terça-feira, 22 de agosto de 2017

Virgem Santa Maria, Rainha


O último dos mistérios para a meditação do Rosário:

Coroação de Nossa Senhora como Rainha do Céu e da Terra, dos Homens e dos Anjos.

       Aquela que nos foi dado por Mãe, pelo Filho muito amado, Jesus Cristo, no alto da Cruz, é-nos dada também como Rainha, para que a realeza de Maria nos leve pelos caminhos do Senhor e nos faça introduzir na soberania de Deus.

Nota histórica:
   A festa litúrgica da Virgem Santa Maria, foi instituída por Pio XII. Celebra-se na oitava da Assunção de Nossa Senhora, para manifestar claramente a conexão que existe entre a realeza de Maria e a sua Assunção ao céu.

ORAÇÃO COLETA
       Senhor nosso Deus, que nos destes a Mãe do vosso Filho como nossa Mãe e Rainha, fazei que, protegidos pela sua intercessão, alcancemos no Céu a glória prometida aos vossos filhos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
       Ao celebrarmos a memória da Virgem Santa Maria, nós Vos oferecemos, Senhor, os nossos dons e Vos pedimos que venha em nosso auxílio o vosso Filho feito homem, que a Vós Se ofereceu na cruz como oblação imaculada. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Bento XVI sobre esta celebração:

Estimados irmãos e irmãs
Celebra-se hoje a memória litúrgica da Bem-Aventurada Virgem Maria invocada com o título: «Rainha». É uma festa de instituição recente, embora sejam antigas a sua origem e devoção: com efeito, foi estabelecida pelo Venerável Pio XII em 1954, no encerramento do Ano Mariano, fixando a sua data em 31 de Maio (cf. Carta encíclica Ad caeli Reginam, 11 de Outubro de 1954: aas, 46 [1954], 625-640). Nesta circunstância, o Papa disse que Maria é Rainha mais do que qualquer outra criatura em virtude da elevação da sua alma e da excelência dos dons recebidos. Ela não cessa de conceder todos os tesouros do seu amor e dos seus desvelos à humanidade (cf. Discurso em honra de Maria Rainha, 1 de Novembro de 1954). Pois bem, após a reforma pós-conciliar do calendário litúrgico, foi inserida oito dias depois da solenidade da Assunção para ressaltar o vínculo entre a realeza de Maria e a sua glorificação em alma e corpo ao lado do seu Filho. Na Constituição sobre a Igreja, do Concílio Vaticano II, lemos assim: «Maria foi elevada à glória celeste e exaltada por Deus como Rainha do universo, para assim se conformar mais plenamente com o seu Filho» (cf. Lumen gentium, 59).
Esta é a raiz da festa de hoje: Maria é Rainha porque foi associada de modo único ao seu Filho, tanto no caminho terreno como na glória do Céu. O grande santo da Síria, Efrém o Sírio, acerca da realeza de Maria, afirma que deriva da sua maternidade: Ela é Mãe do Senhor, do Rei dos reis (cf. Is 9, 1-6) e indica-nos Jesus como nossa vida, salvação e esperança. O Servo de Deus Paulo VI recordava na sua Exortação apostólica Marialis Cultus: «Na Virgem Maria, de facto, tudo é relativo a Cristo e dependente d’Ele: foi em vista d’Ele que Deus Pai, desde toda a eternidade, a escolheu como Mãe toda santa e a plenificou com dons do Espírito a ninguém mais concedidos» (n. 25).
Mas agora perguntemo-nos: o que quer dizer Maria Rainha? É só um título unido a outros, a coroa, um ornamento com outros? O que quer dizer? O que é esta realeza? Como já se indicou, é uma consequência do seu estar unida ao Filho, do seu estar no Céu, isto é, em comunhão com Deus; Ela participa na responsabilidade de Deus pelo mundo e no amor de Deus pelo mundo. Existe uma ideia vulgar, comum, de rei ou rainha: seria uma pessoa com poder e riquezas. Mas este não é o tipo de realeza de Jesus e de Maria. Pensemos no Senhor: a realeza, o ser rei de Cristo está imbuído de humildade, serviço e amor: é sobretudo servir, ajudar e amar. Recordemos que Jesus foi proclamado rei na cruz com esta inscrição redigida por Pilatos: «rei dos judeus» (cf. Mc 15, 26). Naquele momento na cruz mostra-se que Ele é rei; e como é rei? Sofrendo connosco, por nós, amando até ao fim, e assim governa e cria verdade, amor e justiça. Ou pensemos também noutro momento: na última Ceia inclina-se para lavar os pés aos seus. Portanto, a realeza de Jesus nada tem a ver com a dos poderosos da terra. É um rei que serve os seus servidores; assim demonstrou durante toda a sua vida. E o mesmo é válido para Maria: é rainha ao serviço de Deus e da humanidade, é rainha do amor que vive o dom de si a Deus para entrar no desígnio da salvação do homem. Ao anjo, responde: Eis-me, sou a serva do Senhor (cf. Lc 1, 38), e no Magnificat canta: Deus considerou a humildade da sua serva (cf. Lc 1, 48). Ela auxilia-nos. É rainha precisamente amando-nos, ajudando-nos em todas as nossas necessidades; é a nossa irmã e serva humilde.
E assim já chegamos ao ponto: como exerce Maria esta realeza de serviço e amor? Velando sobre nós, seus filhos: os filhos que se dirigem a Ela na oração, para lhe agradecer ou para lhe pedir a sua tutela maternal e a sua ajuda celestial, talvez depois de se ter extraviado pelo caminho, oprimidos pela dor ou angústia, pelas vicissitudes tristes e difíceis da vida. Na serenidade ou na escuridão da existência, dirijamo-nos a Maria confiando-nos à sua intercessão contínua, porque do Filho nos possa alcançar toda a graça e misericórdia necessárias para o nosso peregrinar ao longo das sendas do mundo. Àquele que rege o mundo e tem nas suas mãos o destino do universo dirijamo-nos confiantes, por meio da Virgem Maria. Ela, desde há séculos, é invocada como Rainha celeste dos Céus; oito vezes, depois da recitação do santo Rosário, é implorada nas ladainhas lauretanas como Rainha dos Anjos, dos Patriarcas, dos Profetas, dos Apóstolos, dos Mártires, dos Confessores, das Virgens, de todos os Santos e das Famílias. O ritmo destas antigas invocações e preces diárias, como a Salve Regina, ajuda-nos a compreender que a Virgem Santa, como nossa Mãe ao lado do Filho Jesus na glória do Céu, está sempre connosco, no curso quotidiano da nossa vida.
Portanto, Rainha é título de confiança, alegria e amor. E sabemos que Aquela que tem nas suas mãos em parte o destino do mundo é boa, que nos ama e nos ajuda nas nossas dificuldades.
Caros amigos, a devoção a Nossa Senhora é um elemento importante da vida espiritual. Na nossa oração não cessemos de nos dirigir com confiança a Ela. Maria não deixará de interceder por nós junto do seu Filho. Olhando para Ele, imitemos a fé, a disponibilidade completa ao desígnio de amor de Deus, o acolhimento generoso de Jesus. Aprendamos a viver de Maria. Maria é a Rainha do céu próxima de Deus, mas é também a Mãe que está perto de cada um de nós, que nos ama e ouve a nossa voz. Obrigado pela atenção!
 BENTO XVI, Audiência Geral, 22 de agosto de 2012: AQUI.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Paróquia de Pinheiros | Festa do Emigrante 2017

       A festa mais importante para a comunidade é a da Padroeira, com a romaria anual a Santa Eufémia de Pinheiros. Aproveitando a presença dos nossos emigrantes, esta Festa do Emigrante, este ano a 13 de agosto, permite marcar presença daqueles que em setembro não possam participar na festa anual de Santa Eufémia.
       As fotos dizem respeito à parte mais religiosa, com a celebração da Santa Missa, com a Procissão com o andor de Santa Eufémia, com o momento de oração no cemitério, por todos os que lá estão sepultados, mas neste dia em especial pelos emigrantes falecidos.
       Belíssima música de fundo: Gandara - Dame Tus Ojos.

Paróquia de Távora | Festa de Santa Bárbara 2017

       Ainda que o Padroeiro de Távora seja São João Batista, a festa de verão é em honra de Santa Bárbara, habitualmente no primeiro domingo de agosto, este ano a 6 (solenidade da Transfiguração do Senhor), com a presença dos emigrantes, familiares e amigos.
       Algumas imagens da festa, na sua dimensão mais religiosa, procissão matinal, celebração da Santa Missa no largo de Santa Bárbara, e Procissão com imagens de santos que se veneram na paróquia.
       A belíssima música de fundo: Banda Jota - Pedacinho de Ti. Será um crime não escutar com atenção esta música: melodia, letra, voz, harmonia...

