga sobre a discussão que vinham a ter e sobre o motivo da sua tristeza. Eles revelam o que aconteceu com o Mestre, Jesus. Então, por sua vez, Jesus faz-lhe ver que não foi o fim do mundo mas o início de um tempo novo. Com efeito, a Sagrada Escritura já anunciara o que haveria de acontecer com o Messias, o que sucedeu confirmou as diversas profecias.
       Chegados perto de casa, convidam Jesus a ficar com eles, sem saberem que era Ele. Por aqui se vê, que há uma diferença entre o Jesus terreno e o Jesus glorificado. Embora seja o mesmo Cristo Jesus, a Sua aparência coloca-O na "vastidão" de Deus, de onde Se manifesta a todo o mundo.
       Mas se pela aparência não O reconhecem, reconhecem-n'O nas palavras e sobretudo nos gestos, no partir o pão como memorial da Sua presença, antecipado para os Apóstolos na Quinta-feira santa. Reconhecem-n'O nos seus corações, ainda que necessitados de serem iluminados.
       Reconhecido o Mestre, o medo desaparece e no seu lugar a alegria que se partilhada. Antes convidaram o "Desconhecido" a pernoitar com eles, por ser noite. Agora, mesmo de noite, voltam a Jerusalém para contarem como Jesus lhes apareceu pelo caminho e como se manifestou ao partir do pão.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Mulher, porque choras? A quem procuras?

       Liturgicamente celebramos a Páscoa durante 8 dias como se de UM só e grande DIA se trate. A Páscoa não é o fim de um ciclo, é início de vida nova. Também hoje, em terça feira da Páscoa, celebramos a vida nova da ressurreição que acontece em Cristo Jesus e em nós acontecerá... melhor, em nós deverá acontecer constantemente, num exercício de passarmos da quaresma das nossas vidas, da morte, para a Páscoa, para as páscoas que nos ligam aos outros e a Deus.
       No evangelho hoje proposto, de São João, vemos como Maria Madalena, junto ao sepulcro de Jesus, é por Ele surpreendido. A experiência de encontro com o Ressuscitado há de levar-nos ao anúncio da boa nova, à proclamação da ressurreição, ao testemunho. Maria Madalena vai jubilosa comunicar o viu e e ouviu.
Maria Madalena estava a chorar junto do sepulcro. Enquanto chorava, debruçou-se para dentro do sepulcro e viu dois Anjos vestidos de branco, sentados, um à cabeceira e outro aos pés, onde estivera deitado o corpo de Jesus. Os Anjos perguntaram a Maria: «Mulher, porque choras?» Ela respondeu- lhes: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram». Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus de pé, sem saber que era Ele. Disse-lhe Jesus: «Mulher, porque choras? A quem procuras?» Pensando que era o jardineiro, ela respondeu-Lhe: «Senhor, se foste tu que O levaste, diz-me onde O puseste, para eu O ir buscar». Disse-lhe Jesus: «Maria!» Ela voltou-se e respondeu em hebraico: «Rabuni!», que quer dizer: «Mestre!» Jesus disse-lhe: «Não Me detenhas, porque ainda não subi para o Pai. Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que vou subir para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus». Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: «Vi o Senhor». E contou-lhes o que Ele lhe tinha dito (Jo 20, 11-18).
       O mesmo sucede com Pedro e os demais apóstolos. Fazem a experiência de encontro com o Ressuscitado, e tornam-se, agora sim, verdadeiros apóstolos, anunciadores da BOA NOTÍCIA, levando outros à conversão, ao batismo:
No dia de Pentecostes, disse Pedro aos judeus: «Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel que Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes». Ouvindo isto, sentiram todos o coração trespassado e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos: «Que havemos de fazer, irmãos?» Pedro respondeu-lhes: «Convertei-vos e peça cada um de vós o Baptismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados. Recebereis então o dom do Espírito Santo, porque a promessa desse dom é para vós, para os vossos filhos e para quantos, de longe, ouvirem o apelo do Senhor nosso Deus». E com muitas outras palavras os persuadia e exortava, dizendo: «Salvai-vos desta geração perversa». Os que aceitaram as palavras de Pedro receberam o Baptismo e naquele dia juntaram-se aos discípulos cerca de três mil pessoas (Actos 2, 36-41).

Aniversário natalício de D. António Couto, nosso Bispo

       D. António José da Rocha Couto:
Data Nascimento: 18 de Abril de 1952. Naturalidade: Vila Boa do Bispo, Marco de Canaveses, Porto Ordenação Sacerdotal: 3 de Dezembro de 1980, em Cucujães. Nomeação episcopal: 6 de Julho de 2007, para Bispo Auxiliar de Braga.Ordenação Episcopal: 23 de Setembro de 2007, no Seminário das Missões, Cucujães, Oliveira de Azeméis.
Nomeação para Bispo de Lamego: 19 de Novembro de 2011.

