quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Vós não entrastes e impedistes os que queriam entrar

        Disse o Senhor aos doutores da lei: «Ai de vós, porque edificais os túmulos dos profetas, quando foram os vossos pais que os mataram. Assim dais testemunho e aprovação às obras dos vossos pais, porque eles mataram-nos e vós levantais os monumentos.... Ai de vós, doutores da lei, porque tirastes a chave da ciência: vós não entrastes e impedistes os que queriam entrar!». Quando Jesus saiu dali, os escribas e os fariseus começaram a persegui-l’O terrivelmente e a provocá-l’O com perguntas sobre muitas coisas, armando-Lhe ciladas, para O surpreenderem nalguma palavra da sua boca (Lc 11, 47-54).
       O evangelho apresenta-nos a continuação do "diálogo" de Jesus com os fariseus e com os doutores da lei, num confronto bem directo e focado. Em mais um tentativa de cilada, Jesus responde "sem papas na língua", lembrando que o mais importante é o que está para lá das aparências, dizendo claramente a fariseus e a doutores da lei como muitos deles exigem aos outros o que não cumprem, têm a ciência, mas nem a aproveitam nem a usam para ajudar os outros...
       Esta frontalidade há-de valer a Jesus a perseguição... e a morte!

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

São Lucas, Evangelista

Nota biográfica:
       Nascido numa família pagã e convertido à fé, acompanhou o apóstolo Paulo, de cuja pregação é reflexo o Evangelho que escreveu. Transmitiu noutro livro, intitulado Actos dos Apóstolos, os primeiros passos da vida da Igreja até à primeira estadia de Paulo em Roma.
Oração de coleta:
       Senhor nosso Deus, que escolhestes São Lucas para revelar com a sua palavra e os seus escritos o mistério do vosso amor pelos pobres, fazei que sejam um só coração e uma só alma aqueles que se gloriam no vosso nome, e todos os povos mereçam ver a vossa salvação. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Das Homilias de São Gregório Magno, papa, sobre os Evangelhos

O Senhor segue atrás dos seus pregadores

Irmãos caríssimos: Nosso Senhor e Salvador ensina nos umas vezes por palavras e outras por acções. Com efeito, as suas próprias obras são preceitos, pois com elas nos dá a conhecer tacitamente o que devemos fazer.
Ele envia os seus discípulos em pregação dois a dois, porque são dois os mandamentos da caridade, a saber, o amor de Deus e do próximo. O Senhor manda os seus discípulos em pregação dois a dois, para nos indicar isto sem palavras: quem não tiver caridade para com os outros de modo algum deve assumir o ofício da pregação.
Apropriadamente se diz que os mandou à sua frente a todas as cidades e lugares aonde Ele próprio havia de ir. Na verdade, o Senhor segue os seus pregadores, porque a pregação prepara a sua vinda. O momento em que o Senhor vem habitar no nosso espírito é justamente quando as palavras de exortação aparecem antes d’Ele e por meio delas a verdade é recebida na alma. É por isso que Isaías diz aos mesmos pregadores: Preparai o caminho do Senhor, aplanai as veredas para o nosso Deus. Também o Salmista lhes diz: Abri caminho Àquele que sobe sobre o ocaso. É o Senhor que sobe sobre o ocaso, porque a sua morte Lhe serviu de pedestal para manifestar mais esplendorosamente a sua glória na ressurreição. Sobe sobre o ocaso, dizemos, porque a morte que suportou, Ele a calcou aos pés ao ressurgir. Portanto, abrimos caminho Àquele que sobe sobre o ocaso quando pregamos às vossas almas a sua glória, para que venha depois Ele próprio iluminá las com a presença do seu amor.
Mas ouçamos o que diz aos pregadores que enviou: A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai portanto ao senhor da messe que mande operários para a sua messe. Para a messe, que é grande, os trabalhadores são poucos, o que não podemos referir sem tristeza; porque, embora haja quem ouça a boa nova, falta quem a pregue. De facto o mundo está cheio de sacerdotes, mas muito raramente se encontra um operário na messe de Deus. É verdade que recebemos o ministério sacerdotal, mas não cumprimos as obrigações do cargo.
Pensai, caros irmãos, pensai no que diz o Evangelho: Rogai ao senhor da messe que mande operários para a sua messe. Pedi por nós para que possamos trabalhar por vós como convém; para que a nossa língua não deixe de vos exortar, não seja caso, que, tendo recebido o ofício da pregação, o nosso silêncio nos venha acusar perante o justo juiz.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

IGNACIO LARRAÑAGA - O POBRE DE NAZARÉ

IGNACIO LARRAÑAGA (2013). O Pobre de Nazaré. O que precisamos de saber sobre Jesus. 4.ª edição. Prior Velho: Paulinas Editora. 400 páginas.
       Durante 3 anos, Jesus espalhou magia por aldeias e cidades da Galileia, fez-Se docilidade, agiu compassivamente, desafiou os grandes deste mundo, mas também os excluídos, aqueles para descobrirem a grandeza e a alegria do serviço, este para se sentirem filhos queridos de Deus, com dons que os tornariam importantes. As lideranças judaicas viram-se acossadas não apenas pelas palavras de Jesus mas sobretudo pela Sua postura. Por inveja e ciúme, porque Ele atraía multidões; por medo e cobardia, porque se sentiram ameaçados no seus postos de conforto e privilégio. Foi entregue por um dos discípulos mais próximos, Judas, preso, violentamente agredido, escarnecido, obrigado a carregar a trave da cruz, para nela ser crucificado, andou de Anás para Caifás, ridicularizado, injuriado, acusado de blasfémia e por instigar a revolução, é morto como uma assassino.
       Entretanto algo de extraordinário deverá ter acontecido, três dias depois de morto apresenta-Se vivo aos Seus discípulos, às mulheres que andavam com o grupo. Os discípulos deixam de se guiar pelo medo, para se guiarem por uma vontade indómita de anunciar Jesus, de mostrar que Ele está vivo, que morreu e ressuscitou, que o Pai não O deixou para sempre no túmulo do esquecimento, para o resgatou para uma vida nova, gloriosa, definitiva, para a qual também somos atraídos.
       A pregação "convincente" e coerente dos Apóstolos geram novos discípulos, à dezenas, às centenas, nem sempre fáceis de gerir, pois trazem interesses e motivações diversas, como ao tempo de Jesus os discípulos e as multidões que O seguiam. Formam-se grupos, comunidades, onde se escutam os Apóstolos, recordando palavras de Jesus, feitos, milagres, gestos, encontros, onde se procura manter viva a recordação de tudo quanto diz respeito a Jesus. Os Evangelhos são uma resposta a esta inquietação de preservar tudo quanto diz respeito a Jesus. Os evangelistas recolhem testemunhos, algumas orações, ou pequenos textos e colocam por escrito. Os Evangelhos, podemos dizer com segurança, são escritos pela comunidade, mais do que por um escritor individual, pois resultam da vivência da mensagem de Jesus numa determinada comunidade, num determinado contexto. Os evangelhos escritos contém as preocupações da comunidade, as suas dificuldades, os seus pontos fortes. Também aqui se pode dizer que não há comunidade sem Evangelho, a Boa Nova de Jesus, mas o Evangelho chega até nós pelo filtro e pela vivência de comunidades concretas.
       A formação dos Evangelhos tem então esta sequência, Jesus é morto e é ressuscitado pelo Pai. Os discípulos anunciam'O vivo, atraem outras a seguir Jesus, formam-se comunidades, onde se recorda tudo o que aconteceu sobretudo naqueles três anos de vida pública de Jesus. Surge a necessidade de colocar por escrito, para que não se percam as Suas palavras e não se corram o risco do esquecimento, pois também um dia os Apóstolos hão de morrer e então já não há como confrontar o que corresponde à mensagem de Jesus e o que não corresponde.
       São quatro as versões do Evangelho, mas ainda assim há muitas "lacunas" na biografia de Jesus, até porque os evangelhos não têm a preocupação de fazer biografias, mas de mostrar o essencial da mensagem de Jesus, concentrados sobretudo no mistério da morte e da ressurreição de Jesus.
       Ao longo do tempo, mas sobretudo a partir do século XVIII houve a preocupação de escrever e publicar a Vida de Jesus, onde se limassem todas as lacunas temporais, reconstituindo a vida de Jesus, tentando fazer concordar os 4 evangelhos, entrelaçando-os. Algumas vidas de Jesus desviam-se dos Evangelho e criam biografias alternativas, baseadas nos evangelhos apócrifos ou em algumas insinuações ou lendas criadas com o decorrer do tempo.
       Hoje o que há mais, e vende muito bem, são biografias alternativas à vida de Jesus.
       Ignacio Larrañaga apresenta de forma brilhante, escorreita, uma narrativa possível da vida de Jesus, tendo como base próxima os 4 evangelhos e os outros escritos neotestamentários, procurando lançar pontes com a história, com descobertas arqueológicas, com outras ciências que nos aproximam dos nossos antepassados.
       É uma escrita fácil de ler, quase se escuta a sua leitura, envolve-nos nos evangelhos, no olhar, nas palavras, nos gestos de Jesus, inclui-nos nas Palavra que também nos dirige a nós, podemos rever-nos nas perguntas que Lhe fazem ou nas respostas que lhes (nos) dá e nos desafios que lhes (nos) lança.
São 400 páginas que parecem 10, tão motivadora e empolgante é a leitura. É uma linguagem acessível para todos.
       Uma nota mais pessoal, mas que tem ganhado terreno: Judas não trai Jesus por dinheiro ou por ânsia de poder (num sentido mais pessoal), mas por zelo, querendo que Jesus Se resolva e apresse o Reino de Deus, eliminando rapidamente todos os corruptores, derrubando as autoridades estrangeiras e restabelecendo a realeza judaica. Judas acredita em Jesus e sabem que Ele vem de Deus e pode fazer mais do que aquilo que estará disposto a mostrar. Quando Jesus anuncia aos Seus discípulos que vai ser morto - contrário do que seria expectável por todos - Judas coloca-se em ação para O obrigar a agir. Judas é um dos discípulos mais próximos de Jesus. A cumplicidade de Judas com Jesus não espanta nenhum dos outros apóstolos, é natural, são bons amigos. O facto de Judas se enforcar denota o seu arrependimento, isto é, se ele fosse traidor (por dinheiro ou para usurpar o poder da liderança), então dar-se-ia por satisfeito. Segundo o autor, Judas é maníaco depressivo. Mais que traição uma tática para obrigar Jesus a ser Deus. Porém, Jesus assume o caminho da pobreza, é o Pobre de Nazaré, aprende a obediência, até à morte e morte de Cruz. Serviço, delicadeza, oferecimento da própria vida, despojamento, amor...

