quarta-feira, 14 de março de 2012

Ter um amigo é ter alguém por quem morrer

        "Um amigo, por definição, é alguém que caminha a nosso lado, mesmo se separado por milhares de quilómetros ou por dezenas de anos. O longe e a distância são completamente relativizados pela prática da amizade. De igual maneira, o silêncio e a palavra. Um amigo reúne estas condições que parecem paradoxais: ele é ao mesmo tempo a pessoa a quem podemos contar tudo, é aquela junto de quem podemos estar longamente em silêncio, sem sentir por isso qualquer constrangimento. A amizade cimenta-se na capacidade de fazer circular o relato da vida, a partilha de pequenas histórias, a nomeação verbal do lume mais íntimo que nos alumia. A amizade é fundamentalmente uma grande disponibilidade para a escuta, como se aquilo que dizemos fosse sempre apenas a ponta visível de um maravilhoso mundo interior e escondido, que não serão as palavras a expressar".
       "Se tivesses de resumir a sua natureza, podíamos dizer: um amigo é alguém que foi capaz de olhar, mesmo por um segundo apenas, o fundo da nossa alma e transportar depois consigo esse segredo, da forma mais gratuita e construtiva".

       Séneca... "Ter um amigo é ter alguém por quem morrer"

Espaço para a autenticidade...

É urgente que a vida não seja só a acumulação do tempo e do seu cavalgar sonâmbulo
       Gosto, mas gosto muito, que a primeira palavra de Jesus no Evangelho de João seja uma pergunta (e seja aquela pergunta): “Que procurais?” (Jo 1,38). Consola-me ir percebendo que o que sustenta a arquitetura dos encontros e dos desencontros que os Evangelhos relatam é uma espécie de coreografia de perguntas, um intenso tráfico interrogativo, construído a maior parte do tempo a tatear, sem saber bem, com muitas dúvidas, muitos disparos ao lado, muita incapacidade até de comunicar. Isso é uma âncora, por muito que nos custe, pois uma vida só assente em respostas é uma vida diminuída, à maneira de uma primavera que não chegou a ser. Não sei como vai rebentar em nós a primavera, como se vai acender este reflorir que a natureza insinua, este renascer que o gesto pascal de Jesus espantosamente (res)suscita na nossa humanidade. Sei apenas que nas perguntas, mesmo naquelas que são difíceis e nos estremecem, reencontramos a vida exposta e aberta, certamente mais frágil, mas a única que nos permite tocar as margens de uma existência autêntica.

       Todos somos habitados por perguntas e elas cartografam zonas silenciosas, territórios de fronteira do nosso ser. Estes dias reencontrei a pergunta de Pilatos (ainda no Evangelho de João): “O que é a verdade?” (Jo18,38). E dei comigo a aproximar esta pergunta de uma das frases emblemáticas de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,2). Sem querer relativizar a natureza densamente dogmática do enunciado, dei comigo, porém, a revisitá-lo em chave existencial. E era como se Jesus, mestre da vida que incessantemente se reformula em nós, nos desafiasse a uma apropriação. Sim, a uma apropriação. É necessário que perante a multidão dos caminhos percorridos e a percorrer cada um de nós diga: “eu sou o caminho que percorro”. É decisivo que as verdades que acordamos não sejam uma sobreposição, mas uma expressão profunda do que somos: “eu sou a verdade”. É urgente que a vida não seja só a acumulação do tempo e do seu cavalgar sonâmbulo, mas que cada um, pelo menos uma vez, possa dizer plenamente: “eu sou a vida”. Acho que é disto que o mistério pascal fala.

José Tolentino Mendonça, Editorial da Agência Ecclesia.

terça-feira, 13 de março de 2012

Se defendermos o Amor, o Amor defender-nos-á...

por ocasião do Dia Nacional da Cáritas
D. António Couto, no no Dia da Cáritas:

UMA REDE DE CARIDADE

«Edificar o bem comum: tarefa de todos e de cada um»

       1. O Evangelho deste Domingo III da Quaresma faz-nos ver Jesus a entrar no Templo de Jerusalém, que Jesus chama de forma significativa e carinhosa «a Casa do meu Pai» (João 2,16) ou «a minha Casa» (Mateus 21,13; Marcos 11,17; Lucas 19,46). Dito isto, ganha uma enorme relevância a informação que nos é transmitida de Jesus ter encontrado na Casa do seu Pai, que é também a sua Casa, não filhos e irmãos, mas vendedores, banqueiros e comerciantes (João 2,14). Estávamos todos à espera que lá fosse encontrar filhos e irmãos. Na verdade, «a Casa do meu Pai», e «a minha Casa», por um lado, e o Mercado, por outro lado, são lugares incompatíveis. Trata-se, de facto, de duas maneiras diferentes de conceber e ocupar o espaço. Avista-se daqui a vida jovem, leve e bela dos primeiros cristãos que, conforme o relato dos Atos dos Apóstolos, «partiam o pão nas suas Casas com alegria e simplicidade de coração» (Atos 2,46).

       2. Casa, Casa, Casa, é uma das palavras mais belas que conheço. Mesa, Mesa, Mesa, é outra das palavras mais belas que conheço. O Mercado são casas, mas sem Casa. São mesas, mas sem Mesa. Lareiras, mas sem Lar. Corações, mas sem Amor. Sem Pai nem Mãe nem Filhos nem Irmãos. O gesto de Jesus, de derrubar pedras e mesas, é emblemático e ilustrativo. É urgente quebrar esta crosta de indiferença. É urgente a Casa, é urgente a Mesa, é urgente o Amor.

       3. Permiti-me, meus irmãos, que traga para aqui uma antiga história rabínica. Um homem tinha três amigos. Mas tinha-os catalogados por ordem de importância: o amigo n.º 1, o amigo n.º 2 e o amigo n.º 3. O amigo n.º 1 era naturalmente o melhor amigo do nosso homem; digamos que eram amigos íntimos, e, por isso, inseparáveis: andavam sempre juntos. O amigo n.º 2 era aquele amigo que o nosso homem encontrava de vez em quando, apenas de vez em quando, altura em que confraternizavam e punham a conversa em dia. O amigo n.º 3 era aquele género de amigo que o nosso homem encontrava muito raramente, por mero acaso, e de quem já nem sequer se lembrava do nome.