       Foi nomeado pelo Papa Bento XVI como Bispo titular da Diocese de Lamego, sucedendo a D. Jacinto Botelho.
       A 2 de Outubro de 1963 entrou no Seminário de Tomar, da Sociedade Portuguesa das Missões Ultramarinas, hoje Sociedade Missionária da Boa Nova.
       Recebeu a ordenação sacerdotal em Cucujães, em 3 de Dezembro de 1980.
       Os primeiros anos de sacerdócio foram vividos no Seminário de Tomar, acompanhando os alunos do 11.º e 12.º anos. No ano lectivo de 1981-1982 foi Professor de Educação Moral e Religiosa Católica na Escola de Santa Maria do Olival, em Tomar.
       Em 1982 fez o curso de Capelães Militares, na Academia Militar, e foi nomeado capelão militar do Batalhão de Serviço de Material, do Entroncamento, e, pouco depois, também da Escola Prática de Engenharia, de Tancos.
       Transferiu-se depois para Roma, para a Pontifícia Universidade Urbaniana, onde, em 1986, obteve a licenciatura canónica em Teologia Bíblica. Na mesma Universidade obteve, em 1989, o respectivo Doutoramento, depois da permanência de cerca de um ano em Jerusalém, no Studium Biblicum Franciscanum.


       No ano lectivo de 1989-1990 foi professor de Sagrada Escritura no Seminário Maior de Luanda.
       Regressou então a Portugal, e foi colocado no Seminário da Boa Nova, de Valadares, com o encargo da formação dos estudantes de teologia.
       É professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, núcleo do Porto, desde o ano lectivo de 1990-1991. De 1996 a 2002 foi Reitor do Seminário do Seminário da Boa Nova, de Valadares. Foi também Vigário Geral da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN) de 1999 a 2002, ano em que foi eleito Superior Geral da mesma Sociedade Missionária da Boa Nova, cargo que ocupou até à data da sua Ordenação Episcopal, em 23 de Setembro de 2007.
       A SMBN é composta por sacerdotes diocesanos e leigos que se consagram à evangelização. Surgida em Portugal em 1930, dedica-se à evangelização ad gentes em Moçambique (desde 1937), Angola (desde 1970), Brasil (desde 1970), Zâmbia (desde 1980) e Japão (desde 1998).
       Em 2004, João Paulo II nomeou-o membro da Congregação para a Evangelização dos Povos.
       D. António Couto é colaborador do Programa ECCLESIA (RTP2), da Igreja Católica, tendo colaborado regularmente desde 2003, na sua qualidade de biblista.


     É autor dos seguintes livros: Até um dia (poemas) 1987; Raízes histórico-culturais da Vila Boa do Bispo (1988); A Aliança do Sinai como núcleo lógico-teológico central do Antigo Testamento (tese de doutoramento), 1990; Como uma dádiva. Caminhos de antropologia bíblica, 2002 (2.ª edição revista em 2005); Pentateuco. Caminho da vida agraciada, 2003 (2.ª edição revista, 2005); Estação de Natal (2012); Vejo um ramo de amendoeira (2012); O livro do Génesis (2013); A nossa Páscoa (2013); Quando Ele nos abre as Escrituras. Domingo após Domingo. Ano A (2013); Introdução ao Evangelho de São Mateus (2014). Quando Ele nos abre as Escrituras. Domingo após Domingo. Ano B (2014). Os desafios da Nova Evangelização (2014). Introdução ao Evangelho segundo São Marcos (2015). Quando Ele nos abre as Escrituras. Domingo após Domingo. Ano C (2015). O Livro dos Salmos (2015).  E também autor de inúmeros artigos em enciclopédias, colectâneas e revistas.
       É também presença habitual na Internet. Exemplo disso é o concorrido blogue MESA DE PALAVRAS: aqui, onde propõe as diversas reflexões dominicais.