Paróquia de Távora | Festa da Catequese 2017

       O ano catequético 2016-2017 encerrou, como habitualmente na Paróquia de São João Batista de Távora, com a a Festa da Catequese, englobando numa celebração as diferentes festas da catequese, este ano centrando-se na PRIMEIRA COMUNHÃO do Fábio, da Beatriz, da Juliana, da Maria Carolina e da Mafalda e a ENTREGA DA BÍBLIA da Débora, da Iara Filipa, da Lara, do Martim, do Rodrigo, da Sandra Filipa, do Tomás, do André Filipe, da Beatriz Alexandra, da Inês, da Melissa e do Rui Diogo.
       Belíssima celebração, congregando toda a comunidade paroquial.
       Músicas de fundo do videoporama: Mendigo de Deus - Junto à Cruz; Laetare - És a minha fonte.

São Pio X, Papa

Nota biográfica:
       Nasceu na aldeia de Riese, na região de Veneza, em 1835. Depois de ter desempenhado santamente o ministério sacerdotal, foi sucessivamente bispo de Mântua, patriarca de Veneza e papa eleito no ano 1903. Adoptou como lema do seu pontificado «Instaurare omnia in Christo», ideal que de facto orientou a sua acção pontifícia, na simplicidade de espírito, pobreza e fortaleza, dando assim um novo incremento à vida cristã na Igreja. Teve também de combater energicamente contra os erros que nela se infiltravam. Morreu no dia 20 de Agosto de 1914. 
Oração (de coleta):
       Senhor, que, para defender a fé católica e instaurar todas as coisas em Cristo, enchestes de sabedoria divina e de fortaleza apostólica o papa São Pio X, concedei que, seguindo os seus ensinamentos e exemplos, alcancemos a recompensa eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

BENTO XVI sobre o Predecessor São PIO X:

Giuseppe Sarto, este é o seu nome, nasceu em Riese (Treviso) em 1835 de uma família de camponeses e depois dos estudos no Seminário de Pádua foi ordenado sacerdote com 23 anos de idade. Primeiro foi vice-pároco em Tombolo, depois pároco em Salzano, em seguida cónego da catedral de Treviso, com o encargo de chanceler episcopal e director espiritual do Seminário diocesano. Nestes anos de rica e generosa experiência pastoral, o futuro Pontífice demonstrou aquele profundo amor a Cristo e à Igreja, a humildade e simplicidade e a grande caridade para com os mais necessitados, que constituíram características de toda a sua vida. Em 1884 foi nomeado Bispo de Mântua e em 1893 Patriarca de Veneza. No dia 4 de Agosto de 1903 foi eleito Papa, ministério que aceitou com hesitação, porque não se considerava à altura de uma tarefa tão importante.

O Pontificado de São Pio X deixou um sinal indelével na história da Igreja e caracterizou-se por uma notável esforço de reforma, resumida no mote Instaurare omnia in Christo, "Renovar tudo em Cristo". Com efeito as suas intervenções envolveram os vários âmbitos eclesiais. Desde o começo, dedicou-se à reorganização da Cúria romana; depois, deu início aos trabalhos para a redacção do Código de Direito Canónico, promulgado pelo seu Sucessor Bento XV. Sucessivamente, promoveu a revisão dos estudos e do percurso de formação dos futuros sacerdotes, fundando também vários seminários regionais, dotados de boas bibliotecas e professores preparados. Outro ramo importante foi o da formação doutrinal do Povo de Deus. Desde os anos em que era pároco, tinha redigido pessoalmente um catecismo e, durante o Episcopado em Mântua, trabalhara a fim de que se chegasse a um catecismo único, se não universal, pelo menos italiano. Como autêntico Pastor, compreendera que a situação nessa época, também devido ao fenómeno da emigração, tornava necessário um catecismo ao qual cada fiel pudesse fazer referência, independentemente do lugar e das circunstâncias de vida. Como pontífice, preparou um texto de doutrina cristã para a Diocese de Roma, depois se difundiu em toda a Itália e no mundo. Este Catecismo, chamado "de Pio X" foi para muitas pessoas uma guia segura na aprendizagem das verdades relativas à fé pela sua linguagem simples, clara e específica, e pela eficácia da sua exposição.

Ele dedicou uma atenção notável à reforma da Liturgia, de modo particular da música sacra, para levar os fiéis a uma vida de oração mais profunda e a uma participação mais completa nos Sacramentos. No Motu Proprio Tra le sollecitudini, de 1903, primeiro ano do seu Pontificado, ele afirma que o verdadeiro espírito cristão tem a sua fonte primária e indispensável na participação concreta nos mistérios sacrossantos e na oração pública e solene da Igreja (cf. AAS 36 [1903], 531). Por isso, recomendava a aproximação frequente dos Sacramentos, favorecendo a recepção diária da Sagrada Comunhão, bem preparados, e antecipando oportunamente a Primeira Comunhão das crianças mais ou menos aos sete anos de idade, "quando a criança começa a raciocinar" (cf. S. Congr. de Sacramentis, Decretum Quam singulari: AAS 2 [1910], 582).

Fiel à tarefa de confirmar os irmãos na fé, São Pio X, diante de algumas tendências que se manifestaram no âmbito teológico, no final do século XIX e no início do século XX, interveio com determinação, condenando o "Modernismo", para defender os fiéis de concepções erróneas e promover um aprofundamento científico da Revelação, em harmonia com a Tradição da Igreja. Em 7 de Maio de 1909, com a Carta Apostólica Vinea electa, fundou o Pontifício Instituto Bíblico. Os últimos meses da sua vida foram funestados pelos indícios da guerra. O apelo aos católicos do mundo, lançado a 2 de Agosto de 1914, para manifestar "a dor acerba" da hora presente, era o clamor de sofrimento do pai que vê os filhos pôr-se uns contra os outros. Faleceu pouco tempo depois, no dia 20 de Agosto, e a sua fama de santidade começou a difundir-se imediatamente no meio do povo cristão.

Caros irmãos e irmãs, São Pio X ensina-nos a todos que na base da nossa obra apostólica, nos vários campos em que trabalhamos, deve haver sempre uma íntima união pessoal com Cristo, que se há-de cultivar e aumentar dia após dia. Eis o cerne de todo o seu ensinamento, de todo o seu compromisso apostólico. Somente se formos apaixonados pelo Senhor, seremos capazes de conduzir os homens a Deus, de os abrir ao seu Amor misericordioso e, deste modo, de abrir o mundo à misericórdia de Deus.
Para mais informações sobre Pio X veja aqui!