       4. Um dia, o nosso homem foi apanhado de surpresa. Chegou-lhe pelo correio uma carta que provinha do palácio do Rei. O nosso homem abriu a carta, leu, releu, e ficou muito preocupado. Tratava-se de uma intimação que obrigava o nosso homem a comparecer no palácio do Rei. Ora, acontece que o nosso homem, o homem desta história, nem sabia o que era um Rei, e muito menos um palácio. Tão-pouco sabia o caminho para o palácio. Mas preocupava-o sobretudo o modo como se devia comportar na presença do Rei. Não era o mundo dele.

       5. Ficou aflito. Já nem conseguia comer nem dormir. Apoderou-se dele uma grande tremedeira. Quando isto nos acontece, lembramo-nos naturalmente de recorrer aos amigos. Foi assim que o nosso homem foi desabafar com o seu melhor amigo, o amigo n.º 1. Expôs-lhe o assunto que o preocupava. Tinha sido intimado a comparecer no palácio do Rei, e tinha muito medo, pois nada percebia de palácios e de reis. Foi assim que pediu ao seu amigo n.º 1 o favor de o acompanhar naquela viagem difícil. Nem era nada demais, dado que andavam sempre juntos, eram amigos inseparáveis. O amigo n.º 1 respondeu assim ao nosso homem: é verdade que somos muito amigos; de facto, andamos sempre juntos. Pede-me o que quiseres, que eu estou disposto a ajudar-te; porém, nessa viagem, não te posso acompanhar.

       6. É assim que o nosso homem, desiludido, tem de ir à procura do seu amigo n.º 2. Pô-lo a par do seu problema, e implorou-lhe, da mesma maneira, que o acompanhasse naquela viagem difícil. O amigo n.º 2 ouviu atentamente a exposição do nosso homem, e respondeu assim: sim, disponho-me a acompanhar-te, mas com uma condição: vou contigo, mas só até à porta do palácio; daí para a frente, terás de ir sozinho, pois não te posso acompanhar. O nosso homem, porém, insistiu: mas o meu problema é dentro do palácio, porque eu não entendo nada de reis e de palácios. Compreendo, retorquiu o amigo n.º 2, mas, nesse caso, não te posso mesmo ajudar. Terás de ir sozinho.

       7. Foi então que o nosso homem se pôs a caminho para ver se encontrava o seu amigo n.º 3, aquele amigo de quem já nem se lembrava do nome nem de quando tinha sido a última vez que se tinham encontrado. Com alguma sorte, lá o encontrou, e expôs-lhe o problema, e suplicou-lhe que o acompanhasse naquela viagem difícil. O amigo n.º 3 ouviu atentamente, e nem sequer deixou o nosso homem terminar. Respondeu logo: mas é claro que te acompanho. Até te digo mais: ficaria mesmo muito triste, se soubesse que estavas a braços com esse problema, e não me tivesses dito nada!

       8. Permiti-me agora, meus irmãos, que descodifique a história, para entendermos melhor o seu alcance. O nosso homem, o homem desta história, sou eu, és tu, pode ser qualquer um de nós. O Rei é Deus. A viagem é a morte. O amigo n.º 1, aquele que anda sempre connosco, é a nossa própria vida, os nossos projetos, os nossos trabalhos, os nossos sonhos, as nossas ambições. De facto, andamos sempre juntos, somos inseparáveis. Todavia, naquela viagem, os nossos projetos e trabalhos não nos podem acompanhar. O amigo n.º 2, aquele que encontramos de vez em quando para confraternizar e pôr a conversa em dia, são os nossos próprios amigos. Aqueles que se mostram dispostos a ir connosco, mas só até à porta… do cemitério! O amigo n.º 3, aquele que muito raramente encontramos, de quem até acabamos por esquecer o nome, mas que até ficaria triste e sentido se não lhe disséssemos nada, e que é o único que nos pode acompanhar, é o Bem que fazemos, o Amor que pomos naquilo que fazemos.

       9. Bem vistas as coisas, está bom de ver que temos de inverter a ordem dos nossos amigos, e passar para 1.º lugar aquele que temos no catálogo em 3.º lugar. Decisivo, decisivo, decisivo é o Amor. Temos de nos encontrar muito mais vezes com este amigo. Na verdade, diz bem S. Paulo, tudo passa; só o Amor permanece (1 Coríntios 13,8).

       10. Contei esta história, porque hoje é o dia do Amor, da Caridade, da Caritas. Hoje é o dia de partir a crosta da indiferença, daquela couraça ou máscara a que nos agarramos tanto, para nos defendermos, para subirmos na vida, ainda que seja à custa dos outros. Hoje é o dia de não olharmos apenas para o nosso grupinho de amigos. Hoje é o dia de visitar e acolher cada ser humano, de o sentar à nossa mesa, de lhe lavarmos os pés e a alma e o coração. Hoje é o dia do Amor. Hoje é o dia de sermos irmãos, e não comerciantes ou banqueiros desalmados. Hoje é o dia de limparmos as lágrimas que correm de tantos rostos belos como os nossos, porque também neles se espelha a imagem de Deus.

       11. Hoje é o dia do Amor que rompe bolsos e derruba corações empedernidos. Sim, diz-nos Jesus em jeito de séria advertência: «Destas majestosas construções não ficará pedra sobre pedra» (Mateus 24,2; Marcos 13,2). Os Templos, as paredes, as pedras da nossa idolatria, «obra de mãos humanas», convém que sejam destruídos, para darem lugar a outros, «não feitos por mãos humanas» (Marcos 14,58). Paredes desabitadas, sem Deus aqui no meio dos seus filhos e filhas, são ídolos. Neste sentido, refere João Paulo II, expondo diante dos nossos olhos, com singular afeto, um belo programa, que a paróquia é «a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas» (Christifideles Laici, n.º 26), e que a sua vocação «é a de ser a casa de família, fraterna e acolhedora» (Catechesi tradendae, n.º 67), e grava esta afirmação emocionada e mobilizadora: «O homem é amado por Deus. Este é o mais simples e o mais comovente anúncio de que a Igreja é devedora ao Homem» (Christifideles Laici, n.º 34), a todos os homens, porque a caridade tem a vastidão do mundo.