sábado, 15 de abril de 2017

DOMINGO DE PÁSCOA - ano A - 16 de abril de 2017

       1 – Deus. Amor. Criação. Vida. Humanidade. Harmonia. Cumplicidade. Diálogo. Alegria.
       Homem e Mulher. Fragilidade. Pecado. Egoísmo. Discussão. Violência. Inveja. Morte.
       Chamamento. Promessa. Aliança. Profecia. Conversão. Perdão. Misericórdia.
       Jesus Cristo. Abaixamento. Compaixão. Vida nova. Nova criação. Salvação. Ressurreição.
       Chamamento. Vocação. Seguimento. Discípulos. Missionários. Espírito Santo. Igreja.
       Fraternidade. Humildade. Escuta. Obediência. Verdade. Libertação. Caridade.
       Não são palavras vãs, é o caminho que nos redime e nos congrega, nos irmana e nos envolve, comprometendo-nos com a salvação que vem de Deus. Deus criou-nos por amor. O ser humano é imagem e semelhança de Deus. Esta semelhança nem sempre corresponde aos desígnios divinos.
       Na liturgia da Vigília Pascal pudemos absorver a intervenção de Deus ao longo da história da salvação, desafiando o povo à conversão de vida, à opção pelo bem e pela justiça, na defesa dos mais pobres, na persistência pela solidariedade, dando sinais, enviando mensageiros, impelindo líderes, profetas, comunicando palavras de esperança. As promessas são feitas com o vislumbre do que virá, para levar as pessoas e o povo a mobilizar-se, deixando as armas, a força e a violência, os ódios e as injustiças, aderindo à Lei do Senhor, lei que liberta, que aponta para a vida, para a dignidade e proteção de todos, especialmente dos mais frágeis.
       2 – Desde toda a eternidade e para sempre, Deus nos ama, como Pai e sobretudo como Mãe. A Páscoa de Jesus, a Sua ressurreição entre os mortos, clarifica, ilumina e torna percetível a Encarnação, mistério de abaixamento, Ele que era de condição divina não se valendo da Sua igualdade com Deus, assumiu a condição de servo, humilhou-se a Si mesmo, obedecendo até à morte e morte de Cruz. Por isso Deus O exaltou e lhe deu o NOME que está acima de todos os nomes.
       A vinda do Filho Unigénito de Deus aproxima a eternidade do tempo e da história dos homens. Deus que nunca Se afastou nem Se distanciou, tornou-Se visível em Jesus Cristo. Não há como voltar atrás. Ele está no meio de nós como Quem serve, sempre e para sempre. Ao longo da Sua vida, sobretudo, ao longo dos três anos de vida pública, Jesus viveu para servir, para amar, para gastar a vida, para envolver, elevar, salvar, integrar, redimir, incluir todos os que andavam dispersos pelo pecado, pelas trevas e pela morte.
       Foi crescendo em graça e sabedoria, diante de Deus e dos homens e chegada a Sua hora espalhou bondade e doçura, procurando os que andavam cansados e abatidos, como ovelhas sem pastor, indo às margens para Se encontrar com os que se tinham perdido pela solidão, pela pobreza, pela exclusão social, cultural e religiosa. Contundente contra os que usavam de artimanhas e hipocrisias, escravizando pessoas e perpetuando situações de pecado, de abuso, de corrupção; dócil, próximo, misericordioso para leprosos, cegos, coxos, crianças, mulheres, publicanos, pecadores, estrangeiros. Veio para incluir, revelando a Misericórdia de Deus Pai. O Seu projeto e o Seu propósito, o Seu alimento e a Sua vida: em tudo fazer a vontade do Pai. E a vontade do Pai é que todos se salvem.
       Qual manso Cordeiro levado ao matadouro, sem mancha nem pecado, inocente, arrastado para julgamento, condenado à morte, à ignomínia da Cruz, como malfeitor. Da Sua boca não se ouviram injúrias! Procurando-nos com o Seu olhar compassivo para nos manter vivos, como a Pedro ou a Judas; elevando o olhar, o coração e a vida para o Pai, nas mãos de Quem Se coloca por inteiro e em Quem nos coloca.
       3 – As trevas quiseram por momentos bloquear a luz. Quem não se deixa inundar de luz e vive mergulhado nas trevas caminha para o abismo e para a morte e tende a arrastar os outros. A luz purifica, faz-nos ver melhor, mas por vezes também fere a vista, sobretudo quando esta está mais familiarizada com o sono, com a escuridão, com a noite.
       Do alto da Cruz, Jesus continua a chamar por Deus, continua a interceder por nós: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem... Hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso. Até ao fim, além de todo o sofrimento, Jesus pensa em nós, vive por nós, entrega-Se ao Pai por nós.
       A luz parecia ter-se extinguido. Jesus desceu ao fundo, até onde a humanidade mergulha, até à morte. Três dias depois, a certeza de que a última Palavra é da vida, é de Deus, é o amor. A vida entregue ao Pai por nós, é retomada, gloriosa e ressuscitada; ressuscita o amor, a compaixão, o serviço, a fraternidade. O irmão que nos morreu voltou à vida, precedendo-nos na ressurreição. Agora vivemos ressuscitados, pois Ele ressuscitou e ressuscita-nos. A vastidão do Céu inunda a terra, expande-se para a humanidade inteira. Deus não é inacessível. Só como mistério que não podemos controlar nem encerrar nas nossas conceções ideológicas e/ou morais. No mais, É acessível. Mostra-Se em Jesus, de carne e osso como nós!