Santo Inácio de Antioquia, Bispo e Mártir

       Antioquia e Alexandria era dois grandes centros académicos, nos inícios da Igreja. A teologia desenvolvia-se de sobremaneira nestes dois pólos, mas pelo caminho fica marcas profundas de perseguição aos cristãos, à Igreja, e sobretudo às figuras que estavam à frente das comunidades.
       Não se sabe muito dos primeiros anos da vida de Inácio. Assim acontece com muitas personagens históricas.
       São conhecidas as cartas de Santo Inácio, obra incontornável do cristianismo e da teologia, onde deixa transparecer a intimidade com Jesus Cristo, em que nada o desvia do olhar de Cristo e nada o afasta da vivência autêntica do Evangelho, nelas se encontra a doutrina evangélica e paulina. É a segunda geração depois dos Apóstolos.
       Com ele aparece pela primeira vez o termo que caracteriza a Igreja como "CATÓLICA":
     "Onde aparecer o bispo, aí está também a multidão, de maneira que, onde estiver Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica".
       Inácio foi detido e condenado a ser devorado pelas feras na grande cidade de Roma. E a partir daqui se conhecem melhor os passos deste santo.
       Condenado o santo Bispo de Antioquia mantém-se sereno. Pelo caminho para Roma escreve à comunidade de Éfeso. Em Esmirna, a comunidade, juntamente com o seu Bispo, São Policarpo, discípulo de São João Evangelista, recebe-o como fosse o próprio Jesus Cristo. Outras comunidades seguem o exemplo de Esmirna e recebem-no com toda a caridade. Algumas delas são enriquecidas com as suas cartas: Éfeso, Trales, Magnésia, Esmirna, Roma.
       Ao aproximar-se de Roma é informado que os romanos procuram, através de diversas influências, alterar a condenação. Ao saber disso, Santo Inácio escreve-lhes a carta mais comovedora, começando por reconhecer a Igreja de Roma como aquela que preside à caridade.
       A sua grande serenidade aproxima-o da eternidade com Jesus Cristo:
       "Desde a Síria até Roma estou a lutar com as feras, por terra e por mar, de noite e de dia, atado como estou de dez leopardos, quer dizer, um pelotão de soldados que, com benefícios que lhes são feitos, se tornam piores. Agora sim, com os seus maus tratos, aprendo eu a ser melhor discípulos do Senhor, embora nem por isto me tenha por justificado.
     "Oxalá goze eu das feras que estão para mim destinadas... Agora começo a ser discípulo. Nenhuma coisa visível ou invisível seja posta diante de mim por má vontade,, impedindo-me alcançar Jesus Cristo...
     "O meu amor está crucificado e já não há em mim fogo que busque alimentar-me de matéria; mas sim, em troca, água viva murmura dentro de mim e do íntimo está dizendo: 'Vem para o Pai'...
     "Trigo sou de Deus, e pelos dentes das feras hei-de ser moído, a fim de ser apresentado como limpo pão de Cristo".
      Foi lançado às feras no dia 20 de Dezembro de 107.

Oração de Coleta: 
       Deus eterno e omnipotente, que pelo testemunho dos santos mártires honrais todo o corpo da Igreja, concedei que o glorioso martírio de Santo Inácio de Antioquia que hoje celebramos, assim como mereceu para ele a glória eterna, seja também para nós um auxílio permanente. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Da Carta de Santo Inácio, bispo e mártir, aos Romanos
Sou trigo de Deus e serei moído pelos dentes das feras
Escrevo a todas as Igrejas e asseguro a todas elas que estou disposto a morrer de bom grado por Deus, se vós não o impedirdes. Peço-vos que não manifesteis por mim uma benevolência inoportuna. Deixai-me ser pasto das feras, pelas quais poderei chegar à posse de Deus. Sou trigo de Deus e devo ser moído pelos dentes das feras, para me transformar em pão limpo de Cristo. Rezai por mim a Cristo, para que, por meio desses instrumentos, eu seja sacrifício para Deus.
Para nada me serviriam os prazeres do mundo ou os reinos deste século. Prefiro morrer em Cristo Jesus a reinar sobre todos os confins da terra. Procuro Aquele que morreu por nós; quero Aquele que ressuscitou por nossa causa. Estou prestes a nascer. Tende piedade de mim, irmãos. Não me impeçais de viver, não queirais que eu morra. Não me entregueis ao mundo, a mim que desejo ser de Deus, nem penseis seduzir-me com coisas terrenas. Deixai-me alcançar a luz pura. Quando lá chegar serei verdadeiramente um homem. Deixai-me ser imitador da paixão do meu Deus. Se alguém O possuir, compreenderá o que quero e terá compaixão de mim, por conhecer a ânsia que me atormenta.
O príncipe deste mundo quer arrebatar-me e corromper a disposição da minha vontade para com Deus. Nenhum de vós o ajude; tornai-vos antes partidários meus, isto é, de Deus. Não queirais ter ao mesmo tempo o nome de Jesus Cristo na boca e desejos mundanos no coração. Não me queirais mal. Mesmo que eu vo-lo pedisse na vossa presença, não me devíeis acreditar. Acreditai antes nisto que vos escrevo. Estou a escrever-vos enquanto ainda vivo, mas desejando morrer. O meu Amor está crucificado e não há em mim fogo que se alimente da matéria. Mas há uma água viva que murmura dentro de mim e me diz interiormente: «Vem para o Pai». Não me satisfazem os alimentos corruptíveis nem os prazeres deste mundo. Quero o pão de Deus, que é a Carne de Jesus Cristo, nascido da linhagem de David, e por bebida quero o seu Sangue que é a caridade incorruptível.
Já não quero viver mais segundo os homens; e isto acontecerá, se vós quiserdes. Peço-vos que o queirais, para que também vós alcanceis benevolência. Peço-vos em poucas palavras: acreditai-me. Jesus Cristo vos fará compreender que digo a verdade. Ele é a boca da verdade, no qual o Pai falou verdadeiramente. Pedi por mim para que o consiga. Não vos escrevi segundo a carne, mas segundo o espírito de Deus. Se padecer o martírio, ter-me-eis amado; se me rejeitarem, ter me eis querido mal.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Esta é uma geração perversa...