sábado, 19 de agosto de 2017

Domingo XX do tempo Comum - ano A - 20 de agosto

       1 – A Palavra de Deus deve iluminar a realidade presente e concreta, apontando caminhos, comprometendo os cristãos que a escutam. A reflexão da Palavra não pode e não deve ser abstrata, genérica, mas partir da experiência humana. Hoje, escutando o Evangelho e a forma como Jesus lida com "os outros" que não pertencem ao povo judeu, sugere-me que partamos do momento que já se respira na sociedade portuguesa: a campanha eleitoral com vista às eleições autárquicas.
       Vale a pena repescar as palavras do Papa Francisco: «Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão... os cristãos não podem fazer de Pilatos, lavar as mãos... Devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum... Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ão: não é fácil... A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se implicaram com o espírito evangélico. É fácil atirar culpas... mas eu, que faço? Trabalhar para o bem comum é dever de cristão».
       A política é coisa boa. É o cuidado da polis (= cidade), o serviço aos cidadãos. É um elevado serviço de caridade quando procura o bem comum (não o bem individual, particular, privado, ainda que se exprima no serviço a pessoas concretas), o bem de todos, discutindo ideias, projetos, lançando propostas para melhorar a vida das pessoas.
       Os cristãos (leigos), em todos os cenários – também na vida política e partidária, pois é esse o sistema em vigor na república (res publica = coisa pública) –, devem testemunhar o amor a Deus através do serviço e dedicação ao próximo. Como sublinha o Papa, também à vida política, os cristãos devem emprestar os ideais do Evangelho, devem "acrescentar", promover, congregar, lutar por mais justiça, maior transparência, comprometendo-se com os mais frágeis e desfavorecidos. Os católicos tem de estar na política como na vida, procurando imitar Jesus Cristo, em tudo, com as suas fragilidades e qualidades, mas nunca desistindo de procurar a verdade e o bem comum, a fidelidade aos princípios da vida e da dignidade da pessoa. Respeito, elevação, honestidade, diálogo. Sem renunciar aos seus princípios, debatendo, apresentando propostas, sugerindo projetos, implicando-se com tudo o que possa melhorar a vida de todos.
       Infelizmente, muitas vezes vemos discutir pessoas e não projetos. "Nós fizemos", "Nós prometemos", "Eles não cumpriram", "Nós vamos cumprir"... O nosso grupo tem todas as qualidades... os outros são falsos, mentirosos, maus... O que partir de nós é bom... o que partir dos outros só pode ser mau... E, no final, o que importa é favorecer os que nos ajudaram na eleição, os outros que aguardem mais quatro anos ou então que nos tivessem apoiado!
       2 – Os discípulos de Jesus vivem (ainda) nesta dinâmica: o nosso grupo, os nossos, os que andam connosco. O Messias de Deus é nosso, pertence-nos, temos o exclusivo. Os milagres que fizer hão de beneficiar os nossos, os do nosso povo. As palavras que Ele disser são-nos dirigidas, a não ser que sejam para maldizer os outros, os estrangeiros, os que estão para lá do nosso grupo.
       Como não lembrar o episódio em que os discípulos dizem a Jesus que tinham proibido um homem de fazer milagres e anunciar em Seu nome pelo simples facto de não fazer parte do grupo? (cf. Mc 9, 38). Ou a estranheza quando veem Jesus a falar com a Samaritana? Já era demais estar a falar com aquela mulher em público, mais escandaloso é o facto de ser samaritana, inimiga dos judeus (Cf. Jo 4, 1-41). Ou quando querem deitar fogo do céu contra os samaritanos que não os acolhem, pois iam em sentido contrário? (Lc 9, 51-56).
       A pedagogia de Jesus é sublime. No diálogo com a mulher cananeia, Jesus assume a postura dos discípulos, a sensibilidade dos judeus ciosos do Seu Deus e da sua religião. Contrariamente ao que seria expectável, Jesus mantém-se em silêncio (exterior) diante da investida da mulher estrangeira: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».
       Os discípulos estranham a posição do Mestre e colocam-se ao lado da mulher. Por certo que os discípulos perceberam que não era normal Jesus não responder favoravelmente, pois essa não é a Sua forma de agir. Talvez sintam compaixão por aquela Mãe em sofrimento. Já não basta o sofrimento, quanto mais a exposição em que se coloca?! É Mãe. Está tudo dito. Tudo fará para reaver o filho, para o reconquistar para a vida. Sujeita-se ao ridículo, a ser olhada de esguelha, sujeita-se a uma humilhação pública. Mas que lhe importa? O importante é a saúde e a vida do filho. Até pode morrer, mas que o filho seja salvo! Contudo, os discípulos parecem incomodar-se sobretudo com a gritaria da mulher e não tanto pelo seu sofrimento!
       3 – Na resposta aos discípulos, Jesus diz-lhes que não foi enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Tinha sido essa a recomendação que Ele lhes dera quando os enviou dois a dois: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 10, 5-6).
       Porém, esta Mãe não desiste e insiste, prostrando-se aos pés de Jesus: «Socorre-me, Senhor». Será que Pedro percebeu que é um pedido semelhante ao seu, quando está a caminhar sobre as águas ao encontro de Jesus, como escutávamos no domingo passado? Parece que Jesus não se comove! O que contraria o que está contido nos Evangelhos: a Sua delicadeza e a docilidade, a proximidade às pessoas mais frágeis, aos pobres, aos doentes, às mulheres, às crianças, aos publicanos e pecadores! Então que se passa com a reação de Jesus? Assume a nossa postura para que nós nos ponhamos do lado de quem sofre e assumamos a Sua postura: pobreza e amor ao serviço dos mais desfavorecidos.
       Convertamos em pergunta a resposta dada por Jesus àquela Mulher: "Será justo tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos?". Entramos na pedagogia de Jesus que nos desafia. A Mulher cananeia ajuda-nos a responder ao questionamento de Jesus: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».
       A conclusão de Jesus abre o horizonte da salvação, mostrando que a salvação que nos traz não se destina a um grupo ou a um povo, mas destina-se a todos. A fé é a única exigência para a cura, para a redenção. Fé que se torna humildade diante de Deus e predisposição para acolher o Seu amor, o Seu perdão e a Sua cura. É na fé amadurecida desta mulher que Jesus opera a cura da sua filha.

       4 – Habitualmente contrapõe-se o Antigo e o Novo Testamento, sublinhando que o Deus do Antigo Testamento é sobretudo um Deus omnipotente, juiz, um Deus cioso do Seu poder e dos Seus desígnios, pronto para castigar aqueles que se transviam e alheio aos problemas da humanidade e, a acrescentar, um Deus nacional. No Novo Testamento, a novidade é assumida por Jesus: Deus é Pai, misericordioso e compassivo que Se imiscui na nossa vida, para nos elevar, sendo um Deus "universal".
       Porém, como se pode ver em Isaías, e em outros textos veterotestamentários, a vivência da fé e da religião leva a um compromisso concreto e real, como respeitar o direito e praticar a justiça. Deus escuta o clamor do pobre e revolve-se-Lhe o coração com as injustiças. E também os estrangeiros têm aceitação no Templo de Deus, «casa de oração para todos os povos».
       A condição para chegar ao coração de Deus está na (boa-) fé, na verdade que procura o bem, na humildade de se fazer caminho, na oração e louvor que brotam do coração, na persecução da justiça.
       Com efeito, já em Abraão Deus revelava que n'Ele abençoaria todos os povos da terra (cf. Gn 12, 3). Ele faz chover sobre bons e maus. Os Seus desígnios de amor abarcam a humanidade inteira e a própria eleição do Seu povo visa chegar a todos.

       5 – Como segunda leitura tem-nos sido servida a Carta de São Paulo aos Romanos. No domingo passado, o Apóstolo testemunhava como tudo fez para ganhar os seus compatriotas, os judeus, para Jesus Cristo. Cedo, contudo, percebeu que a mensagem de Jesus não era exclusiva para um povo e que a morte e ressurreição de Jesus não tinha sido particular, mas universal, por todos, para a todos salvar. São Paulo, na verdade, é o Apóstolo por excelência, é o primeiro a compreender a extensão do mistério pascal de Jesus e o primeiro que assumidamente se torna missionário junto dos gentios, também resultado da animosidade que encontra entre os judeus.
       O facto de agora se dirigir aos gentios, conforme confessa, não significa que desistiu dos seus conterrâneos. Se for exímio no ministério evangelizador junto dos pagãos, pode acontecer que provoque ciúmes nos da sua raça e assim atraia alguns para Cristo. Com efeito, Jesus morreu por todos, para a todos reconciliar para Deus. «Efetivamente, Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos».

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 56, 1. 6-7; Sl 66 (67); Rom 11, 13-15. 29-32; Mt 15, 21-28.

Deixai que as crianças se aproximem de Mim

       Apresentaram umas crianças a Jesus, para que lhes impusesse as mãos e orasse sobre elas. Mas os discípulos afastavam-nas. Então Jesus disse: «Deixai que as crianças se aproximem de Mim; não as estorveis. Dos que são como elas é o reino dos Céus». A seguir, impôs as mãos sobre as crianças e partiu dali ( Mt 19, 13-15).
        Jesus quebra mais um preconceito: no seu tempo, as mulheres e as crianças não faziam número, não contavam, apenas os homens. Em alguns episódios sublinha-se esta realidade como por exemplo na multiplicação, em que o autor sagrado refere que eram cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. As crianças, embora estimadas pelos judeus, só contavam a partir da adolescência, na idade em que se iniciavam no judaísmo, por volta dos 12/13 anos. Outra das razões, é que havia uma mortalidade infantil muito grande e, por conseguinte, a vida da criança estaria incerta e a breve prazo.
       No entanto, Jesus diz claramente aos seus discípulos e às multidões que as crianças também fazem parte do Seu reino. Mais, a sua simplicidade e transparência são um exemplo de como os adultos se devem colocar diante do Reino de Deus e do Evangelho.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Por causa da dureza do vosso coração

        Aproximaram-se de Jesus alguns fariseus para O porem à prova e disseram-Lhe: «É permitido ao homem repudiar a sua esposa por qualquer motivo?». Jesus respondeu: «Não lestes que o Criador, no princípio, os fez homem e mulher e disse: ‘Por isso o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa e serão os dois uma só carne?’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». Eles objectaram: «Porque ordenou então Moisés que se desse um certificado de divórcio para se repudiar a mulher?». Jesus respondeu-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos permitiu repudiar as vossas mulheres. Mas no princípio não foi assim»(Mt 19, 3-12).
        Um tema recorrente na atualidade, mas presente ao longo da história da humanidade é o da relação entre o homem e a mulher e a vivência na exclusividade. Muitas culturas assumem-se poligâmicas. O judaísmo contemplava a relação poligâmica. Veja-se por exemplo o caso do Rei David, que poderia ter mais que uma mulher. Ainda assim com o dever de protecção/pertença. David, no plano moral, tem uma atitude que se lhe condena, o facto de desejar a mulher do próximo, sabendo que não podia desposar tal mulher por esta já ser mulher de Urias. A solução foi arranjar forma de matar Urias para depois tomar a sua mulher.
       No entanto, o judaísmo vai, pouco a pouco, refletindo sobre a relação monogâmica, como correspondendo ao amor exclusivo de Deus para com o seu Povo. Mas numa e noutra situação, a separação, o repúdio (neste caso do homem em relação à mulher), só em casos muito excepcionais. E ainda assim, ao repudiar a mulher, Moisés exigia que os maridos lhes dessem certificados de divórcio para que a mulher pudesse refazer a vida, sem correr o risco de ser apedrejada.
       Na reflexão do Evangelho, Jesus acentua uma vivência anterior em que prevalecia o amor e a união. A dureza do coração é que levou as pessoas à ruptura. Deus criou-nos para vivermos em família, não apenas a união de um homem e de uma mulher, mas também de toda a humanidade. A nossa fragilidade impede-nos de ver mais longe, e para além das limitações alheias, mas o caminho que nos salva é o caminho do amor, do perdão, da unidade.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Santa Beatriz da Silva