       4 – Jesus não Se encontra mais no sepulcro. Ressuscitou. É preciso procurá-l'O onde a vida germina. Podemos encontrá-l’O, ou melhor deixar-nos encontrar por Ele, no jardim, no caminho, em casa, onde quer que estejamos. Não procuremos no lugar dos mortos Aquele que vive, que está no meio de nós, que está Vivo em cada pessoa, em todas as pessoas.
       Maria Madalena, Simão Pedro e o discípulo amado foram ao sepulcro e descobriram-no sem o Corpo de Jesus. O sepulcro reenvia-nos em missão. Aquele que foi morto pela iniquidade dos homens, está vivo pelo poder de Deus. Regressou dos mortos, resgatou-nos do pecado e das trevas, introduziu-nos numa vida nova.
       São horas de acordar. É o Primeiro Dia da semana, a Semana Maior fica preenchida de luz e de vida. Este é o dia que o Senhor fez, exultemos e cantemos de alegria. As trevas dão lugar à luz. É tempo de vivermos o DIA e nos deixarmos conduzir pela Luz.
       "Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, então também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória".

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 10, 34a. 37-43; Sl 117 (118); Col 3, 1-4; Jo 20, 1-9.

Túmulo e Lábios abertos - Reflexão do Pe. João Carlos

       Como as santas mulheres e os apóstolos corramos nós também ao sepulcro para vermos a pedra removida e o túmulo aberto que testemunham a ressurreição de Jesus. Hoje, como todas as manhãs, na Liturgia das Horas, nós pedimos: “Abri, Senhor, os meus lábios e a minha boca anunciará o vosso louvor”.
       O pedido que hoje fazemos vale para um dia de oito dias, toda a oitava da Páscoa, recordando-nos que este é um dia especial. Os nossos lábios abrem-se como a pedra removida do túmulo para dizer: “Cristo ressuscitou, Aleluia, Aleluia”, como eco ao canto de há oito dias atrás “Hosana, hosana, ó Filho de David”. Canto de louvor e de prece que, no Domingo de Ramos, invocava a salvação, promessa desejada no Filho de David e cumprida, duma forma jamais sonhada, no Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, vencedor da morte e do pecado, Salvador da humanidade inteira.
       O louvor de hoje é, assim, necessariamente, mais prolongado e mais solene pela grandeza infinita do mistério pascal de Cristo que divide o tempo cronológico da História e o coração de cada homem que se deixa tocar e acolher pelo desejo salvífico de Jesus Redentor, a todos graciosamente oferecido.
       Abramos com a mesma emoção as portas das nossas igrejas e contemplemos os sinais do ressuscitado para louvarmos também com os olhos, os ouvidos e os demais sentidos a alegria que inunda o nosso coração. Entremos e vejamos:
– As toalhas alvas dos altares que nos recordam o lençol dobrado que guardou o corpo morto de Jesus;
– A água lustral com que a Igreja fará novos filhos no Filho, na administração fecunda do Batismo;
– A luz do Círio Pascal, lume novo para iluminar a terra inteira;
– As flores perfumadas que anunciam a primavera nova da Páscoa do Senhor;
– O incenso que se eleva para o alto transportando com o seu fumo o louvor da assembleia orante e jubilosa que se reúne em nome do Senhor, com a certeza da sua presença viva e sacramental, hoje e todos os dias até ao fim dos tempos.
       Escancaremos o coração à escuta da Palavra de Deus que nos dá as razões da nossa fé e da nossa esperança.
       Levemos essa notícia boa e bela pelas ruas e casas no compasso da visita pascal, transportando dentro de nós o anseio do salmista que diz com júbilo: «Hei de falar do vosso nome aos meus irmãos, hei -de louvá-lo no meio da assembleia».
       E quando o sol declinar e a noite chegar que os nossos lábios ainda continuem abertos para dizer: “Este é o dia que o Senhor fez, nele exultemos e nos alegremos!”

Pe. João Carlos Morgado

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?