       Disse Jesus: "Esta geração é uma geração perversa: pede um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal de Jonas. Assim como Jonas foi um sinal para os habitantes de Nínive, assim o será também o Filho do homem para esta geração. No juízo final, a rainha do sul levantar-se-á com os homens desta geração e há-de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; e aqui está quem é maior do que Salomão. No juízo final, os homens de Nínive levantar-se-ão com esta geração e hão-de condená-la, porque fizeram penitência ao ouvir a pregação de Jonas; e aqui está quem é maior do que Jonas" (Lc 11, 29-32).
       Ao ouvirmos hoje Jesus notamos uma certa indignação, ainda que Ele saiba o quanto é difícil a Sua mensagem ter plena aceitação, mas também sabe que um coração atento, disponível para o bem, para acolher os dons de Deus, poderá facilmente entrar no caminho da felicidade, da santidade, da salvação.
       Depois de vários sinais dados por Jesus - milagres, expulsão de espíritos impuros, anúncio da Palavra de Deus, acolhimento dos mais pobres e desfavorecidos, perdão dos pecados -, a incredulidade de muitos levam-n'O a ter este desabafo. Se as multidões reconhecessem o dom de Deus, como tudo seria tão diferente!
       O próprio filho do Homem - Jesus Cristo - será um sinal para esta geração, para todas as gerações. Cabe-nos acolher o sinal e deixarmo-nos converter. Não basta possuir talentos, ou receber dons, é necessário desenvolvê-los, colocá-los ao serviço dos outros. A presença de Jesus (como sinal) vale se deixarmos que a Sua presença seja impulsionadora na transformação da nossa vida e do nosso mundo.
       Por outro lado, na nossa vida há muitas situações que carecem de comprovação, como por exemplo a confiança que depositamos em alguém. Essa confiança é que nos vai levar a aproximarmo-nos dela. Se pelo contrário somos incapazes de confiar, nunca descobriremos que ela é uma pessoa de bem. A Jesus pedem-lhe um sinal inequívoco, depois de terem visto diversos prodígios. Jesus diz-lhes e diz-nos que o verdadeiro sinal é Ele mesmo, com a Sua vida e assim o será na morte e ressurreição...

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Jesus expulsa os demónios

       Jesus expulsou um demónio, mas alguns dos presentes disseram: «É por Belzebu, príncipe dos demónios, que Ele expulsa os demónios». Outros, para O experimentarem, pediam-Lhe um sinal do céu. Mas Jesus, que conhecia os seus pensamentos, disse: «Todo o reino dividido contra si mesmo, acaba em ruínas e cairá casa sobre casa. Se Satanás está dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu reino? Vós dizeis que é por Belzebu que Eu expulso os demónios. Ora, se Eu expulso os demónios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos discípulos? Por isso eles mesmos serão os vossos juízes. Mas se Eu expulso os demónios pelo dedo de Deus, então quer dizer que o reino de Deus chegou até vós. Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, os seus bens estão em segurança. Mas se aparece um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe as armas em que confiava e distribui os seus despojos. Quem não está comigo está contra Mim e quem não junta comigo dispersa. Quando o espírito impuro sai do homem, anda a vaguear por lugares desertos à procura de repouso. Como não o encontra, diz consigo: ‘Voltarei para a casa de onde saí’. Quando lá chega, encontra-a varrida e arrumada. Então vai e toma consigo sete espíritos piores do que ele, que entram e se instalam nela. E o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro» (Lc 11, 15-26).
       Jesus dá claros sinais da Sua intimidade com Deus: faz milagres, expulsa os espíritos impuros, cura os doentes, perdoa os pecados. Ainda que faça o bem, sempre encontra oposição daqueles que por ciúme, inveja, cinismo, incredulidade, O contestam. Alguns consideram-n'O blasfemo, charlatão, mais um a tentar ludibriar o povo. Em contrapartida, perante os feitos de Jesus, as pessoas têm os sinais de que Ele está e vem em nome de Deus, uma fez que faz o que só a Deus é possível e atribuído. Então Ele é Deus.
       Os detractores vão espalhando, insidiosamente, que aqueles poderes são manifestação diabólica, ao que Jesus responde dizendo que o "reino demoníaco" seria derrotado se estivesse dividido. Ora se Jesus está contra o reino das trevas, este não subsistirá. Se, pelo contrário, Jesus pertencesse ao exército de Satanás, o que faria sentido é que espalhasse o mal, ora Jesus procura e promove o bem...

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis...

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Se algum de vós tiver um amigo, poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque chegou de viagem um dos meus amigos e não tenho nada para lhe dar’. Ele poderá responder lá de dentro: ‘Não me incomodes; a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados e não posso levantar-me para te dar os pães’. Eu vos digo: Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência, levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa. Também vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á. Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!» (Lc 11, 5-13).
        Se ontem escutávamos a única oração que nos ensinou, hoje Jesus incentiva-nos a rezar sempre, pedindo, agradecendo, louvando. Tal como um pai atende sempre aos seus filhos, mesmo que em momentos específicos não possa fazer-lhes a vontade, pois entende não ser o melhor, também o Pai do Céu nos atende sempre, ainda que por vezes não seja visível a resposta que Deus dá às nossas preces.
       Na oração, Deus fortalece a nossa vida e as nossas escolhas, ilumina-nos nas dificuldades, conforta-nos na desilusão, abre-nos à confiança no futuro, predispõe-nos para irmos ao encontro dos outros. Pela oração encontramo-nos com Deus e reconhecemo-nos irmãos em Cristo Jesus.
       A oração é o ponto de partida de todo o crente cristão e o ponto de chegada. Deus é quem nos redime e nos salva. A oração é o diálogo com o Deus altíssimo. Se iniciarmos a nossa vida, as nossas opções pela oração, isto é pedindo ao Senhor que nos ilumine, que nos aponte o caminho do bem, certamente que iremos mais longe na caridade. Mas partimos para chegar, para chegar a Deus. N'Ele temos origem. N'Ele está o nosso fim. Vimos de Deus. Vamos para Deus. Somos chamados e enviados por Ele. Recolhe-nos e coloca-nos na Sua eternidade. Assim a vida. Assim a oração. Saímos de Deus, com a esperança firme de voltarmos à Casa do Pai, pelo caminho comprometemo-nos com os outros.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