Nota biográfica:
       Nasceu em Campo Maior, no ano de 1437, filha de pais portugueses, Dr. Rui Gomes da Silva, Alcaide Mor da vila de Campo Maior e Ouguela e de Dona Isabel de Menezes, que por sua vez era filha de D. Pedro de Menezes, Governador da Praça de Ceuta, nessa altura pertencente à coroa dos reis de Portugal. Era uma família cristã, da primeira nobreza, aparentados com a família real. A família teve onze filhos. Em 1447, como Dama de Honor da Infanta D. Isabel de Portugal, passou a integrar as Cortes de Castela. Para viver mais profundamente a sua fé, retirou-se da corte para o mosteiro de Toledo, onde esteve mais de 30 anos.
       Em 1484, fundou o Instituto que mais tarde viria a assumir o nome de Imaculada Conceição de Nossa Senhora (Concepcionitas), aprovado pelo Papa Inocêncio VIII, em 1489. Pouco depois da sua profissão religiosa, em 9 de Agosto de 1492, em Toledo, morreu com a fama de santidade. Foi canonizada em 3 de Outubro de 1976, pelo Papa Paulo VI.

Oração (de coleta):
       Senhor nosso Deus, que fizestes resplandecer na virgem Santa Beatriz o altíssimo dom da contemplação e a adornastes com a singular devoção à Imaculada Conceição da Virgem Maria, concedei-nos que, seguindo o seu exemplo, busquemos na terra a verdadeira sabedoria para merecermos contemplar no Céu a glória do vosso rosto. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele...

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu. Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18, 15-20).
       A delicadeza e a atenção ao próximo não é uma abstração da vida, mas uma atitude dos seguidores de Jesus Cristo e que há de resultar em encontro e diálogo. O amor, mais que o romantismo repentino das novelas e dos filmes, é um sentimento de fundo, uma postura que nos leva a olhar para os outros como irmãos, como iguais, como merecedores do nosso cuidado. Amar implica serviço. Implica olhar o outro nos olhos. Implica fazer sentir o outro como pessoa importante na minha vida. Implica dar todas as oportunidades possíveis para que o outro se reabilite.
       O amor pressupõe a disponibilidade para o perdão, para aceitar os limites dos outros. Se um irmão te ofender, vai ter com ele. O primeiro passo: ir ter com o irmão. Ainda que sejas o ofendido, vai tu, toma a iniciativa. Não deixes que o teu irmão se perca. Insiste. Se te escutar, ótimo. Se não, pede ajuda a outros irmãos para cooperarem contigo. Pede ajuda à comunidade.
       Vê-se que a ofensa, ainda que pessoal, tem implicações comunitárias, quebra a comunhão com os outros. Quando ofendo alguém ou por alguém me sinto ofendido, toda a comunidade sofrerá, pois todos estamos implicados com todos.
       Por outro lado, ainda na riqueza deste Evangelho, Jesus enquadra a oração também numa dinâmica comunitária. Certamente que Deus nos escuta quando rezamos individualmente. Mas mais força terá a nossa oração quando nos reunimos em comunidade o fazemos em nome de Jesus. Com efeito, a oração já nos liga a todos os filhos de Deus. Se nos unimos a alguém para rezar ao mesmo Pai já estamos a caminho de realizarmos este projeto da família de Deus.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria - 2017

       1 – O que não mata engorda. O que não nos derruba fortalece-nos. O que nos nos liga no tempo e na história, ligar-nos-á, por vontade de Deus, na eternidade. Deus precede-nos chamando-nos à vida, para vivermos em comunhão com Ele. Família que se alarga e se aprofunda. O amor gera vida. O Amor de Deus explode e cria o universo, a humanidade. Deus cria-nos, como diria Bento XVI, para a grandeza e para a beleza, como filhos bem-amados, para sermos e nos sentirmos em casa e cuidarmos uns dos outros e do mundo que nos envolve.
       Os nossos pais querem o melhor para nós. Sempre. A não ser que se esqueçam de ser pais. Como poderia Deus deixar de ser Pai? Como poderia Deus, que é Pai e é mais Mãe (João Paulo I), deixar de nos amar? Poderia inverter os seus desígnios de amor e destruir a obra das suas mãos? Poderia, mas então seria um Deus preservo, um Pai pouco Mãe, mais juiz que Pai, mais tutor que familiar!
       A liberdade com que Deus nos criou engrandece-nos e responsabiliza-nos. Não somos, em definitivo, marionetas nas Suas mãos, somos autónomos, com a capacidade de fazer escolhas e, dessa forma, a vida é dom, porque a recebemos, e tarefa a cumprir, pois cabe-nos decidir sobre o que somos e o que queremos ser, além e apesar de todas as condicionantes e circunstâncias. Às vezes dói, porque nem tudo é como sonhamos. Dói àqueles que nos geraram para a vida e para a felicidade, porque nos veem sofrer e pouco podem fazer. Não nos podem substituir. Se assim fosse, a vida não era nossa, mas deles. O mesmo de Deus se Ele nos substituísse nas dificuldades.
       Porém, como os nossos pais, também Deus não desiste de nós. Nunca. Nunca desiste da humanidade por mais cambalhotas, pecados e distanciamentos que esta possa provocar. Não desiste de fazer tudo o que Lhe é possível, sem ferir a nossa liberdade, as nossas opções. Envia mensageiros, profetas e juízes, réis e sacerdotes. Dá-nos o Seu próprio filho, envia-no-l'O para caminhar connosco. Aqui entra Maria e José, família sagrada que acolhe, protege e guarda Jesus.
       2 – A solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao Céu – verdade de fé confirmada pelo Papa Pio XII, a 1 de novembro de 1950, a partir da sensibilidade, do sensus fidei, do povo de Deus, que há muito considerava que Àquela que acolheu o Filho de Deus, gerando-O e dando-O ao mundo, sem nunca se desligar do filho, teria que estar onde está o filho, na eternidade do Pai, sem experimentar, nem no início (Imaculada Conceição) nem no fim (ressurreição, Assunção) a corrupção do corpo – celebra a certeza que Deus não desiste de nós e não nos quer perder nem no tempo nem na eternidade.
       Jesus, o Filho bem-amado do Pai, encarna, é enxertado na história, com a fragilidade e as limitações espácio-temporais, para caminhar connosco e nos fazer caminhar com Ele, faz-Se humano para nos fazer participar em definitivo na vida divina. No Sacramento do Batismo sublinhamos precisamente esta inserção a Cristo, esta participação na vida divina.
       Sem forçar, Deus conta connosco. Desafia Maria e espera a sua resposta. Ao responder ao chamamento de Deus, Maria torna possível um novo avanço na Aliança de Deus com o Seu povo. Já não mensageiros, já não à distância, mas na própria carne humana. Deus torna-Se, com propriedade, Emanuel, Deus connosco.
       O Sim de Maria compromete-a e compromete-nos. É um SIM que se traduz em muitos sins, repetidos, atualizados, renovados, novos. A vida também é assim, quem diz sim, di-lo para cuidar, para proteger, para servir. Não se ama num sim que se esvai na memória, ama-se num sim que se renova em gestos, em palavras, em cuidado e ternura, e nas carícias do olhar e do sorriso, do beijo e do afago e do abraço. É essa a resposta de Jesus a uma mulher que o interpela – «Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito» «Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 27-28).