       A liturgia da Palavra para esta quarta-feira da SEMANA MAIOR apresenta-nos mais um texto do profeta Isaías, na primeira leitura, e do Evangelho de São Mateus. Um e outro nos falam da entrega do justo. Os cristãos, como o próprio Jesus, veem nesta passagem profética um relato antecipado do que irá acontecer com o Messias, que para nós é Jesus Cristo. No evangelho de São Mateus, a figura em discussão é Judas, que procura forma de entregar Jesus.
Vejamos o texto de Isaías:
O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido. O meu advogado está perto de mim. Pretende alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me? (Is 50, 4-9a).
       Isaías não esconde as dificuldades que tem de atravessar para se manter fiel à verdade, mas na certeza e confiança que Deus permanece com ele. E se Deus está por ele, quem poderá estar contra?
       A confiança que anima Isaías, será a mesma que guia Jesus até às últimas horas de vida.
Um dos Doze, chamado Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes: «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. A partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar. No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» Ele respondeu: «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’». Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado e prepararam a Páscoa. Ao cair da tarde, sentou-Se à mesa com os Doze. Enquanto comiam, declarou: «Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós Me entregará». Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar Lhe: «Serei eu, Senhor?» Jesus respondeu: «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que vai entregar-Me. O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido». Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou: «Serei eu, Mestre?» Respondeu Jesus: «Tu o disseste» (Mt 26, 14-25).
       Mateus mostra, como nos demais evangelhos, a tristeza profunda de Jesus, pela aproximação das horas finais, mas também por saber que não pode contar com os seus. A primeira igreja, dos apóstolos e algumas mulheres, ficarão a dormir enquanto o Mestre reza.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Em verdade vos digo: um de vós Me entregará

       O Evangelho desta terça-feira da SEMANA MAIOR da nossa fé, fixa-nos nas últimas horas de Jesus. À mesa com os seus discípulos, Jesus deixa transparecer o que Lhe vai na alma. Já não falta muito, a perturbação é evidente. A consciência de que os seus próprios discípulos, os seus amigos, não terão força para O acompanharem, mais o deixa intranquilo, nem Judas, nem Pedro, nem os seus mais íntimos...
Estando Jesus à mesa com os discípulos, sentiu-Se intimamente perturbado e declarou: «Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós Me entregará». Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem de quem falava. Um dos discípulos, o predilecto de Jesus, estava à mesa, mesmo a seu lado. Simão Pedro fez-lhe sinal e disse: «Pergunta-Lhe a quem Se refere». Ele inclinou-Se sobre o peito de Jesus e perguntou Lhe: «Quem é, Senhor?» Jesus respondeu: «É aquele a quem vou dar este bocado de pão molhado». E, molhando o pão, deu-o a Judas Iscariotes, filho de Simão. Naquele momento, depois de engolir o pão, Satanás entrou nele. Disse- lhe Jesus: «O que tens a fazer, fá-lo depressa». Mas nenhum dos que estavam à mesa compreendeu porque lhe disse tal coisa. Como Judas era quem tinha a bolsa comum, alguns pensavam que Jesus lhe tinha dito: «Vai comprar o que precisamos para a festa»; ou então, que desse alguma esmola aos pobres. Judas recebeu o bocado de pão e saiu imediatamente. Era noite. Depois de ele sair, Jesus disse: «Agora foi glorificado o Filho do homem e Deus foi glorificado n’Ele. Se Deus foi glorificado n’Ele, também Deus O glorificará em Si mesmo e glorificá l’O-á sem demora. Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. Haveis de procurar-Me e, assim como disse aos judeus, também agora vos digo: não podeis ir para onde Eu vou». Perguntou-Lhe Simão Pedro: «Para onde vais, Senhor?». Jesus respondeu: «Para onde Eu vou, não podes tu seguir-Me por agora; seguir-Me-ás depois». Disse-Lhe Pedro: «Senhor, por que motivo não posso seguir-Te agora? Eu darei a vida por Ti». Disse-Lhe Jesus: «Darás a vida por Mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo, sem que Me tenhas negado três vezes» (Jo 13, 21-33.36-38).
       Mesmo no evangelho de são João, que centra em Judas todas as reações negativas, vê-se que Judas é um homem respeitável. Diga-se que nos outros evangelhos há intervenções que são atribuídas a todos os discípulos, como por exemplo a contestação acerca do desperdício do perfume de alto preço com que Maria (uma mulher) da Betânia unge os pés de Jesus, atribuída aos discípulos e no quarto evangelho a Judas. Já que foi o traidor, não há como colocar nele todas as intervenções negativas, gestos, palavras e intenções. Mas vê-se que aquilo que parece claro, não o é tanto assim. Nenhum dos discípulos desconfia de Judas, é um homem de confiança. Todos confiam nele. Jesus confia nele. Os discípulos não estranham a proximidade a Jesus, pois ele deveria ser dos mais íntimos. Se os discípulos suspeitassem de algo, não o deixariam sair com aquela facilidade. Nem pensar. Pedro de imediato impediria que isso acontecesse, pese embora a sua titubeância, mas entre os companheiros o seu ânimo é maior.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos

     Jesus provoca reações diferentes nos seus conterrâneo e contemporâneos. Para os que se sentem ameaçados no seu poder, sobretudo para esses, Jesus é um obstáculo que têm de derrubar, denegrir, calar. Para muitos outros, à procura de palavras de conforto, de esperança, à procura de viverem melhor, com mais coragem, Jesus é uma resposta vital. Cada vez mais acreditam n'Ele.
       A seis dias da Páscoa, Jesus opera um dos seus mais extraordinários prodígios, a ressurreição de Lázaro, antecipando a Sua ressurreição, ou melhor, mostrando que o poder de Deus é maior que a própria morte, o AMOR vence, por fim.
Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-Lhe lá um jantar: Marta andava a servir e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus. Então Maria tomou uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos; e a casa encheu-se com o perfume do bálsamo. Disse então Judas Iscariotes, um dos discípulos, aquele que havia de entregar Jesus: «Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários, para dar aos pobres?» Disse isto, não porque se importava com os pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa comum, tirava o que nela se lançava. Jesus respondeu-lhe: «Deixa-a em paz: ela tinha guardado o perfume para o dia da minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco; mas a Mim, nem sempre Me tereis». Soube então grande número de judeus que Jesus Se encontrava ali e vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Entretanto, os príncipes dos sacerdotes resolveram matar também Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus (Jo 12, 1-11).
       Salienta-se no texto outro dado que nos deve ajudar a refletir, quando não nos queremos comprometer, ou quando não queremos reconhecer o bem que vem do outro, o caminho mais fácil poderá ser o da zombaria, escarnecemos do outro. O gesto de Maria de Betânia é louvável e revela uma extraordinária atenção para com o Mestre que deveria enternecer os discípulos e os presentes. No entanto, há quem veja nisso um desperdício, desculpando-se com o gasto que poderia ser usado a bem dos pobres. Nos nossos dias isso continua a acontecer. Quando alguém tem um gesto de extraordinária generosidade, a tentação primeira é dizer que podia ter sido utilizado nos pobres. Há o reverso da medalha. Quem ajuda, quase sempre tem para beneficiar outros mais indigentes, quem não ajuda, sempre enche a boca com os pobres, para que os outros ajudem, não para que o próprio faça alguma coisa.
       Curiosidade: seja em Portugal, seja no mundo inteiro, a Igreja Católica é das instituições que mais ajuda as pessoas carenciadas: hospitais, escolas, creches, misericórdias, gaiatos, vicentinos, cáritas (internacional, nacionais e diocesanas), apoio a mães adolescentes e a mãe solteiras, centro de acolhimento de pessoas com deficiência profunda, instituições ligadas à Igreja de apoio a pessoas com SIDA e toxicodependência... no entanto, o que sobrevém é a riqueza patrimonial da Igreja... Diga-se, no entanto, que muita desta riqueza, museus, igrejas, é património também da humanidade... Por outro lado, quem ajuda precisa de meios para ajudar... se vender e dispensar os meios ajuda momentaneamente... e depois?
       Saliente-se também, a animosidade, justificável, do quarto evangelho em relação a Judas. Nos demais evangelhos diz-se claramente que alguns discípulos fizeram o reparo, e não que foi Judas. Como acontecerá também na entrega de Jesus, só no evangelho de João se diz que foi por 30 dinheiros, nos outros apenas que Judas O entregou e que os sumos-sacerdotes prometeram compensá-lo com dinheiro. Fica o reparo. De uma pessoa próxima e com quem nos damos bem, desculpamos todas as falhas ou pelo menos tentamos justificá-las; quando é alguém de quem não gostamos tanto, tudo serve para atacar, e o que acontece vemo-lo como instigação ou provocação de quem não podemos ver...