São João XIII, Papa

Nota biográfica:
       Nasceu no dia 25 de Novembro de 1881 em Sotto il Monte, diocese e província de Bérgamo (Itália), e nesse mesmo dia foi baptizado com o nome de Angelo Giuseppe; foi o quarto de treze irmãos, nascidos numa família de camponeses e de tipo patriarcal. Ao seu tio Xavier, ele mesmo atribuirá a sua primeira e fundamental formação religiosa. O clima religioso da família e a fervorosa vida paroquial foram a primeira escola de vida cristã, que marcou a sua fisionomia espiritual.
       Ingressou no Seminário de Bérgamo, onde estudou até ao segundo ano de teologia. Ali começou a redigir os seus escritos espirituais, que depois foram recolhidos no "Diário da alma". No dia 1 de Março de 1896, o seu director espiritual admitiu-o na ordem franciscana secular, cuja regra professou a 23 de Maio de 1897.
       De 1901 a 1905 foi aluno do Pontifício Seminário Romano, graças a uma bolsa de estudos da diocese de Bérgamo. Neste tempo prestou, além disso, um ano de serviço militar. Recebeu a Ordenação sacerdotal a 10 de Agosto de 1904, em Roma, e no ano seguinte foi nomeado secretário do novo Bispo de Bérgamo, D. Giacomo Maria R. Tedeschi, acompanhando-o nas várias visitas pastorais e colaborando em múltiplas iniciativas apostólicas: sínodo, redacção do boletim diocesano, peregrinações, obras sociais. Às vezes era também professor de história eclesiástica, patrologia e apologética. Foi também Assistente da Acção Católica Feminina, colaborador no diário católico de Bérgamo e pregador muito solicitado, pela sua eloquência elegante, profunda e eficaz.
       Naqueles anos aprofundou-se no estudo de três grandes pastores: São Carlos Borromeu (de quem publicou as Actas das visitas realizadas na diocese de Bérgamo em 1575), São Francisco de Sales e o então Beato Gregório Barbarigo. Após a morte de D. Giacomo Tedeschi, em 1914, o Pade Roncalli prosseguiu o seu ministério sacerdotal dedicado ao magistério no Seminário e ao apostolado, sobretudo entre os membros das associações católicas.
       Em 1915, quando a Itália entrou em guerra, foi chamado como sargento sanitário e nomeado capelão militar dos soldados feridos que regressavam da linha de combate. No fim da guerra abriu a "Casa do estudante" e trabalhou na pastoral dos jovens estudantes. Em 1919 foi nomeado director espiritual do Seminário.
       Em 1921 teve início a segunda parte da sua vida, dedicada ao serviço da Santa Igreja. Tendo sido chamado a Roma por Bento XV como presidente nacional do Conselho das Obras Pontifícias para a Propagação da Fé, percorreu muitas dioceses da Itália organizando círculos missionários.
       Em 1925, Pio XI nomeou-o Visitador Apostólico para a Bulgária e elevou-o à dignidade episcopal da Sede titular de Areopolis.
       Tendo recebido a Ordenação episcopal a 19 de Março de 1925, em Roma, iniciou o seu ministério na Bulgária, onde permaneceu até 1935. Visitou as comunidades católicas e cultivou relações respeitosas com as demais comunidades cristãs. Actuou com grande solicitude e caridade, aliviando os sofrimentos causados pelo terremoto de 1928. Suportou em silêncio as incompreensões e dificuldades de um ministério marcado pela táctica pastoral de pequenos passos. Consolidou a sua confiança em Jesus crucificado e a sua entrega a Ele.
       Em 1935 foi nomeado Delegado Apostólico na Turquia e Grécia: era um vasto campo de trabalho. A Igreja tinha uma presença activa em muitos âmbitos da jovem república, que se estava a renovar e a organizar. Mons. Roncalli trabalhou com intensidade ao serviço dos católicos e destacou-se pela sua maneira de dialogar e pelo trato respeitoso com os ortodoxos e os muçulmanos. Quando irrompeu a segunda guerra mundial ele encontrava-se na Grécia, que ficou devastada pelos combates. Procurou dar notícias sobre os prisioneiros de guerra e salvou muitos judeus com a "permissão de trânsito" fornecida pela Delegação Apostólica. Em 1944 Pio XII nomeou-o Núncio Apostólico em Paris.
       Durante os últimos meses do conflito mundial, e uma vez restabelecida a paz, ajudou os prisioneiros de guerra e trabalhou pela normalização da vida eclesial na França. Visitou os grandes santuários franceses e participou nas festas populares e nas manifestações religiosas mais significativas. Foi um observador atento, prudente e repleto de confiança nas novas iniciativas pastorais do episcopado e do clero na França. Distinguiu-se sempre pela busca da simplicidade evangélica, inclusive nos assuntos diplomáticos mais complexos. Procurou agir sempre como sacerdote em todas as situações, animado por uma piedade sincera, que se transformava todos os dias em prolongado tempo a orar e a meditar.
       Em 1953 foi criado Cardeal e enviado a Veneza como Patriarca, realizando ali um pastoreio sábio e empreendedor e dedicando-se totalmente ao cuidado das almas, seguindo o exemplo dos seus santos predecessores: São Lourenço Giustiniani, primeiro Patriarca de Veneza, e São Pio X.
       Depois da morte de Pio XII, foi eleito Sumo Pontífice a 28 de Outubro de 1958 e assumiu o nome de João XXIII. O seu pontificado, que durou menos de cinco anos, apresentou-o ao mundo como uma autêntica imagem de bom Pastor. Manso e atento, empreendedor e corajoso, simples e cordial, praticou cristãmente as obras de misericórdia corporais e espirituais, visitando os encarcerados e os doentes, recebendo homens de todas as nações e crenças e cultivando um extraordinário sentimento de paternidade para com todos. O seu magistério foi muito apreciado, sobretudo com as Encíclicas "Pacem in terris" e "Mater et magistra".
       Convocou o Sínodo romano, instituiu uma Comissão para a revisão do Código de Direito Canónico e convocou o Concílio Ecuménico Vaticano II. Visitou muitas paróquias da Diocese de Roma, sobretudo as dos bairros mais novos. O povo viu nele um reflexo da bondade de Deus e chamou-o "o Papa da bondade". Sustentava-o um profundo espírito de oração, e a sua pessoa, iniciadora duma grande renovação na Igreja, irradiava a paz própria de quem confia sempre no Senhor. Faleceu na tarde do dia 3 de Junho de 1963.
       Foi beatificado em 3 de setembro de 2000, pelo Papa João Paulo II.
       Foi canonizado em 27 de abril de 2014, pelo Papa Francisco. Na mesma ocasião foi canonizado o Papa João Paulo II, beatificado em 1 de maio de 2011, pelo Papa Bento XVI.


Oração de coleta:
       Deus eterno e omnipotente, que no papa São João XXIII, fizestes resplandecer em todo o mundo a imagem viva de Cristo, bom pastor, concedei-nos, pela sua intercessão, a graça de difundir com alegria a plenitude da caridade cristã. Por Nosso Senhor.

Quando orardes, dizei: Pai-nosso, que estais no Céu...

       Estava Jesus em oração em certo lugar. Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista ensinou também os seus discípulos». Disse-lhes Jesus: «Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação’» (Lc 11, 1-4).
        A oração do Pai-nosso, oração original de Jesus, é sucinta, clara, essencial. Por ela, rezada com sinceridade, descobrimo-nos como filhos amados de Deus, como irmãos uns dos outros, no compromisso de realizar na terra a vontade de Deus, no prossecução do bem, da verdade, da conciliação, procurando para os outros o mesmo que para nós, deixando que Deus atue no mundo e nas pessoas através de nós. No Pai-nosso está contido o essencial, acentuando-se o perdão como forma de construir mais solidamente as relações afectivas entre pessoas e comunidades.

(Sobre o Pai-nosso, reflexão do XVI Domingo do Tempo Comum - ano C).

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Paróquia de Pinheiros | Santa Eufémia | 2017

       A Paróquia de Pinheiros tem em Santa Eufémia uma referência religiosa importantíssima. As paróquias vizinhas, do concelho de Tabuaço e dos concelhos limítrofes, Moimenta da Beira e Armamar, fazem desta uma das maiores romarias do concelho.
       O dia grande é a 16 de setembro, mas tem outros momentos, ao nível religioso, a novena, com a recitação em honra de Nossa Senhora, a celebração da Eucaristia, a reflexão, envolvendo Santa Eufémia. A 14 de setembro, a Procissão das Velas em honra de Nossa Senhora do Rosário, Padroeira primitiva da paróquia. No dia 17, é a vez de Santa Bárbara. é já uma celebração mais intimista e sobretudo para as pessoas de Pinheiros.
Fotos: Paróquia de Pinheiros - Diana Silva (maioritariamente).
Músicas de fundo: Banda Jota.

Marta, Marta, andas inquieta com tanta coisa

       Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: «Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me». O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada» (Lc 10, 38-42).
       Cansado da jornada, Jesus tem na casa de Lázaro, de Maria e de Marta um porto de abrigo. Ao passar sabe que pode descansar e retemperar as forças. Marta atarefa-se para cuidar do bem-estar de Jesus. Maria acolhe-O na escuta atenta. Duas formas de acolhimento que Jesus aprecia.
       O reparo de Marta a Jesus, merece d’Ele um outro reparo. O que Maria faz é tão ou mais importante. Não basta alimentar o corpo, mas também o espírito. Ela escuta-O, conforta-O do cansaço da missão.
       A Igreja é Marta e Maria. Mas se for demasiado Marta pode esquecer-se da sua origem e do seu fim último. Tudo começa em Deus, na oração, na meditação e na contemplação que leve à Sua adoração. O compromisso com os outros e com o mundo, para o crente, há-de partir daqui, para que não haja instrumentalização de pessoas nem falte a alegria no serviço solidário.

Reflexão mais ampla no XVI Domingo do Tempo Comum

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Quem é o meu próximo?

       Jesus, tomando a palavra, disse: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores. Roubaram-lhe tudo o que levava, espancaram-no e foram-se embora, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia pelo mesmo caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Do mesmo modo, um levita que vinha por aquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas, deu-as ao estalajadeiro e disse: ‘Trata bem dele; e o que gastares a mais eu to pagarei quando voltar’. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?». O doutor da lei respondeu: «O que teve compaixão dele». Disse-lhe Jesus: «Então vai e faz o mesmo» (Lc 10, 25-37).
       Um dos doutores da Lei pergunta a Jesus o que deve fazer para ter como herança a vida eterna. A resposta é óbvia, e por maioria de razão, para quem conhece a Sagrada Escritura: amar a Deus, em primeiro lugar, antes e acima de tudo, e ao próximo como a si mesmo. Quanto ao primeiro mandamento mas há dúvidas. Quanto ao segundo - o amor ao próximo - e talvez mais para se desculpar do que para tentar compreender, existem mais dúvidas. O doutor a Lei pergunta a Jesus: quem é o meu próximo?
       A resposta de Jesus vem em forma de parábola - conhecida parábola do Bom Samaritano -, tornando mais explícita a mensagem, mas respeitando a liberdade de aceitar ou não essa mensagem.
       Um homem foi assaltado. Passaram o sacerdote e o levita, mas querendo preservar-se da contaminação legal passam à frente, preferiam estar aptos a participar do culto, mesmo abandonando o homem caído na estrada. Prevalece, aparentemente, o primeiro mandamento, isto é, amar a Deus. A religião parece, nesse caso, opor-se à caridade. Jesus rectifica: o amor de Deus manifesta-se e concretiza-se no auxílio ao outro.
       Jesus vai mais longe. O próximo não é apenas aquele que precisa da minha ajuda, próximo sou eu quando me aproximo. É uma opção pro-activa, leva-me ao compromisso, a tomar a iniciativa de ir ao encontro do outro. Não basta passivamente esperar que o outro venha ao meu encontro ou que o outro me peça ajuda. É uma profunda revolução na mentalidade daquele e de todos os tempos. Amar a Deus nos outros. A própria imagem de Deus, como o Bom Samaritano, que não fica no seu canto, lá no alto do Céus, mas vem ao encontro, toma a iniciativa, não fica indiferente, cuida...