       12. Caríssimos irmãos da Caritas Diocesana, queridos avôs e avós, pais e mães, filhos e filhas, irmãos e irmãs, que Deus me deu nesta bela Diocese de Lamego, desafio-vos a todos a entretecermos, com as nossas mãos abertas e carinhosas, uma vasta rede de Amor em que todos nos sintamos unidos, envolvidos e empenhados. Apelo vivamente a que juntos defendamos o Amor, a Caridade, a Caritas. Se defendermos o Amor, o Amor defender-nos-á. O resto pouco vale. Até as mais majestosas construções caem.

       13. Apelo a todos os párocos e paroquianos de todas as paróquias desta nossa Diocese de Lamego a que, com a ajuda da Caritas Diocesana e em rede com ela e comigo, formemos o mais rapidamente possível – a tanto nos impele a urgência do Evangelho – em todas as paróquias Grupos de Caridade, Grupos Caritas, para que ninguém se sinta sozinho, abandonado ou desfigurado, mas todos transfigurados e configurados à Imagem de Cristo, Bom Pastor, que cuida carinhosamente de todas as suas ovelhas e vai, sem descanso, à procura da ovelha perdida até a encontrar.

       14. Ensina-nos, impele-nos, acaricia-nos, Senhor, com o vendaval manso do alento do teu Amor. Fica connosco, Senhor, bem no meio de nós, para te vermos bem no rosto dos nossos irmãos. Senhora do puro Amor, Mãe da Igreja e nossa Mãe, vela por nós, fica à nossa beira. É bom ter a Esperança como companheira.

Catedral de Lamego, 11 de março de 2012
D. António Couto, Bispo de Lamego

Quantas vezes deverei perdoar? 70X7

       O texto do Evangelho proposto para hoje é bem nosso conhecido. Mas nunca será demais refletir sobre a pergunta de Pedro a Jesus e a resposta do Mestre ao discípulo. É certamente um conteúdo muito original para aquele tempo e tão necessário na atualidade.
Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque me pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».
        Se olharmos para o perdão como uma concessão ao outro, a dificuldade em perdoar será bem mais complexa. Se olharmos par ao perdão como uma benesse que nos faz bem à saúde, à nossa saúde mental, emocional e até física, então já se torna mais simples perdoar. Mas nunca é fácil, sobretudo quando a ofensa atenta contra a minha, a nossa dignidade. Se o perdão for expressão do amor de Deus, e do amor que assumimos na relação com o outro; se o perdão nos capacitar para transformarmos a nossa vida pessoa, familiar, comunitária; se o perdão nos levar a colocar-nos no lugar do outro; se o perdão partir da convição das nossas limitações e falhas; se o perdão nos falar da alegria de nos sentirmos e nos sabermos perdoados por Deus e pelos outros, então talvez percebamos o desafio inquietante de Jesus: perdoar sempre. É o caminho. É o único caminho que nos liberta verdadeiramente das amarras do egoísmo, do orgulho, da inveja, do ciúme, do desejo de vingança, da conflitualidade doentia.
       Somos diferentes. Há que aceitar que o somos. A diferença aproxima-nos para nos completarmos. A diferença pode afastar-nos, porque nos sentimos agredidos/ofendidos. A diferença é uma característica fundamental do ser humano. O perdão encaixa na aceitação das diferenças. Mas encaixa sobretudo na dinâmica da caridade, do amor sem limites. Deus ama-nos infinitamente. Perdoa o nosso desvia, a nossa dúvida, a nossa hesitação, perdoa a nossa infidelidade, o nosso distanciamento. Aprendamos a perdoar com Ele e como Ele.

segunda-feira, 12 de março de 2012

D. António Couto em terras de Tabuaço

       Ontem, 11 de março, o nosso Bispo, D. António Couto, reservou a tarde para estar connosco em Tabuaço, a fim de benzer/inaugurar as obras de melhoramento da Igreja do Santuário de Santa Maria do Sabroso, na freguesia de Barcos, deste concelho/arciprestado de Tabuaço, e cuja paroquialidade está confiada ao reverendo Pe. Luís Ribeiro da Silva.
       O primeiro encontro foi com os sacerdotes a paroquiar neste espaço pastoral, à volta da mesa, na Santa Casa de Misericórdia de Tabuaço.
       Depois de breve visita às pessoas que se encontram no Lar, seguiu com o sacerdotes para o Santuário do Sabroso, para presidir à Eucaristia, com a bênção do altar e das obras realizadas neste templo antiquíssimo. No final a bênção do parque das merendas, no espaço circundante do Santuário. Houve ainda tempo para confraternizar com as pessoas, no lanche que se seguiu.
       Destaque-se uma significativa moldura humana, com paroquianos de Barcos mas também de paróquias vizinhas, como deste espaço: Tabuaço, Távora, Pinheiros, Carrazedo.
 