       3 – O privilégio de Maria não é meramente pessoal, mas instrumental, na medida em que visa a salvação da humanidade inteira. E Jesus, em Maria, Sua e nossa Mãe, dá-nos as credenciais, a matriz, para podermos almejar a felicidade: escutar a Palavra de Deus a pô-la em prática, como escutávamos no Evangelho da vigília. E, desse jeito, a pertencer-Lhe: minha Mãe e meus irmãos são os que fazem a vontade de Deus. Maria cumpre no primeiro sim e cumpre em cada momento da sua vida como se vislumbra no Evangelho desta solenidade.
       Depois da anunciação a Maria e da Sua resposta a Deus, através do Anjo, Ela corre veloz para a montanha, em direção a Ain Karin, cidade da Judeia onde vive a Sua prima Isabel. E aqui pode visualizar-se a missão primeira de Maria: dar-nos Jesus, envolver-nos na alegria da salvação. Isabel interpreta essa alegria: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor».
       Maria é a Aurora da Salvação, a Estrela da Manhã que antecipa a chegada do Messias de Deus. Nela transparecem as maravilhas do Senhor e se preanuncia a última palavra: Deus e a Sua misericórdia para com todos. No belíssimo hino, o Magnificat, Maria remete-nos para a Aliança de Deus com o Seu povo e para as obras prodigiosas que realizou ao longo do tempo, vislumbrando-se também nesta oração a opção preferencial pelos pobres, pela humildade, pelo serviço ao outro. Ela é a nova Arca da Aliança. David com todo o mundo dançou e cantou pela chegada da Arca da Aliança. O coração de Isabel dança de alegria pela chegada de Maria, porque n’Ela está em gestão a Nova Aliança, o Filho do Deus Altíssimo.
       Mas na Visitação também se insinua o serviço, o cuidado e a atenção de Maria.
       4 – A vida eterna inicia com a vida terrena. Não há quebras, ainda que haja novidade. A vida é gerada desde sempre para não se perder. Essa é a vontade de Deus e de quem ama. Quando se ama quere-se que perdure o amor, a pessoa amada e a ligação, fortalecendo-se constantemente.
       Jesus precede-os como primícias (as primícias são os primeiros frutos da terra). Ele ressuscita primeiro, depois nós. Em Maria, começa-se a cumprir a promessa. Ela é assumpta por Deus para sempre. Ela que nunca Se afastou de Jesus, até ao Seu último suspiro, é elevada para junto d'Ele na eternidade, no coração do Pai. Para nós fica a postura de Jesus em todo o tempo: alimentar-Se da vontade e da presença do Pai. Para nós fica o exemplo de Maria: em tudo procurar enaltecer as maravilhas do Senhor, dando Jesus, apontando para Jesus: fazei tudo aquilo que Ele vos disser. É feliz todo aquele que escutar a Palavra de Deus e a traduzir em vida, em serviço, em amor, em ternura. Assim inicia no tempo o que será na eternidade: a comunhão plena com Deus.
       Com fé, rezemos para que Deus, que elevou «à glória do Céu em corpo e alma a Imaculada Virgem Maria» nos conceda «a graça de aspirarmos sempre às coisas do alto, para merecermos participar da sua glória».
       Com os olhos fitos em Jesus e na Bem-aventurada Virgem Mãe, com os pés bem assentes neste chão e nesta terra, com o coração bem ligado à vida e aos outros, com as mãos livres para abençoar, para abraçar, para trabalhar, para levantar; para acolher (a bênção e os dons de Deus) e para partilhar (tudo quando recebemos de Deus como dom, para que se multipliquem na dádiva); com as mãos livres e estendidas para Deus, com as mãos abertas e libertas para os irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia: Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sl 44 (45); 1 Cor 15, 20-27; Lc 1, 39-5.

São Maximiliano Kolbe, presbítero e mártir

Nota Biográfica:
       Maximiliano Maria Kolbe nasceu no dia 8 de Janeiro de 1894, na Polónia.
       Foi ordenado sacerdote em 1918, em Roma.
       Foi por essa altura (1917) que fundou a Milícia da Imaculada. Depois de ordenado regressou à Polónia, a Cracóvia.
       Após abrigar muitos refugiados, entre os quais cerca de 2000 judeus, é preso em 17 de Fevereiro de 1941, pela Gestapo e transferido para Auschwitz em 25 de Maio como prisioneiro com o número 16670.
       Quando em Julho de 1941, um prisioneiro do bunker, onde se encontrava Kolbe, foge os nazis, como represália, enviam 10 outros prisioneiros para uma cela isolada até morrerem de fome e sede. Mais tarde o prisioneiro fugitivo é encontrado morto, afogado numa latrina.
       Um dos dez prisioneiros escolhidos para morrer lamenta-se pela família que deixa, dizendo que tem mulher e filhos. O padre Kolbe pede então para tomar o seu lugar e o seu pedido é aceite.
       Passadas duas semanas, apenas quatro dos dez homens sobrevivem, entre os quais Kolbe. Os guardas nazis executam-nos com uma injecção de ácido carbónico. Estávamos a 14 de Agosto de 1941.
       O corpo de Maximiliano Kolbe foi cremado e suas cinzas atiradas ao vento, realizando assim o seu desejo: “Quero ser reduzido a pó pela Imaculada e espalhado pelo vento do mundo”.
       No dia 17 de Outubro de 1979, é beatificado pelo Papa Paulo VI.
       No dia 10 de Outubro de 1982, é canonizado pelo Papa João Paulo II, como mártir da caridade, na presença de Franciszek Gajowniczek, que foi substituído por Kolbe e que sobreviveu aos horrores de Auschwitz.

Oração (de colecta):
       Deus de infinita bondade, que inspirastes a São Maximiliano Maria, presbítero e mártir, uma ardente devoção à Virgem Imaculada e o fortalecestes no zelo das almas e no amor ao próximo, concedei-nos, por sua intercessão, que, trabalhando generosamente pela vossa glória ao serviço dos homens, possamos conformar-nos até à morte com vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Das Cartas de S. Maximiliano Maria Kolbe, presbítero e mártir

O zelo apostólico  pela salvação e santificação das almas (1971)

Sinto grande alegria, querido irmão, pelo teu ardente zelo pela glória de Deus. Nos nossos tempos, infelizmente, vemos com tristeza propagar-se sob várias formas uma certa epidemia, a que chamam “indiferentismo”, não só entre os leigos mas também entre os religiosos. No entanto, porque Deus é digno de infinita glória, o nosso primeiro e mais importante objectivo é promover a sua glória, tanto quanto pode a nossa humana fraqueza, embora nunca possamos prestar Lhe a glória que Ele merece, dado que somos frágeis criaturas.
Uma vez, porém, que a glória de Deus resplandece sobretudo na salvação das almas que Cristo resgatou com o seu próprio sangue, o principal e mais profundo empenho da vida apostólica deve ser o de procurar a salvação do maior número de almas e a sua mais perfeita santificação. Sobre o caminho mais apto para este fim, isto é, para promover a glória divina e a santificação das almas, poucas palavras direi. Deus, que na sua infinita ciência e sabedoria conhece perfeitamente o que devemos fazer em todas as circunstâncias para promover a sua maior glória, manifesta-nos normalmente a sua vontade através dos seus representantes na terra.
É a obediência, e só ela, que nos manifesta com certeza a vontade divina. É possível que o superior cometa um erro, mas não é possível que nós, seguindo a obediência, sejamos induzidos em erro. A única excepção para não obedecer seria quando o superior mandasse alguma coisa que implicasse claramente uma transgressão da lei divina, por mais pequena que seja: nesse caso ele não seria intérprete fiel da vontade de Deus.
Só Deus é infinito, sapientíssimo, santíssimo; só Deus é Senhor clementíssimo, nosso Criador e nosso Pai, princípio e fim, sabedoria, poder e amor; Deus é tudo isto. Portanto, tudo o que se encontra fora de Deus, tudo o que não é Deus, só tem valor na medida em que se refere a Ele, que é o Criador de todas as coisas e o Redentor dos homens, o fim último de toda a criação. É Ele de facto que nos manifesta a sua adorável vontade por meio dos seus representantes na terra e nos atrai a Si, querendo também por meio de nós atrair as almas e uni las a Si na mais perfeita caridade.
Vê, irmão, como é grande, pela misericórdia de Deus, a dignidade da nossa condição. Pela obediência, apesar dos limites da nossa pequenez, como que nos transcendemos, conformando-nos à vontade divina, que, na sua infinita sabedoria e prudência, nos dirige para procedermos rectamente. Mais: aderindo à vontade de Deus, a que nenhum ser criado pode resistir, tornamo-nos mais fortes que todas as coisas.
É este o caminho da sabedoria e da prudência; é este o único caminho pelo qual podemos dar maior glória a Deus. Se houvesse outro caminho mais apto, Cristo no-lo teria certamente manifestado com a sua palavra e o seu exemplo. Mas a Escritura divina resume a sua vida, durante a longa permanência em Nazaré, com estas palavras: Era-lhes submisso; e insinua claramente que o resto da sua vida se passou sob o signo da obediência, declarando a cada passo que desceu à terra para fazer a vontade do Pai.
Amemos, portanto, irmãos, amemos com todo o coração o amantíssimo Pai celeste, e seja a nossa obediência a prova real desta caridade perfeita, que deve pôr se em prática sobretudo quando se nos pede o sacrifício da própria vontade. De facto, para progredir no amor de Deus, não conhecemos livro mais sublime que Jesus Cristo crucificado.
Tudo isto o alcançaremos mais facilmente por intermédio da Virgem Imaculada, a quem Deus, com infinita bondade, tornou dispenseira da sua misericórdia. Não há dúvida alguma de que a vontade de Maria é para nós a própria vontade de Deus. Se a ela nos consagramos, como instrumentos nas suas mãos, como ela o foi nas mãos de Deus, tornamo nos verdadeiramente instrumentos da misericórdia divina. Deixemo-nos portanto, dirigir por ela, deixemo-nos conduzir por ela, e fiquemos tranquilos e seguros sob o seu amparo: ela própria olhará por nós em todas as coisas, ela tudo providenciará; ela nos socorrerá prontamente nas necessidades de corpo e alma, ela nos livrará de todas as angústias e dificuldades.
Pode ver mais informação no blogue aqui.