sábado, 7 de outubro de 2017

XXVII Domingo do Tempo Comum - ano A - 8.10.2017

Nossa Senhora do Rosário

       O mês de Outubro é muito rico. É o mês das missões. É o mês do Rosário.
       Começamos o mês em toada de oração pelas Missões, celebrando no primeiro dia a festa de Santa Teresa do Menino Jesus, Padroeira das Missões. Ao sétimo dia: Nossa Senhora do Rosário.
       A Rosário tem sido valorizado ao longo dos anos, com os vários Papas. Este dia foi instituído pelo Papa São Pio V no aniversário da vitória obtida pelos cristãos na batalha naval de Lepanto e atribuída ao auxílio da Santa Mãe de Deus, invocada com a oração do Rosário (1571).
       São Domingos de Gusmão deu uma grande contributo para o aprofundar o culto a Nossa Senhora do Rosário, que lhe apareceu, e a necessidade de "usar" o Rosário contra o demónio.
       Fátima foi também um desses acontecimentos importantes que acentuou a relevância do Rosário.
       :: 13 de Maio: "Rezem o terço todos os dias para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra";
       :: 13 de Junho: "Quero que rezem o terço todos os dias";
       :: 13 de Julho: "Quero que continuem a rezar o terço todos os dias em honra de Nossa Senhora do Rosário para obter a paz para o mundo e o fim da guerra, porque só ela lhes poderá valer. Quando rezais o terço dizei depois de cada mistério: Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas para o Céu, principalmente as que mais precisarem";
       :: 19 de Agosto: "Quero que continueis a rezar o terço todos os dias";
       :: 13 de Setembro: "Continuem a rezar o terço para alcançar o fim da guerra";
       :: 13 de Outubro: "Sou a Senhora do Rosário. Quero que continuem sempre a rezar o terço todos os dias".

Oração de colecta:
       Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas, para que nós, que, pela anunciação do Anjo, conhecemos a encarnação de Cristo, vosso Filho, pela sua paixão e morte na cruz e com a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, alcancemos a glória da ressurreição. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Dos Sermões de São Bernardo, abade

Meditemos nos mistérios da salvação

O Santo que nascerá de ti será chamado Filho de Deus. O Verbo do Pai dos Céus é fonte de sabedoria. Por meio de ti, Virgem santa, o Verbo Se fará carne, de modo que quem diz: Eu estou no Pai e o Pai em Mim, dirá também: Eu saí de Deus e vim ao mundo.
No princípio, diz João, era o Verbo. Já brotava a fonte, mas ainda só em si mesma, porque ao princípio o Verbo estava junto de Deus, habitando a luz inacessível. O Senhor dizia desde o início: Eu tenho pensamentos de paz e não de aflição. Mas o vosso pensamento está em Vós, Senhor, e nós ignoramos o que pensais. Com efeito, quem conheceu a mente do Senhor ou quem foi o seu conselheiro?
O pensamento de paz desceu do Céu para realizar a sua obra de paz: O Verbo fez Se homem e habita já no meio de nós. Na verdade, habita pela fé nos nossos corações, na nossa memória, no nosso pensamento, e desceu até à própria imaginação. Que primeiro pensamento teria o homem acerca de Deus, a não ser talvez um ídolo fabricado pelo seu coração? Deus era incompreensível, inacessível, invisível e para além de todo o nosso pensamento; agora, porém, quis ser compreendido, quis ser visto, quis ser pensado.
De que modo? Sem dúvida recostado no presépio, deitado no regaço da Virgem, pregando na montanha, passando a noite em oração; ou então, suspenso da cruz, lívido na morte, livre entre os mortos e dominando sobre o poder do inferno; ou também ressurgindo ao terceiro dia e mostrando aos Apóstolos os lugares dos cravos, sinais de vitória, e finalmente subindo, na presença deles, ao mais alto do Céu.
Quem não meditará na verdade, na piedade e na santidade destes factos? Quando medito em qualquer deles, o meu pensamento encontra a Deus, e em tudo é o meu Deus. É verdadeira sabedoria meditar nestes mistérios, é verdadeira prudência evocar a doce memória destes frutos excelentes que Maria recebeu do Céu e tão copiosamente derramou sobre nós.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Quem vos escuta, escuta-Me a Mim...

       Disse Jesus: «Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidónia se tivessem realizado os milagres que em vós se realizaram, há muito tempo teriam feito penitência, vestindo-se de cilício e sentando-se sobre a cinza. Assim, no dia do Juízo, haverá mais tolerância para Tiro e Sidónia do que para vós. E tu, Cafarnaum, serás elevada até ao céu? Até ao inferno é que descerás. Quem vos escuta, escuta-Me a Mim; e quem vos rejeita, rejeita-Me a Mim. Mas quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou» (Lc 10, 13-16).
       Aparentemente também a Jesus chega o desalento. Não apenas aparente, mas a constatação humana de que nem tudo corre de feição. Com efeito, Jesus assume a nossa humanidade, e também a fragilidade que lhe está inerente. Surpreende-se em alguns momentos com a falta de fé, com a desconfiança, e com o cinismo de quem já não se abre à esperança que vem de Deus.
       O desencanto de Jesus anima-o a continuar, a desafiar, a insistir, a seguir em frente, a mostrar uma maior confiança em Deus e no Seu amor de Pai. O aviso vale para os discípulos. Também eles passarão por momentos difíceis, de perseguição e morte. "Treinam-se" com o Mestre, vivem com Ele, com os sucessos e fracassos muito humanos, e são desafiados a superar todo o medo, confiando em Deus, a ultrapassar a limitação colocando-se nas mãos de Deus.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Jesus designou 72 discípulos e enviou-os

        Designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. E dizia-lhes: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias, nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho. Quando entrardes nalguma casa, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’. E se lá houver gente de paz, a vossa paz repousará sobre eles; senão, ficará convosco. Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem, comei do que vos servirem, curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’. Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saí à praça pública e dizei: ‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés sacudimos para vós. No entanto, ficai sabendo: Está perto o reino de Deus’. Eu vos digo: Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma do que para essa cidade» (Lc 10, 1-12).
       O anúncio do Evangelho necessita de evangelizadores. A missão de Jesus envolve todo o mistério de salvação - encarnação, pregação do Evangelho, instauração do Reino de Deus, morte e ressurreição, envio do Espírito Santo, contituição da Igreja, como o Seu Corpo no tempo -, e envolve-nos como discípulos.
       Primeiro condição, viver com Jesus, fazer a experiência pessoa e admirável de encontro com Ele e de encontro transformador. Só poderemos ser enviados se antes nos sentimos chamados e se nos identificamos com Aquele que envia. Que contradição seria, sermos enviados, para anunciar uma Mensagem com a qual estamos em desacordo. Ora, o centro e o essencial da Mensagem é o próprio Jesus Cristo. É a Ele que o anunciamos.
       Envia 72 discípulos. Também fazemos parte deste desafio, deste envio. 70 ou 72 implica discípulos de todas as nações. Jesus chama todos.
       Neste momento, os discípulos vão/vamos como Precursores, preparar o caminho, os corações, para Jesus ser acolhido. É uma tarefa teologicamente atual. É Deus quem age. Cabe-nos acolhê-l'O e preparar os outros para também terem a dita de O conhecer, de O encontrar, de O receber em suas casas, nas suas vidas.
       Vamos confiantes, na certeza que Ele nos acompanha e, nesse sentido, Ele realizará obras grandiosas. Se fosse para nos anunicarmos a nós, sairíamos desiludidos. Deixemos que Ele opere em nós e através de nós.