 
 
 
 
 
Para ver mais fotos, visite a nossa página do FACEBOOK (as fotos do Santuário foram-nos cedidas pelo Sr. Rui de Carvalho, Câmara Municipal de Tabuaço).

sábado, 10 de março de 2012

Domingo III da Quaresma (ano B) - 11 de março

       1 – O centro e o conteúdo essencial da fé cristã é Jesus Cristo e o mistério da Ressurreição. Sem Páscoa não haveria vida nova, não haveria Igreja, que nasce precisamente com a ressurreição de Jesus, pedra após pedra se ergue com Ele do sepulcro, para a luz e para a vida, para o mundo e para as alturas.
       Mas por ora, enquanto não chega a Páscoa, é tempo de caminhar, é tempo da travessia por todos os desertos da solidão, da doença e da morte. Ao terceiro dia, Ele levantar-se-á, e levantar-nos-á com Ele, dos escombros do pecado, do sofrimento e do mal, para nos dar a Sua vida nova, um novo Templo de graça, de verdade e de paz. As "dores da maternidade" ainda fazem mossa, ainda fazem sofrer, ainda nos fazem dobrar sobre nós próprios, em posição que espera o afago e o abraço de Deus, para levantarmos o olhar e vermos os novos Céus e a nova Terra, que nos aguardam e atraem.
       O Evangelho deste terceiro domingo da Quaresma fala-nos do sinal maior que Jesus nos poderá dar: a Sua ressurreição. O templo cairá por terra e da terra, a que pertencemos, e a que Deus quis e quer pertencer, por Jesus Cristo, erguer-se-á o Templo do encontro, da festa, da alegria, até à eternidade.
       "Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio»...
       Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei»... Muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem".
       O templo de pedra é sinal da presença de Deus no meio de nós, e daí a necessidade de ser respeitado por nele transparecer a Sua luz. É também sinal de outro templo, e da vida nova, o Templo que é o próprio Jesus Cristo, onde Se pode encontrar Deus de verdade, e o templo que somos nós, imagem e semelhança de Deus, sacrários vivos do Altíssimo.
       2 – Como em tudo na vida, o caminho também é importante. Não adianta correr se não sabemos para onde nos leva a estrada, a ruela, a avenida. Pode ter um piso agradável, macio, colorido, artístico, mas por aí não nos leva a bom porto, porque não sabemos também onde aportar. Não podemos navegar sem orientação. Para o barco que não sabe para onde navega, todo o vento é desfavorável. Como cristãos sabemos o destino: a vida eterna, a comunhão em plenitude junto de Deus. Mas a vida em Deus não é futuro, não somente futuro, é também presente, é também vida, é também a nossa casa, as nossas paixões, as nossas vivências, os nossos projetos; a eternidade vislumbra-se e inicia a partir daqui, do lugar em que me encontro, no mundo que é a minha casa, a minha família, a minha vizinhança, o mundo que é a minha aldeia, a minha paróquia, a minha vila e a minha cidade, a minha escola e o meu trabalho.
       Por sorte, não estamos num labirinto fechado, escurecido, traiçoeiro, ainda que possa haver labirintos na nossa vida e possam existir tantos caminhos quantas as pessoas que estão a caminhar. Os que nos precederam na fé, inspirados por Deus, clarearam a quaresma que temos de fazer para nos acercarmos da Páscoa, tapetearam a estrada para que as quedas não nos destruíssem e nos fizessem destruir.
       Escutemos Moisés: "Não terás outros deuses perante Mim... Não adorarás outros deuses nem lhes prestarás culto... Não invocarás em vão o nome do Senhor teu Deus... Lembrar-te-ás do dia de sábado, para o santificares..., o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus... Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença".
        É um bom ponto de partida para nos tornarmos cúmplices de Jesus Cristo. Os Mandamentos continuam a ser para a Igreja (e para os cristãos) e para o mundo (como base dos Direitos Humanos) uma referência fundamental, que nos exercitam na convivência com Deus, e na caridade para com todos.

       3 – Os sinais pedidos a Jesus são-nos também exigidos a nós, como seus discípulos, seus seguidores. Tal como Ele, o maior sinal para nós é a ressurreição que emoldura a CRUZ do amor, da paixão, da entrega que n’Ele, Deus feito homem, nos é ofertado em plenitude.
       "Os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria. Quanto a nós, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens".
       No nosso itinerário quaresmal até à Páscoa, e até à vida eterna, há de haver lugar à partilha, à solidariedade, à comunhão, ao serviço, traduzindo em concreto a cruz, expressão do amor, da caridade, e daquela – a cruz –, dar sinais, deixar o vislumbre da LUZ que nos vem da RESSURREIÇÃO e de nos tornarmos, pela fé, pelo batismo, cúmplices de Jesus Cristo. Anunciamos a morte e a ressurreição até que Ele venha. Anunciamos como Ele, em palavras que se tornam vida gasta com os outros e a favor dos outros. No compromisso com os outros, na justiça e na caridade, a ressurreição acontecerá.

Textos para a Eucaristia (ano B): Ex 20, 1-17; 1 Cor 1, 22-25; Jo 2, 13-25.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Destruir a memória seria destruir a consciência

       "Os arquivos da memória contêm o tecido das nossas experiências conscientes e inconscientes. Tais arquivos nunca podem ser destruídos, a não ser involuntariamente, por meio de um temor cerebral, um traumatismo craniano ou uma degeneração das células nervosas, como na doença de Alzheimer. destruir estes arquivos significa destruir a nossa consciência, eliminar a nossa identidade...
       Isso produziria a morte da identidade. Deixaríamos de saber quem somos, como estamos e onde estamos. Tornar-nos-íamos animais irracionais, pois não teríamos mais consciência da existência... seria conspirar contra a própria liberdade, pois sem a memória não poderíamos produzir pensamentos e tomar decisões. Portanto, Ele protegeu a memória contra ataques do eu, contra possíveis crises que o homem atravessa. Apagar a memória é impossível, só é possível reeditá-la.

Leio o Evangelho e busco um Deus da fragilidade

       "Leio o Evangelho e busco um Deus da fragilidade, um Deus não para adorar e venerar, mas para acariciar e perfumar, que ri e brinca com os seus filhos, nos calorosos jogos do mar e do verão. Um Deus que sabe ouvir e esperar junto de mim, que temo a dor e o deserto. Um Deus pequeno, não o omnipotente, que me enriqueça com a sua pobreza, com a sua necessidade de carícias e de perfume.
       Um Deus tão frágil que faça pensar sempre no amor, e faça sentir a vontade de ser amado. Beleza da fragilidade".