sábado, 8 de abril de 2017

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor - 9 de abril

       1 – O Domingo de Ramos remete-nos para o centro da nossa fé, com o mistério de entrega de Jesus a favor da humanidade inteira, logo a favor de cada um de nós, mistério de amor, de dádiva, de libertação, de resistência ao sofrimento, de priorização de Deus e da Sua vontade, de ousadia e de humildade, de perdão e de compaixão.
       Com a bênção dos Ramos, aproximamo-nos da Páscoa. Jesus manda preparar a Páscoa. É um momento de festa, de convívio, de encontro, de memória. Como bons judeus, Jesus e os Apóstolos cuidam de diferentes pormenores para uma Páscoa festiva, recordando as promessas feitas por Deus ao Povo da Aliança, rezando, louvando as maravilhas operadas através das gerações, agradecendo ao bom Deus.
       Um pouco antes, a entrada triunfal de Jesus na cidade santa, em Jerusalém. Entra montando num jumentinho. É o Príncipe da Paz, o filho de Deus, o Filho da Promessa. Não traz com Ele um exército, traz uma multidão desorganizada de maltrapilhos, pobres, galileus, adeptos, simpatizantes, discípulos, mulheres, publicanos. É uma multidão barulhenta, feliz, esperançosa. Aclamam, talvez, não a uma só voz ou na mesma direção, mas aclamam com júbilo, preparando-se exterior e interiormente para a Festa da Páscoa. Há rostos com lágrimas, há olhares apreensivos, há sorrisos rasgados e rostos fechados. Há quem esteja totalmente ali e quem esteja apenas por curiosidade, arrastados pelo ajuntamento. É, no entender de Bento XVI, uma multidão diferente daquela que empurra Jesus para a Cruz. Esta primeira multidão é marcadamente simples, pobre, despretensiosa. 
       2 – A refeição é um momento de festa, de alegria, de paz, de convivência com a família e com os amigos próximos. Para um judeu, partilhar uma refeição é partilhar a vida, é comungar com o outro as alegrias e as tristezas. A refeição tem uma dimensão social, mas também religiosa. Em dias festivos, o templo, a sinagoga e a refeição em família. Está tudo interligado. A comunidade reúne-se para celebrar a libertação, em família relembra tudo quanto fez o Senhor, Deus de Israel, a favor de todo o povo, para que as gerações vindouras vivam agradecidas e voltadas para o Senhor.
       Depois de um momento de revelação, em que Jesus é aclamado pela multidão, um momento mais íntimo, mais reservado, mas na mesma toada festiva. É, como sói dizer-se, o sossego antes da tempestade. O ambiente começa a ganhar contornos pouco expectáveis. Jesus vinha a dar sinais que as coisas poderiam descambar. Jesus não o esconde em nenhum momento. O Filho do Homem vai ser entregue às autoridades dos judeus, será morto, três dias depois ressuscitará. Os discípulos hesitam, mas vem a entrada triunfal e serenam, pensando que Jesus teria exagerado. O sentir de Jesus e o sentir dos discípulos é diferente. As palavras de Jesus vão alterando o quadro. Até então a expectativa que tudo poderia afinal correr melhor que o anunciado. Há que saborear a refeição.
       A saída de Judas de cena em nada altera festejos, pois é crível que só Jesus e o próprio tivessem consciência do que estava para acontecer, de contrário, os discípulos não teriam facilitado a saída do traidor. Nem pouco mais ou menos. A Ceia está a chegar ao fim, Jesus antecipa a Sua morte e ressurreição, instituindo a Eucaristia, sempre que fizerdes isto, fazei-o em memória de Mim. Este é o Meu Corpo. Este é o Meu sangue, entregue por vós e a vós confiado para a salvação do mundo.
       3 – A noite disfarça e esconde muita coisa. É dada por terminada a refeição. Jesus sai com os discípulos para o Jardim das Oliveiras. A noite permite também o silêncio e, até certo ponto, o descanso. Mas não são horas para dormir, são horas de vigiar, de rezar com insistência. Pelo menos da parte de Jesus. Aproximam-se as trevas densas, tenebrosas, mas mais do que a falta de luminosidade exterior é a falta de luz nos corações. Quem não tem luz no coração vive mergulhado na morte.
       Os discípulos adormecem. Segundo Augusto Cury, esta sonolência é doentia, stressante, resulta do excesso de ansiedade e de temor, o que leva o organismo a defender-se desta forma. Nos últimos dias redobrou a ameaça à vida de Jesus, acentuando-se a partir da ressurreição de Lázaro. Os discípulos vivem de momentos, do entusiasmo ao medo, do sol ao céu carregado de escuridão.