Sobre este texto pode revisitar a nossa Reflexão Dominical: AQUI.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

São Francisco de Assis

       1 – São Francisco de Assis não foi sacerdote mas é incontornavelmente sacerdote, porque na sua santidade nos mostra Deus e leva até a Deus a humanidade inteira.
       Em 1209, São Francisco, com alguns companheiros, apresentou-se diante do Papa Inocêncio III, que aprovou oralmente a primeira Regra: procurar viver o Evangelho, a divisa que se manteve ao longo da história dos franciscanos.
       2 – É, sem dúvida, uma das figuras maiores do cristianismo. Nasceu em Assis, na Úmbria, no centro de Itália, no dia 26 de setembro de 1181 (ou 1182). Filho de Pietro Bernardone, rico comerciante de tecidos, e de Pica Bernardone, que pertencia a uma família nobre de Provença, recebeu o nome de João, pelo Batismo, mas pouco depois o pai mudou-lho para Francisco (francês). Tinha vários irmãos. Estudou mas com pouca dedicação. Os negócios não lhe despertaram muito interesse e parece que era pejado de atenções dos pais, permitindo-lhe fazer tudo o que quisesse.
       Tornou-se um verdadeiro rei da boémia. Jovem, audaz, rico, simpático, alegre, bem educado, era benquisto pela alta sociedade. Com 20 anos de idade, juntamente com outros conterrâneos, foi lutar contra os jovens de Perugia, onde ficaria em prisão por mais de um ano.
       Entretanto abraçou a carreira militar. Foi para a guerra como cavaleiro. Na noite anterior teve um sonho em que se via num grande salão, com várias armaduras com a insígnias da cruz, ouvindo uma voz: “Estas são para ti e para os teus soldados”. Quanto se dirigia para Apúlia, caiu em Espoleto. Terá tido outro sonho no qual uma voz lhe disse para voltar a Assis. Passou por um período de incerteza.
       Em 1208, numa Missa na capela de Santa Maria dos Anjos, escutou o Evangelho que dizia que os discípulos de Jesus Cristo não deveriam possuir nem ouro nem prata, nem duas túnicas, nem calçado nem bastão. Entendeu que as palavras lhe eram dirigidas. Encontra a sua vocação. Despoja-se de tudo o que tem e passa a trajar uma túnica de lã, áspera, com uma corda atada à cintura, como os camponeses mais pobres, e começa a exortar à penitência, ao amor fraterno e à paz.
       Outros seguem o seu exemplo, deixam a riqueza e acompanham-no. Entretanto reparou a Igreja de São Nicolau e para saber a vontade de Deus, abriu três vezes a Bíblia, à sorte, encontrando passagens em que Jesus dizia aos seus discípulos para deixarem tudo e segui-lo. “Esta será a nossa regra de vida”, exclamou Francisco. Com os companheiros, saiu para a praça e entregou todos os bens que tinha aos pobres.

       3 – O número de companheiros chegou a 11 e Francisco achou por bem escrever uma “Regra”. Seguiram para Roma a fim de obterem a aprovação por parte do Papa.
       Entretanto, o Papa Inocêncio III, numa noite do ano de 1209, teve um sonho em que via a Basílica de São João de Latrão a oscilar, com rachas e a desmoronar-se. Apareceu um mendigo que segurou o edifício e este voltou à solidez original. Quando uns dias mais tarde Francisco estava à sua frente, o papa lembrou-se do sonho, reconheceu nele o mendigo e aprovou a “Regra”: “Eis aqui o homem destinado por Deus para escorar e reparar a Igreja”.
       Por volta de 1211, fixaram-se em Assis. Os beneditinos cederam-lhes a Igreja de Santa Maria dos Anjos. O convento franciscano foi construído, tornando-se a sede dos franciscanos, de onde eram enviados a pregar, por toda a parte.

       4 – Em 1212, dá-se o encontro com aquela que viria a ser chamada de Irmã de São Francisco, Santa Clara de Assis. Tocada pela pregação do santo, esta jovem rica de Assis, procurou-o e pediu-lhe que a deixasse seguir esta nova forma de vida. Tinha 18 anos. Permaneceu durante algum tempo com as monjas beneditinas, mas logo o santo arranjou um lugar, para Clara, para Santa Inês, sua irmã, e para outras virgens piedosas. A casa reconstruída por São Francisco, doada pelos beneditinos, serviu de mosteiro à Segunda Ordem Franciscana das Damas Pobres, atualmente Clarissas Pobres.

       5 – Em 1214, viaja, numa segunda tentativa para evangelizar os “sarracenos”, para Marrocos, mas atacado por forte doença em Espanha, regressou a Itália.
       Em maio de 1217 reuniu o primeiro capítulo geral dos Frades Menores, enviando os companheiros para Toscânia, Provença, Lombardia, Espanha e Alemanha, deixando a França para si, mas em seu lugar acabou por ir o irmão Pacífico.
       Por insistência do cardeal Ugolino, foi a Roma, durante os anos de 1217 e 1218, pregando diante do Papa e dos cardeais. É por essa altura que se dá o encontro com São Domingos. Dedicou-se a viagens por Itália, mas com a preocupação de missionar os “infiéis”, o que veio também a acontecer.
       No verão de 1224, com os companheiros, jejua durante quarenta dias, a preparar a festa de São Miguel. É durante este tempo de retiro, na festa da exaltação da Santa Cruz, que teve a visão do Serafim repleto de luz, cuja sequela foi o aparecimento das 5 chagas de Jesus Cristo.
       No princípio do outono de 1226, sentiu próxima a morte. Pediu que lhe lessem a Paixão de Jesus segundo o Evangelho de São João, despojando-se das suas roupas e vestindo umas emprestadas, para morrer sem nada seu.
       Morreu no dia 3 de outubro de 1226, com 45 anos de idade. Foi canonizado em 16 de julho de 1228, pelo Papa Gregório IX.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Abertura do Ano Pastoral - 30 de setembro de 2017

E puseram-se a caminho...

       Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?». Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os. E seguiram para outra povoação.
(Lc 9, 51-56)
       A vida ninguém para tira, sou Eu que a dou livremente. Jesus oferece a Sua vida pela salvação da humanidade inteira, substitui-nos na Cruz. Inocente, sem mancha, morre pelos pecadores, livra-nos da morte eterna, coloca-nos em Deus. Com efeito, a natureza humana vai com Jesus para a direita de Deus Pai.
       Hoje vemos como a firmeza de Jesus se afirma no caminho a percorrer.
       Nos discípulos há uma réstia de esperança, de que não se concretize o anúncio da Sua paixão. Jesus sabe que é inevitável. A consequência do amor à humanidade, leva-O até ao fim, até à Cruz.

CENTENÁRIO DA CAPELA DA MATANCINHA - 2017

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Santos Anjos da Guarda

Nota histórica:
       Com o Sacrifício da Cruz, realizou-se a unidade entre todas as criaturas espirituais e materiais. Em virtude dessa unidade profunda do mundo em Jesus Cristo, os espíritos superiores, que são os Anjos, estão presentes à vida do homem, auxiliam-no, guardam-no e protegem-no.
       É-nos impossível descobrir, com os sentidos, a sua acção e descrever a natureza da sua ajuda. «Contudo, a orientação do conjunto da nossa vida depende deles, em parte. Os Anjos podem agir na nossa maneira de julgar, intervir nas nossas decisões, apresentar-nos valores sobrenaturais» (Gustavo Thils).
       A Igreja recomenda, por isso, que recorramos à intercessão dos Anjos da Guarda, especialmente nos momentos críticos da nossa vida.
       Eis o que diz o Senhor:
       "Vou enviar um Anjo à tua frente, para que te proteja no caminho e te conduza ao lugar que preparei para ti. respeita a sua presença e escuta a sua voz; não lhe desobedeças.Ele não perdoaria as tuas transgressões, porque fala em meu nome. Mas se ouvires a sua voz e fizeres tudo o que Eu te disser, serei inimigo dos teus inimigos...
       O meu Anjo irá à tua frente" (Ex 23, 20-23a).

       Disse Jesus aos seus discípulos:
       "... Não desprezeis um só destes pequeninos. Eu vos digo que os seus Anjos vêem continuamente o rosto do meu Pai que está nos Céus" (Mt 18, 1-5.10).