A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular

       Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros, e eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim mandou-lhes o seu próprio filho, pensando: ‘Irão respeitar o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; vamos matá-lo e ficaremos com a sua herança’. Agarraram-no, levaram- no para fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?» Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo responderam-Lhe: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos». Ao ouvirem as parábolas de Jesus, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que falava deles e queriam prendê-l’O; mas tiveram medo do povo, que O considerava profeta (Mt 21, 33-43.45-46).
       Nesta parábola, Jesus evidencia a consciência sobre o seu fim, sobre o caminho a percorrer, e sobre as dificuldades que terá que enfrentar. Sobressai também o confronto com os "velhos do Restelo", os fariseus e doutores da Lei, pouco abertos ao mistério, à beleza, às surpresas que podem chegar de Deus, e muito zelosos do seu lugar, pouco generosos em relação àqueles que deveriam ajudar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Laurinda Alves com o Pe. Alberto Brito: Ouvir, Falar, Amar

Ouvir, Falar, Amar. A compreensão é a única força de mudança, Oficina do Livro. Alfragide: 2011.


       Laurinda Alves à conversa com o Pe. Alberto Brito. Já o conhecia de um encontro/retiro no distante ano de 1998, em Braga, na Casa dos Jesuítas. Um pensamento clarificador. Não para eliminar as dúvidas, mas para colocar mais questões.
       A Laurinda Alves não precisa de apresentação, mas para quem desconhece pode sempre consultar o seu blogue pessoal: Laurinda Alves - A Substância da Vida. 
       Ouvir/escutar, "porque ouvir os outros é a maior escola da vida". Escutar com o coração, prestar atenção não apenas ao que a pessoa diz e à sua história de vida, mas à pessoa em si mesma. Diz o Pe. Alberto que se nos fixarmos apenas nas histórias das pessoas e não nas pessoas, ficamo-nos pela fofoquice. Ficar-nos-íamos pelo ouvir, como se estivéssemos a ouvir um rádio e não uma pessoa concreta.
        Falar. É assim que a comunicação acontece, é "a comunicar e a dialogar que nos entendemos e que se constroem relações". Temos uma boca e duas orelhas/ouvidos. Escutámos com interesse, a história da pessoa, mas sobretudo escutar com atenção o que a pessoa é, o que a pessoa sente, o que a pessoa vive, ouvindo o seu grito, o seu desabafo, acolhendo a sua partilha. Pode não ser fácil... queremos falar mais que escutar... queremos que alguém nos escute, nos compreenda, que por vezes esgotámos o tempo com as nossas palavras e não escutámos a pessoa que está diante de nós, como apelo e desafio. Quem não ouve, ou não quer ouvir, corre o sério risco de ficar a falar sozinho.
        Amar, "porque é a partir da aceitação de nós próprios e dos outros que tudo é possível". Escutámos a pessoa, comunicamo-nos como irmãos, para acolhermos e aceitarmos os outros, aceitando-nos também a nós como pessoas, cidadãos, filhos de Deus. Como diz o Pe. Alberto, o que nos separa e divide não são as ideias ou as crenças, mas os sentimentos. O maior desejo do ser humano, de todo o ser humano, é amar e ser amado. E o maior medo é ser rejeitado pelo(s) outro(s). A escuta e a comunicação visam aproximar-nos dos outros, com amor, com paixão, celebrando a vida.
        Enquadra-se aqui outra realidade: a compreensão. "As pessoas quando se sentem compreendidas, mudam". É o que pode resultar da escuta que ama, das palavras que se tornam comunicação amistosa, dos sentimentos que se partilham e se acolhem.
        Seja/sê ouvinte (escutador não tanto de estórias, mas das pessoas que estão perto de ti); fala do que te vai na alma; confia, estimulando os outros à confiança, a libertarem-se do medo; ama, com toda a tua alma, faz do(s) outro(s) a tua casa, o teu refúgio, tendo sempre como horizonte originário e final o Senhor Deus.
       Mais uma leitura que recomendámos, e mais um texto que se lê de fio a pavio. Nesta entrevista perpassa uma grande alegria de quem pergunta e de quem responde, numa conversa fluente, também aqui ao correr da pena, ou melhor no fluir da conversa que existe entre pessoas amigas, entre familiares, entre pessoas que se respeitam e admiram.
       Vale a pena entrar neste diálogo entre e Laurinda Alves e o sacerdote jesuíta, Pe. Alberto Brito.

Decálogo da B E L E Z A diante de D E U S

  1. Beleza é um nome de Deus. A beleza da terra é a quenose do Criador, o vestígio do retraimento de Deus. É o primeiro nome das coisas.
  2. A beleza é o êxtase da história, porta que se abre, êxodo. É o mínimo infinito que deve permanecer aberto ao infinito. No fragmento, o todo.
  3. A beleza é o projeto de Deus para o cosmos, logos e futuro do homem. A nossa vocação é libertar toda a beleza sepultada em nós.
  4. A beleza é a elevado preço. A filocalia (o amor pela beleza ou -porque não? - a beleza do amor) é ascese, purificação do olhar e do coração: felizes os puros de coração, porque verão vestígios da Beleza em toda a parte.
  5. A beleza pode ser vital ou mortal, profética ou anti-profética. Uma ambiguidade radical é imanente à beleza.
  6. A beleza é o supérfluo necessário. Necessário à qualidade de vida. Nem só de pão vive o homem, mas também da contemplação das pedras do mundo. E do perfume de Betânia derramado sobre os pés de Jesus.
  7. A beleza é o isco do divino, o sorriso de Deus dentro da matéria. A proximidade de Deus cria beleza, força com que atrai a si todas as coisas.
  8. A beleza é Deus que ama e cria comunhão. Belo é todo o ato de amor. Mui belo é quem tu amas. A lei primitiva da beleza reside no ato de amor.
  9. A beleza é a porta do conhecimento. Só o assombro capta alguma coisa, os conceitos engendram ídolos.
  10. A beleza é a força do coração, nascida do desejo. É a beleza que persuade o ânimo humano. Porque «devo»? Porque o coração me diz que, ao agir assim, encontro a felicidade.

quarta-feira, 7 de março de 2012

ERMES RONCHI - As casas de M A R I A

ERMES RONCHI, As casas de Maria. Polifonia da existência e dos afectos. Paulinas: Prior Velho 2010.