sábado, 12 de agosto de 2017

Domingo XIX do Tempo Comum - ano A - 13.08.2017

       1 – Ainda que caminhemos por entre escombros, não precisamos que nos substituam, mas que nos estendam a mão, caminhem ao nosso lado; precisamos de uma luz, ainda que seja ao fundo do túnel, um objetivo, uma razão para lutar, uma meta a atingir, um sentido que nos mova a prosseguir.
       O grande Papa Paulo VI (falecido a 6 de agosto de 1978), num discurso, contou a história de um filósofo (Bardiaef) que, a passear no famoso claustro de um mosteiro ortodoxo e a contemplar tanta beleza, perdeu a noção das horas. Caiu a noite e, sentindo-se cansado, tentou regressar à sua cela. Mas eram muitas celas e todas iguais. Onde encontrar o interruptor da luz? Não quis acordar nenhum religioso e ficou dando voltas e mais voltas até que a manhã chegou. «Afinal, a porta da sua cela, a porta da verdade, estava ali mesmo à mão. Mas faltou-lhe a luz, a Luz de Cristo».
       A luz ténue de uma vela acesa num estádio de futebol às escuras pode ser a chama suficiente para acender a luz de outras velas. A Luz que vem de Jesus, enraizada no Seu coração e que vem do Pai, é luz mais que suficiente para queimar, incendiar os corações e iluminar a humanidade inteira, como víamos na Festa da Sua Transfiguração. É uma luz que vem de dentro, do coração, que vem do alto, de Deus Pai e que, portanto, não está sujeita a tantas variações, sabendo que as circunstâncias que nos circundam podem favorecer o enfraquecimento da luz que nos guia a partir do interior. Daí que a luz de quem caminha ao nosso lado ajude a manter-nos focados na luz que nos une, irmanando-nos.
       O Evangelho deste domingo mostra que para os discípulos de Jesus as trevas exteriores são enormes e que os medos, as trevas interiores, são ainda demasiado intensas e extensas. Pedro quer acreditar, quer deixar de ter medo, quer avançar imitando Jesus, mas vacila no momento das dificuldades. Quando olha para si mesmo vacila, quando olha para Jesus caminha, apesar das dificuldades.
       2 – No Evangelho do domingo passado (não fosse a festa da Transfiguração), Jesus realiza o milagre da multiplicação e da partilha do pão e do peixe. A multidão é a destinatária do ensino e dos gestos de Jesus. Porém, a atenção para com os discípulos mantém-se: eles são chamados a intervir, a dar de comer à multidão, a arranjarem uma solução concreta e possível, a distribuírem/partilharem o alimento e a recolherem as sobras, para que nada se perca.
       Estando mais perto de Jesus, os discípulos têm o privilégio de O conhecer melhor, de O escutar com mais atenção, de beneficiarem das Suas explicações, mas, como se costuma dizer, quanto mais informação, quanto mais poder, mais a responsabilidade. Jesus compromete os discípulos no anúncio do Evangelho e na prática da caridade.
       Essa proximidade que liga os discípulos a Jesus fortalece-os, e a nós também, para as tempestades da vida, para os desertos, para as invernias, para as trevas. Depois da multiplicação dos pães, Jesus permanece junto da multidão a despedir-se das pessoas. Os discípulos vão indo para a outra margem. Há outro hiato de tempo que é recorrente, Jesus sobe ao monte para orar, para melhor escutar o Pai. Regressa para junto dos discípulos na quarta vigília da noite. Ao vêl'O os discípulos pensam que estão a sonhar, que estão a ver um fantasma ou um espírito maligno. À noite todos os gatos são pardos. Jesus caminha sobre o mar, tranquilamente. Assustaria qualquer um. Por certo não é uma partida de crianças mas a certeza de que não há barreiras para Jesus vir ao nosso encontro, em nosso auxílio. Como então, Jesus estende-nos a mão, mostra-Se, garante-nos que está. Temos que O ver também durante a noite, quando as trevas se adensam.
      3 – Pedro, sempre ele, quer imitar Jesus. E imitar Jesus é coisa boa, é bom sinal. É um desejo que também devemos ter. Mas Pedro lá acaba por se fixar mais nas suas fragilidades e limitações que em Jesus. Mais vale quem Deus ajuda que quem muito madruga. Podemos fazer tudo bem, mas se é apenas por nós, para nós, se nos apoiamos somente nas nossas capacidades, como se fôssemos deuses, tornando-nos o centro, mais tarde ou mais cedo vamos ao fundo. Da mesma forma, não avançamos se for o medo a controlar-nos, o medo de falharmos, o medo de não sermos aceites, o medo de sofrermos com as opções que iremos fazer.
       Vem. Avança. Podes confiar. Pedro vai, com o olhar fito em Jesus. Vai bem, até que olha para baixo e começa a afundar-se. É como as vertigens, quem as tem, só tem que olhar para cima, para a frente, e seguir, pois no momento em que olha para baixo vacila. Se Pedro se tivesse fixado em Jesus e na Sua voz, a violência do vento passaria para segundo plano.
       Pedro dá-nos ainda outra lição importante: a humildade, o reconhecimento das próprias fragilidades, a humildade que se volta para Jesus. «Salva-me, Senhor». Só Tu, Senhor, me livras das minhas quedas, dos meus medos. Só Tu, Senhor, podes ser luz e sentido e meta para eu caminhar seguro! Vem e socorre-me, Senhor, do meu egoísmo, do meu pecado e do meu orgulho, que são peso que me afunda. Liberta-me, concede-me a capacidade de amar, de acreditar, de confiar, de me gastar a favor dos outros, o gosto de servir e cuidar, para me tornar leve, tão leve que seja capaz de caminhar por cima do mar.

       4 – Por vezes Deus não é evidente. "Deus não mora à superfície" (Tomáš Halík). Por vezes o ruído é maior, o vento é mais veloz, a chuva é mais fria, as nuvens são mais densas, o medo é mais profundo, a desilusão é mais entranhada, a noite é mais longa, as trevas são mais escuras, os desertos são mais traiçoeiros. A vida nem sempre é fácil e por vezes Deus não ajuda, parece não ajudar, parece que tudo corre mal. É preciso olhar de novo, escutar mais atentamente, apostar, estender a mão com a certeza que Ele tem a Sua mão estendida, saltar sabendo que vai amparar a nossa queda, qual filho a lançar-se no colo do pai ou da mãe.
       O Profeta Elias vai ao monte de Deus e passa a noite numa gruta, com a promessa que Deus vai passar. E, como prometido, Deus passa. «Diante d’Ele, uma forte rajada de vento fendia as montanhas e quebrava os rochedos; mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, sentiu-se um terramoto; mas o Senhor não estava no terramoto. Depois do terramoto, acendeu-se um fogo; mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa. Quando a ouviu, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e ficou à entrada da gruta».
       Deus não está na confusão, no ruído, na agitação. Deus não é assim tão invasivo nem tão evidente. Pode passar sem que nos apercebamos!

       5 – Se a luz que há em nós vem de Jesus leva-nos aos outros, para que a minha, a tua, a nossa luz, façam multiplicar a Luz em todo o mundo. Se há luz em nós, ou algo parecido com luz, que não vem de Jesus, se somos nós a nossa luz, é crível que advenha a cizânia, o joio, a rotura.
       O Apóstolo Paulo é uma figura com forte carácter, diríamos, teimoso até dizer basta. Todavia, orienta-o a vontade de viver Jesus, de mostrar Jesus, de transparecer Jesus, de converter para Jesus, de congregar as comunidades à volta de Jesus, à volta da fé, do Evangelho, da graça divina, da Palavra de Deus. É com esse propósito que percorre aldeias e cidades até onde lhe é humanamente possível ir, para anunciar o Evangelho, formar comunidades, deixar discípulos que possam educar na fé e ensinar a viver o Evangelho.
       Começou pelos irmãos judeus e foi até ao fim do mundo, acolhendo o mandato de Jesus. Com efeito, na Carta de apresentação aos Romanos, onde Paulo pensa estabelecer-se, para daí partir para outras terras, mostra os sentimentos que o movem: «Sinto uma grande tristeza e uma dor contínua no meu coração. Quisera eu próprio ser anátema, separado de Cristo para bem dos meus irmãos, que são do mesmo sangue que eu, que são israelitas, a quem pertencem a adopção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas, a quem pertencem os Patriarcas e de quem procede Cristo segundo a carne, Ele que está acima de todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos».
       A perspetiva do Apóstolo é fazer-se tudo para todos, grego com os gregos, judeu com os judeus, escravo com os escravos, para ganhar alguns para Cristo, pois só Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, o Bom Pastor que nos conduz.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (ano A): 1 Reis 19, 9a. 11-13a; Sl 84 (85); 2 Rom 9, 1-5; Mt 14, 22-33.