Oração de Colecta:
       Senhor, que na vossa admirável providência enviais os Anjos para nos guardarem, ouvi as nossas súplicas e fazei que sejamos sempre defendidos pela sua protecção e gozemos eternamente da sua companhia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
São Bernardo, abade

Guardem-te nos teus caminhos

Deus mandou os seus Anjos, para que te guardem em todos os teus caminhos. Dêem graças ao Senhor pela sua misericórdia e pelas suas maravilhas em favor dos filhos dos homens. Dêem graças e digam entre os gentios: Grandes coisas fez por eles o Senhor. Senhor, que é o homem para Vos dardes a conhecer a ele? Ou por que motivo pensa nele o vosso coração? Pensais nele, sois solícito para com ele, tendes cuidado dele. Finalmente enviais lhe o vosso Unigénito, infundis-lhe o vosso Espírito, prometeis lhe a visão do vosso rosto. E para que nenhum dos seres celestiais deixe de manifestar solicitude para connosco, enviais os espíritos bem aventurados para que nos sirvam, nos guardem e nos guiem.
Deus mandou os seus Anjos, para que te guardem em todos os teus caminhos. Quanta reverência, devoção e confiança devem inspirar te estas palavras! Veneração pela presença, devoção pela benevolência, confiança pela protecção. Estão portanto presentes; e estão a teu lado, não só contigo como companhia, mas também para ti como protecção. Estão presentes para te proteger, estão presentes para te favorecer. É certo que eles estão a cumprir um mandato do Senhor, mas devemos mostrar lhes a nossa gratidão pelo grande amor com que obedecem e nos socorrem em tantas necessidades.
Sejamos pois dedicados e agradecidos a tão dignos custódios; correspondamos ao seu amor, honremo-los quanto pudermos, quanto devemos. Dirijamos, porém, todo este amor e veneração ao Senhor, de quem depende inteiramente, tanto para nós como para os Anjos, a graça de O podermos amar e venerar e o mérito para sermos amados e venerados.
Portanto, irmãos, amemos n’Ele os seus Anjos como futuros herdeiros connosco e agora advogados e protectores que o Pai designou e colocou ao nosso lado. Agora já somos filhos de Deus, embora não se manifeste ainda o que havemos de ser com Ele na glória; somos filhos de menoridade, ainda sob a protecção de advogados e tutores, como se em nada nos distinguíssemos dos servos.
Mas, apesar de sermos como crianças e de nos faltar ainda um caminho tão longo e tão perigoso, que havemos de temer sob o patrocínio de tão excelsos custódios? Não podem ser vencidos nem enganados e muito menos enganar nos aqueles que nos guardam em todos os nossos caminhos. São fiéis, prudentes, poderosos; porquê recear? Basta segui los e acolhermo nos a eles e habitaremos sob a protecção do Deus do Céu.

sábado, 30 de setembro de 2017

DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM - ano A - 1.10.2017

São Jerónimo, presbítero e doutor da Igreja

       Sofrónio Aurélio Jerónimo nasceu em Estridon (Dalmácia), em 340. Em 354 foi para Roma a fim de estudar.
       Um dos seus ideais foi formar uma grande biblioteca. Por outro lado, desde o início em Roma, procurar visitar os túmulos dos mártires cristãos. No final da estadia em Roma, à volta dos 20 anos, recebeu o baptismo e encaminhou-se para Tréveros para fazer estudos teológicos.
       Em 373 ou 374 foi em Peregrinação à Terra Santa, mas a doença reteve-o muito tempo em Antioquia. Dedicou-se a aprender/estudar grego.
       Entretanto retirou-se para o deserto de Cálcida para se fazer eremita, aprendendo o hebraico.
       Em 379 foi ordenado sacerdote. De Antioquia foi para Constantinopla. Em 382 foi chamado pelo papa, São Dâmaso, vindo a tornar-se seu secretário.Reviu o texto latino da Bíblia, deixando-nos a tradução conhecida como Vulgata.
       Em 385, abandona Roma e de novo intenta a Peregrinação a Jerusalém, estabelecendo-se em Belém, no ano seguinte, onde esteve até à morte, em 30 de Setembro de 420, durante 34 anos.
       Procurou responder a todas as polémicas. Tinha um temperamento vigoroso e duro. Foi um dos mais notáveis tradutores e comentadores bíblicos.

Oração de colecta:
       Senhor nosso Deus, que destes ao presbítero São Jerónimo o dom de saborear a Sagrada Escritura e de a viver intensamente, fazei que o vosso povo se alimente cada vez mais com a vossa palavra e encontre nela a fonte da verdadeira vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Comentário de São Jerónimo, presbítero, sobre o Livro do Profeta Isaías

Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo

Cumpro o meu dever, obedecendo aos preceitos de Cristo, que diz: Examinai as Escrituras, e: Procurai e encontrareis, para que não tenha de ouvir o que foi dito aos judeus: Estais enganados, porque não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus. Se, de facto, como diz o apóstolo Paulo, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus, aquele que não conhece as Escrituras não conhece o poder de Deus nem a sua sabedoria. Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo.
Por isso quero imitar o pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e antigas, e também a esposa que diz no Cântico dos Cânticos: Guardei para ti, meu amado, frutos novos e antigos. Assim comentarei o livro de Isaías, apresentando o não apenas como profeta, mas também como evangelista e apóstolo. Ele próprio diz, referindo-se a si e aos outros evangelistas: Como são belos, sobre os montes, os pés dos que anunciam boas novas, dos que anunciam a paz. E Deus fala lhe como a um apóstolo: A quem hei de enviar? Quem irá ter com este povo? E ele respondeu: Eis me aqui, enviai-me.
Ninguém julgue que eu desejo explicar de modo completo, em tão poucas palavras, o conteúdo deste livro da Escritura, que abrange todos os mistérios do Senhor. Efectivamente, no livro de Isaías o Senhor é preanunciado como o Emanuel que nasceu da Virgem, como autor de prodígios e milagres, como morto, sepultado e ressuscitado de entre os mortos e como Salvador de todos os povos. Que dizer da sua doutrina sobre física, ética e lógica? Este livro é como um compêndio de todas as Escrituras e contém em si tudo o que a língua humana pode exprimir e a inteligência dos mortais pode compreender. Da profundidade dos seus mistérios dá testemunho o próprio autor quando escreve: Para vós toda a visão será como as palavras de um livro selado. Se se dá a quem sabe ler, dizendo: «Lê-o por favor», ele responde: «Não posso, porque está selado». E se se dá a quem não sabe ler, dizendo: «Lê-o por favor», ele responde: «Não sei ler».
E se parece débil a alguém esta reflexão, oiça o que diz o Apóstolo: As aspirações dos profetas sejam submetidas aos profetas, de modo que tenham possibilidade de falar ou de se calar. Portanto, os Profetas compreendiam o que diziam e por isso todas as suas palavras estão cheias de sabedoria e de sentido. Aos seus ouvidos não chegavam apenas as vibrações da voz; Deus falava ao seu espírito, como diz outro profeta: O Anjo falava em mim; e também: Clama nos nossos corações: Abba, Pai; e ainda: Escutarei o que diz o Senhor.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Arcanjos São Miguel, São Gabriel, São Rafael

       Entre «os puros espíritos que também são denominados Anjos» (Credo do Povo de Deus), sobressaem três, que têm sido especialmente honrados, através do séculos e a Liturgia une na mesma celebração. Além das funções próprias de todos os Anjos, eles aparecem-nos, na Escritura Sagrada, incumbidos de missão especial.
  • São Miguel (= «Quem como Deus»?) é o príncipe dos Anjos, identificado, por vezes, como o Anjo do turíbulo de ouro de que fala o Apocalipse. É o Anjo dos supremos combates. É o melhor guia do cristão, na hora da viagem para a eternidade. É o protector da Igreja de Deus (Apoc. 12-19).
  • São Gabriel (= «Deus é a minha força») é o mensageiro da Incarnação (Dan. 9, 21-22). É o enviado das grandes embaixadas divinas: anuncia a Zacarias o nascimento do Precursor e revela a Maria o mistério da divina Maternidade. Pio XII, em 12 de Janeiro de 1951, declarou este Arcanjo patrono das telecomunicações.
  • São Rafael (= «Medicina de Deus») manifesta-se na Bíblia como diligente e eficaz protector duma família, que se debate para não sucumbir às provações. É conselheiro, companheiro de viagem, defensor e médico. Honrando os Anjos, cuja existência nos é abundantemente testemunhada pela Sagrada Escritura, nós exaltamos o poder de Deus, Criador do mundo visível e invisível.
Oração de colecta:
       Senhor Deus do universo, que estabeleceis com admirável providência as funções dos Anjos e dos homens, concedei, propício, que a nossa vida seja protegida na terra por aqueles que eternamente Vos assistem e servem no Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

... E procurava ver Jesus

        O tetrarca Herodes ouviu dizer tudo o que Jesus fazia e andava perplexo, porque alguns diziam: «É João Baptista que ressuscitou dos mortos». Outros diziam: «E Elias que reapareceu». E outros diziam ainda: «É um dos antigos profetas que ressuscitou». Mas Herodes disse: «A João mandei-o eu decapitar. Mas quem é este homem, de quem oiço dizer tais coisas?». E procurava ver Jesus (Lc 9, 7-9).
        Em muitas situações da vida é necessário que vejamos, que façamos a experiência, que nos encontremos, que vivamos, e não apenas o conhecimento que nos chega através dos outros. Ao nível da fé a comunicação e o anúncio da palavra de Deus são essenciais. Mas não suficientes. É necessário fazer a experiência de encontro com Jesus crucificado e ressuscitado, sob pena da fé se tornar acessória, vazia, sem relevância para a vida.
       Herodes tem curiosidade. Não sabemos se é um impulso interior do Espírito de Deus, ou se é mera curiosidade intelectual ou coscuvilheira. De qualquer forma, para nós uma lição ou um desafio: ver Jesus, encontrarmo-nos com Ele, fazermos a experiência d'Ele na nossa vida. E assim a fé será encorpada e dará sentido às outras dimensões da nossa vida.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