       Há meia dúzia de dias trazíamos aqui uma sugestão de leitura deste mesmo autor: Os Beijos não dados. Tu és a Beleza. A amizade é a mais importante viagem. Anteriormente publicado em Portugal esta poesia sobre Maria.
       As casas de Maria é uma obra prima.
      É uma poema. Um poema perfumado em palavras, frases, parágrafos, páginas, que sabem a mel, e a doce de amora, sabem a pão, quente, fresco, acabado de sair do forno, é água refrescante, que nos sacia nos dias tórridos de verão e nos nossos desertos interiores.
        Há muitos livros bons e excelentes autores, cultores da vida, pintando-a de mil cores, aproximando o mistério, tornando acessível a beleza que nos rodeia, o mundo, as pessoas, a natureza, o próprio Deus. Este é um dos livros bons, de fácil leitura. A expressão que me ocorre, uma vez mais, é um livro escorreito, escrito ao correr da pena, deslizante, que nos faz deslizar pelas casas de Maria, da festa e da dúvida, casa do pão que se amassa com a força da persistência, misturado com as lágrimas da paixão e do amor, casa de acolhimento, de silêncio e de palavras que afagam, acariciam, e protegem, promovem a vida. Casa dos sonhos de José, do encantamento, da descoberta, do coração aberto para as surpresas que Deus envia.
       Há muita literatura sobre Maria.
       Há belíssimas páginas que engrandecem a Mãe de Jesus e no-l'A apresentam adornada de Graça e de Beleza, de Luz e Sol. Há belíssimas páginas que nos ajudam a venerar Maria, Senhor nossa, Mãe de Jesus e Mãe da Igreja.
       "As casas de Maria", não é um tratado teológico, um discurso, uma pregação, por mais úteis que estes sejam, é uma parábola sobre a vida quotidiana, sobre os sonhos, sobre a humanidade, nas suas aspirações, na sua limitação e na sua abertura ao Infinito. É uma carta escrita com o coração, com a tinta da fé, com as cores de muitas vivências.
       Se costuma sublinhar as leituras que faz, este será um sublinhado constante, a caneta poucas vezes se há de levantar de cada página.
       Leve, suave, simples, fácil de assimilar e mastigar, envolvente.
       Nas casas de Maria há lugar para nós, para cada uma, para a família e para a comunidade, para os filhos perdidos e achados, e os filhos mais pequenos, e para todos.

O Sábio vê para além do Inverno...

"O pior Inverno
pode anunciar a mais bela Primavera.
Sábio é aquela pessoa que consegue ver aquilo que as imagens não revelam.
É a pessoa que,
ao ver cair a última folha do Inverno,
é capaz de erguer os olhos e ver as flores da Primavera que ainda não brotaram"

Beleza – uma grande necessidade do ser humano

       Cada vez mais me dou conta que andamos muito distraídos de coisas essenciais à nossa vida e à sua felicidade possível, abafando-as com preocupações e trabalhos diversos de utilidade duvidosa, mas esgotantes do nosso tempo e energia.
       É assim com a falta de apreço pela beleza, a natural e a construída, e com o que tal implica de procura e de cultivo, que, não raro, descuramos ou secundarizamos a outros interesses.
       A este propósito, lembro uma afirmação de Bento XVI que aqui deixo como desafio aos leitores e leitoras: A beleza é a grande necessidade do homem, é a raiz da qual brota o tronco da nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convida à liberdade e arranca do egoísmo. (Barcelona, 2010)
       Será que temos a devida consciência de que a beleza é mesmo uma necessidade? E, se assim é, há que procurá-la, tanto em momentos e ocasiões especiais como no trivial dos nossos quotidianos? Será que a beleza merece a nossa atenção e o nosso cuidado na transmissão de valores às novas gerações, nas famílias, nas escolas, na comunicação social, nos outdoors das nossas cidades?
       De modo especial, Com ou sem “pontes” e “feriados”, aproveitemos o nosso tempo para procurar, contemplar e cuidar da beleza natural porque, como escreve Fiodor Dostoievski, a Beleza salvará o mundo.

Vamos fazer uma conspiração contra Jeremias

       A leitura que se segue, do grande profeta de Israel, Jeremias, mostra como a LUZ da verdade e do bem pode desfocar a realidade de quem vive na escuridão da mentira e da falsidade. A luz põe a descoberto o que as sombras e a media luz ou a ausência da luz podem esconder, a sujidade, alguma nódoa na pintura, algum móvel fora do lugar, algum lixo que que passaria despercebido.
       A luz contrabalança. É paradoxal: pode levar ao bem ou provocar azia em relação àqueles que vivem honestamente. É o que acontece em Jeremias. O seu proceder denuncia, põe a descoberto, expõe, aqueles que vivem na mentira, aqueles que se servem dos mais humildes para enriquecerem, aqueles que "escravizam" os seus semelhantes, abusando da ignorância das pessoas mais simples/simplórias.
Prestemos atenção ao texto de Jeremias:
Os inimigos de Jeremias disseram entre si: «Vamos fazer uma conspiração contra Jeremias, pois não nos faltará a instrução de um sacerdote, nem o conselho de um sábio, nem o oráculo de um profeta. Vamos feri-lo com a difamação, sem fazermos caso do que ele disser». «Ajudai-me, Senhor, escutai a voz dos meus adversários. Porventura assim se paga o bem com o mal? Eles abrem uma cova para me tirar a vida. Lembrai-Vos que me apresentei diante de Vós, para Vos falar em seu favor, para deles afastar a vossa ira» (Jer 18, 18-20).

terça-feira, 6 de março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

O Evangelho ensina-nos a multiplicar... a generosidade

       Quando caminhamos, não podemos ir com demasiados pesos, senão não chegamos longe. O viajante ou o peregrino têm de aceitar fazer a experiência de viver daquilo que é de cada dia. Isto é que é viver de Deus. Em cada dia temos Deus...
       Se queremos ser nómadas de Deus, se queremos viver dele, temos de criar uma liberdade muito grande face às coisas. A verdade é que elas nos aprisionam. O que possuímos, rapidamente nos possui a nós. Para o cristãos, um estilo de vida frugal testemunha melhor do que mil palavras a fé em Deus. Estamos mergulhados num tempo em que tudo empurra para a competição... onde o desnecessário é-nos impingido pela publicidade como absolutamente necessário à nossa felicidade.
       O Evangelho ensina-nos a não amontoar, mas a multiplicar... multiplicar a generosidade, a solidariedade, a ternura, a capacidade de sofrer com os outro e de se pôr no seu lugar...