A fé move montanhas

       Naquele tempo, aproximou-se de Jesus um homem, que se ajoelhou diante d’Ele e Lhe disse: «Senhor, tem compaixão do meu filho, porque é epiléptico e sofre muito; cai frequentemente no fogo e muitas vezes na água. Apresentei-o aos teus discípulos, mas eles não puderam curá-lo». Jesus respondeu: «Oh geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco? Até quando terei de vos suportar? Trazei-mo aqui». Jesus ameaçou o demónio, que saiu do menino e este ficou curado a partir daquele momento. Então os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-Lhe em particular: «Por que motivo não pudemos nós expulsá-lo?». Jesus respondeu-lhes: «Por causa da vossa pouca fé. Em verdade vos digo: se tiverdes fé comparável a um grão de mostarda, direis a este monte: ‘Muda-te daqui para acolá’, e ele há-de mudar-se. E nada vos será impossível». (Mt 17, 14-20).
       A fé move montanhas. A fé abre-nos as portas da mente, coloca-nos no futuro de Deus. A oração ajuda-nos a amadurecer e a fortalecer a fé. Podemos ter o "poder", mas se não tivermos fé de pouco nos adianta. Oração, mais oração, mais intimidade com Deus, para que a confiança nos leve a agir decididamente a favor do próximo. A oração não resolve magicamente os nossos problemas, mas dilata o nosso coração para resistirmos e procurarmos o que está ao nosso alcance para arranjar soluções, "milagres" que curem o outro, diminuam o seu sofrimento, tornem mais favorável as suas vidas.
       Peçamos ao Senhor que nos ilumine no caminho da fé e nos dê a sabedoria para trabalharmos incansavelmente por uma sociedade mais justa e fraterna.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Santa Clara, Virgem

Nota biográfica:
       Nasceu em Assis no ano 1193. Imitando o exemplo do seu concidadão Francisco, seguiu o caminho da pobreza e fundou a Ordem monástica (Clarissas). A sua vida foi de grande austeridade, mas rica em obras de caridade e de piedade.
        Em 1212, dá-se o encontro São Francisco de Assis. Tocada pela pregação do santo, esta jovem rica de Assis, procurou-o e pediu-lhe que a deixasse seguir esta nova forma de vida. Tinha 18 anos. Permaneceu durante algum tempo com as monjas beneditinas, mas logo o santo arranjou um lugar, para Clara, para Santa Inês, sua irmã, e para outras virgens piedosas. A casa reconstruída por São Francisco, doada pelos beneditinos, serviu de mosteiro à Segunda Ordem Franciscana das Damas Pobres, atualmente Clarissas Pobres.
       Morreu em 1253.

Oração (de Coleta):
       Senhor, que na vossa infinita misericórdia inspirastes a Santa Clara um profundo amor à pobreza evangélica, concedei, por sua intercessão, que seguindo a Cristo na pobreza espiritual, mereçamos um dia contemplar Vos no reino dos Céus. Por Nosso Senhor.
Imita a pobreza, a humildade e a caridade de Cristo
(Da Carta de Santa Clara, virgem, à Beata Inês de Praga)
       Feliz de quem pode gozar as delícias do sagrado banquete e unir-se intimamente ao coração de Cristo, cuja beleza os Anjos admiram sem cessar, cujo afecto atrai os corações, cuja contemplação nos reconforta, cuja benignidade nos sacia, cuja suavidade enche a alma, cuja lembrança nos inunda de luz suave, cuja fragrância ressuscita os mortos, cuja visão gloriosa constitui a felicidade de todos os habitantes da Jerusalém celeste. Ele é o esplendor da luz eterna, o espelho puríssimo da acção divina. Olha continuamente para este espelho, rainha e esposa de Cristo; contempla nele o teu rosto e procura adornar te interior e exteriormente com as mais variadas flores das virtudes e com as vestes formosas que convêm à filha e à esposa castíssima do Rei dos reis.
       Neste espelho se reflecte esplendidamente a ditosa pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como podes observar, com a graça de Deus, em todas as suas partes. Ao começo do espelho, repara na pobreza d’Aquele que foi colocado no presépio e envolvido em panos. Oh admirável humildade, oh espantosa pobreza! O Rei dos Anjos, o Senhor do céu e da terra deitado num presépio! No centro do espelho, observa como a humildade, ou a santa pobreza, suporta tantos trabalhos e tormentos para remir o género humano. E no fim do espelho, contempla a caridade inefável que O levou à cruz e à morte mais infamante.
       Por isso o próprio espelho, suspenso na cruz, exortava os transeuntes a considerar estas coisas, dizendo: Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor semelhante à minha dor.
       Respondamos nós aos seus clamores e gemidos, com uma só alma e um só coração: A minha alma sempre o recorda e desfalece de tristeza dentro de mim. Abrasa-te cada vez mais neste amor, ó rainha do Rei celeste.
       Contempla ao mesmo tempo as delícias inefáveis do Rei dos Céus e as suas riquezas e honras perpétuas e, suspirando de amor ardente, proclama no íntimo do teu coração: Leva-me contigo; correrei seguindo o aroma dos teus perfumes, ó Esposo celeste. Correrei sem desfalecer, até que me introduzas na sala do festim, até que na tua mão esquerda descanse a minha cabeça e a tua direita me abrace com terno amor.
       No meio destas piedosas contemplações, lembra te desta pobrezinha, tua mãe, sabendo que te levo inseparavelmente gravada no meu coração como filha predilecta.
Veja o vídeo que se segue sobre Santa Clara de Assis:

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

São Lourenço, Diácono e Mártir

Nota biográfica:
          É tido como o "Príncipe dos Mártires".
       Morreu a 10 de Agosto de 258, na perseguição do imperador romano. Era diácono, responsável por administrar os bens da Igreja de Roma. No dia 6 de Agosto, desse ano, foi morto o Papa Sisto II, juntamente com quatros diáconos. Os perseguidores prenderam Lourenço, poupando-lhe temporariamente a vida, com o fito de ele lhes entregar os bens da Igreja.
       Pede alguns dias, ao juiz, para reunir os tesouros da Igreja. Apresenta-se com pobres, doentes, indigentes, assistidos pela Igreja: "Eis aqui os nossos tesouros, que nunca diminuem e podem ser encontrados em toda parte".
          Foi queimado vivo numa grelha.
       É o terceiro padroeiro de Roma, depois de Pedro e Paulo. Os restos mortais encontram-se na Igreja de São Lourenço, extra-muros.
Oração de Colecta:
       Senhor nosso Deus, que inflamastes no fogo da caridade o bem-aventurado São Lourenço e o fizestes resplandecer na fidelidade ao serviço da Igreja e na glória do martírio, fazei-nos amar o que ele amou e praticar o que ele ensinou. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Administrou o sagrado Sangue de Cristo
(Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo, Sermão 304, 1-4: PL 38, 1-395-1397. Sec. V)
       A Igreja Romana convida-nos hoje a celebrar o triunfo de São Lourenço, que, desprezando as ameaças e as seduções do mundo, venceu a perseguição do demónio. Exercia nessa Igreja de Roma, como sabeis, as funções de diácono. Aí administrou o sagrado Sangue de Cristo; aí derramou o seu sangue pelo nome de Cristo.
       O bem-aventurado apóstolo São João expôs claramente o mistério da Ceia do Senhor, dizendo: Como Cristo deu a sua vida por nós, também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos. Assim compreendeu São Lourenço; assim o compreendeu e realizou: o que tinha recebido naquela mesa, isso mesmo ofereceu. Amou a Cristo na sua vida, imitou O na sua morte.
       Portanto, também nós, irmãos, se realmente O amamos, imitemo l’O. A melhor prova que podemos dar do nosso amor é imitar o seu exemplo. Na verdade, Cristo sofreu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigamos os seus passos. Estas palavras do apóstolo São Pedro parecem dar a entender que Cristo só sofreu por aqueles que seguem os seus passos e que a paixão de Cristo de nada aproveita senão àqueles que O seguem. Seguiram-n’O os santos mártires até ao derramamento de sangue, à semelhança da sua paixão. Seguiram-n’O os mártires, mas não só eles. Não foi cortada a ponte depois de eles terem passado; não secou a fonte depois de eles terem bebido.
       Aquele jardim do Senhor, meus irmãos, não só tem as rosas dos mártires, mas também os lírios das virgens, as heras dos esposos e as violetas das viúvas. Nenhuma classe de pessoas, irmãos caríssimos, deve menosprezar a sua vocação. Cristo sofreu por todos. Com toda a verdade está escrito a este propósito: Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.
       Entendamos, portanto, como deve o cristão seguir a Cristo, mesmo sem ter de derramar o seu sangue, sem ter de suportar o martírio. Diz o Apóstolo, referindo-se a Cristo nosso Senhor: Ele, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus. Oh sublime majestade! Mas aniquilou-Se a Si próprio, assumindo a condição de servo, tornando-Se semelhante aos homens e aparecendo como homem. Oh profunda humildade!
       Cristo humilhou-Se: aqui tens, cristão, o que deves imitar. Cristo obedeceu: como podes orgulhar-te? E depois de ter passado semelhante humilhação e de ter vencido a morte, Cristo subiu ao Céu: sigamo l’O. Ouçamos o que diz o Apóstolo: Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Santa Teresa Benedita da Cruz, Virgem e Mártir