São Vicente de Paulo, presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu na Aquitânia em 1581. Completados os estudos e ordenado sacerdote, exerceu o ministério paroquial em Paris. Fundou a Congregação da Missão, destinada à formação do clero e ao serviço dos pobres; com a ajuda de S. Luísa de Marillac instituiu também a Congregação das Filhas da Caridade. Morreu em Paris no ano 1660.
Oração de colecta:
       Senhor, Deus de bondade, que enriquecestes o presbítero São Vicente de Paulo com virtudes apostólicas para se entregar ao serviço dos pobres e à formação dos pastores do vosso povo, concedei-nos que, animados pelo mesmo espírito, amemos o que ele amou e pratiquemos o que ele ensinou. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
São Vicente de Paulo, presbítero

O serviço dos pobres deve ser preferido acima de tudo

A nossa atitude para com os pobres não se deve regular pela sua aparência externa nem sequer pelas suas qualidades interiores. Devemos considerá-los, antes de mais, à luz da fé. O Filho de Deus quis ser pobre e ser representado pelos pobres. Na sua paixão, quase perdeu o aspecto de homem; apareceu como um louco para os gentios e um escândalo para os judeus. Todavia, apresentou-Se a estes como evangelizador dos pobres: Enviou-Me para evangelizar os pobres. Também nós devemos ter os mesmos sentimentos de Cristo e imitar o que Ele fez: cuidar dos pobres, consolá-los, socorrê-los e recomendá-los.
Cristo quis nascer pobre, chamar para sua companhia discípulos pobres, servir os pobres e identificar se com os pobres, a ponto de dizer que o bem ou o mal feito a eles o tomaria como feito a Si mesmo. Deus ama os pobres, e por conseguinte ama também aqueles que os amam. Na verdade, quando alguém tem especial afecto a uma pessoa, estende também este afecto aos seus amigos e servos. Por isso temos razão para esperar que, por causa do nosso amor dos pobres, também nós seremos amados por Deus.
Quando os visitamos, procuremos compreender a sua pobreza e infelicidade para sofrer com eles e ter os sentimentos de que fala o Apóstolo, quando diz: Fiz-me tudo para todos. Esforcemo-nos por sentir profundamente as preocupações e misérias dos nossos semelhantes; peçamos a Deus que nos dê o espírito de misericórdia e compaixão e que conserve sempre em nossos corações estes sentimentos.
O serviço dos pobres deve ser preferido a todos os outros e deve ser prestado sem demora. Se durante o tempo de oração, tiverdes de levar um medicamento ou qualquer auxílio a um pobre, ide tranquilamente, oferecendo a Deus essa boa obra como prolongamento da oração. E não tenhais nenhum escrúpulo ou remorso de consciência se, para prestar serviço aos pobres, tivestes de deixar a oração. De facto não se trata de deixar a Deus, se é por amor de Deus que deixamos a oração: servir um pobre é também servir a Deus.
A caridade é a máxima norma, e tudo deve tender para ela; é uma grande senhora: devemos cumprir o que ela manda. Renovemos, portanto, o nosso espírito de serviço aos pobres, principalmente para com os mais abandonados. Esses hão de ser os nossos senhores e protetores.
Sobre São Vicente de Paulo, neste blogue, aqui!

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Minha família? Aqueles que ouvem a palavra de Deus...

       Vieram ter com Jesus sua Mãe e seus irmãos, mas não podiam chegar junto d’Ele por causa da multidão. Então disseram-Lhe: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-Te». Mas Jesus respondeu-lhes: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 8, 19-21).
       Os laços de sangue certamente são demasiado importantes. No entanto, nem só de laços de sangue nos alimentamos. Por um lado, constatamos amiúde que os laços de sangue nem sempre são suficientes para garantirem a segurança das pessoas, a vivência pacífica e solidária, a proteção dos vários membros. E dessa forma acabamos por concluir que mais importante que as "amarras" da consanguinidade são os sentimentos, o amor, os afetos. O ideal é que os laços de sangue sejam fortalecidos pelos laços da caridade. Sabendo nós que é do amor que nascem (e devem nascer) as famílias.
       Por outro lado, a família de Jesus era um espaço de amor, de diálogo, de apoio mútuo, aberta aos vizinhos, e aos estrangeiros e pobres que passavam ali por Nazaré, e a quem davam alimento e guarida. Por conseguinte, quando lhe falam da família, sem menosprezar antes inspirado na original, Jesus alarga a concepção da família e as condições para lhe pertencermos: escutar a palavra de Deus e pô-la em prática.

São Cosme e São Damião, Mártires

Nota biográfica:
       Cosme e Damião eram irmãos gémeos, médicos de profissão e santos na vocação da vida. Viveram no Oriente e, desde jovens, médicos competentes e dedicados. Com a conversão passaram a ser também missionários, à medicina associaram a confiança no poder da oração e a muitos levaram a saúde do corpo e da alma.
       Como tantos outros homens e mulheres, também Cosme e Damião foram vítimas da
perseguição de Diocleciano. Forma presos, pelo ano 300 da era cristã, sendo considerados inimigos dos deuses e acusados de usar feitiçarias e meios diabólicos para disfarçar as curas. Em resposta à acusação, a sua resposta é uma profissão de fé, clara e decidida: "Nós curamos as doenças, em nome de Jesus Cristo e pelo seu poder!"
       Quanto aos deuses, proclamados em nome do Imperador, e cuja a adoração os libertaria da prisão e da morte, eles respondiam com firmeza: "Teus deuses não têm poder algum, nós adoramos o Criador do céu e da terra!"
      Foram decapitados no ano de 303. São considerados os padroeiros dos farmacêuticos, médicos e das faculdades de medicina.

Oração depois da Comunhão:
       Conservai em nós, Senhor, este dom que recebemos da vossa bondade, ao celebrarmos a memória dos santos mártires Cosme e Damião e fazei que ele seja para nós fonte de salvação e de paz. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Santo Agostinho, bispo

É preciosa a morte dos mártires cujo preço foi a morte de Cristo

Diante de tão gloriosas heroicidades dos santos mártires, com que floresce a Igreja por toda a parte, verificamos com os nossos próprios olhos quanto é verdadeiro o que cantámos: É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus fiéis; porque é preciosa aos nossos olhos e aos olhos d’Aquele por cujo nome se ofereceu.
Mas o preço destas mortes é a morte de um só. Quantas mortes terá resgatado a morte de um só, que, se não morresse, seria como o grão de trigo que não frutifica? Recordais as suas palavras, quando Se aproximava da paixão, isto é, quando Se aproximava da nossa redenção: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, permanece só; mas se morrer, dá muito fruto.
Ele fez realmente na cruz um grande negócio. Aí foi aberta a bolsa que tinha o preço do nosso resgate: quando o seu lado foi aberto pela lança do soldado, dele saiu o preço do mundo inteiro. Foram resgatados os fiéis e os mártires; mas a fé dos mártires foi comprovada; o testemunho é o sangue derramado. Retribuíram o que tinha sido pago em seu favor, cumprindo o que diz São João: Assim como Cristo deu a sua vida por nós, também nós devemos dar a vida pelos irmãos. E noutro lugar diz se: Se te sentas a uma grande mesa, repara com atenção no que te servem, porque também tu deves preparar coisa igual.
Grande mesa é aquela em que os manjares são o próprio Senhor da mesa! Ninguém se dá a si mesmo aos convivas em alimento; isto fá-lo Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é quem convida, Ele é o alimento e a bebida. Compreenderam bem os mártires o que comeram e beberam, para retribuírem de igual modo.
Mas com que retribuiriam eles, se Aquele que foi o primeiro a pagar não lhes desse com que retribuir? Que retribuirei ao Senhor por tudo quanto me concedeu? Tomarei o cálice da salvação. Que cálice é este? É o cálice da paixão, amargo mas salutar, o cálice em que o doente recearia tocar, se o médico não bebesse primeiro. Ele próprio é este cálice; reconhecemos este cálice pelas palavras de Cristo, quando dizia: Pai, se é possível, afaste se de Mim este cálice. Do mesmo cálice disseram os mártires: Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor.
E não temes que para isso te faltem as forças? Não, responde o mártir, porque invocarei o nome do Senhor. Como poderiam os mártires vencer, se não vencesse nos mártires Aquele que disse: Alegrai-vos, porque Eu venci o mundo? O Senhor dos Céus dirigia o espírito e a palavra deles; por eles vencia o demónio na terra e coroava os mártires no Céu. Oh bem aventurados aqueles que assim beberam deste cálice! Terminaram as dores e receberam as honras.