Pe. José Tolentino de Mendonça, Pai-nosso que estais na terra.

Amar a perseverança como um amigo

       "A história do Mestre da Galileia deve ensinar-nos importantes lições de vida. Podemos chorar e angustiar-nos pelas nossas dificuldades e conflitos, mas nunca devemos desistir de nós mesmos. Podemos estar abatidos, mas nunca desanimar. Devemos amar a perseverança como quem ama o melhor amigo.
       A capacidade de recomeçar tudo, quantas vezes forem necessárias, faz dos fracos fortes. A firme convicção de continuar sempre a lutar, ainda que com algumas derrotas, alimenta o sonho da vitória. Estar inconformado com as nossas doenças e com as nossas misérias é o primeiro passo para sermos saudáveis. Enfrentar a nossa passividade e sentimento de incapacidade abre as portas da liberdade...

       O Mestre era o único na sua época que conseguia ver o que ninguém via. À Sua frente só havia pedras e areia, mas Ele conseguia erguer os olhos e ver os campos a branquear, embora estivesse apenas a lançar as primeiras sementes na terra".

A medida que usardes com os outros será usada convosco!

        Disse Jesus aos seus discípulos: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco» (Lc 6, 36-38).
        Um texto tão pequeno e uma mensagem tão imensa...
       A referência é o próprio Deus. Nem mais. Deus é Amor, é Misericórdia, é Santo. Não nos fiquemos pelos mínimos garantidos, almejemos o máximo, a plenitude de Deus. A regra inicial é de ouro: fazer aos outros o que queremos que nos façam, usar a medida que queremos para nós. Não julgar. Não condenar. Perdoar. Apostar na misericórdia, na imitação de Deus.

domingo, 4 de março de 2012

Cáritas Diocesana de Lamego: mensagem do Responsável

O calendário litúrgico aproxima-nos a passos largos de mais um Dia Cáritas (III Domingo da Quaresma - 11 de março).

"Edificar o Bem Comum, tarefa de todos e de casa um", é o tema deste ano. Cada cristão, em verdadeiros espírito de partilha, é chamado a cooperar na construção dum mundo mais justo e fraterno, começando, antes de mais, pela atenção aos irmãos que fazem parte da comunidade paroquial.

"Se a caridade não está presente no anúncio do Evangelho, qual o Evangelho que se anuncia? Se a caridade não transparece do que se celebrar, que vida cristã é a que se celebra? Que Ressurreição?". Estas questões basilares expressam na perfeição a necessidade de viver a comunhão, promovendo a articulação/cooperação entre todas as Instituições, Movimentos, Grupos que, nas paróquias, atuam na dimensão do Serviço, sem desprezar a participação dos outros setores da Pastoral, em torno da opção preferencial de Cristo pelos mais pobres. É neste sentido que o Sr. Bispo exorta à prioritária e urgente organização do setor da caridade ao nível comunitário/paroquial.

A Cáritas, na qualidade de Serviço do Bispo para a dimensão sócio caritativa, congrega, em si mesma, as referidas "entidades" da Igreja que atuam no espaço diocesano, promovendo a sua animação e sensibilizando para um trabalho que é tão mais urgente, quanto a exigência dos tempos que estamos a atravessar.

Que cada paróquia possa partilhar um pouco do que tem.
Que o amor de Deus, derramado sobre nós, a todos se manifeste na partilha solidária.

Lamego, 27 de fevereiro de 2012
O Presidente da Direção,

Pe. Adriano Monteiro Cardoso.

Não deixe de ler também a Nota Pastoral para o Dia Cáritas 2012

Agência Ecclesia: II Domingo da Quaresma

sexta-feira, 2 de março de 2012

RONCHI: os Beijos não dados :: Tu és a Beleza

ERMES RONCHI, Os Beijos não dados. Tu és a Beleza. A amizade é a mais importante viagem. Paulinas 2012. 


       Sempre que aqui trazemos a sugestão de uma leitura é porque ela é marcante para nós, e porque a temos como muito útil e agradável para quem vier a seguir esta indicação.
       Este é mais um daqueles livros que se lê de uma assentada, escorreito, ao correr da pena, de fácil compreensão, acessível a todos, simples, de uma simplicidade bela, como sugere o título do autor.
       O livro das Paulinas resulta de dois textos:
  • "Os Beijos não dados" - que fala da amizade e como ela é essencial/vital à existência humana. Sem amizade, o paraíso nunca seria possível. Adão está só, mesmo que rodeado por milhares de seres vivos, apesar de sentir constante a presença de Deus, mas sente-se só, não encontra um espelho, outro igual, alguém em quem se reveja, se confronto, alguém mais igual, que o ajude a identificar-se no meio da natureza. A amizade é crucial para uma existência feliz.
  • "Tu és a Beleza" - um pequeno tratado sobre a beleza, o assombro, a arte, o amor, Deus, o mundo, a natureza. A beleza é o pedacinho de Deus que nos habita e que existe no mundo criado. Deus deixou pedaços de Si e do Seu amor em nós e na natureza. Extrair beleza de tudo, é deixar-se habitar por Deus. Amar, viver, criar, deixar-se surpreender pelas pequenas e grandes coisas. Aquele que não se assombra, padece de cinismo, nada há que possam alegrá-lo, fazê-lo feliz, nada há de novo debaixo do sol.
       Uma mão cheia de páginas belas, criativas, envolventes.
       A leitura de um bom livro pode ajudar-nos a encarar a vida de forma mais positiva e a pensar a nossa própria existência. Uma revista, um jornal, um filme, um programa de televisão, um noticiário sobre o mal que grassa no mundo pode enfadar-nos, tornar-nos mais depressivos, não nos obriga a refletir, vemos, entra-nos pelos olhos, fixa-se no cérebro, como as luzes psicadélicas que não nos largam mesmo depois de há muito estarmos em ambiente mais tranquilo.
       Quer ler. Não gosta de ler. Então esta é uma boa leitura. Simples. Breve. Agradável.