Nota Biográfica:
       Edith Stein, filha de pais judeus, nasceu em Breslau no dia 12 de Outubro de 1891. O pai era comerciante de madeiras e morreu antes de Edith ter completado os 2 anos. A mãe, mulher muito religiosa, solícita e voluntariosa, assumiu todo o cuidado da família, mas não conseguiu manter nos filhos uma fé viva.
      Edith dedica-se então a uma vida de estudos na Universidade de Breslau tendo como meta a Filosofia. Os anos de estudos passam até que, no ano de 1921, Edith visita um casal convertido ao Evangelho. Na biblioteca deste casal ela encontra a autobiografia de Santa Teresa de Ávila. Edith lê o livro durante toda a noite. "Quando fechei o livro, disse para mim própria: é esta a verdade", declarou ela mais tarde.
     Tendo-se dedicado aos estudos filosóficos, empenhou-se perseverantemente na procura da verdade, até que encontrou a fé em Deus e se converteu à Igreja Católica. Foi baptizada no dia 1 de janeiro de 1922. Desde então serviu a Deus na função de professora e escritora. Agregada às irmãs carmelitas em 1933 com o nome Teresa Benedita da Cruz por ela escolhido, dedicou a sua vida ao serviço do povo judaico e do povo alemão. Deixando a Alemanha por causa da perseguição aos Judeus, foi recebida a 31 de dezembro de 1938 no convento das carmelitas de Echt (Holanda). No dia 2 de Agosto de 1942 foi presa pelas autoridades que exerciam o poder aterrador na Alemanha e enviada para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau (Polónia), destinado ao genocídio do povo judaico. Aí foi cruelmente morta no dia 9 de Agosto, com 51 anos de idade.
     Tinha sido discípula e depois assistente de Edmund Husserl, o fundador da fenomenologia.
       Foi beatificada a 1 de Maio de 1987, e canonizada a 11 de Outubro de 1998, pelo Papa João Paulo II. É uma das padroeiras da Europa, juntamente com Santa Brígida e Santa Catarina de Sena.
       “Como cristã e judia, ela aceitou a morte com o seu povo e para o seu povo, que era visto como o lixo da nação alemã”, referiu Bento XVI, aquando da uma visita histórica ao complexo de Auschwitz, em 2006.
Oração:
       Senhor, Deus dos nossos pais, que conduzistes a mártir Teresa Benedita ao conhecimento do vosso Filho crucificado e à sua imitação até à morte, concedei, pela sua intercessão, todos os homens conheçam o Salvador, Jesus Cristo, e por Ele cheguem perpétua visão do vosso rosto. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Cristo tomou sobre Si o jugo da Lei, cumprindo plenamente a Lei e morrendo pela Lei e através da Lei. Assim libertou da Lei aqueles que querem receber d’Ele a vida. Mas eles sabem que só poderão recebê-la se ofereceram a sua própria vida. Porque os que foram baptizados em Cristo foram baptizados na sua morte. Submergiram-se na vida de Cristo, para se tornarem membros do seu Corpo, destinados a sofrer e morrer com Ele, mas também a ressuscitar com Ele para a vida eterna, a vida divina.
Para nós, evidentemente, esta vida atingirá a sua plenitude no Dia do Senhor. Contudo, já desde agora – «na carne» – participamos da sua vida quando acreditamos: acreditamos que Cristo morreu por nós para nos dar a sua vida. É esta fé que nos permite ser uma só realidade com Ele, como os membros com a cabeça, e nos abre a torrente da sua vida. Assim, esta fé no Crucificado – a fé viva, que está associada ao vínculo do amor – constitui para nós a entrada na vida e o princípio da futura glorificação. Por isso a cruz é o nosso único título de glória: Longe de mim gloriar-me, senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Quem decidiu aderir a Cristo morreu para o mundo e o mundo para ele. Leva no seu corpo os estigmas do Senhor. É débil e desprezado perante os homens; mas por isso mesmo é forte, porque na fraqueza se manifesta o poder de Deus.
Tendo consciência disto, o discípulo de Jesus aceita não somente a cruz que lhe é imposta, mas crucifica-se a si mesmo: os que são de Cristo crucificaram a sua carne com as suas paixões e concupiscências. Suportaram um combate implacável contra a sua natureza, a fim de que morra neles a vida do pecado e dê lugar à vida do espírito. Porque é esta que importa.
Contudo a CRUZ não é um fim em si mesma: ela eleva-nos para as alturas e revela-nos as realidades superiores. Por isso ela não é somente um símbolo; ela é a arma poderosa de Cristo; é o cajado de pastor com que o divino David sai ao encontro do David infernal e com o qual bate fortemente à porta do Céu e a abre. Então brotam as torrentes da luz divina que envolvem todos aqueles que seguem o Crucificado.
(Edith Steins Werke, ed. L. Gelber - R. Leuven, T. I, Freiburg 1983, pp. 15-16)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

São Domingos de Gusmão, Presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu em Caleruega (Espanha) cerca do ano 1170. Estudou Teologia em Palência e foi nomeado cónego da Igreja de Osma. Por meio da sua pregação e do exemplo da sua vida combateu com grande êxito a heresia dos Albigenses. Com os companheiros que aderiram a esta empresa fundou a Ordem dos Pregadores. Morreu em Bolonha no dia 6 de Agosto de 1221.
Oração de coleta:
       Venha, Senhor, em auxílio da vossa Igreja São Domingos, ilustre pregador da verdade, para que sejamos sempre iluminados pela sua doutrina e protegidos pela sua intercessão. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Falava com Deus ou de Deus:
       Era tão admirável na vida de Domingos a santidade de costumes e o fervor do espírito que todos viam nele um instrumento escolhido da graça divina. A sua tranquilidade e firmeza de ânimo apenas se alterava pelos sentimentos de compaixão e de misericórdia. A alegria de coração transparecia na jovialidade do seu rosto, revelando a paz e harmonia da sua vida interior.
       Em toda a parte se mostrava, nas palavras e nas obras, como um homem do Evangelho. Durante o dia, no trato com os irmãos e companheiros, ninguém era mais simples e agradável. Durante as horas da noite, ninguém era mais assíduo em vigílias e orações. Raramente falava, a não ser de Deus, ou com Deus na oração, e exortava os seus irmãos a fazerem o mesmo.
       Uma coisa pedia a Deus com especial insistência: que Se dignasse conceder lhe uma verdadeira caridade, que o levasse a trabalhar eficazmente para a salvação dos homens, consciente de que só seria verdadeiramente membro de Cristo, quando se dedicasse com todas as suas forças à salvação das almas, como o Salvador de todos nós, o Senhor Jesus, que totalmente Se ofereceu para nossa salvação. Com esta finalidade, fundou a Ordem dos Pregadores, que era um projecto em que meditava profundamente já há muito tempo.
       Com frequência exortava de palavra e por cartas os irmãos desta Ordem para que sempre se aplicassem ao estudo do Novo e do Antigo Testamento. Trazia sempre consigo o Evangelho de São Mateus e as Epístolas de São Paulo, e tanto as estudava que quase as sabia de cor.
       Por duas ou três vezes foi eleito bispo, mas sempre recusou, preferindo viver em pobreza com os seus irmãos, a governar uma diocese. Conservou intacta até ao fim a glória da sua pureza. Desejava ser flagelado e despedaçado e martirizado pela fé de Cristo. A seu respeito afirmou Gregório IX: «Conheci um homem tão fiel cumpridor das regras apostólicas que não duvido estar agora no Céu, associado à glória dos mesmos Apóstolos».
(De escritos diversos da História da Ordem dos Pregadores. Libellus de principiis O.P.: Acta Canonizationis S. Dominici: Monum. O. P. Mist. 16, Romae, 1935; pp. 30 ss., 146-147, do sec. XIII)