       Naquela hora, Jesus penetra o sofrimento mais atroz. O desfecho está à vista. Um pouco mais, e ainda escuro, na noite de Judas e das lideranças judaicas, será preso, julgado, condenado à morte. Resta pouco tempo. Alguns minutos, algumas horas, e o fim virá! Pai, Pai, Pai, se é possível que passe de Mim esta hora, que passe rápido que não aguento mais, ou passe adiante, porque é de mais, tanto sofrimento para um Homem só. As gotículas de sangue que Jesus transpira, antes entendidas como construção literária para sublinhar o sofrimento em que Jesus se encontrava, mostram momentos de grande dor, de grande ansiedade. Os gritos de Jesus levam os nossos gritos também. Pai, Pai, Pai, cumpra-se a Tua vontade. É mortal este caminho de entrega, é dom, mas é o caminho da salvação, a afirmação da verdade, da vida, da compaixão. Não há armas para lutar. É necessário manter as espadas embainhadas, a vida só se ganha pela fragilidade/força do amor, pela benevolência, pela misericórdia. O ódio, a guerra, a inveja, só geram mais discórdia, mais destruição, mais desumanização.
       São horas de levantar do sono, já se aproxima aquele que vai entregar o Filho do Homem. Vem com passo decidido e com um beijo – mostrando a cumplicidade e a amizade com Jesus – com um beijo entrega o Messias, o Filho de Deus, sujeitando-O à prisão, a andar de Anás para Caifás, do tribunal judaico ao pretório de Pilatos, e do silenciamento pelas vergastas ao silenciamento total pela crucifixão e morte.
       4 – Há outra multidão, mais burguesa, certamente também com muitas pessoas sérias, simples, pobres. São motivações diferentes as de cada um. Uns seguem por curiosidade, outros instigados pelas autoridades judaicas, receosas dos seus postos ou por inveja, outras vão ver o espetáculo – há quem goste de sangue e guerra e conflito, desde que seja o sangue dos outros – vão e também berram. As multidões são perigosas quando manipuladas, instigadas, enganadas por alguém.
       As multidões são facilmente conduzidas. Temos essa experiência. Quando estamos rodeados de pessoas a gritar pelo nosso clube ou pelo nosso partido, não racionalizamos sobre o que se diz, aplaudimos, gritamos, coreografamos o momento, entramos em direto, tiramos umas selfies. Para o bem funciona, mas também para o mal. A multidão pede a crucifixão de Jesus. Se alguém antes tivesse pedido a Sua libertação é possível que a multidão hesitasse ou o pedido fosse outro. Não tem razão quem grita mais alto, mas por vezes gritar gera adeptos, ajunta pessoas, impele a agir, mesmo contra os próprios princípios.
       As lideranças judaicas justificam as suas palavras e os seus gestos, defendendo que a morte de Um, por todos, apaziguará as autoridades romanas eliminando qualquer tentativa de sublevação contra o império. Já todos testemunhamos a ardilosidade de alguns políticos de convencerem a opinião pública, basta usar alguns argumentos mais empáticos, repetidos à exaustão, procurando casos particulares para justificar o todo, situações em que pareça estarem do mesmo lado daqueles a quem querem conquistar. É um risco a que estamos sujeitos, como agentes ou como povo!
       Em menos de nada, Jesus é condenado à morte, sem tempo para que alguém lance alguma dúvida, sem tempo para ponderações. É açoitado, cuspido, injuriado, escarnecido. Colocam-se uma coroa, de espinhos, que se espetam na carne. Põem-Lhe aos ombros a trave da cruz. Pesada a cruz, difícil o caminho, fisicamente Jesus vai ficando esgotado.
       5 – Entre apupos, sobe a encosta do calvário, a arrastar-se, faz das tripas coração, das fraquezas forças. Os açoites violentos fizeram com que perdesse muito sangue, ficando em carne viva quase por todo o corpo, com músculos gravemente feridos. Segue mais morto que vivo. Mas avança decidido conforme as forças Lhe permitem. E se arrastam um Simão para ajudar a Cruz é por alguma compaixão ou simplesmente para apressar o desfecho, pois também os soldados veem que Jesus já não pode mais. Os amigos vão ficando para trás, escondendo-se entre a multidão e só as mulheres O seguem de perto, com Maria, Sua Mãe, no Seu encalço.
       Completamente esgotado, a respirar a custo e ainda assim não O deixam sossegado, recebendo mais injúrias. A Sua oração ao Pai respira este aparente abandono – «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?». É o início do longo Salmo que termina confiando, entregando-se e suplicando a Deus. «Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim, sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me».
       6 – Na voz do centurião e dos soldados vislumbra-se a possibilidade da fraqueza ser divina e da morte ser passagem, ainda que possam não ter consciência da profissão de fé que nos legaram: «Este era verdadeiramente Filho de Deus».
       Com São Paulo, podemos perceber melhor o que aconteceu no Calvário: «Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai».
       Na proclamação do louvor do Deus que Se faz humano inicia a nossa conversão, o reconhecimento que só Deus é Deus e que, apesar de ser Deus, quis descer até nós para que com Ele aprendêssemos a viver humanamente, assumindo os outros como irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos (ano A): (Ramos:) Mt 21, 1-11 (Ramos); Is 50, 4-7; Sl 21 (22); Filip 2, 6-11; Mt 26, 14 – 27, 66.