A fé de Jesus Cristo e a nossa fé...

       1. Jesus teve fé?
       Não é fácil aceitar que Jesus precisasse de ter fé, principalmente para os que pensam que Jesus sabia tudo, como os bem-aventurados. A resposta a esta pergunta leva-nos não só a um conhecimento mais profundo de Jesus, como nos ajuda a descobrir o valor da nossa própria fé.
       Em Lucas (Lc 2,52) diz-se concretamente que Jesus “ia crescendo em estatura, sabedoria e graça diante Deus e dos homens”. Assumiu todas as consequências da sua encarnação tais como a lei e a maturidade humana e as consequências do nosso pecado, como a ignorância e as tentações. Em tudo igual a nós, menos o pecado. Viveu uma humanidade muito mais profunda do que qualquer um de nós, e, na sua humanidade, encontrou no mais íntimo de Si mesmo o próprio Deus. Jesus sabe-se unido ao Pai com uma intimidade total e desconhecida para qualquer de nós.
       Apesar do Novo Testamento não falar expressamente da fé de Jesus, não há dúvida de que Se lhe atribui uma atitude de fé. Jesus é o autêntico crente em Deus, que promove entre os homens uma nova fé. Ele percorreu o nosso caminho de fé como modelo e percursor e fê-lo como nós no obscuro da terra e a partir da terra. Foi aí, que praticou a esperança e a obediência no meio de contradições, súplicas e lágrimas, superadas e transformadas em Amor. É o homem total porque foi o totalmente crente. Jesus é o primeiro dos crentes o “pioneiro” e nós, temos de percorrer o mesmo caminho com a mesma atitude.

       2. Que significa ter fé?
       Para São João a fé é uma entrega total e confiada na pessoa de Jesus. Segundo São Paulo, a fé está intimamente ligada à atitude de obediência (Rm 6,16-17;15,18) e à confiança (Rm 6,8; 2Cor 4,18; 1Tes 4,14). Na Carta aos Hebreus (11), a fé é a certeza de uma realidade que não se vê, a qual vai ligada à firme confiança na promessa e obediência fiel do homem a Deus. Esta atitude fundamental, que na Bíblia se chama fé, é, certamente, a atitude que define o mais íntimo e típico de Jesus. Ele entrega-se incondicionalmente ao Pai e aceita os seus planos em docilidade, confiança e abandono, mesmo nos momentos mais obscuros. Deste modo Jesus é o criador e consumador da nossa fé. Jesus fundamenta o poder de fazer milagres na fé que o anima “tudo é possível para aquele que tem fé” (Mc 9, 19.22-23). A força com que Jesus atua é a força de Deus.

       3. A fé cristã
       Para nós cristãos, crer em Jesus é fundamentalmente crer no que Ele acreditou e esperar a libertação que Ele esperou e alcançou. A fé de Jesus confronta o homem com a realidade de “Deus” em Quem acreditou e com os deuses oficiais, aos quais se opôs tenazmente. Pela sua humanidade Jesus é o caminho para levar os homens a fiarem-se de Deus, como Ele Se fiou e a ser de Deus como Ele foi.
       A fé de qualquer pessoa, como a de Jesus, tem que ser realizada na confiança e abandono nas mãos de Deus, muitas vezes, no escuro e na solidão da cruz. Crer é o mesmo que aceitar Jesus, mas não de qualquer maneira, mas precisamente em atitude crente no meio da dor.
       Diz-nos a Carta aos Hebreus (12,1-2): “corramos com perseverança a prova que nos é proposta, tendo os olhos postos em Jesus, autor e consumador da fé”. Neste texto, Jesus é apresentado como modelo perfeito dos crentes, aquele que levou a fé à plenitude da sua perfeição, experimentando-a na sua própria vida, numa situação humanamente muito dura, ao ter de escolher entre o gozo e a cruz, passando por cima das ofensas e desprezos. Jesus é, o modelo perfeito de fé perseverante.
       São Paulo considera Cristo como o primeiro ressuscitado, o irmão mais velho na glória, que viveu já como ressuscitado na história, por ter vivido plenamente a fé.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O que quer dizer Quaresma

       A palavra Quaresma vem do latim e quer dizer 40.° dia (quadragésimo dia) antes da Páscoa. É tempo de preparação para a celebração anual do mistério pascal. Tem a duração de quarenta dias, sem contar os domingos, nos quais não se faz penitência. Começa na quarta-feira de cinzas e vai até à manhã de quinta-feira santa, com a celebração da bênção dos santos óleos.
       O número quarenta tem, na Bíblia, uma grande força simbólica: quarenta anos transcorridos pelo povo no deserto; quarenta dias em que Moisés e Elias se prepararam para encontrar-se com Deus no monte Horeb; quarenta dias e quarenta noites, a duração do dilúvio; por quarenta dias Jonas pregou a penitência aos habitantes de Nínive; o próprio Jesus passou quarenta dias no deserto, lutando contra as tentações e preparando-se para a missão. Quarenta indica tempo de caminhada, purificação, renovação espiritual.
       Com a Quaresma, inicia-se o ciclo Pascal cujo ponto mais alto é o Tríduo Pascal (sexta-feira santa, sábado santo e domingo da ressurreição), e se prolonga até a solenidade de Pentecostes.
       São seis domingos da Quaresma. O sexto, no qual se inicia a Semana Santa, chama-se Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.
       Que possamos fazer uma caminhada espiritual de jejum, oração e conversão para vivermos melhor o mistério de Jesus.

Ofélia Santos, in Boletim Voz Jovem, fevereiro 2012